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Archive for Janeiro, 2020

O Padre (Pai) Américo e a Obra da Rua – 80 anos depois

No passado dia 12 de dezembro, o Vaticano publicou o decreto que reconhece as “virtudes heróicas” do P. Américo, fundador da Obra da Rua. Este reconhecimento é um passo central no processo que leva à beatificação que poderá ser um presente ou, como costuma dizer o Papa Francisco, uma carícia para a Jornada Mundial da Juventude a realizar, em Lisboa, em 2022.

Mas quem era o Padre Américo, mais conhecido por “Pai Américo”?

Era o oitavo filho do casal Ramiro Monteiro e Teresa Ferreira Rodrigues, nascido a 23 de outubro de 1887, em Galegos, Penafiel. Estudou no Colégio de Santa Quitéria, Felgueiras e, na carta que sua mãe escreveu ao filho mais velho, missionário no Oriente, diz: – “O Américo tem vontade de ser padre mas o teu pai não lhe encontra feitio”. No Porto, ao mesmo tempo que trabalhava, tirou o Curso Superior do Comércio e tornou-se amigo do P. Manuel Luís Coelho da Silva que viria, mais tarde, a ser Bispo de Coimbra e o único bispo que o aceitou, já adulto, no seminário.

Terminados os estudos partiu para Moçambique, onde se encontrava um dos seus irmãos. Na empresa onde trabalhava, era admirado pela seriedade do seu trabalho, e o patrão, embora não fosse católico, lembrava-lhe a Missa dominical. Contactou com o franciscano Rafael Assunção, mais tarde bispo de Moçambique, que lhe despertou o espírito de São Francisco de Assis.

Passados dezasseis anos, regressa e entra no Convento Franciscano de Vilarino de la Ramalhosa, Espanha mas, problemas de saúde aconselharam-no a sair. Procura entrar num seminário, mas, só o de Coimbra, D. Manuel Luís Coelho da Silva, seu antigo amigo do Porto, o recebe e ordena sacerdote a 28 de julho de 1929, tendo já 41 anos. Diante do seu bispo e, por escrito, faz os votos de pobreza e obediência.

Por ser enfermiço, pede licença para se dedicar aos pobres, visitando-os nos seus tugúrios, cuidando deles. Foi-lhe confiada a “Sopa dos Pobres”. Estava no seu mundo!… Visitava os doentes nos hospitais e senatórios, os presos nas cadeias mas a sua presença incomodava os responsáveis que o acusaram ao Bispo “como indesejável” e até lhe pediram que o desterrasse para bem longe. Escreveu:

“ (…). Por causa da minha batina tenho sofrido as do cabo. Tenho sido apertado, escarnecido, apontado com desprezo – Ui! Um homem de saias! (…). Não desarmo. A batina é sinal de bênção e de maldição. Se estes me apontam com desprezo por causa da batina, os pobres não me conhecem sem ela”. Ler mais…

Editorial Voz de Lamego: Só os filhos têm direito ao último lugar

Precisamos de nos descentrar de nós e, como cristãos, colocar Cristo ao centro. É a divisa do Papa Bento XVI. Uma Igreja autorreferencial não cumpre a sua missão, terá de ser uma Igreja lunar e, como a Lua reflete a luz do Sol, refletir Jesus Cristo, saindo para as periferias. É a divisa do Papa Francisco.

Seguir Jesus Cristo implica que O imitemos e como Ele nos gastemos pelos outros. Amar a Deus faz-nos irmãos. A vida eterna não se inicia quando morrermos, mas agora. Diz-nos o Pe. Luigi Epicoco (ver a sugestão de leitura desta semana): “Esquecemos que Jesus, que é Filho de Deus, veio a este mundo, fez-Se carne, encheu-o com a Sua presença, santificou, transformou em possibilidade cada fragmento desta nossa vida”.

Se Jesus Cristo encarnou, também nós temos de encarnar. “O irmão, o seu rosto, o seu corpo, a sua história, história de homem, história imperfeita, história de luz e trevas, é rosto, corpo e história para os quais as nossas mãos se estendem, mãos estendidas para o próprio Cristo”.

