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Archive for the ‘Igreja’ Category

Semente de esperança!…

Mensagem do Departamento Nacional da Pastoral Familiar por ocasião da Festa da Sagrada Família, 2020

Ao observar e contemplar a Sagrada Família de Nazaré, esta aparece como testemunho, exemplo e inspiração para todas as famílias, sobretudo para as famílias cristãs. 

 Em tempo de pandemia, tempo de incertezas e sofrimentos, a Família de

Nazaré é fonte de conforto e de coragem, sobrepondo-se aos medos que nos paralisam e nos impedem de acolhermos a novidade do Deus que mergulha na história da humanidade. Ela manifesta uma renovada esperança e convida-nos a sermos portadores da Boa Nova que veio até

nós pela encarnação do Verbo de Deus. 

A Sagrada Família de Nazaré, é escola de virtudes, vivendo a fidelidade a

Deus no seu quotidiano mostram a bondade de coração, a esperança sempre nova, a alegria de se sentirem amados, a responsabilidade da sua missão, o sentido e a prática da justiça e da paz. As virtudes da Sagrada Família fazem-nos olhar com confiança e expectativa de que a comunidade humana e cristã se constrói no amor generoso, humilde e simples. Nas nossas lutas e inquietações, nas dificuldades e desalentos a Sagrada família surge como uma oportunidade de graça e de confiança, para percebermos a vida

como uma missão e crescermos em coesão familiar. 

A Sagrada família interpela as nossas famílias de hoje a uma vida de paz, de serviço,

de acolhimento, de entrega, de escuta dos necessitados, de se questionarem perante os desafios diários, de não fugirem às dúvidas que invadem os seus lares. Só à luz da Sagrada Família é possível que a novidade do evangelho inunde o coração das famílias e busquem a beleza do encontro de uns com os outros, de modo que cada membro se sinta participante da construção da “igreja doméstica”. Cada membro da família é um tesouro para os outros, é algo de maravilhoso, é uma riqueza sem medidas, porque todos se amam e fazem da sua vida um dom, ao jeito de Jesus Maria e José. 

Está nas mãos das famílias uma extraordinária missão! Cultivar a paciência e infundir esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Carta a S. José.

Todas as famílias experimentam, com certeza, que não são perfeitas, mas podem aperfeiçoarem-se cada vez mais no amor transformador, o mesmo é dizer, desejarem a santidade. As fraquezas e fragilidades fazem parte da realidade humana, no entanto, o Senhor não nos condena, mas sim acolhe-nos, abraça-nos, ampara-nos, perdoa-nos. A Verdade apresenta-se-nos sempre como o Pai misericordioso da parábola (cf. Lc 15, 1132): vem ao nosso encontro, devolve-nos a dignidade, levanta-nos, organiza uma festa para nós, dando como motivo que «este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado». (cf. Lc 15, 24). Carta a S. José.

Que a Sagrada Família seja, para cada família, proteção e auxílio e que a paz e entendimento sejam o projeto de toda a existência, para que juntos caminhemos em busca da concórdia e do bem da humanidade.

Editorial da Voz de Lamego: São José, com coração de Pai

São José está estreitamente ligado à economia da salvação. No passado dia 8 de dezembro, completaram-se 150 anos da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX, em 8 de dezembro de 1870. Face a esta efeméride, o Papa Francisco convocou um ano para refletir especialmente sobre São José e o seu papel na vida da Igreja e dos cristãos, como exemplo de um homem simples e discreto. Ele passaria ao lado dos grandes títulos de jornais, tal como tantos homens e mulheres que no anonimato transformaram e continuam a transformar o mundo com o seu compromisso, optando pelo bem e pela verdade, prosseguindo a justiça e a paz, no serviço aos irmãos e no cuidado para com os mais desfavorecidos.

