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Archive for Setembro, 2015

Pe. Manuel João | Juventude dada por Deus e oferecida a Deus

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A notícia correu célere na manhã de 23 de Setembro: o Padre Manuel João fora encontrado sem vida na residência paroquial de Vilarouco, S. João da Pesqueira, onde residia há quatro anos, os mesmos que levava de sacerdócio e de pároco daquela terra, a que se juntava ainda a paroquialidade de Valongo dos Azeites, Pereiros e Vale de Figueira.

As autoridades chamadas ao local e a posterior autópsia confirmaram causas naturais para a sua repentina morte: o Pe. Manuel João terá sido vítima de um ataque de epilepsia que lhe provocou uma morte por asfixia. Também naquela residência, há quatro anos, havia falecido o Padre António Samuel Teixeira da Silva, com 47 anos, vítima de ataque cardíaco. Mas o Pe. Manuel João sentia-se ali bem e era muito acarinhado pelos seus paroquianos, tal como se confirmou nas horas e dias que seguiram ao triste anúncio.

O Pe. Manuel João Nogueira Amaral, nascido a 14 de Julho de 1985, em Penedono, era filho de Luís Duarte Amaral e de Virgínia de Carvalho Nogueira Amaral. Depois de ter frequentado os Seminários diocesanos, foi ordenado Diácono, na Sé de Lamego, a 08 de dezembro de 2010 e presbítero a 17 de julho de 2011, no mesmo local, por D. Jacinto Botelho.

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No dia 22 de Setembro, o Pe. Manuel João participou em mais um encontro de padres novos, os ordenados nos últimos dez anos, em Vila Nova de Paiva. Um encontro reconfortante para todos, preenchido com momentos de oração e de partilha fraterna. Nessa manhã, aproveitando o bom tempo, fomos até à pista de karting existente naquela vila e divertimo-nos durante meia hora, dando voltas a um circuito que a todos animou. Como sempre, a boa disposição e a simpatia do Pe. Manuel João estiveram presentes e era vê-lo a dominar com destreza a pequena máquina e a ultrapassar concorrentes mais lentos. Seguiu-se o almoço, para o qual convidámos o pároco da terra, Pe. Justino Lopes. A conversa fluiu com normalidade e o Pe. Manuel João, ia dando conta da sua missão pastoral por aquelas terras onde se sentia acarinhado. E depois do café, a partida. O Pe. Manuel João viera à boleia com o Pe. José Filipe e com ele regressou. No dia seguinte a triste notícia. A última refeição do Pe. Manuel João havia sido connosco.

O seu corpo, vindo da medicina legal de Vila Real, chegou a Vilarouco ao início da tarde do dia 24 e ali foi celebrada a Eucaristia em seu sufrágio. O mesmo aconteceu ao fim da tarde, pelas 19h, já na sede da Associação dos Bombeiros Voluntários de Penedono, da qual era membro activo, e onde ficou em câmara ardente até à manhã do dia seguinte, quando dali foi levado aos ombros de bombeiros e sacerdotes para a igreja matriz, onde foi celebrada a Eucaristia exequial. Presidiu D. António Couto, acompanhado por D. Jacinto Botelho, cerca de cem sacerdotes, alguns das dioceses vizinhas de Guarda, Bragança, Vila Real e Viseu, e uma multidão que encheu a igreja e o adro de Penedono.

Na homilia, o nosso bispo falou do tempo que nos é dado para vivermos de forma intensa, celebrando o amor de Deus. Um tempo mais ou menos longo, mas sempre na dependência do Seu autor que cuida de nós, os Seus “filhinhos”. E sublinhou esta separação, que não é definitiva, mas apenas por algum tempo: em Deus encontrar-nos-emos depois. Até lá, o convite para que cada um, à sua maneira, vá preenchendo os vazios de amor, de afecto e de carinho que que se estabelecem entre nós. A exemplo do Padre Manuel João que, com a sua disponibilidade, alegria e generosidade foi preenchendo vazios e estabelecendo pontes por onde passou e entre quantos conheceu, qual “juventude dada por Deus e oferecida a Deus”.

