Editorial Voz de Lamego: Como combater a solidão? Alugar amigos

A edição de 5 de outubro do jornal I destacava em primeira página: “Alugar amigos para combater a solidão”. Como subtítulo: “A moda começou no Japão e já chegou aos EUA. Avós japonesas andam a assaltar lojas para serem presas”.

As tecnologias aproximaram as pessoas, fizeram com que o mundo parecesse uma aldeia global. Na Carta Encíclica “Caritas in Veritate”, Bento XVI chamava a atenção: “a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (19). Na mesma linha, o Papa Francisco tem contraposto a era da globalização à globalização da indiferença. Temos acesso a muitas informações, mas isso já não nos comove. Com efeito, a exposição da violência em excesso, da pobreza, da miséria, da corrupção, dos crimes horrendos, tornou-nos insensíveis. O que nos chocava tornou-se banal, já não mexe connosco.

Esta moda, de alugar amigos, começou no Japão e chegou a Portugal em 2015. E, pelos vistos, está em crescendo nos EUA. Há empresas que alugam amigos. O preço pode ir de 10 a 50 euros por hora. Um amigo, um familiar, um colega… o que precisares, a empresa arranja-te um substituto, um estranho, ao ponto de ajudar a organizar uma festa, permitindo, depois ou na hora, a publicitação de uma vida faustosa e interessante, nas redes sociais, para que os outros possam ver e invejar.

A solidão é um cancro que está espalhado na sociedade atual e que continua em plena expansão. As distâncias foram encurtadas com os meios digitais, mas, por outro lado, verifica-se que estes meios isolaram ainda mais as pessoas. Por um lado, facilitam a comunicação, o trabalho, amenizaram os confinamentos. Se um filho estiver no outro canto do mundo é possível vê-lo, ao vivo e a cores. Um filho, um neto! Esbate-se a saudade! Mas continua a ser uma substituição.

O ser humano precisa do toque como de pão para a boca, precisa de cheirar e sentir o aroma do outro, de abraçar (ser abraçado), beijar ou apertar as mãos. Este contacto que faz-nos humanos, faz-nos sentir vivos e frágeis ao mesmo tempo, necessitados e completos. Por outro, o mundo digital facilita a ausência, o escondimento, a solidão… eu frente a um ecrã, vejo o mundo todo, procuro o que me interessa, descarto e dispenso o que é diferente, o que me desafia ou incomoda. Se trabalho a partir de casa, para quê sair, encontrar-me com amigos, com os colegas de trabalho para beber uns copos?! Mostro aquilo que quero, subtraio, para os outros, a parte de mim que não gosto.

A pandemia suscitou uma enorme solidariedade, ainda que também os medos se tivessem multiplicado. Mostrou muita miséria, material, cultural, espiritual. Suscitou compaixão. Mostrou pessoas e comunidades isoladas, sem meios de comunicação ou acesso a bens de primeira necessidade ou a prestação de cuidados médicos. As pessoas isolaram-se e algumas habituaram-se a viver como ilhas isoladas, tendo acesso ao mundo inteiro, a partir do sofá, da cozinha, do escritório. Multiplicaram-se os esgotamentos, os estados depressivos, a ansiedade, a acomodação. O regresso a alguma normalidade, ao que tudo indica, parece estar complicado. Há pessoas a ameaçar trocar de emprego para ficarem em teletrabalho!!! Há laços que estão a ser destruídos, há contactos que desapareceram, interdependências saudáveis e enriquecedoras que cederam à preguiça, à desconfiança, ao comodismo egoísta.

Admiramo-nos que num restaurante, num almoço ou jantar de família, os membros estejam sozinhos, cada um diante do ecrã do telemóvel, a fazer likes, a ver notícias, a jogar, a instagramar o momento. Antes saía-se para arejar, conviver, para que, em ambiente diferente, a família pudesse dispor de mais tempo de qualidade! Agora sai-se e continua-se a ver o mesmo mundo que via em casa! Estivemos tanto tempo diante de ecrãs que já não conseguimos libertar tempo para estarmos uns com os outros!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/47, n.º 4629, 20 de outubro de 2021

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Editorial Voz de Lamego: Igreja em sínodo, Igreja à escuta

No passado sábado, 9 de outubro, o Papa Francisco deu início à XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O sublinhado do Papa Francisco: “As assembleias do Sínodo revelaram-se um instrumento válido para o conhecimento recíproco entre os bispos, a oração comum, o confronto leal, aprofundamento da doutrina cristã, reforma das estruturas eclesiásticas, promoção da atividade pastoral em todo o mundo”.

Durante o seu pontificado realizaram-se duas assembleias sinodais sobre a Família (2014 e 2015), uma assembleia dedicada aos jovens (2018) e um sínodo especial para a Amazónia (2019), e agora sobre a sinodalidade da Igreja.

Vale a pena reler algumas passagens da reflexão do Papa na abertura do Sínodo.

Três palavras chaves: comunhão, participação, missão. “Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – e é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra» (Lumen gentium, 5)… a terceira palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um”.

