Falecimento do Pe. Manuel Pinto Almeida

O Senhor Deus, Pai de Misericórdia Infinita, chamou à Sua presença, na eternidade, o Pe. Manuel Pinto Almeida.

Natural da Panchorra, concelho de Resende, onde nasceu em 3 de dezembro de 1938. Foi ordenado sacerdote a 15 de agosto de 1961. Foi durante alguns anos responsável da Casa de São José, onde passou os últimos meses agora em regime de Lar, mas igualmente sob a tutela da Diocese de Lamego.

Na segunda-feira será celebrada Missa Exequial na Igreja da Graça, em Lamego, pelas 11h00, e seguirá para a Panchorra, onde será celebrada também Eucaristia com o corpo presente, sendo sepultado no cemitério local.

O Senhor Bispo, D. António Couto, em comunhão com todo o presbitério e com a Diocese de Lamego, manifesta aos familiares e amigos do Pe. Manuel as suas condolências, agradecendo o dom da sua vida e da sua vocação e ministério sacerdotais, confiando-o nas mãos de Deus Pai, Senhor da Vida e da Morte.

Que Deus lhe conceda o eterno descanso.

Editorial Voz de Lamego: Sob a proteção da Imaculada Conceição

No dia 8 de dezembro, assinalamos a celebração festiva da Imaculada Conceição, Padroeira e Rainha de Portugal, fazendo sobressair a ligação afetiva dos portugueses à Virgem Imaculada.Como em tantas outras referências religiosas, culturais, políticas, com as novas gerações atenuam-se as pertenças e, por vezes, os motivos originários de uma tradição, de uma comemoração, a razão de ser de um feriado ou de um dia santo. O dia 8 e dezembro enraíza-se na história de Portugal e, claro, na identidade religiosa e cultural do povo português, mesmo com a vontade de alguns blocos quererem disfarçar, esconder, apagar tudo o que possa ter referências religiosas, excetuando nos momentos de aproximação eleitoral, onde é necessário não fazer muitas ondas.No dia 25 de março do ano de 1646, D. João IV, numa cerimónia solene, em Vila Viçosa, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, depunha a coroa a favor de Nossa Senhora. A partir de então o Rei não mais colocaria a coroa. Em contrapartida, a coroa era colocada num trono, ao lado do trono real, relembrando que Nossa Senhora da Conceição era a Padroeira e Rainha de Portugal.O Rei assinalava a forte devoção dos portugueses. Os acontecimentos que conduziram o país a recuperar a soberania, com a coroação de D. João IV, a 15 de dezembro de 1640, no Terreiro do Paço, estão fortemente ligados à devoção de Nossa Senhora. O Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria), artífice da vitória de Portugal sobre os nossos vizinhos espanhóis, fundou a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, oferecendo também a imagem de Nossa Senhora da Conceição.É uma devoção que vem de longe, sancionada em definitivo a 8 de dezembro de 1954, pelo Papa Pio IX, rodeado por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e uma imensa multidão, definiu como dogma de fé o grande privilégio da Virgem:“A doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em atenção aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, é revelada por Deus e por isso deve-se crer firme e constantemente por todos os fiéis”O projeto de Deus é concretizável pela resposta humana, por esta primeira resposta de Maria. Maria acolhe a Palavra de Deus e fá-la crescer no seu ventre e na sua vida.A condição para sermos morada do Deus altíssimo é imitar Maria, em humildade e prontidão para servir: realize-se em mim a Tua vontade. Vem, nasce em mim, ilumina-me com a Tua bondade, dá-me o Teu perdão, guia-me para Ti, faz-me reconhecer-Te e a amar-Te em cada irmão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/02, n.º 4488, 4 de dezembro de 2018

Documento Final do Sínodo dos Bispos – 3.ª Parte

E partiram sem demora

A passagem dos discípulos de Emaús continua a nortear o sentido das diretrizes do Documento Final do Sínodo dos Bispos. Nesta terceira parte, o mote é o retorno, “sem demora”, dos discípulos a Jerusalém. O rosto de uma Igreja jovem passa pelo reconhecimento do Ressuscitado a cada passo, contagiando a todos com a alegria dessa descoberta, provocando em cada um a conversão necessária e incitando a Igreja á reforma sempre inacabada (3ª parte, nº 115-118).l

O primeiro capítulo desta terceira parte assenta as bases na sinodalidade missionária da Igreja, e aponta-a como o caminho mais desejado pelos jovens desde o início dos trabalhos sinodais. Uma vez que “as condições concretas, as possibilidades reais e as necessidades urgentes dos jovens são muito diversas entre países e continentes” (3ª parte, nº 120), o Papa desafia as Conferências Episcopais a encetar processos de discernimento com a participação de todos, de todas as idades, de todas as estruturas, movimentos e associações. É este o caminho para uma Igreja mais participativa e corresponsável, e para que os jovens assumam maior intervenção nos organismos de decisão e missão eclesial.

