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Archive for the ‘Evangelho’ Category

Editorial VL: O grito dos pobres e o barulho dos ricos

No penúltimo Domingo do Tempo Comum, desde o ano passado, comemora-se o Dia Mundial do Pobre. Algumas comunidades têm intentado iniciativas e dinâmicas para responder aos desafios do Papa.

Alguns interrogaram-se sobre a expressão, como se um Dia Mundial dos Pobres pudesse sancionar a condição de pobreza. No encontro com os meios de Comunicação Social, após ser eleito Papa, Francisco deixou claro que queria uma Igreja pobre, dos pobres e para os pobres. Mas também ficou claro que a sua voz seria firme contra todos aqueles que potenciam a pobreza de muitos, cristalizando situações de carência, de miséria e de dependência. Era a mesma voz que na Argentina se levantava contra o descarte humano, contra o trabalho e a exploração infantil. É uma das razões porque o Papa não distribui a comunhão. Em Buenos Aires havia empresários que apareciam nas fotos a comungar da mão do então Cardeal, e depois eram promotores do trabalho infantil, do trabalho escravo… As intervenções do Papa têm sido uma constante, sobre a economia que mata, a corrupção e a ganância de uns poucos que controlam e subjugam muitos e a crescente indiferença para situações de pobreza. A erradicação da pobreza, já o sublinhou algumas vezes, é falta de coragem e de vontade. Não faltam recursos, falta uma justa redistribuição.

Na segunda edição do Dia Mundial dos Pobres, o Papa colocou, novamente, os pobres no centro. Depois de chuveiros para os sem-abrigos, refeitórios, sanitários… durante uma semana, postos móveis de saúde, gratuitos para os mais desfavorecidos, e novamente o almoço com algumas centenas de pobres… Pode não resolver, mas trá-los para a luz… estão à vista, já não podemos dizer que não sabíamos!

Na celebração da Santa Missa, o Papa foi clarividente sobre o grito dos pobres: “é o grito estrangulado de bebés que não podem vir à luz, de crianças que padecem a fome, de adolescentes habituados ao fragor das bombas… É o grito de idosos descartados e deixados sozinhos. É o grito de quem se encontra a enfrentar as tempestades da vida sem uma presença amiga. É o grito daqueles que têm de fugir, deixando a casa e a terra sem a certeza dum refúgio. É o grito de populações inteiras, privadas inclusive dos enormes recursos naturais de que dispõem. É o grito dos inúmeros Lázaros que choram, enquanto poucos epulões se banqueteiam com aquilo que, por justiça, é para todos. A injustiça é a raiz perversa da pobreza. O grito dos pobres torna-se mais forte de dia para dia, mas de dia para dia é menos ouvido, porque abafado pelo barulho de poucos ricos, que são sempre menos e sempre mais ricos”.

Pe. Manuel Gonçalves

in Voz de Lamego, ano 88/49, n.º 4486, 20 de novembro de 2018

Editorial Voz de Lamego – Novidade do Evangelho e da evangelização

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O tom está dado. Viveremos um ano missionário extraordinário. O Papa definiu outubro de 2019 como mês missionário extraordinário. Os bispos portugueses, não querendo ficar atrás, propõem-nos um ano inteiro, de outubro a outubro.

Quanto tempo é necessário para tomarmos consciência da missão evangelizadora que a todos diz respeito enquanto batizados? A resposta seria: a vida toda! Na sua Carta Pastoral para este ano, o nosso Bispo dá o mote: “Anunciar o Evangelho é a vocação própria da Igreja”. Não há outro jeito, anunciar o Evangelho é uma “obrigação” de todo o cristão. Não há cristão que não esteja comprometido com a missão, isto é, com o anúncio do Evangelho. Somos discípulos missionários.

Em vésperas do Dia Mundial das Missões, a Diocese de Lamego, através da CEFÉCULT (Centro de Estudos Fé e Cultura), organiza uma conferência com D. António Couto, para esta sexta-feira, subordinada ao tema “Todo o cristão tem uma missão, todo o cristão é uma missão”.

No último ano pastoral, a acentuação foi colocada na caridade, como rosto indelével da Igreja. É uma acentuação inclusiva. A caridade leva-nos a anunciar Jesus e a libertação que Ele nos traz. E vice-versa, o anúncio do Evangelho agrafa a caridade, o serviço ao outro.