Três riscos: formalismo, intelectualismo, imobilismo. “O primeiro é o risco do formalismo. Pode-se reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela… Porque às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar…Um segundo risco é o do intelectualismo (da abstração, a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro): transformar o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma espécie de «falar por falar», onde se pensa de maneira superficial e mundana, alheando-se da realidade do santo Povo de Deus… Por fim, pode haver a tentação do imobilismo: dado que «se fez sempre assim» – esta afirmação “fez-se sempre assim” é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16). Por isso, é importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão”.

Três oportunidades. “A primeira é encaminhar-nos para uma Igreja sinodal (1): um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Depois o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja da escuta (2): fazer uma pausa dos nossos ritmos, controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração…. uma Igreja da proximidade. O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Deus sempre agiu assim. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor… uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/46, n.º 4628, 13 de outubro de 2021

Editorial: Anunciar o que vimos e ouvimos

O cristianismo não se expande pelo proselitismo e/ou pela imposição, mas pela atração. É uma expressão conhecida do Papa Bento XVI e reiterada em diversas ocasiões pelo Papa Francisco, invocando também a atração maternal da Virgem Mãe. “Maria, a primeira discípula missionária, faça crescer em todos os batizados o desejo de ser sal e luz nas nossas terras (cf. Mt 5, 13-14)”.

Iniciámos o mês de outubro, reconhecido como um mês especialmente missionário. A abrir, a evocação da memória litúrgica de Santa Teresa de Menino Jesus. Embora não tenha saído do convento, para o qual entrou em tenra idade, foi proclamada pelo Papa Pio XII como Padroeira das Missões. Ela própria manifesta este propósito: “Não obstante a minha pequenez, quereria iluminar as almas como os Profetas, os Doutores, sentia a vocação de ser Apóstolo… Queria ser missionário, não apenas durante alguns anos mas queria tê-lo sido desde o princípio do mundo e continuar até à consumação dos séculos”.

Nesta ânsia, Teresa do Menino Jesus encontra a sua vocação: “Compreendi que a Igreja tem coração, um coração ardente de amor; compreendi que só o amor fazia atuar os membros da Igreja… compreendi que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo e que abrange todos os tempos e lugares, numa palavra, que o amor é eterno… Encontrei finalmente a minha vocação. A minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja… no coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor; com o amor serei tudo; e assim será realizado o meu sonho”.

O sonho de ser missionária realiza-se no amor!

Na mensagem para o Dia Mundial das Missões (a 24 de outubro, penúltimo Domingo de outubro), o Santo Padre recentra-nos no amor de Deus, acolhido, vivido e partilhado. “Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a Sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. A relação de Jesus com os seus discípulos, a sua humanidade que nos é revelada no mistério da Encarnação, no seu Evangelho e na sua Páscoa mostram-nos até que ponto Deus ama a nossa humanidade e assume as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos anseios e angústias… O tema do Dia Mundial das Missões deste ano – «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (Atos 4, 20) – é um convite dirigido a cada um de nós para cuidar e dar a conhecer aquilo que tem no coração. Esta missão é, e sempre foi, a identidade da Igreja: «ela existe para evangelizar» (São Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 14). No isolamento pessoal ou fechando-se em pequenos grupos, a nossa vida de fé esmorece, perde profecia e capacidade de encanto e gratidão; por sua própria dinâmica, exige uma abertura crescente, capaz de alcançar e abraçar a todos… Apraz-me pensar que «mesmo os mais frágeis, limitados e feridos podem [ser missionários] à sua maneira, porque sempre devemos permitir que o bem seja comunicado, embora coexista com muitas fragilidades»”.

O Papa Francisco deixa claro que o anúncio se faz com a vida, na oração, com o coração, na ajuda concreta aos mais necessitados, procurando constituir e contruir fraternidade. Anunciar o Evangelho é chamar outros para a família. “Hoje, Jesus precisa de corações que sejam capazes de viver a vocação como uma verdadeira história de amor, que os faça sair para as periferias do mundo e tornar-se mensageiros e instrumentos de compaixão… Viver a missão é aventurar-se no cultivo dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus e, com Ele, acreditar que a pessoa ao meu lado é também meu irmão, minha irmã”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/45, n.º 4627, 6 de outubro de 2021

Entrevista com Ricardo Pereira: Viver para contar a história

Chama-se #lamegoeuacredito e é um novo projeto de cidadania que a imensa maioria dos lamecenses já conhece e acarinha. Criado em junho de 2019, por Ricardo Pereira, regista para a posteridade as histórias de vida de “admiráveis” homens e mulheres que construíram ao longo das últimas décadas a identidade deste território. “Entre nós, há um conjunto assinalável de pessoas cujo talento e engenho permanece na sombra. Este projeto pretende justamente lançar um pouco de luz sobre elas, criando um registo escrito que ficará para memória futura, através da sua publicação em livro, e que por enquanto já dou a conhecer através das redes sociais e da imprensa local, nomeadamente na “Voz de Lamego”, afirma.

