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Archive for the ‘Jesus Cristo’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Sacerdócio comum e ministerial

A palavra “sacerdote” é constituída por dois vocábulos: sacer (sagrado), e dare, dotare (aquele que pode dar o sagrado). Definição que já vem de Santo Isidoro. Daí que habitualmente se circunscreva aos que são instituídos nesse ministério, com esse “poder”, que deve ser entendido, sempre, como serviço.

No próximo ano pastoral a nossa diocese de Lamego fixar-nos-á na dimensão sinodal – Em caminho e em comunhão –, no segundo ano dedicado à Igreja. O propósito é tomarmos consciência da nossa vocação e do nosso compromisso missionário, da corresponsabilidade pela propagação e vivência do Evangelho, aferindo o que nos identifica e nos aproxima, pois só a consciência do que somos nos permite ir ao encontro dos outros com uma proposta concreta e credível.

O concílio Vaticano II veio alterar o paradigma da Igreja, num desafio que continua: passar de uma Igreja piramidal, na qual uns mandam e outros obedecem, para uma Igreja-comunhão, povo de Deus, em que todos são responsáveis, participando da tríplice missão de Jesus: anunciar, celebrar/santificar, administrar/reger/cuidar. Uma das terminologias que se acentua é da Igreja como Povo de Deus. O povo de Deus, comunhão de todos os batizados, depois vêm os ministérios.

“Cristo fez do novo povo um «reino sacerdotal para seu Deus e Pai» (Apo 1, 6). Na verdade, os batizados são consagrados para serem casa espiritual, sacerdócio santo, para que, por meio de todas as obras próprias do cristão, ofereçam oblações espirituais e anunciem os louvores daquele que das trevas os chamou à sua admirável luz (cf. 1 Ped. 2, 4-10). Por isso, todos os discípulos de Cristo, perseverando na oração e louvando a Deus (cf. Act., 2, 42-47), ofereçam-se a si mesmos como hóstias vivas, santas, agradáveis a Deus (cf. Roma 12,1), deem testemunho de Cristo em toda a parte e àqueles que lha pedirem deem razão da esperança da vida eterna que neles habita (cf. 1 Ped. 3,15). O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na receção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa” (LG 10).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/31, n.º 4518, 9 de julho de 2019

Editorial da Voz de Lamego: participantes do sacerdócio de Cristo

A palavra sacerdócio anda ligada, inevitavelmente, aos bispos e aos padres e, claro, antes disso, a Jesus Cristo, Sacerdote por excelência, pois em Si mesmo coabita a humanidade e a divindade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O sacerdote santifica, une, consagra, eleva a humanidade para Deus. Ora Jesus, traz-nos Deus e, morrendo e ressuscitando, leva a nossa humanidade para junto do Pai. Não há santificação maior, Jesus, Deus encarnado, Deus humanado, é totalmente (com)sagrado. Eu e o Pai somos Um. Eu n’Ele e Ele em Mim. Faço o que vi fazer a Meu Pai. Digo e que Me mandou dizer. Mediação única: ninguém vai ao Pai senão por Mim. Eu Sou o Caminho!

Durante a Última Ceia, na primeira Eucaristia, Jesus instituiu o sacerdócio: Fazei isto em Memória de Mim. Dentre os Seus discípulos, Jesus escolheu 12, para os preparar para uma missão específica e lhes confiar a Sua Igreja, o Seu Corpo, a Sua Vida. Isto é o Meu Corpo… Isto é o Meu sangue entregue foi vós… para a salvação de todos. Ide e anunciai o Evangelho a toda a criatura, fazei discípulos de todas as nações, quem acreditar e for batizado será salvo.

A morte de Jesus traz a dispersão, o medo e o desencanto. A Sua ressurreição devolve a alegria, a esperança e a fé, e reúne o grupo dos 12, melhor dos 11, uma vez que Judas se precipitara entregando Jesus, traindo-O, na pressa de fazer as coisas à sua maneira. Para que o grupo fique completo, segundo a eleição do próprio Jesus, que havia designado 12, simbolicamente representando a humanidade inteira para serem enviados a todo o mundo. Matias foi o eleito!

O número 12 era simbólico, pois para chegar ao mundo inteiro seriam precisos outros colaboradores. Os sucessores dos Apóstolos, os Bispos, escolheram anciãos, presbíteros para servirem as comunidades que iam surgindo, no anúncio da Palavra, na santificação da vida. Também o aparecimento do diaconado, serviço aos mais pobres daquele tempo, os órfãos e as viúvas, para que ninguém e nenhuma dimensão da vida ficasse desamparada.

