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Archive for Setembro, 2021

Grande entrevista Voz de Lamego com Manuel Joaquim Porfírio

Lurdes e Manuel Joaquim Porfírio começaram, em 1982, com um pequeno estabelecimento de venda e transformação de carnes. Nessa altura, apenas produziam salpicão, moira, chouriça e presunto, produtos que, ainda hoje, continuam a ser de referência, e os preferidos dos consumidores, fruto da sua consolidada e reconhecida qualidade. Esta notoriedade foi alcançada através da total dedicação, e elevada experiência, em todos estes anos de trabalho

O Voz de Lamego foi até Lalim para conhecer um pouco da história de sucesso dos proprietários e fundadores da Fumeiros Porfírios, Lda., Lurdes e Manuel Porfírio. A entrevista realizada a Manuel Porfírio permiti-nos conhecer a história das suas vidas e que levou ao sucesso que conhecemos hoje.

“Desde cedo que trabalhei com carnes. O meu pai trabalhava na mesma área, ou seja, o bichinho passou para mim também, o que fez com que em 1978, com 18 anos, começasse a trabalhar por conta própria.”

O primeiro talho foi licenciado já a trabalhar por conta própria contando sempre com o apoio da família que, para o empreendedor, é a base de tudo.

“Em 1982 casei-me. Foi esta união que me levou ao sucesso que tenho hoje. A minha esposa ao terceiro dia depois do casamento já fazia fumeiro, ela dedicou-se completamente a este negócio.

Em 1983, comecei a comercializar para o Pão de Açúcar, em Alcântara, no entanto tive de deixar de o fazer porque ainda não havia licenciamento para tal”.

Os proprietários sempre tiveram espírito de trabalho e de inovação o que o faz ter o sucesso que tem hoje.  Ao lado de um grande homem, caminha sempre uma grande mulher, por isso a sua postura resiliente é um dos pilares dos Fumeiros Porfírios.

Com o aumento da procura fez com que a produção feita num pequeno estabelecimento, em Lalim e registado como “casa Rita”, que advém do pai de Manuel Porfírio, Joaquim da Rita, deixasse de satisfazer os pedidos dos clientes. Como resultado, em 1988 a empresa mudou-se para instalações industriais de maior dimensão, em Mondim.

Com esta mudança, que permitiu o aumento da produção, a 6 de janeiro de 1993 surgiu a empresa como a conhecemos hoje, Fumeiros Porfírios, Lda. Este novo espaço tinha como finalidade a produção e comercialização para o Pão de Açúcar.

Em 1995 inauguraram uma nova unidade fabril em Lalim que permitiu o fornecimento de grandes superfícies, onde o Pingo Doce e Makro desempenharam um papel importante.

Conta o empresário em tom de comédia e orgulhoso – “Ofereci salpicões para a inauguração das 20 lojas Pingo Doce e assim começou uma boa relação de negócios”.

“Chegámos a pensar que era demais e perguntava-me do porquê de uma fábrica tão grande”, admite o Sr. Porfírio.

A atitude que trabalha o sucesso continuava e, passados dois anos, a fábrica já era pequena e a produção estava constantemente a esgotar.

A fábrica em questão, “fábrica antiga” como carinhosamente a denomina, no início tinha autorização para transformar 80 porcos por semana e, nesses dois anos, o público já pedia mais do que isso.

O aparecimento da Makro como cliente foi uma vantagem muito grande para o desenvolvimento do negócio.

“Quando a Macro se implementou em Portugal, nós não fomos contactados pela Macro. Foi o Dr. Mário Rui, um elemento da empresa, que me contactou. veio a Lamego, pedindo para eu me reunir com ele. Passado um mês estávamos a fornecer esta empresa como ainda hoje o fazemos”.

Manuel Joaquim conta-nos ainda que a parceria com o Pingo Doce os levou a outros patamares, descrevendo o início deste negócio com o “trampolim” da empresa.

“O início de um sucesso maior foi, em todos os sentidos, o contacto com a rede de supermercados Pingo Doce. A exigência deles obrigou-me a modernizar, ainda que tenha continuado com o produto tradicional. Outras exigências têm a ver com a higiene e segurança alimentar, muito mais prementes. Temos auditorias todos os anos, mais do que uma, se for necessário. As exigências ajudam a melhorar a qualidade, permitindo que os nossos produtos chegassem mais longe.

