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Archive for the ‘Evangelho’ Category

Editorial da Voz de Lamego: O encontro com o Senhor do Tempo

O tempo é uma espécie de espiral que se enlaça entre lutos e vidas novas, entre fins de ciclos que nos conduzem para novas situações e novos projetos. Com efeito, como seres humanos somos constituídos no tempo e inseridos no espaço, somos presente, enraizados no passado e impelidos para o futuro. As memórias solidificam o que somos e as capacidades que temos, permitem-nos caminhar entre as coisas boas que já fizemos, as menos boas que queremos e podemos evitar, para que na atualidade não sejamos fantasmas do que fomos. Por outro lado, como o amanhã pertence a Deus, olhamos para o futuro com esperança, pois Aquele que está no início também vai estar à nossa espera no final do caminho; Quem nos gerou para vida também garantirá que a nossa vida não se perde.

No final do ano litúrgico, particularmente nas parábolas de Jesus, que o Evangelho nos serve aos Domingos, somos colocados diante do Senhor do Tempo, como Juiz benevolente e Pai misericordioso.

No entretanto, sem Se ausentar, alheado e distante, Deus confia-nos o mundo, dá-nos o tempo, gratuitamente, os dons e os talentos, para que cuidemos uns dos outros e para administrarmos os bens da criação. A perspetiva não é o açambarcamento, mas a partilha que multiplica o que se dá! Como sublinha D. António Couto, o pecado dos primeiros pais não foi o comerem do fruto da árvore, mas o facto de o recolherem e o reterem só para si mesmos, sem deixar nada para outros. O que Deus dá não é para esconder, para guardar, mas para dividir. O que guardamos perde-se, o que damos multiplica-se.

No final da caminhada, Ele estará, como sempre, à nossa espera. Ajustamos contas, não com um estranho, mas com Alguém que nos conhece e que conhecemos. Precede-nos na vida e espera por nós para nos acolher na Sua habitação eterna.

O Reino de Deus é comparável a 10 virgens que esperam para receber e acompanhar o noivo ao banquete nupcial. Esperamos, não de braços cruzados, mas ativamente, vigilantes. Quem vai para mar prepara-se em terra. Parte do grupo prepara-se e leva azeite nas candeias e de reserva nas almotolias. As outras apostam na sorte: ou que o noivo venha cedo ou alguém possa ajudá-las caso fiquem sem azeite. Na verdade, somos responsáveis uns pelos outros. Mas há a responsabilidade pessoal, os outros não nos substituem, não vivem por nós. Deus não vive na nossa vez.

O reino de Deus é comparável àquele homem que partiu de viagem e confiou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro. Os primeiros duplicaram o valor. O último, com medo, escondeu o talento, não produzindo. Não arriscou nada. O cristão é alguém que tem que arriscar. [Cf. Homilia do Papa Francisco no Dia Mundial dos Pobres, na página sete desta edição] O que nos é dado não é para devolver a Deus como Ele no-lo confiou, mas para o multiplicarmos, no cuidado por toda a criação, especialmente pela humanidade, e sobretudo na atenção privilegiada aos mais pobres, ao jeito de Jesus, traduzível na práticas das obras de misericórdia. No final seremos julgados pelo que fizemos aos mais pobres. É Jesus quem no-lo diz: o que fizeste aos mais pequeninos foi a Mim que o fizeste. A vida eterna começa em terra. O amanhã decide-se hoje, o final inicia-se na história e no tempo para que diante do Senhor do Tempo a nossa vida lhe seja entregue preenchida de amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/02, n.º 4584, 17 de novembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: sulcos de esperança

Para semear ou plantar alguma coisa é necessário criar sulcos, regos, rasgos na terra. Temos vindo a escutar, no Evangelho de domingo, parábolas que falam da semente lançada à terra e que encontra solos diversos, ou semente boa que resiste apesar do joio, ou o grão de mostarda, pequena semente que virá a tornar-se uma árvore grandiosa. Em todas as circunstâncias, Deus age, espera, usa de benevolência e de paciência.

