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Archive for the ‘Jesus Cristo’ Category

Editorial Voz de Lamego: porque é que a terra é redonda?

Na Visita Pastoral de D. António Couto a Tabuaço, no encontro com os alunos do Agrupamento de Escolas, foram feitas várias perguntas, em conformidade com os diferentes anos escolares. Uma dessas perguntas foi precisamente: porque é que o mundo é redondo?

A resposta do Sr. Bispo desarmou-nos a todos, dizendo que o mundo poderia ser quadrado… plano… quem sabe? Poderíamos intentar uma resposta científica, com vários argumentos. Citando o filósofo alemão, Immanuel Kant, sublinhou a certeza que, sendo redondo, demos os passos que dermos, estamos sempre a aproximar-nos. É esse o propósito do Pastor, ajuntar o rebanho, ir em busca de todas as ovelhas, mais próximas ou mais distantes, mais saudáveis ou mais sofríveis. É esse o intento das Visitas Pastorais, mas é igualmente o nosso propósito e compromisso como cristãos.

A fé cristã fala-nos de um encontro, de Deus com a humanidade. Deus espera por nós, mas não fica à espera no Seu mundo, vem ao nosso encontro, em Jesus torna-Se um de nós, vem habitar connosco. Seguindo-O, cabe-nos a mesma prontidão para partir, para ir, para procurar, para ir em auxílio do outro, sobretudo dos mais fragilizados pela doença, pela idade, pela solidão ou por outra qualquer dificuldade.

Mais oração. Mais missão. Mais pastores e mais ovelhas. Mais luz. Mais Jesus. E não esquecer que Deus está metido nestas coisas, pelo que não há lugar para o desânimo, mas para alegria, para esperança, Deus não nos falta. Deus está metido nisto e conta contigo e comigo.

Crianças, jovens, adultos e os nossos velhinhos, são todos sujeitos da missão evangelizadora. Os novos trazem a alegria e o entusiasmo, os menos novos, trazem a sabedoria, a persistência e legam-nos a paciência, a fé a fidelidade.

Um dia a tartaruga decidiu sair da sua casinha, de noite. O sapo, que era seu vizinho, avisou-a: cuidado, não saias, é perigoso sair de noite, podes cair, pode vir algum animal perigoso e dar cabo de ti. A tartaruga não se deixou convencer e decidiu sair, transgredindo um normativo, uma tradição. Um pouco depois tropeçou e caiu, ficando de patas para o ar. O sapo, ouvindo o barulho do tropeção, veio ao seu encontro para lhe dizer: és casmurra, eu não te avisei? A resposta da tartaruga: pelo menos, vi o céu estrelado. De outra forma nunca teria visto o Céu e com tantas estrelas. Às vezes é preciso ir além das regras, das tradições e apostar, fazer pontes, transgredir com a rotina e com o passado e dar passos em frente, em direção aos outros.

Pe. Manuel Gonçalves,  in Voz de Lamego, ano 89/24, n.º 4511, 21 de maio de 2019

Editorial Voz de Lamego: Jean Vanier

Nasceu em Genebra, em 10 de setembro de 1928, filho de pais canadenses. Foi ficial da Marinha, primeiro britânica, depois canadense. Em 1950, desiste da carreira militar e começa a estudar teologia e filosofia. Sente-se atraído pelo Evangelho. Tornou-se professor na Universidade de Toronto, mas abandona a carreira universitária. Descobre que a sua verdadeira vocação é encontrar Jesus nas pessoas mais fracas e mais abandonadas. Em 1964 funda a Arca e em 1971 contribui para o nascimento do movimento “Foi et Lumiere” (Fé e Luz). Faleceu a 7 de maio, há oito dias.