O projeto que Ricardo Pereira se dedica nas horas vagas, e sem qualquer apoio, visa promover e valorizar aquilo que Lamego tem de mais genuíno que são as suas gentes e a caminhada que cada entrevistado percorre até concretizar algo que o distinga dos demais. “Pode ser um artesão, uma doceira, um atleta ou um professor aniversário. Há sempre algo que torna cada uma destas pessoas verdadeiramente única e que acrescenta, à sua maneira, valor e talento a esta terra que possui um potencial enorme”, explica.

Até ao momento, e apesar da exposição pública que o projeto #lamegoeuacredito proporciona, todos os convidados abriram as portas da sua vida e do seu coração para partilharem com o público a sua história pessoal e profissional. “Na verdade, aquilo que desconhecemos é como se não existisse. Por isso, já parti à descoberta de dezenas e dezenas de lamecenses, na cidade e nas freguesias rurais, e nenhum recusou até ao momento o convite para falar comigo. Este facto deixa-me muito orgulhoso e reflete a seriedade com que este projeto é visto na nossa comunidade”, adianta.

Natural de Lamego, Ricardo Pereira, desempenha aos 43 anos de idade os cargos de assessor de imprensa em duas das mais prestigiadas instituições da região: o Município de Lamego e a Santa Casa da Misericórdia de Lamego. O contacto próximo com os centros de decisão locais e o apoio à organização de importantes eventos que marcaram indelevelmente a vida do concelho nos últimos anos contribuiu para o desenvolvimento da sua consciência cívica que veio a culminar com a criação de #lamegoeuacredito.

“No fundo, este projeto de cidadania é uma carta de amor escrita a Lamego. Tenho uma confiança profunda no talento e na generosidade dos lamecenses. Na capacidade desta pequena comunidade em superar os desafios do devir. Seleciono as pessoas para dialogarem comigo sobre a sua vida e o seu trabalho. Algumas escolhas podem parecer óbvias, outras surpreendentes, mas todos têm uma história que, na minha opinião, merece ser partilhada”, sublinha em entrevista ao jornal “Voz de Lamego”.

Ricardo Pereira ama a sua terra, até nas pequenas imperfeições que a tornam verdadeiramente única. Falar de amor-próprio também é isto: acarinhar e valorizar aquilo que de bom nasce e floresce à sua volta. As suas publicações nas redes sociais têm um alcance “enorme”, chegando muitas vezes a mais de 20 mil pessoas, segundo as estatísticas. “Toda esta aceitação e as abordagens muito positivas que me fazem na rua, deixam-me muito feliz. Já tive pessoas, vindas por exemplo de Viana do Castelo ou do Porto, antigos militares no CTOE, que regressaram a Lamego após muitos anos de ausência, arrebatados por algum escrito meu”, recorda.

As histórias que conta não são apenas as de quem já viveu muito. Ricardo Pereira também dá voz aos jovens empreendedores do concelho de Lamego: “Considero isto muito relevante: mostrar o caminho do futuro. Acredito que apenas a criação de riqueza que gera emprego e fixa a nossa população poderá garantir a revitalização social e económica da cidade de Lamego e do Interior do país”. Por esta razão, já promoveu o trabalho de muitos empresários ligados a diversas áreas de atividade, desde a agricultura à arte do restauro, do comércio tradicional aos novos agentes hoteleiros, mostrando uma cidade que se abre ao mundo e recebe os forasteiros de braços abertos.

E o que é que Lamego tem de especial?É a joia do Douro. Possui a capacidade de aglutinar um misto de talento, ideias e recursos culturais, absolutamente críticos para garantir o nosso crescimento e desenvolvimento. Os diálogos que mantenho mostram que a criatividade é o maior recurso endógeno desta comunidade. Além disso, somos o centro histórico da primeira região vinícola demarcada do mundo, berço do mais internacional e reconhecido produto português: o vinho do Porto. Lamego é um orgulho!”, enaltece em entrevista ao jornal “Voz de Lamego”.

Em simultâneo, Ricardo Pereira também já promoveu diversas ações de cidadania ativa. No início da pandemia da COVID-19, o projeto  #lamegoeuacredito doou e distribuiu aos lamecenses mais de 250 máscaras de proteção reutilizáveis, sobretudo a idosos e doentes crónicos. Entregou, por exemplo, equipamentos deste género à Delegação de Lamego da Liga Portuguesa Contra o Cancro e à Cruz Vermelha de Lamego que fizeram chegar as máscaras às pessoas mais necessitadas deste tipo de proteção. “Dinamizei esta ação solidária com o objetivo de proteger a saúde dos lamecenses mais vulneráveis num momento muito difícil para a vida da nossa comunidade. Quero deixar aqui uma palavra de reconhecimento pelo altruísmo e espírito solidário demonstrado pelas nossas voluntárias que dedicaram, durante o primeiro confinamento, o melhor do seu tempo para dar aos outros as ‘armas’ certas para enfrentar esta grave pandemia”, afirma.