O nosso Bispo, D. António Couto, em reunião promovida pela coordenação pastoral da Diocese, de que damos notícia nesta edição do jornal, ao tomar a palavra, referiu-se aos sulcos de esperança, lembrando que as sementes precisam desses sulcos para germinarem, crescerem e darem fruto. Estes tempos de pandemia são também tempos dos sulcos da esperança. Tempos marcados pela adversidade, mas nem por isso deixam de ser tempos de esperança. Teremos que, no meio da desgraça, encontrar a graça e a presença de Deus. Deus não está ausente. Haverá lugar ao esforço, sacrifício e até lágrimas, mas, simultaneamente, não deixemos de preencher os sulcos de esperança e de alegria.

No lema episcopal do nosso Bispo – Vejo um ramo de amendoeira – baseado numa passagem de Jeremias (1, 11-12), em que ele é interpelado por Deus a ver para lá do inverno, para lá dos tempos de agrura e de dificuldade, surge de algum modo a mesma perspetiva. Em pleno inverno, a amendoeira flori, resplandecente, apesar do frio, do tempo adverso para flores e frutos. Refere D. António: “A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Ao responder [ao Senhor]: «Vejo um ramo de amendoeira», Jeremias já ergueu os olhos da invernia e da tempestade e do lodo e da lama e da catástrofe e da morte que tinha pela frente, e já os fixou lá longe, ou aqui tão perto, na frágil-forte-vigilante flor da esperança que a amendoeira representa”.

Esta é a missão da Igreja, Bispo, padres e leigos, mostrar que os sulcos cavados na terra têm neles a semente da esperança, da alegria e da festa. Daí também, nesse contexto, a necessidade de não ficarmos à espera que passe a pandemia. Urge transparecer a esperança e a alegria e a certeza de que este também é tempo de Deus. A palavra de Deus é um oxímoro, um contraponto à realidade atual, um desafio, uma provocação. O tempo é diferente, novo, mas ainda assim desafiante, comprometendo-nos como “agentes” da pastoral da graça e da esperança. Temos que responder perante as comunidades, perante as pessoas que Deus coloca nas nossas vidas e que formam as nossas paróquias. A Diocese viveu e viverá em caminho e em comunhão, mas dará passos novos, com uma mensagem de esperança, de graça e de beleza, avançando! O surto pandémico é um sulco que envolve sofrimento e lágrimas, mas é também um sulco grávido da presença e do amor de Deus.

Os responsáveis nacionais da catequese já apresentaram Orientações para a catequese da infância e da adolescência (acessíveis na página da Diocese: www. diocese-lamego.pt) para o novo ano pastoral, com o envolvimento de todos, pais, crianças, catequistas, párocos, comunidade, prevendo a catequese presencial e digital, apelando também a que novos elementos se comprometam como catequistas. A diocese de Lamego, departamentos e paróquias, está também a tratar disso… para que o caminho e a comunhão nos façam descobrir o rosto e a identidade da Igreja.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/34, n.º 4569, 21 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O Evangelho de Nazaré e de Lampedusa

Papa Francisco, presidiu à celebração da Santa Missa, em Lampedusa, a 8 de julho de 2013

Completaram-se sete anos desde que o Papa Francisco se deslocou a uma das periferias da Europa, à Ilha de Lampedusa, lugar de refúgio de milhares de pessoas que abandonaram a sua terra em busca de uma vida melhor, a fugir da guerra, da pobreza, da perseguição. A Ilha italiana é um dos pontos de entrada para a Europa; e um lugar para manter “isolados” do mundo os que se atrevem a embarcar para um futuro incerto.

