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Archive for the ‘Jesus Cristo’ Category

Editorial Voz de Lamego: Felizes os que acreditando veem

Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37), o sacerdote e o levita veem um homem caído por terra, morto ou quase morto. E o que fazem? Afastam-se para não ver, para não perderem tempo, para não se contaminarem, para não se meterem em problemas, tendo que justificar como encontraram aquele homem, o que lhe aconteceu, se viram ou se têm alguma coisa a ver com o sucedido. O ver bem implica tempo ou pelo menos atenção e compromisso.

O Bom Samaritano, por sua vez, vislumbra alguém que está maltratado, talvez moribundo ou, quem sabe, morto. Aproxima-se. Para quê? Para ver de perto, para ver bem! Para ver o que pode fazer. E faz. Vê em que condições foi deixado este homem, limpa-lhes as feridas, trata-o, coloca-o na sua montada, leva-o para a estalagem e assegura-se que cuidam bem dele. Porque viu, não os possíveis problemas futuros ou empecilhos, mas alguém a precisar de ajuda. Aproximou-se para ver melhor.

O essencial da vida é invisível aos olhos, é visível ao coração, como nos relembra Antoine de Saint-Exupéry, no Principezinho. O que é visível também é perecível. O que é duradouro, na maioria das vezes, não é tangível, não é manuseável, ainda que seja dessa forma, enquanto pessoas, que tudo se expresse, se traduza e se concretize.

No segundo Domingo da Páscoa e da Divina Misericórdia é-nos recordado a incredulidade de Tomé, desafiado a ver além do imediato e das “aparências”. Claro que os demais apóstolos também passaram por processo semelhante. Com efeito, também a eles Jesus lhes mostra as mãos e o lado, as marcas da Paixão. O Ressuscitado tinha aparecido a Maria Madalena, às mulheres, a Pedro, aos discípulos a caminho do campo, a caminho de Emaús, mas só depois de O verem, ali no meio, é que eles sancionam o que ouviram contar! Oito dias depois, Tomé, com a comunidade dos discípulos, tem a mesma oportunidade de ver Jesus.

A fé não é obscura, serve-se da racionalidade, leva-nos a ver mais longe e para lá do que é tangível, palpável, visível exteriormente. A fé ilumina as nossas escolhas, gera confiança. Só esta nos permite viver saudavelmente. Faz-nos acreditar nos outros, na vida, em Deus. Mobiliza-nos a rezar e a agir, mesmo sem vermos os frutos imediatos, envolve-nos na construção de um mundo fraterno e humano.

Jesus diz a Tomé, mas também te diz a ti e também me diz a mim: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 19-31).

Com Tomé aprendemos algo muito importante. Não é possível acreditar sem termos visto, sem fazermos a experiência de encontro com o Ressuscitado. Podem-nos falar d’Ele, dizer as coisas mais admiráveis, podemos vê-l’O como Alguém extraordinário, mas isso em nada altera a nossa vida. Mas se O vemos, se O descobrimos, se nos encontramos com Ele, então alguma coisa terá que mudar. A nossa vida nunca mais será a mesma.

Jesus mostra a Tomé, e a nós, que está visível pela fé no partir do pão (Reconheceram-n’O ao partir do pão. Fazei isto em Memória de Mim), na comunidade (quando dois ou três se reunirem em Meu nome, Eu estarei no meio deles); no serviço aos irmãos (O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis). Nas palavras a Tomé, podemos ouvir Jesus: quando virdes o meu lado, as minhas mãos, as minhas chagas, então sabereis que Eu vivo no meio de vós. Seremos felizes se O virmos no partir e no partilhar do pão, se O virmos e d’Ele cuidarmos nas feridas dos nossos irmãos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/22, n.º 4604, 13 de abril de 2021

Editorial Voz de Lamego: Aspirai às coisas do alto

Aspirar às coisas do alto

Cristo morreu! É o lamento de sexta-feira santa. Tudo está consumado.

Cristo voltou à vida, por dom maravilhoso do amor de Deus. É o anúncio prazeroso e feliz de Domingo!