Uma das doenças do nosso tempo é o egocentrismo. Tornamo-nos o centro de tudo. Fazemos de nós próprios um absoluto. “Neste egocentrismo tudo é insatisfação… é um vazio que nunca se consegue preencher, é o vazio de quem se concentra em si próprio, de quem se tomou por absoluto”.

Existe também o risco de um descentramento negativo: “anular-se de tal maneira que deixa de ter um personalidade… começamos a pensar que não merecemos nada, que nada nos é lícito, que não temos o direito a sermos felizes, que só erramos, que nunca encontraremos o amor, que, por mais que desejemos a felicidade, não é para nós… Essas pessoas confundem a religião com frustração, a humildade com o humilhar-se. Escolher o último lugar não é sentir-se em último lugar. Significa reconhecermo-nos como filhos, ao ponto de nos podermos sentar em último lugar sem nos sentirmos diminuídos na nossa dignidade de filhos. Somos tão donos da casa que nos podemos sentar no último lugar porque, habitualmente, o dono trata sempre melhor o hóspede e escolhe para si o que resta. Fá-lo não por servilismo, mas porque esse é o estilo do dono da casa.

A humildade que nos ensina o Evangelho não é a humildade de quem tem uma baixa autoestima, mas de quem pensa de tal modo bem de si próprio que se reconhece filho do dono e, por isso mesmo, se pode levantar do primeiro lugar e sentar-se no último sem se sentir menos amado, mas antes profundamente amado. É porque tem intimidade connosco que Se permite mandar-nos levantar e sentarmo-nos no último lugar: não o faria com um hóspede ou com um estranho, para não o humilhar, com um filho sim. A nós, filhos, o Senhor solicita muitas coisas que aos olhos do mundo podem parecer sacrifícios, mas, na realidade, são apenas sinais da familiaridade profunda com que Deus nos ama e trata. É porque somos filhos que nos pede isto, pede-nos mais”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/09, n.º 4544, 28 de janeiro de 2020

Márcio Pereira: ambiciono sucesso, não a fama

Entrevista para a Voz de Lamego conduzida por Andreia Gonçalves

Márcio Pereira, natural da Penedono, é um cantor nacional, que já deu a conhecer o seu talento, voz e estilo próprio no primeiro álbum. Arrojado, aposta em vídeos para o lançamento das suas músicas e nos palcos não deixa ninguém indiferente.

Márcio, tens uma imagem forte e uma voz que marca. O que talvez poucos saibam é que, para além de arquiteto, também és professor de dança. Conta-nos tudo!

É verdade. Além de cantor sou também arquiteto e instrutor de zumba. Apesar de estar no mundo da música desde muito novo, foi no final do meu mestrado que surgiu a ideia/oportunidade de gravar o meu primeiro single. Desde aí, a minha carreira evoluiu naturalmente, obrigando-me a deixar a arquitetura em stand-by. Felizmente tenho conseguido conciliar com as aulas de Zumba, embora com um horário bem mais reduzido. Mas a vida é mesmo assim. Cada experiência no seu devido tempo e amanhã tudo pode mudar. Portanto todas as portas estão em aberto.

As rádios passam as tuas músicas, as televisões dão-te muitas possibilidades para te mostrares ao país. Gosta da exposição a que estás sujeito?

Tenho noção de que a minha música chega a muitas pessoas diariamente e a televisão leva também a minha imagem. Mas, para já, não sinto que esteja exposto nem que seja reconhecido em qualquer lugar. Acontece pontualmente o que para já é pacificamente suportável. Sinceramente tenho algum receio do mediatismo pois considero-me uma pessoa bastante reservada. No bom português, adoro estar no meu canto. Ainda recentemente uma grande artista portuguesa expôs a sua situação publicamente, o que acaba por mostrar às pessoas que os músicos também são pessoas “normais”. Por outro lado, a fama é o preço do sucesso. Ambiciono sucesso, não a fama.

Uma das tuas características é que tu não te iludes. Tens os pés assentes na terra. Isso faz de ti um sonhador com peso e medida em relação ao mundo musical?

Sem dúvida. Não vivo obcecado em fazer por fazer ou fazer porque tenho que ter sucesso naquele momento.

