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Archive for the ‘Igreja’ Category

Editorial Voz de Lamego: aos pés de Nossa Senhora

@Hermínio Lopes / @ Voz de Lamego

A edição desta semana do nosso jornal diocesano assinala-se pela Festa e Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, fixada na Natividade de Maria.

O nascimento de um bebé, na cultura semita como em muitas outras culturas, é uma bênção para a família, antes de mais, e para a povoação. Se atendermos aos Censos 2021 e para a percentagem de natalidade talvez percebamos o quanto estamos a precisar que esta aumente exponencialmente, pelo menos na Europa, muito em Portugal e, por maioria de razão, no interior Norte. A diocese de Lamego, e as 223 paróquias que a constituem, tem vindo a juntar ao envelhecimento populacional a desertificação, além da emigração que continua também em alta. A diminuição de pessoas na maioria das paróquias levava-nos a pensar que saíam das aldeias para as vilas e cidades, mas nos últimos anos também as sedes dos concelhos têm vindo a perder residentes.

A comemoração litúrgica dos santos está fixada, habitualmente, no dia da morte, o “dies natalis”, nascimento para a eternidade. Mas como os dias do ano se vão preenchendo, alguns têm o dia da comemoração nos dias próximos ao da morte ou a assinalar algum momento importante das suas vidas, a conversão ou o início de uma missão. Alguns santos Papas são comemorados no dia em que iniciaram o pontificado. De Jesus e de Nossa Senhora assinalam-se diversas solenidades, festas, comemorações, mais universais ou mais nacionais, mais regionais ou mais locais. De referir que também de São João Batista se celebra o nascimento (24 de junho) e o martírio (29 de agosto).

A maioria das pessoas comemora o aniversário natalício, mas também outras datas festivas. O Papa Francisco tem insistido para que se comemore o Batismo, dia em que nos tornamos novas criaturas pela água e pelo Espírito.

O aniversário é um instante, mas pode ser oportunidade para agradecer a vida, para refletir sobre o caminho percorrido, para avaliar a direção em que se vive. No caso dos santos, é uma belíssima ocasião para confrontarmos a vivência da nossa fé e a nossa configuração a Jesus Cristo. Os santos, amigos de Jesus, fazem-nos sentir mais próximos d’Ele e deixam ver que é possível viver a fé em situações díspares e em circunstâncias diversas. O padroeiro/patrono de uma paróquia, de uma Igreja ou de uma profissão, de uma aldeia, de uma cidade ou de um país obriga-nos, no mínimo, a pensar as razões para ter sido escolhido um e não outro. Na dinâmica cristã, não apenas a raiz história e a tradição, mas aquilo que, hoje, aqui e agora, nos diz esta festa, este santo. Vejamos então o convite que nos faz Maria na celebração do Seu nascimento e na evocação de Senhora dos Remédios.

O Santuário de Nossa Senhora está situado sobre a cidade de Lamego, no monte de Santo Estêvão, com um escadório que nos traz ao chão (propriamente dito) da cidade ou desta nos faz subir, degrau a degrau, até ao cimo, ao lugar em que se venera a Mãe de Deus e nossa Mãe, para Lhe pedirmos auxílio e proteção, para que seja remédio para os nossos achaques, sejam eles corporais ou espirituais.

Desde o início do cristianismo que os discípulos de Jesus, os cristãos, souberam acolher Maria de uma forma muito carinhosa, pois é esse também o mandato de Jesus: eis aí a Tua Mãe… A partir daquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa. Cada discípulo. Levamo-l’A para a nossa casa, para a nossa vida, colocamo-nos, como a cidade de Lamego diante do Santuário, aos Seus pés, para escutar a Sua oração, para rezarmos com Ela, para nos deixarmos contagiar por Ela, a cheia de Graça, para com Ela aprendermos a gerar Jesus, a amar e anunciar o filho de Deus ao mundo inteiro, comunicando alegria e apressando-nos a levá-l’O a todos, pela voz e pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/41, n.º 4623, 8 de setembro de 2021

Editorial: Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo

“Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). Em resposta ao chamamento divino, Maria apresenta-se pronta a servir, a esvaziar-se de si para se encher de Deus.

Ninguém é neutro ou imparcial. Na linguagem, na biologia, na psicologia, há tendência de excluir palavras que signifiquem opção, escolha, diferença, optando pelo neutro, pelo insosso, pelo indiferente e indistinto, colocando tudo no mesmo patamar, tudo relativizando. O curioso é que esta pretensa neutralidade irrompe (sobretudo) de grupos, movimentos, associações ideologicamente extremistas, excludentes de outras opiniões, à procura de provocar ruturas. A tolerância não tem a ver com indiferença, mas com aceitação do outro e de respeito pelas suas convicções.

Um dia destes ouviremos alguém a dizer que “de passagem” ouviu estas palavras de Maria e a Sua escolha e dirá que não se compreende como ainda são proclamadas na Eucaristia!

“As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor… como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos”.

No 21.º Domingo do Tempo Comum (ano B), escutámos um texto da missiva de São Paulo aos Efésios (5, 21-32). Não damos a mesma atenção a todas as leituras, até porque já as conhecemos! A Palavra de Deus deve ser escutada e não apenas ouvida. Daí a recomendação, sempre urgente, da formação cristã. Por outro lado, o desafio a que as leituras de Domingo se leiam previamente, durante a semana, e algum comentário que ajude a perceber o contexto e ajude a visualizar melhor a forma de viver a Palavra de Deus na atualidade.

