Arquivo

Archive for the ‘Jesus Cristo’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Farei novas todas as coisas

Eis que faço novas todas as coisas (cf. Apo 21, 5).

João Batista tinha enviado, a partir da prisão, emissários a Jesus, para confirmar o que ouvia dizer acerca d’Ele. Depois dos emissários partirem, Jesus questiona a multidão: “Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? Então que fostes ver? Um homem vestido de roupas luxuosas? Um profeta? Sim, Eu vo-lo digo, e mais que um profeta” (Mt 11, 8-14).

A minha pergunta seria outra: que fomos ver ao Presépio? O que que trazemos do encontro com Jesus? O Evangelho dá-nos pistas claras. O encontro com Jesus gera alegria, silêncio, adoração. Diante de Jesus, diante d’Aquele Menino, Deus frágil, Deus pobre, Deus amor, despojado de poder e de seguranças, não há outro caminho que não seja silêncio, oração, adoração, e alegria contagiante, que nos faz voltar renovados, com o coração cheio, iluminado!

Não ouvimos nem Maria nem José, pois diante de Deus que Se faz homem não há palavras que abarquem tão grande mistério! Os Pastores, por sua vez, aproximam-se extasiados, mas logo multiplicam em palavras tudo o que ouviram acerca do Menino. As palavras ajudam-nos a comunicar a alegria e a envolver outros no mistério. Os Magos regressam por outro caminho, transformados pelo encontro com Jesus. A Luz que os atraiu a Jesus é a mesma Luz que os devolve à sua terra e às suas ocupações: o Amor de Deus.

Um amor único permite-nos recentrar a vida no essencial, permite-nos dar qualidade a tudo o que fazemos. É a experiência dos pais. Até essa altura então eram felizes os dois, a partir do nascimento de um filho tudo se modifica e tudo faz mais sentido e é feito com mais alegria, também o trabalho, as canseiras e as dores!

Podemos regressar à nossa vida anterior, a nossas casas, às nossas famílias, ao nosso trabalho, mas por outro caminho, com outro olhar, com outra atitude. Quem se deixa plasmar pela graça de Deus deixará que Ele faça novas todas as coisas, mesmo as coisas antigas. O encontro com Jesus gera conversão e vida nova.

A Luz do Presépio ainda está visível, não a deixemos apagar, deixemo-nos transformar pelo Espírito Santo que nos enxertou em Cristo. É este o apelo do nosso lema pastoral: chamados e enviados em missão. O encontro como discípulos faz-nos apóstolos, faz-nos missionários.

É a interpelação do nosso Bispo nas Visitas Pastorais (de que fazemos eco no nosso Jornal): renovar, dar novo ânimo ao compromisso cristão, revitalizando as comunidades. No primeiro fim-de-semana de 2019, iniciaram as Visitas Pastorais à Zona Pastoral de Tabuaço, que se estenderão até ao final de maio. Tempo para D. António se encontrar com os seus diocesanos. Tempo para nos reencontrarmos fortalecidos na missão e comprometidos com a nossa identidade batismal.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/06, n.º 4492, 8 de janeiro de 2019

D. Fernanda: uma vida a servir

No dia 22 de dezembro, faleceu a D. Maria Fernanda Souto Costa, aos 75 anos de idade. Natural de Vila Seca, Armamar, pertencia ao Instituto das Cooperadoras da Família. Viveu e cumpriu a sua vida e a sua missão em diferentes locais e serviços, mas uma boa parte foi vivida entre nós, em particular no Seminário, onde a sua presença discreta, orante, atenta e eficiente foi por todos sentida e testemunhada.

Durante trinta anos foi presença no nosso Seminário de Lamego, coordenando serviços, acolhendo quem ali se dirigia e atendendo a quantos telefonavam. Mas também na cidade, em diferentes circunstâncias, marcava presença, apesar de discreta.

Há quase dois anos despediu-se do Seminário, por causa da pouca saúde e foi viver para Coimbra, numa das casas do Instituto a que pertencia. Não partiu sem lágrimas e levou consigo muitas recordações, muitos rostos e vidas, a par de uma grande vontade de voltar. A verdade é que, sem o dizer claramente, sabia que dificilmente voltaria ao seu Seminário para continuar a acompanhar os “seus meninos”. Mas, apesar de longe e fisicamente debilitada, nunca deixou de se informar e interessar por todos. E, mais importante, não nos esquecia nas suas orações e por todos oferecia os seus sofrimentos.

