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Archive for Janeiro, 2016

SALMOS DA MISERICÓRDIA

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Neste Ano da Misericórdia, o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização preparou e publicou uma pequena colecção de livros para ajudar à vivência deste jubileu. Um dos livrinhos (135 p.) tem por título “Os Salmos da Misericórdia”. Após uma breve apresentação, são apresentados, de forma simples e didáctica, dez salmos. O objectivo é ajudar a compreender estes poemas e divulgar a sua recitação. Porque, tal como ali se pode ler, “O Saltério é, na verdade, a voz de Deus transformada em oração dos homens quando estão na sua presença, sabendo necessitarem do seu amor” (p. 5).

Se pegarmos na Bíblia e a abrirmos no Antigo Testamento lá encontraremos o Livro dos Salmos que nos oferece um conjunto de 150 poemas. Na Igreja, os ministros ordenados assumem o dever de os recitar ao longo do dia (Liturgia das Horas), embora já muitos fiéis leigos os recitem, por exemplo de manhã (Laudes) ou à tarde (Vésperas). E rezamo-los também nas nossas Eucaristias, logo após a primeira leitura.

Aqui ficam os dez salmos atrás referidos.

Sl 25 – uma súplica individual, onde aquele que reza se sente atormentado pelos inimigos e se dirige confiadamente a Deus para que o livre dessa situação;

Sl 41 – súplica de um doente que se dirige ao Senhor para que o livre da enfermidade, certo de que a sua oração será atendida;

Sl 42 e Sl 43 – o salmista encontra-se afastado da face de Deus e por isso a sua alma se consome e o seu interior está desgastado… O silêncio de Deus incomoda e inquieta, mas a certeza da presença do Senhor anima-o para o tempo que virá;

Sl 51 – um dos salmos mais conhecidos, que a Igreja reza todas as sextas-feiras (Laudes), também referido como “Miserere”. O pecado é assumido e confessado e o orante pede perdão e purificação. Invocando o pleno perdão divino, apela ao amor misericordioso de Deus;

Sl 57 – súplica dirigida a Deus, colocada nos lábios do rei David, testemunhando os sentimentos de angústia e de confiança;

Sl 92 – exemplo de um hino que convida ao louvor, desenvolve os motivos do louvor e convida ao reconhecimento diante da rectidão de Deus;

Sl 103 – hino de louvor ao Senhor, onde a alma humana é convidada a bendizer o Senhor, num louvor que nunca terminará;

Sl 119 – o salmo mais longo do Saltério, uma lamentação que apresenta o tema da perseguição dos inimigos;

Sl 136 – hino de acção de graças utilizado nas grandes festas, com um ritmo litânico que repete o refrão “é eterna a sua bondade” por cada momento da salvação (criação, redenção, dom da terra).

Porque não, ao longo deste ano, desenvolver este gosto por rezar a Deus com os Salmos e integrar a sua recitação nos diversos momentos de oração individual, familiar ou comunitária?

Como escreveu o nosso bispo, D. António Couto, “Os Salmos são para cantar com toda a intensidade… para entregarmos a Deus a nossa alegria, mas também o ódio que nos habita. Rezar é entregar tudo a Deus” (O Livro dos Salmos, p. 5).

JD, in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

NOSSA SENHORA DA LAPA | Santuário Mariano

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O culto de Nossa Senhora da Lapa remonta ao século XV, mais concretamente a 1498, quando uma pastorinha de nome Joana e muda de nascença, divisou Nossa Senhora por entre as fendas de dois enormes penedos que são um verdadeiro hino ao granito, penedias que continuam intactas e estão dentro do atual Santuário.

Os enormes penedos quase se tocam na parte mais funda e pela sua fenda, tão estreita, dificilmente passa uma pessoa de cada vez, dizendo-se até que ninguém passa se estiver em pecado.

Foi precisamente aqui que Nossa Senhora apareceu à pastora Joana e o milagre expandiu-se de pronto, tanto que não tardou o culto a Nossa Senhora da Lapa assim venerada por ter aparecido debaixo da Lapa.

A construção do Santuário propriamente dito iniciou-se no século XVI por impulso dos Jesuítas, tendo terminado as obras no século XVII.

O Santuário é um tesouro riquíssimo, tendo obras de arte de valor incalculável.

Neste apontamento, necessariamente breve, é imperioso destacar o altar mais antigo: o MENINO JESUS da Lapa. No interior da gruta vemos o altar da Senhora da Lapa, altar muito lindo, adornado com um frontal de prata lavrada. O Presépio da escola de Machado de Castro, deixa-nos encantados ao vê-lo. A capela do Santíssimo Sacramento revela o retábulo de talha dourada.

São magníficos os quadros referentes à morte de São José, Senhora da boa morte, o altar de Santo António, de Jesus crucificado.