Este pedaço de texto foi partilhado e comentado como escandaloso, advogando a distração dos cristãos ou a suposta perpetuação da discriminação das mulheres em relação aos maridos. Atente-se: a leitura começava assim: “Irmãos: Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. É uma mensagem firme e inequívoca que a todos implica, o cristão não pode senão amar ao jeito de Jesus. O apóstolo volta-se então para as esposas. Obviamente que o texto tem o seu contexto e o autor sagrado, ainda que inspirado por Deus, inserido na comunidade crente que reflete, acolhe e amadurece a Palavra transmitida e colocada por escrito, não é um robot que reproduz um ditado, mas um ser humano com um vocabulário específico e sujeito às coordenadas culturais e religiosas. Os textos de Paulo não são iguais aos de Pedro ou de Tiago.

A leitura continua. “Maridos: amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela”. Há uma ligação, um mistério, que une Cristo e a Igreja! A Igreja vive, serve e testemunha Jesus Cristo que, primeiramente, amou e Se entregou por ela.

O essencial é amar ao jeito do Mestre gastando a própria vida a favor dos demais. Cristo amou e entregou-Se pela Igreja. É o modelo do amor para os casais, mas igualmente para toda a Igreja, para cada batizado. Submetei-vos uns aos outros, colocai o outro em primeiro lugar, servi-o e amai-o, em Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por nós. A “submissão” entende-se, habitualmente, como subjugação ao outro, situação de dependência e de escravidão, e até de humilhação desumana. Na lógica do Evangelho, contudo, prevalece a submissão por amor, voluntária, como escolha. A Vida, diz Jesus, ninguém ma tira, Sou Eu que a ofereço. Ele que era de condição divina, não se valeu da Sua igualdade com Deus, mas humilhou-Se a Si mesmo e tornou-Se obediente até à morte. Não há maior submissão do que esta. Sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, despojado de todo o poder e majestade, revestido somente de amor, de compaixão e de ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/40, n.º 4622, 1 de setembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Atrás de quem corremos?

Num dos últimos números da revista “Audácia” encontrei uma história narrada pelos Padres do Deserto e ponto de partida para Susana Vilas Boas falar de discernimento vocacional.

Comecemos pela história:

“Um homem passeia-se com o jovem filho levando o seu cão de caça. A um dado momento, o cão avista um coelho branco no meio do bosque. Como está treinado – e é impulso natural dos cães – o cão começa a correr atrás do coelho, enquanto ladra freneticamente para dar o alerta da sua perseguição. No mesmo bosque – e vindos da mesma aldeia – outros cães, ao ouvirem o primeiro ladrar, começam a ladrar e a correr como ele. Após alguns minutos de corrida, desencorajados e cansados, os cães vão abandonando a perseguição e só o primeiro permanece atrás do coelho até o conseguir apanhar. Chegados a este ponto, o jovem rapaz – não habituado às andanças da caça – pergunta ao pai: «Paizinho, porque é que todos abandonaram a perseguição menos o nosso cão?» O pai respondeu-lhe: «Ora aqui está uma grande lição de vida: os outros cães corriam e ladravam por verem outros cães a correr e a ladrar. Com o nosso cão era diferente. Ele sabia a razão pela qual estava a correr e a ladrar – ele viu o coelho! Na nossa vida acontece o mesmo, se corremos por ver correr, a nenhum lado chegamos. Mas, se “virmos o coelho” e pusermos pés ao caminho, será duro, mas nada nos fará desistir sem alcançar os nossos objetivos».

Como cristãos, tem-no-lo dito o Papa Francisco recorrentemente, não podemos ser cópias, que vão atrás das últimas modas, seguem os “influencers” das redes sociais, vivendo uma vida maquilhada de rótulos, maiorias, opinião geral, que não nos realiza e em que nada nos diferencia dos demais. “Maria vai com as outras!” O cristão tem de ser original. Esta originalidade remete-nos, em primeiro lugar, à origem, a Deus, a Jesus Cristo. Como seres humanos somos também seres miméticos; desde crianças aprendemos a imitar, crescemos e amadurecemos olhando, vendo e depois fazendo. Mesmo que quiséssemos, não nos criamos / não nos inventamos a nós mesmos. E não somos ilhas isoladas! Rodeados de familiares, amigos e colegas crescemos conjuntamente, testamos os limites e as fronteiras. A educação também passa por aqui, por apresentar referências, balizas, orientação, valores! A criança não é um baldio que se deixe ao deus-dará, mas dão-se-lhe as ferramentas para discernir, para saber o que é bem e mal, responsabilizando-a progressivamente pelas suas ações, mas não a substituindo. Tarefa difícil, mas nobre.

Desafia-nos São Paulo: sede meus imitadores como eu sou imitador de Cristo. O paradigma continua a ser Jesus Cristo, mas pessoas próximas e concretas podem ajudar-nos a perceber o que nos sintoniza da nossa origem e o que desvirtua a nossa identidade cristã.

Uns séculos depois, São Paulo VI dir-nos-á: «O homem contemporâneo escuta com maior boa vontade as testemunhas do que os mestres ou se escuta os mestres é porque são testemunhas» (EN 19), desafiando-nos a viver de tal forma que os outros possam ver em nós o Evangelho de Jesus, não apenas pelo que dizemos, mas sobretudo, e antes de mais, pelo que somos, pelo que fazemos.

