Andreia Gonçalves entrevista Paulo Pinto

“Este território das Terras do Demo poderia ser um espaço literário de referência em Portugal”

Entrevista conduzida por: Andreia Gonçalves

O livro “Aquilino Ribeiro e as Terras do Demo: o marketing num território literário” é uma homenagem ao mestre e aos lugares pelos quais era, verdadeiramente, apaixonado. Paulo Pinto é mestre em Comunicação e Marketing, e o que era uma tese passou a ser um livro, apresentado, em Sernancelhe, no final, de um colóquio especial, que encerrou as comemorações do centenário da publicação da obra “Terras do Demo”.

Por isso, vamos fazer uma viagem pelas Terras do Demo, enquanto entrevistamos, este promissor autor e perceber este seu estudo.

 O ponto de partida para este roteiro, de Aquilino Ribeiro, tem de ser o pátio e a casa onde nasceu o escritor, em 1885, no Carregal, lugar que deu origem ao livro “Cinco Réis de Gente”, obra que cronologicamente situa Aquilino, nos primeiros dez anos de vida, antes de ir estudar para o Colégio da Lapa.

E aqui, lanço ao Paulo Pinto, a primeira pergunta. Como nasceu a ideia de escrever este livro? 

O livro “Aquilino Ribeiro e as Terras do Demo, o Marketing num território Literário” é a materialização da tese de mestrado em Comunicação e Marketing que realizei na Escola Superior de Educação de Viseu. O desafio para que passasse de um trabalho académico a livro foi da editora Edições Esgotadas, em particular da Professora Ana Maria Oliveira e da Dra. Teresa Adão, que entenderam que este estudo poderia ser útil para os concelhos de Sernancelhe e Moimenta da Beira e poderia despoletar, de certa forma, a ideia de que estamos perante um território único, porque aqui nasceu e viveu o escritor Aquilino Ribeiro, e que o turismo cultural, centrado na literatura, pode ser determinante para o desenvolvimento desta região. Ora, com esta certeza por parte da editora, e o apoio dos Municípios de Sernancelhe e Moimenta da Beira, o livro nasceu e faz parte agora da Coleção Saber, das Edições Esgotadas, distinguido com um extraordinário prefácio do professor Aquilino Machado, neto de Aquilino Ribeiro, e professor do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

Porquê do lançamento ser feito neste ano tão especial de centenário da edição da obra “Terras do demo”? 

O desafio surgiu, em primeiro lugar, da parte do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Sernancelhe, Dr. Carlos Silva, quando começou a ganhar forma a ideia de encerrar as comemorações do Centenário da edição da obra Terras do Demo com os Colóquios “Aquilino, Letras e terra”, iniciativa que trouxe ao Concelho dois ex-ministros da educação, um ex-ministro da cultura e vários académicos que são dos mais conceituados especialistas nacionais em Aquilino Ribeiro. Depois, fazia todo o sentido dar a conhecer o resultado de uma investigação que vem confirmar que as Terras do Demo têm as qualidades e o potencial para serem um território literário de exceção em Portugal. Por isso, foi muito importante que o livro fosse apresentado neste Colóquio, evento que marcou um ponto final num ano de intensas comemorações por todo o País, que envolveram, desde abril, os municípios de Sernancelhe, Moimenta da Beira e Vila Nova de Paiva – os legítimos herdeiros das “Terras do Demo”, que durante 2019, demonstraram que, na realidade, têm orgulho na designação que Aquilino lhes atribuiu, estão conscientes de que a marca Terras do Demo tem cada vez maior valor, e que partilham de um território que reúne elementos turísticos em quantidade e qualidade para proporcionar experiências únicas aos visitantes e para se afirmar a nível nacional. Ler mais…

Editorial Voz de Lamego: Faz germinar em mim o Teu amor

Vivemos Advento, tempo de preparação para a celebração festiva do nascimento de Jesus. Tempo de graça e de salvação, em que o acontecer de Deus se traduz e concretiza no acontecer humano, pelo menos é isso que se deseja.

