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Archive for Junho, 2021

Editorial Voz de Lamego: Popularidade dos santos

Estamos em plena época dos santos populares. Com o desejo da praia, das férias e do convívio, da descontração e do descanso, ombreiam as festas populares que se iniciam em junho com os afamados “santos populares”. Se são populares, são do povo! O povo identifica-se com eles! Calma! Talvez não se identifique com os santos, mas com as festas e tradições a eles associadas!

Se olharmos para figuras populares, um artista, um cantor, um futebolista, como Cristiano Ronaldo ou Messi, têm seguidores nas redes sociais, aos milhares, ou milhões, e onde se deslocam há centenas ou milhares de fãs que querem ver, tirar uma foto, um selfie, solicitar um autógrafo, pedir a camisola! Quantos pais colocam aos filhos os nomes dos seus heróis/ídolos? Quantas jovens querem ser como Cristiano Ronaldo?

Passemos então à popularidade de Santo António, de São João e de São Pedro!

São João Batista era de facto bastante popular, atraía multidões, batizava centenas de pessoas, conduzia à conversão muitas pessoas, desafiando à não violência, à justiça social e à partilha, ao cumprimento dos mandamentos. A popularidade de São João Batista custou-lhe a vida. Herodes, a pedido da bela filha de Herodíade, mandou cortar-lhe a cabeça. Alguém quer imitar São João Batista? Outra característica de João é a humildade, não das palavras, mas na atitude, apontando para Jesus Cristo. É Ele, é Ele que deve crescer e eu diminuir… nem sou digno de Lhe desatar as correias das sandálias!

E Pedro, aquele apóstolo simples, titubeante e impulsivo que segue Jesus, quereremos imitá-lo? Deixou tudo para seguir Jesus! Se calhar pensou que largava uma vida sacrificada e dura por uma vida mais faustosa e tranquila. Essa foi uma das suas tentações, tal como a de outros discípulos. Quando vê que as coisas estão complicadas, assusta-se e nega Jesus: não tem nada a ver com Ele, não quer ser identificado com Jesus Cristo! E com os outros discípulos, mantém-se à distância de segurança! Depois da ressurreição e das aparições de Jesus, Pedro transfigura-se e torna-se um convicto pregador. Mais tarde será morto por ser cristão. Algum de nós quer seguir as pisadas de Pedro? Não estamos a falar do facto de ter sido o primeiro Papa, mas de ter sido mártir e antes um indisciplinado apóstolo!

E que dizer de Santo António? Sim, é um dos santos bem populares. De família nobre, renunciou a uma vida faustosa para se tornar monge. Depois de ordenado sacerdote dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, escolhe (ou melhor, é escolhido por Deus para) outro caminho, faz-se monge franciscano, assumindo a pobreza dos frades e a ânsia de se tornar mártir missionário em África, mas também aí Deus lhe muda o destino e virá a tornar-se um grande pregador, com centenas de pessoas a ir ao seu encontro para o ouvirem. Por outro lado, passa horas a confessar e realiza, em nome de Deus, muitos milagres. Esta parte dos milagres até que nos dava jeito! Mas o verdadeiro milagre é o da conversão. A fé move montanhas. Deus realiza os milagres através de crentes, cuja fé está amadurecida e fundada na oração e na intimidade com o Senhor. Prontos para sermos como Santo António? Seguros nos bens que temos ou no risco de tudo colocarmos em Deus?

Se fizéssemos uma sondagem sobre popularidade… talvez São João, São Pedro e Santo António não figurassem nas primeiras cem opções! Obviamente que as festas populares são importantes, referidas a estes ou outros santos. É também oportunidade para os conhecermos melhor. Por outro lado, a santidade, como cristãos, está sempre no horizonte. Cabe-nos acolher a santidade de Deus que em Cristo Se manifesta amor e compaixão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/31, n.º 4613, 16 de junho de 2021

Entrevista com Joaquim Paulino Bernardes – Administrador E. Leclerc

Tendo a Voz de Lamego uma matriz cristã, procurámos entrevistar um ou outro empresário que obteve sucesso no espaço territorial da Diocese de Lamego e cujo empreendedorismo lhes permitiu criar vários postos de trabalho, contribuindo para o desenvolvimento da região, mas igualmente com uma componente social, com ligações mais ou menos estreitas à Igreja. Com a colaboração do Pe. José Ferreira, pároco da Sé e Cónego do Cabido, lançamos questões sobre o relacionamento com os funcionários e sobre a função social da riqueza.

Será possível conjugar investimento e compromisso cristão? Ser empresário de sucesso sem sacrificar as pessoas a números e percentagens?