Mais tarde, numa iniciativa de contornos distintos, propôs dar um pequeno contributo para apoiar, num momento crítico e de grande instabilidade, os empresários do setor da restauração. Assim, agregou num único local diversa informação sobre o serviço de takeaway e de entregas ao domicílio disponibilizado pelos restaurantes e tasquinhas locais. Aderiram voluntariamente dezoito empresas do setor. “Com a pandemia, a crise que paralisou o setor da restauração pôs em causa a sobrevivência de muitos postos de trabalho e foi sobretudo estes que quisemos ajudar. Conseguimos gerar mais procura, oferecendo às pessoas um roteiro simples sobre a oferta que existe na cidade de Lamego a este nível. O feed back que obtivemos foi muito positivo”, refere Ricardo Pereira.

Já durante a última época de verão, a iniciativa “Memórias de Lamego” nasceu de um desafio lançado pelo projeto de cidadania “#lamegoeuacredito”, junto de vários artistas locais ou que têm ateliê instalado no concelho para ajudar os idosos a reviver, através da arte, experiências guardadas na memória. Numa parceria inédita, cinco pintores ajudaram a resgatar a memória afetiva dos idosos do Lar de Arneirós. As suas pinturas, de diferentes estilos artísticos, ocupam agora um lugar de destaque na nova sala de estar da instituição, o local onde passam a maior parte do tempo. “O objetivo primordial foi criar algo parecido com um baú de memórias que liberte do esquecimento recordações antigas, aumentando, deste modo, o bem-estar destas pessoas em idade avançada. Julgo que este desígnio foi plenamente conseguido. Estamos agora abertos à doação de novas obras”, explica.

Questionado sobre a possibilidade de um dia enveredar por uma participação política ativa, Ricardo Pereira afirma que o “futuro a Deus pertence”, mas acrescenta que neste momento não faz parte dos seus planos. “Como cidadão livre, mantenho, obviamente, intactos os meus direitos cívicos. O meu legado é de um Homem apaixonado pela vida. Gosto do diálogo democrático e de debater com contraditório, mas a minha missão no imediato é continuar a valorizar Lamego e os Lamecenses”, sublinha.

in Voz de Lamego, ano 91/43, n.º 4625, 22 de setembro de 2021

Falecimento do Pai do Pe. Rui Borges

No último sábado, 2 de outubro, o Senhor do tempo e da eternidade, Deus da Vida e da Amizade, chamou a Si o Sr. Acácio Alves Pinto Ribeiro, pai do reverendo Pe. Rui Manuel Borges, pároco de Caria e do Carregal, na Zona Pastoral de Moimenta da Beira.

Em comunhão e em nome do presbitério da nossa diocese de Lamego, o Senhor Bispo, D. António Couto, endereça ao Pe. Rui, à família e aos amigos, as condolências, comungando da dor e da fé, desta esperança que nos abre a mente, o coração e a vida para Deus que é Pai e nos ama desde sempre e para sempre. Ele que nos chamou à vida, no Seu infinito amor, não nos abandona em nenhum momento da nossa existência, nem no final biológico/histórico. Com efeito, é este o mistério da nossa fé: a morte, em Jesus Cristo, dá lugar à vida plena e definitiva, com a ressurreição um vida nova e definitiva. Aquele que ressuscitou Jesus Cristo também nos ressuscitará a nós.

Celebrações Exequiais:

  • Domingo, 3 de outubro, pelas 15h00: Eucaristia na Igreja Paroquial de Caria;
  • segunda-feira, 4 de outubro, pelas 15h00: Eucaristia Exequial e funeral, na Igreja Paroquial da Penajóia, em Molães.

Rezemos pelo Sr. Acácio, que Deus acolhe no Seu coração de Pai, e pela família para que encontrem na fé e na Palavra de Deus, a esperança na vida eterna e na ressurreição dos mortos em Cristo Jesus.

Editorial Voz de Lamego: Não seja assim entre vós

A mãe dos filhos de Zebedeu, Tiago e João (cf. Mt 20, 20-28) pede a Jesus para que os filhos sejam colocados um à direita e outro à esquerda no Reino que há de vir. O pedido da mãe, justificável, ou dos próprios, como aparece no evangelho de São Marcos (10, 35-45), visa um lugar privilegiado de poder e estatuto. É um lugar a pedido e não por competência ou prévio esforço e merecimento!

Avançamos um pouco e verificamos que este pedido é comum aos outros discípulos, também eles desejam o melhor lugar. Não importa que competências lhes sejam reconhecidas, o decisivo é o lugar de destaque querem ocupar. Um pouco antes, Jesus tinha-lhes dito que a discussão entre eles não fazia sentido, pois quem quisesse ser o primeiro teria que ser o último e o servo de todos. Depois deste pedido, reacendem-se os ânimos e a disputas sobre qual é o maior, sobre qual poderá suceder a Jesus Cristo ou ocupar o cargo mais relevante.

Novamente, Jesus lhes assenta o estômago, mostrando que o discipulado passa pelo serviço, pelo cuidado aos irmãos, passa por perder a vida, por gastar a vida a favor dos outros.

Diz-lhes Jesus: “Sabeis os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo”. E conclui Jesus, dizendo que “também o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão” (Mt 20-25-28).