A cada momento teremos que discernir as nossas escolhas e caminhos. Cabe-nos verificar se estamos a “correr” por Cristo ou àqueles que nos rodeiam. É uma tarefa essencial, pois só a intimidade com Cristo nos faz prevalecer na fé e persistir na configuração ao Seu Evangelho, encarnado no tempo e na história, experimentado em Igreja. Chegámos a Jesus através da família, da Igreja, no ambiente em que nascemos e crescemos, mas só o encontro pessoal com Ele nos motiva a permanecer e a inundarmos a nossa vida com a Sua ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/39, n.º 4621, 25 de agosto de 2021

Entrevista com o Pároco de Penude, Pe. Adriano Cardoso

A Voz de Lamego foi até Penude para conhecer o projeto presidido pelo Padre Adriano, como pároco, à frente de uma das paróquias maiores da diocese, de um centro social paroquial que começou a funcionar há 10 anos (27 de julho de 2011), e a criação de uma vacaria. O Padre Adriano Cardoso contou-nos como tudo surgiu e a importância que dá à comunidade; cada passo dado é a pensar na mesma.

O que o levou a seguir a vocação?

O ambiente familiar, a forma como fui educado levou a que seguisse a vocação de padre. Comecei com uma longa etapa em Castro Daire com uma grande equipa, um projeto que me acrescentou muito, mas, ao fim de 25 anos, optei por mudar de paróquia, procurando novos desafios.

Penude era uma terra que tinha uma certa sedução, e recuando a 1996, tinha muita população e bons padres. Um grande padre que a população não esquece é o Sr. Padre Borges, depois disso, de 1978 até 1996, esteve cá o Sr. Padre Germano, um padre mais doce, mais suave. A minha vontade de me mudar para Penude surgiu muito pela ideia que tinha da terra, uma paróquia com fortes raízes religiosas, com uma prática cristã acentuada. Quando aqui cheguei o objetivo era inovar mentalidades, transformar e mexer com a comunidade.

Passados 25 anos, nota-se essa diferença?

Acho que sim, no entanto não consegui alcançar todos os objetivos que queria. A emigração aumentou bastante, os jovens, a maioria do sexo masculino, opta muito por sair do país e, mais recentemente, também os do sexo feminino, diminuindo assim a população residente.

De que modo a pandemia condicionou a paróquia de Penude?

A visão que temos da paróquia não é necessariamente a mesma. A dispensa da missa dominical é um dos exemplos. Com estas dificuldades também conseguimos tirar coisas boas como a notoriedade da fidelidade de muitos. Temos vindo a assistir a grandes mudanças, as paróquias estão totalmente diferentes na relação com a religião e com o padre.

Para lidar com as pessoas temos de respeitar o espaço de cada um, a liberdade, a construção, a opinião e a participação. Embora, hoje, se fale muito da igreja com uma base de construção laical, como esperamos todos, acho que ainda estamos longe porque, de algum modo, as pessoas ainda não falam com o à vontade que deviam nas reuniões para casamentos e batizados.

Tem vindo a notar, de certa forma, um afastamento da comunidade?

Eu acho que não, a aderência é praticamente a mesma, no entanto estes dois anos serviram para manifestar a autenticidade de muita outra gente que vai ultrapassando tudo, não abdicando da prática religiosa.

Uma novidade importante disto tudo é que as pessoas passaram de uma prática religiosa por legalismo, por obrigação, para a prática religiosa brotar como uma necessidade interior.

Há 25 anos, quando chegou a Penude, a prática religiosa passava de geração em geração, os avós passavam aos pais e netos e os pais faziam questão de manter esses costumes no seio familiar. Sentem que isso, hoje, ainda acontece?

Os avós, sem dúvida. Agora, a faixa etária dos pais, é a que mais emigra e dos mais novos, poucos são os que vão ficar cá na terra. O aspeto religioso tem de ter uma fibra interior, há uma volta que tem de se dar.

Estamos a chegar a uma atitude de maior verdade daquilo que somos. A religião já não é tão passada por gerações, vem do interior de cada um.

Temos de acreditar na verdade da igreja e Jesus Cristo. A felicidade das pessoas está, antes de mais nada, no conseguirem ser aquilo que desejam interiormente e não propriamente em ser a capa social e obrigatoriedade, há outro espaço de realização e identificação.

Tem outras ocupações para além da igreja?

Já tive, já fui professor. Procurei sempre ter uma autonomia de vida em relação à comunidade, isto é, ter sempre uma profissão de onde vem a estabilidade do meu viver, do meu presente e também garantir o futuro com a minha reforma. Vivi sempre de uma profissão paralela.

Como surgiu a ideia da vacaria? Que contratempos e vantagens dá à comunidade?

Candidatámo-nos a um programa a nível nacional. Este projeto tinha um valor de um milhão e quinhentos mil euros, mas só nos financiavam seiscentos e cinquenta mil. Para conseguir seguir com o projeto tínhamos de arranjar forma de arrecadar o resto do dinheiro.

Os proprietários destes terrenos, terrenos baldios, tinham acabado de fazer um contrato com as eólicas, contrato de aluguer destes mesmos terrenos em que, durante trinta anos, iriam receber umas rendas que corresponderiam a, mais ou menos, um milhão e duzentos mil euros.

Com isto, eu reuni a comunidade, apresentei a proposta aos donos dos terrenos, apresentei o projeto, ao que, a comunidade votou favoravelmente. Assim nasceu este projeto em prol da comunidade.

O objetivo aqui é também retribuir à comunidade o seu gesto, fazendo com que os baldios de Penude ganhem dinâmica e também dar dinheiro, trabalho, desenvolvimento e também limpeza.

Havia a opção de reflorestação e da criação de gado. A reflorestação iria acrescentar pouco a Penude, ao longo de trinta anos não iria acrescentar nada à comunidade, correndo ainda o risco de os incêndios acabarem com todo o projeto e, no caso de correr bem, quem beneficiaria com isso seria o estado. Aqui o objetivo é o bem-estar da comunidade.