Foram a estas e outras questões que o Sr. Joaquim Bernardes, administrador do hipermercado E. Leclerc de Lamego, respondeu, revisitando também a sua vida, nomeadamente como emigrante e, no regresso a Portugal, as etapas que o levaram a enveredar pelo movimento E. Leclerc, fixando-se em Lamego.

Voz de Lamego – Agradecemos, desde já, a oportunidade em nos conceder uns momentos para conversar connosco. Como é que se tornou aderente do movimento E.Leclerc?

Fui imigrante em França entre a década de 70 e 80 e conheci o E.Leclerc como cliente.

Os supermercados distinguiam-se dos restantes pela defesa constante do poder de compra dos consumidores em todas a áreas de consumo: combustíveis, produtos alimentares, moda, livros, auto, etc… Os preços eram de facto muito mais baratos. Na localidade em que vivia, no distrito de Lyon, reparei que um pequeno comerciante que conhecia pessoalmente e onde também fazia compras, abriu um supermercado E.Leclerc na periferia da cidade e que explicou-me que o fundador do grupo E.Leclerc, o Sr. Edouard Leclerc, autorizava que comerciantes independentes abrissem uma loja com o seu nome desde que vendessem mais barato, trabalhassem em âmbito famíliar (marido e mulher trabalhariam lado a lado) e repartissem os resultados da empresa com todos seus colaboradores.

Quando no início da década de 90 regressei a Portugal, abri um minimercado na cidade do Cartaxo e vi nascer os primeiros grandes supermercados e hipermercados. Conhecendo a missão da marca E.Leclerc em França, estabeleci contactos, e, após muita burocracia e dificuldades que tive que ultrapassar, consegui abrir com a minha esposa o E.Leclerc de Lamego em dezembro de 1996.

Como é que funciona o movimento E.Leclerc?

É um movimento cooperativo em que a empresa familiar, constituída por um casal, é proprietária do seu ponto de venda e são também coproprietários da marca E.Leclerc, tornando-os responsáveis pelo legado do seu fundador, o Sr. Edouard Leclerc. A sua missão, na década de 40 (pós-segunda guerra mundial) era ajudar os Franceses a acederem a produtos alimentares a preço baixo, comprando grandes quantidades de produtos para os vender mais baratos, tornando-se, por isso, este movimento precursor da distribuição moderna. É uma história muito rica de grandes combates sempre a favor dos consumidores e que os leitores podem conhecer em (http://movimento-leclerc.pt/)

Passado tantos anos do início desta cadeia de supermercados E. Leclerc, ainda se mantêm os objetivos que estiveram na génese da sua fundação?

Sem dúvida. Esta missão mantém-se válida e é hoje atualizada do ponto de vista social e dos valores que a norteiam. A titulo de exemplo no E.Leclerc promovemos: um consumo responsável (não vendemos crédito ao consumo); igualdade e ética no local de trabalho; a compra a fornecedores e produtores locais, apoiando assim o tecido económico local; a descentralização das competências e das decisões, beneficiando diretamente a qualificação e o número de empregos gerados por loja em oposição a grupos centralizados; o apoio as iniciativas culturais, sociais e desportivas locais que respondem ás solicitações da população local;

Como foi mudar de terra e fixar-se em Lamego?

Eu e a minha esposa mudamo-nos em 1995 com a convicção, desde o primeiro momento, que seria uma mudança definitiva. E assim foi. Considero-me hoje um Lamecense e em conjunto com a minha família criámos laços, amizades e afinidades que dão sentido à nossa vida e, no meu caso particular, à minha missão pessoal. Descobri gente de fibra e perseverante que muito estimo e respeito, pois acompanharam-nos do ponto de vista pessoal e profissional. Refiro-me também a todos os colaboradores com quem trabalho e com quem já trabalhei.

Como é a sua relação com os colaboradores?

Somos uma equipa familiar e todos conhecem as suas responsabilidades e a sua missão. Dispõem de uma grande autonomia e de um ambiente trabalho saudável podendo falar comigo sobre qualquer questão, sempre que o entenderem.

Esta é uma empresa de gente com “fibra”, em que mais de 30% dos colaboradores têm mais de 20 anos de casa e apenas 2% são contratos a prazo. Tentei sempre fazer do local de trabalho dos meus colaboradores um porto de abrigo, promovendo situações laborais estáveis. Gostaria de enumerar as boas memórias e histórias que guardo com os meus colaboradores ao longo de 25 anos, mas seria necessário escrever um livro. Aproveito a oportunidade para reconhecer publicamente o empenho e o valor de todos os homens e mulheres que comigo vão construindo e consolidado esta casa. A todos quero manifestar a minha gratidão.

