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Archive for the ‘Igreja’ Category

Editorial Voz de Lamego: Popularidade dos santos

Estamos em plena época dos santos populares. Com o desejo da praia, das férias e do convívio, da descontração e do descanso, ombreiam as festas populares que se iniciam em junho com os afamados “santos populares”. Se são populares, são do povo! O povo identifica-se com eles! Calma! Talvez não se identifique com os santos, mas com as festas e tradições a eles associadas!

Se olharmos para figuras populares, um artista, um cantor, um futebolista, como Cristiano Ronaldo ou Messi, têm seguidores nas redes sociais, aos milhares, ou milhões, e onde se deslocam há centenas ou milhares de fãs que querem ver, tirar uma foto, um selfie, solicitar um autógrafo, pedir a camisola! Quantos pais colocam aos filhos os nomes dos seus heróis/ídolos? Quantas jovens querem ser como Cristiano Ronaldo?

Passemos então à popularidade de Santo António, de São João e de São Pedro!

São João Batista era de facto bastante popular, atraía multidões, batizava centenas de pessoas, conduzia à conversão muitas pessoas, desafiando à não violência, à justiça social e à partilha, ao cumprimento dos mandamentos. A popularidade de São João Batista custou-lhe a vida. Herodes, a pedido da bela filha de Herodíade, mandou cortar-lhe a cabeça. Alguém quer imitar São João Batista? Outra característica de João é a humildade, não das palavras, mas na atitude, apontando para Jesus Cristo. É Ele, é Ele que deve crescer e eu diminuir… nem sou digno de Lhe desatar as correias das sandálias!

E Pedro, aquele apóstolo simples, titubeante e impulsivo que segue Jesus, quereremos imitá-lo? Deixou tudo para seguir Jesus! Se calhar pensou que largava uma vida sacrificada e dura por uma vida mais faustosa e tranquila. Essa foi uma das suas tentações, tal como a de outros discípulos. Quando vê que as coisas estão complicadas, assusta-se e nega Jesus: não tem nada a ver com Ele, não quer ser identificado com Jesus Cristo! E com os outros discípulos, mantém-se à distância de segurança! Depois da ressurreição e das aparições de Jesus, Pedro transfigura-se e torna-se um convicto pregador. Mais tarde será morto por ser cristão. Algum de nós quer seguir as pisadas de Pedro? Não estamos a falar do facto de ter sido o primeiro Papa, mas de ter sido mártir e antes um indisciplinado apóstolo!

E que dizer de Santo António? Sim, é um dos santos bem populares. De família nobre, renunciou a uma vida faustosa para se tornar monge. Depois de ordenado sacerdote dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, escolhe (ou melhor, é escolhido por Deus para) outro caminho, faz-se monge franciscano, assumindo a pobreza dos frades e a ânsia de se tornar mártir missionário em África, mas também aí Deus lhe muda o destino e virá a tornar-se um grande pregador, com centenas de pessoas a ir ao seu encontro para o ouvirem. Por outro lado, passa horas a confessar e realiza, em nome de Deus, muitos milagres. Esta parte dos milagres até que nos dava jeito! Mas o verdadeiro milagre é o da conversão. A fé move montanhas. Deus realiza os milagres através de crentes, cuja fé está amadurecida e fundada na oração e na intimidade com o Senhor. Prontos para sermos como Santo António? Seguros nos bens que temos ou no risco de tudo colocarmos em Deus?

Se fizéssemos uma sondagem sobre popularidade… talvez São João, São Pedro e Santo António não figurassem nas primeiras cem opções! Obviamente que as festas populares são importantes, referidas a estes ou outros santos. É também oportunidade para os conhecermos melhor. Por outro lado, a santidade, como cristãos, está sempre no horizonte. Cabe-nos acolher a santidade de Deus que em Cristo Se manifesta amor e compaixão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/31, n.º 4613, 16 de junho de 2021

Entrevista com Joaquim Paulino Bernardes – Administrador E. Leclerc

Tendo a Voz de Lamego uma matriz cristã, procurámos entrevistar um ou outro empresário que obteve sucesso no espaço territorial da Diocese de Lamego e cujo empreendedorismo lhes permitiu criar vários postos de trabalho, contribuindo para o desenvolvimento da região, mas igualmente com uma componente social, com ligações mais ou menos estreitas à Igreja. Com a colaboração do Pe. José Ferreira, pároco da Sé e Cónego do Cabido, lançamos questões sobre o relacionamento com os funcionários e sobre a função social da riqueza.

Será possível conjugar investimento e compromisso cristão? Ser empresário de sucesso sem sacrificar as pessoas a números e percentagens?

Foram a estas e outras questões que o Sr. Joaquim Bernardes, administrador do hipermercado E. Leclerc de Lamego, respondeu, revisitando também a sua vida, nomeadamente como emigrante e, no regresso a Portugal, as etapas que o levaram a enveredar pelo movimento E. Leclerc, fixando-se em Lamego.