Todas as minhas músicas, todos os meus trabalhos surgem no tempo que eu acho que deve ser e quando tenho possibilidades para o fazer. Nunca devemos dar um passo maior do que a perna. Sou feliz a fazer o que gosto desta forma e quem gostar de mim irá certamente esperar e, acima de tudo, respeitar o meu tempo.

Obviamente não posso negar, gostava de dar muito mais a quem me ouve e me segue, mas nos dias que correm apresentar algo com qualidade não é fácil. E quem gosta de mim não merece algo “assim-assim”.

A vida é uma constante aprendizagem e na música não é exceção. Depois de algum tempo decides viver novas experiências, outras produções, outras composições, outro produtor. Como é que tudo aconteceu e como está a ser esta nova experiência?

Minha amiga, Andreia, obviamente teria que ser contigo que iria falar disto publicamente pela primeira vez. É verdade. Depois de muito tempo a gravar com o meu amigo Jorge do Carmo, resolvi experimentar algo novo, diferente. Como tu sabes, surgiu tudo muito naturalmente, como em tudo na minha carreira. Uma amiga incentivou-me a conhecer e gravar algo com uma das pessoas que foi uma referência durante a minha infância. Que por sua vez trouxe para a minha vida um profissional e ser humano fantástico. Não vou referir o nome, vou antes deixar em aberto pois quero surpreender todos os que seguem e ouvem o meu trabalho. Quero expressões de admiração no dia que a minha página oficial publicar “este é o novo single do Márcio Pereira”. Acho que vou conseguir, não concordas?

Claro que sim, concordo e confio. Já agora, para quando está marcada a estreia desses novos temas?

Infelizmente esta é uma questão que não te consigo responder. Por mim teria sido ontem. Mas todo este processo de publicação de um novo single não depende apenas e só de mim. Mas prometo que durante fevereiro ou início de março todos irão poder conhecer o meu novo trabalho.

Para além da tua carreira a solo, geres uma banda, os SPS. Como tem sido fazer estrada com essa família que tu escolheste?

É fantástico. A banda SPS é o meu projeto de criança. Comecei com 15, 16 anos. E tem vindo a crescer a um ritmo alucinante. Juntos este mês tivemos 6 espetáculos. É um complemento fantástico ao “Márcio Pereira-artista” e juntos temos imenso para oferecer ao público. E cada vez mais iremos trabalhar para surpreender. Convido todos os leitores a pesquisar nas redes sociais “SPS band”. Sigam esta equipa e a mim também para estarem sempre a par das novidades. Mas o principal convite é mesmo para virem assistir aos nossos espetáculos.

Este ano de 2020, começou com espetáculos que têm acontecido todos os fins de semana. O ano promete a nível de trabalho. Certo?

No seguimento no que referi atrás, sim, promete. Temos imensos espetáculos, imensas propostas para este ano. Tem sido uma verdadeira loucura. Mas o público é sempre tão fantástico que a palavra cansaço não existe no nosso dicionário. Por isso certamente nos iremos encontrar por aí.

Deixa-me apenas, antes de acabar esta entrevista, agradecendo-te a ti, Andreia, pela amizade, e ao jornal Voz de Lamego pela oportunidade e a todos os leitores, fãs e amigos por todo o carinho que alimenta esta minha força para continuar. Sejam felizes!

in Voz de Lamego, ano 90/08, n.º 4543, 21 de janeiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: À procura da unidade plural

Todos os anos, entre o dia 18 e 25 de janeiro, se celebra o Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, concluindo-se com a festa da conversão de São Paulo, apóstolo que zelou pela unidade da Igreja, pela unidade dentro das comunidades, procurando também a sintonia com os Doze (apóstolos).

Jesus, na oração sacerdotal, verdadeiro testamento espiritual, deixa claro a razão da encarnação e da entrega que se aproxima: “…para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti… Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim” (Jo 17, 21-23).