Neste caminho que percorremos – interiormente, mas sinalizado no ambiente que nos rodeia, luzes, arranjos natalícios e publicidade, e exteriormente, assim nos propomos, na prática do bem – somos envolvidos pela iniciativa de Deus, pela Sua graça infinita. Ele quer vir até nós, quer nascer em nós, quer frutificar em nós, ganhar raízes, habitar em nós, ficar connosco. Mas porque nos criou livres, não depende somente d’Ele, cabe-nos a nós acolher e responder ao Seu chamamento. Ele não pode entrar em nossa casa, mesmo que Se faça convidado, se não Lhe abrirmos a porta, se não O deixarmos entrar. Ele leva-nos a sério e respeita-nos, respeitando a nossa liberdade e as escolhas que fazemos.

Nesta iniciativa divina, Maria é escolhida desde sempre e desde sempre preparada para ser a Mãe do Filho do Deus Altíssimo. É este o mistério da sua Imaculada Conceição. Toda bela, toda pura, concebida sem sinal de pecado, para que n’Ela floresça o fruto do Espírito Santo. Por um lado, Deus que desce, diminuindo-Se para caber na humanidade, por outro lado, o melhor do ser humano na sua identidade original, imagem e semelhança de Deus. É neste encontro que Deus Se faz homem e que o homem poder ser divinizado em Jesus.

O privilégio de Maria é realizável também em nós, não na mesma dinâmica total, biológica e espiritual, mas na medida em que acolhamos a vontade de Deus como Ela o faz.

A iniciativa divina tem correspondência na resposta humana, na resposta de Maria. O Anjo vem da parte de Deus e surpreende Maria: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo… encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e chamá-l’O-ás com o nome de Jesus… O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá. Por isso, o que é concebido santo será chamado filho de Deus”. A resposta de Maria não tarda, ainda que pause na surpresa do anúncio e no admirável mistério que está a acontecer: “faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 26-38)

Deus faz acontecer em nós, mas é preciso que O escutemos, que O acolhamos, que O procuremos, que O deixemos nascer em nós. Jesus nasce porque Maria diz “sim”. E, logo depois, ela dir-nos-á a condição para que o milagre aconteça em nós, para que a vida se realize na abundância: “O que Ele vos disser, fazei-o” (Jo 2, 5). Então, como o próprio Jesus o diz, se deixarmos que germine em nós o amor de Deus, na prática do bem, seremos verdadeiramente Seus discípulos, seremos verdadeiramente da Sua família (cf. Lc 8, 21).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/02, n.º 4537, 3 de dezembro de 2019

Andreia Gonçalves entrevista Ana Margarida, a caminho da Guiné

“Quando olhar para aqueles rostos, será para mim, o mais próximo que estarei de DEUS”

Ana Margarida, Costa, vive em Tabuaço, é licenciada em direito e, no início do próximo ano, vai desempenhar um novo papel na sua vida, o de voluntária numa escola, na Guiné Bissau. Mia Couto e Pedro Chagas Freitas são dois os escritores que mais admira e desta experiência trará certamente capítulos, também eles, cheios de amor para contar no livro da sua vida.

As motivações de uma jovem que acredita na humanidade, numa entrevista exclusiva à Voz de Lamego.

Entrevistada por: Andreia Gonçalves

Quem é a Ana Margarida?

Sou uma mulher comum, licenciada em direito, e gosto pelas coisas simples da vida. Como estar com os amigos, estar com a família, ler, sentir o vento na cara e fazer valer as minhas convicções para o bem da humanidade.

Desde quando sonha em fazer uma missão humanitária?

Desde os 14 anos, que sonho em fazer voluntariado, mas nunca imaginei para onde seria…. Agora, sei que será em janeiro e para a Guiné. Numa escola que conta com 800 alunos, com idades compreendidas entre os 3 e os 17, e cerca de 40 professores voluntários.

Prometi ao meu avô, que faleceu em 2009, que voltaria a Bissau, onde esteve na Guerra colonial, desta vez, para lhe fazer justiça. E fazer o bem, sem olhar a quem!

Como se processou tudo isto?

Senti, que não podia adiar mais esta minha vontade. Inscrevi-me numa instituição, sem fins lucrativos “PARA ONDE” e aí haveria muitas possibilidades. Eu optei por esta e sinto-me muito feliz com esta minha decisão.

Como recebeu a notícia de que em janeiro, poderia ir ajudar centenas de crianças, na Guiné?

Depois de enviar a minha carta de motivação, passei por outros “testes” e a partir daí sentiram que eu teria perfil para fazer este caminho.