Voz de Lamego – Agradecemos, desde já, a oportunidade em nos conceder uns momentos para conversar connosco. Como é que se tornou aderente do movimento E.Leclerc?

Fui imigrante em França entre a década de 70 e 80 e conheci o E.Leclerc como cliente.

Os supermercados distinguiam-se dos restantes pela defesa constante do poder de compra dos consumidores em todas a áreas de consumo: combustíveis, produtos alimentares, moda, livros, auto, etc… Os preços eram de facto muito mais baratos. Na localidade em que vivia, no distrito de Lyon, reparei que um pequeno comerciante que conhecia pessoalmente e onde também fazia compras, abriu um supermercado E.Leclerc na periferia da cidade e que explicou-me que o fundador do grupo E.Leclerc, o Sr. Edouard Leclerc, autorizava que comerciantes independentes abrissem uma loja com o seu nome desde que vendessem mais barato, trabalhassem em âmbito famíliar (marido e mulher trabalhariam lado a lado) e repartissem os resultados da empresa com todos seus colaboradores.

Quando no início da década de 90 regressei a Portugal, abri um minimercado na cidade do Cartaxo e vi nascer os primeiros grandes supermercados e hipermercados. Conhecendo a missão da marca E.Leclerc em França, estabeleci contactos, e, após muita burocracia e dificuldades que tive que ultrapassar, consegui abrir com a minha esposa o E.Leclerc de Lamego em dezembro de 1996.

Como é que funciona o movimento E.Leclerc?

É um movimento cooperativo em que a empresa familiar, constituída por um casal, é proprietária do seu ponto de venda e são também coproprietários da marca E.Leclerc, tornando-os responsáveis pelo legado do seu fundador, o Sr. Edouard Leclerc. A sua missão, na década de 40 (pós-segunda guerra mundial) era ajudar os Franceses a acederem a produtos alimentares a preço baixo, comprando grandes quantidades de produtos para os vender mais baratos, tornando-se, por isso, este movimento precursor da distribuição moderna. É uma história muito rica de grandes combates sempre a favor dos consumidores e que os leitores podem conhecer em (http://movimento-leclerc.pt/)

Passado tantos anos do início desta cadeia de supermercados E. Leclerc, ainda se mantêm os objetivos que estiveram na génese da sua fundação?

Sem dúvida. Esta missão mantém-se válida e é hoje atualizada do ponto de vista social e dos valores que a norteiam. A titulo de exemplo no E.Leclerc promovemos: um consumo responsável (não vendemos crédito ao consumo); igualdade e ética no local de trabalho; a compra a fornecedores e produtores locais, apoiando assim o tecido económico local; a descentralização das competências e das decisões, beneficiando diretamente a qualificação e o número de empregos gerados por loja em oposição a grupos centralizados; o apoio as iniciativas culturais, sociais e desportivas locais que respondem ás solicitações da população local;

Como foi mudar de terra e fixar-se em Lamego?

Eu e a minha esposa mudamo-nos em 1995 com a convicção, desde o primeiro momento, que seria uma mudança definitiva. E assim foi. Considero-me hoje um Lamecense e em conjunto com a minha família criámos laços, amizades e afinidades que dão sentido à nossa vida e, no meu caso particular, à minha missão pessoal. Descobri gente de fibra e perseverante que muito estimo e respeito, pois acompanharam-nos do ponto de vista pessoal e profissional. Refiro-me também a todos os colaboradores com quem trabalho e com quem já trabalhei.

Como é a sua relação com os colaboradores?

Somos uma equipa familiar e todos conhecem as suas responsabilidades e a sua missão. Dispõem de uma grande autonomia e de um ambiente trabalho saudável podendo falar comigo sobre qualquer questão, sempre que o entenderem.

Esta é uma empresa de gente com “fibra”, em que mais de 30% dos colaboradores têm mais de 20 anos de casa e apenas 2% são contratos a prazo. Tentei sempre fazer do local de trabalho dos meus colaboradores um porto de abrigo, promovendo situações laborais estáveis. Gostaria de enumerar as boas memórias e histórias que guardo com os meus colaboradores ao longo de 25 anos, mas seria necessário escrever um livro. Aproveito a oportunidade para reconhecer publicamente o empenho e o valor de todos os homens e mulheres que comigo vão construindo e consolidado esta casa. A todos quero manifestar a minha gratidão.

Quantos são?

Nas épocas sazonais, de verão e natal, somos mais, mas a média anual são cerca de 130 colaboradores diretos e cerca de 15 indiretos (seguranças, limpeza e reposição externa).

Conhece-os pessoalmente?

É evidente que os conheço. Como é que posso cumprimentá-los e falar com eles se não souber o seu nome? Atualmente, tenho 40 funcionários que trabalham comigo há mais de 20 anos.