O Amor de Deus em Jesus Cristo é mais forte que a morte. Páscoa é esta passagem da morte à vida, das trevas à luz, do medo à confiança, da dispersão à comunhão, da desolação ao encontro. A ressurreição não é um acontecimento banal, usual, é um acontecimento inaudito, novo, não é uma conquista humana, científica, é intervenção de Deus. Ainda procuramos palavras para descrever a ressurreição, o voltar à vida, não biológica, mas gloriosa. O importante mesmo é a alegre e boa notícia: Jesus está vivo, no meio de nós, e, a partir do meio, nos atrai para constituirmos família.

A boa notícia, a informação acerca de Jesus, não é para autocomprazimento, para regozijo pessoal ou para aumentar a cultura geral, mas é saber que se torna anúncio. Não há discípulos que não sejam apóstolos, que não sejam missionários. É como os dons, são dons enquanto estão ao serviço dos outros, de contrário serão teoria, hipóteses, possibilidades, mas não dons, não realidade. Não há tempo a perder. É AGORA!

Eis a alegria do Evangelho, a Boa Notícia: Cristo, Filho de Deus, está vivo, está no meio de nós. As trevas foram vencidas pela luz. O medo deu lugar à confiança. Da morte ressurgiu a vida. O Crucificado ressuscitou. O amor venceu o pecado e a desolação. Não podemos calar; não podemos esconder; não podemos abafar o grito de júbilo, não podemos encerrar tão intensa luz. O sepulcro fica para trás. É tempo de partir. É tempo de apregoar a Boa Notícia. Ele não está na morte, não está no túmulo. Ele está onde há vida. Ele é vida, nova, ressuscitada, gloriosa. Ele encontra-nos, ponhamo-nos a caminho. Ele precede-nos. Sigamo-l’O.

Uma grande alegria tende a espalhar-se, extravasa, não é possível guardar só para nós.

A Boa Notícia espalha-se, e os Apóstolos são surpreendidos por Jesus Ressuscitado. É agora que se tornam verdadeiramente apóstolos, missionários. Não deixam de ser discípulos – correriam o risco da dispersão e do engodo – mas vem ao de cima a missão evangelizadora. O titubeante Pedro, anuncia Jesus com alegria e convicção. É tempo de partir, de ir, de anunciar em toda a parte, de testemunhar. «Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos. É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho: quem acredita n’Ele recebe pelo seu nome a remissão dos pecados».

O desafio é que o nosso coração bata ao ritmo do coração de Jesus. Ele que era de condição divina, assumiu-nos na nossa fragilidade humana, na nossa finitude, para nos ensinar a viver na intimidade do Pai e na certeza que a vida se cumpre pelo amor que é mais forte do que a morte. Depois da Sua ressurreição/ascensão, cabe-nos exercitar a nossa identidade e a nossa pertença. “Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar, então também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória” (Col 3, 1-4)

O convite do Apóstolo é claro: afeiçoar-nos às coisas do alto, tomar as feições de Jesus, procurando imitá-l’O no amor e no serviço a cada pessoa que encontrarmos no nosso caminho, especialmente aos mais pequeninos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/21, n.º 4603, 6 de abril de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Como Maria, com o olhar fixo em Jesus

A alegria do Evangelho, a Boa Notícia, proclamada no primeiro dia da Semana, o Domingo de Páscoa, é que Cristo, Filho de Deus vivo, está no meio de nós. As trevas foram vencidas pela luz. O medo deu lugar à confiança. Da morte ressurgiu a vida. O Crucificado ressuscitou. O amor venceu o pecado e a desolação.

Estamos em plena Semana Santa. A liturgia destes dias faz-nos peregrinos do Calvário e da Cruz, do amor e da entrega de Jesus, da vida nova que vai surgir.

Antes da Páscoa, a sexta-feira santa. A sexta-feira só se percebe com a Luz que irradia do túmulo de Jesus. A Ressurreição surge depois da Cruz e faz-nos perceber que chegamos à vida quando a gastamos a favor dos outros.

