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Editorial: Quando Jesus passar, eu quero estar no meu lugar

Estar no nosso lugar, título da canção do Pe. Zezinho, não é estar parado, à espera, com os braços cruzados, deixando que a vida se cumpra, que o mundo melhore, que o tempo seja favorável para nos comprometermos uns com os outros. Estar no meu lugar, estarmos no nosso lugar, implica movimento, empenho, compromisso com a nossa condição de cristãos, seguindo Jesus e imitando-O.

A descansar ou a trabalhar, na escola ou em casa, estar no meu lugar significa dar o melhor de mim, vivendo, em prol dos outros.

A vida de Jesus, como a nossa, é feita de encontros, e desencontros! O anúncio da Boa Nova é essencial e faz-se de palavras e gestos, de abraços e de obras. Na vida de Jesus há lugar para todos. Queiramos nós!

Quando Jesus passava, João Batista estava a batizar! No seu lugar, portanto! E Jesus, identificando-Se connosco, fez-Se batizar (cf. Mt 3, 13-17). “Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos” e chamou-os: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”. Depois viu outros dois irmãos e também os chamou (cf. Mt 4, 18-22). E eles seguiram-n’O. Estavam no lugar certo para que Jesus os encontrasse! E, passando palavra, outros se juntam a Jesus.

Os encontros multiplicam-se. Jesus vai ao encontro da pessoa ou deixa-se encontrar! Nicodemos interpela-O (cf. Jo 3, 1-21), com o desejo de viver inflamado por aquele amor. No Poço de Jericó, a Samaritana está no que pensava ser o seu lugar, a tirar água do poço, mas depois percebe que talvez o seu lugar seja outro e que a sua vida pode ser saciada com outra água (cf. Jo 4, 1- 41).

São Mateus, Levi, está na banca a cobrar impostos. Aparentemente está onde deve estar e é aí que Jesus, ao passar, o provoca: Segue-Me (cf. Mt 9, 9-13). Zaqueu, por sua vez, procura ver Jesus que atravessava a cidade de Jericó. Chefe de publicanos, deixa o seu lugar para se aproximar e ver Jesus. Na verdade, é Jesus quem o vê e o desafia a sair do seu lugar para O acolher em sua casa e na sua vida (cf. Lc 19, 1-10).

Quando Jesus se aproximava de Jericó, um cego de nascença, à beira do caminho, chama por Ele. Jesus devolve-lhe a vista, fortalece a sua fé e o cego, que agora vê, segue-O. O encontro com Jesus leva-o por outros caminhos!

Em lugares desaconselhados, talvez, algumas mulheres encontram-se com Jesus! No meio da multidão, uma mulher, com um fluxo de sangue, fá-l’O parar, expondo-se, sujeitando-se ao escárnio, mas logo é acolhida e salva por Ele (cf. Mc 5, 25-34); para os lados de Tiro e de Sídon, uma mulher, cananeia, grita por compaixão e Jesus atende-a (cf. Mt 15, 21-28); perto da cidade de Naim, uma viúva, que vai a enterrar o seu filho único, é encontrada por Ele que lhe devolve o seu bem mais precioso (cf. Lc 7, 11-17); em casa de Simão, um reconhecido fariseu, uma mulher, deslocada do seu lugar, lava-Lhe os pés com as suas lágrimas, enxuga-lhos e derrama sobre Ele um perfume de alto preço, e obtém o perdão dos seus muitos pecados (cf. Lc 7, 26-50); mulher apanhada em flagrante adultério é levada a Jesus para que Ele a condene, num desfecho em que Jesus, perdoando-a, lhe diz para prosseguir por outros lugares (cf. 8. 1- 11)!

Junto à Cruz, no lugar que devem estar, Maria, sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria de Magdala, e o discípulo amado (cf. Jo 19, 25-27). Mas também o bom ladrão está no lugar certo para ser salvo por Jesus e passar a outro lugar: hoje estarás comigo no Paraíso (cf. Lc 39-43)! E nós, já nos colocamos a jeito para que Jesus passe na nossa vida?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/03, n.º 4634, 24 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: E da discussão nasce a luz

Em diferentes ocasiões, o Papa Francisco tem proposto a cultura do encontro, que passa, obviamente, pela cultura do diálogo. Nesta época de globalização, tornamo-nos vizinhos, mas longe estamos de ser irmãos. Corremos o sério risco de nos ligarmos a todo o mundo, mas sem nenhuma ligação que nos humanize e irmane, nos responsabilize pelos que vivem à nossa beira, quanto mais pelos que estão longe da vista e do coração. A pandemia fez-nos chegar mais longe, ver mais coisas e mais pessoas, mas parece que em definitivo nos separou da vida, dos cheiros e dos sabores, dos sofrimentos e necessidades dos outros!

À fraternidade desejada contrapõe-se a globalização da indiferença. Em tempo real, vemos as desgraças que se espalham pelo mundo fora, a miséria, os conflitos familiares, intergeracionais, a corrupção, a guerra, a ameaça, o terrorismo, a violência extrema. O nosso olhar, e sobretudo o nosso coração, habitua-se a estas situações, algumas macabras, mas que já não têm a força de nos chocar. É como quem vive perto da Igreja… por mais alto que o sino toque já não desperta. O cérebro acostuma-se aos odores, aos sons, às imagens! E adormece!

Contra a indiferença, apontando para Jesus Cristo, o Papa propõe a fraternidade. Em Cristo, reconhecemo-nos como irmãos, tendo um mesmo Pai que a todos ama como filhos. A referência constante há de ser Jesus que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. A Sua opção preferencial é pelos mais pobres da sociedade, os excluídos social, cultural e até religiosamente. A pandemia acrescentou pobreza à existente, em sociedades desenvolvidas, mas empobrecendo os países mais pobres. Pelo menos ficou em maior evidência a pobreza e a miséria para responder a esta catástrofe. Exemplo disso é o número reduzido de vacinação anticovid nos países terceiro-mundistas.