A Lapa foi, durante cerca de quatrocentos anos, o mais importante Santuário de Portugal. A partir deste Santuário multiplicaram-se muitos outros lugares de culto a Nossa Senhora da Lapa em todo o território português. Reis de Portugal vinham venerar Nossa Senhora da Lapa e oferecer-lhe presentes valiosos.

A Lapa chegou a ser vila, concelho e condado. O Santuário é vivo coração da Beira desde tempos imemoriais. Urge, de novo, pô-lo no lugar a que tem direito. São inúmeros os testemunhos de milagres concedidos por intercessão da Virgem da Lapa. O seu culto está enraizado em todo o mundo, com especial predominância no Brasil, afirmando-se que Nossa Senhora da Aparecida é uma redundância da Nossa Senhora da Lapa.

É de referência também o chamado Colégio construído pelos Jesuítas.

Em 1994, o atual Reitor do Santuário, reverendo Padre José Alves de Amorim, iniciou no Colégio obras de restauro a fim de o Colégio poder ser utilizado como apoio aos peregrinos.

As obras de restauro são efectivamente de grande vulto e foram executadas a rigor por especialistas competentes, dando ao Colégio verdadeira funcionalidade. Honra seja feita ao ilustre e dedicado Reitor.

O Santuário da Lapa tem de ser alargado no seu território para albergar todos os devotos que aqui se concentram.

O Santuário da Lapa, bem como o Colégio e os anexos envolventes foram construídos na serra do mesmo nome: a Serra da Lapa, que nela nasce o rio Vouga e desagua em Aveiro. Com a nascente do rio, torna-se este local mais aprazível, com várias fontes, nomeadamente a fonte dos Clérigos, com água pura e abundante para dessedentar todos os peregrinos.

Faço votos para que o Santuário de Nossa Senhora da Lapa tenha no Jornal Voz de Lamego um verdadeiro púlpito a apregoar a excelência de tão sagrado lugar, onde a Virgem seja lembrada, venerada, amada pelos séculos dos séculos.

Nuno de Santa Maria Pascoal,  in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

Consagrados | Renovação dos Votos religiosos

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Integrada na Semana do Consagrado – que, neste ano, decorrerá de 26 de Janeiro a 2 de Fevereiro -, no próximo domingo, dia 31 de Janeiro, o Senhor Bispo D. António Couto, presidirá à Eucaristia das 11h30, na Sé de Lamego. Nesta Eucaristia, os consagrados da Diocese presentes renovarão os seus votos religiosos e serão chamados a colaborar especialmente na animação da liturgia.

Todas as pessoas estão convidadas a participar nesta celebração, dando graças ao Senhor pelo dom que este chamamento de especial entrega ao Senhor é, para todas as vocações, de apelo de seguimento de Jesus segundo ao conselhos evangélicos de pobreza generosa, de castidade segundo o estado de vida e de obediência à vontade do Senhor nos caminhos deste mundo.

No final deste Ano da Vida Consagrada, a Igreja de Lamego pede ao Senhor por todos os consagrados para que renovem sempre o seu entusiasmo por Cristo, pela Igreja e pelo mundo, e por todas as famílias e paróquias, para que sejam verdadeiros espaços em que as crianças e jovens a quem Deus chama a uma vida de consagração total possam desabrochar e dizer um SIM sem reservas ao Senhor.

Irmã Teresa Maria de Frias, Serva de Nossa Senhora de Fátima,

secretária da CIRP diocesana,

in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

Somos o Povo de Deus | Festa da Catequese

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A noção de Igreja como sendo o conjunto dos Filhos de Deus é uma noção pouco presente na nossa mente; só assim se justifica o pouco cuidado que muitos de nós tem em cuidar e acarinhar a “nossa Igreja”, estando presente, colaborando, sendo assíduo ás celebrações, etc. Como se a Igreja fosse responsabilidade de “outros” e meu apenas o usufruto (quando me conviesse, claro).

Desde o início da catequese a ideia de Povo de Deus formado por todos os cristãos, todos irmãos e iguais aos olhos do Senhor é gradualmente incutida nas crianças ; todos diferentes, cada um com as suas virtudes, as suas manias, os seus defeitos, as seus características , mas assim feitos por Deus e desse modo devendo ser aceites como são pelos irmãos, com carinho, tolerância, união, amor e entreajuda.

É este Povo que se aceita e acolhe o Outro, que se une para orar na Casa de Deus, que forma a Igreja.

A Casa de Deus, o edifício, é muito bonito, propenso á reflexão e á oração, mas é apenas uma igreja (propositadamente com minúscula); é um símbolo, não é o essencial. O essencial é quem a preenche, és tu, sou eu, somos todos os enchemos os seus bancos, os que prendem o olhar no altar, os que elevam as suas preces ao Senhor.