O que acha que vai encontrar nesta missão na Guiné? Quanto tempo vai estar por lá?

A minha missão será de um mês, sei que vou encontrar sorrisos, muitas crianças, o mais próximo que existe do rosto de Deus, para mim.

Depois, não haverá água potável, eletricidade, mas num bairro, com 12 mil habitantes, apreenderei como eles conseguem viver, dia após dia. Afinal haverá sempre um luar para olhar a cada noite.

Vai levar consigo, para além da coragem e da bondade, uma mala cheia de material escolar e roupa que tanta falta faz a estas crianças.  O que mais precisa neste momento, tendo em conta que a viagem está quase aí à porta?

Vou levar uma mala, de 23 kg, com material escolar, e aceito a bondade de todos para a encher. pois aqueças crianças, não têm qualquer apoio e um simples lápis ou caneta valerá muito a pena. para além disso, borracha, marcadores, cadernos, pasta e escova de dentes, etc. Quanto à roupa, t-shirts e calções, roupa interior infantil, o mais leve possível. E assim farei o sol brilhar um pouco mais, quando chegar à Guiné, com ajuda de todos.

in Voz de Lamego, ano 90/01, n.º 4536, 26 de novembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: A soberania do Presépio

Quase de mansinho e estamos novamente no Natal. Ainda agora era agosto e quando dermos por ela já estamos em 2020! Calma, cada instante pode ser oportunidade. Seja bênção acolhida, tarefa partilhada, vida multiplicada com os outros. Caminhemos, da comunhão que nos humaniza para a comunhão que nos irmana.

O final do ano litúrgico levou-nos, melhor, leva-nos a contemplar a realeza de Jesus, a soberania de Deus. Coroa o ano, mas insere-nos, em espiral, num tempo novo, de graça e de salvação, como são todos os tempos, cada tempo diferente, com sublinhados que nos fazem perceber que estamos a caminho. Olhamos para os sinais dos tempos e para os acontecimentos e vemos que a vida muda. Por outras palavras, os ritmos diferentes fazem-nos prestar mais atenção, despertam-nos, colocam-nos de atalaia.

Estamos a entrar no Advento, mas os sinais são natalícios, os enfeites, as luzes, as promoções, a publicidade, a agitação. A dinâmica litúrgica remete-nos ao interior, mas que se exterioriza nas vivências e compromissos, na atenção aos outros, no cuidado que se deve redobrar para com aqueles que precisam da nossa atenção, da nossa visita, da nossa ajuda, que precisam de uma palavra, que precisam de um olhar terno e de ser escutados (com os ouvidos e com o coração).

A soberania que desejamos, como crentes, é a soberania do Presépio, isto é, de Jesus, Deus que nasce e descansa numa família situada num tempo, num lugar e numa cultura concreta.

No último domingo, a solenidade de Cristo Rei mostrou-nos à saciedade qual a realeza de Deus revelada em Jesus Cristo: despojamento, pobreza, humildade, verdade, melhor, amor. Amor até ao fim, até à eternidade.

Na verdade, quem ama não pode senão dar-se, entregar-se, partilhar a vida, gastar-se por aquele ou aqueles que ama. Amar é isso: é encontrar o outro e confiar-lhe a vida, na certeza que o amor nos faz querer o melhor. O amor gera amor, gera vida como, ao invés, o ódio gera ódio, e a vingança multiplica o mal, provocando a morte do outro, senão fisicamente, pelo menos, dentro de nós.

Ao encarnar, Jesus traz-nos o Amor de Deus, evidenciado neste mistério em que a eternidade passa a caber no tempo, a divindade no humano, a omnipotência na fragilidade, o Infinito no finito, no limitado, na pequenez. Nas palavras e nos gestos, Jesus não faz outra coisa que não seja falar de amor, de bênção, da gratuidade do amor que se dá, inteiramente, sem esperar nada em troca, a não ser uma resposta, no dizer de Bento XVI. Ao sair de Si, dando-Se por inteiro, Deus espera que o Homem, de algum modo, Lhe responda, positiva ou negativamente, mas não com indiferença. Essa resposta, vemo-lo agora, há de ser dada, como nos lembra o nosso Bispo, D. António, para a frente, amando os outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/01, n.º 4536, 26 de novembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: O amor sobrevive ao tempo e ao inverno

O amor exige eternidade. Quando duas pessoas se amam, namorados, pais e filhos, amigos, tendem a fazer perdurar o tempo que passam juntos e, quando não é possível, utilizam os meios e os instrumentos para se sentirem próximos.