A “Arca” é uma comunidade que acolhe pessoas com necessidades especiais, com 150 Centros espalhados por todo o mundo. Um dos seus livros, que li, falava de “Adam”, uma criança com autismo profundo, com o qual era muito difícil comunicar, pelo menos através de linguagem verbal. Adam era um desafio e um compromisso. O seu silêncio, um apelo à paciência e à escuta, ao serviço e à delicadeza. Mais do que Adam se adaptar à comunidade, os “cuidadores” é que tinha que se aproximar, perceber e acolher as suas dificuldades. Para lá da linguagem verbal, prevalecia a linguagem dos afetos, da ternura e da meiguice, visível no olhar, no sorriso, na festa com que acolhia Jean Vanier.

O Papa Francisco, na Viagem Apostólica à Bulgária e à Macedónia, não deixou de o propor como exemplo de humanidade, de fé e de serviço. Jean Vanier “trabalhava pelos mais pobres, pelos mais descartados, também por aqueles que no ventre de sua mãe foram sentenciados à morte – às vezes tenta-se convencer os seus pais a tirá-los e não deixá-los nascer. Ele acolheu-os e deu sua vida. Que Jean Vanier permaneça um exemplo para todos nós, que nos ajude do Céu… Na semana passada telefonei-lhe, ouviu-me, mas mal conseguia falar. Quero expressar a minha gratidão por este testemunho, um homem que soube ler a eficiência cristã do mistério da morte, da Cruz, da doença. Do mistério daqueles que no mundo que são descartados. Trabalhou não somente pelos últimos, mas também por aqueles que antes de nascer tem a possibilidade de serem condenados à morte. Ele gastou sua vida assim. Graças a ele e graças a Deus por nos ter dado um homem de tão grande testemunho”.

Tinha 90 anos e estava canceroso. Jean Vanier sobre a sua fragilidade: “Minha esperança e minha oração é que, quando chegar momento de fraqueza, eu possa aceitar e regozijar-me por tudo o que me foi dado. A vida humana começa e termina em fragilidade. Ao longo de nossas vidas somos ávidos por segurança e dependentes de ternura”.

Em Portugal vivemos a Semana da Vida. Este é um belíssimo testemunho de alguém que amou e cuidou da vida humana, na atenção aos mais frágeis. As palavras são sancionadas pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves,  in Voz de Lamego, ano 89/23, n.º 4510, 14 de maio de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Promessa e Risco

No próximo dia 12 de maio, ocorrerá o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Oportunidade, mais uma, para refletirmos sobre a nossa vocação e, refletindo, nos unirmos “em oração pedindo ao Senhor que nos faça descobrir o seu projeto de amor para a nossa vida, e que nos dê a coragem de arriscar no caminho que Ele, desde sempre, pensou para nós”.

O Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, conclui com este desafio à oração e à disponibilidade para acolhermos o projeto de Deus.

O lema diocesano compromete-nos com o chamamento. A Igreja de Lamego é chamada e cada diocesano, cada cristão é chamado pelo Senhor a uma vida santa, feliz, luminosa. Deus não nos chama para nos controlar, nos escravizar, para exigir de nós algo que nos dificulte a vida. Chama-nos a “entrar num grande projeto, do qual nos quer tornar participantes, apresentando-nos o horizonte dum mar mais amplo e duma pesca superabundante”. O chamamento parte de um encontro. Jesus encontra Simão e André a remendar as redes e lança-lhes o desafio. A vocação dá-se num encontro. A deles e a nossa. Os dois irmãos aprenderam as dificuldades da pesca (e da vida). Há dias de pesca abundante e outros dias em que regressam sem terem pescado nada. A pesca milagrosa, diz o Papa, é a forma de Deus nos fazer descobrir que nos chama à grandeza. A nossa “vida não deve ficar presa nas redes do sem-sentido e daquilo que anestesia o coração… A vocação é um convite a não ficar parado na praia com as redes na mão, mas a seguir Jesus pelo caminho que Ele pensou para nós, para a nossa felicidade e para o bem daqueles que nos rodeiam”.

