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Archive for the ‘Igreja’ Category

Editorial Voz de Lamego: A Igreja de Francisco

Antes de mais, quero dizer com alegria: o Papa Francisco é o meu Papa. E para enunciar as suas qualidades não preciso de contrapor a outro Papa, canonizando um e diabolizando outro. Creio que os detratores de um são sensivelmente os detratores do outro, ou pelo menos, aqueles que mais pedras colocam no seu caminho, pois a predisposição para se servir da Igreja não desaparece. Quando muito poderiam estar sonolentos, saciados, refastelados, a serem servidos. Outro tempo, algumas mudanças, e, como no tempo de Cristo, os adormecidos começam a acordar, a ver que não têm o lugar seguro, ou que o testemunho os expõe perante as pessoas, perante o mundo, pois a distância na postura não deixa margens para dúvidas.

Eleito uns dias antes (13 de março), o Papa Francisco dava início ao seu pontificado a 19 de março de 2013, há 6 anos, Solenidade de São José, colocando o seu pontificado sob o protetorado do Padroeiro Universal da Igreja.

Os primeiros dias do seu pontificado ficaram marcados pelas suas palavras no início do conclave que viriam a elegê-lo como 266.º Papa da Igreja, defendendo que a Igreja deveria ser Igreja em saída, e não autorreferencial. Uma Igreja lunar que reflete a luz de Cristo e não a luz própria e, como Ele, ir em busca das 99 ovelhas que andam arredias, ir às preferiras (também geográficas, mas sobretudo) existenciais. Prefiro, diria várias vezes o Papa argentino, uma Igreja acidentada por sair que uma Igreja adoentada por ficar!

Nem de Apolo nem de Paulo nem de Pedro, a Igreja de Francisco é a Igreja de Jesus Cristo, o Bom Pastor que toma sobre si o cuidado de todo o rebanho, como servo dos servos de Deus, com a responsabilidade de guiar o caminho de todos, como candeia que vai à frente a iluminar o caminho, e vem atrás para dar ânimo às ovelhas perdidas, desgarradas, desencontradas.

É conhecido o episódio em que Francisco de Assis percebe a voz de Deus: reconstrói a minha Igreja. Francisco de Assis levou a sério esta inspiração. Mais importante que as estruturas e os meios, ainda que importantes, terão de ser as pessoas. Uma Igreja pobre, imitando Cristo, para os pobres.

Como o próprio já o referiu, a simplicidade não significa ingenuidade. O Papa está ciente que audiências gerais com alguns homens poderosos não passam de charme, mas não pode deixar de anunciar a todos o Evangelho de Jesus Cristo: a ternura e a compaixão, o perdão e a justiça, a misericórdia e o amor, o serviço e cuidado sobretudo aos mais frágeis, sem excluir ninguém, optando pelas pontes ao invés dos muros, escolhendo a verdade e a justiça ao invés da hipocrisia e a da acomodação.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/16, n.º 4502, 19 de março de 2019

Editorial da Voz de Lamego: São José, Padroeiro Universal da Igreja

O Santo Padre tem, nos seus aposentos, na Casa de Santa Marta, uma imagem de São José a dormir. Completam-se amanhã, 13 de março, 6 anos da Sua eleição para Papa. O Papa argentino marcou o início do seu pontificado para a solenidade de São José, a 19 de março, que caiu a uma terça-feira, tal como em 2019. Dessa forma, quis assinalar a importância de São José na vida de Jesus e de Maria, e na vida da Igreja.

Na parte inferior do seu brasão episcopal, atualizado para brasão papal, “estão a estrela e a flor de nardo. A estrela, segundo a antiga tradição heráldica, simboliza a Virgem Maria, mãe de Cristo e da Igreja; a flor de nardo indica são José, padroeiro da Igreja universal. Com efeito, na tradição iconográfica hispânica, São José é representado com um ramo de nardo na mão. Colocando estas imagens no seu brasão, o Papa pretendeu expressar a sua devoção particular à Virgem Santíssima e a são José”.