É este conceito que os meninos e meninas do 5º ano festejaram este domingo, assumindo o compromisso de serem Igreja com toda a comunidade, e, num gesto simbólico, colocando a sua fotografia numa representação gráfica de uma igreja como prova da sua vontade de estar presente na vida paroquial, junto dos seus irmãos.

Testemunhado por pais e familiares e por toda a comunidade presente, deram exemplo a muitos que talvez possam repensar o seu empenhamento e reforçaram a vontade de quem já participa.

As crianças da catequese foram a assistência mais entusiasmada, mais curiosa e mais participativa, prova de que sentem como seu qualquer evento protagonizado pelos seus colegas e têm já a noção de Família em Cristo.

É esta unidade a base da Igreja que estamos a construir todos os dias.

IM, in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

CAMINHAR JUNTOS | CONSELHO DIOCESANO DE PASTORAL

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  1. Na manhã do último sábado, dia 23, na Casa de São José (Lamego) e com a presença de D. António Couto, reuniu o Conselho Diocesano de Pastoral. Apesar das ausências, algumas justificadas, o encontro decorreu de forma serena e profícua, cumprindo a agenda previamente enviada aos respectivos membros, oriundos das diversas realidades diocesanas. A sinodalidade eclesial é um bem que dinamiza as comunidades, responsabilizando e favorecendo a participação, tornando possível a visão da Igreja como um “nós” onde cada baptizado é sujeito.
  1. Após a oração inicial e a aprovação da acta da reunião anterior, os conselheiros foram convidados a partilhar experiências, impressões e conclusões quanto à forma como tem decorrido o ano pastoral. Uma partilha que identificou diferenças de ritmo, mas que sublinhou, com alegria e gratidão, o caminho já percorrido, as dinâmicas que tendem a implantar-se e uma maior participação dos fiéis leigos na vida diária das comunidades, dos grupos e movimentos. Apontaram também a necessidade de melhorar a articulação entre todos, nomeadamente através de uma comunicação e partilha mais atempadas e generalizadas.
  1. A evangelização é a finalidade primeira de toda a acção pastoral e responsabilidade partilhada por todos os baptizados, tal como se afirma no lema pastoral deste ano: “Ide e fazei da casa de meu Pai Casa de Oração e de Misericórdia”. Um percurso nem sempre isento de dificuldades, mas onde semear continua a ser urgente, nomeadamente através do testemunho, da proximidade e da atenção a todos. É verdade que há desafios novos, nomeadamente trazidos pela linguagem, pela indiferença ou demissão da família no acompanhamento e vivência da fé. Mas o Mestre manda lançar as redes e a diocese vai cumprindo a missão.
  1. O diálogo prosseguiu depois com a partilha de sugestões, mais concretamente sobre a vivência do Ano da Misericórdia em curso e sobre a preparação do Dia da Família diocesana, marcado para o Santuário de Nossa Senhora da Lapa, para o dia 25 de Junho.
  1. Assumindo e louvando o muito que se vai fazendo em algumas paróquias, zonas e arciprestados, foi sugestão generalizada a aposta na formação, nomeadamente no campo da oração. Será por aqui, onde os párocos assumem particular responsabilidade, que uma melhor compreensão da fé poderá conduzir a um compromisso e testemunho mais visíveis e duradouros.
  1. O Coordenador da Pastoral, Cón. José Manuel Melo, reforçou o convite para o encontro de formação/oração para colaboradores paroquiais, a realizar no próximo dia 13 de fevereiro, em três locais da diocese. E anunciou também o envio de material de apoio a todas as paróquias tendo em vista a vivência da fé em família durante a Quaresma que se aproxima (10 de fevereiro).
  1. O nosso bispo encerrou o encontro congratulando-se com a presença de todos, agradecendo o contributo de cada um e motivando a uma continuidade fiel e criativa na vivência e testemunho do Evangelho. Salientou, ainda, a necessidade de repensar a composição deste órgão consultivo, de forma a alargar a visão da realidade diocesana.

A próxima reunião deste Conselho acontecerá no próximo dia 28 de Maio.

J.D., in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

Jornadas de Formação | Clero de Lamego

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Nos dias 18 e 19 de janeiro, o presbitério de Lamego viveu um tempo de formação, na Casa de São José, em Lamego, tendo como intervenientes D. António Couto, Bispo de Lamego, e o Pe. Jorge Carneiro, sacerdote Jesuíta.

Presentes 46 sacerdotes (incluindo dois seminaristas, o Diogo e o Rafael). Como tema de fundo o Lema Pastoral da Diocese: Ide e fazei da Casa de Meu Pai Casa de Oração e de Misericórdia.

Deus reza em nós a Sua misericórdia

A primeira intervenção coube a D. António Couto. Partiu dos Salmos para sublinhar a Misericórdia de Deus como um dos Seus atributos essenciais.

