Editorial Voz de Lamego: Caim e Abel, irmãos nossos

«Onde está o teu irmão Abel?» Deus questiona Caim pelo seu irmão e responsabiliza-o. A resposta de Caim preocupa: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» Na verdade, é uma resposta que continuamos a dar ou a viver. O tempo que atravessamos traz-nos muitas histórias (reais) de indiferença, desprezo, exclusão, violência, conflito.

Deus chama à razão Caim: «A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 8ss). Caim sujeita-se às consequências dos seus atos, do seu mau proceder, contudo, Deus marca-o com um sinal para que ninguém lhe faça mal. A história de Caim e de Abel é uma história de infortúnio, mas também de esperança e de compromisso.

A história dos dois irmãos traz duas conceções de vida antagónicas: a vida das “cidades”, sedentária, e a vida do campo, nómada. As duas formas de vida estão presentes no povo de Israel. Alguns defendem que o povo não se deve fixar, mas estar sempre em deslocação, lembrando que Abraão é um “arameu errante”, sem-terra. Outros, pelo contrário, sustentam a ideia de uma terra, dada por Deus em herança, ao seu povo, cumprindo a Sua promessa. O relato de Caim e Abel faz a opção clara pela “errância” do povo, predominando o pastoreio em vez a agricultura. Esta fixa-se na terra. Aquela avança de terra em terra.

Olhando para a história da humanidade de todos os tempos, verifica-se que a violência gratuita, os fratricídios (irmãos que matam irmãos) são frequentes: povos que se aniquilam, irmãos que guerreiam pela herança, que se matam por ciúmes e inveja, umas vezes por um pedaço de terra, outras vezes por uma ninharia. Ainda que possa haver sempre o ideal da reconciliação.

A guerra imposta pela Rússia à Ucrânia é mais um episódio infeliz como a desconfiança e o medo, o egoísmo e prepotência, conduzem à violência, à imposição de ideais e vontades, recorrendo ao poderio militar. A história de Caim e Abel assume e faz-nos visualizar a realidade histórica.

Mas, infelizmente, histórias de violência familiar repetem-se todos os dias. Fomos surpreendidos pela morte de uma menina com três anos, em Setúbal. À posteriori podem ver-se descuidos, desatenções, demissões. A família, que deveria ser espaço seguro, de vivência do amor, de cuidado e proteção, afinal não garantiu a vida desta menina. Muitas pessoas se juntaram para “julgar”, condenando, movidas pela revolta em relação a uma situação que não deveria ter acontecido. Mas onde estávamos antes de acontecer mais esta desgraça? Onde estavam os vizinhos, a família, os amigos? Onde estavam os que vieram depois?

Na história bíblica há um rasto de esperança. Apesar da infidelidade humana, Deus acredita, Deus aposta no homem. Caim matou o irmão. Deus reafirma, e a fé também, o mandamento: “Não matarás”. Quando alguém é morto, o “normal” é a vingança, a morte do agressor. Porém, se a justiça é necessária, a vingança é dispensável, pois só gera mais violência e não suprime a perda nem a ofensa. Caim é marcado com o sinal de Deus que impede que outros possam agir de forma violenta sobre ele. É uma história de amor e de salvação. Deus quer o nosso bem, mesmo quando e apesar de nos desviarmos do bem.

Caim permanecerá como uma figura do lado mais obscuro que há em nós, mas em simultâneo na certeza que a descoberta de Deus nos conduz à salvação.

Vale a pena registar e mastigar as palavras de são Paulo: «Pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros» (Gál 5, 14-15).

Quando a guerra, a violência, os conflitos estão distantes, sossegamos porque não é (ainda) connosco! Mas, mais longe ou mais perto, os outros dizem-nos respeito e o que fazem ou deixam de fazer afeta-nos, se não mais cedo, mais à frente. Como cristãos, esta consciência deve ser ainda mais viva, pertencemo-nos, somos responsáveis pelos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/33, n.º 4664, 29 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: Dai-lhes vós de comer

Com a guerra imposta pela Rússia à Ucrânia, acresce um problema associado à guerra, a fome. As guerras, ao longo da história, como lembrou D. António Couto, na Lapa, no passado dia 10 de junho, já matou 3 biliões e 800 milhões de pessoas. A fome, por sua vez, continua a matar milhares de pessoas. Associada à guerra, a fome mata ainda mais pessoas.

Por um lado, a escassez de alguns alimentos, mormente cereais exportados da Ucrânia para muitos países e que, agora, em virtude das dificuldades ou impossibilidades de escoamento, aumenta exponencialmente o preço dos mesmos. Por outro lado, também os combustíveis (fósseis) subiram em flexa, devido aos preços exigidos pela Rússia ou às sanções económicas que impedem ou diminuem a disponibilidade aquisição. A guerra mostrou uma interdependência entre povos, não apenas na Europa ou no Ocidente, mas em todo o mundo. Os mais pobres são os primeiros a pagar a fatura da escassez.