Ao convocar o Ano de São José (de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021), o Papa brindou-nos com uma Carta Apostólica, Patris Corde (Com o coração de Pai), enquadrando a importância de São José, como Pai adotivo de Jesus, esposo da Virgem Maria, Padroeiro dos operários, invocado para uma tranquila e boa morte, confiando-nos à Sua intercessão nas contrariedades da vida, imitando-O na delicadeza, na fidelidade à vontade de Deus, na escuta atenta do Senhor, no cuidado decidido de Jesus e de Nossa Senhora.

“Os meus antecessores aprofundaram a mensagem contida nos poucos dados transmitidos pelos Evangelhos para realçar ainda mais o seu papel central na história da salvação: o Beato Pio IX declarou-o «Padroeiro da Igreja Católica», o Venerável Pio XII apresentou-o como «Padroeiro dos operários»; e São João Paulo II, como «Guardião do Redentor». O povo invoca-o como «padroeiro da boa morte»”.

“Na parte inferior [do brasão do Papa Francisco], estão a estrela e a flor de nardo. A estrela, segundo a antiga tradição heráldica, simboliza a Virgem Maria, mãe de Cristo e da Igreja; a flor de nardo indica são José, padroeiro da Igreja universal. Com efeito, na tradição iconográfica hispânica, são José é representado com um ramo de nardo na mão. Colocando estas imagens no seu brasão, o Papa pretendeu expressar a sua devoção particular à Virgem Santíssima e a São José”.

O Santo Padre iniciou o pontificado no dia de São José, a 19 de março de 2013. Por outro lado, tem uma imagem de São José a dormir e, como já explicou, quando tem um problema ou dificuldade escreve num papelinho e coloca debaixo da imagem, para que São José sonhe e reze por essa dificuldade.

Nesta Carta Apostólica, o Papa apresenta, de forma mais sistematizada, as suas reflexões sobre São José, meditadas ao longo do tempo. A partir de vários títulos, apresenta-nos São José e desafia-nos a imitá-l’O: Pai amado; Pai de ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador, e Pai na sombra.

“A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Dia após dia, José via Jesus crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer (cf. Os 11, 3-4). Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sal 103, 13)”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/06, n.º 4588, 15 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Fraternidade, fonte de liberdade e igualdade

Esta é uma das expressões do nosso Bispo, na missa crismal, no dia 5 de outubro, e que deu tom e cor à sua homilia, partindo da recente Carta Encíclica do Papa Francisco “Fratelli Tutti”, todos irmãos.

A receção ao documento do Papa vai-se fazendo, dentro e fora do âmbito da Igreja, com diferentes sublinhados e, como sempre, algumas polarizações. Ao nosso jornal também vão chegando algumas reflexões que incidem ou partem desta Carta.

São Francisco de Assis desafia-nos a tratar como irmãos o Sol, o mar, o vento, os passarinhos, e irmão de todos, a começar pelos pequeninos, pobres, doentes, abandonados, descartados, dos últimos, pois essa foi a opção de Jesus, essa há de ser a opção preferencial dos cristãos. Diz o Papa, “a fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irmãos e irmãs”.

O nosso Bispo, na missa crismal e, no passado sábado, nas Jornadas Nacionais de Catequistas, sublinhou que a fraternidade é o sustentáculo da igualdade e da liberdade, sugerindo que ao tríptico da revolução francesa e do iluminismo deveria subtrair a fraternidade. E porquê? Porque se Deus foi retirado da equação, então não há como justificar, defender ou propor a fraternidade. Sem Deus, sem Pai, não há filhos! Se não temos um Pai comum, não podemos ser irmãos. A fraternidade supõe a filiação. Se não somos filhos, como é que poderemos ser irmãos, construir a fraternidade (comunidade de irmãos).

Claro que, sem fraternidade, a igualdade e a liberdade não têm um fundamento sólido, duradouro e definitivo. Com efeito, a fraternidade é o cimento da igualdade e da liberdade. Se não somos irmãos, porquê preocupar-nos com estranhos? Refira-se ainda assim que a sobrevivência do mundo depende de todos, o bem ou o mal que faço vai afetar o outro, vai decidir que o mundo é destruído ou se é contruído.