O país foi a votos, escolhendo os governantes que lhe são mais próximos. As próximas eleições, como se disse destas, vão ser as mais importantes e decisivas! E, na verdade, as eleições são sempre importantíssimas e as escolhas que fazemos vão marcar os meses e anos seguintes. As decisões que os governantes tomarem, boas ou más, vão-nos ajudar ou prejudicar, vão criar mais igualdade ou mais desigualdade, vão dividir mais o povo ou promover o bem comum. No Domingo à noite, todos saíram vencedores! Ou pelo menos aqueles que escolheram os seus governantes e todos os que se propuserem assumir mandatos para os quais foram ou poderiam ter sido eleitos. A política é uma arte, mas também um serviço à causa pública, ao bem comum, procurando que todos, mas especialmente os mais desfavorecidos (económica, social, culturalmente), se sintam escutados e encontrem respostas aos seus direitos! E se há direitos a exigir é porque há deveres a cumprir.

Depois das eleições, vamos dar as mãos! Ou talvez não!

Vamos esquecer o que foi dito no calor do momento! Ou talvez não seja fácil esquecer o que se disse, mesmo que tenha sido num instante de maior entusiasmo e menor consciência! Alguns perdem-se e esquecem quem são e quais os valores que os trouxeram ao lugar em que se encontram. Quando a discussão versou a vida pessoal e o caráter dos candidatos… será mesmo possível dar as mãos?

Se o propósito é o bem de todos, então todos devem deitar mãos à obra para prosseguir com todos os projetos defensáveis, exequíveis e benéficos para a comunidade! E talvez até seja bom, justo e honesto ver as propostas que os outros adversários apresentaram…

É tão fácil dizer estas coisas!

É tão mais difícil executá-las.

Não seja assim entre vós! Na comunidade cristã também surgem disputas e, por vezes, não é possível dirimir contendas e contentar tantos egos! O desafio de Jesus é para a comunidade dos seus discípulos, mas como se percebe, também para aqueles que se propõem servir o povo! Servir! Não servir-se! Foram eleitos para servir, para fazerem da política uma arte!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/44, n.º 4626, 29 de setembro de 2021

Grande entrevista Voz de Lamego com Manuel Joaquim Porfírio

Lurdes e Manuel Joaquim Porfírio começaram, em 1982, com um pequeno estabelecimento de venda e transformação de carnes. Nessa altura, apenas produziam salpicão, moira, chouriça e presunto, produtos que, ainda hoje, continuam a ser de referência, e os preferidos dos consumidores, fruto da sua consolidada e reconhecida qualidade. Esta notoriedade foi alcançada através da total dedicação, e elevada experiência, em todos estes anos de trabalho

O Voz de Lamego foi até Lalim para conhecer um pouco da história de sucesso dos proprietários e fundadores da Fumeiros Porfírios, Lda., Lurdes e Manuel Porfírio. A entrevista realizada a Manuel Porfírio permiti-nos conhecer a história das suas vidas e que levou ao sucesso que conhecemos hoje.

“Desde cedo que trabalhei com carnes. O meu pai trabalhava na mesma área, ou seja, o bichinho passou para mim também, o que fez com que em 1978, com 18 anos, começasse a trabalhar por conta própria.”

O primeiro talho foi licenciado já a trabalhar por conta própria contando sempre com o apoio da família que, para o empreendedor, é a base de tudo.

“Em 1982 casei-me. Foi esta união que me levou ao sucesso que tenho hoje. A minha esposa ao terceiro dia depois do casamento já fazia fumeiro, ela dedicou-se completamente a este negócio.

Em 1983, comecei a comercializar para o Pão de Açúcar, em Alcântara, no entanto tive de deixar de o fazer porque ainda não havia licenciamento para tal”.

Os proprietários sempre tiveram espírito de trabalho e de inovação o que o faz ter o sucesso que tem hoje.  Ao lado de um grande homem, caminha sempre uma grande mulher, por isso a sua postura resiliente é um dos pilares dos Fumeiros Porfírios.

Com o aumento da procura fez com que a produção feita num pequeno estabelecimento, em Lalim e registado como “casa Rita”, que advém do pai de Manuel Porfírio, Joaquim da Rita, deixasse de satisfazer os pedidos dos clientes. Como resultado, em 1988 a empresa mudou-se para instalações industriais de maior dimensão, em Mondim.

Com esta mudança, que permitiu o aumento da produção, a 6 de janeiro de 1993 surgiu a empresa como a conhecemos hoje, Fumeiros Porfírios, Lda. Este novo espaço tinha como finalidade a produção e comercialização para o Pão de Açúcar.

Em 1995 inauguraram uma nova unidade fabril em Lalim que permitiu o fornecimento de grandes superfícies, onde o Pingo Doce e Makro desempenharam um papel importante.

Conta o empresário em tom de comédia e orgulhoso – “Ofereci salpicões para a inauguração das 20 lojas Pingo Doce e assim começou uma boa relação de negócios”.

“Chegámos a pensar que era demais e perguntava-me do porquê de uma fábrica tão grande”, admite o Sr. Porfírio.

A atitude que trabalha o sucesso continuava e, passados dois anos, a fábrica já era pequena e a produção estava constantemente a esgotar.