Se folhearmos os jornais ou fizermos uma busca na internet, em sites fidedignos, veremos que os números são verdadeiramente assustadores, referidos a crianças. O número de pessoas que vive abaixo do limiar da pobreza é dramático. O dinheiro investido em armamento, como o que se está a verificar atualmente, erradicaria a pobreza na maioria dos países. Para erradicar a pobreza investem-se milhares de euros / dólares, para armamento investem-se biliões!

“A cada cinco segundos, morre no mundo uma criança com menos de 15 anos. As crianças dos países com a mortalidade mais alta têm até 60 vezes mais probabilidade de morrer nos primeiros cinco anos de vida do que as dos países com mortalidade mais baixa, segundo o relatório da ONU” (Unicef, 18 setembro 2018). “Uma criança morre a cada 10 minutos por falta de alimentos no Iêmen” (ONU News, 24 de setembro de 2021). “Mais de cem mil crianças estão em risco de morrer de fome em Tigré. Os números da subnutrição na região, que foi a mais afetada pela grande fome de 1984, aumentaram dez vezes, segundo estimativa da Unicef. Responsáveis pedem acesso ao local para entrega de ajuda alimentar urgente” (Público, 30 de julho de 2021).

A pandemia, as alterações climáticas, os conflitos violentos estão a multiplicar a fome em todo o mundo, não se vislumbrando sucesso para os diferentes projetos de erradicação da pobreza. A guerra na Ucrânia é só mais um triste e lamentável acontecimento que faz perigar a vida de milhares das pessoas, trazendo inquietação, revolta, medo, aumento do custo de vida, e desatenção aos pobres e excluídos, criando novas faixas de pobreza… o que, por sua vez, gerará mais conflitos.

Não podemos fazer tudo. Mas há sempre alguma coisa que poderemos fazer para ajudar, não apenas os que estão longe, mas os que vivem perto.

Na solenidade de Corpus Christi, em Portugal, celebrada na quinta-feira, 16 de junho, e em muitos países no último Domingo, fomos presenteados pela narração da multiplicação dos pães (Lucas 9, 11b-17). No evangelho, Jesus insinua-Se como o alimento para todos. Alimento abundante, que sobeja para que possa ser partilhado por outros, pelos que estão ausentes. Os apóstolos veem (sobretudo) o número: muitas pessoas, poucos alimentos, dinheiro insuficiente para tanta gente. Como é verdade ainda hoje: tanta gente que não tem como alimentar-se! A riqueza nas mãos de uns poucos. Jesus compromete-nos: «Dai-lhes vós de comer». Tanta gente. Cinco pães e dois peixes. Ontem como hoje. A questão dos números é relativa. Também hoje podemos operar verdadeiros milagres, pela partilha. Quando partilhamos do pouco que temos, dá para mais, dá para muitos, dá para todos. Deus conta connosco, com os nossos cinco pães e dois peixes e conta que sejamos nós a distribuir. Na vizinha Espanha, foi aprovada uma lei contra os desperdícios de alimentos. A ONU afirma que mais de um terço dos alimentos produzidos é desperdiçado. Pode incentivar outros países, e a sensibilizar as pessoas, a fazerem o mesmo. O excesso de desperdício é um atentado à escassez alimentar de muitas pessoas, em muitos países. Passa também por aqui a multiplicação dos pães: a partilha solidária.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/32, n.º 4663, 22 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: no Corpo de Cristo…

Ligamo-nos espiritual e afetivamente, mas a partir do nosso corpo que nos identifica e nos diferencia dos outros, limitando-nos fisicamente, com fronteiras no aquém da nossa pele, riqueza que nos permite situar-nos diante dos outros. Somos CORPO. Não é uma parte separável que possamos dispensar quando nos apetece, mas integra-se na nossa identidade (corporal e espiritual).

Como é que comunicamos uns com os outros? Com a presença (corporal), com a voz, e com o timbre com que falamos, comunicamos com os gestos, com o olhar, com o sorriso, com as expressões do rosto e até com a postura do corpo. Como podemos constatar, o Corpo já é comunicação. Aliás, sem corpo, nem se colocaria a questão da comunicação entre pessoas. Por vezes temos pressentimentos, sentimos o que outro está a sentir, intuímos o que está para suceder, mas de novo as raízes: a estrutura das emoções, dos sentimentos e do pensar está no corpo que somos.

A filosofia grega acentuava o confronto entre a alma e o corpo. O corpo era um entrave à verdadeira vida. O espírito, a alma, tinha que dominar o corpo, até à libertação definitiva. Nas religiões/filosofias orientais vinga a ideia de libertação do corpo pela ascese, pelo ioga, por diversas técnicas, até atingir o nirvana, um estado de (quase) puro espírito, sem dor, acima do mundo material. A perspetiva bíblica é diferente, o ser humano é corpo e espírito. É dom da criação de Deus, que nos dotou de um corpo espiritual, ou de um espírito corpóreo. Não somos um espírito dentro de um corpo, a tentar escapulir como de uma prisão, libertando o espírito, deixando o corpo para trás. Somos PESSOAS, criadas pelos Deus Amor, e que nos quer bem. Em Jesus, é o próprio Deus que vem, e assume um Corpo.