Quantos são?

Nas épocas sazonais, de verão e natal, somos mais, mas a média anual são cerca de 130 colaboradores diretos e cerca de 15 indiretos (seguranças, limpeza e reposição externa).

Conhece-os pessoalmente?

É evidente que os conheço. Como é que posso cumprimentá-los e falar com eles se não souber o seu nome? Atualmente, tenho 40 funcionários que trabalham comigo há mais de 20 anos.

Alguns dos colaboradores são mesmo a segunda geração dos que começaram em 1996. Ou seja, trabalham os pais, os filhos e quem sabe, um dia, os netos. Infelizmente, a memória atraiçoai- me algumas vezes, levando a alguma troca de nomes.

Promove algum momento de convívio?

Sim, formais e informais, mas o mais simbólico é a organização anual do jantar de Natal que envolve sempre um número elevado de colaboradores na preparação e planeamento. É uma noite de partilha entre todos, em que distribuímos presentes aos mais jovens e festejamos os valores cristãos desta época.

São também beneficiários dos resultados da empresa?

Em 24 anos de atividade reparti todos anos, parte dos resultados da empresa com os colaboradores. É justo que, se contribuíram para os lucros da empresa, possam também beneficiar de uma gratificação em função do seu empenho e mérito. Os restantes resultados são investidos, localmente, de forma a melhorar continuamente as condições da atividade e desempenho da empresa.

Pensa que o respeito pela ética no trabalho também beneficia economicamente a empresa?

Sem dúvida, que isso é um imperativo que se impõe. Com base nas minhas convicções religiosas e valores pessoais que cultivo, não poderia ter   outra missão que não fosse promover os valores éticos e morais no trabalho, nomeadamente, encorajando um ambiente de trabalho saudável, de respeito mútuo e assente na honestidade. Quando se têm profissionais com um sentido ético no desempenho do seu trabalho, e com valores morais, há menos possibilidade  de furtos, desvios ou corrupção e isso também é importante dentro de uma organização e na sociedade em geral, como sabemos.

Este é um jornal regionalista… De que modo a região tem beneficiado da atividade da empresa?

Julgo que já fui respondendo a esta questão, mas podemos resumir da seguinte forma: emprego de mão de obra mais qualificada nas lojas, fruto de uma gestão mais descentralizada; a promoção de carreiras profissionais a longo prazo da quase totalidade dos seus colaboradores; a partilha dos lucros e dos resultados alcançados há mais de 24 anos; apoiamos e privilegiamos a produção local, permitindo o acesso de pequenos produtores de todas as áreas de produção; a possibilidade de contratar prestadores e empresas locais de serviços e de indústria para as suas necessidades locais, reforçando as sinergias; graças à nossa rede de dimensão europeia, conseguimos propor aos clientes produtos de grandes marcas, mas também os de marca própria, a preços muito baixos. Os nossos clientes reconhecem-no e quem compra sabe que aqui as compras ficam mais baratas. É esta a nossa missão.Posso concluir que as populações locais podem aceder a uma oferta de produtos e serviços que geralmente só estão acessíveis em centros urbanos de maior dimensão. Mas a missão E.Leclerc é precisamente disponibilizar tudo a preços baixos;

De que modo a sua formação cristã o tem influenciado no seu agir empresarial?

Reconheço que, nestas duas décadas a empresa tem apoiado, economicamente, iniciativas de carácter religioso, no âmbito paroquial da cidade, mas também doando géneros alimentares e não só, a inúmeras iniciativas sociais, culturais e religiosas em várias centenas de milhares de euros. Mas neste campo, prefiro que sejam as associações, as instituições da Igreja local, e mesmo os beneficiários diretos a destacar o papel humanitário da empresa. Fi-lo sempre pelas minhas convicções religiosas sem esperar nada em troca. A minha formação espiritual tem ajudado a saber humanizar a empresa e a dar-lhe um sentido de proximidade com os mais necessitados, quando há campanhas humanitárias.

A sua empresa tem contribuído para iniciativas na região?

Sem dúvida. Tentamos sempre que possível, participar em iniciativas várias e ajudar as instituições que prestam assistência à população e na organização de eventos que promovem o concelho e a região.

Embora a ajuda não deva ser interesseira …pode atrair mais clientes?

As empresas devem desenvolver o seu papel social em função das emergências e necessidades sociais da região em que se insere. Como cristão, este é um papel natural feito de forma desinteressada, mas cujo reconhecimento emerge de forma lenta. Tenho o privilégio de perceber ao longo de 25 anos, que contribuímos para as melhorias das condições de muitos concidadãos, clientes, mas também não clientes. Confirmo que em prazos longos e com decisões consistentes as políticas sociais geram reconhecimento.