“Deus é só e sempre amor… e sobre esse amor assenta tudo”. O amor, porém, é pensado. Pode ser uma escolha que vou solidificando. A misericórdia de Deus é visceral, está mais do lado do instinto. Quando surge uma situação é necessário agir, resolver, sem pensar.

Na parábola do Bom Samaritano – sublinhou D. António – o sacerdote e o levita viram aquele homem violentamente espancado pelos salteadores e não fizeram nada, pensaram nas consequências, na lei, na impureza cultual. O Samaritano, com efeito, não pensou, agiu, aproximou-se, tratou-lhe as feridas, levou-o para a estalagem e dispensou uma elevada quantia para que tratassem bem dele.

É o agir de Jesus. Vê a multidão e comove-Se, logo a alimentará com a palavra e com o pão. Quando a viúva acompanha o seu filho único ao túmulo, Jesus aproxima-Se, comove-Se, e levanta-o e devolve-o à mãe. Jesus faz o que faz sem pensar. Também a Parábola do Filho Pródigo revela esta misericórdia que está antes do pensar. O Pai vê o filho desavindo e corre ao seu encontro, abraça-o e faz-lhe uma festa.

Deus é Misericórdia que nos acolhe e nos reza: “Que a minha vontade seja que a minha misericórdia possa vencer a minha ira e a minha misericórdia possa prevalecer sobre os outros meus atributos” (Talmude). A oração de Deus é a misericórdia.

Em Êxodo 34, 6-7, Deus expõe-Se, prometendo a Moisés fazer passar toda a Sua bondade e beleza. E passou diante de Moisés. Não passar é mau. Passar é bom.

Deus proclama-Se, expõe-Se a nós, rezando, com doçura e estremecimento. Expõe-Se por escrito, como Jesus está exposto/escrito na Cruz (Rom 3, 25). É um Deus que faz graça e faz misericórdia. A misericórdia remete-nos para o ventre materno, onde se gera a vida, único sítio no mundo onde duas vidas convivem e cuja ligação permanece. É uma linguagem concreta e muito viva. Deus tem um ventre maternal. Um olhar maternal.

Identidade e missão sacerdotal a partir de Cristo

Após a intervenção de D. António e do intervalo, o saber e o testemunho do Pe. Carlos Carneiro, sacerdote Jesuíta, presentemente na Diocese do Porto.

Como ponto de partida: “Toda a vida do sacerdote é vida sacerdotal”.

A identidade do sacerdote terá de ser procurada em Jesus Cristo. N’Ele tudo é sacerdócio. O que pensa, o que reza, o que diz, o que faz. E é neste tempo que somos chamados a exercer o nosso sacerdócio; retirados de entre os homens, constituídos a favor dos homens. Citando a Presbyterorum Ordinis, o Pe. Carlos deixou claro que “não pode haver um padre que não seja bondoso”, ainda que sejamos ordenados com os nossos defeitos.

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É Deus que devemos anunciar e testemunhar.  Agora somos Pão. Somos Sangue. A nossa existência é um ofertório, “é para salvar, para dar saúde”. Somos a transparência de Cristo. Ele é o alicerce do meu sacerdócio. Ensinar, santificar e governar, é um todo do sacerdócio, do pastor. O pastor precisa do pastor e não apenas do rebanho.

Jesus foi crucificado voltado para nós e não de costas para nós. Não está zangado com o mundo. Está perto do Pai, é a transparência do Pai, a santificação do Pai para o mundo. A minha doutrina não é minha, é do Pai. Assim também nós em relação em Jesus Cristo. “Eu sou a boca e o coração de Cristo…”. Vamos sendo Cristo, gradualmente.

O cristianismo é um laboratório humano

Jesus vive. Ressuscitou. “Se Jesus não ressuscitou não faz sentido falar em Igreja. O cristianismo é muito mais que um humanismo”. Rezar serviria para quê? Se tirares Cristo, a Igreja não tem sentido. Jesus é a Casa da Oração e da Misericórdia. E a Igreja sê-lo-á se partir de Cristo. A Matriz da Igreja é Cristo ressuscitado.

 Jesus comungou a realidade. Qual é o lugar de Jesus? É a cruz, é a manjedoura… a pobreza é a Sua casa, o seu sofá, é ali que Ele vai ser reconhecido!

“A nossa missão é salvar, esperar, acolher, anunciar, aconselhar. O nosso tempo é o tempo de Deus”. Jesus não maltrata ninguém. Todas as pessoas têm direito pelo menos à bênção. O Confessionário é lugar de acolhimento, de misericórdia. “O santo é um pecador que não desiste”. Deus não desiste de ninguém. Há mais de 2 mil anos que a Igreja canta: Eterna é a Sua misericórdia (Sl 136). A misericórdia é para ser cantada e oferecida.