Do mesmo modo a liberdade. Se a liberdade se apoia em mim ou em ti, se se apoia nas normas de um país ou de uma ideologia, será uma liberdade a prazo, pois basta mudar a pessoa que tem mais poder para que também esta adquira outras feições. Sem a fraternidade, a lei do mais forte ganha terreno, manda quem pode.

“Como crentes, diz-nos o Papa, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis para o apelo á fraternidade” (272).

D. António, por sua vez, salienta que a raiz da fraternidade e essência da família é o amor eterno e verdadeiro. E o lugar humana onde se manifesta a fraternidade é a família. “Os filhos, não deixando de ser diferentes na ordem do nascimento, da saúde, da inteligência, temperamento, sucesso, são iguais, e são iguais não obstante as suas acentuadas diferenças; são iguais, não em função do que são ou do que têm ou do que fazem, mas em função daquilo que lhes é dado e feito; são diferentes mas são iguais, são iguais não devido a isto que fazem, ao seu currículo e ao seu trabalho, mas devido ao amor dos seus pais, que os faz iguais, que os torna iguais”. E também em função do amor fontal de Deus Pai, somos filhos de Deus, filhos no Filho, é esse amor primeiro que que nos torna livres e iguais. Deus não tem netos nem sobrinhos. Somos todos irmãos, porque somos todos filhos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/46, n.º 4581, 27 de outubro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Eis-me aqui, envia-me

Este é o tema escolhido pelo Papa Francisco para sua Mensagem do Dia Mundial das Missões, no próximo domingo, 18 de outubro. (A mensagem encontra-se na página sete do jornal e na nossa página: http://www.diocese-lamego.pt).

O Senhor questiona: quem enviarei? «Eis-me aqui, envia-me» (Is 6, 8). É a resposta do Profeta Isaías, clarificador e resoluto, apesar do ambiente adverso.

O Santo Padre parte das tribulações e desafios que nos coloca a pandemia do covid-19, convocando-nos à esperança e ao compromisso solidário. A oração, diz-nos o Papa, abre-nos o coração aos outros, sintonizando-nos com o coração de Deus, que nos ama a todos. “Celebrar o Dia Mundial das Missões significa também reiterar que a oração, a reflexão e a ajuda material das vossas ofertas são oportunidades para participar ativamente na missão de Jesus na sua Igreja. A caridade manifestada nas coletas das celebrações litúrgicas do terceiro domingo de outubro tem por objetivo sustentar o trabalho missionário, realizado em meu nome pelas Obras Missionárias Pontifícias, que acodem às necessidades espirituais e materiais dos povos e das Igrejas de todo o mundo para a salvação de todos”.

Na cruz, Jesus realiza a Sua missão, revelando que Deus nos ama a todos e a cada um, pedindo-nos a disponibilidade para sermos enviados. “Por amor dos homens, Deus Pai enviou o Filho Jesus (cf. Jo 3, 16). Jesus é o Missionário do Pai: a sua Pessoa e a sua obra são, inteiramente, obediência à vontade do Pai (cf. Jo 4, 34; 6, 38; 8, 12-30; Heb 10, 5-10). Por sua vez, Jesus – crucificado e ressuscitado por nós –, no Seu movimento de amor atrai-nos com o seu próprio Espírito, que anima a Igreja, torna-nos discípulos de Cristo e envia-nos em missão ao mundo e às nações”.

A missão deriva do amor de Deus. Deus, porque nos ama, é um Deus em movimento, em saída.

“Deus é sempre o primeiro a amar-nos e, com este amor, vem ao nosso encontro e chama-nos. A vida humana nasce do amor de Deus, cresce no amor e tende para o amor. Ninguém está excluído do amor de Deus e, no santo sacrifício de seu Filho Jesus na cruz, Deus venceu o pecado e a morte (cf. Rom 8, 31-39). Para Deus, o mal – incluindo o próprio pecado – torna-se um desafio para amar, e amar cada vez mais (cf. Mt 5, 38-48; Lc 23, 33-34). A Igreja, sacramento universal do amor de Deus pelo mundo, prolonga na história a missão de Jesus e envia-nos por toda a parte para que, através do nosso testemunho da fé e do anúncio do Evangelho, Deus continue a manifestar o seu amor e possa tocar e transformar corações, mentes, corpos, sociedades e culturas em todo o tempo e lugar”.