Antes da caminhada até ao cemitério, em nome dos sacerdotes, o Padre Miguel Peixoto leu um texto da autoria do Pe. Manuel João e um quadro com a sua fotografia foi oferecido à mãe, D. Virgínia.

A nossa oração.

JD,  in Voz de Lamego, ano 85/44, n.º 4331, 29 de setembro

Nas mãos de Deus: Pe. Mário Ferreira Lages | 1936-2015

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No passado dia 25, na paróquia do Touro, Vila Nova de Paiva, foi a sepultar o Padre Mário Ferreira Lages, falecido no dia anterior, em Lisboa, onde vivia há bastantes anos e para onde fora a convite da Universidade Católica portuguesa, onde se destacou pelo saber e competência na área da Sociologia.

O Padre Mário Ferreira Lages era filho de António Ferreira e de Júlia Ferreira Lages e nasceu no Touro, Vila Nova de Paiva, no dia 05 de março de 1936. Frequentou os nossos Seminários diocesanos e foi ordenado Diácono, na capela do Seminário, a 31 de maio de 1958. No mesmo local, mas a 07 de Setembro de 1958, foi ordenado Sacerdote pelo bispo de então, D. João da Silva Campos Neves. O Pe. Mário era condiscípulo de D. Jacinto Botelho.

Após a ordenação, o Pe. Mário Lages foi enviado para Roma, onde prosseguiu estudos superiores na área da Sociologia. Em outubro de 1962 foi nomeado professor no Seminário Maior de Lamego, cujas novas instalações haviam sido inauguradas no ano anterior. Mercê do seu enorme saber e preparação académica, foi este sacerdote do nosso presbitério convidado a integrar o grupo docente da recém-aberta Universidade Católica Portuguesa, onde se destacou na sua missão, nomeadamente através do centro de sondagens que ajudou a nascer, a crescer e a impor-se no panorama nacional.

A Eucaristia exequial foi presidida por D. António Couto e contou com a presença de D. Jacinto, vários sacerdotes e muitos fiéis leigos que se juntaram na igreja paroquial do Touro para louvar o Senhor e agradecer a vida deste irmão sacerdote. Na homilia, o nosso bispo recordou-nos que a nossa vida está enxertada em Jesus Cristo, que a todos ama e que com todos conta, Ele que é a chave da nossa vida. Nesse sentido, sublinhou a singular existência do Pe. Mário Lages e a fecunda vida sacerdotal que protagonizou e a quem a doença acompanhou nos últimos anos, sem deixar de agradecer todo o seu contributo à Igreja de Lamego a quem serviu e ao Seminário Maior, de quem foi destacado benfeitor.

Antes da bênção final e do acompanhamento ao cemitério local, um dos seus conterrâneos, Padre Justino Lopes, recordou também a sensibilidade artística do Padre Mário, nomeadamente a sua veia poética, tendo, a esse propósito lido alguns versos.

A nossa oração.

JD,  in Voz de Lamego, ano 85/44, n.º 4331, 29 de setembro

ABERTURA DO ANO PASTORAL | Seminário Maior de Lamego | sábado

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No próximo dia 3 de outubro de 2015, far-se-á a ABERTURA DO ANO PASTORAL 2015-2016 da Diocese de Lamego, no Seminário Maior de Lamego.
Entendeu-se que o Plano Pastoral da Diocese deveria ser apresentado no início de cada ano pastoral. Assim, tal como no último ano, também neste, teremos oportunidade de refletir sobre as linhas orientadoras, propostas pastorais, metas a atingir, durante o novo ano Pastoral, na ambiência do lema proposto por D. António Couto:

IDE E FAZEI DA CASA DE MEU PAI CASA DE ORAÇÃO E DE MISERICÓRDIA

Programa:
  9h30 – Acolhimento
  9h45 – Oração da Manhã
10h00 – Apresentação da Carta Pastoral de D. António Couto, pelo Próprio
11h00 – Pausa para o café
11h30 – Apresentação das linhas orientadoras do Plano Pastoral,
              pelo Coordenador da Pastoral da Diocese, Pe. José Melo (cônego)
12h15 – Troca de impressões
12h30 – Almoço e Encerramento
A ABERTURA do ANO PASTORAL tem como destinatários os SACERDOTES e os diferentes AGENTES PASTORAIS.
O almoço será servido pelo Seminário e terá um custo de € 5,00.
As inscrições devem ser feitas até dia 30 de setembro (quarta-feira), para a Cúria Diocesana ou para o Seminário Maior de Lamego.

COLABORAR E COMPROMETER-SE | Editorial Voz de Lamego | 29/09

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A edição da Voz de Lamego, semanalmente, traz-nos um conjunto de notícias e de reflexões que nos sintoniza com o mundo e com a Igreja, em particular com a região e com a diocese, com a cultura, a história, a religião. Esta semana destaca-se de forma particular a Viagem Apostólica do Papa Francisco a Cuba e aos EUA, tendo discursado no Senado norte-americano, na sede das Nações Unidas (ONU) e encerrando o encontro mundial das Famílias em Filadélfia. Outros destaques deste número: a morte do Padre Manuel João, e também do Padre Mário Lages; a entrada dos novos párocos, a entrevista a D. Jacinto por ocasião do seu 80.º aniversário natalício.

O Editorial, do nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, desafia-nos a seguir Jesus comprometendo-se totalmente com o anúncio do Evangelho, em palavras e obras. Não basta colaborar, é urgente comprometer-se com a vida toda. O Editorial convoca-nos também para a abertura do Ano Pastoral, no próximo sábado, 3 de outubro, no Seminário Maior de Lamego.

COLABORAR E COMPROMETER-SE

A fábula é conhecida e circula por aí: fala de um porco e de uma galinha que foram desafiados a providenciarem, durante duas semanas, um pequeno almoço diferente em cada dia. A ideia partiu do dono da quinta que, no momento, logo avisou: o não cumprimento do acordo levaria a que ele próprio preparasse a refeição, cujos ingredientes seriam fêveras e ovos.

Diante da perspectiva, o porco empenhou-se, sabendo que o não cumprimento ditaria o seu fim. A galinha, pelo contrário, não mais se preocupou com o assunto e continuou a picar por aqui e por ali. E um dia a refeição não apareceu e o lavrador cumpriu a ameaça: matou-se o porco para conseguir o lombo e o galinheiro foi visitado para se arranjarem ovos.

O ensinamento da fábula é claro: há uma grande diferença entre colaborar e comprometer-se. Colaborar é dar uma mão, uma ajuda, uns ovos; comprometer-se é gastar-se até ao fim, dar-se a si, dar o lombo todo.

E foi isso que Jesus pediu aos seus discípulos (Lc 9, 23-25), que se comprometessem e não se contentassem em colaborar. E o convite é válido para a vivência comunitária da fé, mas também diz respeito à vida do casal, da família, do trabalho…

No próximo sábado, a nossa diocese tornará público o seu Plano Pastoral para este ano. Mais uma etapa da nossa história comum, da qual ninguém está dispensado e que só com o contributo e disponibilidade de todos poderá ser devidamente concretizado.