Olhando para os discípulos, para Judas e para Pedro, para as mulheres, para Simão de Cirene, para Pilatos e autoridades judaicas, para uma multidão instigada pelos líderes religiosos, como é que nos vemos diante de Jesus? Se tivéssemos estado lá, naquela ocasião, poderíamos ser qualquer um. Fortalecidos pelo testemunho de muitos, pelo encontro com o Ressuscitado, pelo acolhimento de Jesus, vivo, nas comunidades que se fazem Igreja, Corpo de Cristo, por certo estamos mais preparados para Lhe responder.

Ao longo da história da Igreja, muitos foram testados na sua fé. A esta distância, seria fácil julgar aqueles que não tiveram a força suficiente para resistir às ameaças, à perseguição, à exclusão, à tortura. Perante tamanha violência, teremos que reconhecer que não sabemos se resistiríamos ou não. Mas muitos foram capazes de seguir Jesus até à Cruz, até à morte. Na atualidade, continua a haver muitos mártires, pessoas excluídas do emprego, da habitação, expulsas do seu país, a serem torturadas e mortas, mas ainda assim, a persistirem na fé cristã.

Jesus, no Horto das Oliveiras ou no Calvário, diante da violência que se aproxima e a que Se sujeita, confia no Pai. Faça-se o que Tu queres.

Com Maria aprendemos a responder ao projeto de Deus, acolhendo a Sua vida, deixando que Ele nos preencha com a Sua Graça. Mais visível ou mais discretamente, Maria está por perto de Jesus, gerando-O e dando-O ao mundo, nos primeiros passos, ensinando-O a falar e a andar, e a rezar, e, juntamente com São José, mostrando como é importante viver em família, respeitar as pessoas idosas, ajudar os vizinhos, participar dos momentos de festa e dos momentos de dor. Em Jerusalém, Maria e José colocam o Menino sob a proteção de Deus. Mais tarde, Maria participa na alegria das Bodas de Caná e intervém junto de Jesus. Durante a Sua vida pública, os evangelhos mostram-na preocupada com o que d’Ele se diz. Em tantas situações, percebe-se que Maria está com os discípulos e com outras mulheres. Também no caminho agreste, duro, pesado do Calvário, junto à cruz, de olhar firme e coração apertado, Ela permanece diante de Jesus, Filho de Deus, e Seu Filho muito amado. É Mãe que chora, por todas as mães que perdem os seus filhos, e, como discípula, acolhe a vontade de Deus. E qual a vontade de Deus? Que sejamos felizes, sabendo que a felicidade passa pelo amor, pela entrega confiante, pelo serviço aos irmãos, ainda que exija esforço, dedicação e sacrifícios. Quem se sujeita a amar, sujeita-se a padecer.

Fixemos o nosso olhar no de Jesus, permitindo que Ele nos guie da Cruz à eternidade, da morte à ressurreição, da sexta-feira da Paixão ao Domingo de Páscoa, das trevas à luz, da tristeza à alegria do reencontro, do desencanto à paz que Ele nos dá.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/20, n.º 4602, 30 de março de 2021

Editorial Voz de Lamego: Estamos agora mais perto da salvação!

É a nossa esperança assente na fé que nos une a Jesus Cristo e, n’Ele, aos irmãos, constituídos em comunidade, em discípulos missionários. A Páscoa é oportunidade para amadurecermos e renovarmos a nossa fé, purificando-a do acessório, tradições, usos e costumes. Estes são beneméritos na medida em que nos ajudem a reaviar os acontecimentos do passado, tornando-os visualizáveis na atualidade.

O acontecimento da paixão redentora de Jesus, não é uma realidade do passado, é vivência real do nosso tempo. Jesus dá-Se, de novo, por ação do Espírito Santo, em Igreja. Ele veio! Ele vem e traz a eternidade até nós, faz-nos participar do banquete celeste. Na Cruz, Ele oferece-Se por mim e por ti, faz-nos irmãos, envolve-nos em família. Ressuscita e arrasta-nos para a vida divina; partilha a Sua vida, torna-Se um de nós, para nos fazer participantes da Sua vida. É o mistério maior da nossa fé. Estamos lá! Ele está ali, na Eucaristia, senta-Se connosco, fala para nós, interpela-nos, dá-nos o Seu corpo, a Sua vida por inteiro.