A concluir, parte da letra do Hino Outubro Missionário 2020, da Banda Jota: “Senhor… Envia-me a anunciar o Teu amor / Deixarei o meu egoísmo para partir / Serei um pedaço de Ti no outro / Serei um discípulo, irei servir / Uma mão cheia e aberta para dar / Serei um abraço a viver em missão / Procurarei o outro para Te encontrar / Deixarei que sejas Tu a viver em mim / SEREI UM SIM por dentro do Teu sim”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/44, n.º 4579, 13 de outubro de 2020

Fratelli Tutti

Na memória de São Francisco de Assis, o Papa Francisco presenteou-nos com a nova carta encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social.

O primeiro capítulo retrata a sociedade atual: as novas formas de colonização cultural, a luta de interesses que coloca todos contra todos, a cultura do descarte de alimentos e de seres humanos, a injustiça de um modelo económico fundado no lucro, a cultura do conflito e do medo. O Papa Francisco faz ainda referência à tragédia que trespassa o nosso mundo, a pandemia do COVID-19, e a forma como desmascarou a nossa vulnerabilidade e a necessidade de pertença como irmãos; a falta de dignidade de que sofrem os migrantes e refugiados, entre muitos outros pontos interessantíssimos.

Numa das referências a São Francisco “escutou a voz de Deus, escutou a voz dos pobres, escutou a voz dos enfermos, escutou a voz da natureza. Transformou tudo isso num estilo de vida.” O Santo Padre sublinha que não devemos perder a capacidade de escuta!

Esta atitude de São Francisco consegue ser simples e complexa, antiga e tão atual, tão evidente, tão necessária no dia de hoje.

Não poderiam muitos males ser resolvidos e/ou minimizados se todos estivéssemos à escuta? Deus deu-nos dois ouvidos, mas insistimos em utilizar demasiado a única boca para debitar ideias e mais ideias. sem agir e sem perceber o que se passa em redor.

Não queremos ouvir para não ver, não sentir as dificuldades do outro. Se não tivermos conhecimento, não temos de fazer nada pelo outro, podemos continuar a nossa vida medíocre!

Parar e ouvir quem nos dirige a palavra é um sinal de respeito, mas mais ainda, quando ouvimos o silêncio e o sofrimento do outro, e da própria natureza. Quantas vezes nem paramos para nos ouvir a nós? Quantas vezes vivemos a correr iludidos num “mundo ideal”, que queremos mostrar aos outros, e não paramos para perceber quem somos, o que estamos aqui a fazer, e ter consciência de nós próprios?

Parar e ouvir! Simples! Mas nós, nem paramos, nem ouvimos. Parecia que estávamos a melhorar o nosso modo de ser com os acontecimentos da pandemia, mas rapidamente voltámos ao que éramos, quando é urgente viver um mundo novo, uma vida nova, e não voltar para o “normal doentio” a que estávamos presos, como diz o nosso Bispo na nova Carta Pastoral, ABRIR E SEMEAR SULCOS DE PAZ E ESPERANÇA.

É urgente viver em comunidade, como uma verdadeira comunidade! Nesse modo de viver, é imperativo saber escutar para poder ser ouvido! É urgente aprender a viver com fraternidade e amizade social, abrindo e semeando sulcos de paz e esperança.

Que possamos, brevemente, colher o fruto da nossa mudança, da nossa escuta.

Raquel Assis, in Voz de Lamego, ano 90/43, n.º 4578, 6 de outubro de 2020

Apresentação do Plano Pastoral Diocesano 2020-2021

Editorial da Voz de Lamego: A vinha do Senhor

As primeiras palavras do Papa Bento XVI, logo depois da eleição, a 19 de abril de 2005: “Os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”.