Este gado, é gado arouquês. No passado, em Penude, haviam mil ou mais vacas, cada família tinha três ou quatro. Volto a referir, isto é tudo pela comunidade.

Já gastámos mais de um milhão de euros no projeto, estamos ainda a pagar três ordenados anuais, o que resulta em despesas na ordem dos sessenta mil. Com a alimentação do gado e as restantes contas, resulta numa despesa de cento e vinte anuais e nós, por enquanto não atingimos esse valor em receitas.

Tudo começou com quarenta vacas e todos os machos são vendidos, isto quer dizer que, há um crescimento lento, todos os anos aumentamos o número de vacas em vinte ou trinta. Este ano já temos cento e vinte vacas, daqui a dois anos já teremos, eventualmente, cento e cinquenta. Temos licença parta ter duzentas e três, assim que atingirmos esse número, se ainda for eu a presidir o projeto, vou tentar ir para as quatrocentas.

Tudo isto é um processo, com cento e cinquenta vacas vamos conseguir cobrir os gatos anuais e, depois, com o aumentar do número de gado, vamos fazer deste projeto, um projeto rentável.

in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

Editorial VL: GOSTO MAIS, MUITO MAIS DE MARTA

Gosto mais de Pedro. E também gosto de Judas, por ter sido um dos discípulos mais próximos de Jesus, homem de confiança, a quem foi confiada a administração dos parcos bens que iam recebendo para acomodar o estômago e circular entre povoações!

De Judas há de dizer-se muita coisa, mas no final só o juízo de Deus será definitivo. Tinha tudo para ser líder, inteligência e capacidade de gestão, mas perdeu-se a meio e não foi capaz de deixar que a Luz de Jesus destronasse as trevas que o vinham a consumir. Há estudiosos que sustentam que o último gesto de Judas, o suicídio, além dos fusíveis meios fritos, foi uma tentativa de se encontrar mais rapidamente com o Seu único Senhor, Jesus Cristo, no Paraíso.

Gosto muito mais de Pedro, porque é o Padroeiro da minha terra, Penude, onde nasci como cristão, onde comunguei pela primeira vez, onde celebrei a minha “Missa Nova”. Gosto muito de Pedro, não tanto por se tornar a Pedra sobre a qual Jesus constituiu a Sua Igreja, o que é deveras importante, mas pela sua espontaneidade. Esta valeu-lhe algumas reprimendas da parte do Mestre dos Mestres. Pedro tem o coração ao pé da boca, diz o que lhe dá na real gana, não mede o que diz, primeiro diz e só depois é que pensa. Mas é genuíno. Não tem duas caras, a não ser quando Paulo lhe mostra a duplicidade perante cristãos oriundos do judaísmo ou cristãos originários dos gentios! Mas nessa altura já Pedro está temperado pela humildade e pela luz da Páscoa, e reconhece que Paulo clarifica o caminho de Jesus.

Gosto muito de Marta, por alguns dos motivos pelos quais gosto muito de Pedro. Já lá vamos. Primeiro dizer que este “gostar mais” não é tanto uma comparação em relação a Maria ou a Lázaro! É uma família acolhedora, hospitaleira, próxima de Jesus. A casa deles, a família, o coração deles está disponível para Jesus, nas partidas e nos regressos.

No dia 29 de julho celebrávamos a memória litúrgica de Santa Marta. A 2 de fevereiro, deste ano, a Santa Sé decretou que a Igreja passasse a celebrar, nesse dia, os Santos Marta, Maria e Lázaro numa única Memória Litúrgica. Através de Lázaro, Jesus amadurece ou prepara a fé dos Seus discípulos na ressurreição. Com Maria, descobrimos a urgência, a primazia, a necessidade de estarmos aos pés de Jesus, para sintonizarmos o nosso com o Seu coração, para O escutarmos. De algum modo, como o discípulo amado, também Maria ajusta o bater do seu coração ao bater do coração de Jesus. Está tão perto d’Ele, que ouve este compasso com o qual sincroniza a sua vida.

Gosto mais de Marta, porque nela se visualiza uma faceta que o Papa tem acentuado em relação, por exemplo, a Abraão, a faceta de uma oração direta, sem medo, pronta a enfrentar o próprio Deus. Abraão negoceia o “destino” de Sodoma e Gomorra, até à exaustação. Na hora decisiva, a opção é por Deus, a quem confia o seu filho único. E por isso, porque confia em Deus, nele, Deus abençoa as nações da terra inteira. Ou como Jacob que luta com Deus até de madrugada!

Quando Marta se atarefa toda, afronta e enfrenta Jesus: não te importas que minha irmã fique na conversa? Após a morte de Lázaro, quando Jesus se aproxima, Marta corre ao Seu encontro e diz-lhe das boas: se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido! Direta, espontânea, confia em Jesus, revela uma grande fé, mas não deixa de Lhe fazer chegar o seu protesto, a sua oração. E, por isso, hoje gosto mais de Marta, porque me ensina a rezar em todos os momentos, mesmo sem guião!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

Falecimento do P. Acácio Ferreira Soares | 1924-2021

Na celebração dos 60 anos de sacerdote, em celebração presidida por D. Jacinto Botelho, então Bispo de Lamego

O Senhor Deus, Pai de bondade, Senhor do tempo e da história, chamou à Sua morada eterna, o nosso irmãos, Cónego Acácio Ferreira Soares, nascido a 14 de maio de 1924, em São Cristóvão de Nogueira, concelho de Cinfães, frequentou os semanários diocesanos, de Resende e de Lamego, e foi ordenado a 3 de setembro de 1950.