Na idade média, foi ganhando forma a convicção de acentuar o mistério da Eucaristia, a presença real de Jesus na hóstia e no vinho consagrados. Começou pela elevação da hóstia (século XII), para que todos se prostrassem em adoração e pudessem ver o Corpo de Cristo. Era um passo, porém, a Eucaristia continuava “limitada” à celebração da missa e da comunhão, estando prevista a conservação da hóstia consagrada, inicialmente, apenas para as pessoas doentes e ausentes.

No século XIII, a adoração da Eucaristia acentua-se e sai à rua, ganhando progressivamente relevo a Procissão do Santíssimo Sacramento. O desejo de ver a hóstia dá lugar à celebração da realeza de Cristo, a presença do Senhor, que bendiz a cidade e as pessoas.

Celebrar o Corpo de Deus, significa acreditar num Deus que faz caminho connosco. Percorre as nossas ruas e vielas, as nossas estradas e avenidas. Ele encontra-nos onde nós vivemos, onde caminhamos. Deus não é um foragido, que Se esconde, mantendo-se à distância para não Se envolver, mas tem um ROSTO, um CORPO, uma PRESENÇA efetiva e real na nossa vida.

Esta é a vontade de Deus. Gera-nos para uma vida feliz. Dá-nos o Seu Filho, em tudo igual a nós, exceto no pecado, e que assume um Corpo humano, para realizar a vontade paterna. Vive entre nós. É morto. Ressuscita. Pelo Espírito Santo fica entre nós, no Seu Corpo e Sangue. Como dissera na última Ceia, vai morrer, vai para o Pai, e do Pai envia-nos o Espírito. Entrega-Se por inteiro. É-nos devolvido, pelo Espírito Santo na consagração. Sempre que nos reunimos em Seu nome, fazemos o que Ele fez naquela noite. Mais, reunimo-nos para fazermos o que Ele fez em toda a vida, o serviço permanente a favor dos outros. Somos responsáveis uns pelos outros. Celebrar a Eucaristia, como membros do Corpo de Cristo, a Igreja, comungando o Corpo de Cristo, partilhamos Cristo e tornamo-nos guardadores uns dos outros. Não podemos sentar-nos à volta da mesma mesa, unidos no Corpo, e depois sair cada uma para sua casa, para a sua vida, como se tivesse sido um encontro de estranhos e/ou inimigos. Somos responsáveis uns pelos outros. A abundância e riqueza do Corpo de Jesus há de levar-nos a partilhá-lo entre todos, para que a ninguém falte o alimento corporal e espiritual.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/31, n.º 4662, 15 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: O Papa e o cansaço

No passado sábado, 4 de junho, o Santo Padre recebeu um grupo de 160 crianças, que participaram no “Comboio das Crianças”, algumas a viverem em situação de fragilidade pessoal e/ou social. Entre elas, também crianças ucranianas. O encontro com o Papa permitiu um diálogo muito expressivo. Uma das crianças, Catherine, perguntou-lhe se era cansativo ser Papa. Antes, um outro menino, Edgar, perguntou como se sentia sendo Papa. A resposta é clarificadora: “O importante, em qualquer profissão em que a vida nos coloca, é que nunca deixemos de ser nós próprios… como pessoa, se tenho este trabalho, devo tentar fazê-lo da maneira mais humilde e mais de acordo com minha personalidade, sem tentar fazer coisas que sejam estranhas a quem eu sou”.

Veio então a pergunta sobre o cansaço. O Papa respondeu dizendo que qualquer tarefa que realizamos tem uma parte de fadiga, de esforço, sublinhando, por exemplo, que ser pai e mãe é também um trabalho que exige esforço, dedicação, é um trabalho árduo. Porém, “Deus dá força para carregar as próprias fadigas” e é preciso realizá-las “com honestidade, com sinceridade e com trabalho”.

Nem todo o cansaço é igual. Pode ser mais físico ou mais espiritual. Pode ser consequência do esforço ou do desencanto em relação ao trabalho, à vida. Depois de uma jornada de apostolado, Jesus convoca os seus discípulos para o descanso: «vinde a sós para um lugar deserto e descansai um pouco». Na verdade, conclui o evangelista, “eram tantos os que chegavam e partiam que eles nem tinham tempo para comer” (Mc 6, 31).

É bem conhecido o episódio em que Jesus entra em casa de Marta, que se atarefa para Lhe proporcionar, a Ele e aos apóstolos, uma boa refeição, aprimorando o espaço para que possam também descansar. A sua irmã, Maria, senta-se aos Seus pés e escuta a Sua palavra. Perante esta atitude, Marta reclama a Jesus da inação da irmã. Jesus, então, responde-lhe: «Marta, Marta, estás preocupada e alvoroçada com muitas coisas, mas uma só é necessária. Maria escolheu a parte boa, que não lhe será tirada» (Lc 10, 38-42).

Aos discípulos, a ti e a mim, Jesus dir-nos-á para procurarmos, primeiro, o Reino de Deus e a sua justiça, concluindo: «Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã preocupar-se-á consigo próprio. A cada dia bastam os seus males» (Mt 6, 33-34). O ideal, e o compromisso, assenta na busca de equilíbrios, entre o descanso, a festa, a descontração e o esforço, trabalho e mesmo sacrifício. Fica sempre mais fácil se, o que fazemos e vivemos, for feito e vivido com gosto, convicção, por amor.