Na imagem que mandou vir da Argentina, São José dorme, sonha, escuta Deus, vigia a Igreja. Quando tem que tomar alguma decisão importante, o Papa coloca um papelinho debaixo da imagem, pedindo a solicitude de São José. E, assim, quando chega a altura de decidir, sabe que está bem orientado.

No Evangelho, São José não aparece muitas vezes. E não conhecemos que palavras poderá ter proferido. Mas não é de estranhar, pois o Evangelho refere-se a Jesus Cristo, fundamentalmente à Sua paixão redentora a desembocar na Páscoa. Ele é o centro e o ponto de onde irradia toda a missão. Os apóstolos surgem ligados a Ele, como os ramos da videira à respetiva cepa. Maria, Sua Mãe, aparece em alguns momentos, sempre referida a Jessu. Tendo-Lhe sobrevivido, acompanhando-O até ao Calvário, permanecendo junto à Cruz, é óbvio que a visibilidade de Maria é mais notória, sendo que também a Sua missão é diferente. Contudo, há dados significativos em relação a São José que importa sublinhar e imitar.

Extrapolando um pouco, quando Jesus fala do Pai, da Sua bondade e da Sua misericórdia, da Sua ternura e do Seu amor, certamente que se inspira no Seu Pai adotivo, São José. Na perda e encontro de Jesus no Templo, Maria dá-nos conta da preocupação comum, sua e do esposo (cf. Lc 2, 41-51). Antes, no quadro do nascimento de Jesus (cf. Mt 1, 18-24), revela-se a sua sensatez: tomando consciência da gravidez de Maria, sem que tivesse convivido com Ela, decide repudiá-la em segredo, evitando difamá-la e açambarcando com a responsabilidade. Mas Deus, através do sonho, desafio-o a fazer mais, a ser cuidador de Maria e Jesus, protegendo-os com o seu nome e com a sua vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/15, n.º 4501, 12 de março de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Arrependimento e perdão

Iniciamos o tempo santo da Quaresma, através da qual nos preparamos para celebrar o mistério maior da nossa fé, a Páscoa do Senhor, tomando consciência do Amor com que Deus Se manifestou em Cristo para nossa salvação. “De Páscoa em Páscoa, diz-nos o Papa Francisco, na Sua mensagem para esta Quaresma, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo”.

Valerá a pena ler as mensagens do Papa e do nosso Bispo para esta Quaresma. Em todo o caso, gostaria de refletir convosco alguns dos pontos com que Francisco quer ajudar-nos a viver melhor este tempo de graça. Com efeito, diz o Papa, “a celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 14) é dom inestimável da misericórdia de Deus”.

A mensagem pontifícia parte da Carta aos Romanos (8, 19): “A criação encontra-se em expetativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus”. O papa, uma vez mais, envolve toda a criação na vivência do mistério pascal. A mensagem foi assinada a 4 de outubro, festa litúrgica de São Francisco de Assis, que estendeu a fraternidade à natureza, aos animais, ao Sol e à Lua. São Paulo, por sua vez, ressalva que toda a criação beneficia da redenção operada por Jesus Cristo. O ser humano que vive como filho de Deus e se deixa guiar pelo Espírito Santo multiplicará na criação os frutos da graça recebida.

Pelo contrário, “quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como muito bem nos apraz… Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais”.

É necessário de passar da morte à vida e, partindo da consciência do pecado, predispormo-nos a acolher a santidade que nos é dada em Cristo. É preciso assumirmo-nos como filhos de Deus, “nova criação”, impelidos para este “parto” através da conversão, em que toda a criação é chamada a sair “da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Cabe-nos “fazer Páscoa” e “o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal”. Jejuar, orar e dar esmola, predispõe-nos a amar a Deus, no cuidado dos irmãos e da criação inteira.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/14, n.º 4500, 5 de março de 2019

Editorial Voz de Lamego: Cristo, Luz do Oriente, ao centro

Antes de mais, quero dizer com alegria: o Papa Bento XVI foi o meu Papa (de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013). Como cristão, sacerdote, professor, teólogo, como Bispo e Cardeal, como responsável máxima do Dicastério da Doutrina da Fé, procurou ser fiel a Jesus Cristo e à Igreja. Foi uma ajuda preciosa ao ministério petrino de João Paulo II, trabalhando discretamente.