O capítulo seguinte destaca a urgência de um envolvimento mais abrangente e renovador, que passe pelo renovamento do convencional dinamismo paroquial e das suas estruturas. Em comunidades com gente tão dispar, importa que o anúncio basilar de Cristo morto e ressuscitado seja a principal catequese, dando o devido realce à liturgia e ao serviço da caridade. Um dos grandes desafios deste documento é que as Conferências Episcopais se disponham a elaborar um “Diretório de Pastoral Juvenil” e criem centros de encontro e acompanhamento vocacional.

No terceiro capítulo ficam expressos alguns desafios mais prementes. A urgência de evangelizar os e pelos ambientes digitais. A atenção redobrada que se impõe aos migrantes, que necessitam acolhimento e integração racial. O preponderante papel da mulher na Igreja e o seu poder decisional. A desmitificação ordenada da sexualidade em toda a sua amplitude. O empenho da Igreja na economia, na política e na ecologia. O respeito pelo pluralismo cultural e religioso, e o ecumenismo como caminho de reconciliação.

O último capítulo ressalva a extrema necessidade de uma formação integral, num contexto social atual complexo e multifacetado. Desta forma, a aposta tem de passar também pela educação escolar em toda a sua amplitude; pela preparação ajustada de novos formadores; pelo aposta em que os jovens sejam discípulos missionários;  pela promoção de tempos e momentos concretos de acompanhamento e discernimento; pela preparação séria ao matrimónio; pela formação integral dos seminaristas e consagrados/as.

A conclusão coroa o documento com um forte apelo à santidade dos jovens no mundo.

 

Pe. Diamantino Alvaíde,

in Voz de Lamego, ano 89/01, n.º 4487, 27 de novembro de 2018

Editorial Voz de Lamego: a vida a partir do fim

O futuro a Deus pertence. Podemos vislumbrar o dia de amanhã, com a incerteza, o mistério e a surpresa que é sempre o futuro, mas a nossa vida daqui a 10 anos, ou daqui a 20, 30, 40 anos, a partir da nossa morte, do nosso fim biológico/terreno (ou mesmo a partir da eternidade de Deus) torna-se uma tarefa árdua, mas não deixa de ser uma provocação.

Num retiro do Seminário, o D. João Evangelista Salvador, então sacerdote da Diocese de Coimbra e atual Bispo de Angra, ao testemunhar o dom da sua vocação, as dúvidas e incertezas, e o que o levou em definitivo a avançar foi uma conversa com um irmão que o convidou a ver-se no futuro e a olhar a vida desde o fim. O mesmo exercício nos foi proposto. Chegado ao fim da vida, ao olhar para trás, o que gostaria de ter sido, o que gostaria de ter feito, que escolhas teria realizado. Ver-se a partir de Deus, do Definitivo, do Eterno, olhar através dos olhos de Deus, para toda a vida passada (ainda por viver). Chegou à conclusão, vendo a partir do fim, que gostava de viver numa lógica de Infinito, as realidades últimas. Todas as escolhas humanas são dignas, cada pessoa há de seguir o caminho que mais o aproxima de Deus. Ele sentiu que a vida que mais o colocava nas realidades últimas, era a opção pelo sacerdócio ordenado.

São Francisco de Borja acompanhou o corpo de D. Isabel de Portugal para a sepultura real, em Granada. A rainha era adulada por uma beleza inigualável, mas na morte, diante do cadáver, já em decomposição, ficou chocado com algo comum a todos as pessoas: a degradação física e a fealdade da morte biológica. Decidiu “não servir nunca mais a um senhor que pudesse morrer”. Viria a tornar-se santo. Olhou a vida a partir do fim, neste caso, o fim terreno e mortal da Imperatriz Isabel.

Este era o Editorial pensado para esta semana, semana em que o Senhor da Vida chamou a Si a minha querida Mãe e, obviamente, também isso me faz olhar a vida a partir do fim duma forma mais emotiva, sabendo que o tempo vai deixando pelo caminho pessoas que fazem parte da nossa vida, confiando-as ao verdadeiro e eterno Fim, para que se tornem ainda mais próximas. Oportunidade também, neste espaço, para agradecer a oração, a amizade e a comunhão de todos os quiseram fazer-se próximos e que confiaram a minha Mãe à Mãe do Céu. Que o Deus do Fim e de todos os começos e recomeços nos conceda a alegria e a paz, a luz e o amor, e nos faça amar os que Ele ama infinitamente e servi-los de todo o coração.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/01, n.º 4487, 27 de novembro de 2018

Editorial VL: O grito dos pobres e o barulho dos ricos

No penúltimo Domingo do Tempo Comum, desde o ano passado, comemora-se o Dia Mundial do Pobre. Algumas comunidades têm intentado iniciativas e dinâmicas para responder aos desafios do Papa.