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A Casa da Oração torna-se casa de Misericórdia

A Igreja é a Casa do Perdão. O sacerdote ocupa os dois lugares: penitente e perdoador. “Igreja é o clube dos pecadores – quando vou à confissão sinto que vou ao estaleiro”.

Segundo João Paulo II, “o Lava-pés… é uma epifania, Deus desce e ajusta-Se à condição do pecador”. Esta é a justiça de Deus – ajustamento à condição do pecador. Perdoado o pecado, deixa de ser meu, passa a ser de Deus.

“Quando estamos em Deus estamos em casa… Deus responde ao pecado com o perdão”. O pecado não dura para sempre. “Não há pecador sem futuro, nem santo sem passado… A justiça de Deus é o seu perdão (cf. Sl 51/50)” (Papa Francisco). Poderemos então afirmar que “a misericórdia é a teimosia de Deus. Deus é teimoso na bondade e no perdão. Deus não pode não perdoar. O pecado de Deus seria Ele não perdoar. A mácula da Igreja é não perdoar…”. No início da Igreja está um traidor (Pedro) e um perseguidor (Paulo). Deus ajusta-se a nós.

“Jesus foi um homem comovido: Casa de oração que Se transformou em Casa de Misericórdia”.

Em jeito de conclusão…

No final, o Senhor Pro Vigário Geral, em nome do Sr. Bispo e dos sacerdotes, agradeceu a presença do Pe. Carlos Carneiro, pelas suas palavras e pelo testemunho que perpassou nas suas reflexões, dando exemplos concretos da sua vida como sacerdote católico – “gosto muito de ser católico. Não quero outros óculos que não estes… ser católico”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

ANO DOS CONSAGRADOS | Editorial Voz de Lamego | 26 de janeiro

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A Edição da Voz de Lamego, na semana dos Consagrados, 26 de Janeiro a 2 de Fevereiro, dá destaque, a partir da primeira página, ao Ano de Vida Consagrada. Também o Pe. Joaquim Dionísio, Diretor da Voz de Lamego, centra o Editorial no ano dos consagrados, sublinhando que o tempo de semear continua.

Há outros temas de interesse, entre os quais se pode destacar a celebração do Padroeiro da Diocese, São Sebastião, no passado dia 20 de janeiro, na Sé de Lamego, disponibilizando-se a HOMILIA de D. ANTÓNIO COUTO, e as Jornadas do Clero nos dias 18 e 19 de janeiro, que tiveram como conferentes o nosso Bispo e o Pe. Carlos Carneiro, sacerdote Jesuíta.

ANO DOS CONSAGRADOS

Aproxima-se o encerramento do Ano da Vida Consagrada convocado pelo Papa Francisco e proposto aos Consagrados como oportunidade para “olhar com gratidão o passado”, “viver com paixão o presente” e “abraçar com esperança o futuro”.

Na nossa diocese, com uma presença cada vez mais reduzida, os Consagrados viveram tal itinerário com alegria, não apenas nos encontros que protagonizaram ou na divulgação dos respectivos carismas, mas sobretudo pelo empenho com que participam na vida diocesana. A sua presença e serviço, tantas vezes discretos, são sempre apreciados e vistos como sinal do Senhor atento e disponível.

Num tempo marcado pelo secularismo, onde a cultura dominante tem a marca da cristofobia e do anti-católico, rejeitando a dimensão social da fé, os Consagrados são um sinal de Deus e representam a geografia da oração, do apostolado e da caridade, participando na edificação da Igreja e na concretização da sua missão evangelizadora.

Os Consagrados protagonizam uma grande liberdade pessoal, afastando-se de ideologias dominantes e optando por uma vida que não está em voga, sem aplausos. Mas é, certamente, uma forma bela de viver a vida “escondida com Cristo em Deus” (Col 3,3), de ser “sal e luz do mundo” (Mt 5, 13-16) e de encarnar o espírito das bem-aventuranças.

A história ilustra bem a fidelidade criativa dos Consagrados diante de vicissitudes e circunstâncias nem sempre favoráveis. Tal como ontem, também hoje lhes é pedida uma resposta diante dos desafios que se colocam. Com humildade, sem fórmulas mágicas, o importante é não cair em pessimismos contagiosos ou em ilusões triunfalistas. A todos anima a certeza de que Deus não abandona a Sua Igreja.

Termina o Ano da Vida Consagrada. Mais do que balanços, importa a consciência do dever cumprido. O tempo de semear continua.

in Voz de Lamego, ano 86/10, n.º 4347, 26 de janeiro de 2016

Mensagem do Santo Padre Francisco para a Quaresma 2016

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MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2016

«“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13).
As obras de misericórdia no caminho jubilar»

1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada

Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.

Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.

Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.

Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a misericórdia divina. Nele sobressai «a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Evangelii gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que «sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese» (Ibid., 164). Então a Misericórdia «exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar» (Misericordiӕ Vultus, 21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d’Ele. E faz isto na esperança de assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.

3. As obras de misericórdia

A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia. É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em actos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo. Por isso, expressei o desejo de que «o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (Ibid., 15). Realmente, no pobre, a carne de Cristo «torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga… a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós» (Ibid., 15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3, 5); e mais ainda, quando o pobre é o irmão ou a irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.

Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de omnipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco «sereis como Deus» (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem actualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais directamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os «ricos», de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os oiçam!» (Lc 16, 29). Esta escuta activa preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda.

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

Vaticano, 4 de Outubro de 2015
Festa de S. Francisco de Assis

Francisco

Mensagem do Papa Francisco: Dia Mundial das Comunicações Sociais

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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO PARA O 50º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

«Comunicação e Misericórdia: um encontro fecundo»

[8 de Maio de 2016]

Queridos irmãos e irmãs!

O Ano Santo da Misericórdia convida-nos a reflectir sobre a relação entre a comunicação e a misericórdia. Com efeito a Igreja unida a Cristo, encarnação viva de Deus Misericordioso, é chamada a viver a misericórdia como traço característico de todo o seu ser e agir. Aquilo que dizemos e o modo como o dizemos, cada palavra e cada gesto deveria poder expressar a compaixão, a ternura e o perdão de Deus para todos. O amor, por sua natureza, é comunicação: leva a abrir-se, não se isolando. E, se o nosso coração e os nossos gestos forem animados pela caridade, pelo amor divino, a nossa comunicação será portadora da força de Deus.

Como filhos de Deus, somos chamados a comunicar com todos, sem exclusão. Particularmente próprio da linguagem e das acções da Igreja é transmitir misericórdia, para tocar o coração das pessoas e sustentá-las no caminho rumo à plenitude daquela vida que Jesus Cristo, enviado pelo Pai, veio trazer a todos. Trata-se de acolher em nós mesmos e irradiar ao nosso redor o calor materno da Igreja, para que Jesus seja conhecido e amado; aquele calor que dá substância às palavras da fé e acende, na pregação e no testemunho, a «centelha» que os vivifica.

A comunicação tem o poder de criar pontes, favorecer o encontro e a inclusão, enriquecendo assim a sociedade. Como é bom ver pessoas esforçando-se por escolher cuidadosamente palavras e gestos para superar as incompreensões, curar a memória ferida e construir paz e harmonia. As palavras podem construir pontes entre as pessoas, as famílias, os grupos sociais, os povos. E isto acontece tanto no ambiente físico como no digital. Assim, palavras e acções hão-de ser tais que nos ajudem a sair dos círculos viciosos de condenações e vinganças que mantêm prisioneiros os indivíduos e as nações, expressando-se através de mensagens de ódio. Ao contrário, a palavra do cristão visa fazer crescer a comunhão e, mesmo quando deve com firmeza condenar o mal, procura não romper jamais o relacionamento e a comunicação.

Por isso, queria convidar todas as pessoas de boa vontade a redescobrirem o poder que a misericórdia tem de curar as relações dilaceradas e restaurar a paz e a harmonia entre as famílias e nas comunidades. Todos nós sabemos como velhas feridas e prolongados ressentimentos podem aprisionar as pessoas, impedindo-as de comunicar e reconciliar-se. E isto aplica-se também às relações entre os povos. Em todos estes casos, a misericórdia é capaz de implementar um novo modo de falar e dialogar, como se exprimiu muito eloquentemente Shakespeare: «A misericórdia não é uma obrigação. Desce do céu como o refrigério da chuva sobre a terra. É uma dupla bênção: abençoa quem a dá e quem a recebe» (O mercador de Veneza, Acto IV, Cena I).

É desejável que também a linguagem da política e da diplomacia se deixe inspirar pela misericórdia, que nunca dá nada por perdido. Faço apelo sobretudo àqueles que têm responsabilidades institucionais, políticas e de formação da opinião pública, para que estejam sempre vigilantes sobre o modo como se exprimem a respeito de quem pensa ou age de forma diferente e ainda de quem possa ter errado. É fácil ceder à tentação de explorar tais situações e, assim, alimentar as chamas da desconfiança, do medo, do ódio. Pelo contrário, é preciso coragem para orientar as pessoas em direcção a processos de reconciliação, mas é precisamente tal audácia positiva e criativa que oferece verdadeiras soluções para conflitos antigos e a oportunidade de realizar uma paz duradoura. «Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (…) Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 7.9).