A primeira vocação decorre do batismo. É universal. É para todos os batizados: configurar a própria vida à vida nova que recebemos pela água e sobretudo pelo Espírito Santo, a vida nova de Cristo, para que, como novas criaturas, possamos transparecer a Sua bondade e ternura. Na vida de todos os dias. Em toda a parte, em todas as situações e circunstâncias. Darmos o melhor de nós mesmos, levarmos Deus aos outros. Encontrarmos Deus nos outros. A vida cristã é o nosso primeiro compromisso vocacional, em comunidade, na Igreja, onde nos inserimos pela participação sacramental. “A Igreja é nossa Mãe; por isso devemos amá-la, mesmo quando vislumbramos no seu rosto as rugas da fragilidade e do pecado, e devemos contribuir para a tornar cada vez mais bela e luminosa, para que possa ser um testemunho do amor de Deus no mundo”.

E dentro da vida cristã surgem vocações específicas com a promessa de bem, de amor e de justiça e que nos impele à arriscar, porque sabemos que Ele segue connosco.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/21, n.º 4508, 30 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: Luz que recria o mundo

Nestes dias não faltam belíssimas reflexões sobre a Páscoa. A Voz de Lamego eco de algumas. Um dos momentos mais marcantes destes dias é a Vigília Pascal, pelos sinais e símbolos que nos fazem visualizar a história da salvação, com particular incidência no mistério da entrega confiante de Jesus ao Pai, por nós.

Luz, palavra, água e pão. A celebração inicia com a bênção do Lume Novo. A nossa Luz, sempre nova, é Jesus, morto e ressuscitado. Na Encíclica Lumen Fidei, em sintonia com Bento XVI, o Papa Francisco sublinha que a fé é sobretudo luz, ainda que haja momentos de grande sofrimento, em que a dúvida assola e a confiança fica abalada. Com efeito, “a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho… o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros” (n.º 57). As trevas podem ser imensas, mas basta a luz de um fósforo, de um isqueiro ou de um telemóvel, para nos conseguirmos mexer e avançar confiantes.

Há momentos que precisamos de uma palavra amiga, mas talvez precisemos de quem nos escute. Não resolve os nossos problemas, mas conforta-nos saber que alguém nos escuta e tenta compreender-nos. Para que as palavras não sejam vazias, a urgência da escuta. Nesta noite santíssima escutámos longamente a Palavra de Deus, perscrutamos a presença de Deus na história que nos encaminha para Jesus. A Quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna!

Água para o caminho. Quem bebe desta água, não volta a ter sede. Eu Sou a água viva. Tantas vezes em que um pouco de água fresca é o suficiente para equilibrar o nosso organismo, para tranquilizar a nossa sede, para nos dar forças para continuar a caminhar. A bênção da água, na Vigília Pascal, faz-nos recordar a água em que fomos batizados, a água que nos renova, tornando-nos novas criaturas. Senhor, dá-nos sempre dessa água! Um pouco de pão e de água. Eu Sou o Pão da vida. O Pão que Eu hei de dar é a Minha Carne. É um verdadeiro milagre Deus fazer-Se um de nós. Verdadeiro milagre que a morte seja superada pela vida, pela ressurreição. Milagre grandioso, que Jesus Se converta em Pão para se tornar alimento de muitos. Isto é o Meu Corpo, tomai e comei. É o Meu sangue, tomai e bebei!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/21, n.º 4507, 23 de abril de 2019

Editorial da Voz de Lamego – Isto escandaliza-vos? (Jo 6, 60)

Na passada quinta-feira, o Papa Francisco teve mais um gesto surpreendente e inusitado. Durante o encontro com líderes do Sudão do Sul, prostrou-se diante deles e beijou-lhe os pés. Comoveu os próprios, mas também o mundo.

Quando vi a notícia, não fiquei admirado, pois o Papa já nos tem surpreendido com outros gestos luminosos. Pensei de imediato: mais uma atitude a ser escrutinada pelos fariseus do nosso tempo, os levitas e doutores da Lei que passeiam pela Igreja, sem se sujar nem se misturarem com os mortais.