Em setembro passado, após internamentos, exames e muitas consultas médicas, foi operada ao coração. A recuperação foi morosa e dolorosa, exigindo novos internamentos. Mas tudo parecia estar melhor e a recuperação era visível. A véspera da sua morte, 21 de dezembro, foi vivida com normalidade e, já de madrugada, ainda deu conta de que alguém fora ao seu quarto ver se estava bem. Perto das 8h, encontraram-na já sem vida.

O seu corpo ficou em câmara ardente na capela da casa onde agora vivia até à manhã de segunda-feira, dia 24, já que em Coimbra não se realizam funerais ao domingo.

Na assembleia que participou na Eucaristia exequial estavam os seus irmãos, cunhados e sobrinhos, um grande número de membros do Instituto, bem como o nosso seminarista mais velho, João Miguel Pereira, e seis sacerdotes da nossa diocese, Cón. José Manuel Melo, Pe. Leontino Alves, Pe. José Manuel Rebelo, Pe. Ângelo Santos, Pe. Joaquim Dionísio e Cón. João Carlos Morgado, que presidiu. Certamente que muitos outros gostariam de ter participado, demonstrando a gratidão devida a quem os serviu, mas a distância e as ocupações não o permitiram. O seu corpo foi sepultado no cemitério de St. António dos Olivais. Ler mais…

Pe. Manuel Pinto Almeida – Partiu um amigo

Corria o ano de 1949 e nova reboada de uns quarenta jovens dirigiu os seus passos para o Seminário de Resende. Vinham dos quatro cantos da Diocese, e já não é fácil dizer de onde vinham todos eles.

Também vinha um chamado Manuel Pinto de Almeida, que descia das alturas da Panchorra, concelho de Resende, que a pé percorreu os caminhos que ali o trouxeram; a serra nada mais oferecia aos que por ela passavam e que dela saíam para outro qualquer lugar. Também eu fazia parte do grupo, mas vindo do outro extremo da Diocese, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.

O grupo foi diminuindo; inadaptação de uns, saudades de outros, passámos ao Seminário de Lamego; tínhamos recebido dois do curso anterior, porque a saúde os reteve em casa; o grupo diminuía, mas ia-se recompondo na vida de cada ano escolar. No oitavo ano (era a contagem dos anos de estudo de então), só quatro entrámos no Curso Teológico: lá estava o Pinto de Almeida. No dia da ordenação sacerdotal, 15 de Agosto de 1961, o grupo de quatro subiu a pé para o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, para a Ordenação Sacerdotal; o grupo, aí, sofreu novo revés, pois um dos quatro não avançou, quando esperávamos o avanço de todos, que não éramos muitos.

Começou, então, nova etapa da vida de um grupo que se foi reduzindo ao longo de doze anos, agora com um futuro que tinha tanto de certo como de incerto; vida pastoral que chamava por nós, às vezes em lugar nunca sonhado, muito menos visitado e conhecido. E o P.e Manuel foi para o concelho da Mêda, num dos extremos da Diocese; para lá dos limites da sua paróquia de residência começava o concelho de Trancoso e a Diocese da Guarda. Casteição e Paipenela eram as suas duas paróquias, a que se juntava o lugar anexo dos Chãos. E lá ficou o nosso antigo companheiro, amigo, padre e pároco, um dos três que chegaram ao fim, receberam o Sacerdócio e partiram para a missão a que foram chamados e para a qual foram enviados, para usar a palavra de agora. Ler mais…

Editorial Voz de Lamego: À Porta do Natal

Estamos temporalmente às portas do Natal e, o que será preocupante, podemos ficar à porta (religiosa e espiritualmente), à porta do Natal. A Voz de Lamego, através de crónicas habituais ou pontuais, sublinha o risco de celebrarmos o Natal sem o aniversariante, Jesus, sem a adequação da vida ao mistério de abaixamento e proximidade de Deus, que, em Jesus, Se faz irmão, Se faz igual a nós.

Numa partilha das redes sociais – nas quais cabe a cada um optar pela positividade ou pela maledicência –, apareceu a seguinte publicação: “No Natal lembra-te que o aniversariante não desceu por uma chaminé para te dar presentes… passou pela CRUZ para te dar a salvação”.

Pessoas simples (e sábias, em muitas ocasiões) dizem que tudo é necessário. Com conta peso e medida. A festa e a feira. O trabalho e o sacrifício.