Como gostaria que o nosso modo de comunicar e também o nosso serviço de pastores na Igreja nunca expressassem o orgulho soberbo do triunfo sobre um inimigo, nem humilhassem aqueles que a mentalidade do mundo considera perdedores e descartáveis! A misericórdia pode ajudar a mitigar as adversidades da vida e dar calor a quantos têm conhecido apenas a frieza do julgamento. Seja o estilo da nossa comunicação capaz de superar a lógica que separa nitidamente os pecadores dos justos. Podemos e devemos julgar situações de pecado – violência, corrupção, exploração, etc. –, mas não podemos julgar as pessoas, porque só Deus pode ler profundamente no coração delas. É nosso dever admoestar quem erra, denunciando a maldade e a injustiça de certos comportamentos, a fim de libertar as vítimas e levantar quem caiu. O Evangelho de João lembra-nos que «a verdade [nos] tornará livres» (Jo 8, 32). Em última análise, esta verdade é o próprio Cristo, cuja misericórdia repassada de mansidão constitui a medida do nosso modo de anunciar a verdade e condenar a injustiça. É nosso dever principal afirmar a verdade com amor (cf. Ef 4, 15). Só palavras pronunciadas com amor e acompanhadas por mansidão e misericórdia tocam os nossos corações de pecadores. Palavras e gestos duros ou moralistas correm o risco de alienar ainda mais aqueles que queríamos levar à conversão e à liberdade, reforçando o seu sentido de negação e defesa.

Alguns pensam que uma visão da sociedade enraizada na misericórdia seja injustificadamente idealista ou excessivamente indulgente. Mas tentemos voltar com o pensamento às nossas primeiras experiências de relação no seio da família. Os pais amavam-nos e apreciavam-nos mais pelo que somos do que pelas nossas capacidades e os nossos sucessos. Naturalmente os pais querem o melhor para os seus filhos, mas o seu amor nunca esteve condicionado à obtenção dos objectivos. A casa paterna é o lugar onde sempre és bem-vindo (cf. Lc 15, 11-32). Gostaria de encorajar a todos a pensar a sociedade humana não como um espaço onde estranhos competem e procuram prevalecer, mas antes como uma casa ou uma família onde a porta está sempre aberta e se procura aceitar uns aos outros.

Para isso é fundamental escutar. Comunicar significa partilhar, e a partilha exige a escuta, o acolhimento. Escutar é muito mais do que ouvir. Ouvir diz respeito ao âmbito da informação; escutar, ao invés, refere-se ao âmbito da comunicação e requer a proximidade. A escuta permite-nos assumir a atitude justa, saindo da tranquila condição de espectadores, usuários, consumidores. Escutar significa também ser capaz de compartilhar questões e dúvidas, caminhar lado a lado, libertar-se de qualquer presunção de omnipotência e colocar, humildemente, as próprias capacidades e dons ao serviço do bem comum.

Escutar nunca é fácil. Às vezes é mais cómodo fingir-se de surdo. Escutar significa prestar atenção, ter desejo de compreender, dar valor, respeitar, guardar a palavra alheia. Na escuta, consuma-se uma espécie de martírio, um sacrifício de nós mesmos em que se renova o gesto sacro realizado por Moisés diante da sarça-ardente: descalçar as sandálias na «terra santa» do encontro com o outro que me fala (cf. Ex 3, 5). Saber escutar é uma graça imensa, é um dom que é preciso implorar e depois exercitar-se a praticá-lo.

Também e-mails, sms, redes sociais, chat podem ser formas de comunicação plenamente humanas. Não é a tecnologia que determina se a comunicação é autêntica ou não, mas o coração do homem e a sua capacidade de fazer bom uso dos meios ao seu dispor. As redes sociais são capazes de favorecer as relações e promover o bem da sociedade, mas podem também levar a uma maior polarização e divisão entre as pessoas e os grupos. O ambiente digital é uma praça, um lugar de encontro, onde é possível acariciar ou ferir, realizar uma discussão proveitosa ou um linchamento moral. Rezo para que o Ano Jubilar, vivido na misericórdia, «nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação» (Misericordiae Vultus, 23). Em rede, também se constrói uma verdadeira cidadania. O acesso às redes digitais implica uma responsabilidade pelo outro, que não vemos mas é real, tem a sua dignidade que deve ser respeitada. A rede pode ser bem utilizada para fazer crescer uma sociedade sadia e aberta à partilha.

A comunicação, os seus lugares e os seus instrumentos permitiram um alargamento de horizontes para muitas pessoas. Isto é um dom de Deus, e também uma grande responsabilidade. Gosto de definir este poder da comunicação como «proximidade». O encontro entre a comunicação e a misericórdia é fecundo na medida em que gerar uma proximidade que cuida, conforta, cura, acompanha e faz festa. Num mundo dividido, fragmentado, polarizado, comunicar com misericórdia significa contribuir para a boa, livre e solidária proximidade entre os filhos de Deus e irmãos em humanidade.