Logo após a ordenação sacerdotal, foi enviado como Pároco para Chavães e Vale de Figueira, no concelho de Tabuaço. Posteriormente, foi nomeado Prefeito e responsável da disciplina no Seminário Maior de Lamego. Foi ainda Diretor da Obra Diocesana das Vocações e Diretor Espiritual.

Em 01 de janeiro de 1969, tomou posse da Paróquia de Cinfães, onde serviu durante 38 anos, até 22 de outubro de 2006, e onde residia presentemente.

O Sr. Bispo, D. António Couto, nosso Bispo, manifesta a sua comunhão aos familiares e amigos, às comunidades que o Cónego Acácio serviu ao longo da sua vida sacerdotal, unindo-se em oração, na esperança na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Esta esperança, faz-nos agradecer a vida, o ministério sacerdotal, certos que, junto de Deus, o P. Acácio falará/rezará por nós.

A celebração das Exéquias será na Igreja Matriz de Cinfães, amanhã, pelas 11h00, indo a sepultar no cemitério local.

Deus lhe dê o descanso dos justos e a nós a sabedoria por comunicarmos vida e bênção.

Editorial Voz de Lamego: Popularidade dos santos

Estamos em plena época dos santos populares. Com o desejo da praia, das férias e do convívio, da descontração e do descanso, ombreiam as festas populares que se iniciam em junho com os afamados “santos populares”. Se são populares, são do povo! O povo identifica-se com eles! Calma! Talvez não se identifique com os santos, mas com as festas e tradições a eles associadas!

Se olharmos para figuras populares, um artista, um cantor, um futebolista, como Cristiano Ronaldo ou Messi, têm seguidores nas redes sociais, aos milhares, ou milhões, e onde se deslocam há centenas ou milhares de fãs que querem ver, tirar uma foto, um selfie, solicitar um autógrafo, pedir a camisola! Quantos pais colocam aos filhos os nomes dos seus heróis/ídolos? Quantas jovens querem ser como Cristiano Ronaldo?

Passemos então à popularidade de Santo António, de São João e de São Pedro!

São João Batista era de facto bastante popular, atraía multidões, batizava centenas de pessoas, conduzia à conversão muitas pessoas, desafiando à não violência, à justiça social e à partilha, ao cumprimento dos mandamentos. A popularidade de São João Batista custou-lhe a vida. Herodes, a pedido da bela filha de Herodíade, mandou cortar-lhe a cabeça. Alguém quer imitar São João Batista? Outra característica de João é a humildade, não das palavras, mas na atitude, apontando para Jesus Cristo. É Ele, é Ele que deve crescer e eu diminuir… nem sou digno de Lhe desatar as correias das sandálias!

E Pedro, aquele apóstolo simples, titubeante e impulsivo que segue Jesus, quereremos imitá-lo? Deixou tudo para seguir Jesus! Se calhar pensou que largava uma vida sacrificada e dura por uma vida mais faustosa e tranquila. Essa foi uma das suas tentações, tal como a de outros discípulos. Quando vê que as coisas estão complicadas, assusta-se e nega Jesus: não tem nada a ver com Ele, não quer ser identificado com Jesus Cristo! E com os outros discípulos, mantém-se à distância de segurança! Depois da ressurreição e das aparições de Jesus, Pedro transfigura-se e torna-se um convicto pregador. Mais tarde será morto por ser cristão. Algum de nós quer seguir as pisadas de Pedro? Não estamos a falar do facto de ter sido o primeiro Papa, mas de ter sido mártir e antes um indisciplinado apóstolo!

E que dizer de Santo António? Sim, é um dos santos bem populares. De família nobre, renunciou a uma vida faustosa para se tornar monge. Depois de ordenado sacerdote dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, escolhe (ou melhor, é escolhido por Deus para) outro caminho, faz-se monge franciscano, assumindo a pobreza dos frades e a ânsia de se tornar mártir missionário em África, mas também aí Deus lhe muda o destino e virá a tornar-se um grande pregador, com centenas de pessoas a ir ao seu encontro para o ouvirem. Por outro lado, passa horas a confessar e realiza, em nome de Deus, muitos milagres. Esta parte dos milagres até que nos dava jeito! Mas o verdadeiro milagre é o da conversão. A fé move montanhas. Deus realiza os milagres através de crentes, cuja fé está amadurecida e fundada na oração e na intimidade com o Senhor. Prontos para sermos como Santo António? Seguros nos bens que temos ou no risco de tudo colocarmos em Deus?

Se fizéssemos uma sondagem sobre popularidade… talvez São João, São Pedro e Santo António não figurassem nas primeiras cem opções! Obviamente que as festas populares são importantes, referidas a estes ou outros santos. É também oportunidade para os conhecermos melhor. Por outro lado, a santidade, como cristãos, está sempre no horizonte. Cabe-nos acolher a santidade de Deus que em Cristo Se manifesta amor e compaixão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/31, n.º 4613, 16 de junho de 2021

Entrevista com Joaquim Paulino Bernardes – Administrador E. Leclerc

Tendo a Voz de Lamego uma matriz cristã, procurámos entrevistar um ou outro empresário que obteve sucesso no espaço territorial da Diocese de Lamego e cujo empreendedorismo lhes permitiu criar vários postos de trabalho, contribuindo para o desenvolvimento da região, mas igualmente com uma componente social, com ligações mais ou menos estreitas à Igreja. Com a colaboração do Pe. José Ferreira, pároco da Sé e Cónego do Cabido, lançamos questões sobre o relacionamento com os funcionários e sobre a função social da riqueza.