São João Paulo II, sempre que visitava um país pela primeira vez, ajoelhava-se e beijava o chão, gesto de humildade e de bênção para o território visitado. Este gesto faltou em Timor, então anexado à Indonésia, ainda que rezem as crónicas que o Papa iria beijar uma cruz colocada no solo, símbolo do sofrimento deste povo irmão, mas um pouco antes de chegar um soldado retirou a cruz.

Em quinta-feira santa, Jesus ajoelha-Se diante dos apóstolos e lava-lhes os pés. Gesto que repetimos, beijando também os pés. Pedro recrimina Jesus por lhe querer lavar os pés. Nem penses nunca coisa dessas! O servo é que lava os pés ao seu Senhor, não o contrário. Francisco antecipou e fez-nos ver a quinta-feira santa.

O Evangelho (LC 7, 36-50), apresenta o encontro de Jesus com uma mulher conhecida na cidade como pecadora. Um fariseu, Simão, tinha-O convidado para comer. Enquanto estava à mesa, veio uma mulher, com um frasco de alabastro com perfume. Chorando, lavou-Lhe os pés, com as lágrimas, enxugou-os com os cabelos e ungiu-os com perfume. É um gesto de intimidade, de humildade e de súplica. A esta mulher vale-lhe o perdão dos pecados, porque muito amou. Ao fariseu uma reprimenda: «…Não me deste um ósculo; mas ela, desde que entrou, não deixou de beijar-me os pés…».

O Santo Padre tem consciência que não resolve todas as questões relacionadas com os conflitos que envolvem os sudaneses, mas sinaliza uma opção, reconhecendo o trabalho realizado e desafiando à firmeza na construção da paz e de um país justo.

“Nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Cor 22-23). Não é fácil agradar a gregos e a troianos e aqueles que o tentam, tal como Pilatos, lavando as mãos, não cumprem com a missão sublime de serem atores da história. Nem quentes nem frios, mornos, nem lá vou nem faço míngua. É curiosa a revelação de João acerca da Igreja de Laodiceia: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno – e não és frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca” (Apo 3, 15-16).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/20, n.º 4506, 16 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: dilatar o horizonte familiar

“A minha Mãe e os meus irmãos são estes: os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21). A resposta de Jesus obriga a alargar o horizonte da família além dos laços sanguíneos. Jesus há de repreender os seus discípulos por quererem proibir um homem de expulsar demónios em Seu nome, porque não faziam parte do grupo! Os discípulos querem ter o exclusivo de Jesus. “Não o impeçais… quem não é contra nós, é a nosso favor” (Mc 9, 38-41).

Um dos assuntos do dia, nos meios de comunicação social, tem sido o nepotismo governamental. Claro que não é este nem o tempo nem o espaço para discutir a questão (pelo menos politicamente). Têm-se esgrimido argumentos e razões. Parece que mudam as cores, mas as práticas são idênticas, em maior ou menor proporção. Amigos e familiares vão tendo as portas escancaradas para assumirem cargos de responsabilidade, acompanhados por remunerações significativas. É possível que alguns tenham competência e façam um bom trabalho, mas haverá outros que só acedem a esses lugar pela amizade ou pelo parentesco. Não é exclusivo nem deste governo, nem do governo central. Também localmente isso acontece.

Mas cabe-nos perguntar? E como agiríamos nós? Estando num cargo de decisão e tendo que empregar, nomear ou escolher alguém para um lugar, quem escolheríamos? Um familiar? Um amigo? Um estranho? Alguém de quem não gostássemos muito? Optaríamos por uma pessoa da nossa confiança ou a pessoa mais competente para a tarefa a desempenhar?

Num momento de reflexão, a RFM (Rádio do Grupo Renascença), levantava precisamente esta questão. Aproveitando a oportunidade criada por esta polémica, importa interrogar-nos: como é que agimos nos grupos e movimentos eclesiais? “Nós amamos aqueles que são nossos, que são como nós, que se parecem connosco, que pensam como nós. Nós amamos os que nos amam e são bons para nós. Nós amamos aqueles que nos divertem e no lisonjeiam” (Cardeal O’Malley. Ver sugestão de leitura ao lado).