Alguns dos colaboradores são mesmo a segunda geração dos que começaram em 1996. Ou seja, trabalham os pais, os filhos e quem sabe, um dia, os netos. Infelizmente, a memória atraiçoai- me algumas vezes, levando a alguma troca de nomes.

Promove algum momento de convívio?

Sim, formais e informais, mas o mais simbólico é a organização anual do jantar de Natal que envolve sempre um número elevado de colaboradores na preparação e planeamento. É uma noite de partilha entre todos, em que distribuímos presentes aos mais jovens e festejamos os valores cristãos desta época.

São também beneficiários dos resultados da empresa?

Em 24 anos de atividade reparti todos anos, parte dos resultados da empresa com os colaboradores. É justo que, se contribuíram para os lucros da empresa, possam também beneficiar de uma gratificação em função do seu empenho e mérito. Os restantes resultados são investidos, localmente, de forma a melhorar continuamente as condições da atividade e desempenho da empresa.

Pensa que o respeito pela ética no trabalho também beneficia economicamente a empresa?

Sem dúvida, que isso é um imperativo que se impõe. Com base nas minhas convicções religiosas e valores pessoais que cultivo, não poderia ter   outra missão que não fosse promover os valores éticos e morais no trabalho, nomeadamente, encorajando um ambiente de trabalho saudável, de respeito mútuo e assente na honestidade. Quando se têm profissionais com um sentido ético no desempenho do seu trabalho, e com valores morais, há menos possibilidade  de furtos, desvios ou corrupção e isso também é importante dentro de uma organização e na sociedade em geral, como sabemos.

Este é um jornal regionalista… De que modo a região tem beneficiado da atividade da empresa?

Julgo que já fui respondendo a esta questão, mas podemos resumir da seguinte forma: emprego de mão de obra mais qualificada nas lojas, fruto de uma gestão mais descentralizada; a promoção de carreiras profissionais a longo prazo da quase totalidade dos seus colaboradores; a partilha dos lucros e dos resultados alcançados há mais de 24 anos; apoiamos e privilegiamos a produção local, permitindo o acesso de pequenos produtores de todas as áreas de produção; a possibilidade de contratar prestadores e empresas locais de serviços e de indústria para as suas necessidades locais, reforçando as sinergias; graças à nossa rede de dimensão europeia, conseguimos propor aos clientes produtos de grandes marcas, mas também os de marca própria, a preços muito baixos. Os nossos clientes reconhecem-no e quem compra sabe que aqui as compras ficam mais baratas. É esta a nossa missão.Posso concluir que as populações locais podem aceder a uma oferta de produtos e serviços que geralmente só estão acessíveis em centros urbanos de maior dimensão. Mas a missão E.Leclerc é precisamente disponibilizar tudo a preços baixos;

De que modo a sua formação cristã o tem influenciado no seu agir empresarial?

Reconheço que, nestas duas décadas a empresa tem apoiado, economicamente, iniciativas de carácter religioso, no âmbito paroquial da cidade, mas também doando géneros alimentares e não só, a inúmeras iniciativas sociais, culturais e religiosas em várias centenas de milhares de euros. Mas neste campo, prefiro que sejam as associações, as instituições da Igreja local, e mesmo os beneficiários diretos a destacar o papel humanitário da empresa. Fi-lo sempre pelas minhas convicções religiosas sem esperar nada em troca. A minha formação espiritual tem ajudado a saber humanizar a empresa e a dar-lhe um sentido de proximidade com os mais necessitados, quando há campanhas humanitárias.

A sua empresa tem contribuído para iniciativas na região?

Sem dúvida. Tentamos sempre que possível, participar em iniciativas várias e ajudar as instituições que prestam assistência à população e na organização de eventos que promovem o concelho e a região.

Embora a ajuda não deva ser interesseira …pode atrair mais clientes?

As empresas devem desenvolver o seu papel social em função das emergências e necessidades sociais da região em que se insere. Como cristão, este é um papel natural feito de forma desinteressada, mas cujo reconhecimento emerge de forma lenta. Tenho o privilégio de perceber ao longo de 25 anos, que contribuímos para as melhorias das condições de muitos concidadãos, clientes, mas também não clientes. Confirmo que em prazos longos e com decisões consistentes as políticas sociais geram reconhecimento.

É possível conjugar lucro, ajudando a fixar famílias?

Claro que sim. Trabalhamos todos no sentido de desenvolver a empresa e o setor do comércio e serviços e, nesse sentido, apoiar o desenvolvimento local. Ao manter e criar emprego, as pessoas têm um rendimento estável que lhes permite fixarem-se no concelho e concelhos limítrofes e manterem um nível económico e social estável, diminuindo a emigração.

Que diria a alguém que queira investir na região?

A realização nesta área não advém do resultado económico direto, sendo, contudo, essencial para a continuidade da atividade se projetar a longo prazo, desenvolvendo sinergias com o tecido económico e social locais.

Como é que lidou com este tempo de pandemia?