Será possível conjugar investimento e compromisso cristão? Ser empresário de sucesso sem sacrificar as pessoas a números e percentagens?

Foram a estas e outras questões que o Sr. Joaquim Bernardes, administrador do hipermercado E. Leclerc de Lamego, respondeu, revisitando também a sua vida, nomeadamente como emigrante e, no regresso a Portugal, as etapas que o levaram a enveredar pelo movimento E. Leclerc, fixando-se em Lamego.

Voz de Lamego – Agradecemos, desde já, a oportunidade em nos conceder uns momentos para conversar connosco. Como é que se tornou aderente do movimento E.Leclerc?

Fui imigrante em França entre a década de 70 e 80 e conheci o E.Leclerc como cliente.

Os supermercados distinguiam-se dos restantes pela defesa constante do poder de compra dos consumidores em todas a áreas de consumo: combustíveis, produtos alimentares, moda, livros, auto, etc… Os preços eram de facto muito mais baratos. Na localidade em que vivia, no distrito de Lyon, reparei que um pequeno comerciante que conhecia pessoalmente e onde também fazia compras, abriu um supermercado E.Leclerc na periferia da cidade e que explicou-me que o fundador do grupo E.Leclerc, o Sr. Edouard Leclerc, autorizava que comerciantes independentes abrissem uma loja com o seu nome desde que vendessem mais barato, trabalhassem em âmbito famíliar (marido e mulher trabalhariam lado a lado) e repartissem os resultados da empresa com todos seus colaboradores.

Quando no início da década de 90 regressei a Portugal, abri um minimercado na cidade do Cartaxo e vi nascer os primeiros grandes supermercados e hipermercados. Conhecendo a missão da marca E.Leclerc em França, estabeleci contactos, e, após muita burocracia e dificuldades que tive que ultrapassar, consegui abrir com a minha esposa o E.Leclerc de Lamego em dezembro de 1996.

Como é que funciona o movimento E.Leclerc?

É um movimento cooperativo em que a empresa familiar, constituída por um casal, é proprietária do seu ponto de venda e são também coproprietários da marca E.Leclerc, tornando-os responsáveis pelo legado do seu fundador, o Sr. Edouard Leclerc. A sua missão, na década de 40 (pós-segunda guerra mundial) era ajudar os Franceses a acederem a produtos alimentares a preço baixo, comprando grandes quantidades de produtos para os vender mais baratos, tornando-se, por isso, este movimento precursor da distribuição moderna. É uma história muito rica de grandes combates sempre a favor dos consumidores e que os leitores podem conhecer em (http://movimento-leclerc.pt/)

Passado tantos anos do início desta cadeia de supermercados E. Leclerc, ainda se mantêm os objetivos que estiveram na génese da sua fundação?

Sem dúvida. Esta missão mantém-se válida e é hoje atualizada do ponto de vista social e dos valores que a norteiam. A titulo de exemplo no E.Leclerc promovemos: um consumo responsável (não vendemos crédito ao consumo); igualdade e ética no local de trabalho; a compra a fornecedores e produtores locais, apoiando assim o tecido económico local; a descentralização das competências e das decisões, beneficiando diretamente a qualificação e o número de empregos gerados por loja em oposição a grupos centralizados; o apoio as iniciativas culturais, sociais e desportivas locais que respondem ás solicitações da população local;

Como foi mudar de terra e fixar-se em Lamego?

Eu e a minha esposa mudamo-nos em 1995 com a convicção, desde o primeiro momento, que seria uma mudança definitiva. E assim foi. Considero-me hoje um Lamecense e em conjunto com a minha família criámos laços, amizades e afinidades que dão sentido à nossa vida e, no meu caso particular, à minha missão pessoal. Descobri gente de fibra e perseverante que muito estimo e respeito, pois acompanharam-nos do ponto de vista pessoal e profissional. Refiro-me também a todos os colaboradores com quem trabalho e com quem já trabalhei.

Como é a sua relação com os colaboradores?

Somos uma equipa familiar e todos conhecem as suas responsabilidades e a sua missão. Dispõem de uma grande autonomia e de um ambiente trabalho saudável podendo falar comigo sobre qualquer questão, sempre que o entenderem.

Esta é uma empresa de gente com “fibra”, em que mais de 30% dos colaboradores têm mais de 20 anos de casa e apenas 2% são contratos a prazo. Tentei sempre fazer do local de trabalho dos meus colaboradores um porto de abrigo, promovendo situações laborais estáveis. Gostaria de enumerar as boas memórias e histórias que guardo com os meus colaboradores ao longo de 25 anos, mas seria necessário escrever um livro. Aproveito a oportunidade para reconhecer publicamente o empenho e o valor de todos os homens e mulheres que comigo vão construindo e consolidado esta casa. A todos quero manifestar a minha gratidão.

Quantos são?

Nas épocas sazonais, de verão e natal, somos mais, mas a média anual são cerca de 130 colaboradores diretos e cerca de 15 indiretos (seguranças, limpeza e reposição externa).

Conhece-os pessoalmente?

É evidente que os conheço. Como é que posso cumprimentá-los e falar com eles se não souber o seu nome? Atualmente, tenho 40 funcionários que trabalham comigo há mais de 20 anos.

Alguns dos colaboradores são mesmo a segunda geração dos que começaram em 1996. Ou seja, trabalham os pais, os filhos e quem sabe, um dia, os netos. Infelizmente, a memória atraiçoai- me algumas vezes, levando a alguma troca de nomes.

Promove algum momento de convívio?