As dificuldades físicas do Papa Francisco e, certamente, como aconteceu com Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI, muitos assuntos sensíveis a refletir, rezar e resolver, têm-se tornado evidentes. Víamos o Papa a caminhar com dificuldade, ultimamente temo-lo visto em cadeira de rodas. A pergunta, a que nos referimos, fixa-se mais na missão que no estado físico, mas a resposta abrange a pessoa como um todo e neste caso a pessoa do Papa. Nas dificuldades e contratempos, a certeza que Deus dá a força para resistir, lutar, para prosseguir e, por conseguinte, temos visto o Papa presente, a intervir, a rezar, a rir, a interagir, com a convicção de que todos os momentos são oportunos para expressar a bondade de Jesus Cristo.

«Vinde a Mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e Eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas vidas, pois o Meu sugo é suave e a minha carga é leve» (Mt 11, 28-30). Quando faltarem as forças, confiemo-nos a Jesus, pedindo-Lhe que venha em auxílio das nossas fraquezas.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/30, n.º 4661, 8 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: Neutralidade

Vivemos tempos conturbados. A guerra da Rússia contra a Ucrânia e contra a democracia é só mais um episódio lamentável da cultura da morte, disseminada em guerras, tráfico de pessoas, escravização, trabalho/exploração infantil, fome, prevalência de elites sobre povos inteiros, subjugando-os pela força, ameaça, julgamentos sumários, exílio, perseguição e morte.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada com o propósito de evitar as guerras entre nações, procurando também salvaguardar o direito à autodeterminação de cada povo, no respeito pelas leis, pelos Direitos Humanos fundamentais. Apesar dos propósitos, as guerras continuam a multiplicar-se e, no caso presente, a Rússia, com direito de veto, impede qualquer posicionamento mais firme da ONU, além da ameaça nuclear que pesa sobre a Europa.

Uma das palavras que se tem ouvido muito ultimamente é o da neutralidade. A Ucrânia tinha-se mantido neutra, face a ameaças russas de fazer o que acabou por fazer, invasão e agressão militar. A possível entrada na UE e na NATO foram sendo adiadas. Por sua vez, a Finlândia e a Suécia mantiveram-se, igualmente, neutros face a qualquer conflito internacional. Por um lado, nos conflitos poderiam ser mediadores de paz e reconciliação e, por outro lado, garantiriam que não seriam invadidos ou arrastados para algum conflito internacional. O Portugal de Salazar assumiu essa política de neutralidade, durante a segunda guerra mundial, o que lhe permitiu aprofundar o comércio com ambos os lados, ainda que não tivesse evitado a pobreza de muitos portugueses e a escassez de bens alimentares.

À Ucrânia de nada valeu a dita neutralidade. A Finlândia e a Suécia perceberam que a neutralidade mantida nos últimos 50 anos não era garantia para a paz e integridade territorial face ao que aconteceu com a Ucrânia, pelo que já fizeram o pedido de adesão à Nato, o que implicará investimento militar, mas também a certeza que, em caso de conflito com a Rússia e seus parceiros, terão a solidariedade e intervenção militar dos povos que constituem a Aliança (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Deixemos a dimensão mais política, para nos fixarmos no compromisso cristão perante a cultura da morte, a pobreza, a violência, sendo que, em nenhum momento, deixamos de ser “políticos”! Um cristão não pode colocar-se na perspetiva de Pilatos, não pode lavar as mãos face à mentira, às injustiças. O cristão tem de tomar partido. Não importa se é de direita ou esquerda ou do centro, se é progressista ou conservador, tem de ser, acima de tudo, cristão, imitando, em tudo, em todos as situações, Jesus Cristo, colocando-se, sempre, do lado dos mais desfavorecidos. Não é uma escolha entre outras. É a única escolha possível para um cristão. Não podemos lavar as mãos e tornarmo-nos indiferentes ao sofrimento.

Mas como dizia antes, mesmo quem objete a política, não deixa de ser político e será bom que os cristãos também se empenhem na vida política (e partidária), não com o ensejo de usufruir das melhores regalias, mas com o propósito firme de ajudar a melhorar a vida das pessoas e das comunidades.

O Papa Francisco fala da política como uma arte, como um alto serviço à humanidade, quer para atender às necessidades das pessoas, quer para construir pontes de diálogo e de paz. Com efeito, “somos chamados a viver o encontro político como um encontro fraterno, especialmente com aqueles que estão menos de acordo connosco”. Devemos tratar o outro “como um verdadeiro irmão, um filho amado de Deus” o que, por vezes, implica “uma mudança de olhar sobre o outro” e “um acolhimento incondicional e respeito à sua pessoa, sobretudo, para com os que não concordam connosco”. O santo Padre prossegue, dizendo que “se essa mudança de coração não ocorrer, a política corre o risco de se transformar num confronto muitas vezes violento para fazer triunfar as próprias ideias, em busca de interesses particulares e não do bem comum. Não se pode fazer política com a ideologia”.