Com muita esperança e paciência. Foi um desafio a uma escala global com consequências negativas do ponto de vista social e económico. A nível laboral foi difícil, pois enfrentamos um momento imprevisível e sem precedentes, mas contei sempre com o empenho e a colaboração dos funcionários que se esforçaram muito para mantermos todos os nossos serviços a funcionar com qualidade e segurança. Por outro lado, também verifiquei maior disponibilidade e tempo para um recolhimento e maior convívio com a família.

É possível ser cristão e ser empresário de sucesso? Como conciliar?

Acredito seriamente que sim. É possível ser cristão em toda e qualquer circunstância e em qualquer contexto. É este o desafio de ser cristão no século XXI. Os cargos de maior responsabilidade para com a sociedade são hoje submetidos a enormes pressões de lucros a curto prazo, às vezes sem olhar a meios, mas não devemos ceder naquilo em que acreditamos. É uma questão de coerência e de verdade para quem acredita e orienta a sua vida pela mensagem do Evangelho.

in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Regresso às Igrejas… vazias!

É uma sensação que varre o pensamento de muitos cristãos durante a época dos confinamentos e da suspensão das celebrações comunitárias. O regresso não trouxe mais pessoas. Regressaram algumas. Algumas ainda estão a aguardar por melhores dias. Algumas ficaram satisfeitas por assistir do sofá ou até da cama. Outras perceberam que a Eucaristia dominical afinal nem fazia assim tanta falta: criam-se outras rotinas!

Não há Igrejas vazias! Espiritual, teologicamente falando! Diz-nos Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome Eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). Onde está Jesus está a Igreja. Onde estão dois ou três em comunhão com Deus, Trindade Santíssima, está toda a Igreja, a gloriosa, dos que se encontram na eternidade de Deus, e a peregrina, dos que caminham na história e no tempo. Podemos olhar para o lado e não ver ninguém, mas os bancos das igrejas estão cheios de familiares e amigos que celebram connosco a vida divina.

Tomáš Halík preparou, gravou e divulgou, pela Internet, homilias na ausência de celebrações comunitárias na Paróquia Universitária de São Salvador, na República Checa, durante o todo o período da Páscoa, de quarta-feira de cinzas ao Pentecostes, de 2020. A este conjunto de homilias, em livro, deu o título: “O tempo das Igrejas vazias!”

Este sacerdote viveu na Igreja das profundezas, subjugada pela perseguição comunista, ordenado padre na clandestinidade, a celebrar Missa às escondidas, sozinho, ou acompanhado de uma pessoa ou de um casal. O tempo de igrejas vazias não o terá surpreendido tanto assim, mas foi oportunidade para dar lugar ao silêncio e à oração, à contemplação do mistério e à reflexão sobre o caminho percorrido, pela Igreja, e o caminho a percorrer, com as possibilidades que se abrem à Igreja e aos cristãos.

A pandemia pode dar lugar à desolação ou à pregação apocalíptica. E, pelos vistos, alguns voltaram a pregações medievais, provocando o medo, como se o medo obrigasse as pessoas a regressarem à Igreja.

As Igreja vazias devem preocupar-nos? Sim. Mas são também um desafio a darmos maiores razões da nossa fé, não no anúncio de um deus vingativo, mas na certeza confiante de um Deus misericordioso, que é Pai e Mãe, e que em Jesus Cristo abraça a história e o sofrimento humano, caminhando connosco.

Perante Igrejas cada vez mais vazias, resignação ou a tristeza?

Resignação: torna-se visível o que já vinha sucedendo, não há muito a fazer!

Tristeza: não conseguimos mostrar o bom Deus aos outros. E tantas pessoas que se conhecessem o amor de Deus poderiam ser bem mais felizes! Bento XVI relembrava-nos que a Igreja se expande pela atração, pela alegria com que se vive, se anuncia e se partilha a fé. Teremos de dar razões da nossa fé, em todos os momentos, nas situações favoráveis e adversas. Deus faz-Se presente na oração – rezemos mais; na Palavra proclamada e meditada – sacudamos o pó das nossas Bíblias; na vivência da Eucaristia, como remédio e alento para o caminho – não desperdicemos este alimento; no cuidado do irmão, no serviço aos mais frágeis – o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. As Igrejas vazias são oportunidade para sermos Igreja onde quer que nos encontremos, e em tudo o que fizermos. A Eucaristia, vivida com autenticidade, é o primeiro passo para a caridade.

Em 1992, o cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, profetizava o regresso à Igreja de minorias. Como no cristianismo primitivo, a Igreja, a partir de 12 apóstolos, pequeno rebanho, mas fermento que espalha com a alegria o Evangelho, sem medos, na certeza confiante de que é Jesus quem vai no leme!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/24, n.º 4606, 27 de abril de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Em menos de nada estaremos em maio!