A Igreja é santa, porque o Seu fundador é santo, mas simultaneamente pecadora, porque é constituída por homens. As divisões fizeram-se sentir ainda em vida de Jesus, quando alguns discípulos seguiram outro caminho ou quando Judas abandonou o barco. Com a evangelização, procuram-se pontos de contacto mas surgem também ruturas, discussões e de divisões. Paulo recorda-nos que todos de Cristo, fomos batizados no mesmo Espírito, professamos a mesma fé, recebemos, vivemos e anunciamos o mesmo Evangelho. Não existem cristãos de Paulo, de Apolo ou de Pedro, os cristãos são de Cristo, ponto de convergência! O caminho terá de ser, sempre, de fidelidade a Jesus.

Os cristãos passaram séculos a dividir-se até perceberem a traição ao mandato de Cristo. A transformação do mundo começa por cada um de nós, em nossa casa, na nossa família, na nossa comunidade, na Igreja. Os despiques e a fragmentação de grupos e de igrejas em nada contribuíram para a paz e para uma sociedade mais fraterna.

Seguindo Jesus, teremos de agir como Ele, procurando o que nos irmana, reconhecendo que somos todos filhos de Deus. Um dos pontos de contacto e de sintonia é a oração. Rezamos ao mesmo Deus, que é Pai e Filho e Espírito Santo. Por sua vez, a oração leva-nos à opção preferencial pelos mais pobres. Por outras palavras, a oração leva-nos a agir como Aquele a Quem rezamos.

Este ano, o subsídio de apoio para esta semana foi elaborado pelas Igrejas de Malta e Gozo, partindo do versículo dos Atos dos Apóstolos “Trataram-nos com gentileza” (28,2). “No dia 10 de fevereiro, em Malta, muitos cristãos celebram a Festa do Naufrágio do Apóstolo Paulo, a comemorar e a agradecer pela chegada da fé cristã àquela ilha. O trecho dos Atos dos Apóstolos proclamado para a ocasião da festa é o mesmo escolhido como tema da Semana de Oração deste ano”. O contexto destas Igrejas das ilhas permite um sublinhado importante, a atualidade do naufrágio e dos refugiados. “Hoje muitas pessoas enfrentam os mesmos perigos no mesmo mar. Os mesmos lugares citados nas Escrituras caracterizam as histórias dos migrantes de hoje. Em várias partes do mundo, muitas pessoas enfrentam viagens perigosas, por terra e pelo mar, para fugir de desastres naturais, guerras e pobreza. Também para eles, são vidas à mercê de forças imensas e altamente indiferentes, não só naturais, mas também políticas, económicas e humanas”.

Para cada um dos dias, uma temática a rezar e a refletir, e que nos diz do caminho que temos de percorrer: reconciliação, luz, esperança, confiança, força, hospitalidade, conversão e generosidade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/08, n.º 4543, 21 de janeiro de 2020

Jaime Gouveia: viagem do Historiador pelo passado, presente e futuro

Entrevista para a Voz de Lamego conduzida por Andreia Gonçalves

Jaime Ricardo Gouveia é natural de Leomil, Moimenta da Beira. Tem 17 livros publicados, é atualmente investigador do Centro de História da Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra, professor convidado na mesma instituição e professor credenciado da pós-graduação da Universidade Federal do Amazonas, no Brasil.

Ganhou o prémio “Calouste Gulbenkian”, atribuído pela Academia Portuguesa da História, pelo seu livro, “A quarta porta do inferno. A vigilância e disciplinamento da luxúria clerical no espaço luso-americano (1640 – 1750)”, resultante da tese de doutoramento defendida no Instituto Universitário Europeu de Florença, Itália, em outubro de 2012.

Como surgiu a escolha deste tema para a sua tese de doutoramento e quais as conclusões mais pertinentes que conseguiu comprovar com esta investigação?