É possível conjugar lucro, ajudando a fixar famílias?

Claro que sim. Trabalhamos todos no sentido de desenvolver a empresa e o setor do comércio e serviços e, nesse sentido, apoiar o desenvolvimento local. Ao manter e criar emprego, as pessoas têm um rendimento estável que lhes permite fixarem-se no concelho e concelhos limítrofes e manterem um nível económico e social estável, diminuindo a emigração.

Que diria a alguém que queira investir na região?

A realização nesta área não advém do resultado económico direto, sendo, contudo, essencial para a continuidade da atividade se projetar a longo prazo, desenvolvendo sinergias com o tecido económico e social locais.

Como é que lidou com este tempo de pandemia?

Com muita esperança e paciência. Foi um desafio a uma escala global com consequências negativas do ponto de vista social e económico. A nível laboral foi difícil, pois enfrentamos um momento imprevisível e sem precedentes, mas contei sempre com o empenho e a colaboração dos funcionários que se esforçaram muito para mantermos todos os nossos serviços a funcionar com qualidade e segurança. Por outro lado, também verifiquei maior disponibilidade e tempo para um recolhimento e maior convívio com a família.

É possível ser cristão e ser empresário de sucesso? Como conciliar?

Acredito seriamente que sim. É possível ser cristão em toda e qualquer circunstância e em qualquer contexto. É este o desafio de ser cristão no século XXI. Os cargos de maior responsabilidade para com a sociedade são hoje submetidos a enormes pressões de lucros a curto prazo, às vezes sem olhar a meios, mas não devemos ceder naquilo em que acreditamos. É uma questão de coerência e de verdade para quem acredita e orienta a sua vida pela mensagem do Evangelho.

in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Ouvi o rumor dos Teus passos…

O ruído é tanto! A azáfama! Os afazeres e as preocupações! As ofertas e os desafios! São tantas as vozes! O “zapping” comunicacional está tão acelerado! A multiplicidade de plataformas políticas e culturais, extremismos e propostas redentoras, com cariz revolucionário e transformador, com originalidade revestida de um passado prepotente e autocrático, que dificulta ouvir a voz da consciência e o rumor dos passos no jardim. As cidades, as vilas e as aldeias, as nossas povoações de um interior cada vez mais despovoado e desértico, têm demasiado ruído, demasiadas distrações, à janela ou na rua, no ecrã do telemóvel ou do televisor! Quem é que nos diz a verdade? Qual a opinião que devemos seguir? Quem é que nos vai mesmo ajudar? Quem é que se importa com a nossa vida atual?

No décimo Domingo do Tempo Comum (ano B) foi-nos servido, como primeira leitura, o texto do livro dos Génesis que nos fala na queda dos primeiros pais, simbolizados/encorpados em Adão e Eva, e como, quando confrontados com os seus atos, passam as culpas. Tão mau como cair no remorso é cair no cinismo e na desculpabilização gratuita. Precisamos de amadurecer o nosso compromisso, de assumir os nossos atos e as nossas omissões. Eu e tu somos responsáveis pela saúde do mundo em que vivemos, admitindo que possa haver pessoas, grupos ou empresas que têm uma responsabilidade acrescida.

O texto de Génesis (3, 9-15) fala da nossa vida e da nossa história. Adão, que fizeste, onde estás? «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Eu não fiz nada, foi Eva? / Eva, que fizeste? Eu, eu não fiz nada, foi a serpente? E se perguntássemos à serpente ela diria que não teve nada a ver com o assunto, tinha sido a beleza apetitosa dos frutos da árvore! A culpa já não estaria numa decisão pessoal, mas estrutural ou, pelo menos, não estaria numa escolha consciente e deliberada, mas numa cedência irrefletida pela aparente bondade do fruto. Não seria desejo… o fruto é que estava a pedir para ser recolhido e comido! Uma parábola para outras situações da vida! Fiz isto, ou aquilo, mas não tenho culpa, ele/a estava a pedi-las, pôs-se a jeito, estava ali mesmo à mão de semear, se não fosse eu, seria outro! Se o fruto não se convertesse em furto (egoísta) resultaria em desperdício!

Há momentos em que já não vemos Deus, ofuscamos a Sua presença com os nossos apetites e manias. Mas o rumor dos Seus passos no jardim, na nossa vida, os sinais da Sua presença, continuam a fazer-se sentir. O pior mal, contudo, não está nos fracassos, mas na vergonha e no facto de escondermos o nosso rosto e o nosso coração do olhar amoroso de Deus, que nos santifica e nos ilumina. Por vergonha, não assumimos as nossas falhas e até envolvemos os outros nos nossos esquemas. Tantas situações em que arranjamos desculpas, justificações, distribuímos culpas pelos outros, sacudimos a água do capote!