E poderíamos estar em junho ou em dezembro. O importante é mesmo hoje, AGORA, viver, sentir, amar, servir, cuidar. Não amanhã, mas hoje. Não daqui a pouco, mas agora. O amanhã pertence a Deus. Ele deu-nos cada instante para darmos sentido à nossa vida e cuidarmos para que o mundo seja terra fértil, habitável, seja casa onde há espaço para todos, onde todos se sintam em segurança, amados, se sintam filhos, se assumam e tratem como irmãos.

Podemos esperar para depois? Claro que podemos! Mas se não chegarmos a maio? Se não chegarmos ao “depois”? Quando dermos conta, estaremos em dezembro!

No final de “Os Maias” (1888), obra prima de Eça de Queirós, num último fôlego, Carlos e João da Ega, esboçam uma réstia de esperança, misturada com um trago de resignação:

“– Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. / – Ainda o apanhamos!

Os dois amigos lançaram o passo… – Ainda o apanhamos! / – Ainda o apanhamos!”.

O cristão é enformado pela alegria e pela esperança! A alegria de se saber amado e a esperança de saber que a vida é garantida pelo amor de Deus. Jesus desafia-nos a viver hoje. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado» (Mt 6, 34). Conhecemos a expressão latina “Carpe Diem”, que desafia a viver o presente com uma dose de irreverência e descontração, temperada com a responsabilidade pelos outros. Não é um propósito egoísta de quem esgota a vida, destruindo-se e aos outros, mas de quem gasta a vida por amor.

Não esperemos que o amanhã chegue! Já é dia, é Páscoa. Este é o tempo que Deus coloca nas nossas mãos para vivermos.

Vale a pena recuperar, e meditar, no desafio de São João XXIII:

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspeto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa ação e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exatamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: “Quero ser bom, hoje, sempre, com todos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/23, n.º 4605, 20 de abril de 2021

Monjas Dominicanas de Clausura: 50 Anos de Presença em Benguela

No dia 29 de março, comemorámos a abertura do Jubileu dos 50 anos da chegada das Monjas Dominicanas de Clausura a Benguela- Angola.

Foram 10 irmãs espanholas enviadas pela Serva de Deus, Madre Teresa Maria de Jesus Ortega OP do Mosteiro Madre de Dios” em Olmedo -Valladolid-Espanha, a pedido do primeiro bispo de Benguela, de feliz memória, D. Armando Amaral dos Santos

Partiram de Olmedo no dia 5 de março de 1972 para embarcar no “Príncipe Perfeito” desde Lisboa, rumo a Angola, e no dia de São José a 19 de março, pisaram o solo Benguelense no dia 29 do mesmo mês. Estas dez jovens Monjas cheias de ardor missionário, com desejo de doar as suas vidas nas terras angolanas, imediatamente começaram a dar frutos abundantes. No mesmo ano da sua chegada a Angola, depois de 4 meses, enviaram a primeira angolana a Espanha e, nos dois anos seguintes, outras cinco aspirantes. Muitas destas Irmãs já estão espalhadas por vários países, das quais também vieram 6 irmãs para reforçar a Comunidade das Monjas Dominicanas de Lamego do Mosteiro de Nossa Senhora da Eucaristia, de acordo com as duas Federações.

Desde este cantinho do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, onde se encontra o Mosteiro, damos graças a Deus que nunca abandona aqueles que a Ele se querem consagrar e dar-Lhe glória. É com júbilo que recordamos este dia, pois nascemos daquele “tronco do Mosteiro da Mãe de Deus de Benguela”, e aqui estamos para fazermos uma nova história, unidas às nossas três irmãs que aqui já se encontravam e que nos acolheram com muita alegria, em união com o povo de Deus de Lamego, apoiadas sempre pelo nosso Bispo, D. António Couto, os Rvdos. Padres Pe. José Abrunhosa e Pe. João Carlos e, igualmente, outros sacerdotes a quem queremos agradecer todo o apoio espiritual. Unidos nesta ação de graças, pedimos a vossa oração pela nossa perseverança ao serviço de Deus e da Diocese.

Irmã Maria da Glória O.P.

D. António Francisco: “consagrou o coração ao serviço dos outros”

O Município de Lamego prestou na manhã desta sexta-feira, 19 de março, uma sentida homenagem a D. António Francisco dos Santos, cidadão Honorário do Município de Lamego, falecido em 2017, cuja vida e empenho pastoral marcou indelevelmente a vida desta cidade e das suas gentes.

A cerimónia decorreu, primeiro, na rotunda do Centro Escolar n.º 1, local onde foi construído um memorial evocativo da sua passagem por Lamego com a inscrição “Os pobres não podem esperar”, proferida aquando da sua apresentação como Bispo do Porto, sendo marca indelével do seu percurso de vida. Neste local, deverá ser erguida uma escultura em tributo a D. António, de Francisco Laranjo, reputado artista plástico lamecense. “Da terra, erguer-se-á uma aliança que simboliza alguém que nos marcou muito”, explica o autor.