Acolher os textos e as propostas ali contidos e comprometer-se, pessoal e comunitariamente, a realizar o percurso delineado contribuirá para o crescimento desta porção do Povo de Deus que é a nossa diocese. Mas, para isso, não basta opinar ou ter a intenção de colaborar; urge comprometer-se.

in Voz de Lamego, ano 85/44, n.º 4331, 29 de setembro

Convívio Fraterno 1284 | 2 testemunhos

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Tu me acolhes… És Pai e me ergues! CF1284

No dia 10 de Setembro de 2015, lá para a noitinha na obra Kolping, deu início a maior aventura da minha vida e sem dúvida a mais (des)concertante. Eu não fazia ideia do que me esperava, só me diziam que era uma experiência fantástica e que eu tinha de fazer. Não sei o que me deu na cabeça para aceitar este desafio, logo na altura da minha vida em que tempo era coisa que não tinha e a minha cabeça estava noutro mundo que em nada diz respeito à Igreja. Para estar aqui muitos de nós cancelaram compromissos importantes, coisas talvez até inadiáveis e digo com toda a certeza que não me arrependo em nada, pelo contrário, fiz o meu convívio fraterno exatamente quando devia, na altura certa. Parece que no meio da confusão do meu dia-a-dia Ele me chamou para fortalecer a nossa amizade, para me trazer a paz que eu tanto procurava. Muitos não compreenderam porque o fiz e até me tentaram dissuadir de passar três dias longe de tudo. Eu fui encontrar-me! Encontrar-me, em Deus e com Deus! Destes três dias trago novas e fortes amizades, irmãos de coração. Trago acima de tudo uma bagagem enorme para enfrentar o quarto dia e todas as suas adversidades. Agora, sei manter a minha chama acesa ou pelo menos sei o que fazer para a reavivar e renovar. Além disso, sou agora capaz de servir o próximo sem esperar nada em troca. Sinto-me em paz e é com todo o orgulho que digo que sou conviva e que faço parte desta enorme família!

Vou pelo mundo mostrar a minha herança, ser conviva da paz e do amor. Sim, porque Deus é amor!

Telma Teixeira

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Testemunho conviva 1284 – Lamego

No dia-a-dia da vida, por vezes, afastamo-nos de Deus e acabamos por não lhe dar a devida atenção. No entanto há momentos e oportunidades únicas de encontro mais próximo com Ele. O convívio fraterno 1284 que se realizou nos dias 11, 12 e 13 de Setembro em Lamego foi um destes grandes momentos únicos.

Deus dá-nos muitas riquezas ao longo da vida e a mim deu-me esta grande riqueza de ter amigos convivas que amam a Cristo como eu, e que me ajudaram a estar mais próximo d’Ele. Não é fácil neste mundo em que vivemos ser espelho e imagem de Cristo, por vezes somos levados pela avalanche do desinteresse em relação à pessoa d’Ele. No entanto, Ele está sempre presente e disposto para nos perdoar pois nos acolhe sempre. Este foi o tema do convívio “Tu me acolhes, és Pai e me ergues”. É importante que agora cada um de nós conviva, sinta a responsabilidade que tem na sua vida, levar a mensagem de Deus pelo mundo que nos rodeia.

Um convívio fraterno é uma experiência que renova que gera em nós uma vida nova, depois deste grande momento de encontro com Deus e com os nossos irmãos que estiveram ao nosso lado nestes dias. É por isso que por vezes não somos compreendidos quando estamos no nosso quarto dia, só quem é conviva pode compreender. Foram três dias de grande felicidade, reflexão e paz.

Sê conviva da paz e do amor.

João Pedro Borges, in Voz de Lamego, ano 85/43, n.º 4330, 22 de setembro

Jornada de Formação: Instituições Particulares de Solidariedade Social

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O Seminário Maior de Lamego acolheu, a partir das 10h do passado dia 15, responsáveis e membros de instituições particulares de solidariedade social que quiseram inteirar-se melhor das alterações previstas e necessárias nos respectivos Estatutos e Compromissos.

Para os esperados esclarecimentos esteve entre nós o Dr. José Joaquim Almeida Lopes, juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal Administrativo, licenciado em direito canónico pela Pontifícia Universidade de Salamanca e colaborador da Santa Casa de Misericórdia do Porto. Na apresentação deste especialista, quer em direito civil, quer em direito canónico, D. António Couto agradeceu-lhe a disponibilidade.