Diz-nos o filósofo francês, Blaise Pascal: “O homem ultrapassa infinitamente o homem”. Por outras palavras, o homem não cabe em si mesmo, tende a buscar-se até ao infinito e perpetuar-se para sempre; biologicamente limitado e finito, procura sobreviver para lá do tempo e da materialidade, além das fronteiras do corpo e do espírito. Popularmente há três formas de a pessoa se perpetuar além da morte temporal: plantar uma árvore, escrever um livro e deixar descendência.

A nossa inteligência exige mais do que o vazio, mais que o termo, mais que o abismo! Foi assim que o célebre psiquiatra brasileiro, Augusto Cury, chegou à fé. A nossa inteligência exige sobrevivência à morte física, de contrário não teria sentido todo o caminho feito e esforço por tornar mais fácil a vida uns dos outros.

O ser humano não cabe no hiato de tempo que vai do nascimento à morte natural. É pensado antes, gerado sem contribuir para tal, e deseja que a sua vida, o que é e o que faz, não seja descartada só porque não está ou após a sua morte. Se tudo acaba agora, se tudo acaba ali, no último suspiro, terá valido a pena viver, esforçar-se por ser melhor e por contribuir para uma sociedade mais justa e humana, terá valido a pena sacrificar-se pelos outros, entregar-se ao seu semelhante?

Se tudo acaba na morte biológica, não precisamos de Deus. Se tudo acaba com a morte, o bem e o mal que façamos será um momento fugaz! Ao fim e ao cabo, tanto faz que apostemos no bem ou no mal. Na esteira de Nietzsche, o importante será então a nossa vontade de poder e de prazer, sem precisarmos de dar contas a ninguém, nem aos outros nem a Deus, tudo parte de nós e em nós tudo acaba!

A fé em Deus exige a fé na eternidade! Um Deus limitado no antes ou no depois não seria de todo, assim o entendemos racional e filosoficamente, Deus. As grandes religiões apoiam-se na certeza que Deus é poderoso e omnipotente, pré-existente a tudo, garantia da existência presente, e pós-existente a tudo. Se nos relacionamos com a divindade, numa perspetiva amorosa, é expectável que contemos perdurar com Ele, para sempre. É a consequência natural de quem ama: que a relação não seja bloqueada por nada, mas se cristalize, renovando-se constantemente, para que permaneça. “O amor é fidelidade no tempo” (Bento XVI).

A fé na ressurreição, a esperança na vida eterna, não se fixa no depois da morte, mas no caminho a percorrer na história e no tempo. É o amor que nos eterniza e nos conduz a Deus.

 

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/48, n.º 4535, 19 de novembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Dai-lhes vós mesmos de comer

No próximo Domingo, 17 de novembro, viveremos o 3.º Dia Mundial do Pobre, proposta do Papa Francisco que se vai impondo paulatinamente. Teve alguns críticos, dentro e fora da Igreja, por uma compreensão superficial e errónea do que se pretenderia, a começar pela formulação da comemoração, pois poderia entender-se que se estava a cristalizar, a elogiar e a justificar a pobreza. Uma coisa é defender a pobreza como opção que envolve humildade, despojamento e serviço ao próximo, e que obviamente, também pode incluir a produção de riqueza para promover o emprego e a disponibilidade de bens para mais pessoas; outra coisa é a resignação diante da pobreza imposta, a miséria a que milhões de pessoas estão sujeitas. “O compromisso dos cristãos, na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade”.

A propósito, a Madre Teresa de Calcutá era acusada de não pensar e não defender uma política de erradicação da pobreza na medida em que apostava na resposta imediata e concreta às situações que iam surgindo. Com o tempo, ficou claro que as políticas são importantes, e sobretudo quando têm efeitos práticos, mas não se pode virar as costas à situações do dia-a-dia. Enquanto se espera pela implementação das medidas as pessoas morrerem à fome e ao frio… O assistencialismo pode ser provisório, mas não pode ser desculpa para não ajudar, fazendo já o que é necessário e possível.