O cristão não é neutro e nem todas as escolhas são razoáveis… Razoável, para o cristão, é viver ao jeito de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/29, n.º 4660, 1 de junho de 2022

Editorial Voz de Lamego: Não se perturbe o vosso coração

Há uma semana, o editorial tinha como título: só se vive uma vez. Tinha partido de uma música, conhecida, que passou num momento de festa e confraternização, após o matrimónio do meu irmão Augusto e da minha cunhada Paula. O que a letra sugeria, parece que ganhou um sentido mais premente.

Recuperando um pouco do editorial: “Se nós soubéssemos que amanhã já não estamos (fisicamente) por cá, talvez acelerássemos algumas tarefas e compromissos, para deixarmos resolvido, para vivermos. Como não sabemos, também não o devemos adiar, pois o futuro só a Deus pertence. Ele dá-nos o tempo atual como presente para desfrutarmos, para vivermos, para construirmos um mundo fraterno, que seja casa de todos e para todos. Há quem não viva hoje à espera de viver o amanhã, de melhores dias e melhores circunstâncias que não chegam ou quando chegam já é demasiado tarde”.

Estou certo que o meu irmão viveu dias muito felizes, muito preenchidos, dando o melhor, recebendo o melhor da vida, da família, dos amigos e, especialmente, da esposa. Muitas vezes, e nós padres fazemo-lo quase constantemente, repetimos o desafio a viver o dia de hoje como presente que Deus nos dá, pois não saberemos se amanhã estaremos (fisicamente) por cá. Então, sem medos, sem pressas, sem ansiedade, vivamos! Digamos hoje o que temos a dizer! Amemos hoje, cuidemos hoje, perdoemos hoje, pois o HOJE torna-se eterno.

Quando se aproxima a Sua hora, Jesus prepara e sossega os seus amigos mais íntimos: «Não se perturbe o vosso coração; acreditai em Deus e acreditai em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, ter-vos-ia dito que vos vou preparar um lugar? E, quando Eu tiver partido e vos tiver preparado um lugar, virei de novo e levar-vos-ei comigo, para que onde Eu estou, estejais vós também» (Jo 14 1-3).

As palavras de Jesus só serão compreendidas a posteriori. «Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11). E Jesus prossegue, dizendo: «Mas, porque vos disse estas coisas, a tristeza encheu o vosso coração… haveis de chorar e lamentar-vos, mas o mundo alegrar-se-á; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza tornar-se-á alegria… vós agora sentis tristeza, mas Eu hei de ver-vos de novo, e o vosso coração alegrar-se-á, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria… Até agora, nada pedistes no meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa… disse-vos estas coisas para que em Mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem: Eu venci o mundo!» (Jo 16).

Parafraseando Toltói, a alegria é semelhante para todos, a tristeza cada um a vive à sua maneira. Não seremos capazes de nos colocarmos no lugar dos apóstolos, quando Jesus lhes diz que vai ser morto ou quando Jesus morre de facto. As palavras de Jesus são também para mim, para nós. O anúncio da partida, da separação física gera um emaranhado de sentimentos, um certo entorpecimento… a fé desafia-nos a acolher os desígnios de Deus, mesmo quando são inusitados, quando chegam fora do tempo que julgávamos ter. Jesus volta à vida, ainda que numa dimensão (dinâmica) diferente. Com Ele vivem os que com Ele partem. Assim o creio e assim o espero para o meu irmão Augusto, para que, vivendo em Deus, a Deus reze por todos aqueles que fizeram e fazem parte da sua vida. Agradeço a Deus os momentos que nos deu para apreciarmos a vida, desfrutarmos da presença, agradecermos as pessoas. Como naquele dia, há pouco mais de uma semana, na Sé de Lamego, diante de Deus, abençoando um compromisso para a vida… a mesma vida e a mesma bênção nos liguem ao mistério amoroso de Deus.

Agora a tristeza e o luto, mas logo, a alegria do reencontro, quando Ele vier e nos levar Consigo. Até lá… vivamos agradecidos por tantos momentos, agradeçamos vivendo, como se nunca tivesses partido, porque Deus te quer perto de nós, no nosso coração e na nossa vida. Vida! Sempre. Gratidão e Paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/28, n.º 4659, 25 de maio de 2022

Editorial Voz de Lamego: Só se vive uma vez!

Em meados dos anos 90, do século e milénio passados, um duo espanhol, Azucar Moreno, popularizou-se com este tema: Sólo se vive una vez! Deixamos o ritmo para quem o tiver, e partirmos deste desafio que perpassa na letra desta canção, cheia de vida. “Apaga o televisor… dá marcha ao coração… Se te importa o que dirão e se te querem enrolar, lembra-te bem: só se vive uma vez… Se te querem amargar com problemas… não te deixes convencer: só se vive uma vez”.