Como sublinhou o Papa Francisco, no 5.º Dia Mundial dos Pobres, “a humanidade progride, a humanidade desenvolve-se, mas os pobres estão sempre connosco, há sempre pobres e neles está presente Cristo”.

Não há tempos favoráveis, todo o tempo pode ser abençoado e oportunidade de empenho na transformação do mundo e das estruturas existentes para as colocar ao serviço de todos, mas especialmente dos que vivem nas periferias. Também a Igreja é chamada a esta conversão permanente. Um fazer-se que demora o tempo de uma vida, de cada vida, da vida de todos nós!

O adágio popular que intitula esta reflexão é uma interpelação constante na Igreja e à Igreja, mas de forma mais concreta nas diferentes fases do Sínodo dos Bispos, 2021-2023, que visa aprofundar a sinodalidade da Igreja, auscultando, discutindo, acolhendo propostas. A ideia não é apresentar um documento final irrepreensível, mas colocar os cristãos a refletir formas de participar mais ativamente na vida da Igreja, tornando-nos a todos mais corresponsáveis, em missão, partilhando das preocupações e dos anseios do Evangelho para este tempo. Como dizia uma santa senhora, na paróquia de Tabuaço, em Igreja importa mais que muitos façam pouco do que poucos façam muito ou façam tudo. É importante que todos se sintam responsáveis, chamados e enviados.

Este é mais um tempo favorável à discussão, enformada pela luz que vem do Pai, que nos traz Jesus, e que se expande no tempo por ação do Espírito Santo que sopra onde quer… e naqueles que Lhe permitem a inspiração! Tempo de diálogo e de escuta, não para diluir a verdade ou as convicções, mas para nos abrirmos aos outros. Três ações que se interligam, segundo o Papa Francisco: encontrar, porque o encontro muda a vida; escutar as perguntas, as preocupações, as esperanças de cada Igreja; discernir o que Deus quer dizer à Igreja e qual a direção para onde Ele nos quer conduzir.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/02, n.º 4633, 17 de novembro de 2021

Castanha, potencial económico do Concelho de Penedono

Penedono é um dos concelhos do distrito de Viseu, situado nos limites da Beira Alta, possuidor de uma traça vincadamente medieval e que ostenta orgulhosamente um passado que remonta aos primórdios da nacionalidade. É aqui, por entre montes e vales, outrora calcorreados pelo “Insigne Magriço”, que se produz a melhor castanha martainha. Se em tempos remotos este fruto era a base da subsistência alimentar do povo Beirão e da Raia Transmontana, que a conservava utilizando técnicas ancestrais e consumia ao longo do ano, hoje, volvidos vários séculos, ei-la presente no quotidiano nacional e internacional assumindo o estatuto de Fruto Rei, que lhe confere uma notoriedade singular.

Sendo um concelho predominantemente agrícola, Penedono tem na sua produção de castanha o principal impulsionador da sua economia, sendo esta o garante da sustentabilidade de inúmeros agregados familiares.

Como tal, conhecedora da realidade concelhia, a Autarquia de Penedono, tem desenvolvido esforços na promoção deste fruto, acompanhando de perto as preocupações dos produtores e o trabalho desenvolvido no combate às pragas que assolam o castanheiro, nomeadamente a vespa da galha, a tinta e o cancro, promovendo o patrocínio financeiro de inúmeras largadas para o controle da vespa da galha que, segundo a Cooperativa Agrícola de Penela da Beira, se encontra controlada. Para além disso, a Autarquia de Penedono aposta numa estratégia de promoção da castanha, participando e realizando inúmeros eventos que têm como único propósito a exortação deste fruto tão querido dos portugueses. Neste ano de 2021, A Sra. Presidente da autarquia , Cristina Ferreira, numa ação de promoção da castanha martaínha do nosso concelho, que teve início a 24 de outubro, terá durante todos os fins de semana do mês de novembro, um assador de castanhas no  Centro Histórico, onde, quem nos visita, poderá saborear as deliciosas castanhas, assistir e participar em atividades  de índole cultural e visitar o Centro de Mostra e Divulgação de Penedono, um espaço físico onde pode encontrar produtos locais que vão desde a hortícola , mel, doçaria, artesanato e muito mais, produtos endógenos provenientes do saber ancestral dos Penedonenses.

 Penedono pode muito bem reclamar o estatuto de maior produtor de Castanha Martaínha, uma variedade que existe somente nesta região, sendo um fruto de montanha com particularidades bem específicas, quer seja no palato, na apresentação e mesmo na saúde, uma vez que possui capacidades nutritivas reconhecidas por inúmeros nutricionistas.

Castanha de Penedono para o mundo

Sendo a castanha a maior alavanca económica do concelho de Penedono, tem na Cooperativa Agrícola de Penela da Beira um dos seus maiores dinamizadores na medida em que, esta instituição, não só comercializa a castanha, como a promove e proporciona apoio técnico aos seus associados.

Numa altura em que decorre a campanha de 2021, importa saber que, na campanha transata, a Cooperativa Agrícola rececionou e comercializou 400 toneladas de castanha, que tiveram como destino diversos mercados (95% vocacionados à exportação e 5% reservados ao mercado nacional).

A nível internacional, a castanha made in Penedono marcou presença nos Estados Unidos, Itália, França, Alemanha e Suíça, prova cabal de que este é um fruto verdadeiramente apetecível, fazendo as delícias não só de quem a descobre pela primeira vez, bem como alimentando o mercado da saudade.

Na campanha que agora decorre, a Cooperativa Agrícola de Penela da Beira já rececionou cerca de 200 toneladas de castanha, pese embora, meteorologicamente, este tenha sido um ano atípico, com temperaturas muito baixas no período de verão. No entanto, a qualidade da castanha não terá sido afetada, uma vez que, no que concerne à quantidade, se estima que esta alcançará números bem próximos da campanha anterior.