A Jornada dividiu-se em três partes: a primeira sobre Centros Sociais Paroquiais, a segunda sobre as Irmandades das Santas Casas da Misericórdia e a parte da tarde para um diálogo esclarecedor sobre algumas das dúvidas partilhadas.

Esta Jornada de formação tinha como objectivo esclarecer a nova legislação estatal sobre Instituições Particulares de Solidariedade Social e a sua aplicação concreta às instituições eclesiais, como são os Centros Sociais Paroquiais e as Misericórdias. Como consequência do novo quadro legal das IPSS, a Conferência Episcopal Portuguesa aprovou, na sua Assembleia Plenária do passado mês de Abril, um Modelo de Estatutos para os CSP e um Modelo de Estatutos para as Misericórdias.

As implicações desses novos Modelos de Estatutos e a sua aplicação concreta foi o objecto das duas intervenções do Dr. Almeida Lopes da parte da manhã: a primeira dedicada aos Centros Sociais Paroquiais e a segunda dedicada às Santas Casas da Misericórdia. Na sua primeira intervenção, o Dr. Almeida Lopes começou por delinear uma breve história dos Centros Sociais Paroquiais, desde o final da década de 70 do séc. XX até ao presente. Em seguida, deteve-se especialmente na natureza jurídica, quer canónica, quer concordatária, quer civil dos Centros Sociais Paroquiais, fazendo considerações sobre a sua configuração jurídica essencial. Por fim, foi caracterizando alguns pontos do Modelo de Estatutos destas instituições, salientando alguns elementos de maior importância relativos ao seu funcionamento, à composição dos seus órgãos de gestão e às suas finalidades.

Na segunda intervenção, dedicada ao Modelo de Estatutos das Irmandades das Santas Casas da Misericórdia, o Dr. Almeida Lopes pôs especial ênfase em delinear a sua composição jurídica, começando por alguns elementos históricos e fazendo notar que este Modelo de Estatutos aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa foi elaborado com a participação ativa da União das Misericórdias Portuguesas. Em seguida, foi destacando alguns pontos dos Estatutos, relativos, não só à sua natureza jurídica, mas também relativos à composição dos seus órgãos, à (necessária) relação com o Bispo da Diocese e ao papel deste no acompanhamento e vigilância para que não se introduzam abusos no funcionamento destas instituições.

Após o almoço, decorreu uma sessão de esclarecimento, com alguns dos presentes, com destaque para as Misericórdias, a colocarem questões pertinentes relativas às alterações.

Encerrou a sessão o nosso bispo, que renovou os agradecimentos ao Dr. Almeida Lopes, ao mesmo tempo que se congratulou com a presença de tantos e tão interessados participantes.

JP, in Voz de Lamego, ano 85/43, n.º 4330, 22 de setembro

COMENTÁRIO AO DOCUMENTO DO PAPA FRANCISCO

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COMENTÁRIO AO DOCUMENTO DO PAPA FRANCISCO, MITIS IUDEX DOMINUS IESUS (O SENHOR JESUS JUIZ CLEMENTE)

Dado o eco repercutido na comunicação social da recente Carta Apostólica em epígrafe, elaborada em 15 de Agosto e a entrar em vigor no dia 8 de Dezembro próximo, pareceu-me útil redigir algumas notas de esclarecimento, para melhor entendimento do seu conteúdo. Foram mediatizados alguns aspectos secundários com grande profusão; e outros, essenciais, praticamente omitidos. É necessário, com efeito, conhecer o funcionamento dos Tribunais Eclesiásticos e o espírito que inspira as normas canónicas, para se aperceber da verdadeira “novidade” desta reforma.