Saímos da Semana da Vida (8 a 15 de maio), num indelével convite a acolher, amar, proteger a vida, cuidar dos mais frágeis, as crianças e os idosos, os pobres e as pessoas portadoras de deficiência. Nestes dois meses de guerra, imposta pela Rússia à Ucrânia, multiplicam-se as pobrezas, gerando órfãos, pais que veem os filhos morrer, filhos que deixam os pais para trás, sem esperança de os voltarem a ver, mulheres cujos maridos, companheiros, namorados, noivos estão na linha da frente. Uma guerra gera orfandade e viuvez, gera luto e tristeza, e desolação, medo e vontade de vingança. Os estragos atuais terão reflexo nas próximas gerações. Os edifícios construir-se-ão, os corações levarão muito mais tempo e as famílias, muitas delas, ficarão destroçadas para sempre.

Neste cenário preocupante, o desafio a viver é mais premente. Se nunca sabemos a nossa hora, num contexto de guerra, que pode alargar-se a toda a Europa ou a todo o mundo, a incerteza agudiza-se. A fé, também neste caso, ajuda-nos a relativizar, sem desvalorizar o pecado da violência, da agressão gratuita, dos assassinos em massa em prol do poder, do controlo, da supremacia de uma ideologia ou de um país ou de um líder. A fé garante-nos que a vida não acaba com a morte e que também o tempo de morte e de trevas passará. A história mostra-nos longos períodos de guerra e de embotamento face à duração da mesma. Porém, para quem é agredido, violado, torturado, perseguido, expulso de sua casa, para quem é morto, ferido, ou vê os seus a serem feridos e mortos, não será o tempo a curar, a repor, a compensar, ainda que amenize a dor ou mesmo o desejo de vingança. Nas perdas humanas, só a fé garante a esperança na vida eterna, a certeza de novo reencontro, sem o qual a vida fica a meio, deficitária, por completar.

Se nós soubéssemos que amanhã já não estávamos (fisicamente) por cá, talvez acelerássemos algumas tarefas e compromissos, para deixarmos resolvido, para vivermos. Como não sabemos, também não o devemos adiar, pois o futuro só a Deus pertence. Ele dá-nos o tempo atual como presente para desfrutarmos, para vivermos, para construirmos um mundo fraterno, que seja casa de todos e para todos. Há quem não viva hoje à espera de viver o amanhã, de melhores dias e melhores circunstâncias que não chegam ou quando chegam já é demasiado tarde.

Jesus, numa página da Sua vida (histórica), tranquiliza os Seus discípulos, desafiando-os: «Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã preocupar-se-á consigo próprio. A cada dia bastam os seus males».

Mas atenção, não se trata de despreocupação ou de demissão, mas de compromisso e empenho em viver e em cuidar da vida, das pessoas, do mundo que é a nossa casa. Diz-nos Jesus, numa parábola: «A terra de um homem rico deu uma boa colheita. E discutia consigo próprio, dizendo: “Que hei de fazer, dado que não tenho onde recolher os meus frutos?”. Disse, então: “Vou fazer assim: destruirei os meus celeiros e edificarei uns maiores; lá recolherei todo o grão e os meus bens. E direi à minha alma: “Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-te!”. Mas Deus disse-lhe: “Insensato! Esta noite a tua vida ser-te-á reclamada. O que preparaste, para quem será?”. Assim acontece àquele que acumula para si e não se torna rico diante de Deus».

Se conjugarmos os dois textos, vivamos hoje, sem adiamentos, empenhados em sermos bênção e casa uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/27, n.º 4658, 18 de maio de 2022

Editorial Voz de Lamego: Rezai o terço todos os dias

Um dia Jesus disse aos Seus discípulos para rezarem sem cessar e sem desfalecer, sem desistir. «Pedi e ser-vos-á dado, procurai encontrareis, batei e abrir-se-vos-á; pois todo o que pede recebe, o que procura encontra, e ao que bate abrir-se-á» (Mt 7, 7ss). Jesus prossegue, dizendo que se os pais dão coisas boas aos filhos, muito mais o nosso Pai do Céu nos dará aquilo que Lhe pedimos.

Na passagem paralela, em São Lucas, Jesus aprofunda esta temática, contando uma parábola: «Quem de entre vós terá um amigo e irá ter com ele a meio da noite para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, visto que um amigo meu chegou de viagem e não tenho nada para lhe pôr à frente’; e ele, de dentro, respondendo, dirá: ‘Não me importunes, a porta está fechada, e os meus filhos estão na cama comigo; não posso levantar-me para tos dar’? Digo-vos: ainda que não se levante para lhos dar por ser seu amigo, levantar-se-á por causa da falta de vergonha dele e dar-lhe-á tudo quanto necessite».

Numa outra passagem, Jesus conta outra parábola, de uma viúva que insiste com um juiz iníquo, que não teme a Deus nem aos homens. Inicialmente, ele recusa-se, fica indiferente ao pedido, mas finalmente resolve-se, fazendo-o, não por convicção, mas por se sentir incomodado com a insistência. E Jesus conclui: «Ouvi o que diz o juiz injusto. E não fará Deus justiça aos seus eleitos que por Ele clamam dia e noite? Vai fazê-los esperar? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo, quando o Filho do Homem vier, encontrará porventura a fé sobre a terra?»