A eleição do Papa Francisco, oriundo da Argentina, define por si só, uma periferia que é colocada no centro da Europa, no centro do mundo, da sociedade e da Igreja. O então Cardeal Jorge Mario Bergoglio agita as águas na intervenção que faz no conclave que viria a elegê-lo, mostrando que a Igreja, para ser fiel a Jesus Cristo, tem de se descentrar e ser Igreja em saída, indo às periferias, não apenas geográficas, mas sobretudo existenciais. Uma Igreja autorreferencial tende a adoecer, tornando-se inútil, anquilosada, desnecessária. A Igreja está para Cristo como a Lua para o Sol. A lua não tem luz própria, mas é um astro luminoso porque espelha e projeta a luz do Sol. Assim a Igreja, não se anuncia a si mesma, mas a Cristo e ao Seu Evangelho de amor. Cabe-lhe viver, seguir e testemunhar Jesus, tornando-O acessível a todos.

Após a eleição, Bergoglio escolheu, como patrono e referência, São Francisco de Assis. Os pobres, a identificação a Cristo pela pobreza e pelo despojamento, e as questões ambientais… programa do Papa Francisco, com o seu dinamismo latino, e, obviamente, a identidade da Igreja que quer estar onde Cristo deve estar, junto dos mais pobres.

Escolheu para primeira viagem apostólica, a 8 de julho de 2013, a Ilha de Lampedusa para se encontrar com os mais pobres dos pobres, pessoas sem teto, sem pátria, sem um futuro definido e, ao mesmo tempo, para rezar por todos quantos morreram a tentar passar o mar atlântico.

Palavras incisivas do Papa: “neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença… acostumamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é assunto nosso!  Foi-nos tirada a capacidade de chorar”. Pediu “perdão pela indiferença para com tantos irmãos e irmãs, perdão para aqueles que se acomodaram e se fecharam no seu próprio bem-estar, o que leva à anestesia do coração, perdão para aqueles que com suas decisões globais, criaram situações que levam a esses dramas”, para que o mundo tenha “a coragem de acolher aqueles que buscam uma vida melhor”.

Passaram sete anos. O Santo Padre assinalou o aniversário na passada quarta-feira, 8 de julho, na Eucaristia celebrada na Capela de Santa Marta, recordando a viagem como um desafio permanente contra a globalização da indiferença. Esta pandemia acentuou ainda mais as periferias, a pobreza, as desigualdades sociais, o isolamento dos mais vulneráveis… Em Nazaré, um carpinteiro, vive de forma simples, discreta e humilde, em família e em comunidade, até ao dia em que Se faz batizar, deixando-Se impelir pelo Espírito Santo, indo de terra em terra a anunciar a Boa Notícia da Salvação. Ninguém dava nada por Nazaré, mas é a partir daí que é lançada a semente do Reino de Deus. Será também da Galileia… que os apóstolos partem para outros mundos… De Lampedusa, mais uma etapa na revolução dos corações que se iniciou com Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

Celebração da Paixão do Senhor – Sé de Lamego – 10 de abril de 2020

Na sexta-feira santa, teve lugar, na Sé de Lamego, a celebração da Paixão do Senhor, presidida pelo nosso Bispo, D. António, e transmitida pela rádio e via Facebook, pelas páginas da Diocese de Lamego e da Paróquia da Sé, seguindo a emissão da Rádio Clube de Lamego.

Ceia do Senhor – Sé de Lamego – 9 de abril de 2020

Como expectável, a celebração do Tríduo Pascal foi muito diferente de anos anteriores, com igrejas praticamente vazias. Daí também a aposta na transmissão das celebrações para que mais pessoas pudessem sintonizar-se com os mistérios celebrados, ainda que afastados pelas circunstâncias do tempo presente.

Na quinta-feira santa, 9 de abril, a celebração da Ceia Pascal, presidida pelo nosso Bispo, D. António Couto, na Sé de Lamego, com transmissão nas páginas da Diocese e da Paróquia da Sé, em colaboração com a Rádio Clube de Lamego, que transmitiu via rádio e também em vídeo direto pela respetiva página no Facebook.