Se não fosse o Pingo Doce, se não fossem as grandes superfícies, hoje não estaríamos no patamar que estamos. A exigência deles ajudou-nos bastante, permitiu-nos desenvolver a empresa, aumentando a rapidez na entrega do produto e a segurança alimentar”.

Para conseguirem responder a estas novas exigências, procederam, em 2009, ao aumento das instalações.

Apesar de todo o sucesso da Fumeiros Porfírios, Lda, Manuel Joaquim, não esquece a região e os estabelecimentos menores. O mercado tradicional representa agora 70% dos negócios da empresa e são de extrema importância para o sucesso da empresa.

A empresa conta já com três talhos, o primeiro foi em Lalim, a menina dos olhos de Manuel, o segundo em Tarouca e o terceiro em Lamego. O empresário não pára e conta já com um minimercado no mesmo espaço do talho sediado em Lamego e o de Tarouca está para breve, adianta.

Quando questionado sobre uma história que o tenha marcado durante toda esta jornada, Manuel Joaquim partilhou com a Voz de Lamego uma das curiosidades do início da empresa, quando a marca ainda não era reconhecida.

 “No início parei muitas vezes a chorar, sozinho. Eu oferecia os meus produtos para começarem a serem comercializados e ouvi muitas vezes que não o iriam comercializar porque era uma marca que ninguém conhecia e que não iriam lucrar com isso. Hoje, muitos deles são nossos clientes. Passados dez anos, foram eles a contactar-nos e a pedir para comercializar o nosso produto. Mas no início, o que mais me magoou foi ouvir um não através daquelas palavras”. Mas nem todas as lágrimas, nem todas rejeições levaram os empresários a desistir. Lutaram sempre e conseguiram chegar onde ninguém imaginava.

Este não foi o único relato acerca do início difícil. Manuel e Lurdes investiram cinco mil contos (vinte e cinco mil euros) e, passado um ano, garante que deviam o dobro ao banco, mas passados quatro anos já estavam a iniciar as obras do primeiro talho. “Eu perdi aqui cinco mil contos, e eles estão cá. Foi aqui que os perdi e é aqui que os vou encontrar”.

Apesar de todo o sucesso e das dificuldades superadas o proprietário admite ter ainda alguns objetivos e ambições. De todo o material que produz afirma ter um favorito, o presunto e é com essa peça que quer chegar a novas marcas.

A qualidade leva tempo.
Acreditamos no que é bom. No que se fazia antigamente, sem cópias. Apurámos esta arte até aos dias de hoje e levámos até à sua mesa o sabor intenso da charcutaria fumada, perfeita para juntar amigos e família. As nossas carnes são trabalhadas à mão, uma a uma. Para todos e para cada um. São criteriosamente escolhidas e envolvidas em temperos tradicionais para ganharem forma e serem dadas ao tempo. Sem pressas.

O novo projeto já está para ser iniciado, apesar de já ter sofrido inúmeras obras, vão agora dar início a mais uma etapa de obras na “fábrica velha” e, dentro de um ano conta em ter um aumento de mais de 30/40% no fabrico do presunto. Atualmente, os Fumeiros Porfírios produzem cerca de 35 mil presuntos anualmente e a ambição é chegar às 50 mil unidades em 2022.

Além de conhecer bem a palavra sucesso, no mundo empresarial, também conhece a palavra sucesso relativamente ao ambiente familiar, sucesso que afirma ser fulcral para que tudo esteja bem e continue a crescer como empresa.

“Para ser um negócio de sucesso, primeiro tem de haver seriedade, transparência e a vontade trabalhar, esse é o ponto número um para trabalharem connosco, tanto fornecedores como clientes. Esta empresa andou dez ou quinze anos a evoluir muito lentamente. Tenho quatro filhos e eu queria formar os meus quatro filhos porque sabia que seriam uma mais valia para nós. Felizmente isso aconteceu.

Eu e a minha esposa nunca parámos, gastámos muitas horas, muito tempo delicado à família. Todas as semanas havia a rotina de ir levar os filhos ao Porto, Viseu e Coimbra e às sextas-feiras a fazer o mesmo trajeto na recolha.

Sabia que se eles, os meus filhos quisessem, com eles esta empresa teria um arranque mais forte.