Apesar das nossas dúvidas, incongruências, hesitações, afastamentos, Deus mantém o Seu amor por nós e não fecha nem portas nem janelas ao nosso regresso. Desde sempre a promessa: a descendência de Eva esmagará a cabeça da serpente! A promessa Deus encontra eco em Maria: eis a serva do Senhor, faça-se em mim a tua Palavra (Lc 1, 38). Somos família de Deus quando permitimos que a Sua graça nos preencha. «Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» (Mc 3, 26). Perscrutemos os rumores dos passos do Senhor na nossa vida e deixemos que o Seu olhar nos toque a alma.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha?

É. É possível que aqueles que nos lisonjeiam na frente, atrás nos pintem com cores escurecidas! Prefiro não perder tempo com isso, sabendo que os verdadeiros amigos são um tesouro que nos estimam apesar das nossas limitações e pecados.

Voltamos, desta forma, à expressão lapidar de Shakespeare. Nem sempre os que te batem nas costas ou te aplaudem são os mesmos com os quais podes contar na adversidade.

Vejamos outra expressão também criada e popularizada pelo nosso dramaturgo, sobre a tragédia de Júlio César. “Até tu, Brutus?” No dia 15 de março do ano 44 a.C., o grande general Júlio César, autoproclamado ditador perpétuo de Roma, foi assassinado. Tinha-se tornado autocrata e tirano. 60 senadores perpetraram o homicídio. Logo que a reunião do senado começou, cercaram Júlio César e esfaquearam-no, com 23 facadas. Não se sabem as palavras que terá proferido com exatidão, mas é-lhe atribuído o lamento dirigido a Marcus Junius Brutus, filho da sua amante favorita e a quem tratava como amigo: “Também tu, criança?”. Contudo, os historiadores mais antigos parecem concordar que Júlio César não disse nada depois do primeiro golpe.

Shakespeare inspirou-se nesta frase para criar estoutra: “Até tu, Brutus, meu filho?” A admiração é também uma desilusão por ter sido traído por alguém que considerava filho. Depois da história e do teatro, deixemo-nos, agora, conduzir por Jesus, Aquele que ensina com autoridade, fazendo corresponder o que proclama com o que vive.

Nas disputas com alguns fariseus prevalece precisamente a crítica de Jesus àqueles que têm duas caras, exigindo o que não fazem. “Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não” (Mt 5, 37). E não deixar de sorrir… “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39). Não ter duas caras, ser coerente, procurar agir em conformidade com o que pensa. Quem não vive como pensa, acabará por pensar como vive (B. Pascal).

Vem novamente à colação o contraponto do Santo Padre, entre pecadores, que assim se reconhecem humildemente, abrindo-se à graça de Deus, e corruptos, que vivem na indiferença e no desprezo pelo seu semelhante.

José Luiz Silva, “Na calçada do Café São Luiz”, situa-nos entre o santo e o canalha. Os dois perdoam e os dois não sofrem.

“Há dois tipos de homem, capaz de perdoar 70 vezes 7: o santo e o canalha. Somente os dois serão capazes de dar a face direita depois de ter apanhado na face esquerda. Aquele pela humildade, este pela malandragem. Para o santo, esquecer é um gesto natural. Para o canalha também. O santo escuta desaforos, vai aos tribunais, recebe insultos e depois volta sorrindo, porque a sua força está dentro dele.

E o canalha? Justamente porque é destituído de qualquer força interior, desnutrido de qualquer dimensão ética, ele aceita tudo sorrindo. Seu sorriso, porém, é um misto de cinismo e desfibramento. O santo não sofre. O canalha também [não]. Para ambos tudo é passageiro e supérfluo… O canalha… Na hora de dizer sem estar dizendo, ou abraçar traindo, de sorrir denunciando, de convocar recusando, de oferecer retirando, de aderir explorando, de chorar sorrindo por dentro, de sorrir queimando de ódio. O canalha é o artesão da maldade… Ele consegue ter a cor do trigo, o farfalhar do trigo, mas ele é joio. Aproveita o vento que sopra e os raios do sol para também tornar-se cheio de vida. O santo é exigente com ele mesmo. O canalha é exigente com os outros”. O caminho do cristão é o da santidade. A sua opção é a de Jesus Cristo: em tudo procurar a vontade de Deus – amar, perdoar, cuidar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/29, n.º 4611, 1 de junho de 2021