Muitas vezes se contrapõe Bento XVI ao Papa Francisco, e vice-versa, instrumentalizando um ou outro, conforme as conveniências e interesses pessoais ou de grupo. Cada um, com a sua personalidade e sensibilidade, mais Paulo ou mais Pedro, mas a mesma doçura ao serviço do mesmo Evangelho, da mesma Igreja, na fidelidade sem tréguas a Jesus Cristo, presente e atuante na Igreja, sacramento de Salvação, e no mundo ao qual somos enviados a testemunhar o amor de Deus, para que a fé seja contágio curativo, atração e luz. Não são cópia, mas também não são traição; não são correção, um em relação ao outro, mas simples servos servidores da vinha do Senhor, em tempos sucessivos, com o mesmo amor a Jesus, à Igreja, como Corpo de Cristo no tempo e na história, e ao mundo das pessoas, que louvam toda a criação.

No último Domingo, o Evangelho (Mt 20, 1-16a) apresentava mais uma parábola, com a qual Jesus nos faz vislumbrar um Deus que nos procura, em todo o lado, também na praça, nos caminhos e nas avenidas. Vem uma e outra vez, em todas as horas do dia e em todas as idades da nossa vida. Um Deus que é Pai e, por conseguinte, Se dá por inteiro, não tanto a partir dos nossos méritos, mas a partir do amor que transborda do Seu coração. Como Pai não pode senão amar e amar por inteiro. Não se ama devagarinho, às prestações, na condicional ou com as reservas para ver no que pode dar o relacionalmente! Ama-se. Ponto. Ama-se inteiramente. De contrário, serão cópias de amor, mas não amor.

Cada um de nós é, a um tempo, trabalhador da primeira hora, do meio do dia, do entardecer. Deus desafia-nos, convoca-nos, espera pela nossa resposta. Todos têm lugar à Sua mesa. Todos são acolhidos e agraciados com todo o Seu amor. Ele não desiste de ninguém. Não nos retira parte da herança, pois é sempre Pai que nos ama como Mãe.

A vinha do Senhor entende-se até onde há pessoas, mesmo que esquecidas da sociedade. Deus, revelado em Jesus, é a referência para nós. Daí o compromisso de uma “Igreja em saída”, como reiteradamente tem sublinhado o Papa Francisco. Se o Senhor sai em busca dos trabalhadores, para Quem nunca é tarde, como o Pastor em busca da ovelha perdida, em todas as encruzilhadas, também os Seus discípulos têm a mesma missão. Por um lado, são simples trabalhadores da vinha e, por outro, seguem o exemplo do proprietário, não descansam enquanto houver alguém desocupado, sem trabalhar, sem vínculo, sem amor, sem pertença ao Reino de paz e de amor. A vinha do Senhor é para todos, ricos e pobres, melhor, é para aqueles que aceitarem ser de Deus. Os últimos serão primeiros. É a opção de Deus. É a nossa opção. E como, mais uma vez, insiste o Santo Padre, os últimos, os mais desfavorecidos, devem ser os primeiros a ter acesso a uma vacina, gratuita, contra a COVID-19. Será uma forma de o mundo mostrar que as palavras têm a consistência das opções.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/41, n.º 4576, 22 de setembro de 2020

DIA INTERNACIONAL DA CARIDADE

A Cáritas assinala amanhã, 5 de setembro, o Dia Internacional da Caridade, instituído pela Organização das Nações Unidas. Este dia, coincide, também, com o aniversário da morte de Madre Teresa de Calcutá, padroeira da Cáritas em todo o mundo. É um dia em que todos os colaboradores e voluntários da Cáritas renovam o seu compromisso com o serviço ao outro, inspirando-se nesta mulher que fez do serviço a alegria da sua vida.

Neste dia homenageamos todos aqueles que estão na linha da frente na defesa dos mais vulneráveis, em todo o mundo. Homens e mulheres para quem os mais pobres, doentes, isolados, marginalizados, são a imagem do Amor que materializa a missão e a identidade da Cáritas.