Esta fábrica nova que já está a trabalhar a 100% ficou em quase 4 milhões de euros e só nasceu porque os nossos filhos estão cá e são eles que são uma mais valia agora”.

Além do ambiente familiar e de entreajuda que Manuel Joaquim adota no dia-a-dia com os seus colaborados também acaba por ajudar os seus conterrâneos a ter um “ganha-pão”.

O proprietário possui vários hectares com o fim de criar gado, mas devido à imensa procura do mercado, acaba por ter vários fornecedores portugueses e para alguns produtos, fornecedores residentes na terra ou terras vizinhas.

“Claro que o produto não vem logo com o máximo de qualidade. No início acabei por não usar o produto, no entanto, fui aconselhando os criadores, para uma produção de qualidade e em quantidade. Todos eles têm as melhores das intenções e isso é percetível. São uma peça bastante importante para os Fumeiros Porfírios. Havia pessoas que já não criavam gado há muitos anos e agora são meus fornecedores assíduos e tenho o compromisso de lhes comprar o gado todo”.

Mais do que uma grande empresa, estamos a falar de pessoas muito humanas. Cada vez que a empresa cresce, tenta envolver nesse sucesso todos os seus colaboradores.

Ao longo deste percurso, os empresários conseguiram ultrapassar os diferentes obstáculos e, em 2018, inauguraram mais uma nova e moderna fábrica. Esperam assim, chegar a novos horizontes e atingir novos objetivos, quiçá criar novas oportunidades.

A nossa promessa:
a Fumeiros Porfírios tem como visão o respeito pelas origens, o orgulho na tradição transmontana e a promessa de proteger um saber artesanal que está na origem de carnes fumadas com características singulares.

Lurdes e Manuel Joaquim Porfírio começaram, em 1982, com um pequeno estabelecimento de venda e transformação de carnes. Nessa altura, apenas produziam salpicão, moira, chouriça e presunto, produtos que, ainda hoje, continuam a ser de referência, e os preferidos dos consumidores, fruto da sua consolidada e reconhecida qualidade. Esta notoriedade foi alcançada através da total dedicação, e elevada experiência, em todos estes anos de trabalho.

in Voz de Lamego, ano 91/42, n.º 4624, 15 de setembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: rumo a um nós cada vez maior

Este é o lema escolhido pelo Papa Francisco para o 107.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que se comemora no próximo Domingo, 26 de setembro. Logo a abrir o santo Padre retoma as palavras da carta encíclica Fratelli tutti (todos irmãos): «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam “os outros”, mas apenas um “nós”» (n. 35). Daí a escolha do tema: «Rumo a um nós cada vez maior», indicando claramente um horizonte para o nosso caminho comum neste mundo.

Os últimos países visitados pelo Papa, Hungria e Eslováquia, foram mais uma oportunidade, nas intervenções e nos gestos, para sublinhar a importância de acolher os outros, no diálogo ecuménico e inter-religioso, na criação de espaço físico e afetivo para receber migrantes e refugiados. A Hungria, na verdade, é um dos países que não recebe refugiados, numa política de fechamento. Na homilia da Eucaristia de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, o Papa sublinhou, sem reticências: “Deixemos que Jesus, Pão vivo, cure os nossos fechamentos e nos abra à partilha: nos cure da nossa rigidez e de nos fecharmos em nós mesmos, nos livre da escravidão paralisante da defesa da nossa imagem e nos inspire a segui-l’O para onde Ele nos quer conduzir. E não para onde quero eu”.

A mudança de regime no Afeganistão provocou nova onda de refugiados. Muitos foram os que abandonaram o país com medo de ser amordaçados, presos, mortos. Uns por motivos políticos, outros por terem colaborado com o anterior governo e/ou com as forças internacionais, além das mulheres que estudaram e entraram no mercado de trabalho. Nesta semana, Portugal acolheu mais oitenta afegãos, na maioria atletas da equipa de futebol feminino e seus familiares, perfazendo cento e setenta oito refugiados afegãos em território nacional.

A Bíblia está preenchida de saídas, fugas, refúgio, expulsão e perseguição. O segundo livro da Bíblia tem precisamente o título de “Êxodo”, saída, narrando a opressão que os judeus sofreram no Egito, para onde emigraram à procura de melhores condições de vida, ao tempo do patriarca José. Este episódio é narrado no livro que abre a Bíblia, Génesis, e que coloca também em evidência a itinerância de Abraão que, chamado por Deus, sai da sua terra e fixa em Canaã.