Queremos uma Igreja em saída, dessedentada, em busca das ovelhas dispersas e perdidas, uma Igreja que segue o Seu Senhor, que veio precisamente para aquelas multidões que eram como ovelhas sem pastor, para as reunir e congregar. É o mandato de Jesus: Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura.

Voltando-se mais para a Igreja, em três anos sucessivos, a Diocese não deixará de ser anunciada e rezada em prisma missionário, pois é a única forma de ser Igreja. É chamada e enviada em missão, aos de dentro, mobilizando-os e convertendo-os, e aos de fora, testemunhando a alegria do encontro com Jesus. Não em lógica prosélita, mas em dinâmica de desafio, interpelação, por atração! A todos, em todo o tempo, em toda a parte, a todas as pessoas.

Então é sempre a mesma coisa? Claro que não. É sempre a novidade de Jesus, do Seu Evangelho, da Sua vida como dom, vida oferecida e partilhada, e elevada. Quando os e-namorados repetem milhentas vezes “eu amo-te”, nunca é repetição, é sempre novo, é sempre música para os ouvidos e para o coração da pessoa amada. Preciso de ti! Vai correr tudo bem! Acredita em ti. Porquê dizer a mesma coisa, porquê a necessidade de ouvir o mesmo todos os dias ou várias vezes ao dia? Não bastava uma vez para sempre! E a Mãe ao dizer ao filho, a toda a hora, o quanto gosta dele, será uma repetição enfadonha?! Claro que não, a Mãe sente-o e precisa de o exprimir e o filho pode até achar de mais, mas ganha confiança, autoestima, sabe que pode sempre regressar aos braços e ao colo da mãe.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 88/43, n.º 4481, 16 de outubro de 2018

CONVITE À SANTIDADE | Editorial Voz de Lamego | 17 de abril de 2018

CONVITE À SANTIDADE

Numa época marcada pelo provisório, pela perda de sentido e pelo narcisismo, o Papa Francisco convida a humanidade em geral e os cristãos em particular a estarem disponíveis para responder ao chamamento à santidade.

A proposta agora apresentada na Exortação Apostólica “Alegrai-vos e Exultai” não é nova e insere-se na missão eclesial de “promover o desejo da santidade” (177). Um apelo oportuno para responder aos riscos e desafios actuais, nomeadamente “a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece; o negativismo e a tristeza; a acédia cómoda, consumista e egoísta; o individualismo e tantas formas de falsas espiritualidades sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso” (111).

Nos caminhos da vida, com ritmos e contextos diferentes, cada um poderá exercitar a vontade de agradar a Deus, deixando-se guiar pelas bem-aventuranças e praticando a caridade. Um percurso que aproxima do Criador e dos outros e não dispensa dos compromissos com a criação.

O itinerário não está isento de dificuldades e insucessos, mas a abertura à transcendência, o assumir humilde dos limites e a determinação perseverante permitirão avançar e crescer. Porque se é verdade que não estamos sós nem desamparados, temos consciência de que “a graça não nos faz improvisadamente super-homens” (50), sendo indispensável o esforço individual. “Aquele que te criou sem ti não te pode salvar sem ti” (St. Agostinho). A santidade dá trabalho!

Como sempre, o Papa escreve de maneira simples (diferente de simplista) um texto pouco extenso, atento ao mundo actual e preocupado com o essencial. Não diz tudo, mas convida todos.

Apesar dos comentários ou resumos que sempre aparecem, importante seria fazer uma leitura integral do texto, deixando-se interpelar pela totalidade e não ficando limitado ao que outros julgaram ser oportuno sublinhar. A comunhão com o Papa também passa pela leitura dos seus textos!

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/20, n.º 4457, 17 de abril de 2018

Modelo cristão de felicidade como alternativa: Alegrai-vos e exultai

Exortação apostólica Gaudete et Exsultate

O Papa Francisco publicou ontem a sua nova exortação apostólica (documento pontifício de índole catequética), dedicada à santidade, na qual propõe um modelo cristão de felicidade como alternativa ao consumismo, à pressa e à indiferença face ao outro. “Se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabamos por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar”.

A exortação apresenta-se como um “apelo” renovado à santidade como proposta radical de vida. “O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”.