Mecanização da apanha da castanha

A mecanização da apanha da castanha é uma realidade cada vez mais necessária, isto porque o seu cultivo padece do mal generalizado na agricultura de falta de mão de obra. Para além disso, sendo um produto sazonal e em que a apanha decorre num espaço temporal muito restrito (de outubro a meados de novembro), urge repensar os métodos de apanha da mesma.

Existem no mercado soluções mecânicas para o efeito que, felizmente, vão sendo adotadas por grandes produtores de castanha. É o caso do Sr. Paulo Neto que, ante a dificuldade em encontrar mão de obra, preparou os seus soitos para a apanha mecanizada, adquirindo uma máquina acoplada ao trator. Um investimento avultado, que se rentabilizou com o passar dos anos uma vez que, o trabalho que agora é realizado por ele e pela sua esposa, com a máquina, era efetuado por cinco ou seis mulheres durante um mês.

Para Paulo Neto, este é um excelente ano, ao contrário do que inicialmente se previa e, comparativamente com o ano anterior, a sua produção será idêntica, tanto em quantidade como em qualidade.

Porém, nem todos os produtores, devido às mais diversas circunstâncias, sejam elas económicas ou de índole social, optaram pela mecanização da apanha da castanha. Se por um lado se trata de um investimento avultado, só ao alcance de alguns, outros há que ainda mantêm, devido à idade, alguma resistência ao avanço do progresso. Mesmo assim, este será um progresso necessário, que certamente vingará com a sua implementação por novos produtores, uma realidade que vai sendo uma constante.

Na localidade de Bebeses encontramos o Sr. Diamantino, outro produtor de castanha que se mostra reservado com os resultados da campanha 2021, não por existir uma discrepância entre a qualidade e quantidade da castanha, mas sim pela dificuldade que tem em encontrar mão de obra para a apanha. Recorreu a uma das várias empresas de prestação de serviços agrícolas mas, mesmo essas, se debatem com o mesmo problema.

Quanto ao escoamento do seu produto, o Sr. Diamantino, não sendo sócio da Cooperativa de Penela da Beira, mostrou-se agradado com os preços praticados e, à semelhança de anos anteriores, não sentiu qualquer dificuldade no mesmo.

A comercialização da castanha não é um monopólio exclusivo da Cooperativa Agrícola de Penela da Beira, existindo outros intervenientes, tais como comerciantes, devidamente habilitados, que compram diretamente ao produtor, para além de intermediários locais que a vão adquirindo, para posteriormente a venderem a retalho. Poderemos estimar que a produção de castanha em Penedono transcende, largamente, as 500 toneladas.

A castanha e a sua componente turística

Para além do aspeto económico, vital à economia Penedonense, a temática da castanha assume cada vez mais um papel primordial no setor do Turismo.

Se nos tradicionais meses de verão Penedono verifica picos de visitantes, atraídos pela sua história e pelo seu património edificado, é na época das castanhas, em pleno outono, que se verificam fluxos de visitantes próximos dos verificados na dita época alta de turismo.

Com paisagens únicas, de soutos com frondosos castanheiros, solos repletos de ouriços e castanhas em tons de ouro, Penedono torna-se destino de eleição dos amantes da natureza e das tradições que envolvem o fruto rei, como a apanha e os tradicionais magustos regados com a famosa jeropiga que, em sintonia, geram um verdadeiro manjar dos Deuses.

Ora, assim sendo, este fluxo de turistas tem repercussões económicas no tecido hoteleiro concelhio, pois aqueles que nos visitam planeiam atempadamente a sua estadia, de forma a vivenciar todo o processo de apanha da castanha.

A Quinta da Picoila, espaço de agroturismo, pertença da D.ª Isaltina Cabral, tem verificado um aumento de reservas de turistas para a sua propriedade. Aqui encontram um ambiente único de turismo rural onde podem desfrutar do maravilhoso espaço, passear pelos soitos, apanhar castanhas e sentir de perto a dinâmica característica desta época.

Importância da castanha na gastronomia local, em particular na doçaria.

Penedono, muito justamente, é conhecido hoje como uma zona onde se produz das melhores castanhas da variedade martainha. A castanha é consumida enquanto fresca e de uma forma sazonal, no período entre setembro e janeiro. A base alimentar das nossas castanhas já vem dos nossos antepassados, sendo estas muito multifacetadas nos usos culinários. É um alimento muito versátil, em termos de confeção, podendo comer-se cozida com erva doce, assada, como acompanhamento de pratos, na base de sopas ou na confeção de apetitosas sobremesas e bolos. O público mais informado já reconhece este conjunto de utilizações alternativas para a castanha, utilizando-a de forma mais corrente na sua alimentação.

Desde os tempos medievais que a cultura deste fruto é muito importante, quer como alimento, mas também primordial como um bem comercial.

Note-se que a castanha pode ser desfeita e reduzida a puré, transformar-se em “farinha” para bolos e pães ou até ser comida como um substituto da batata.

Muitas são as sugestões para o uso deste fruto de outono, dadas as suas propriedades que permitem a produção de diversos produtos, desde a castanha fresca até aos seus derivados sujeitos a transformação.

Destaca-se na vila de Penedono a Padaria e Pastelaria Castelo, situada no Bairro do Prazo, cuja proprietária D. Gina Andrade Aguiar confeciona vários doces bem conhecidos do nosso dia a dia, adaptando-os e introduzindo a castanha como elemento principal. Destacam-se o pastel de nata, a queijada, o brigadeiro, a tarte, o pudim e o bolo-rei, todos eles com o sabor único deste fruto.

Para a promoção da qualidade, diversidade e inovação da castanha, bem como de outras matérias-primas locais, a Câmara Municipal de Penedono promoveu, em novembro de 2014, e inserido no Mercado do Magriço, a 1ª edição do concurso “PENEDOCE” (cujo júri foi presidido pelo Chefe Hernâni Ermida).