De forma mais solene, em cada ano, a Páscoa é um desafio que nos faz recuar no tempo, ao tempo da vida histórica de Jesus, mas sempre na certeza que não somos tanto nós que recuamos, mas é Ele que traz o passado até à nossa vida, fazendo-nos experimentar, no encontro d’Ele connosco, a Sua entrega filial. A hora é hoje. É hoje que Jesus está na Cruz, é hoje que Jesus sofre em cada irmão marginalizado, esquecido, violentando, em cada irmão espezinhado ou remetido para as periferias. Jesus continua a ser crucificado na criança que morre à fome, na mulher que é agredida, nas famílias destruídas pela guerra, ou em busca de pão, no jovem iludido nas dependências químicas, nos pobres sacrificados à economia.

É hoje que Jesus ressuscita e nos ressuscita nos propósitos e compromissos de O acolhermos, acolhendo, amando e servindo os irmãos. Aquilo que fizerdes ao mais pequenos dos irmãos é a Mim que o fazeis. Não há verdadeira Páscoa sem conversão ao coração de Cristo, que ama, consumindo-Se totalmente. Não há verdadeira Páscoa, transformação autêntica, se continuar a faltar tempo e lugar para os mais pequeninos, para os mais pobres e fragilizados. A Páscoa recria a criação, torna novas todas as coisas. Somos o Seu olhar, as Suas mãos que perdoam e abençoam, protegem e levantam, servem e ajudam.

Interpela-nos São Paulo: “Sabeis em que tempo vivemos: já é hora de acordardes do sono, pois a salvação está agora mais perto de nós do que quando começamos a acreditar. A noite adiantou-se e o dia está próximo. Despojemo-nos das trevas e revistamo-nos das armas da luz” (Rom 13, 11-12).

Há um ano vivemos uma Quaresma atípica! Como atípica também a deste ano. Há um ano, as celebrações comunitárias foram confinadas! Desta vez, a Quaresma iniciou em confinamento, mas em tempo útil regressámos à comunidade, ali onde a Igreja nasce, amadurece e se realiza. Claro que em cada Eucaristia está todo o povo, pois Deus, em Jesus, pelo Espírito Santo, dá-Se para todos, não para uma pessoa, por mais santa que pudesse ser. A oferenda é por todos, todos estão implicados na oração e no banquete, todos são benificiários do mistério pascal. Mas, na realidade sensível da nossa carne, sentimos urgência e necessidade de estarmos também fisicamente envolvidos, próximos dos outros ao ponto de lhes vermos os olhos e sentirmos o seu odor e os seus tremores!

Deixemo-nos envolver pela alegria da Páscoa que se aproxima, certos de estarmos mais perto… da salvação.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/19, n.º 4601, 23 de março de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Quero ver o vosso rosto

Na edição da Voz de Lamego desta semana teremos, num dos pratos principais, a entrevista ao novo Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lamego. Numa das respostas às nossas questões, o Dr. António Carreira referiu uma expressão do nosso Bispo, D. António Couto, na entrada solene da Diocese: “Quero ver os vossos rostos”.

Eis a citação: “Queridos filhos e irmãos, pais e mães que Deus me deu nesta dorida e querida Diocese de Lamego. Quero muito ver o vosso rosto. Já sabeis que trago notícias de Deus. E que conto muito com cada um de vós, para levar a todos os lugares e a todas as pessoas desta bela Diocese este vendaval de graça e de bondade que um dia Jesus desencadeou em Cafarnaum” (D. António Couto, 29 de janeiro de 2012).