Por todo o lado se veem luzes, pais-natais, enfeites, feiras, promoções de Natal. Dar presentes. Surpreender o outro. Apreciar o melhor da vida. E até antecipar rendimentos! Podemos valorizar o Pai Natal e ficarmo-nos pelas chaminés. Podemos ficar com as luzes, vivendo sem luz e sem brilho no nosso interior e na relação com os outros. Como diz o poeta, Natal pode ser todos os dias. Como dirão os cristãos, Natal é quando Deus quer. E Deus sempre quer nascer no mundo, fazer-Se presente, e assumir-nos como irmãos em Jesus, o Deus-Menino.

As luzes da árvore de Natal podem remeter-nos para a verdadeira Luz que vem ao mundo iluminar todo o homem, como ainda há dias sublinhava o Santo Padre. Mas será importante nunca descurar a beleza, a pobreza e a simplicidade do Presépio; a grandeza que Se manifesta na fragilidade de um bebé e no despojamento de uma manjedoura.

Natal é a festa da família e tudo o que faça apelo à família, à fraternidade, ao amor e ao calor que nos aproxima será positivo! Se encontrarmos uma razão extra para estarmos com a família, ainda bem, também aí Deus poderá desafiar-nos a encontrar outras oportunidades. Se nos tornarmos especialmente solidários nesta época, ainda bem, pode ser que Deus nos desperte para a fragilidade do nosso semelhante!

Neste Natal podemos ficar à porta da Igreja, no adro, maravilhados com as luzes, mas sem tempo para a Luz, sem tempo para a festa de Natal com Jesus… Mas quem sabe, se ao aproximar-nos tanto das portas da Igreja, Deus não nos abre o coração e nos impulsiona a entrar?!

Santo Natal a todos os que fazem a Voz de Lamego (na edição, publicação, colaboração de textos, notícias e fotos, na publicidade, nas assinaturas, na leitura e nas achegas) e a todas as famílias da nossa mui nobre Diocese de Lamego.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/04, n.º 4490, 18 de dezembro de 2018

Falecimento do Pe. Manuel Pinto Almeida

O Senhor Deus, Pai de Misericórdia Infinita, chamou à Sua presença, na eternidade, o Pe. Manuel Pinto Almeida.

Natural da Panchorra, concelho de Resende, onde nasceu em 3 de dezembro de 1938. Foi ordenado sacerdote a 15 de agosto de 1961. Foi durante alguns anos responsável da Casa de São José, onde passou os últimos meses agora em regime de Lar, mas igualmente sob a tutela da Diocese de Lamego.

Na segunda-feira será celebrada Missa Exequial na Igreja da Graça, em Lamego, pelas 11h00, e seguirá para a Panchorra, onde será celebrada também Eucaristia com o corpo presente, sendo sepultado no cemitério local.

O Senhor Bispo, D. António Couto, em comunhão com todo o presbitério e com a Diocese de Lamego, manifesta aos familiares e amigos do Pe. Manuel as suas condolências, agradecendo o dom da sua vida e da sua vocação e ministério sacerdotais, confiando-o nas mãos de Deus Pai, Senhor da Vida e da Morte.

Que Deus lhe conceda o eterno descanso.