A parábola, diz-nos o evangelista, é acerca da necessidade de rezar sempre sem desanimar. Mas a concluir, Jesus fala de fé. Mas que tem uma coisa a ver com a outra? Sem fé, a nossa oração é vazia e inútil. Deus responde-nos sempre, mas será que O escutamos? Que confiamos na Sua bondade? Será que acreditamos que Ele quer o melhor para nós?

Nossa Senhora, em Fátima, convida a uma oração simples, acessível a todos. Tal como a mensagem que resulta das diversas aparições, também este apelo está em conformidade com o Evangelho e com o mandato de Jesus. Rezar. Sem cessar. A oração, porém, não é (apenas) a repetição de fórmulas. A oração implica sintonia, ligação, predisposição para acolher. Com efeito, Nossa Senhora pede aos pastorinhos orações pelo Santo Padre, pela paz no mundo e, reiteradamente, pela conversão dos pecadores. A conversão é ação de Deus e Deus pode agir quando e onde quer, mas podemos impedi-l’O de agir em nós, podemos fechar-nos ao Seu Espírito. A oração predispõe-nos a acolhê-l’O. A verdadeira conversão é acreditar em Jesus Cristo, pois se acreditamos n’Ele como Deus feito homem, não temos como não procurar segui-l’O, amá-l’O, imitá-l’O. Muitas vezes queremos que Ele faça a nossa vontade e esperamos que atenda as nossas preces automaticamente. É difícil a espera, é difícil colocarmos a nossa confiança, total e sem condições, em Deus, porque receamos que nos peça algo que não estamos dispostos a realizar. Por outro lado, os desígnios de Deus sempre se esbatem com a vontade humana. Ele criou-nos livres e respeita a nossa vontade. Rezamos pela paz e pedimos que Deus ilumine o coração dos agressores, dos governantes, mas não sabemos até que ponto eles pensam que estão a fazer o bem! Contudo, não deixemos de rezar, pela paz, para que o amor de Deus permite “amolecer” o coração dos homens. Este mês de maio, mês de Maria e de Fátima, rezemos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo, pelo santo Padre e que a “repetição” de “aves-marias” e de “pai-nossos” seja a nossa forma de dizermos: Maria, eu amo-te mas aumenta a minha docilidade para com os outros; Jesus, eu amo-te, mas faz com que me sinta verdadeiro filho, verdadeiramente teu irmão e irmão de todos os que colocas no meu caminho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/26, n.º 4657, 11 de maio de 2022

Editorial: Levantai-vos! Vamos! Temos muito para andar…

A nossa diocese vive o ano pastoral neste desafio de Jesus aos Seus apóstolos: Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46). No Jardim das Oliveiras, os guardas aproximam-se para O prender. Depois de intensos instantes de oração e súplica, Jesus desperta os seus amigos mais próximos, para que não se deixem abater pelo sono, pela noite, pela ansiedade ou pelo medo. As horas que estão pela frente não auguram nada de bom. À noite todos os gatos são pardos. A escuridão acentua o medo, pois o espaço é muito fechado, não se sabe quem está a rondar, se há alguém com uma emboscada preparada, ou se há animais perigosos por perto.

A noite proporciona, noutro contexto, recolhimento para a oração, para a escuta, para a introspeção. Pela noite ou de madrugada, Jesus retira-Se para orar. Foi assim também naquele dia, depois da Ceia, Jesus, levando os discípulos, dirige-se para o Jardim das Oliveiras. A oração é audível: Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice. Contudo, não Se faça como Eu quero, mas como Tu queres! Os discípulos não puderem vigiar com o Mestre nem uma hora! Adormeceram. Agora, Jesus desperta-os para se levantarem e envolve-os, e a nós também, no caminho a seguir: Vamos! Juntos. Conto convosco no Meu caminho!

O lema da diocese procurou sincronizar com o lema da Jornada Mundial da Juventude: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39). A Anunciação dá lugar, rapidamente, à Visitação. O Anjo anuncia a Maria que Ela será mãe do Filho de Deus Altíssimo. Tranquilizando-a, o Anjo informa-a que também a sua prima Isabel, de idade avançada e para lá de todas as possibilidades, está grávida, já no sexto mês. A primeira decisão de Maria é partir. Levantar-se e partir apressadamente para a montanha ao encontro de Isabel, em direção a Ain Karim, povoação nas proximidades de Jerusalém.

Também acerca de Maria podemos usar as palavras do Profeta: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz” (Is 52, 7). Nossa Senhor leva uma mensagem de paz e de alegria. A felicidade tende a partilhar-se, multiplicando-se. Maria transporta o Príncipe da Paz e comunica essa bênção a sua prima Isabel. A celeridade de Maria em partir tem esta motivação de levar a Boa Nova, indo também inteirar-se das necessidades de Santa Isabel.

Iniciámos o mês de maio, mês dedicado especialmente a Maria. Ao dedicar-se uma jornada, uma novena ou um mês a Nossa Senhora, tem, pelo menos, dois propósitos. Por um lado, honrar, agradecer, suplicar e louvar a Deus por intercessão da Virgem Mãe. Por outro lado, deixarmo-nos interpelar por Ela, pelas Suas palavras, pela Sua vida. É desafio constante: fazei o que Ele vos disser… imitando-A: Faça-se a Tua vontade!