É uma mensagem que nos interpela, e por maioria de razão, nos dias que passam. Queremos ver o rosto uns dos outros! O olhar e o sorriso! O coração e a vida! As esperanças e as angústias! Há quem se tenha afeiçoado de tal forma à máscara que já não a dispensa, nem nos perfis das redes sociais e, quem sabe, no CV, por acharem que essa é a sua (nova) identidade!

Quando encontramos alguém pela primeira vez, a tentação é de pedir para que nos mostre o rosto. O olhar é importante – os olhos são a janela da alma –, mas também os contornos do rosto, o sorriso completo. O cuidado que os outros nos merecem exigem o uso da máscara e o distanciamento físico, mas o desejo permanece: quero ver o teu rosto! Mau é quando não queremos ver o rosto do outro; quando escondemos o rosto e nos protegemos do olhar alheio. Já tiveram a experiência de conversar com alguém que se esconde, que está fechado em si mesmo e não levanta os olhos, e nos olha de esguelha? É uma estranha sensação! Não estamos em casa! Não nos sentimos em casa com o outro quando o seu olhar se esconde! Curiosamente, com as máscaras, tendemos a confrontar-nos mais com o olhar. Só conseguimos ver as expressões junto aos olhos! Não conseguimos ler os lábios, então olhamos mais nos olhos uns dos outros. Olhar nos olhos é colocar-nos no mesmo plano, nem acima nem abaixo.

A um determinado momento, uns gregos, que se encontravam em Jerusalém, por ocasião da festa, vão ter com Flipe e dizem-lhe: “Senhor, nós queremos ver Jesus” (Jo 12, 20-22). Não sabemos os motivos para quererem ver Jesus, mas é um desejo que os leva a dar os passos necessários para chegarem à presença de Jesus. Não basta a informação que recebemos dos outros, não são suficientes números ou estatísticas, mas olhar olhos nos olhos, ver a face, acolher o rosto dos outros! Assim a nossa relação com Jesus, assim a nossa relação com os outros. Ver o rosto, o coração e a vida, ir ao encontro de quem sofre, conhecer a sua história de vida, escutar e perceber, amar e servir! E não é filosofia! É a vida de Jesus, terá de ser a nossa também.

Os tempos que se avizinham não vão ser fáceis, cabe-nos fazer tudo o que está ao nosso alcance, e envolver outros, para que os mais frágeis ou os que caiam numa situação precária não se convertam em números de estatística.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/09, n.º 4591, 12 de janeiro de 2021

Semente de esperança!…

Mensagem do Departamento Nacional da Pastoral Familiar por ocasião da Festa da Sagrada Família, 2020

Ao observar e contemplar a Sagrada Família de Nazaré, esta aparece como testemunho, exemplo e inspiração para todas as famílias, sobretudo para as famílias cristãs. 

 Em tempo de pandemia, tempo de incertezas e sofrimentos, a Família de

Nazaré é fonte de conforto e de coragem, sobrepondo-se aos medos que nos paralisam e nos impedem de acolhermos a novidade do Deus que mergulha na história da humanidade. Ela manifesta uma renovada esperança e convida-nos a sermos portadores da Boa Nova que veio até

nós pela encarnação do Verbo de Deus. 

A Sagrada Família de Nazaré, é escola de virtudes, vivendo a fidelidade a

Deus no seu quotidiano mostram a bondade de coração, a esperança sempre nova, a alegria de se sentirem amados, a responsabilidade da sua missão, o sentido e a prática da justiça e da paz. As virtudes da Sagrada Família fazem-nos olhar com confiança e expectativa de que a comunidade humana e cristã se constrói no amor generoso, humilde e simples. Nas nossas lutas e inquietações, nas dificuldades e desalentos a Sagrada família surge como uma oportunidade de graça e de confiança, para percebermos a vida

como uma missão e crescermos em coesão familiar. 