É também uma oportunidade para lembrar as muitas situações, no mundo inteiro, onde as circunstâncias de vida são especialmente difíceis e exigem uma atenção e uma ação particular. Todos os que, em Portugal, viram as suas vidas mais fragilizadas desde o início da pandemia provocada pela COVID-19 seja do ponto de vista da saúde, seja pelos efeitos emocionais e, particularmente, os que vivem a angústia das gravíssimas consequências económicas.  Uma preocupação muito grande com o aumento exponencial de pessoas com diferentes debilidades na área da saúde mental, dadas as incapacidades estruturais em responder, atempadamente, às necessidades de já milhares de pessoas a precisar de auxílio. Depois, em todo o mundo, aqueles que se confrontam com situações de conflito e de medo. A Cáritas, em Portugal, acompanha, de forma particular, a situação da população de Cabo Delgado, em Moçambique, onde os efeitos da passagem dos ciclones Idai e Keneth são ainda uma marca e cuja população vive agora confrontada com o medo provocado pelos ataques terroristas, em Cabo Delgado.

“Por todo o mundo multiplicam-se as situações de vulnerabilidade para quem presta e para quem pede auxílio. A Cáritas pede que, neste dia, ninguém deixe de ter um gesto de auxílio em favor de quem esteja em necessidade. Uma visita, um donativo, um abraço, uma diligência, …são algumas das formas de viver, de verdade, este dia. Neste dia que ninguém em sofrimento seja esquecido!” Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa

Márcia Carvalho | marciacarvalho@caritas.pt

Editorial da Voz de Lamego: O Evangelho de Nazaré e de Lampedusa

Papa Francisco, presidiu à celebração da Santa Missa, em Lampedusa, a 8 de julho de 2013

Completaram-se sete anos desde que o Papa Francisco se deslocou a uma das periferias da Europa, à Ilha de Lampedusa, lugar de refúgio de milhares de pessoas que abandonaram a sua terra em busca de uma vida melhor, a fugir da guerra, da pobreza, da perseguição. A Ilha italiana é um dos pontos de entrada para a Europa; e um lugar para manter “isolados” do mundo os que se atrevem a embarcar para um futuro incerto.

A eleição do Papa Francisco, oriundo da Argentina, define por si só, uma periferia que é colocada no centro da Europa, no centro do mundo, da sociedade e da Igreja. O então Cardeal Jorge Mario Bergoglio agita as águas na intervenção que faz no conclave que viria a elegê-lo, mostrando que a Igreja, para ser fiel a Jesus Cristo, tem de se descentrar e ser Igreja em saída, indo às periferias, não apenas geográficas, mas sobretudo existenciais. Uma Igreja autorreferencial tende a adoecer, tornando-se inútil, anquilosada, desnecessária. A Igreja está para Cristo como a Lua para o Sol. A lua não tem luz própria, mas é um astro luminoso porque espelha e projeta a luz do Sol. Assim a Igreja, não se anuncia a si mesma, mas a Cristo e ao Seu Evangelho de amor. Cabe-lhe viver, seguir e testemunhar Jesus, tornando-O acessível a todos.

Após a eleição, Bergoglio escolheu, como patrono e referência, São Francisco de Assis. Os pobres, a identificação a Cristo pela pobreza e pelo despojamento, e as questões ambientais… programa do Papa Francisco, com o seu dinamismo latino, e, obviamente, a identidade da Igreja que quer estar onde Cristo deve estar, junto dos mais pobres.

Escolheu para primeira viagem apostólica, a 8 de julho de 2013, a Ilha de Lampedusa para se encontrar com os mais pobres dos pobres, pessoas sem teto, sem pátria, sem um futuro definido e, ao mesmo tempo, para rezar por todos quantos morreram a tentar passar o mar atlântico.