A terceira exortação apostólica do pontificado defende a necessidade de travar a “corrida febril” da sociedade contemporânea para recuperar espaço para Deus e tempo para os outros. “Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive”, adverte o pontífice, que fala na tentação de “absolutizar o tempo livre”.

Francisco diz que, nesta sociedade, “volta a ressoar o Evangelho” para oferecer “uma vida diferente, mais saudável e mais feliz”, a santidade. Esta, explica, não está reservada apenas a algumas pessoas, mas encontra-se “por toda a parte”, nas famílias, no trabalho, naquilo a que o Papa chama como “classe média da santidade”, inclusive “fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes”.

O Papa elogia os “estilos femininos de santidade” que se manifestaram, ao longo da história, em “tantas mulheres desconhecidas ou esquecidas que sustentaram e transformaram, cada uma a seu modo, famílias e comunidades com a força do seu testemunho”

A ‘Gaudete et Exsultate’ recomenda a santidade dos “pequenos gestos”, que impede de falar mal dos outros, olha para o pobre e reserva tempo para a oração. O texto elogia a “ousadia” nas comunidades católicas e diz que a santificação é um caminho comunitário, “contra a tendência para o individualismo consumista que acaba por isolar, na busca do bem-estar à margem dos outros”.

O Papa elenca “grandes manifestações do amor a Deus e ao próximo” que devem contrariar uma cultura marcada pela “ansiedade nervosa e violenta”, “o negativismo e a tristeza” ou o individualismo, rejeitando “tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso atual”.

in Voz de Lamego, ano 88/19, n.º 4456, 10 de abril de 2018

Almacave Jovem – retiro 2018

Foi no fim de semana de 6 a 8 de abril que o grupo Almacave Jovem se reuniu no Seminário Menor de Resende, juntamente com os jovens que se preparam para receber o Sacramento do Crisma, para o retiro anual.

Fruto de alguma “crise” de fé a que todo o cristão está sujeito, esta atividade a que o nosso grupo de jovens se tem habituado a realizar desde a sua própria criação, foi o momento pelo qual todos esperávamos há um ano. O retiro realizado com os crismandos da paróquia é um momento de introspeção e intimidade com Alguém que nos esquecemos muito facilmente no meio de tantos problemas da nossa vida atual: Deus.

Ainda antes de iniciarmos a viagem com destino a Resende, fomos perguntando aos jovens crismandos quais eram as suas espectativas acerca das temáticas/ objetivos deste encontro e como já é hábito, as respostas foram sendo dadas com alguma reticência. No entanto, com o desenrolar de toda atividade, de todos os momentos de reflexão, descontração, dinâmicas de grupo, cânticos, jogos, risadas e até algumas lágrimas, o que era um aglomerado de pessoas estranhas e sozinhas, num sítio desconhecido e longe das nossas casas, tornou-se uma família, com Ele.

Todos juntos descobrimos que temos um talento! Aprendemos que essa maravilhosa benção que Deus nos deu está dentro de nós, bem escondida e que apenas temos de a descobrir, e usá-la ao serviço de quem nos rodeia. Aquilo que é fácil para nós pode ser de extrema dificuldade para o próximo. Se somos felizes, vamos contagiar com a nossa energia quem está mais em baixo. Se temos a nossa fé fortalecida vamos ao encontro de quem duvida d’Ele, sendo samaritanos na nossa família, escola, trabalho, grupo de amigos, etc. Pouco a pouco fomos percebendo melhor a temática de todo o retiro: a caridade, o viver para servir o outro, à imagem de Jesus.

No Domingo à tarde, já com os nossos familiares presentes, despedimo-nos do Seminário de Resende por mais um ano, prometendo praticar tudo o que aprendemos neste fim de semana, comprometendo-nos em “ser” caridade, agora fortalecidos com a esperança de vermos os crismandos integrados no nosso grupo de jovens.

Bryan Fonseca, Almacave Jovem, in Voz de Lamego, ano 88/19, n.º 4456, 10 de abril de 2018

FIDELIDADE E TESTEMUNHO | Editorial Voz de Lamego | 27.03.2018

FIDELIDADE E TESTEMUNHO

A Semana Santa começa com a celebração do Domingo de Ramos e termina na noite pascal, dando-nos a oportunidade de comemorar a refeição da Ceia, a Paixão de Cristo e a sua morte na Cruz. E com a festa da Páscoa, que celebra a Ressurreição, estes dias formam o núcleo central de todo o ano litúrgico.