Neste concurso, a textura, o aspeto visual, o sabor, o uso de outros ingredientes, todos de proveniência local, para além da castanha, bem como a criatividade demonstrada pelo artesão/pasteleiro na execução da iguaria, foram fatores tidos em conta. Assim, foram premiados os dois doces de castanha mais originais e bem conseguidos (o ouriço de castanha e o biscoito de castanha), quer pelo caráter tradicional ligado às raízes da doçaria regional, quer pelo aspeto inovador representado por uma nova e criativa abordagem e apresentação.

A versatilidade da castanha, na opinião de D. Gina Andrade Aguiar, foi umas das bases do sucesso da sua empresa nos últimos anos, muito por consequência de tal evento promovido pelo Município de Penedono.

A realização deste tipo de concursos, como o referido anteriormente, que tem como objetivo principal mostrar a criatividade e inovação do uso deste fruto na cozinha, promove também os pratos regionais à base do mesmo.

Continuará a ser objetivo futuro do Município apoiar e dar a conhecer a evolução de todos os produtos em redor deste fruto, para a promoção do concelho e do empreendedorismo local, bem como para a valorização do mesmo, através da sua qualidade e diferenciação.

in Voz de Lamego, ano 91/49, n.º 4631, 3 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: A capa e a túnica

No Sermão da Montanha, que inicia com proclamação das bem-aventuranças, Jesus contrapõe à Lei de Talião (olho por olho, dente por dente… com o risco de nos tornarmos todos cegos e desdentados), que já provia a alguma equidade na justiça ou numa vingança mais equilibrada, a Lei do Amor. “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele durante duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado” (Mt 5, 39-42).

Na parte final do Evangelho, Jesus faz-nos refletir sobre o que será o juízo final, colocando-nos, não diante de uma ameaça catastrófica, mas desafiando-nos a viver bem, predispondo com generosidade dos nossos dons e talentos para colocarmos ao serviço dos irmãos. O reino de Deus, com efeito, inicia, não na hora da nossa morte, mas na vida presente, atual, histórica. O que havemos de ser já se há de vislumbrar na nossa vida temporal, ainda que só sejamos totalmente diante do olhar último e misericordioso de Deus que é Pai e mais Mãe.

«Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’» (Mt 25, 31-46).

No dia 11 de novembro, comemoramos um dos santos mais populares da Igreja, cujo gesto de dividir a sua capa com um mendigo, nos interpela à vivência do Evangelho da Caridade. São Martinho de Tours nasceu em 316, na cidade de Sabaria, Panónima, e era filho de um tribuno romano. Acompanha o pai para a cidade de Pavia e logo que atinge a idade de recrutamento, com quinze anos, entra para a armada romana, incorporando a guarda pessoal do imperador.

O regimento de Martinho desloca-se para a Gália, para Amiens, cenário da lenda da capa. Um inverno rigoroso. Num dia em que transpunha o portão da cidade, deparou com um pobre mendigo esfarrapado, a tiritar de frio. Vendo que ninguém o acudia, ele mesmo, com a espada, rasgou a sua capa militar e deu metade ao pobre mendigo. A capa militar pertencia ao exército, pelo que não podia ser vendida ou dada. O cortá-la a meio foi uma forma de dar (a sua parte, o que lhe pertencia) conservando uma parte que era posse militar. Os colegas de armas fizeram troça dele. Nessa noite, teve uma visão em que viu Jesus Cristo com a metade da capa vestida. Concluiu que foi a Cristo que deu a sua capa.

No dia seguinte, em nova visão, ouviu uma voz que lhe disse: “Cada vez que fizeres o bem ao mais pequeno dos meus irmãos é a mim que o fazes”. Uma e outra visão assentam no juízo final narrado por Jesus. Martinho passou a ver os cristãos com outros olhos. Converteu-se, fez-se batizar e, pelo seu zelo, viria a ser eleito para Bispo, preocupado em configurar-se a Cristo e a atender os mais pobres.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/01, n.º 4632, 10 de novembro de 2021

Entrevista com António Leão, Fruticultor

Depois das vindimas, uma das atividades agrícolas maiores do Douro e das terras da diocese de Lamego, é a cultura da maça que abrange particularmente os concelhos de Tarouca, Armamar, Moimenta da Beira e Sernancelhe. A propósito, a Voz de Lamego, procurando estar próxima das preocupações e ocupações desta região, esteve à conversa com o fruticultor António Leão, que falou do exigente trabalho da produção da maçã, nos diferentes momentos do ano, os gastos e investimentos, as pragas e os tratamentos, a trovoada, o granizo e o clima, o escoamento da produção.

1. O trabalho agrícola é uma atividade ininterrupta, pela variedade produções que é possível fazer ao longo de todo o ano, consoante as épocas, os solos, as culturas próprias de casa região. No que respeita à maçã, explique-nos um pouco daquilo que é um ciclo anual normal desta produção?

A produção da maçã requer um trabalho durante todo o ano. Vai de novembro a novembro, sem interrupções. Assumindo a colheita como o fim do ciclo, a novo ciclo começa logo a seguir. Primeira ação é fazer um ou dois tratamentos para a repor micronutrientes nas árvores para o ano que está a iniciar. De seguida, quando tiver caído um terço da folha das macieiras faz-se um tratamento com cobre para desinfetar a ferida causada pela queda da folha. Quando a queda da folha atingir os dois terços faz-se um tratamento de ureia para acelerar a queda das restantes folhas e, sobretudo, para provocar uma decomposição rápida da folhagem que fica no chão, de modo a evitar infeções para o próximo ano.

2. Quanto à poda. É um trabalho que volta mão-de-obra e bastantes dias de labor. Como a realiza? Começa muito cedo? Ou contrata um número de podadores mais alargado?