Surgiu na sequência da vontade em prosseguir e expandir cronológica e tematicamente a minha dissertação de mestrado intitulada “O Sagrado e o Profano em Choque no Confessionário. O delito de solicitação no Tribunal da Inquisição. Portugal, 1551-1700”. As conclusões desta tese, também publicada em livro, incitaram-me a investigar, no doutoramento, um problema pertinente do ponto de vista historiográfico, através de um enfoque comparativo entre Portugal e o Brasil. Tratou-se de conhecer quais os mecanismos de justiça (episcopal e inquisitorial) utilizados no período compreendido entre 1640 e 1750 para vigiar e disciplinar o clero. A investigação foi conduzida numa instituição internacional com uma bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e outra da Fundação Para a Ciência e Tecnologia, usando bibliografia produzida neste campo de estudos e uma profunda, criteriosa e exaustiva recolha de fontes primárias, grande parte das quais inéditas, e depositadas em diversos arquivos existentes nos dois lados do Atlântico. Entre as várias conclusões a que cheguei com este trabalho, destaco a refutação de um argumento durante muito tempo dominante, segundo o qual entre os séculos XVI e XVIII predominou na América Portuguesa um padrão quase livre de comportamento sexual e moral dos clérigos e dos leigos, devido ao facto de as autoridades eclesiásticas que os deviam instruir, vigiar e punir se terem demitido propositadamente dessa função, atitude estimulada pela coroa visando a atração de colonos e o incremento da procriação. Concluiu-se que isto não é verdade. Tanto em Portugal como no Brasil (e deste ponto de vista a realidade colonial não foi sui generis) a Igreja Católica pôs em marcha um conjunto de políticas de vigilância e disciplinamento para salvar os seus ministros da luxúria, a quarta das portas que segundo o célebre Afonso Liguori dava acesso ao Inferno.  

“Marte contra Minerva”, outra obra sua, remete-nos para o germinar das ideias republicanas em Moimenta da Beira até aos nossos dias, com acolhimento preferencial das lutas, debates, polémicas e embates entre republicanos e monárquicos. Porquê a escolha deste título e qual a importância de estudar esses embates no concelho moimentense?

Este livro surgiu da ideia de comemorar o primeiro centenário de um acontecimento decisivo na nossa história, a Implantação da República, nascida do embate entre a guerra sangrenta das armas (Marte) e a guerra diplomática (Minerva). Trata-se de um processo com os seus desatinos, mas que teve o condão de transformar em cidadão o súbdito de antanho. Este livro procurou perceber como se deu essa transição complexa, polémica, cheia de incidências e de onde emergem diversos protagonistas em Moimenta da Beira, um concelho que ao ser constituído sede de círculo eleitoral assumiu protagonismo regional. Para reconstituir toda essa trama política recuei até ao período das invasões francesas no sentido de detetar a germinação e ulterior difusão de determinados ideais revolucionários que moldariam o republicanismo enquanto processo em marcha. Ao contrário do que acontecia no panorama nacional, em Moimenta da Beira esse republicanismo tinha mais obreiros do que teóricos. Apesar de este estudo ter sido inserido num momento comemorativo, o olhar que se encetou sobre essas personagens locais não se destinou, como por vezes erradamente acontece, a crivá-las de sátiras ou incensá-las de louvores, destinou-se apenas a reconstituir e compreender a sua ação. É para isso que serve a História.

Porque estamos a falar de Moimenta da Beira, investigou sobre todos os pelourinhos do concelho e daí nasceu um livro que ficará para a história da Vila. Com este estudo ajudou na reconstrução de uma réplica do pelourinho de Moimenta da Beira, há muito desaparecido. Conte-nos como tudo aconteceu… Ler mais…

Pe. Miguel Peixoto – Um permanente sinal admirável

Pode parecer um pouco extemporâneo falar sobre a carta apostólica Admirabile signum (As) do Papa Francisco depois do dia 25 de dezembro e, de facto, é se nos fixarmos uma dimensão meramente cronológica da nossa realidade. Contudo, enquanto crentes olhamos para a representação da natividade de Jesus e nela vemos a possibilidade de aprofundar o mistério da incarnação do Verbo de Deus, associando-nos ao gesto do Santo Padre, quando tornou pública mais uma das suas reflexões, desta vez sobre o significado e valor do Presépio.

O tempo e o espaço ganham, assim, uma outra dimensão quando os percebemos numa perspetiva kairológica, pois, o aqui e agora da nossa vida passam a ser um oportuno momento único, porque envolvidos pela presença de Deus. Se Deus sempre esteve presente na história da humanidade, a sua presença torna-se incarnada no nascimento de Jesus, mostrando-nos, com a nossa própria carne, que Deus não é uma ilusão ou uma fábula, mas ser real que, mesmo existindo desde sempre, quis incarnar na nossa realidade.