Sim, formais e informais, mas o mais simbólico é a organização anual do jantar de Natal que envolve sempre um número elevado de colaboradores na preparação e planeamento. É uma noite de partilha entre todos, em que distribuímos presentes aos mais jovens e festejamos os valores cristãos desta época.

São também beneficiários dos resultados da empresa?

Em 24 anos de atividade reparti todos anos, parte dos resultados da empresa com os colaboradores. É justo que, se contribuíram para os lucros da empresa, possam também beneficiar de uma gratificação em função do seu empenho e mérito. Os restantes resultados são investidos, localmente, de forma a melhorar continuamente as condições da atividade e desempenho da empresa.

Pensa que o respeito pela ética no trabalho também beneficia economicamente a empresa?

Sem dúvida, que isso é um imperativo que se impõe. Com base nas minhas convicções religiosas e valores pessoais que cultivo, não poderia ter   outra missão que não fosse promover os valores éticos e morais no trabalho, nomeadamente, encorajando um ambiente de trabalho saudável, de respeito mútuo e assente na honestidade. Quando se têm profissionais com um sentido ético no desempenho do seu trabalho, e com valores morais, há menos possibilidade  de furtos, desvios ou corrupção e isso também é importante dentro de uma organização e na sociedade em geral, como sabemos.

Este é um jornal regionalista… De que modo a região tem beneficiado da atividade da empresa?

Julgo que já fui respondendo a esta questão, mas podemos resumir da seguinte forma: emprego de mão de obra mais qualificada nas lojas, fruto de uma gestão mais descentralizada; a promoção de carreiras profissionais a longo prazo da quase totalidade dos seus colaboradores; a partilha dos lucros e dos resultados alcançados há mais de 24 anos; apoiamos e privilegiamos a produção local, permitindo o acesso de pequenos produtores de todas as áreas de produção; a possibilidade de contratar prestadores e empresas locais de serviços e de indústria para as suas necessidades locais, reforçando as sinergias; graças à nossa rede de dimensão europeia, conseguimos propor aos clientes produtos de grandes marcas, mas também os de marca própria, a preços muito baixos. Os nossos clientes reconhecem-no e quem compra sabe que aqui as compras ficam mais baratas. É esta a nossa missão.Posso concluir que as populações locais podem aceder a uma oferta de produtos e serviços que geralmente só estão acessíveis em centros urbanos de maior dimensão. Mas a missão E.Leclerc é precisamente disponibilizar tudo a preços baixos;

De que modo a sua formação cristã o tem influenciado no seu agir empresarial?

Reconheço que, nestas duas décadas a empresa tem apoiado, economicamente, iniciativas de carácter religioso, no âmbito paroquial da cidade, mas também doando géneros alimentares e não só, a inúmeras iniciativas sociais, culturais e religiosas em várias centenas de milhares de euros. Mas neste campo, prefiro que sejam as associações, as instituições da Igreja local, e mesmo os beneficiários diretos a destacar o papel humanitário da empresa. Fi-lo sempre pelas minhas convicções religiosas sem esperar nada em troca. A minha formação espiritual tem ajudado a saber humanizar a empresa e a dar-lhe um sentido de proximidade com os mais necessitados, quando há campanhas humanitárias.

A sua empresa tem contribuído para iniciativas na região?

Sem dúvida. Tentamos sempre que possível, participar em iniciativas várias e ajudar as instituições que prestam assistência à população e na organização de eventos que promovem o concelho e a região.

Embora a ajuda não deva ser interesseira …pode atrair mais clientes?

As empresas devem desenvolver o seu papel social em função das emergências e necessidades sociais da região em que se insere. Como cristão, este é um papel natural feito de forma desinteressada, mas cujo reconhecimento emerge de forma lenta. Tenho o privilégio de perceber ao longo de 25 anos, que contribuímos para as melhorias das condições de muitos concidadãos, clientes, mas também não clientes. Confirmo que em prazos longos e com decisões consistentes as políticas sociais geram reconhecimento.

É possível conjugar lucro, ajudando a fixar famílias?

Claro que sim. Trabalhamos todos no sentido de desenvolver a empresa e o setor do comércio e serviços e, nesse sentido, apoiar o desenvolvimento local. Ao manter e criar emprego, as pessoas têm um rendimento estável que lhes permite fixarem-se no concelho e concelhos limítrofes e manterem um nível económico e social estável, diminuindo a emigração.

Que diria a alguém que queira investir na região?

A realização nesta área não advém do resultado económico direto, sendo, contudo, essencial para a continuidade da atividade se projetar a longo prazo, desenvolvendo sinergias com o tecido económico e social locais.

Como é que lidou com este tempo de pandemia?

Com muita esperança e paciência. Foi um desafio a uma escala global com consequências negativas do ponto de vista social e económico. A nível laboral foi difícil, pois enfrentamos um momento imprevisível e sem precedentes, mas contei sempre com o empenho e a colaboração dos funcionários que se esforçaram muito para mantermos todos os nossos serviços a funcionar com qualidade e segurança. Por outro lado, também verifiquei maior disponibilidade e tempo para um recolhimento e maior convívio com a família.

É possível ser cristão e ser empresário de sucesso? Como conciliar?

Acredito seriamente que sim. É possível ser cristão em toda e qualquer circunstância e em qualquer contexto. É este o desafio de ser cristão no século XXI. Os cargos de maior responsabilidade para com a sociedade são hoje submetidos a enormes pressões de lucros a curto prazo, às vezes sem olhar a meios, mas não devemos ceder naquilo em que acreditamos. É uma questão de coerência e de verdade para quem acredita e orienta a sua vida pela mensagem do Evangelho.

in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Regresso às Igrejas… vazias!