O período ideal para a poda é durante os meses de fevereiro e março. No entanto, porque há cada vez mais área de pomar plantada nesta região, e porque cada vez há menos pessoas para contratar para a poda, este trabalho prolonga-se entre os meses de novembro e abril. Eu, faço sempre um esforço para ter a poda concluída em meados de março.

3. A nível de execução deste trabalho, da poda, atualmente já se faz com mais facilidade e rapidez que há uns anos atrás. Certo?

Sim. Sem dúvida. Primeiro eram utilizadas as tesouras manuais e os serrotes de cinta. Depois passou-se ao uso das tesouras pneumáticas, que foi um grande avanço. Mas hoje o que se usa é mesmo a tesoura elétrica. É muito prática. Leve. Não exige grande força de mãos. Tem autonomia própria, porque cada podador traz consigo uma bateria recarregável. E executam o corte muito mais rápido que as convencionais. Acresce a isto, o facto de hoje também dispormos das plataformas elevatórias que transportam simultaneamente 4, 5 ou 6 homens, que executam a pode nas várias alturas da árvore, de uma vez só. Dispensam-se os antigos escadotes. Ganha-se em tempo, esforço e minimizam-se os riscos de acidentes.

4. Relativamente às pragas que vão aparecendo e comprometendo a produção?

O pedrado (que é um fungo) é sempre a praga que nos atemoriza mais, e que começamos logo a combater, com tratamentos, imediatamente a seguir à poda. Nesta fase entre o fim da poda e o início da floração faz-se também a aplicação de um inseticida, para impedir a ação de alguns insetos prejudiciais que vão aparecendo. Depois de começar o processo de floração das árvores não se devem fazer quaisquer tratamentos à base do inseticida, porque estes podem provocar o aborto das flores.

5. A nível de gestão de tratamentos: fazem muitos, ao longo do ano, ou varia consoante as condições climáticas?

Há um número de tratamentos mínimo que temos sempre de fazer, sejam quais forem as condições da meteorologia. No entanto, há ocasiões em que exige um maior número de aplicações. Por exemplo, em dias que chova mais que 20 litros por metro quadrado o produto aplicado já está lavado. Ou seja, a seguir a uma situação destas o tratamento tem de ser preventivo, mas também tem de ser já curativo. Se não houver chuvas nem orvalhadas fortes, a durabilidade do tratamento ronda os 12 dias.

6. Estamos a assistir a uma mudança de tendência no uso dos tratamentos por pulverização. Isto é, estão a desaparecer os produtos tóxicos para dar lugar aos tratamentos biológicos. A eficácia é a mesma? O resultado final é igual?

Todos os anos há produtos tóxicos que são retirados do mercado. E há pragas que, por vezes, nos custam mais a combater por falta desses produtos. Mas a tendência atual é mesmo fazer reduzir a toxicidade dos tratamentos até atingir o resíduo zero. No entanto, a produção biológica é uma meta ainda distante, porque isso requer uma ação integrada de todos os produtores. Não posse eu fazer de uma maneira, e o meu vizinho do lado fazer de outra, senão ficam as duas produções comprometidas.

7. Quanto às espécies de maças que se cultivam nesta região, qual é a variedade que o senhor mais produz?

Eu produzo mais Gala e Golden. Mas depois tenho um pouco de todas: Reinetas, Starking (vermelhas), Jonagold, Fuji, etc..

8. Porque a escolha dessas espécies?

Um dos critérios é procurar fazer uma produção cuja colheita possa ser distendida por uma período de tempo maior, possibilitando rentabilizar a pouca mão-de-obra de que dispomos para a apanha. Ou seja, não nos interessa que todas amadureçam ao mesmo tempo, porque não é possível fazer a apanha de dezenas de hectares numa semana apenas. Por isso, apostamos na Gala que tem de ser recolhida na segunda quinzena de agosto. E depois vamos acabar com Fujis que são colhidas na primeira semana de novembro. Durante este período vão-se apanhando, mais ou menos uma variedade diferente por semana. As maças precisam de ter um determinado teor de açúcar e de dureza para poder ser apanhas. Não pode ser antes disso, nem muito depois. Dependendo sempre bastante das condições climatéricas daquela altura. Porque depois influencia a conservação das mesmas, uma vez que é feita em frio artificial.

O outro critério de bastante peso na seleção das espécies a plantar é exatamente o que o mercado pede. Sendo que, neste caso, há sempre um grau de risco e incerteza significativo, porque entre a plantação e as primeiras produções vai sempre um intervalo de 3, 4, ou 5 anos, e, nesse entretanto, o público consumidor pode ter inclinado a sua preferência para outra variedade qualquer.

9. A nível de mão-de-obra, há duas épocas de maior necessidade: a fase da poda, no inverno, e a apanha no verão/outono. Sendo esta região de baixa densidade populacional, como consegue arranjar pessoas suficientes para estas duas alturas do ano?

Quanto à poda, da minha parte, eu e o um funcionário que tenho a trabalhar comigo a tempo inteiro, durante todo o ano, consigo fazer esse trabalho sem recorrer a mais ninguém. Para que isso seja possível há dois fatores essenciais. O primeiro é que inicio a poda antes de fevereiro, um bocadinho antes do que era o ideal, e termino sempre em meados de março. O segundo fator é que vou mecanizando o trabalho. Como referia atrás, usamos sempre a plataforma elevatória e as tesouras elétricas.

No que diz respeito à apanha, as dificuldades surgem bastante, por causa da falta de mão-de-obra. Não há muita gente disponível. Não é um trabalho muito apetecível porque é sazonal. Depois as exigências de seguros, segurança social, etc., burocratizam demais a contratação de pessoas. E depois é um trabalho que nem sempre é contínuo. Nos dias de chuva não se consegue apanhar maça, por exemplo. A maioria das pessoas que eu recruto para a apanha ficam logo contratadas de uma época para a outra. Já não preciso de lhes dizer mais nada durante o ano. Depois tenho alguns familiares que tiram férias na altura da apanha, para ajudar. E um ou outro amigo que também vai aparecendo. Eu não recorro a mão-de-obra de imigrantes, mas há produtores, aqui na região, que o fazem.