Com efeito, o Povo da Aliança tornou-se emigrante no Egito. Moisés liderará o êxodo, a libertação da escravidão para a terra da promessa. Séculos mais tarde, o povo será forçado a sair do seu território num exílio que constituiu uma enorme provação à fé e à identidade nacional.

No próximo Domingo, o Evangelho faz-nos questionar a nossa pertença e o grau de abertura aos outros. Os apóstolos encontram um homem a expulsar demónios em nome de Jesus e procuram impedi-lo porque não fazia parte do grupo. A resposta de Jesus é clarificadora: “Não o proibais… Quem não é contra nós é por nós” (Mc 9, 38-48). Os apóstolos querem tomar posse do nome de Jesus e fechar o círculo, para que ninguém entre! Jesus tem ideias diferentes: para fazer o bem não é preciso um rótulo. O Espírito de Deus sopra onde quer.

Diz-nos o Santo Padre: “Na realidade, estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira. Por isso aproveito a ocasião deste Dia Mundial para lançar um duplo apelo a caminharmos juntos rumo a um nós cada vez maior, dirigindo-me em primeiro lugar aos fiéis católicos e depois a todos os homens e mulheres da terra”.

No mesmo barco, mas infelizmente o número de excluídos continua a aumentar. Veja-se a questão da vacinação nos países desenvolvimentos e países terceiro-mundistas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/43, n.º 4625, 22 de setembro de 2021

Rumo a um NÓS cada vez maior

Editorial: Antes de Jerusalém, encontrar-nos-emos no Egito

Ponhamo-nos a caminho!

Se ainda estivermos na praça pública, ociosos, a ver o comboio passar e o Sol a levantar-Se, ergamo-nos, prontos para sair, para ir, para partir, já se vislumbra a cidade, já floresce a amendoeira, é tempo de esperança, o inverno já não apagará a nossa a chama, o fogo que nos arde no peito. Ergamo-nos, a salvação está a chegar, o dia a despontar, e a paz, finalmente pode voltar a desassossegar o meu e o teu coração! Esta paz que nem sempre o mundo nos dá, mas sempre Jesus nos traz e que nos queima a alma, nos inquieta o coração, nos faz ver que o outro está à espera, à espera que lhe levemos um pouco de calor, de sol e de amor.

Parece que vivemos embotados na neblina que não deixa o Sol surgir, pela madrugada, ou faz com que os dias anoiteçam muito mais cedo! Não é, ainda, novembro, mas quantos de nós sentirão os dias cada vez mais pequenos e as noites cada vez mais tenebrosas. A cada boa notícia, surge uma dúzia de más notícias, que geram dúvida, receio, recuo!

Chegaremos a Jerusalém, mas temos um longo caminho a percorrer, um caminho que é do tamanho da nossa vida, da nossa história, do tempo que Deus nos dá. Estamos a viver o Ano de São José! Se calhar, já nem nos lembrávamos! São José, o Pai de Jesus, Aquele que custodia a vida de Maria e de Jesus. Cuida, proporciona casa, tona-se suporte para a Mãe e para o Filho, em Belém e em Nazaré, no Egito e nas ruas de Jerusalém. Quarenta dias depois do nascimento, José leva Jesus e Maria ao Templo. O Menino é apresentado ao Senhor Deus, colocado sob a Sua proteção. Maria completa os dias de Purificação. Pode, doravante, participar novamente eventos públicos e religiosos.

Não muito tempo depois, José faz como o seu antepassado, o Patriarca José, Filho de Jacob. As semelhanças são curiosas, até no nome dos respetivos pais: Jacob. O primeiro José foi vendido como escravo. Com o passar dos anos, será ele a garantir a salvação do seu povo que recorre ao Egito em tempo de fome. Mais tarde, o povo tornar-se-á escravo e Moisés conduzi-lo-á, em nome de Deus, de regresso à terra prometida (onde corre leite e mel).