Quase parece perfeito… e acabado! Tudo resolvido! Com mais calma. A Igreja não são os Bispos, os padres e os diáconos, somos todos. Todos fomos consagrados. Jesus morreu e ressuscitou por todos, por mim e por ti. Somos novas criaturas, participamos da santidade de Jesus, somos membros do Seu corpo. Cabe-nos, a cada de nós, transparecer a santidade de Cristo para todos! Todos participamos do sacerdócio de Cristo, ainda que em diferentes ministérios e serviços, mas para o bem do único Corpo de Cristo.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/30, n.º 4517, 2 de julho de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Louvado sejas, Senhor!

Um dos documentos do Papa Francisco que mais surpreendeu, pela temática e pela urgência, e que continua a ser objeto de estudo, de reflexão e preocupação, dentro da Igreja, mas com boa aceitação em outros meios sociais e culturais, foi a Carta Encíclica Laudato si’, sobre o cuidado com a casa comum, casa de todos, que é o mundo que habitamos.

Já lá vão cinco anos. O Santo Padre parte da oração de São Francisco de Assis, que trata as diferentes criaturas como irmãs, num convite à fraternidade, estendida a toda a criação. “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

Ao louvor de São Francisco, logo o Papa manifesta, nos primeiros números, a urgência em refletir e repensar comportamentos. “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos. Por isso, entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22). Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”.

A sensibilidade para o cuidado da natureza tem sido crescente. Ainda há pouco manifestações, por parte de estudantes, numa vintena de cidades portuguesas, lembrando que não há um planeta B. Dias dedicados à água, à terra, à árvore, ao ambiente… oportunidades para refletir na escassez de alguns recursos ou na exploração desenfreada (e egoísta) dos bens da terra. Pelas contas de alguns, nós consumimos até julho o que deveria chegar até ao fim do ano. Excesso de consumismo, sem esquecer que os nossos excessos não são compensados pela miséria de milhões de pessoas.

Ressalta na carta do Papa, e de demos nota na Voz de Lamego, aquando da sua publicação, a ecologia integral. O Papa não se posiciona em qualquer radicalismo extremista, partidarizando a defesa do ambiente, das plantas e dos animais, esquecendo as pessoas. O cuidado da casa contempla cuidado da pessoa, na defesa da vida, desde a gestação até à morte natural, a atenção ao grito dos pobres e ao desenvolvimento dos povos. De que adianta proteger o ambiente, se se matam as pessoas?!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/27, n.º 4514, 11 de junho de 2019

Editorial Voz de Lamego: no Coração de Jesus

Maio é especialmente o mês de Maria, mas também outubro; junho, por sua vez, é o mês consagrado especialmente ao Coração de Jesus. Refira-se que festa em honra do Sagrado Coração é móvel e celebra-se oito dias depois do Corpo de Deus, na sexta-feira (dia da Crucifixão-morte de Jesus), seguindo-se, um dia depois, a Festa do Imaculado Coração de Maria. Bem vistas as coisas, é no Coração de Maria que pulsa e vem à vida o Coração de Jesus.

A devoção liga-se a dois momentos da vida de Jesus: à Última Ceia, quando o discípulo predileto se inclina sobre o peito (coração) de Jesus e na Cruz, quando do Seu lado (do Seu Coração) saiu sangue e água. O Corpo e o Coração. Jesus por inteiro. Totalmente oferecido para que tenhamos vida abundante (cf. Jo 10, 10). Cada instante na Sua vida nos revela o Amor de Deus.

É no amor de Jesus, no Seu coração, que nós nos acolhemos e nos reconhecemos como irmãos, como filhos de Deus. A fonte de todo o Amor é Deus. Deus é Amor. Jesus traz à humanidade este Amor. A Encarnação é já expressão real do amor de Deus por nós. Ama-nos de tal modo que Se faz um de nós, que assume a nossa fragilidade e a nossa finitude humanas. Na Sua morte na Cruz, de novo, o amor como resposta e como desafio. Com a Sua ressurreição e ascensão aos Céus, Jesus coloca a nossa natureza humana à direita de Deus Pai, coloca-nos para sempre no coração de Deus. Com efeito, é o coração que nos faz grandes. É o amor que nos torna pessoas. É pelo amor que nos aproximamos uns dos outros. É o amor que engrandece, dá sentido e sabor à nossa vida. É no amor que nos abrimos àqueles que se aproximam de nós. É pelo amor que reconhecemos a nossa pequenez, o que nos permite acolher o que o outro nos traz. No amor ninguém é autossuficiente. O amor envolve sempre mais que um: Deus e nós, eu e o outro

A 9 de junho de 2013, o Papa Francisco sublinhava que o Sagrado Coração de Jesus é a «máxima expressão humana do amor divino. A piedade popular valoriza muito os símbolos, e o Coração de Jesus é o símbolo por excelência da misericórdia de Deus; mas não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira».