Na Visita Apostólica a Portugal, no Porto, Bento XVI reafirmava o essencial para os cristãos: partir de Cristo e encaminhar-se para Cristo (14/05/2010). Foi também esse o mote da primeira hora. Na homilia em que assumiu a Cátedra de Pedro, Bento XVI deixava claro: “O meu verdadeiro programa de governo é não fazer a minha vontade, não perseguir ideias minhas, pondo-me contudo à escuta, com a Igreja inteira, da palavra e da vontade do Senhor e deixar-me guiar por Ele, de forma que seja Ele mesmo quem guia a Igreja nesta hora da nossa história” (24 de abril de 2005)

“A caridade na verdade”. Servir a Igreja e a humanidade, transparecer Cristo, que não nos rouba nada… dar Cristo aos outros… No conclave que o viria a eleger, o então futuro Papa referia-se ao relativismo, para sublinhar, que também hoje, a Igreja e os cristãos têm a missão (e a obrigação) de testemunhar a verdade de Cristo e do Evangelho, não para excluir, condenar ou julgar os outros, mas para reafirmar o Caminho, a Verdade e a Vida. O problema não é saber para onde vou, ainda que com as minhas fragilidades, limitações e hesitações, o problema é mesmo não saber. O diálogo só é possível quando há convicções. E então sim, o diálogo com ateus, agnósticos, com crentes de outras confissões cristãs e de outras religiões… integrar, incluir aqueles que foram excluídos ou que se excluíram, com humildade e com a sabedoria do coração.

Firmeza nos princípios, na procura da verdade e da justiça. E como vimos, isso trouxe-lhe oposição. Na via-sacra, em 2005, ainda sob o pontificado de João Paulo II, o então Cardeal Ratzinger explicitara: “Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas! Tudo isto está presente na sua paixão. A traição dos discípulos… que Lhe trespassa o coração”. Aquilo que então denunciava e que provocou calafrios, viria a revelar-se demasiado preocupante e escandaloso, mas que mereceu o maior cuidado e atenção, para repor a verdade, refazer, quanto possível, a justiça, ressarcir as vítimas, afastar os violadores.

Bento XVI preparou a Igreja para Francisco.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/13, n.º 4499, 26 de fevereiro de 2019

Editorial Voz de Lamego: passar do Like ao Ámen

Foi publicada, no dia 24 de janeiro, memória litúrgica de São Francisco de Sales, Padroeiro dos Jornalistas, a Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se comemora no domingo anterior à Solenidade de Pentecostes, isto é, na Solenidade da Ascensão do Senhor, este ano a 2 de junho. O tema já tinha sido divulgado a 29 de setembro de 2018: “Somos membros uns dos outros (Ef 4,25) – Das comunidades de redes sociais à comunidade”.

As redes sociais podem roubar-nos à família, aos amigos, à sociedade e à Igreja. A comodidade do sofá, com o mundo acessível num pequeno ecrã, as relações à distância, o sério risco de se estarmos tão perto e não haver comunicação autêntica! «Enquanto a sociedade se torna mais globalizada, faz-nos vizinhos mas não nos faz irmãos» (Bento XVI, Caritas in Veritate).

Quem lê as mensagens do Papa Francisco, discursos, intervenções, homilias, ou o escuta (bem diferente das muitas palavras que lhe são atribuídas mas que muitas vezes nem sequer respeitam o seu pensamento), está habituado à utilização de imagens bem atuais e que permitem focar-nos em alguns pontos essenciais. A temática da mensagem já é sugestiva: somos membros uns dos outros! Um olhar rápido pela mensagem e pela ressonância que os meios de comunicação social fizeram da mesma e salta à vista o último subtítulo: “Do like ao ámen”. E se o “ámen” pode remeter-nos mais para o passado, ou para o intimismo religioso, o “like” está disponível para todos, crianças, adolescentes, jovens, adultos (e muitos idosos), todos prontos a “likear” publicações, esperando receber muitos “likes” nas próprias publicações e partilhas.