Perante a ameaça que recai sobre o Menino Jesus, a Sagrada Família põe-se em fuga, em direção ao Egito, onde ficará até que Deus lhe dê sinais de que é seguro regressar a Belém. Entre os sinais que Deus dá e e interpretação (prática) de José, fixam-se em Nazaré. O Egito serve os tempos conturbados, de emigração e refúgio. Um pouco a época atual. Porém, a nossa pátria não é aqui. E o facto de sabermos que Jerusalém nos espera, faz com que não desanimemos, mas também que não nos prendamos em demasia. Jerusalém está-nos na retina! E no coração. Muitas vezes teremos que descer ao Egito, mas sempre que isso acontecer, Deus acompanha-nos, vela para que não nos percamos e não nos falte a luz e a esperança para regressarmos.

«Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos» (2 Cr 36,14-16). É uma página da Sagrada Escritura que faz uma leitura religiosa da adversidade, não já em jeito de lamento, mas de esperança e gratidão por saber que, em todo o tempo, Deus não afastou o Seu favor.

Quando São José desceu ao Egito e lá permaneceu, viveu na fidelidade ao que Deus lhe revelou em sonhos, partiu apressadamente, sabendo que regressaria. Mas não partiu sozinho! Levou a família, deixou-se guiar por Deus.

Façamos o mesmo, a caminho do Egito, na estadia e no regresso à cidade de David, permaneçamos unidos, e não deixemos que nos roubem a esperança que nos vem de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/42, n.º 4624, 15 de setembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: aos pés de Nossa Senhora

@Hermínio Lopes / @ Voz de Lamego

A edição desta semana do nosso jornal diocesano assinala-se pela Festa e Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, fixada na Natividade de Maria.

O nascimento de um bebé, na cultura semita como em muitas outras culturas, é uma bênção para a família, antes de mais, e para a povoação. Se atendermos aos Censos 2021 e para a percentagem de natalidade talvez percebamos o quanto estamos a precisar que esta aumente exponencialmente, pelo menos na Europa, muito em Portugal e, por maioria de razão, no interior Norte. A diocese de Lamego, e as 223 paróquias que a constituem, tem vindo a juntar ao envelhecimento populacional a desertificação, além da emigração que continua também em alta. A diminuição de pessoas na maioria das paróquias levava-nos a pensar que saíam das aldeias para as vilas e cidades, mas nos últimos anos também as sedes dos concelhos têm vindo a perder residentes.

A comemoração litúrgica dos santos está fixada, habitualmente, no dia da morte, o “dies natalis”, nascimento para a eternidade. Mas como os dias do ano se vão preenchendo, alguns têm o dia da comemoração nos dias próximos ao da morte ou a assinalar algum momento importante das suas vidas, a conversão ou o início de uma missão. Alguns santos Papas são comemorados no dia em que iniciaram o pontificado. De Jesus e de Nossa Senhora assinalam-se diversas solenidades, festas, comemorações, mais universais ou mais nacionais, mais regionais ou mais locais. De referir que também de São João Batista se celebra o nascimento (24 de junho) e o martírio (29 de agosto).

A maioria das pessoas comemora o aniversário natalício, mas também outras datas festivas. O Papa Francisco tem insistido para que se comemore o Batismo, dia em que nos tornamos novas criaturas pela água e pelo Espírito.

O aniversário é um instante, mas pode ser oportunidade para agradecer a vida, para refletir sobre o caminho percorrido, para avaliar a direção em que se vive. No caso dos santos, é uma belíssima ocasião para confrontarmos a vivência da nossa fé e a nossa configuração a Jesus Cristo. Os santos, amigos de Jesus, fazem-nos sentir mais próximos d’Ele e deixam ver que é possível viver a fé em situações díspares e em circunstâncias diversas. O padroeiro/patrono de uma paróquia, de uma Igreja ou de uma profissão, de uma aldeia, de uma cidade ou de um país obriga-nos, no mínimo, a pensar as razões para ter sido escolhido um e não outro. Na dinâmica cristã, não apenas a raiz história e a tradição, mas aquilo que, hoje, aqui e agora, nos diz esta festa, este santo. Vejamos então o convite que nos faz Maria na celebração do Seu nascimento e na evocação de Senhora dos Remédios.

O Santuário de Nossa Senhora está situado sobre a cidade de Lamego, no monte de Santo Estêvão, com um escadório que nos traz ao chão (propriamente dito) da cidade ou desta nos faz subir, degrau a degrau, até ao cimo, ao lugar em que se venera a Mãe de Deus e nossa Mãe, para Lhe pedirmos auxílio e proteção, para que seja remédio para os nossos achaques, sejam eles corporais ou espirituais.