O Papa Francisco tem deixado claro o princípio da subsidiariedade: não deixar para os outros o que posso fazer, envolvendo outros em questões mais complexas, não deixar para amanhã o que posso resolver hoje. Incentivar o Estado e as estruturas centrais a resolver problemas mais complexos e crónicos, de forma sustentada, mas mantendo-nos, a mim e a ti, comprometidos com a pessoa que está à nossa beira. Com efeito, em diversas ocasiões, o Papa tem sido contundente em relação a governos e estruturas centrais, à política e economia, para um envolvimento mais efetivo e rápido ao grito dos pobres, dos desfavorecidos, daqueles que continuam a viver nas periferias existenciais. Os pobres clamam. Deus ouve a sua voz. Quem se recusa a escutar o grito dos excluídos, tapa os ouvidos, o coração, a Deus. Como não lembrar a expressão papal: “esta economia mata” ao colocar o foco nas percentagens de desenvolvimento e produtividade, nas estatísticas, nos ganhos das bolsas de valor, ainda que à custa dos pobres, pessoas e povos.

Na mensagem para esta terceira jornada o Papa não pode ser mais claro: “A numerosos grupos de pessoas, a crise económica não lhes impediu um enriquecimento tanto mais anómalo quando confrontado com o número imenso de pobres que vemos pelas nossas estradas e a quem falta o necessário, acabando por vezes humilhados e explorados… Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/47, n.º 4534, 12 de novembro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Sábio é aquele que está disponível para aprender

Sábio não é o que sabe tudo, o que sabe mais coisas. Sábio é aquele que está sempre disponível para aprender, para acolher, para amar, para ser amado, para ser instrumento de ligação aos outros, ao mundo e a Deus. Sábio não é o que tem um curso superior, ou tem muitos contactos, que tem um canudo, ou viajou pelo mundo inteiro. Sábio é o que quer escutar os outros, quer compreender o mundo à sua volta, que dispõe a sua vida para acolher o mistério que vem do alto, que vem de Deus. Sábio é o que reconhece os seus erros e ainda assim caminha. É o que não desiste, mesmo que por vezes tenha que recuar, recomeçar, voltar a tentar. Sábio é aquele que reconhece que está a caminhar, que ainda não chegou à meta, que ainda está longe. Sábio é aquele que se dispõe a servir a Verdade. Sábio não é o que não peca. Sábio é o que está disponível para acolher o perdão.

Sábio é o que se deixa encantar com as pequenas coisas da vida, momentos sublimes do nascer ou do por do sol, o sorriso de uma criança ou os malabarismos de um gato. Sábio não é aquela pessoa séria, sisuda, que dita sentenças. Sábio é aquele que sabe rir de si mesmo, e sorrir diante dos seus disparates, e que procura estar atento a tudo o que o rodeia.

Sábio não é o que atingiu um grau de conhecimento superior, ou está moralmente acima de qualquer suspeita. Sábio é aquele que cultiva a arte da dúvida, da curiosidade, da interrogação, que está sempre em busca, procurando aprender com tudo e com todas as situações.

O sábio não é aquele que não muda porque atingiu a perfeição. Embora um provérbio chinês diga que só não mudam os sábios e os estúpidos. Coloquemo-nos entre uns e outros, a caminho… Sábio é, antes, aquele que procura aperfeiçoar todos os aspetos da sua vida e mantém aberta a mente para acolher situações novas e poder contribuir para a transformação do mundo.

Sábio não é o que não tem dúvidas, mas aquele que vive nas dúvidas, procurando ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros, fazendo a ponte. A dúvida é específica do ser humano. Somos ser inacabados. Mas que beleza! Como somos seres inacabados temos a oportunidade de crescer sempre mais, até ao Infinito, até à eternidade de Deus.

Sábio não é aquele que tem respostas para tudo, mas aquele que questiona (quase) tudo, que se interroga constantemente e ao mundo que o rodeia.

Sábio não é aquele que tem todas as certezas, mas aquele que não se deixa abater pelas dúvidas e incertezas e procura acertar o seu caminho, para o sábio cristão, procura acertar o seu caminho pelo de Jesus Cristo.

Maria interroga o Anjo quando este lhe anuncia que vai ser Mãe do Filho de Deus: “Como será isto se não conheço homem?”

A interrogação faz parte da procura, da escuta, do nosso peregrinar, faz parte do caminho da sabedoria.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/46, n.º 4533, 5 de novembro de 2019