Quando uma pessoa é do nosso grupo, facilmente a elogiamos ou ao trabalho que realiza. Se pertence a outro grupo (eclesial), se não está no meu rol de amigos ou família, o que faz é só para se exibir ou não faz nada de jeito. Por certo, temos pessoas com as quais podemos contar e a quem podemos recorrer, sabendo que não nos vão deixar na mão. Mas seremos suficientemente criativos e despojados para confiarmos noutras pessoas, chamarmos mais gente, desafiarmos aqueles que vêm só esporadicamente?!

O desafio do Mestre da Vida é claro: ide por todo o mundo, fazei discípulos de todas as nações. Amai os vossos inimigos. O desafio do Papa Francisco é perentório: Igreja em saída, cristãos como o Bom Pastor em busca das ovelhas perdidas, preferência pelas periferias (existenciais).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/19, n.º 4505, 9 de abril de 2019

Editorial Voz de Lamego: Lutar pela toalha

O Cardeal Seán O’Malley, Arcebispo de Boston, orientou os Exercícios Espirituais aos Bispos Portugueses, de 11 a 15 de março, em Fátima. Esta foi a segunda vez que o fez, pois já em 1996 o tinha feito. Reflexões e homilias desses dias, bem como outras reflexões, mensagens, intervenções, integram um livro publicado nesta ocasião, em Portugal, aproveitando a sua presença em Fátima, sob o título “Procura-se: Amigos e Lavadores de Pés”. Teremos ocasião de o apresentar, oportunamente, como uma das leituras, na secção ao lado. Para já recuperámos uma expressão que nos faz perceber a obra, mas, de um modo mais abrangente, a Igreja de Jesus, anunciada, vivida e servida pelo Papa Francisco, a quem o autor dedica precisamente estes textos.

No decorrer da Última Ceia, Jesus levanta-Se da mesa, coloca uma toalha à cintura e começa a lavar os pés aos discípulos. A preocupação é exemplificar o seguimento e o compromisso daqueles e daquelas que queiram integrar o Seu Corpo que é a Igreja. Jesus, como em outras situações, não faz grandes discursos, exemplifica, mostra como se faz, ou faz-nos atores de uma história (parábola), para nos sentirmos suficientemente livres para optarmos, seguindo-O ou rejeitando-O. O Cardeal refere-o desta maneira: “Ele queria que os seus Apóstolos, os seus Amigos, parassem de disputar os primeiros lugares à mesa e começassem a lutar pela toalha”.

Ao longo do seu pontificado, que leva 6 anos, o Papa Francisco tem procurado fazer como Jesus, mais do que com discursos bem elaborados (o que também faz muito bem), tem assumido gestos luminosos, provocadores, por vezes mais acintosos do que aquilo que ouviríamos a Jesus, mas talvez porque no nosso tempo os apóstolos e discípulos, que somos, tenham uma carapaça mais dura, estejam mais acomodados, tenham mais argumentos (ou assim o entendemos). Ouvimos os pais a dizerem que educar os filhos neste tempo é muito mais difícil de quando eles próprios eram filhos. Os tempos são outros. A expressão adequa-se a todos nós. Os tempos são outros, somos pecadores como os Apóstolos de então, mas justificamo-nos mais rapidamente e levamos mais tempo a compreender que é para nós que Ele fala. Jesus não fala para o vizinho ou para a vizinha. É para mim. É para ti. É para todos. É para cada um de nós.

Aproximava-se rapidamente a Cruz e os Apóstolos apressavam-se a disputar a coroa, o primeiro lugar à mesa, o ministério mais honroso e com mais poder. Abertamente, em mais que uma ocasião, Pedro contesta Jesus. Quando necessário, pega na espada! Mas todos eles querem ser o primeiro, o maior! O caminho de Jesus é o do servo, daquele que disputa a toalha!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/18, n.º 4504, 2 de abril de 2019