Editorial da Voz de Lamego: Uma Igreja em cada casa

Entrámos na Semana Maior da nossa fé. Estes eram dias de movimento, tempos de oração, de procissões, de encontro e de alegria interior. As igrejas compunham-se de gente devota. Mais ou menos expressivas, as celebrações apelavam e apelam ao recolhimento espiritual, à contemplação das últimas horas de Jesus, para culminar na Páscoa, com a Visita Pascal, anunciando a ressurreição de Cristo, de casa em casa, em todas as casas.

Como pároco, já ouvi, em forma de pergunta ou de lamentação: este ano não há Páscoa?! Sim, há Páscoa, pois não se deixa de celebrar a ressurreição de Jesus. Mas de um jeito muito diferente do habitual. Antes lamentávamos as igrejas vazias, mesmo quando tinham pessoas, agora efetivamente estão vazias. Todavia, também a Igreja procurou adaptar-se a estes tempos de confinamento caseiro, procurando que não se perca a ligação, a comunhão à comunidade, contando com a criatividade de muitos. Se antes, cada casa era chamada a ser Igreja doméstica, hoje, por maioria de razão, a Igreja é em cada casa, em cada família, pois é em cada casa que se reúne a família para rezar e aprofundar a fé e a esperança, vivendo a caridade.

Antes de chegarmos à Páscoa, à alegria da Ressurreição, há caminho a percorrer, há uma cruz a transportar, há um calvário a acolher, e tantas contrariedades a experimentar, especialmente neste tempo. A realidade pandémica do coronavírus paira como ameaça sobre todos, desafiando-nos, sempre, mas agora mais ainda, a cuidar uns dos outros, atendendo sobretudo às pessoas e famílias mais vulneráveis.

Vai ficar tudo bem!

A vida é um dom e uma bênção. Sempre! Mas, porque somos limitados e finitos, a vida pode complicar-se!

Vai ficar tudo bem!

O Filho do Homem vai ser entregue às autoridades dos judeus… vai ser morto… VAI FICAR TUDO BEM… três dias depois ressuscitará. A última palavra será da vida, do amor, da ressurreição, a última palavra será de Deus. Mas, porquanto, vivemos na penúltima palavra, estando sujeitos às coordenadas espácio-temporais e a lidar com as fragilidades, limitações e egoísmos uns dos outros.

Ao longo da Sua vida, Jesus não Se desvia do amor do Pai, traduzido em proximidade, cuidado e serviço a todos, preferencialmente aos últimos da sociedade. Instala-se uma revolução “silenciosa” de delicadeza, de ternura e de compaixão, de amor e perdão, de serviço e bondade. A luz, que é Jesus, ilumina e ofusca, desafia e provoca, clarifica o caminho e põe a descoberto a soberba, o egoísmo e a indiferença, expõe a maldade, as trevas e as maquinações. Se uns se sentem desafiados e envolvidos, outros sentem-se acossados e expostos! Olhamos para Jesus e olhamos para autoridades judaicas e não precisamos que nos deem explicações, são percetíveis as opções e a coerência de vida. E tal coerência gera irritação, ódio, e a necessidade urgente de apagar a chama que incendeia corações e vidas!

Vou partir… a vossa tristeza é inconsolável… mas vai ficar tudo bem… Eu voltarei e, então, a vossa alegria será completa!

Vai ficar tudo bem! É a certeza da Páscoa e de todas as páscoas que vamos experimentando, ainda que falte fazer caminho!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/19, n.º 4554, 7 de abril de 2020

Editorial Voz de Lamego: Cruz, uma âncora, um leme, uma esperança

A última sexta-feira de março, dia 27, ficará, por certo, na nossa memória por muito tempo. Acompanhamos, à distância, o momento extraordinário de oração promovido pelo Papa Francisco. O céu uniu-se à iniciativa papal, sério, sublime e cinzento, nuvens densas e chuva copiosa, quais lágrimas em sintonia com tantas vítimas do coronavírus, mas também por aqueles que, esgotados, continuam a oferecer o seu trabalho e as suas vidas para salvar outras vidas.