Palavras incisivas do Papa: “neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença… acostumamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é assunto nosso!  Foi-nos tirada a capacidade de chorar”. Pediu “perdão pela indiferença para com tantos irmãos e irmãs, perdão para aqueles que se acomodaram e se fecharam no seu próprio bem-estar, o que leva à anestesia do coração, perdão para aqueles que com suas decisões globais, criaram situações que levam a esses dramas”, para que o mundo tenha “a coragem de acolher aqueles que buscam uma vida melhor”.

Passaram sete anos. O Santo Padre assinalou o aniversário na passada quarta-feira, 8 de julho, na Eucaristia celebrada na Capela de Santa Marta, recordando a viagem como um desafio permanente contra a globalização da indiferença. Esta pandemia acentuou ainda mais as periferias, a pobreza, as desigualdades sociais, o isolamento dos mais vulneráveis… Em Nazaré, um carpinteiro, vive de forma simples, discreta e humilde, em família e em comunidade, até ao dia em que Se faz batizar, deixando-Se impelir pelo Espírito Santo, indo de terra em terra a anunciar a Boa Notícia da Salvação. Ninguém dava nada por Nazaré, mas é a partir daí que é lançada a semente do Reino de Deus. Será também da Galileia… que os apóstolos partem para outros mundos… De Lampedusa, mais uma etapa na revolução dos corações que se iniciou com Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

COVID-19: Testemunho de Ana Catarina Fernandes – Fisioterapeuta

Sou fisioterapeuta. Gosto de cuidar, do toque, do carinho e gosto muito de estar junto dos mais velhos. Acompanhei, e vivo, a realidade de ser fisioterapeuta num Lar de Idosos, naquele que também é o meu Lar. A minha casa. E pela primeira vez, durante estes meses, tive medo de cuidar. Dizendo melhor, tive medo de não os conseguir proteger. De um vírus que chega sem avisar, que não nos dá tempo de preparação e não nos ensina como devemos agir. Deste maldito vírus que tanto medo nos deixa. Que nos impede de tocar, de abraçar, que nos dá uma distância social de segurança e diz que nos devemos proteger “estando longe”.

“Estamos longe, para podermos estar todos juntos daqui a uns tempos”, dizia aos meus utentes, em jeito de justificar o porque de não poderem receber visitas, de não poderem sair do quarto, de verem as suas rotinas alteradas… dizia eu, como se fosse assim tão simples. Como se não custasse “estar longe”, dos filhos dos irmãos, dos netos. Como se fosse fácil de perceber o porque de terem de passar os dias confinados aos quartos. Como se fosse confortável que todos à sua volta circulassem com máscara, viseira, toca, luvas. Como se fosse assim tão simples entender, que nesta fase da vida, tenham de estar afastados para estarem protegidos. E foi aqui que percebi, eles são os verdadeiros heróis.

Pela resiliência com que aceitaram estes tempos. Pela forma como vivem a mudança. E foi aqui que senti, que não podia ter medo. E (re)descobri o porque de gostar tanto de estar e trabalhar junto dos mais velhos. Têm sabedoria e amor no olhar, sorriem com os olhos e veem muito para além das máscaras que temos na cara. Já viveram uma vida inteira e estão a ensinar-nos como devemos viver o NOVO dia-a-dia.

Ensinam-nos que devemos parar, que temos de aprender a valorizar mais, a agradecer mais e a ser mais. Que cada dia é um NOVO começo. Que tem de haver tempo, para estar, para sentir e para viver.

Ensinam-me todos os dias, sorriem-me todos os dias e eu? Eu fui abençoada com a sorte de fazer parte do NOVO dia-a-dia deles. De viver estes tempos com eles, no nosso Lar.

Hoje, passados estes meses, continuo a fazer o que mais gosto: a cuidar. Desejo que eles ainda possam viver muitos NOVOS dias junto daqueles que mais amam. E agradeço por me terem deixado tirar lições tão bonitas destes tempos tão difíceis que vivemos. Juntos.

Ana Carolina Fernandes, Fisioterapeuta / Cáritas Diocesana de Coimbra

in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020