10. Já falamos nos tratamentos que são uma forma de fomentação da produção, mas são também uma das formas de proteção da produção. Concretamente, em relação à proteção da colheita, uma vez que os seguros têm custos elevadíssimos e não cobrem a totalidade, já adotou ou prevê adotar algum dos novos sistemas que estão agora a ser implementados por aqui: redes e/ou canhões anti-granizo?   

Quanto às redes anti-granizo eu candidatei-me, como muitos outros produtores, a esta última linha de crédito que abriu, mas ainda não houve qualquer despacho, até agora. Mas isso pondero colocar, se for contemplado. Quanto aos canhões não sei exatamente a eficácia deles, uma vez que é um sistema bastante recente e pouco implementado ainda. Quanto aos seguros: o prémio é demasiado caro; nunca cobrem mais, na melhor das hipóteses, do que 40 toneladas por hectare e depois, há uma infinidade de causas externas, que servem de desculpa para as seguradoras não pagarem os prejuízos ao final de uma produção.  

11. Por último, uma questão mais pessoal. Sabemos que não cresceu na fruticultura e não foi o seu primeiro ramo de atividade. Esteve ligado à empresa têxtil durante vários anos, no Vale do Ave, um setor economicamente confortável em Portugal. O que o levou a mudar de uma atividade para a outra, sendo elas tão distintas?

A verdade é que eu cresci no meio da agricultura, porque os meus pais era nisso que trabalhavam. Não eram produtores de maçã, porque na minha terra as culturas agrícolas são outras. Mas os meus pais nunca quiseram que nós, os filhos, continuássemos ligados a esse ramo. Mas a terra deixa-nos sempre aquele bichinho. E por outro lado, o trabalho que eu tinha impunha-me um conjunto de preocupações e dores de cabeça que não me tiravam o sono. Se bem que agora o que não me deixa dormir é a falta de tempo para o fazer. Pesou também, para essa mudança de setor, o facto de se dizer, em finais da década de 80 e inícios de 90, que esta era atividade económica com mais futuro. Mas o certo é que a realidade se transfigurou e o que se dizia há 30 anos não é hoje tão evidente.

Relativamente à escolha desta região para me implantar, deve-se à minha esposa, que é natural daqui (Faia, Sernancelhe), já tinha alguns terrenos por cá. E sendo ela professora, era fácil também transferir-se para aqui.

Editorial Voz de Lamego: As maravilhas de uma vida plena

Por estes dias, assistimos a um extraordinário exercício de passa-culpas em relação ao chumbo do Orçamento de Estado (OE). Curiosamente, diga-se, que o debate foi pouco clarificador, centrando-se prolixamente a sopesar dividendos de uma anunciada crise política, justificando as opções partidárias e encontrando a culpa (nos outros) pelo chumbo do mesmo.

Deixamos o debate político-partidária para quem tem essa missão, obrigação e esse mandato, mas fica a sensação, em todo o processo, que não se pensou no interesse do país, mas no acautelar das mais valias partidárias em futuras eleições, fossem imediatas, que parece que todos os partidos queriam, e igualmente que ninguém admite ter querido, fosse no futuro, cumprindo o calendário normal.

Depois do chumbo do OE, continuaram as acusações, desculpas, justificações, passa-culpas e a campanha eleitoral regressou em pleno. Até, pasme-se, ouvimos sugestões de que os mesmos poderiam fazer outro orçamento (se no entender de quem o fez, este era o melhor orçamento, como fazer uma segunda versão? Um segundo orçamento seria pior que o primeiro ou se havia possibilidade de melhorar o atual, num hipotético novo orçamento, bastava aprovar o atual e melhorá-lo onde fosse possível!) e depois logo se veria se um orçamento travestido teria possibilidades de aprovação ou se seria novamente chumbado pelos mesmos que chumbaram este! Empurrava-se o problema? Mudava o orçamento (seria incompetência do governo) ou mudava o voto de algum partido (seria incoerência)? Adiante…

Na iminência da dissolução da Assembleia da República, regressou a pressa em discutir a “eutanásia”, ganhando, agora, prioridade sobre o OE e sobre o país. Imaginamos o exercício intelectual (que nos parece desonesto): fomos eleitos, temos o aval do povo para decidirmos o que quisermos, vamos fazê-lo rapidamente, antes que o Parlamento seja dissolvido e a seguir não nos elejam para fazer o que nos propusemos fazer! Independentemente dos argumentos político-partidários que possam usar-se para concretizar a lei, esta pressa contraria a democracia, pois limita o debate, apressa uma solução com medo de quê os mesmos que os elegeram [os atuais deputados] não voltem a escolhê-los novamente. Tivemos mais que tempo, contávamos continuar a ter, mas já que no-lo vão tirar, vamos gastar o que temos, a desbaratar, até para mostrar que afinal tínhamos ideias e projetos! Num contexto diferente, mas que ilustra estas situações, a parábola de Jesus sobre o administrador infiel, que, ao ser despedido e para se salvaguardar, encontra forma de compensar os devedores do seu patrão, para que eles lhe assegurem um futuro promissor (cf. Lc 16, 1-8).

Tão engraçado: em março o Presidente da República vetou o decreto de legalização da morte medicamente assistida. Ainda será possível gerar maiorias para esta iniciativa! Toca a despachar, pois a seguir, se a composição do parlamento se alterar, recorreriam a outro expediente, ao referendo, caso não conseguissem, então, fazer aprovar essas alterações, e não seria tão certo! Curioso! Poderiam ter aproveitado o tempo para promover medidas de combate à pobreza, à melhoria dos cuidados de saúde, preparando investimentos nos cuidados continuados e paliativos, no acesso dos mais desfavorecidos à cultura, à educação (nos dois confinamentos, as crianças, adolescentes e jovens do interior foram os mais penalizados, por falta de meios, ou acesso tardio aos mesmos, ou por falta de Internet fiável), a refletir e sobretudo implementar medidas de combate à exclusão social, ao abandono escolar, às desigualdades sociais, ao repovoamento do território, a melhorar serviços de resposta social, melhorando a vida dos mais idosos, criando, tanto quanto possível, mais oportunidades de sociabilização e inclusão, apostando a sério no apoio à natalidade e à infância… Como dizia Confúcio, “Porquê, preocupar-nos com a morte? A vida tem tantas coisas que temos de resolver primeiro…”.