Maio é o mês do coração, tempo de medir as tensões e equilibrar a saúde. Junho é o mês do Coração de Jesus, tempo de calibrar a nossa vida com a do Divino Mestre.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/26, n.º 4513, 2 de junho de 2019

Editorial Voz de Lamego: porque é que a terra é redonda?

Na Visita Pastoral de D. António Couto a Tabuaço, no encontro com os alunos do Agrupamento de Escolas, foram feitas várias perguntas, em conformidade com os diferentes anos escolares. Uma dessas perguntas foi precisamente: porque é que o mundo é redondo?

A resposta do Sr. Bispo desarmou-nos a todos, dizendo que o mundo poderia ser quadrado… plano… quem sabe? Poderíamos intentar uma resposta científica, com vários argumentos. Citando o filósofo alemão, Immanuel Kant, sublinhou a certeza que, sendo redondo, demos os passos que dermos, estamos sempre a aproximar-nos. É esse o propósito do Pastor, ajuntar o rebanho, ir em busca de todas as ovelhas, mais próximas ou mais distantes, mais saudáveis ou mais sofríveis. É esse o intento das Visitas Pastorais, mas é igualmente o nosso propósito e compromisso como cristãos.

A fé cristã fala-nos de um encontro, de Deus com a humanidade. Deus espera por nós, mas não fica à espera no Seu mundo, vem ao nosso encontro, em Jesus torna-Se um de nós, vem habitar connosco. Seguindo-O, cabe-nos a mesma prontidão para partir, para ir, para procurar, para ir em auxílio do outro, sobretudo dos mais fragilizados pela doença, pela idade, pela solidão ou por outra qualquer dificuldade.

Mais oração. Mais missão. Mais pastores e mais ovelhas. Mais luz. Mais Jesus. E não esquecer que Deus está metido nestas coisas, pelo que não há lugar para o desânimo, mas para alegria, para esperança, Deus não nos falta. Deus está metido nisto e conta contigo e comigo.

Crianças, jovens, adultos e os nossos velhinhos, são todos sujeitos da missão evangelizadora. Os novos trazem a alegria e o entusiasmo, os menos novos, trazem a sabedoria, a persistência e legam-nos a paciência, a fé a fidelidade.

Um dia a tartaruga decidiu sair da sua casinha, de noite. O sapo, que era seu vizinho, avisou-a: cuidado, não saias, é perigoso sair de noite, podes cair, pode vir algum animal perigoso e dar cabo de ti. A tartaruga não se deixou convencer e decidiu sair, transgredindo um normativo, uma tradição. Um pouco depois tropeçou e caiu, ficando de patas para o ar. O sapo, ouvindo o barulho do tropeção, veio ao seu encontro para lhe dizer: és casmurra, eu não te avisei? A resposta da tartaruga: pelo menos, vi o céu estrelado. De outra forma nunca teria visto o Céu e com tantas estrelas. Às vezes é preciso ir além das regras, das tradições e apostar, fazer pontes, transgredir com a rotina e com o passado e dar passos em frente, em direção aos outros.

Pe. Manuel Gonçalves,  in Voz de Lamego, ano 89/24, n.º 4511, 21 de maio de 2019

Editorial Voz de Lamego: Jean Vanier

Nasceu em Genebra, em 10 de setembro de 1928, filho de pais canadenses. Foi ficial da Marinha, primeiro britânica, depois canadense. Em 1950, desiste da carreira militar e começa a estudar teologia e filosofia. Sente-se atraído pelo Evangelho. Tornou-se professor na Universidade de Toronto, mas abandona a carreira universitária. Descobre que a sua verdadeira vocação é encontrar Jesus nas pessoas mais fracas e mais abandonadas. Em 1964 funda a Arca e em 1971 contribui para o nascimento do movimento “Foi et Lumiere” (Fé e Luz). Faleceu a 7 de maio, há oito dias.

A “Arca” é uma comunidade que acolhe pessoas com necessidades especiais, com 150 Centros espalhados por todo o mundo. Um dos seus livros, que li, falava de “Adam”, uma criança com autismo profundo, com o qual era muito difícil comunicar, pelo menos através de linguagem verbal. Adam era um desafio e um compromisso. O seu silêncio, um apelo à paciência e à escuta, ao serviço e à delicadeza. Mais do que Adam se adaptar à comunidade, os “cuidadores” é que tinha que se aproximar, perceber e acolher as suas dificuldades. Para lá da linguagem verbal, prevalecia a linguagem dos afetos, da ternura e da meiguice, visível no olhar, no sorriso, na festa com que acolhia Jean Vanier.