Colados ao ecrã da televisão, do computador ou do telemóvel, pudemos subir, com o Papa Francisco, a colunata de São Pedro, inspirados pela sua fé, firme e confiante, em passos lentos e dolentes, com um semblante compenetrado, comovente e interpelante.

Uma praça vazia, onde todos os dias circulavam, até há pouco tempo, centenas de pessoas, transformando-se em milhares nas audiências gerais e nas celebrações públicas. O homem vestido de branco – como não lembrar aqui o segredo de Fátima – caminhava entre os escombros, os sofrimentos, as mortes, os desamparados, os desistentes; carregou-nos consigo, ao jeito de Jesus, o Bom Pastor, e aos nossos anseios e receios, incertezas e inseguranças.

Ao entardecer… (Mc 4, 35)! Assim começava o Evangelho e assim iniciava o Papa a sua meditação sobre a hora que passa. “Desde há semanas que parece entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderam-se das nossas vidas… revemo-nos temerosos e perdidos”, tal como os apóstolos, em alto mar, em meio de uma tempestade que ameaça destruí-los e, agora a nós, assolados por esta pandemia, qual tempestade, que pesa sobre a humanidade inteira! Jesus vai na popa, onde o barco afunda primeiro, a dormir, confiando no Pai. Procuremos, incentiva o Papa, compreender a pergunta dos discípulos: “Mestre, não Te importas que pereçamos?” (3, 38). Como se Jesus não se importasse com a sorte dos discípulos! Como se Deus estivesse alheado das tormentas dos homens, Ele que em Cristo Se faz peregrino connosco.

No meio da praça, deserta… lá ao fundo, somente os agentes de segurança pública… soa a interpelação inelutável do Papa: “Ninguém se salva sozinho… Sozinhos afundamos”. E prossegue: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar a estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos”.

Com efeito, “o Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e a ativar a solidariedade e a esperança… É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida”. Temos um leme, uma âncora, uma esperança, a Cruz que nos salva. E da Sua Cruz, “o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3) e deixemos que reacenda a esperança”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/18, n.º 4553, 31 de março de 2020

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos!

No ano 2022, Portugal vai receber as Jornadas Mundiais da Juventude. O tema geral está escolhido para que possam ser elaboradas também as catequeses de preparação. No dia 11 de fevereiro, foi assinada a Mensagem do Papa para a Jornada Mundial da Juventude deste ano. “O tema da JMJ de Lisboa será: «Maria levantou-Se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39). Nos dois anos que precedem o Encontro, pensei em refletir juntamente convosco sobre outros dois textos bíblicos: «Jovem, Eu te digo, levanta-te! (cf. Lc 7, 14)», em 2020, e «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste! (cf. At 26, 16)», em 2021. Como podeis ver, o verbo comum aos três temas é levantar-se”.

“Igreja em saída” é uma expressão muito utilizada pelo atual Papa Francisco, sensibilidade já manifestada enquanto Cardeal em Buenos Aires: “É fundamental que os católicos – tanto os clérigos como os leigos – saiamos ao encontro das pessoas. Uma vez dizia-me um sacerdote muito sábio que estamos diante de uma situação totalmente oposta à da parábola do pastor, que tinha noventa e nove ovelhas no curral e foi procurar a ovelha perdida; nós temos uma no curral e noventa e nove que não vamos buscar”. Eleito a 13 de março de 2013, há 7 anos, o Santo Padre não cessa de desafiar-nos a sair, a tomar a iniciativa de ir ao encontro do outro. A Igreja tem de deixar de ser autorreferencial para levar Jesus às periferias existenciais. «Prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, caída num acidente, que uma Igreja doente por fechamento! Ide para fora, saí!». 

Em diversos momentos, o Papa tem convidado os jovens, a menos jovens, a levantar-se do sofá, a usar com equilíbrio as novas tecnologias, para que estas não sejam empecilho para o encontro pessoal com outros jovens e com pessoas mais velhas, e deixem espaço com o convívio, para o envolvimento em causas como a luta pela paz e pela justiça ou a proteção do meio ambiente.