É, na verdade, no contexto da incarnação do Verbo que devemos ler a carta Admirabile signum, compreendendo que a sua representação, no presépio, se torna “como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura” (As 1).

O presépio torna-se sinal admirável, não só porque continua a suscitar a admiração de quem o contempla, mas porque nos guia na contemplação do mistério em que uma das pessoas do único Deus, o Filho, continua em tudo a ser Deus na fragilidade e simplicidade de uma criança, de um ser humano e comove-nos porque manifesta a ternura de Deus. Ler mais…

Editorial da Voz de Lamego: Dar a outra face… ou nem tanto!

No início de cada ano, e neste não foi diferente, há uma onda de esperança, com milhentos votos e propósitos de que tudo poderá ser melhor, a nível pessoal, familiar e social, a nível profissional, extensível à economia, à política, às relações internacionais. Mas logo a borrar a pintura o assassinato do general iraniano Soleimani, a 3 de janeiro, com a justificação que comandou diversas ofensivas contra militares americanos. Como vingança, os iranianos lançaram, dias depois, a 7 de janeiro, vários mísseis contra duas bases áreas americanas, situadas no Iraque, sem baixas.

Entretanto chegou a notícia de que um avião ucraniano se tinha despenhado, matando 176 pessoas que iam a bordo, no dia 9 de janeiro. Num primeiro momento, a informação de que se tratava de um acidente, mas logo se veio a saber que tinha sido abatido pelos iranianos. O Irão foi negando mas as informações levaram à admissão da culpa, ainda que tenham sublinhado ter-se tratado de um erro. Erro ou propositado, os protestos saíram à rua contra as autoridades iranianas, pois muitos dos que iam a bordo eram precisamente iranianos. Foram mortas 176 pessoas. É demasiado grave para esconder e se distorcer a informação.

A ameaça da guerra é uma constante; a paz, muitas vezes, não é conseguida pelo diálogo e pela verdade, mas pela força, pela demonstração bélica. Segundo as palavras do Papa Francisco já vivemos a Terceira Guerra mundial não apenas pelos focos de guerrilha, perseguição, mas também pelas políticas castradoras que exploram os mais pobres, pessoas e povos, obrigando-os a mendigar o que lhes pertence; a miséria, o tráfico de pessoas e/ou de órgãos humanos, a exploração sexual; o narcotráfico, as ditaduras que perduram, a corrupção, os guetos e os muros construídos; a ditadura da bolsa de valores e de novas ideologias, de multinacionais da comunicação e das empresas multinacionais que exploram exaustivamente as riquezas naturais, com trabalho escravo, comprando barato, e vendendo caro (aos mesmos que exploram). Como não lembrar, outro caso estranho, a Alemanha que, ao mesmo tempo, emprestava dinheiro, com juros, à Grécia, e vendia-lhe armamento, ganhando duas vezes à custa dos gregos. Os refugiados continuam a ser o rosto da miséria, da insegurança, da violência gratuita e da indiferença dos países mais ricos!

A pobreza de alguns países tem a conivência das autoridades locais. As lideranças políticas têm pouca vontade de resolver as dificuldades das suas gentes, mantendo-se infindamente no poder, controlando os militares, usufruindo, em benefício próprio, do comércio com países industrializados, empobrecendo os seus países!

Pouco a pouco, ainda que lentamente, as populações parecem abrir os olhos. O recente protesto contra as autoridades iranianas é expressivo: primeiro apoiaram a vingança contra os americanos, depois perceberam que as autoridades iranianas não se importam em sacrificar os seus ou de os enganar, mentindo-lhes…

A violência, a ameaça, as injustiças e a corrupção, o controlo da informação e as guerrilhas impedem o almejado desenvolvimento dos povos, destruindo as possibilidades de uma paz duradoura. Ainda estamos longe do desafio de Jesus, mas não chegaremos lá antes da justiça solidária!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/07, n.º 4542, 14 de janeiro de 2020