Relembra, para nos fixarmos no debate, o médico Luís Paulino Pereira (in Vida Plena, da Paulus Editora): “não é justo, nem razoável, nem aceitável do ponto de vista moral, que para acabar com o sofrimento se acabe também com a vida de um ser humano”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/49, n.º 4631, 3 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos! Caminhemos juntos!

O tema escolhido pelo nosso Bispo e proposto a toda a Diocese de Lamego – Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46) – coloca-nos em pleno mistério pascal. Depois da Ceia, no Jardim das Oliveiras, Jesus ora, uma e outra vez, para que Se faça a vontade do Pai, apesar do sofrimento que se entrevê, aquela hora tenebrosa que se vislumbra e que Ele sente na pele, no corpo, na alma. Os discípulos adormecem. É noite! Jesus desperta-os, uma e outra vez, e finalmente chama-os.

Ele está com eles, Ele está sempre connosco. Não estamos sós, não caminhamos sozinhos. O chamamento é claro: Levantai-vos! Vamos. Mesmo quando Jesus nos diz: Ide, é um “ide” em que Ele vai connosco. Ide, eu estarei convosco até ao fim dos tempos!

Após a ressurreição, ainda não inteiramente anunciada, no caminho de Emaús, Jesus faz-Se ouvir e faz-Se ver. Iam dois discípulos, desanimados, cabisbaixos, quase a murmurar, desencantados com o que tinha sucedido naqueles dias. Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Perceber-se-á que Ele é o caminho. Eles regressavam para se refugiar em casa; Jesus anuncia-Se, caminha com eles, entra com eles em casa e senta-Se com eles à mesa e, depois da bênção e da distribuição do pão, deixam de O ver. (cf. Lc 24, 13-35). Quando deixam de O ver, exteriormente, já Jesus os habita interiormente! Já não necessitam dos olhos físicos, mas do coração e, por conseguinte, a noite deixa de amedrontar, pois logo se levantam e regressam a Jerusalém, à comunidade dos discípulos.

Um Plano Pastoral aponta metas e vivências, faz-nos assentar os pés no chão para que aos ideais juntemos momentos, instantes, celebrações, encontros, tempos de oração e de reflexão, de formação e convívio. Não é possível traduzir a vida, o amor, se não por gestos, abraços, comunicação, sorrisos, pelas lágrimas e pelas palavras, na entreajuda, na prática das obras de misericórdia (corporais e espirituais), no respirar das bem-aventuranças, na atualização concreta dos Dez Mandamentos, sintetizados e explicitados no mandamento novo do amor: amais-vos uns aos outros como Eu vos amei.

A Diocese não é uma ilha, como o não são as paróquias, os movimentos, as associações, departamentos, serviços ou comissões. Estamos inseridos num país, a Igreja em Portugal, e no mundo, a Igreja Universal, procurando que haja valores, princípios, orientações e até linhas programáticas comuns. A este propósito vale a pena relembrar que estamos em Sínodo, convocado pelo Papa Francisco e inaugurado no fim de semana de 9 e 10 de outubro, no Vaticano, e na maioria das dioceses do mundo, no dia 17 de outubro.

O Sínodo dos Bispos 2021-2023 é um caminho que nos convida a todos, na escuta e no diálogo, na oração e na reflexão, para que, chegados a outubro de 2023, o caminho que percorremos em conjunto, com as dúvidas e interrogações levantadas, com as propostas e orientações sugeridas, possam ser debatidas, para que: o que a todos diz respeito seja por todos rezado e refletido. O tema do Sínodo: “Por uma Igreja Sinodal, comunhão, participação, missão”. Concluía o Pe. Diamantino Alvaíde, na admonição inicial, na Eucaristia de abertura do Sínodo, na Sé de Lamego: “Para uma Igreja sinodal: o Papa Francisco conta com a nossa comunhão; a Igreja espera a nossa participação, e Deus pede a nossa missão”.

No ano de 2023, realizar-se-ão as Jornadas Mundiais da Juventude, em Portugal, com o centro em Lisboa. O lema escolhido pelo Papa: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39) está, de algum modo presente no lema pastoral da nossa diocese. Por sua vez, o Movimento da Mensagem de Fátima servir-se-á de um lema semelhante: “Levanta-te! És testemunha do que viste!”

Levantemo-nos! Vamos! Jesus vai connosco!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/48, n.º 4630, 27 de outubro de 2021

Entrevista com Fábio Cecílio, o nosso campeão mundial de futsal

Reconhecido jogador de futsal, natural de Tabuaço, onde despertou para esta modalidade, mormente fazendo parte da AJAB (Associação Juvenil Abel Botelho), numa equipa que se batia com as melhores formações. Começou por volta dos 14 anos e é há 14 anos que tem vindo a encantar os adeptos deste desporto, despertando o interesse dos maiores clubes portugueses, a começar no Braga, depois o Benfica, onde jogou seis temporadas, e, na nova temporada, novamente no Braga. Ganhou diversos troféus, ao nível do clube, mas também da seleção. Foi campeão europeu e, no passado dia 3 de outubro, campeão do mundo. Portugal bateu a poderosa Argentina, e detentora do título de campeã mundial, por 2-1.

Obrigado, Fábio, por nos cederes um pouco do teu tempo para falares connosco.