No Evangelho, melhor, durante a sua vida pública, Jesus coloca-Se e coloca-nos em dinâmica de movimento. Com efeito, Jesus avança entre povoações, por aldeias e cidades, ficando o tempo necessário para se encontrar com as pessoas da localidade, curando os enfermos, expulsando os espíritos impuros, falando na sinagoga, em dia de sábado… Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, encontra-nos no caminho, junto ao poço de Jacob, na outra margem, ou a caminho de Emaús, e faz-nos avançar. “Vamos a outra parte, às povoações vizinhas, a fim de proclamar aí também, pois foi para isso que Eu saí”. (Mc 1, 38). Jesus vive em saída, de junto do Pai para junto de nós, e “saindo” do mundo, levar-nos-á ao Pai. Sigamo-l’O!

No monte da transfiguração, Jesus diz a Pedro, Tiago e João, a mim e a ti: Levantai-vos, não temais. No horto das Oliveiras, quando se aproximam as últimas horas, Jesus volta a despertar-nos da letargia: Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46). Faça-se a Tua vontade! Não fujamos da Cruz, expressão de amor sem medida e de entrega, e logo chegaremos à Páscoa!

Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/15, n.º 4550, 10 de março de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Eutanásia, suicídio ou homicídio?

A 20 de fevereiro celebra-se a memória litúrgica de duas crianças que fazem parte do imaginário, da vida, da história e da identidade do país, Jacinta e Francisco. No mesmo dia, os nossos representantes eleitos vão pronunciar-se contra um dos valores da sociedade, da civilização e dos direitos humanos fundamentais: em que condições se pode facilitar a morte?

Sem vida não há direitos, não há civilização, não haverá sociedade.

Deixaremos de poder confiar nos profissionais de saúde, pois podem decidir matar-nos quando acharem que já não temos autonomia suficiente ou se o prejuízo para as finanças públicas estiver a ultrapassar as expectativas. Talvez também não possamos confiar nos nossos familiares que, por cansaço ou para receberem alguns proventos mais cedo, podem decidir que a nossa vida já não tem valor. Num momento podemos ser nós a pedir que nos matem, e a seguir podem matar-nos sem nos pedir a opinião, como vai sendo na Bélgica e na Holanda.

A questão do aborto permite que os pais (e a sociedade) relativizem o direito à vida. A criança será um estorvo, as condições socioeconómicas são desfavoráveis, não é o momento certo ou porque pode colocar em causa a progressão na carreira! Já há defensores do infanticídio: a criança quando nasce tem a mesma consciência do que o feto, logo se não agradar aos pais, estes podem decidir matá-la, e tudo dentro da lei.

Não se combatem as condições socioeconómicas, combate-se a vida. Sem menosprezar situações de aflição, de desespero e dúvida, de sofrimento… teremos que apostar mais na prevenção, na educação, na proteção e ajuda às pessoas e às famílias. Numa sociedade que definha e envelhece, as políticas de natalidade talvez mereçam muito mais que reflexão… A acérrima defesa dos animais contrasta, muito, com a defesa e promoção da vida humana.

O Papa Francisco tem reiteradamente falado numa cultura de descarte. Dispensamos todos os que nos incomodam, afastamo-los da nossa vista, os pobres, os doentes, os idosos, as pessoas portadoras de deficiência; passeamos os cães, mas não temos tempo para os pais ou para os filhos. A democracia dá lugar à egolatria. Todos somos livres e iguais… desde que os meus interesses sejam caucionados. Veja-se a liberdade de expressão nos livres! À primeira dificuldade, não fazemos caminho, desistimos das pessoas e descartámo-las.

Eu decido! Eu mando! Conta o que me beneficiar! Mais liberdade, mais autonomia! Independência total face aos outros e ao mundo. No dizer de D. António Couto, um “eu” sem pai nem mãe, sem irmãos e sem filhos, sem Deus, sem raízes e sem chão, sem céu nem Providência, sem vínculos nem pertenças. Vazio total. O Iluminismo, em nome da razão, dispensou tudo o que poderia ser limitação à minha liberdade, ao meu pensamento, à minha ação. Eu sou a medida de todas as coisas!