A fábrica em questão, “fábrica antiga” como carinhosamente a denomina, no início tinha autorização para transformar 80 porcos por semana e, nesses dois anos, o público já pedia mais do que isso.

O aparecimento da Makro como cliente foi uma vantagem muito grande para o desenvolvimento do negócio.

“Quando a Macro se implementou em Portugal, nós não fomos contactados pela Macro. Foi o Dr. Mário Rui, um elemento da empresa, que me contactou. veio a Lamego, pedindo para eu me reunir com ele. Passado um mês estávamos a fornecer esta empresa como ainda hoje o fazemos”.

Manuel Joaquim conta-nos ainda que a parceria com o Pingo Doce os levou a outros patamares, descrevendo o início deste negócio com o “trampolim” da empresa.

“O início de um sucesso maior foi, em todos os sentidos, o contacto com a rede de supermercados Pingo Doce. A exigência deles obrigou-me a modernizar, ainda que tenha continuado com o produto tradicional. Outras exigências têm a ver com a higiene e segurança alimentar, muito mais prementes. Temos auditorias todos os anos, mais do que uma, se for necessário. As exigências ajudam a melhorar a qualidade, permitindo que os nossos produtos chegassem mais longe.

Se não fosse o Pingo Doce, se não fossem as grandes superfícies, hoje não estaríamos no patamar que estamos. A exigência deles ajudou-nos bastante, permitiu-nos desenvolver a empresa, aumentando a rapidez na entrega do produto e a segurança alimentar”.

Para conseguirem responder a estas novas exigências, procederam, em 2009, ao aumento das instalações.

Apesar de todo o sucesso da Fumeiros Porfírios, Lda, Manuel Joaquim, não esquece a região e os estabelecimentos menores. O mercado tradicional representa agora 70% dos negócios da empresa e são de extrema importância para o sucesso da empresa.

A empresa conta já com três talhos, o primeiro foi em Lalim, a menina dos olhos de Manuel, o segundo em Tarouca e o terceiro em Lamego. O empresário não pára e conta já com um minimercado no mesmo espaço do talho sediado em Lamego e o de Tarouca está para breve, adianta.

Quando questionado sobre uma história que o tenha marcado durante toda esta jornada, Manuel Joaquim partilhou com a Voz de Lamego uma das curiosidades do início da empresa, quando a marca ainda não era reconhecida.

 “No início parei muitas vezes a chorar, sozinho. Eu oferecia os meus produtos para começarem a serem comercializados e ouvi muitas vezes que não o iriam comercializar porque era uma marca que ninguém conhecia e que não iriam lucrar com isso. Hoje, muitos deles são nossos clientes. Passados dez anos, foram eles a contactar-nos e a pedir para comercializar o nosso produto. Mas no início, o que mais me magoou foi ouvir um não através daquelas palavras”. Mas nem todas as lágrimas, nem todas rejeições levaram os empresários a desistir. Lutaram sempre e conseguiram chegar onde ninguém imaginava.

Este não foi o único relato acerca do início difícil. Manuel e Lurdes investiram cinco mil contos (vinte e cinco mil euros) e, passado um ano, garante que deviam o dobro ao banco, mas passados quatro anos já estavam a iniciar as obras do primeiro talho. “Eu perdi aqui cinco mil contos, e eles estão cá. Foi aqui que os perdi e é aqui que os vou encontrar”.

Apesar de todo o sucesso e das dificuldades superadas o proprietário admite ter ainda alguns objetivos e ambições. De todo o material que produz afirma ter um favorito, o presunto e é com essa peça que quer chegar a novas marcas.

A qualidade leva tempo.
Acreditamos no que é bom. No que se fazia antigamente, sem cópias. Apurámos esta arte até aos dias de hoje e levámos até à sua mesa o sabor intenso da charcutaria fumada, perfeita para juntar amigos e família. As nossas carnes são trabalhadas à mão, uma a uma. Para todos e para cada um. São criteriosamente escolhidas e envolvidas em temperos tradicionais para ganharem forma e serem dadas ao tempo. Sem pressas.

O novo projeto já está para ser iniciado, apesar de já ter sofrido inúmeras obras, vão agora dar início a mais uma etapa de obras na “fábrica velha” e, dentro de um ano conta em ter um aumento de mais de 30/40% no fabrico do presunto. Atualmente, os Fumeiros Porfírios produzem cerca de 35 mil presuntos anualmente e a ambição é chegar às 50 mil unidades em 2022.

Além de conhecer bem a palavra sucesso, no mundo empresarial, também conhece a palavra sucesso relativamente ao ambiente familiar, sucesso que afirma ser fulcral para que tudo esteja bem e continue a crescer como empresa.

“Para ser um negócio de sucesso, primeiro tem de haver seriedade, transparência e a vontade trabalhar, esse é o ponto número um para trabalharem connosco, tanto fornecedores como clientes. Esta empresa andou dez ou quinze anos a evoluir muito lentamente. Tenho quatro filhos e eu queria formar os meus quatro filhos porque sabia que seriam uma mais valia para nós. Felizmente isso aconteceu.