Editorial Voz de Lamego: Sob a proteção da Imaculada Conceição

No dia 8 de dezembro, assinalamos a celebração festiva da Imaculada Conceição, Padroeira e Rainha de Portugal, fazendo sobressair a ligação afetiva dos portugueses à Virgem Imaculada.Como em tantas outras referências religiosas, culturais, políticas, com as novas gerações atenuam-se as pertenças e, por vezes, os motivos originários de uma tradição, de uma comemoração, a razão de ser de um feriado ou de um dia santo. O dia 8 e dezembro enraíza-se na história de Portugal e, claro, na identidade religiosa e cultural do povo português, mesmo com a vontade de alguns blocos quererem disfarçar, esconder, apagar tudo o que possa ter referências religiosas, excetuando nos momentos de aproximação eleitoral, onde é necessário não fazer muitas ondas.No dia 25 de março do ano de 1646, D. João IV, numa cerimónia solene, em Vila Viçosa, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, depunha a coroa a favor de Nossa Senhora. A partir de então o Rei não mais colocaria a coroa. Em contrapartida, a coroa era colocada num trono, ao lado do trono real, relembrando que Nossa Senhora da Conceição era a Padroeira e Rainha de Portugal.O Rei assinalava a forte devoção dos portugueses. Os acontecimentos que conduziram o país a recuperar a soberania, com a coroação de D. João IV, a 15 de dezembro de 1640, no Terreiro do Paço, estão fortemente ligados à devoção de Nossa Senhora. O Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira (São Nuno de Santa Maria), artífice da vitória de Portugal sobre os nossos vizinhos espanhóis, fundou a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, em Vila Viçosa, oferecendo também a imagem de Nossa Senhora da Conceição.É uma devoção que vem de longe, sancionada em definitivo a 8 de dezembro de 1954, pelo Papa Pio IX, rodeado por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e uma imensa multidão, definiu como dogma de fé o grande privilégio da Virgem:“A doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em atenção aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, é revelada por Deus e por isso deve-se crer firme e constantemente por todos os fiéis”O projeto de Deus é concretizável pela resposta humana, por esta primeira resposta de Maria. Maria acolhe a Palavra de Deus e fá-la crescer no seu ventre e na sua vida.A condição para sermos morada do Deus altíssimo é imitar Maria, em humildade e prontidão para servir: realize-se em mim a Tua vontade. Vem, nasce em mim, ilumina-me com a Tua bondade, dá-me o Teu perdão, guia-me para Ti, faz-me reconhecer-Te e a amar-Te em cada irmão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/02, n.º 4488, 4 de dezembro de 2018

Documento Final do Sínodo dos Bispos – 3.ª Parte

E partiram sem demora

A passagem dos discípulos de Emaús continua a nortear o sentido das diretrizes do Documento Final do Sínodo dos Bispos. Nesta terceira parte, o mote é o retorno, “sem demora”, dos discípulos a Jerusalém. O rosto de uma Igreja jovem passa pelo reconhecimento do Ressuscitado a cada passo, contagiando a todos com a alegria dessa descoberta, provocando em cada um a conversão necessária e incitando a Igreja á reforma sempre inacabada (3ª parte, nº 115-118).l

O primeiro capítulo desta terceira parte assenta as bases na sinodalidade missionária da Igreja, e aponta-a como o caminho mais desejado pelos jovens desde o início dos trabalhos sinodais. Uma vez que “as condições concretas, as possibilidades reais e as necessidades urgentes dos jovens são muito diversas entre países e continentes” (3ª parte, nº 120), o Papa desafia as Conferências Episcopais a encetar processos de discernimento com a participação de todos, de todas as idades, de todas as estruturas, movimentos e associações. É este o caminho para uma Igreja mais participativa e corresponsável, e para que os jovens assumam maior intervenção nos organismos de decisão e missão eclesial.

O capítulo seguinte destaca a urgência de um envolvimento mais abrangente e renovador, que passe pelo renovamento do convencional dinamismo paroquial e das suas estruturas. Em comunidades com gente tão dispar, importa que o anúncio basilar de Cristo morto e ressuscitado seja a principal catequese, dando o devido realce à liturgia e ao serviço da caridade. Um dos grandes desafios deste documento é que as Conferências Episcopais se disponham a elaborar um “Diretório de Pastoral Juvenil” e criem centros de encontro e acompanhamento vocacional.

No terceiro capítulo ficam expressos alguns desafios mais prementes. A urgência de evangelizar os e pelos ambientes digitais. A atenção redobrada que se impõe aos migrantes, que necessitam acolhimento e integração racial. O preponderante papel da mulher na Igreja e o seu poder decisional. A desmitificação ordenada da sexualidade em toda a sua amplitude. O empenho da Igreja na economia, na política e na ecologia. O respeito pelo pluralismo cultural e religioso, e o ecumenismo como caminho de reconciliação.

O último capítulo ressalva a extrema necessidade de uma formação integral, num contexto social atual complexo e multifacetado. Desta forma, a aposta tem de passar também pela educação escolar em toda a sua amplitude; pela preparação ajustada de novos formadores; pelo aposta em que os jovens sejam discípulos missionários;  pela promoção de tempos e momentos concretos de acompanhamento e discernimento; pela preparação séria ao matrimónio; pela formação integral dos seminaristas e consagrados/as.

A conclusão coroa o documento com um forte apelo à santidade dos jovens no mundo.

 

Pe. Diamantino Alvaíde,

in Voz de Lamego, ano 89/01, n.º 4487, 27 de novembro de 2018