O Papa Francisco, na Viagem Apostólica à Bulgária e à Macedónia, não deixou de o propor como exemplo de humanidade, de fé e de serviço. Jean Vanier “trabalhava pelos mais pobres, pelos mais descartados, também por aqueles que no ventre de sua mãe foram sentenciados à morte – às vezes tenta-se convencer os seus pais a tirá-los e não deixá-los nascer. Ele acolheu-os e deu sua vida. Que Jean Vanier permaneça um exemplo para todos nós, que nos ajude do Céu… Na semana passada telefonei-lhe, ouviu-me, mas mal conseguia falar. Quero expressar a minha gratidão por este testemunho, um homem que soube ler a eficiência cristã do mistério da morte, da Cruz, da doença. Do mistério daqueles que no mundo que são descartados. Trabalhou não somente pelos últimos, mas também por aqueles que antes de nascer tem a possibilidade de serem condenados à morte. Ele gastou sua vida assim. Graças a ele e graças a Deus por nos ter dado um homem de tão grande testemunho”.

Tinha 90 anos e estava canceroso. Jean Vanier sobre a sua fragilidade: “Minha esperança e minha oração é que, quando chegar momento de fraqueza, eu possa aceitar e regozijar-me por tudo o que me foi dado. A vida humana começa e termina em fragilidade. Ao longo de nossas vidas somos ávidos por segurança e dependentes de ternura”.

Em Portugal vivemos a Semana da Vida. Este é um belíssimo testemunho de alguém que amou e cuidou da vida humana, na atenção aos mais frágeis. As palavras são sancionadas pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves,  in Voz de Lamego, ano 89/23, n.º 4510, 14 de maio de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Promessa e Risco

No próximo dia 12 de maio, ocorrerá o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Oportunidade, mais uma, para refletirmos sobre a nossa vocação e, refletindo, nos unirmos “em oração pedindo ao Senhor que nos faça descobrir o seu projeto de amor para a nossa vida, e que nos dê a coragem de arriscar no caminho que Ele, desde sempre, pensou para nós”.

O Papa Francisco, na sua mensagem para este dia, conclui com este desafio à oração e à disponibilidade para acolhermos o projeto de Deus.

O lema diocesano compromete-nos com o chamamento. A Igreja de Lamego é chamada e cada diocesano, cada cristão é chamado pelo Senhor a uma vida santa, feliz, luminosa. Deus não nos chama para nos controlar, nos escravizar, para exigir de nós algo que nos dificulte a vida. Chama-nos a “entrar num grande projeto, do qual nos quer tornar participantes, apresentando-nos o horizonte dum mar mais amplo e duma pesca superabundante”. O chamamento parte de um encontro. Jesus encontra Simão e André a remendar as redes e lança-lhes o desafio. A vocação dá-se num encontro. A deles e a nossa. Os dois irmãos aprenderam as dificuldades da pesca (e da vida). Há dias de pesca abundante e outros dias em que regressam sem terem pescado nada. A pesca milagrosa, diz o Papa, é a forma de Deus nos fazer descobrir que nos chama à grandeza. A nossa “vida não deve ficar presa nas redes do sem-sentido e daquilo que anestesia o coração… A vocação é um convite a não ficar parado na praia com as redes na mão, mas a seguir Jesus pelo caminho que Ele pensou para nós, para a nossa felicidade e para o bem daqueles que nos rodeiam”.

A primeira vocação decorre do batismo. É universal. É para todos os batizados: configurar a própria vida à vida nova que recebemos pela água e sobretudo pelo Espírito Santo, a vida nova de Cristo, para que, como novas criaturas, possamos transparecer a Sua bondade e ternura. Na vida de todos os dias. Em toda a parte, em todas as situações e circunstâncias. Darmos o melhor de nós mesmos, levarmos Deus aos outros. Encontrarmos Deus nos outros. A vida cristã é o nosso primeiro compromisso vocacional, em comunidade, na Igreja, onde nos inserimos pela participação sacramental. “A Igreja é nossa Mãe; por isso devemos amá-la, mesmo quando vislumbramos no seu rosto as rugas da fragilidade e do pecado, e devemos contribuir para a tornar cada vez mais bela e luminosa, para que possa ser um testemunho do amor de Deus no mundo”.

E dentro da vida cristã surgem vocações específicas com a promessa de bem, de amor e de justiça e que nos impele à arriscar, porque sabemos que Ele segue connosco.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/21, n.º 4508, 30 de abril de 2019