Eu e a minha esposa nunca parámos, gastámos muitas horas, muito tempo delicado à família. Todas as semanas havia a rotina de ir levar os filhos ao Porto, Viseu e Coimbra e às sextas-feiras a fazer o mesmo trajeto na recolha.

Sabia que se eles, os meus filhos quisessem, com eles esta empresa teria um arranque mais forte.

Esta fábrica nova que já está a trabalhar a 100% ficou em quase 4 milhões de euros e só nasceu porque os nossos filhos estão cá e são eles que são uma mais valia agora”.

Além do ambiente familiar e de entreajuda que Manuel Joaquim adota no dia-a-dia com os seus colaborados também acaba por ajudar os seus conterrâneos a ter um “ganha-pão”.

O proprietário possui vários hectares com o fim de criar gado, mas devido à imensa procura do mercado, acaba por ter vários fornecedores portugueses e para alguns produtos, fornecedores residentes na terra ou terras vizinhas.

“Claro que o produto não vem logo com o máximo de qualidade. No início acabei por não usar o produto, no entanto, fui aconselhando os criadores, para uma produção de qualidade e em quantidade. Todos eles têm as melhores das intenções e isso é percetível. São uma peça bastante importante para os Fumeiros Porfírios. Havia pessoas que já não criavam gado há muitos anos e agora são meus fornecedores assíduos e tenho o compromisso de lhes comprar o gado todo”.

Mais do que uma grande empresa, estamos a falar de pessoas muito humanas. Cada vez que a empresa cresce, tenta envolver nesse sucesso todos os seus colaboradores.

Ao longo deste percurso, os empresários conseguiram ultrapassar os diferentes obstáculos e, em 2018, inauguraram mais uma nova e moderna fábrica. Esperam assim, chegar a novos horizontes e atingir novos objetivos, quiçá criar novas oportunidades.

A nossa promessa:
a Fumeiros Porfírios tem como visão o respeito pelas origens, o orgulho na tradição transmontana e a promessa de proteger um saber artesanal que está na origem de carnes fumadas com características singulares.

Lurdes e Manuel Joaquim Porfírio começaram, em 1982, com um pequeno estabelecimento de venda e transformação de carnes. Nessa altura, apenas produziam salpicão, moira, chouriça e presunto, produtos que, ainda hoje, continuam a ser de referência, e os preferidos dos consumidores, fruto da sua consolidada e reconhecida qualidade. Esta notoriedade foi alcançada através da total dedicação, e elevada experiência, em todos estes anos de trabalho.

in Voz de Lamego, ano 91/42, n.º 4624, 15 de setembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: rumo a um nós cada vez maior

Este é o lema escolhido pelo Papa Francisco para o 107.º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que se comemora no próximo Domingo, 26 de setembro. Logo a abrir o santo Padre retoma as palavras da carta encíclica Fratelli tutti (todos irmãos): «Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta. No fim, oxalá já não existam “os outros”, mas apenas um “nós”» (n. 35). Daí a escolha do tema: «Rumo a um nós cada vez maior», indicando claramente um horizonte para o nosso caminho comum neste mundo.

Os últimos países visitados pelo Papa, Hungria e Eslováquia, foram mais uma oportunidade, nas intervenções e nos gestos, para sublinhar a importância de acolher os outros, no diálogo ecuménico e inter-religioso, na criação de espaço físico e afetivo para receber migrantes e refugiados. A Hungria, na verdade, é um dos países que não recebe refugiados, numa política de fechamento. Na homilia da Eucaristia de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, o Papa sublinhou, sem reticências: “Deixemos que Jesus, Pão vivo, cure os nossos fechamentos e nos abra à partilha: nos cure da nossa rigidez e de nos fecharmos em nós mesmos, nos livre da escravidão paralisante da defesa da nossa imagem e nos inspire a segui-l’O para onde Ele nos quer conduzir. E não para onde quero eu”.

A mudança de regime no Afeganistão provocou nova onda de refugiados. Muitos foram os que abandonaram o país com medo de ser amordaçados, presos, mortos. Uns por motivos políticos, outros por terem colaborado com o anterior governo e/ou com as forças internacionais, além das mulheres que estudaram e entraram no mercado de trabalho. Nesta semana, Portugal acolheu mais oitenta afegãos, na maioria atletas da equipa de futebol feminino e seus familiares, perfazendo cento e setenta oito refugiados afegãos em território nacional.

A Bíblia está preenchida de saídas, fugas, refúgio, expulsão e perseguição. O segundo livro da Bíblia tem precisamente o título de “Êxodo”, saída, narrando a opressão que os judeus sofreram no Egito, para onde emigraram à procura de melhores condições de vida, ao tempo do patriarca José. Este episódio é narrado no livro que abre a Bíblia, Génesis, e que coloca também em evidência a itinerância de Abraão que, chamado por Deus, sai da sua terra e fixa em Canaã.

Com efeito, o Povo da Aliança tornou-se emigrante no Egito. Moisés liderará o êxodo, a libertação da escravidão para a terra da promessa. Séculos mais tarde, o povo será forçado a sair do seu território num exílio que constituiu uma enorme provação à fé e à identidade nacional.