É uma sensação que varre o pensamento de muitos cristãos durante a época dos confinamentos e da suspensão das celebrações comunitárias. O regresso não trouxe mais pessoas. Regressaram algumas. Algumas ainda estão a aguardar por melhores dias. Algumas ficaram satisfeitas por assistir do sofá ou até da cama. Outras perceberam que a Eucaristia dominical afinal nem fazia assim tanta falta: criam-se outras rotinas!

Não há Igrejas vazias! Espiritual, teologicamente falando! Diz-nos Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome Eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). Onde está Jesus está a Igreja. Onde estão dois ou três em comunhão com Deus, Trindade Santíssima, está toda a Igreja, a gloriosa, dos que se encontram na eternidade de Deus, e a peregrina, dos que caminham na história e no tempo. Podemos olhar para o lado e não ver ninguém, mas os bancos das igrejas estão cheios de familiares e amigos que celebram connosco a vida divina.

Tomáš Halík preparou, gravou e divulgou, pela Internet, homilias na ausência de celebrações comunitárias na Paróquia Universitária de São Salvador, na República Checa, durante o todo o período da Páscoa, de quarta-feira de cinzas ao Pentecostes, de 2020. A este conjunto de homilias, em livro, deu o título: “O tempo das Igrejas vazias!”

Este sacerdote viveu na Igreja das profundezas, subjugada pela perseguição comunista, ordenado padre na clandestinidade, a celebrar Missa às escondidas, sozinho, ou acompanhado de uma pessoa ou de um casal. O tempo de igrejas vazias não o terá surpreendido tanto assim, mas foi oportunidade para dar lugar ao silêncio e à oração, à contemplação do mistério e à reflexão sobre o caminho percorrido, pela Igreja, e o caminho a percorrer, com as possibilidades que se abrem à Igreja e aos cristãos.

A pandemia pode dar lugar à desolação ou à pregação apocalíptica. E, pelos vistos, alguns voltaram a pregações medievais, provocando o medo, como se o medo obrigasse as pessoas a regressarem à Igreja.

As Igreja vazias devem preocupar-nos? Sim. Mas são também um desafio a darmos maiores razões da nossa fé, não no anúncio de um deus vingativo, mas na certeza confiante de um Deus misericordioso, que é Pai e Mãe, e que em Jesus Cristo abraça a história e o sofrimento humano, caminhando connosco.

Perante Igrejas cada vez mais vazias, resignação ou a tristeza?

Resignação: torna-se visível o que já vinha sucedendo, não há muito a fazer!

Tristeza: não conseguimos mostrar o bom Deus aos outros. E tantas pessoas que se conhecessem o amor de Deus poderiam ser bem mais felizes! Bento XVI relembrava-nos que a Igreja se expande pela atração, pela alegria com que se vive, se anuncia e se partilha a fé. Teremos de dar razões da nossa fé, em todos os momentos, nas situações favoráveis e adversas. Deus faz-Se presente na oração – rezemos mais; na Palavra proclamada e meditada – sacudamos o pó das nossas Bíblias; na vivência da Eucaristia, como remédio e alento para o caminho – não desperdicemos este alimento; no cuidado do irmão, no serviço aos mais frágeis – o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. As Igrejas vazias são oportunidade para sermos Igreja onde quer que nos encontremos, e em tudo o que fizermos. A Eucaristia, vivida com autenticidade, é o primeiro passo para a caridade.

Em 1992, o cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, profetizava o regresso à Igreja de minorias. Como no cristianismo primitivo, a Igreja, a partir de 12 apóstolos, pequeno rebanho, mas fermento que espalha com a alegria o Evangelho, sem medos, na certeza confiante de que é Jesus quem vai no leme!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/24, n.º 4606, 27 de abril de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Em menos de nada estaremos em maio!

E poderíamos estar em junho ou em dezembro. O importante é mesmo hoje, AGORA, viver, sentir, amar, servir, cuidar. Não amanhã, mas hoje. Não daqui a pouco, mas agora. O amanhã pertence a Deus. Ele deu-nos cada instante para darmos sentido à nossa vida e cuidarmos para que o mundo seja terra fértil, habitável, seja casa onde há espaço para todos, onde todos se sintam em segurança, amados, se sintam filhos, se assumam e tratem como irmãos.

Podemos esperar para depois? Claro que podemos! Mas se não chegarmos a maio? Se não chegarmos ao “depois”? Quando dermos conta, estaremos em dezembro!

No final de “Os Maias” (1888), obra prima de Eça de Queirós, num último fôlego, Carlos e João da Ega, esboçam uma réstia de esperança, misturada com um trago de resignação:

“– Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. / – Ainda o apanhamos!

Os dois amigos lançaram o passo… – Ainda o apanhamos! / – Ainda o apanhamos!”.

O cristão é enformado pela alegria e pela esperança! A alegria de se saber amado e a esperança de saber que a vida é garantida pelo amor de Deus. Jesus desafia-nos a viver hoje. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado» (Mt 6, 34). Conhecemos a expressão latina “Carpe Diem”, que desafia a viver o presente com uma dose de irreverência e descontração, temperada com a responsabilidade pelos outros. Não é um propósito egoísta de quem esgota a vida, destruindo-se e aos outros, mas de quem gasta a vida por amor.

Não esperemos que o amanhã chegue! Já é dia, é Páscoa. Este é o tempo que Deus coloca nas nossas mãos para vivermos.

Vale a pena recuperar, e meditar, no desafio de São João XXIII:

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspeto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa ação e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exatamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: “Quero ser bom, hoje, sempre, com todos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/23, n.º 4605, 20 de abril de 2021