Numa das belas páginas da Bíblia, o profeta Elias, o grande profeta de Israel, faz-nos balançar entre a fé e o cansaço, entre a determinação e a desistência. Em fuga, sob ameaça da Rainha Jezabel, Elias vagueia pelo deserto durante um dia. No final, sentou-se debaixo de um junípero e clamou: “Basta, Senhor, tirai-me a vida, porque não sou melhor que os meus pais”. Deitou-se por terra e adormeceu. O Anjo do Senhor desperta-o e diz-lhe: “Levanta-te e come”. Comeu, o pão cozido, bebeu, o copo de água e voltou a adormecer. O Anjo voltou a despertá-lo: “Levanta-te e come porque tens um longo caminho a percorrer” (1Reis 19, 1-8). Desta feita, Elias levanta-se, come e, revigorado, põe-se a caminho, andando quarenta dias e quarenta noites até à montanha do Senhor, o Horeb.

Alimentemo-nos do Senhor, da Sua palavra, do Pão da vida, para que não nos falte o ânimo no caminho e que a presença da Virgem santa Maria nos anime nos momentos dolorosos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/25, n.º 4656, 4 de maio de 2022

Editorial Voz de Lamego: Rainha da Paz, dai-nos a paz!

A paz é como um frasquinho de cheiro, frágil, preciosa e frágil. Precisa de muitos cuidados e de uma vigilância constante. Uma aragem e pode desfazer-se em instantes o que demorou anos, décadas, a construir. Desde Caim que a terra recolhe o sangue dos irmãos, são mortos pais, filhos, maridos, esposas, vizinhos, pelos mais variados motivos e sem motivos nenhum. O genocídio na Ucrânia é só mais um episódio da prepotência, dos sonhos megalómanos de um homem e/ou de uma ideologia, do egoísmo e sobranceria, prevalecendo a lei do mais forte, recorrendo à força, à violência e chantagem. Aquele adágio célebre “queres a paz prepara-te para a guerra”, infelizmente, evoca um princípio malévolo, parecendo que só estamos bem a lutar, a ver quem é o maior e assegurar-nos que na batalha seguinte sairemos vencedores. O medo e a desconfiança em relação ao outro, levam-nos a criar muros e fronteiras, a “armar-nos” para o que der e vier.

«Volta a pôr a tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam na espada pela espada perecerão» (Mt 26, 52). No Jardim das Oliveiras, como na Cruz, Jesus sabe que a violência não resolve, só gera mais violência. A agressão contra uma pessoa, não é apenas contra uma pessoa, é contra a humanidade, é contra Deus, para quem todos somos filhos, portanto irmãos. E, porque gera ódio e violência em outros membros da família e/ou da comunidade, gera o propósito de saldar “dívidas” durante décadas. A invasão russa vai abrir feridas que levarão gerações a sarar. Amordaçar, coagir, matar, ameaçar, separar famílias, destruir-lhes as habitações, os campos, obrigá-las a fugir, gerará escravos, mas nunca a paz. Dividir para governar! A paz, preciosa e frágil, está a sangrar em abundância.

Vamos iniciar o mês de maio, dedicado a Nossa Senhora, na invocação de Nossa Senhora de Fátima. Este ano, maio começa no próximo domingo, dia em que em Portugal se comemora o Dia da Mãe. Na mensagem para este dia, a Igreja em Portugal quer prestar a sua homenagem a todas as “mães coragem de todos os dias, as que nunca desistem de cuidar, proteger e ensinar a crescer saudáveis os seus filhos”, lembrando especialmente as mães ucranianas.

A nossa referência e modelo é Maria. É a Senhora da Paz, que nos dá o Príncipe da Paz. E para cuidar desta PAZ, Maria, com São José, tem de fugir para Egito, para uma terra estrangeira, como tantas mães em fuga com os seus filhos para cidades e países distantes.

O velho Simeão, inspirado pelo Espírito Santo, tinha profetizado: “Uma espada trespassará a tua alma” (Lc 2, 34-35). Príncipe da Paz, Jesus é morto como malfeitor. Maria pouco pode fazer. Aparentemente o amor saiu derrotado, só Deus nos mostrará que o amor vence. O amor é pobre e frágil, porque se predispõe a dar a vida pelo outro, ao jeito de Jesus. Mas só o amor nos salvará. Só o amor de Jesus nos salva.

Na mensagem de Fátima é recorrente o apelo à oração pela paz, desde logo nas aparições do Anjo: Não temais! Sou o Anjo da Paz. Orai comigo (primavera de 1916); «De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação… atraí, assim, sobre a vossa Pátria a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal» (verão de 1916). É também um pedido constante de Nossa Senhora, nomeadamente na primeira, na terceira, na quinta e sexta aparição. «Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra… Quero que continuem a rezar o Terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer… Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar… O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz». A construção da paz passa por todos. Por mim e por ti. Peçamo-la a Deus, para que inspire o coração de todos os homens e que Maria reze connosco a paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/24, n.º 4655, 27 de abril de 2022