Os pobres serão os primeiros a ser legalmente eutanasiados. Em Auschwitz foram os judeus, os velhos, os aleijados, os que não podiam trabalhar… agora serão novamente os “velhos”, os aleijados e os que não têm acesso (tão fácil) aos cuidados de saúde, e que não podem escolher os médicos ou as instituições de saúde que desejam. Na Holanda daqui a nada estarão disponíveis comprimidos para morrer para as pessoas a partir dos 70 anos, basta que estejam cansados de viver! Nem precisam de “responder”, de refletir, de solicitar alguma opinião.

“A pessoa tem o direito de acabar com a sua vida, chama-se suicídio, não tem o direito de me convocar para esse suicídio, porque aí passa a ser homicídio” (Henrique Raposo, RR).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Inúteis servos, fizemos o que devíamos

Na apresentação do seu novo livro, o nosso Bispo, D. António Couto, expôs um contraponto do “outro” que sou interpelado a acolher, a reconhecer, a servir, pois no rosto do outro irrompe o Outro. Alguém com uma arma que suscita medo e me obriga a servi-lo não é um senhor, um “outro”, é um tirano. Um pobre que me estende a mão, obriga-me a debruçar-me sobre ele, mas esse é o verdadeiro “senhor” a quem sirvo, de quem sinto compaixão, que irrompe na minha vida e suscita o meu olhar e me liberta do meu egoísmo.

A postura de Jesus encaminha-nos para o pobre. Jesus faz-Se caminho para nós e nesse caminho aponta as prioridades e as opções. Há oito dias, víamos, seguindo as reflexões do Pe. Luigi Epicoco, que Deus pede-nos que ocupemos o último lugar porque somos filhos, não se pediria isso a um hóspede. Tratamos o hóspede o melhor possível, como filhos do dono da casa, como donos na casa, podemos abdicar do que nos pertence precisamente porque podemos e queremos fazê-lo.

Voltamos a inspirar-nos no texto de Epicoco que nos desafia a descentrar-nos de nós, para cuidarmos, para amarmos e servirmos o outro. Quem está demasiado preocupado consigo não tem tempo, nem disposição, nem disponibilidade para o outro. “Quem é inseguro (em sentido patológico) não se entrega, porque está demasiado ocupado a tratar de si próprio, a tratar de sobreviver a todo o custo. Este não é o cuidado de quem ama, são os cuidados de quem, apenas, sobrevive, de quem não consegue viver as relações com os outros senão na medida em que lhe interessam”.

Uma das figuras que melhor exemplifica este descentramento é São José. Vale a pena deixar-nos guiar pelas palavras de Epicoco: “Hoje em dia faltam pessoas que saibam viver como São José, pessoas capazes de cuidar do mundo, de o guardar e de o amar, como um pai ama o filho, tornando-o livre e não dependente. Se tivéssemos de arranjar uma referência sã para sermos cristãos, ela seria José de Nazaré, um homem silencioso e criativo. É um homem concreto que encontra soluções… e depois afastou-se, após cumprir o seu dever… agir e desaparecer. Não o desaparecer de quem, depois, se entristece por ninguém ter reconhecido o seu trabalho, mas de quem não precisa de nada e, por isso, se vê como inútil, isto é, não precisa de lucro, não procura o lucro. Não deveríamos procurar a gratidão dos outros, deveríamos experimentar uma profunda alegria em nos afastarmos, em nos sentirmos verdadeiramente inúteis. «Inúteis», no Evangelho, significa sentirmo-nos tão amados e valiosos ao ponto de não termos de procurar outro ganho. Neste sentido, dizemos «inútil»: não no sentido de não valermos nada, mas que valemos tanto e nos sentimos tão cheios deste valor que não precisamos de procurar mais nada para nos satisfazer ou que nos digam que temos valor. Este motivo pelo qual nos podemos permitir ser inúteis”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020