Alguns interrogaram-se sobre a expressão, como se um Dia Mundial dos Pobres pudesse sancionar a condição de pobreza. No encontro com os meios de Comunicação Social, após ser eleito Papa, Francisco deixou claro que queria uma Igreja pobre, dos pobres e para os pobres. Mas também ficou claro que a sua voz seria firme contra todos aqueles que potenciam a pobreza de muitos, cristalizando situações de carência, de miséria e de dependência. Era a mesma voz que na Argentina se levantava contra o descarte humano, contra o trabalho e a exploração infantil. É uma das razões porque o Papa não distribui a comunhão. Em Buenos Aires havia empresários que apareciam nas fotos a comungar da mão do então Cardeal, e depois eram promotores do trabalho infantil, do trabalho escravo… As intervenções do Papa têm sido uma constante, sobre a economia que mata, a corrupção e a ganância de uns poucos que controlam e subjugam muitos e a crescente indiferença para situações de pobreza. A erradicação da pobreza, já o sublinhou algumas vezes, é falta de coragem e de vontade. Não faltam recursos, falta uma justa redistribuição.

Na segunda edição do Dia Mundial dos Pobres, o Papa colocou, novamente, os pobres no centro. Depois de chuveiros para os sem-abrigos, refeitórios, sanitários… durante uma semana, postos móveis de saúde, gratuitos para os mais desfavorecidos, e novamente o almoço com algumas centenas de pobres… Pode não resolver, mas trá-los para a luz… estão à vista, já não podemos dizer que não sabíamos!

Na celebração da Santa Missa, o Papa foi clarividente sobre o grito dos pobres: “é o grito estrangulado de bebés que não podem vir à luz, de crianças que padecem a fome, de adolescentes habituados ao fragor das bombas… É o grito de idosos descartados e deixados sozinhos. É o grito de quem se encontra a enfrentar as tempestades da vida sem uma presença amiga. É o grito daqueles que têm de fugir, deixando a casa e a terra sem a certeza dum refúgio. É o grito de populações inteiras, privadas inclusive dos enormes recursos naturais de que dispõem. É o grito dos inúmeros Lázaros que choram, enquanto poucos epulões se banqueteiam com aquilo que, por justiça, é para todos. A injustiça é a raiz perversa da pobreza. O grito dos pobres torna-se mais forte de dia para dia, mas de dia para dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos, que são sempre menos e sempre mais ricos”.

Pe. Manuel Gonçalves

in Voz de Lamego, ano 88/49, n.º 4486, 20 de novembro de 2018

Documento Final do Sínodo dos Bispos – 2.ª Parte

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E abriram-se-lhes os olhos!

A segunda parte do documento final do último Sínodo dos Bispos apoia-se na perspetiva dos discípulos de Emaús, que, ao fim de algum tempo de caminhada e de uma proximidade mais íntima com o Ressuscitado, a sua visão clareou e compreenderam o que até então lhe estava vedado.

Sob o impulso do mesmo Espírito que há 2000 mil anos fazia arder o coração daqueles dois que regressavam de Jerusalém para Emaús, a Igreja é desafiada a um novo Pentecostes, onde os jovens possam fazem um experiência profunda Deus e fazer refletir o rosto de um “Cristo eternamente jovem” (2ª parte, nº60).

No primeiro capítulo sobressai o exemplo e a vitalidade da juventude de Jesus, que tão bem a soube usar para valer aos mais necessitados do seu tempo e para afrontar corajosamente as autoridades e problemas daquela época. Ao mesmo tempo ressalvam-se as feridas que assolam a juventude de hoje e a indispensável atenção dada a esta idade das grandes decisões, feitas com liberdade responsável e, de preferência, sem perder de vista a missão de cristãos.

Com a preocupação da decisão vocacional, o segundo capítulo começa por apontar o chamamento de Samuel como modelo, que não é senão uma proposta de amor e confiança recíproca, da parte de Deus Criador. Urge o desevolvimento de uma cultura vocacional que promova o fascínio por Jesus Cristo, que dê relevo aos protagonistas bíblicos como vidas modelares e que ajude a descobrir a vocação à santidade na descoberta e vivência das diferentes vocações: família, vida consagrada, ministério ordenado e condição de solteiro (2ª parte, cap, II, nº 84-90).

 O capítulo seguinte assenta a preocupação na missão que a Igreja tem de acompanhar e de ajudar a discernir, dado o variadíssimo leque de possibilidades que se abrem aos jovens de hoje. Este acompanhamento, de acordo com o documento final, tem de ser feito simultânea e necessariamente em diferentes ambientes: comunitário, de grupo e pessoal. E em âmbitos diversos: espiritual, sacramental, etc. Isto é, o mais integral possível e com acompanhadores de grande maturidade humana.

O último capítulo incide na preciosidade do discernimento e na Igreja como ambiente privilegiado para que este aconteça. O santuário onde o discernimento tem de ter lugar será sempre a consciência, onde Deus fala mais intimamente com o ser humano (Gaudim et spes, 16). Daqui se impõe uma aposta na formação da consciência humana que predisponha os jovens a uma íntima familiaridade com Jesus, abrindo-se à voz do Espírito e num diálogo franco com o acompanhador que ajuda a diluir indecisões.

Pe. Diamantino Alvaíde, in Voz de Lamego, ano 88/48, n.º 4485, 13 de novembro de 2018