Logo a seguir, realizou-se uma sessão simbólica com a intervenção do Presidente da Câmara Municipal de Lamego e de diversas personalidades relevantes da vida política e religiosa portuguesa, em representação de instituições e locais, que se cruzaram, em algum momento, na vida de D. António Francisco e que quiseram, deste modo, associar-se ao tributo público do Município de Lamego. Todos os testemunhos foram unânimes em recordar e enaltecer a sabedoria, a simplicidade e a generosidade de um “padre e de um Bispo com um grande coração”. “Será com este espírito de D. António que, nestes tempos de dor e sacrifício para todos, em maior ou menor grau, mas também já de esperança, que nos devemos congregar na reconstrução de um futuro promissor, sempre com a maior incidência nos mais carenciados e desfavorecidos, em prol do nosso bem-estar coletivo”, afirmou Ângelo Moura.

Presente nesta sessão pública de homenagem, D. Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa e vigário geral da Diocese do Porto à data do falecimento de D. António Francisco, sublinhou que o homenageado foi sempre “um Homem de raízes que consagrou todo o seu coração ao serviço dos outros”. “Foi um Homem do Amor de Deus e, por causa disso, amava os pobres”, elogiou D. António Couto, Bispo de Lamego.

Nascido em 1948 em Tendais, concelho de Cinfães, o pontífice frequentou os seminários de Resende e de Lamego (onde concluiu o Curso Superior de Teologia), tendo sido ordenado padre em 1972. Tornou-se bispo em 2005, na Sé de Lamego, tendo sido distinguido, nesse mesmo ano, com a Medalha de Ouro desta Cidade, a mais alta distinção concedida pelo Município. D. António Francisco dos Santos sucedeu a D. Manuel Clemente na liderança da diocese do Porto, em fevereiro de 2014, tendo anteriormente passado pela arquidiocese de Braga, como bispo auxiliar, e pela diocese de Aveiro, como bispo titular.

Ricardo Pereira, in Voz de Lamego, ano 91/19, n.º 4601, 23 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Ao encontro de Abraão, da bênção e da paz

Por estes dias, de 5 a 8 de março, o Papa Francisco saiu, novamente, do Vaticano e deslocou-se ao Iraque, numa Viagem histórica, desejada por João Paulo II, mas só possível no pontificado atual. Tendo em conta o contexto sempre inseguro do Médio Oriente, tornou-se uma viagem com cuidados redobrados, acrescendo a isso o facto de estarmos a atravessar uma pandemia. Prevaleceu a vontade do Santo Padre e de todos quantos se empenharam nesta missão. Onde o Papa vai, vai com ele Jesus e o Evangelho, e uma mensagem de paz, de fraternidade e de bênção.

Um dos locais emblemáticos é a cidade de Ur, na Caldeia, atual Iraque, onde Abraão nasceu e viveu e de onde partiu para Canaã, respondendo ao chamamento de Deus. A figura de Abraão é incontornável para as três religiões (abraâmicas) monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Abraão é considerado o Pai da fé, por ter sido o primeiro, segundo a Bíblia, a acreditar num Deus único e pessoal. É uma herança comum. Há muitas mensagens e práticas que diferenciam os crentes das três grandes religiões, mas também há muitos pontos de contacto: a fé num Deus único, criador do Universo; o Patriarca Abraão, como pai na fé.

Abraão mostra que a prioridade da sua vida é Deus. Responde à Sua voz. Deixa a casa paterna, a pátria, sem saber para onde o Deus o guia, mas parte em total obediência e confiando totalmente no Senhor. Quando Deus lhe pede, como holocausto, o sacrifício do seu filho Isaac, Abraão, embora triste, porque era o filho da sua velhice, e que deveria perpetuar o nome e a descendência, não hesita, oferece-o a Deus. Se foi Deus quem lho concedeu, é a Deus que pertence.

Com Abraão, aprendemos que diante de Deus somos iguais. Não temos certificado de posse nem dos filhos, nem dos pais, nem do marido ou da esposa. Somos iguais. Somos filhos d’Ele, logo irmãos uns dos outros. Não temos direitos sobre os outros. Só Deus é Deus, só a Ele Lhe pertencemos realmente. E, porque Lhe pertencemos, não podemos ser escravizados nem instrumentalizados pelos outros e, da nossa parte, não podemos espezinhar ou desprezar os irmãos, porque o que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Ele que o fazemos.