O Papa Francisco começa por sublinhar que a Internet é uma mais-valia, que bem aproveitada pode, efetivamente, tornar-nos mais próximos e mais disponíveis para ir ao encontro dos mais desfavorecidos. Mas também aponta os riscos, como o cyberbullying, no qual, segundo as estatísticas, um em cada quatro adolescentes está envolvido.

A rede, continua o Papa, “funciona graças à comparticipação de todos os elementos”. A metáfora da rede lembra a comunidade: “Uma comunidade é tanto mais forte quanto mais for coesa e solidária, animada por sentimentos de confiança e empenhada em objetivos compartilháveis”. Sermos membros uns dos outros deve conduzir-nos à verdade e à comunhão, fortalecendo o mesmo Corpo que integramos.

E o Papa conclui: “Esta é a rede que queremos: uma rede feita, não para capturar, mas para libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres. A própria Igreja é uma rede tecida pela Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [«like»], mas na verdade, no «ámen» com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/09, n.º 4495, 29 de janeiro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Para que todos sejam um

Este pedido integra a Oração Sacerdotal de Jesus (Jo 17). Quando se aproxima a hora em que vai ser entregue, julgado e morto, quando se aproxima o tempo de passar deste mundo para a eternidade, Jesus dirige a Sua súplica ao Pai. É parte essencial do Seu testamento (espiritual), segundo o evangelho joanino. “Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em nós e o mundo creia que Tu Me enviaste”.

A prece de Jesus transparece a unidade também numa perspetiva de testemunho e de fé.

No nosso tempo, as divisões sociais, políticas, culturais são evidentes, mas também as cisões motivadas pelas religiões. No cristianismo, ainda ao tempo da formação do Novo Testamento, encontramos a disputa entre São Pedro e São Paulo, motivando o que muitos consideram o Concílio de Jerusalém (Atos 15). Neste encontro de apóstolos e discípulos sobrevém o diálogo, o amadurecimento da fé e um salto na interpretação do Evangelho de Jesus. Novos contextos e a necessidade de encarnar o Evangelho como Cristo encarnou para habitar entre nós.

Para haver conflito basta haver duas pessoas! Por mais que estas consigam sincronizar nos pensamentos, nos gestos, nos gostos, haverá momentos de tensão, de discordância, de amuos e incompreensões ou desatenções. Esses momentos podem ser oportunidade de crescimento, salto qualitativo na relação, mas podem provocar afastamentos e ruturas mais definitivas.

A Igreja, constituída por pessoas, tem sofrido, ao longo do tempo, cismas, divisões, disputas. No século XI (1054), o cristianismo sofre a primeira grande divisão, com a Igreja Católica, a Ocidente, em comunhão com o Papa, e a Igreja Ortodoxa, sob o pastoreio dos Patriarcas. No século XVI, nova grande divisão, com a Igreja Protestante nos seus vários rostos e diferentes identidades, por um lado, e a Igreja Católica, por outro.

Construir leva muito tempo, destruir pode ser um instante, reconstruir, quando se trata de pessoas, pode levar uma eternidade.

Vivemos a Semana (Oitavário) de Oração pela Unidade dos Cristãos (18 a 25 de janeiro), procurando responder à súplica de Jesus, para que todos sejam um, na certeza que só assim poderemos testemunhar com luminosidade a fé que nos une enquanto cristãos. Têm sido dados passos importantes. Encontros de oração em comum. Movimentos que refletem e promovem esta unidade, como a Comunidade de Taizé ou os Focolares; assinatura de declarações em que as diferentes Igrejas se reconhecem mutuamente e abrindo portas ao diálogo, ao compromisso pela paz, pela justiça, no empenho social a favor dos mais pobres, dos refugiados, dos migrantes.