A Sagrada família interpela as nossas famílias de hoje a uma vida de paz, de serviço,

de acolhimento, de entrega, de escuta dos necessitados, de se questionarem perante os desafios diários, de não fugirem às dúvidas que invadem os seus lares. Só à luz da Sagrada Família é possível que a novidade do evangelho inunde o coração das famílias e busquem a beleza do encontro de uns com os outros, de modo que cada membro se sinta participante da construção da “igreja doméstica”. Cada membro da família é um tesouro para os outros, é algo de maravilhoso, é uma riqueza sem medidas, porque todos se amam e fazem da sua vida um dom, ao jeito de Jesus Maria e José. 

Está nas mãos das famílias uma extraordinária missão! Cultivar a paciência e infundir esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Carta a S. José.

Todas as famílias experimentam, com certeza, que não são perfeitas, mas podem aperfeiçoarem-se cada vez mais no amor transformador, o mesmo é dizer, desejarem a santidade. As fraquezas e fragilidades fazem parte da realidade humana, no entanto, o Senhor não nos condena, mas sim acolhe-nos, abraça-nos, ampara-nos, perdoa-nos. A Verdade apresenta-se-nos sempre como o Pai misericordioso da parábola (cf. Lc 15, 1132): vem ao nosso encontro, devolve-nos a dignidade, levanta-nos, organiza uma festa para nós, dando como motivo que «este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado». (cf. Lc 15, 24). Carta a S. José.

Que a Sagrada Família seja, para cada família, proteção e auxílio e que a paz e entendimento sejam o projeto de toda a existência, para que juntos caminhemos em busca da concórdia e do bem da humanidade.

Editorial da Voz de Lamego: Um Menino nos foi dado

O nascimento de uma criança é, ou deveria ser, uma bênção. Um bebé chega e altera tudo! Desinstala, incomoda, preenche tempos e espaços, exige atenção e cuidado. Vivemos num mundo de contradições várias, precisamos de ser férteis, nesta Europa envelhecida, e, no entanto, as taxas de natalidade continuam a ser muito baixas e todos os dias vemos agressões para com as crianças, abusos, tráfico, trabalho infantil, violência. Sem o nascimento de novos seres humanos não é possível a sobrevivência da humanidade e sabe-se que qualquer comunidade que não tenha crianças ou que as tenha num número reduzido tende a ser mais frágil, mais dependente do exterior, economicamente insustentável, pois são as crianças e os jovens que geram mais movimento e fazem circular a economia.

Jesus vem para desinstalar, para ser sinal de contradição, como sublinha o velho Simeão diante de Maria e de José, é Ele a Luz das nações (cf. Lc 2, 25-35). Nasce pobremente, numa manjedoura, sem grandes confortos, num ambiente pouco limpo, junto de animais. Ele que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, isto é, com a Sua vida, com o Seu amor (2 Cor 8, 9).

Vivemos num tempo diferente, com outras comodidades, mas temos consciência que o conforto sem o calor humano vale de pouco. Precisamos de comodidade, mas precisamos muito mais da amizade e de com quem partilharmos a vida. A vida, diz-nos Augusto Cury, “contém capítulos imprevisíveis e inevitáveis. Todo ser humano passa por turbulências na sua vida. A alguns falta o pão na mesa; a outros, a alegria na alma. Uns lutam para sobreviver. Outros são ricos e abastados, mas mendigam o pão da tranquilidade e da felicidade. Por isso há miseráveis que moram em palácios e ricos que moram em casebres”.

Aquele Menino obriga-nos a ajoelhar, a debruçar-nos sobre ele, a colocar-nos à mesma altura, para estarmos olhos nos olhos. Um Menino, numa manjedoura! Um Menino que é luz, bênção e alegria para aqueles pais, para mim e para ti, para a humanidade inteira. Quando queremos ver bem um bebé aproximamo-nos da mãe ou do berço, o que nos obriga a inclinar-nos ou a baixar-nos. O mesmo sucede se queremos conversar com uma criança de igual para igual, ajustamos a nossa altura, ajoelhamo-nos, adaptamos a voz, tornando-a mais suave (e muitas vezes acriançada, como se dessa forma a criança nos percebesse melhor!). Se olhamos a criança a partir de nós, ela ver-nos-á como gigantes; se a olhamos a partir dela mesma, da sua estatura, ela perceberá que queremos comunicar e lhe queremos bem.

