Homilia de D. António Couto nas Ordenações Diaconais – 20/11/2016

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A ORDEM NOVA DO AMOR

  1. Amados irmãos e irmãs, a nossa Diocese de Lamego vive, neste dia 20 de novembro de 2016, um excesso de celebrações, um excesso de celebração, um condensado de júbilo, que começo por recordar: a) celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo; b) celebramos o Aniversário da Dedicação da nossa Igreja Catedral; c) celebramos a Ordenação de três Diáconos, o Ângelo Fernando, o Diogo André e o Luís Rafael; d) celebramos o Encerramento do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia.
  1. A Solenidade de Nosso Jesus Cristo, Rei do Universo, traz-nos o domínio novo do Filho do Homem que nos ama, o domínio do Amor, que é Primeiro e Último (cf. Apocalipse 1,8). É Primeiro e será ainda Último, fazendo de tudo o resto «segundo» e «penúltimo». Na verdade, entre o Primeiro e o Último, que é o domínio do modo do Amor, instala-se o segundo e o penúltimo, que é o domínio do modo velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem, que é o modo do Amor, é de sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem, como o modo do Amor, não começou, portanto. O que começou foi o mal, que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania, mesquinhez, e prepotência!

  1. Entenda-se bem que o Amor tem de vencer sem combater. Porque, se combatesse, teria de usar os nossos métodos violentos, e apenas aumentaria a violência. É assim que Jesus atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história, entregando-se por Amor à nossa mentira, malvadez e violência, abraçando-as, e, portanto, dissolvendo-as e absorvendo-as, e é só assim que as absolve, que nos absolve. É assim que o Amor Reina, Salva, Justifica, Perdoa e Recria. Os Chefes dos Judeus, os Soldados e Pilatos representam os impérios envelhecidos, podres e caducos da nossa violência, insensatez e estupidez. O Reino do Filho do Homem, de Jesus, não pode, na verdade, ser daqui (João 18,33-37). Se fosse daqui, apenas aumentaria a espiral da mentira, da malvadez e da violência. Vem do Alto, vem de Deus, e é de um Amor novo e subversivo que se trata.
  1. Vindo do Alto e de Deus, não é, todavia, de fora e de cima que nos salva. Desce ao nosso mundo, ao nosso chão, faz-se Homem como nós, caminha connosco, no meio de nós, que o mesmo é dizer, no meio da nossa mentira, malvadez e violência. Na verdade, toda esta porcaria tem de ser lavada, curada e salva pelo Amor. Os antigos Padres da Igreja sabiam bem e repetiam que «só é salvo o que é assumido». Aí está então a página assombrosa da Escritura que diz que «Eram conduzidos também com Ele outros dois malfeitores para serem executados» (Lucas 23,32). Sim, o texto diz, com espantosa precisão teológica, «outros dois malfeitores». Ao dizer «outros dois malfeitores», o texto está a dizer que Jesus, o Justo, é também um malfeitor! Aí está o Livro da Escritura a abrir-se perante os nossos olhos atónitos! O quarto Canto do Servo de YHWH, de Isaías, já dizia que o Servo Justo «Foi contado entre os malfeitores» (Isaías 53,12). Sim, Ele é um de nós! Não passa ao nosso lado ou por cima de nós, mas desce ao nosso chão. Só assim nos pode abraçar, absorver os nossos males, e salvar-nos, sem se salvar a si mesmo, como gritam, zombando, os sarcásticos interrogadores da Cruz (cf. Lucas 23,35.37.39).