Desde o início do cristianismo que os discípulos de Jesus, os cristãos, souberam acolher Maria de uma forma muito carinhosa, pois é esse também o mandato de Jesus: eis aí a Tua Mãe… A partir daquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa. Cada discípulo. Levamo-l’A para a nossa casa, para a nossa vida, colocamo-nos, como a cidade de Lamego diante do Santuário, aos Seus pés, para escutar a Sua oração, para rezarmos com Ela, para nos deixarmos contagiar por Ela, a cheia de Graça, para com Ela aprendermos a gerar Jesus, a amar e anunciar o filho de Deus ao mundo inteiro, comunicando alegria e apressando-nos a levá-l’O a todos, pela voz e pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/41, n.º 4623, 8 de setembro de 2021

Editorial: Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo

“Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). Em resposta ao chamamento divino, Maria apresenta-se pronta a servir, a esvaziar-se de si para se encher de Deus.

Ninguém é neutro ou imparcial. Na linguagem, na biologia, na psicologia, há tendência de excluir palavras que signifiquem opção, escolha, diferença, optando pelo neutro, pelo insosso, pelo indiferente e indistinto, colocando tudo no mesmo patamar, tudo relativizando. O curioso é que esta pretensa neutralidade irrompe (sobretudo) de grupos, movimentos, associações ideologicamente extremistas, excludentes de outras opiniões, à procura de provocar ruturas. A tolerância não tem a ver com indiferença, mas com aceitação do outro e de respeito pelas suas convicções.

Um dia destes ouviremos alguém a dizer que “de passagem” ouviu estas palavras de Maria e a Sua escolha e dirá que não se compreende como ainda são proclamadas na Eucaristia!

“As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor… como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos”.

No 21.º Domingo do Tempo Comum (ano B), escutámos um texto da missiva de São Paulo aos Efésios (5, 21-32). Não damos a mesma atenção a todas as leituras, até porque já as conhecemos! A Palavra de Deus deve ser escutada e não apenas ouvida. Daí a recomendação, sempre urgente, da formação cristã. Por outro lado, o desafio a que as leituras de Domingo se leiam previamente, durante a semana, e algum comentário que ajude a perceber o contexto e ajude a visualizar melhor a forma de viver a Palavra de Deus na atualidade.

Este pedaço de texto foi partilhado e comentado como escandaloso, advogando a distração dos cristãos ou a suposta perpetuação da discriminação das mulheres em relação aos maridos. Atente-se: a leitura começava assim: “Irmãos: Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. É uma mensagem firme e inequívoca que a todos implica, o cristão não pode senão amar ao jeito de Jesus. O apóstolo volta-se então para as esposas. Obviamente que o texto tem o seu contexto e o autor sagrado, ainda que inspirado por Deus, inserido na comunidade crente que reflete, acolhe e amadurece a Palavra transmitida e colocada por escrito, não é um robot que reproduz um ditado, mas um ser humano com um vocabulário específico e sujeito às coordenadas culturais e religiosas. Os textos de Paulo não são iguais aos de Pedro ou de Tiago.

A leitura continua. “Maridos: amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela”. Há uma ligação, um mistério, que une Cristo e a Igreja! A Igreja vive, serve e testemunha Jesus Cristo que, primeiramente, amou e Se entregou por ela.

O essencial é amar ao jeito do Mestre gastando a própria vida a favor dos demais. Cristo amou e entregou-Se pela Igreja. É o modelo do amor para os casais, mas igualmente para toda a Igreja, para cada batizado. Submetei-vos uns aos outros, colocai o outro em primeiro lugar, servi-o e amai-o, em Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por nós. A “submissão” entende-se, habitualmente, como subjugação ao outro, situação de dependência e de escravidão, e até de humilhação desumana. Na lógica do Evangelho, contudo, prevalece a submissão por amor, voluntária, como escolha. A Vida, diz Jesus, ninguém ma tira, Sou Eu que a ofereço. Ele que era de condição divina, não se valeu da Sua igualdade com Deus, mas humilhou-Se a Si mesmo e tornou-Se obediente até à morte. Não há maior submissão do que esta. Sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, despojado de todo o poder e majestade, revestido somente de amor, de compaixão e de ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/40, n.º 4622, 1 de setembro de 2021