Assim faz Deus connosco, em Jesus Cristo, abaixa-Se, apequena-Se, encarna, faz-Se um de nós, coloca-Se ao mesmo nível, da nossa carne, mortal e finito como nós, frágil e sujeito às mesmas vicissitudes, a ser amado, esquecido ou maltratado. Tudo por amor. Este Menino veio para ser luz e bênção e para ser sinal de contradição. Com a Sua vida próxima e terna ensina-nos que o caminho da salvação se veste de amor e de perdão, de serviço e de cuidado. Para sermos como Ele, e somo-lo enquanto discípulos missionários, não precisamos de nos agigantarmos diante dos outros, precisamos de nos despojar de adornos, tornando-nos crianças na docilidade e transparência, na sinceridade de coração.

Santo Natal a todos os que fazem a Voz de Lamego (edição, publicação, colaboração de textos, notícias e fotos, na publicidade e anúncios, assinantes, leitores e amigos) e a todas as famílias a quem esta boa nova chegar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/07, n.º 4589, 22 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O encontro com o Senhor do Tempo

O tempo é uma espécie de espiral que se enlaça entre lutos e vidas novas, entre fins de ciclos que nos conduzem para novas situações e novos projetos. Com efeito, como seres humanos somos constituídos no tempo e inseridos no espaço, somos presente, enraizados no passado e impelidos para o futuro. As memórias solidificam o que somos e as capacidades que temos, permitem-nos caminhar entre as coisas boas que já fizemos, as menos boas que queremos e podemos evitar, para que na atualidade não sejamos fantasmas do que fomos. Por outro lado, como o amanhã pertence a Deus, olhamos para o futuro com esperança, pois Aquele que está no início também vai estar à nossa espera no final do caminho; Quem nos gerou para vida também garantirá que a nossa vida não se perde.

No final do ano litúrgico, particularmente nas parábolas de Jesus, que o Evangelho nos serve aos Domingos, somos colocados diante do Senhor do Tempo, como Juiz benevolente e Pai misericordioso.

No entretanto, sem Se ausentar, alheado e distante, Deus confia-nos o mundo, dá-nos o tempo, gratuitamente, os dons e os talentos, para que cuidemos uns dos outros e para administrarmos os bens da criação. A perspetiva não é o açambarcamento, mas a partilha que multiplica o que se dá! Como sublinha D. António Couto, o pecado dos primeiros pais não foi o comerem do fruto da árvore, mas o facto de o recolherem e o reterem só para si mesmos, sem deixar nada para outros. O que Deus dá não é para esconder, para guardar, mas para dividir. O que guardamos perde-se, o que damos multiplica-se.

No final da caminhada, Ele estará, como sempre, à nossa espera. Ajustamos contas, não com um estranho, mas com Alguém que nos conhece e que conhecemos. Precede-nos na vida e espera por nós para nos acolher na Sua habitação eterna.

O Reino de Deus é comparável a 10 virgens que esperam para receber e acompanhar o noivo ao banquete nupcial. Esperamos, não de braços cruzados, mas ativamente, vigilantes. Quem vai para mar prepara-se em terra. Parte do grupo prepara-se e leva azeite nas candeias e de reserva nas almotolias. As outras apostam na sorte: ou que o noivo venha cedo ou alguém possa ajudá-las caso fiquem sem azeite. Na verdade, somos responsáveis uns pelos outros. Mas há a responsabilidade pessoal, os outros não nos substituem, não vivem por nós. Deus não vive na nossa vez.