Nem sequer a terra é nossa. Deus chama Abraão, promete-lhe uma descendência e uma terra. Mas tal como a descendência, também a terra que lhe é confiada não tem um certificado de posse, mas para cuidar e para que também a terra seja refúgio e sustento da sua descendência e de todos os povos. «Abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar… na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra». A voz de Deus faz-se ouvir: «Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças mal algum». Não matarás. Não levantarás a mão contra o teu irmão. Foi o pecado de Caim, o ciúme e a inveja, que levaram ao fratricídio, que destrói a fraternidade. A mensagem que o Papa levou ao Iraque, com ênfase a partir de Ur, é o da fraternidade. Somos irmãos. Somos filhos de Abraão na fé. Professamos a fé no mesmo Deus único e criador. A religião não pode ser fratricida. “Da terra do nosso pai Abraão, afirmamos que Deus é misericordioso e que a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão. Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. O Céu não se cansou da terra: Deus ama cada povo, cada uma das suas filhas e cada um dos seus filhos! Nunca nos cansemos de olhar para o céu, de olhar para estas estrelas… O sonho de Deus: que a família humana se torne hospitaleira e acolhedora para com todos os seus filhos; que, olhando o mesmo céu, caminhe em paz sobre a mesma terra”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/17, n.º 4599, 9 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Gastar as solas dos sapatos

Provocante desafio do Papa Francisco na mensagem para o 55.º Dia Mundial das Comunicações Sociais (disponível: www.diocese-lamego.pt), comemorado na Solenidade da Ascensão do Senhor ao Céu, este ano a 16 de maio, e divulgada na memória litúrgica de São Francisco de Sales, a 24 de janeiro.

O tema é clarividente: «‘Vem e verás’ (Jo 1, 46). Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são». Com efeito, “para poder contar a verdade da vida que se faz história (cf. Mensagem do 54.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2020), é necessário sair da presunção cómoda do «já sabido» e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspetos”.

“Jornais de fotocópia” é outra expressão forte do Papa que alerta para o risco de se fazerem jornais, noticiários de televisão, rádio e websites substancialmente iguais, feitos diante de um ecrã, sem ir ao encontro de pessoas e de acontecimentos, secundarizando as entrevistas e a investigação, numa troca de informação pré-fabricada, autorreferencial. O contraponto é sair e ir ao encontro das pessoas, procurar as suas histórias, ver em primeira mão, olhos nos olhos, sem filtros.

É fundamental promover a cultura do encontro, gastar as solas dos sapatos, pôr-se a caminho. Ir e ver. Vinde e vede (Jo 1, 39), diz Jesus àqueles que O querem conhecer. “A fé cristã começa assim; e comunica-se assim: com um conhecimento direto, nascido da experiência, e não por ouvir dizer”.

O desafio é comunicar, encontrando as pessoas onde estão, como são, conhecê-las no concreto, com os seus sofrimentos e com os seus sonhos e projetos. Paulo de Tarso, diz-nos o Papa, se vivesse no nosso tempo usaria o e-mail e as redes sociais para comunicar, mas atrai os seus contemporâneos pela sua fé, esperança e caridade.

A palavra é importante, Jesus é a Palavra de Deus que encarna, fazendo-Se um de nós e deixando-Se ver, ouvir e tocar. Com Ele, a comunicação faz-se pelas palavras, mas é essencial o olhar, o tom de voz, os gestos, o toque, a carícia. Na comunicação nada substitui o encontro pessoal, o ir e ver, experimentar, contar as histórias concretas, sublinhar as histórias positivas. É crucial também neste tempo da pandemia, verificar as expetativas e a realidade da vacinação e da cura nas aldeias tão recônditas da Ásia, América Latina e África. Ir e ver e não apenas observar à distância sem conferir a veracidade das notícias que nos vendem. Os mais indigentes correm o sério risco de ficar novamente esquecidos, na vacinação e nos apoios.

“Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, pelas informações que damos, pelo controlo que podemos conjuntamente exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar”.

A oração do Papa, a finalizar a Sua Mensagem:

“Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos, / e partir à procura da verdade. / Ensinai-nos a ir e ver, / ensinai-nos a ouvir, / a não cultivar preconceitos, / a não tirar conclusões precipitadas. / Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém, / a reservar tempo para compreender, / a prestar atenção ao essencial, / a não nos distrairmos com o supérfluo, / a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade. / Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo / e a honestidade de contar o que vimos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/11, n.º 4593, 26 de janeiro de 2021

Semente de esperança!…

Mensagem do Departamento Nacional da Pastoral Familiar por ocasião da Festa da Sagrada Família, 2020

Ao observar e contemplar a Sagrada Família de Nazaré, esta aparece como testemunho, exemplo e inspiração para todas as famílias, sobretudo para as famílias cristãs. 

 Em tempo de pandemia, tempo de incertezas e sofrimentos, a Família de

Nazaré é fonte de conforto e de coragem, sobrepondo-se aos medos que nos paralisam e nos impedem de acolhermos a novidade do Deus que mergulha na história da humanidade. Ela manifesta uma renovada esperança e convida-nos a sermos portadores da Boa Nova que veio até

nós pela encarnação do Verbo de Deus. 