É importante não esquecer a necessidade de todos nos convertermos (constantemente) a Jesus Cristo na certeza que quanto mais perto estivermos de Jesus mais perto vamos estar uns dos outros, individual e comunitariamente.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/08, n.º 4494, 22 de janeiro de 2019

São Sebastião… contra fome, a guerra e a peste

Em tempos idos, era muito frequente, nas nossas casas, após a recitação do Terço, invocar São Sebastião para interceder aos céus que nos livrasse da fome, da guerra e da peste. Por causa de toda esta devoção, este santo tornou-se muito popular embora a sua vida seja pouco conhecida. Há muitas igrejas, capelas e ermidas que lhe são dedicadas e são inúmeras as festas que lhe são promovidas. Foi sobretudo por alturas das pestes do século XVI que a sua fama começou a difundir-se. As cidades de Milão, em 1575, e de Lisboa, em 1569, acometidas por este flagelo, viram-se livres dele após atos públicos de súplica a este grande mártir.

Conta-se que, quando terminou a peste que assolou a capital portuguesa, o rei D. Sebastião mandou erigir um templo em sua honra, sendo a primeira pedra lançada junto à margem do Tejo, no Terreiro do Paço. Quatro anos depois (1573), o Papa enviou-lhe de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.

A sua popularidade pode ser avaliada pelas largas dezenas de povoações de que é padroeiro. D. Sebastião foi, aliás, baptizado com o seu nome, em 1554, por ter nascido a 20 de Janeiro, dia em que se assinala a morte do mártir.

O braço de São Sebastião, conforme refere a Crónica do Padre Amador Rebelo, terá sido furtado em Itália. Foi, depois oferecido, em 1527, por Carlos V, Imperador da Alemanha, a D. João II, que o mandou depositar no Mosteiro de São Vicente de Fora,

São Sebastião nasceu em Narvonne, na actual França, no final do século III. Desde muito cedo, os seus pais ter-se-ão mudado para Milão. Seguindo o exemplo da mãe, Sebastião revelou-se forte e piedoso na fé.

Ao chegar à maioridade, alistou-se nas legiões de Diocleciano, que ignorava que Sebastião era cristão.

A prudência e a coragem do jovem militar impressionaram de tal modo o Imperador que o nomeou comandante da sua guarda pessoal.

Nesta posição, Sebastião viria a tornar-se o grande defensor e protector dos cristãos detidos em Roma naquele tempo.

Visitava com frequência as vítimas do ódio anticristão, e, com palavras de ânimo, consolava os candidatos ao martírio aqui na terra, dizendo-lhes que receberiam a coroa de glória no Céu.

Secretamente, conseguiu converter muitas pessoas. Até o governador de Roma, Cromácio, e o seu filho Tibúrcio foram convertidos.

Acontece que acabou por ser denunciado por estar a contrariar o seu dever de oficial da lei romana. Teve, então, que comparecer diante do Imperador.

Diocleciano sentiu-se traído e ficou perplexo ao ouvir Sebastião declarar-se cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao Cristianismo, mas Sebastião defendeu-se com firmeza.

O Imperador, enfurecido diante dos argumentos, terá ordenado aos seus soldados que o matassem a golpes de flecha. Tal ordem foi imediatamente executada. Num descampado, os soldados despiram-no, amarraram-no a um tronco de árvore e atiraram sobre ele uma chuva de flechas. Depois, tê-lo-ão abandonado para que sangrasse até à morte.

À noite, Irene, esposa do mártir Castulo, foi, com algumas amigas, ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que ele ainda estava vivo. Desamarraram-no e Irene escondeu-o em sua casa, cuidando das suas feridas.

Passado algum tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar a missão evangelizadora. Em vez de se esconder, apresentou-se de novo ao Imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos.

Diocleciano ignorou olimpicamente as advertências de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos e determinou que fosse espancado até a morte.

Para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos, atiraram-no para o esgoto público de Roma. Só que uma piedosa mulher, Luciana, sepultou-o nas catacumbas.

Tudo isto aconteceu no dia 20 de Janeiro de 287. Mais tarde, em 680, as suas relíquias foram solenemente transportados para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, onde se encontram até hoje.

Naquela época, uma terrível peste devastava Roma, vitimando muitas pessoas. Desapareceu completamente a partir do momento da trasladação dos restos mortais deste mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, a fome e a guerra.

 

Pe. João António Pinheiro Teixeira, in Voz de Lamego, ano 89/07, n.º 4493, 15 de janeiro de 2019