Nas nossas comunidades cristãs, mais ou menos numerosas, organizam-se as celebrações, preparam-se os espaços, multiplicam-se os convites, alarga-se a participação, acolhem-se familiares e amigos que vêm “passar a Páscoa”, aumenta o ritmo, cumprem-se as tradições …

Há a vida de tantos que se manifesta e observa, mas há, sobretudo, a vida de Alguém que se celebra. É verdade que o sofrimento, a injustiça, a tristeza e a morte estão presentes, mas somos testemunhas da alegria, do serviço, da verdade e da vida que Jesus Cristo protagoniza. Há um caminho marcado por estações (paragens) diversas, mas há, antes de tudo, a meta da eternidade, à luz da qual tudo adquire sentido.

Viver os dias e celebrar os acontecimentos da Semana Santa com os olhos na Ressurreição é sinónimo de seguimento de Jesus Cristo e de disponibilidade para assumir a vida de todos os dias, apesar das contrariedades.

O Papa Francisco afirmou um dia que a Igreja precisa de membros decididos no seguimento e audazes no testemunho, mais do que “cristãos de pastelaria”, disponíveis apenas para momentos sem dor ou vivências não contrariadas. Não duvidamos que viver definitivamente com o Senhor será a tal “pastelaria eterna” que todos anseiam, mas tal não se atinge sem provas de fidelidade, quando as “estações” também trazem desencontros, injustiças, perseguições, insucessos ou exigem contrariar o comodismo e a facilidade.

A festa espera-nos, mas não há verdadeira alegria sem ultrapassar a dor.

Pe, Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/17, n.º 4454, 27 de março de 2018

Placuit Deo – Carta aos Bispos sobre a Salvação Cristã

Foi publicada, na passada quinta-feira, a Carta Apostólica “Placuit Deo”, da Congregação para a Doutrina da Fé, aos Bispos da Igreja Católica sobre alguns aspectos da salvação cristã.  A Carta pretende destacar, na linha da grande tradição da fé e com especial referência ao ensinamento de Papa Francisco, alguns aspectos da salvação cristã que possam ser hoje difíceis de compreender por causa das recentes transformações culturais.

O Texto é dividido em 4 partes com uma introdução e uma conclusão.

Depois da introdução o segundo ponto fala do Impacto das transformações culturais de hoje sobre o significado da Salvação cristã. O mundo contemporâneo questiona, não sem dificuldade, a confissão da fé cristã, que proclama Jesus o único Salvador de todo o homem e da humanidade inteira. A carta procura combater duas tendências que vão crescendo no nosso tempo: um neo-pelagianismo em que o homem, radicalmente autónomo, pretende salvar-se a si mesmo sem reconhecer que ele depende, no mais profundo do seu ser, de Deus e dos outros, bem como um certo neo-gnosticismo, que apresenta uma salvação meramente interior, fechada no subjetivismo. O texto reafirma que a salvação consiste na nossa união com Cristo, que, com a sua Encarnação, vida, morte e ressurreição, gerou uma nova ordem de relações com o Pai e entre os homens.

A tentação do gnosticismo – recordava o Papa Francisco em Florença – “leva a confiar no raciocínio lógico e claro, o qual porém perde a ternura da carne do irmão. O fascínio do gnosticismo é o de “uma fé fechada no subjetivismo, onde interessa unicamente uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que se acredita podem confortar e iluminar, mas onde o objeto em definitiva permanece fechado na iminência da sua própria razão ou dos seus sentimentos”.

Toda a pessoa, a seu modo, procura a felicidade e tenta alcançá-la recorrendo aos meios disponíveis. Com frequência, tal desejo coincide com a esperança da saúde física, às vezes assume a forma de ansiedade por um maior bem-estar económico, mais difusamente expressa-se através da necessidade de uma paz interior e de uma convivência pacífica com o próximo. A salvação plena da pessoa – evidencia o texto -, não consiste nas coisas que o homem poderia obter por si mesmo, como o ter ou o bem-estar material, a ciência ou a técnica, o poder ou a influência sobre os outros, a boa fama ou a auto-realização. “A vocação última de todos os homens é realmente uma só, a divina”.

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