O reino de Deus é comparável àquele homem que partiu de viagem e confiou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro. Os primeiros duplicaram o valor. O último, com medo, escondeu o talento, não produzindo. Não arriscou nada. O cristão é alguém que tem que arriscar. [Cf. Homilia do Papa Francisco no Dia Mundial dos Pobres, na página sete desta edição] O que nos é dado não é para devolver a Deus como Ele no-lo confiou, mas para o multiplicarmos, no cuidado por toda a criação, especialmente pela humanidade, e sobretudo na atenção privilegiada aos mais pobres, ao jeito de Jesus, traduzível na práticas das obras de misericórdia. No final seremos julgados pelo que fizemos aos mais pobres. É Jesus quem no-lo diz: o que fizeste aos mais pequeninos foi a Mim que o fizeste. A vida eterna começa em terra. O amanhã decide-se hoje, o final inicia-se na história e no tempo para que diante do Senhor do Tempo a nossa vida lhe seja entregue preenchida de amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/02, n.º 4584, 17 de novembro de 2020

Apresentação do Plano Pastoral Diocesano 2020-2021

Editorial da Voz de Lamego: A vinha do Senhor

As primeiras palavras do Papa Bento XVI, logo depois da eleição, a 19 de abril de 2005: “Os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”.

Muitas vezes se contrapõe Bento XVI ao Papa Francisco, e vice-versa, instrumentalizando um ou outro, conforme as conveniências e interesses pessoais ou de grupo. Cada um, com a sua personalidade e sensibilidade, mais Paulo ou mais Pedro, mas a mesma doçura ao serviço do mesmo Evangelho, da mesma Igreja, na fidelidade sem tréguas a Jesus Cristo, presente e atuante na Igreja, sacramento de Salvação, e no mundo ao qual somos enviados a testemunhar o amor de Deus, para que a fé seja contágio curativo, atração e luz. Não são cópia, mas também não são traição; não são correção, um em relação ao outro, mas simples servos servidores da vinha do Senhor, em tempos sucessivos, com o mesmo amor a Jesus, à Igreja, como Corpo de Cristo no tempo e na história, e ao mundo das pessoas, que louvam toda a criação.

No último Domingo, o Evangelho (Mt 20, 1-16a) apresentava mais uma parábola, com a qual Jesus nos faz vislumbrar um Deus que nos procura, em todo o lado, também na praça, nos caminhos e nas avenidas. Vem uma e outra vez, em todas as horas do dia e em todas as idades da nossa vida. Um Deus que é Pai e, por conseguinte, Se dá por inteiro, não tanto a partir dos nossos méritos, mas a partir do amor que transborda do Seu coração. Como Pai não pode senão amar e amar por inteiro. Não se ama devagarinho, às prestações, na condicional ou com as reservas para ver no que pode dar o relacionalmente! Ama-se. Ponto. Ama-se inteiramente. De contrário, serão cópias de amor, mas não amor.

Cada um de nós é, a um tempo, trabalhador da primeira hora, do meio do dia, do entardecer. Deus desafia-nos, convoca-nos, espera pela nossa resposta. Todos têm lugar à Sua mesa. Todos são acolhidos e agraciados com todo o Seu amor. Ele não desiste de ninguém. Não nos retira parte da herança, pois é sempre Pai que nos ama como Mãe.

A vinha do Senhor entende-se até onde há pessoas, mesmo que esquecidas da sociedade. Deus, revelado em Jesus, é a referência para nós. Daí o compromisso de uma “Igreja em saída”, como reiteradamente tem sublinhado o Papa Francisco. Se o Senhor sai em busca dos trabalhadores, para Quem nunca é tarde, como o Pastor em busca da ovelha perdida, em todas as encruzilhadas, também os Seus discípulos têm a mesma missão. Por um lado, são simples trabalhadores da vinha e, por outro, seguem o exemplo do proprietário, não descansam enquanto houver alguém desocupado, sem trabalhar, sem vínculo, sem amor, sem pertença ao Reino de paz e de amor. A vinha do Senhor é para todos, ricos e pobres, melhor, é para aqueles que aceitarem ser de Deus. Os últimos serão primeiros. É a opção de Deus. É a nossa opção. E como, mais uma vez, insiste o Santo Padre, os últimos, os mais desfavorecidos, devem ser os primeiros a ter acesso a uma vacina, gratuita, contra a COVID-19. Será uma forma de o mundo mostrar que as palavras têm a consistência das opções.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/41, n.º 4576, 22 de setembro de 2020