  1. Queridos Eleitos para a Ordem dos Diáconos. Bem sabeis que o vosso modelo é este Senhor, que é o Amor em pessoa, que veio para o meio de nós, para nos servir e nos salvar. Bem sabeis também, em consequência, que a «vossa missão é ajudar o Bispo e o seu presbitério no serviço da Palavra, do Altar e da Caridade» (Pontifical Romano, Ordenação dos Diáconos, n.º 199), e que o vosso distintivo é o Evangelho de Cristo que hoje ides solenemente receber, e que tendes a missão de proclamar, acreditar, ensinar e viver (Pontifical Romano, Ordenação dos Diáconos, n.º 210). Recordo-vos ainda, caríssimos Eleitos, que o anúncio do Evangelho é «a primeira caridade» para o mundo (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium [2013], n.º 199; Exortação Apostólica Novo millennio ineunte [2001], n.º 50), e que também nunca deveis esquecer que só «a caridade das obras garante uma força inequívoca à caridade das palavras» (Novo millennio ineunte, n.º 50).
  1. Em tudo o que fizerdes, imitai o único Senhor da vossa vida, Jesus Cristo, mas imitai também aquele Filipe, que o Livro dos Atos dos Apóstolos 6,1-6 apresenta como um dos Sete, a quem foram impostas as mãos Apostólicas para «servir», e que aparece depois, no Capítulo VIII, a evangelizar a Samaria e o eunuco etíope. Significativamente, Filipe nunca recebe o título de «diácono» (diákonos). Assenta-lhe melhor o verbo «servir» (diakoneîn). O único título que que lhe é dado é o título belo de «o Evangelista» (ho euaggelistês) (Atos dos Apóstolos 21,8). Partindo da exortação do Apóstolo São Paulo ao seu discípulo Timóteo, também eu vos exorto hoje a vós, caríssimos Eleitos: «Fazei o trabalho de um Evangelista!» (cf. 2 Timóteo 4,5). Ponde a vossa vida em sintonia com o lema da nossa Diocese para este Ano Pastoral: «Ide por todo o mundo, e anunciai o Evangelho a toda a criatura».
  1. Próprio do anúncio do Evangelho é a leveza, a beleza e a dedicação total. Só assim, caríssimos Eleitos, caríssimos sacerdotes e caríssimos fiéis leigos, irmãos e irmãs, estaremos em sintonia com o Evangelho e avivaremos a Dedicação da nossa Igreja Catedral. Dedicação total. Não vos posso pedir menos. Também não vos posso pedir mais. A todos vós: Eleitos, sacerdotes, fiéis leigos.
  1. Lá mais para o final da nossa Celebração, procederemos ao Encerramento da Porta Santa da Misericórdia, que foi aberta no dia 13 de dezembro, 3.º Domingo do Advento do ano passado de 2015. No final da Festa do «Dia do Perdão» (yôm kippûr), procedia-se à cerimónia do «fecho das portas» do Templo, mais tarde, da Sinagoga, para significar simbolicamente o fecho das portas do céu. Não para dar a entender que se fechava o acesso à misericórdia, mas para fazer passar a ideia da urgência da conversão. Fecharemos, pois, a Porta Santa da Misericórdia desta Igreja Catedral, mas não fechamos a Misericórdia do Céu. Precisaremos sempre dela para viver sobre a terra. Na língua hebraica, «porta» diz-se petah, que recebe o seu sentido do verbo patah, que significa «abrir», como para nos dizer que as portas são para estar abertas! Assim jorrará sempre o Perdão e a Misericórdia do lado aberto do Senhor desta Igreja Catedral e Senhor Nosso, que está no meio de nós, a quem devemos sempre acorrer, com quem devemos sempre contar.
  1. Vem, Senhor Jesus! Ilumina com a tua Luz nova as trevas, as pregas e as pedras da calçada do nosso coração empedernido. Reina sobre nós, Salva-nos, Justifica-nos, Perdoa-nos, Recria-nos. Faz-nos outra vez à tua Imagem. Assiste sempre com o teu Amor novo estes teus filhos hoje, aqui, em tão grande número, unidos e reunidos em Festa. E envia-nos por toda a parte a anunciar o Evangelho do Bem e do Amor. Amen.

Lamego, 20 de novembro de 2016, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

+ António, vosso bispo e irmão

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