No próximo Domingo, o Evangelho faz-nos questionar a nossa pertença e o grau de abertura aos outros. Os apóstolos encontram um homem a expulsar demónios em nome de Jesus e procuram impedi-lo porque não fazia parte do grupo. A resposta de Jesus é clarificadora: “Não o proibais… Quem não é contra nós é por nós” (Mc 9, 38-48). Os apóstolos querem tomar posse do nome de Jesus e fechar o círculo, para que ninguém entre! Jesus tem ideias diferentes: para fazer o bem não é preciso um rótulo. O Espírito de Deus sopra onde quer.

Diz-nos o Santo Padre: “Na realidade, estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira. Por isso aproveito a ocasião deste Dia Mundial para lançar um duplo apelo a caminharmos juntos rumo a um nós cada vez maior, dirigindo-me em primeiro lugar aos fiéis católicos e depois a todos os homens e mulheres da terra”.

No mesmo barco, mas infelizmente o número de excluídos continua a aumentar. Veja-se a questão da vacinação nos países desenvolvimentos e países terceiro-mundistas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/43, n.º 4625, 22 de setembro de 2021

Rumo a um NÓS cada vez maior

Editorial: Antes de Jerusalém, encontrar-nos-emos no Egito

Ponhamo-nos a caminho!

Se ainda estivermos na praça pública, ociosos, a ver o comboio passar e o Sol a levantar-Se, ergamo-nos, prontos para sair, para ir, para partir, já se vislumbra a cidade, já floresce a amendoeira, é tempo de esperança, o inverno já não apagará a nossa a chama, o fogo que nos arde no peito. Ergamo-nos, a salvação está a chegar, o dia a despontar, e a paz, finalmente pode voltar a desassossegar o meu e o teu coração! Esta paz que nem sempre o mundo nos dá, mas sempre Jesus nos traz e que nos queima a alma, nos inquieta o coração, nos faz ver que o outro está à espera, à espera que lhe levemos um pouco de calor, de sol e de amor.

Parece que vivemos embotados na neblina que não deixa o Sol surgir, pela madrugada, ou faz com que os dias anoiteçam muito mais cedo! Não é, ainda, novembro, mas quantos de nós sentirão os dias cada vez mais pequenos e as noites cada vez mais tenebrosas. A cada boa notícia, surge uma dúzia de más notícias, que geram dúvida, receio, recuo!

Chegaremos a Jerusalém, mas temos um longo caminho a percorrer, um caminho que é do tamanho da nossa vida, da nossa história, do tempo que Deus nos dá. Estamos a viver o Ano de São José! Se calhar, já nem nos lembrávamos! São José, o Pai de Jesus, Aquele que custodia a vida de Maria e de Jesus. Cuida, proporciona casa, tona-se suporte para a Mãe e para o Filho, em Belém e em Nazaré, no Egito e nas ruas de Jerusalém. Quarenta dias depois do nascimento, José leva Jesus e Maria ao Templo. O Menino é apresentado ao Senhor Deus, colocado sob a Sua proteção. Maria completa os dias de Purificação. Pode, doravante, participar novamente eventos públicos e religiosos.

Não muito tempo depois, José faz como o seu antepassado, o Patriarca José, Filho de Jacob. As semelhanças são curiosas, até no nome dos respetivos pais: Jacob. O primeiro José foi vendido como escravo. Com o passar dos anos, será ele a garantir a salvação do seu povo que recorre ao Egito em tempo de fome. Mais tarde, o povo tornar-se-á escravo e Moisés conduzi-lo-á, em nome de Deus, de regresso à terra prometida (onde corre leite e mel).

Perante a ameaça que recai sobre o Menino Jesus, a Sagrada Família põe-se em fuga, em direção ao Egito, onde ficará até que Deus lhe dê sinais de que é seguro regressar a Belém. Entre os sinais que Deus dá e e interpretação (prática) de José, fixam-se em Nazaré. O Egito serve os tempos conturbados, de emigração e refúgio. Um pouco a época atual. Porém, a nossa pátria não é aqui. E o facto de sabermos que Jerusalém nos espera, faz com que não desanimemos, mas também que não nos prendamos em demasia. Jerusalém está-nos na retina! E no coração. Muitas vezes teremos que descer ao Egito, mas sempre que isso acontecer, Deus acompanha-nos, vela para que não nos percamos e não nos falte a luz e a esperança para regressarmos.

«Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos» (2 Cr 36,14-16). É uma página da Sagrada Escritura que faz uma leitura religiosa da adversidade, não já em jeito de lamento, mas de esperança e gratidão por saber que, em todo o tempo, Deus não afastou o Seu favor.

Quando São José desceu ao Egito e lá permaneceu, viveu na fidelidade ao que Deus lhe revelou em sonhos, partiu apressadamente, sabendo que regressaria. Mas não partiu sozinho! Levou a família, deixou-se guiar por Deus.

Façamos o mesmo, a caminho do Egito, na estadia e no regresso à cidade de David, permaneçamos unidos, e não deixemos que nos roubem a esperança que nos vem de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/42, n.º 4624, 15 de setembro de 2021