A Sagrada Família de Nazaré, é escola de virtudes, vivendo a fidelidade a

Deus no seu quotidiano mostram a bondade de coração, a esperança sempre nova, a alegria de se sentirem amados, a responsabilidade da sua missão, o sentido e a prática da justiça e da paz. As virtudes da Sagrada Família fazem-nos olhar com confiança e expectativa de que a comunidade humana e cristã se constrói no amor generoso, humilde e simples. Nas nossas lutas e inquietações, nas dificuldades e desalentos a Sagrada família surge como uma oportunidade de graça e de confiança, para percebermos a vida

como uma missão e crescermos em coesão familiar. 

A Sagrada família interpela as nossas famílias de hoje a uma vida de paz, de serviço,

de acolhimento, de entrega, de escuta dos necessitados, de se questionarem perante os desafios diários, de não fugirem às dúvidas que invadem os seus lares. Só à luz da Sagrada Família é possível que a novidade do evangelho inunde o coração das famílias e busquem a beleza do encontro de uns com os outros, de modo que cada membro se sinta participante da construção da “igreja doméstica”. Cada membro da família é um tesouro para os outros, é algo de maravilhoso, é uma riqueza sem medidas, porque todos se amam e fazem da sua vida um dom, ao jeito de Jesus Maria e José. 

Está nas mãos das famílias uma extraordinária missão! Cultivar a paciência e infundir esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Carta a S. José.

Todas as famílias experimentam, com certeza, que não são perfeitas, mas podem aperfeiçoarem-se cada vez mais no amor transformador, o mesmo é dizer, desejarem a santidade. As fraquezas e fragilidades fazem parte da realidade humana, no entanto, o Senhor não nos condena, mas sim acolhe-nos, abraça-nos, ampara-nos, perdoa-nos. A Verdade apresenta-se-nos sempre como o Pai misericordioso da parábola (cf. Lc 15, 1132): vem ao nosso encontro, devolve-nos a dignidade, levanta-nos, organiza uma festa para nós, dando como motivo que «este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado». (cf. Lc 15, 24). Carta a S. José.

Que a Sagrada Família seja, para cada família, proteção e auxílio e que a paz e entendimento sejam o projeto de toda a existência, para que juntos caminhemos em busca da concórdia e do bem da humanidade.

Editorial da Voz de Lamego: São José, com coração de Pai

São José está estreitamente ligado à economia da salvação. No passado dia 8 de dezembro, completaram-se 150 anos da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX, em 8 de dezembro de 1870. Face a esta efeméride, o Papa Francisco convocou um ano para refletir especialmente sobre São José e o seu papel na vida da Igreja e dos cristãos, como exemplo de um homem simples e discreto. Ele passaria ao lado dos grandes títulos de jornais, tal como tantos homens e mulheres que no anonimato transformaram e continuam a transformar o mundo com o seu compromisso, optando pelo bem e pela verdade, prosseguindo a justiça e a paz, no serviço aos irmãos e no cuidado para com os mais desfavorecidos.

Ao convocar o Ano de São José (de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021), o Papa brindou-nos com uma Carta Apostólica, Patris Corde (Com o coração de Pai), enquadrando a importância de São José, como Pai adotivo de Jesus, esposo da Virgem Maria, Padroeiro dos operários, invocado para uma tranquila e boa morte, confiando-nos à Sua intercessão nas contrariedades da vida, imitando-O na delicadeza, na fidelidade à vontade de Deus, na escuta atenta do Senhor, no cuidado decidido de Jesus e de Nossa Senhora.

“Os meus antecessores aprofundaram a mensagem contida nos poucos dados transmitidos pelos Evangelhos para realçar ainda mais o seu papel central na história da salvação: o Beato Pio IX declarou-o «Padroeiro da Igreja Católica», o Venerável Pio XII apresentou-o como «Padroeiro dos operários»; e São João Paulo II, como «Guardião do Redentor». O povo invoca-o como «padroeiro da boa morte»”.

“Na parte inferior [do brasão do Papa Francisco], estão a estrela e a flor de nardo. A estrela, segundo a antiga tradição heráldica, simboliza a Virgem Maria, mãe de Cristo e da Igreja; a flor de nardo indica são José, padroeiro da Igreja universal. Com efeito, na tradição iconográfica hispânica, são José é representado com um ramo de nardo na mão. Colocando estas imagens no seu brasão, o Papa pretendeu expressar a sua devoção particular à Virgem Santíssima e a São José”.

O Santo Padre iniciou o pontificado no dia de São José, a 19 de março de 2013. Por outro lado, tem uma imagem de São José a dormir e, como já explicou, quando tem um problema ou dificuldade escreve num papelinho e coloca debaixo da imagem, para que São José sonhe e reze por essa dificuldade.

Nesta Carta Apostólica, o Papa apresenta, de forma mais sistematizada, as suas reflexões sobre São José, meditadas ao longo do tempo. A partir de vários títulos, apresenta-nos São José e desafia-nos a imitá-l’O: Pai amado; Pai de ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador, e Pai na sombra.

“A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Dia após dia, José via Jesus crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer (cf. Os 11, 3-4). Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sal 103, 13)”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/06, n.º 4588, 15 de dezembro de 2020