Vaticano, 24 de Janeiro de 2016.

Papa Francisco

Solenidade de São Sebastião | Homilia de D. António Couto

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SOLENIDADE DE SÃO SEBASTIÃO

  1. A nossa Igreja de Lamego está hoje em festa, porque celebra jubilosamente o seu Padroeiro principal, São Sebastião, e dele recebe a necessária proteção e a suprema lição da dádiva da vida. Jesus Cristo foi a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. A sua LUZ foi intensa, o seu TESTEMUNHO imenso e descarado no meio da cidade ensonada e coroada pelos ídolos. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte, não se pode apagar o horizonte, não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição desencadeada nos primeiros anos do século IV. Mas já o bom perfume do fiel soldado de Cristo se tinha espalhado pelo mundo inteiro, e frutificava em novas comunidades, de acordo com o célebre aforismo de Tertuliano: «Sangue de mártires, semente de cristãos». E frutificava cada vez mais, sobretudo em circunstâncias difíceis, quando a fome, a peste e a guerra assolavam as populações.
  1. Acorda, Lamego, não tenhas medo! Coragem! Tem confiança! Ele chama-te! E diz-te, na página de hoje do Evangelho (Mateus 10,28-33), que vales mais do que muitos passarinhos. Do menor para o maior: se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não trabalham nem ceifam, com quanto mais carinho cuidará de nós! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tatuada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16). Como a dos sete jovens irmãos Macabeus e a do velhinho Eleazar, de 90 anos, como nos mostra hoje a história edificante e exemplar do Segundo Livro dos Macabeus, Capítulos 6 e 7. Portanto, levanta-te, Lamego, Igreja amada, acariciada, não abandonada (cf. Isaías 62).
  1. E a lição da Primeira Carta de São Pedro (3,14-17), também hoje escutada, ensina-nos bem: «Estai sempre prontos, preparados, para dar, a quem vos pedir, a razão da esperança que há em vós» (1 Pedro 3,15. Dá-se a razão, como se dá o pão. Sem argumentação. Mas com a mão e o coração. Não é em vão que a lição da Carta de São Pedro diz «razão» com o termo grego lógos. Está bom de ver que o lógos bíblico não é nada nosso, não são os nossos raciocínios teóricos e abstratos, fáceis, que não doem. A razão que somos chamados a dar não é um objeto do nosso pensamento, mas uma PESSOA a nós dada: Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido de Maria, «feito Homem como nós e que veio habitar no meio de nós» (João 1,14). É Ele a razão, o Lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Estar prontos, preparados, para dar a razão, o lógos, da nossa esperança, é estar prontos a dar a este mundo Jesus Cristo!
  1. De resto, amados irmãos e irmãs, é de Jesus Cristo que nós precisamos e de que este mundo precisa. É Jesus Cristo que as pessoas nos pedem. Foi Jesus Cristo que São Sebastião deu ao mundo no seu tempo. É Jesus Cristo que São Sebastião, Padroeiro da nossa Diocese, nos entrega hoje. Não como um valor a conservar e guardar com todas as cautelas em alguma gaveta ou cofre-forte. Mas para nós o entregarmos generosamente aos nossos irmãos. Quando celebramos um mártir, não sobra lugar para o acidental. É Jesus Cristo que um mártir tem nos olhos e no coração. É esta herança do essencial, sem estratégias ou malabarismos, que recebemos do nosso Padroeiro.
  1. Jovem soldado, jovem mártir, São Sebastião, ensina a tua Igreja de Lamego, que proteges, a estar sempre pronta, preparada e diligente para dar Jesus Cristo aos nossos irmãos que no-lo pedem.

Fui Eu, o Senhor, que te chamei, Sebastião,

E te enviei a tirar água com alegria

Das fontes da salvação.

Tomei-te pela mão

E modelei-te,

Coloquei-te

Como aliança do povo,

Como luz das nações

E dos corações.

Vai, de casa em casa, ó aguadeiro da paz e da bondade,

Dessedenta o meu povo ressequido,

Tu és o meu servo eleito e querido,

Amado,

Consagrado,

Tu és meu!

Vai, ergue bem alto esta lumieira,

E alumia

De alegria

A terra inteira.

E quando chegares ao fim,

Volta ao começo.

Recomeça!

Que a tua paz corra como um rio,

Como um fio de luz,

Como um desafio,

De pavio em pavio,

De mão em mão,

De coração em coração.

A tua missão,

Sebastião,

É ser clarão,

E entregar a luz

De Jesus

A cada irmão. Ámen

Lamego, 20 de janeiro de 2016, Solenidade de São Sebastião,

Padroeiro principal da nossa Diocese

+ António, vosso bispo e irmão