  1. A reforma levada a cabo pela Comissão nomeada pelo Papa, como resposta aos pedidos feitos no Sínodo dos Bispos sobre a família em Outubro de 2104, não modificou o carácter “judicial” transformando-o em “administrativo”. Como consequência deste aspecto, afirmado com clareza no preâmbulo do Motu proprio, não se tornou mais fácil que anteriormente a declaração de uma nulidade, dado que os capítulos de nulidade permanecem os mesmos do Código de Direito Canónico de 1983, ou seja, não foram alargados. A reforma fez-se, apenas, sobre os procedimentos para a declaração de nulidade e não sobre o direito substantivo do matrimónio. É uma modificação de carácter processual, com vista a agilizar uma resolução, que, obviamente, fazia sofrer os fiéis pela demora, tantas vezes excessiva.
  2. A gratuidade de que se fala não versa sobre os ministros do Tribunal e outros colaboradores (peritos, advogados, etc.) mas sobre os fiéis que acorrem a pedir a declaração de nulidade. Apesar de tudo, é bom ler o texto na íntegra: “As Conferências Episcopais, juntamente com a proximidade do juiz cuidem, quanto possível, salva a justa e digna retribuição dos operadores dos tribunais, que seja assegurada a gratuidade dos processos, para que a Igreja, mostrando-se aos fiéis mãe generosa, numa matéria tão estritamente ligada à salvação das almas manifeste o amor gratuito de Cristo pelo qual todos fomos salvos” (Mitis Judex VI).
  3. A dupla sentença conforme. Um dos critérios tidos em conta nesta reforma, foi a dispensa de uma segunda sentença conforme, para tornar definitiva a decisão pela nulidade. Sem a confirmação da nulidade proferida por uma segunda sentença do Tribunal de Apelação, a primeira não era definitiva. Ora se a média de tempo, recomendada pelo Código, era de um ano para a decisão da primeira instância, e de seis meses para a de segunda instância, agora, em processo ordinário, já se tornará mais breve a resolução. “Uma única sentença em favor da nulidade executiva. Pareceu oportuno, antes de tudo, que não seja mais requerida uma dupla decisão conforme em favor da nulidade do matrimônio, a fim de que as partes sejam admitidas à novas núpcias canónicas, mas que seja suficiente a certeza moral alcançada pelo primeiro juiz ad normam iuris” (Mitis Judex I).
  4. Criação de um processo mais breve e do tribunal de juiz único. Estas são, a meu ver, as maiores novidades, mas também as mais difíceis reformas de implementar. Os Bispos são exortados a constituir um Tribunal de juiz único sem necessitar, como antes, da autorização da Conferência Episcopal, sempre que não tenham possibilidade de constituir um tribunal colegial.
  5. O processo mais breve. “De facto, além de tornar mais ágil o processo matrimonial, desenhou-se uma forma de processo mais breve, para se aplicar nos casos em que a acusada nulidade do matrimónio é sustentada por argumentos particularmente evidentes” (Mitis Judex IV).”
  6. Ao próprio Bispo diocesano compete julgar as causas de nulidade do matrimónio com o processo mais breve, sempre que o pedido seja proposto por ambos os cônjuges ou por um deles, com o consenso do outro e que haja argumentos para a nulidade “particularmente evidentes”.

“Em tal processo seja constituído juiz o próprio Bispo… Entre as circunstâncias que podem consentir o tratamento da causa de nulidade do matrimónio por meio do processo mais breve, segundo os cânn. 1683-1687, se enumeram, por exemplo: a falta de fé que pode gerar a simulação do consentimento ou o erro que determina a vontade, a brevidade da convivência conjugal, o aborto procurado para impedir a procriação… o defeito de uso de razão comprovado por documentos médicos etc”. (Regras processuais art.14§1).

Pe. Joaquim de Assunção Ferreira (Vigário Judicial),

in Voz de Lamego, ano 85/43, n.º 4330, 22 de setembro