VL – Quatro segundos para acabar a final do mundial, entre Portugal e Argentina, quando a bola foi ao poste. Que pensaste nesse momento? Vamos ser os novos campeões do mundo ou isto só acaba quando o árbitro acabar?

FC – O jogo só acaba aos 0 minutos, mas eu estava confiante que ia dar para nós. O sentimento era mesmo que íamos sair daquele jogo como campeões do Mundo.

VL – Quando o árbitro apitou para o final, que sentiste? Quais as emoções? Algum pensamento concreto? Quererias estar em algum lado nesse momento?

FC – Quando começou o campeonato do mundo, claro que sonhava em sair campeão, mas sabia que seria bastante difícil. Chegar à final foi algo inédito, que nunca tinha acontecido e ganhar o último jogo ainda é algo inacreditável. Às vezes ainda não acredito que é verdade.

VL – Como descreverias os momentos que se seguiram? Com a família? Com os adeptos? A chegada a Portugal?

FC – Primeiro festejámos em equipa, depois com os incríveis adeptos que nos acompanharam ao longo de todos os jogos. De seguida, fomos ter com a família que estava presente no pavilhão e aproveitar para festejar… já não os via há um mês. Na verdade, foram dois meses de estágio muito difíceis, mas tudo compensa. A chegada a Portugal foi emocionante. Estar no nosso país, rodeado de portugueses a festejar um título que tanto ambicionámos.

VL – Um momento também importante, pelo seu simbolismo, foi a receção que na segunda-feira tiveste no Palácio de Belém, com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Que reténs deste encontro? Nos cumprimentos pessoais, que é que o Presidente vos diz?

FC – Ir ao Palácio de Belém é sinal de que o nosso trabalho está a ser reconhecido e de que deixámos tantos milhões de portugueses orgulhosos de nós e da nossa modalidade. As palavras do Sr Presidente da República no seu discurso foram muito motivadoras. No abraço que nos deu a cada um de nós, transmitiu que está é estará sempre connosco.

VL – Numa vertente mais honorífica, és Comendador da Ordem de Mérito, comenda atribuída aquando da vitória de Portugal no europeu e, agora, Comendador da Ordem Infante D. Henrique. Que significado atribuís a estas insígnias?

FC – Ter estas insígnias significa que estamos a fazer bem o nosso papel. Estamos a representar bem o nosso país e a dar a conhecer ao mundo inteiro e, principalmente, estamos a honrar Portugal.

VL – Em 2018, Portugal foi campeão europeu de Futsal, modalidade que continua em expansão e a mostrar que os portugueses estão na primeira linha. Diferenças de vencer o europeu e o mundial? Que foi mais fácil ou que vos/te deu mais gozo?

FC – São vitórias diferentes. O Campeonato Europeu de Seleções foi o primeiro. Sonhei muito com isso e sempre achei que iria ser muito difícil de alcançar, mas conseguimos e admito que nos deu muita força para acreditar que o Mundial era possível. O Mundial tem muitas seleções em competição, mais do que o Europeu e, claro, estão sempre as melhores equipas do mundo, o que faz com que tenha um sabor especial.

VL – A seleção portuguesa de futsal, já tinha chegado a um terceiro lugar, mas não a uma final mundial. Em que momento percebeste, e os teus colegas, que a final era possível?

FC – Nós sempre acreditámos que era possível porque tínhamos e temos qualidade para isso. O jogo contra a Espanha foi o jogo que me fez acreditar ainda mais, porque foi um jogo difícil, intenso em que começámos bem, onde nos debatemos bem. Na segunda parte sofremos 2 golos e ainda assim acreditámos até ao último segundo e conseguimos dar a volta. Espanha é uma seleção com muitas conquistas, incluindo 2 campeonatos do mundo e nós conseguimos ganhar esse encontro e passar para as meias finais. Aí, já tinha um sentimento de que estava mais perto de sermos campeões.

VL – Mais difícil o trajeto de apuramento ou a fase final do campeonato do mundo?

FC – Sinceramente, ambos são difíceis. Todos os jogos são para ganhar e todos vão com esse objetivo. Não há margem para falhas em nenhuma ocasião.

VL – E depois do mundial vitorioso, o que se segue, a nível pessoal?

FC – Depois do mundial e de dois meses intensos, o que sabe bem é estar com a família e festejar com eles. Não há muito tempo para aproveitar, pois a vida segue e o clube precisa de nós.

VL – Como é que um jovem de Tabuaço, interior norte, foi parar ao palco do mundo? Achas que os jovens do interior poderão sonhar, no caso do futsal, em ingressar em clubes que militam no primeiro escalão, como Braga, Benfica, Sporting?

FC – Claro que sim! Felizmente a nossa vila tem muitos jogadores com um excelente percurso em que passaram por clubes “grandes” e espero que todos sejam uma inspiração para os jovens do interior. Tudo é possível, basta acreditar e lutar por isso.

VL – Segundo sabemos, o percurso até fazeres um contrato profissional, não foi nada fácil. Queres falar-nos como começou este sonho do futsal, do gosto pela bola até te tornares federado?

FC – É uma história muito longa. Comecei tarde a jogar futsal pela AJAB e, apesar de ser um sonho de miúdo, nunca acreditei que fosse possível. A verdade é que no momento em que planeava emigrar, quando terminei os estudos, surgiram alguns clubes interessados em mim. Fui para o Sporting Clube de Braga/AAUM e tornei-me profissional quando fui para o SL Benfica.

VL – Como conciliavas o futsal, os estudos, e o trabalho no campo?

FC – Não foi nada fácil. Eu levantava-me por volta das 5h da manhã e ia para o campo trabalhar. Depois almoçava e ia para a escola ter aulas. No final do dia, havia treino. Não foi fácil, mas eu precisava de o fazer. Precisava de ter o meu dinheiro, precisava de estudar para ter um futuro e, claro, precisava do futsal.

VL – Como é que te adaptaste à cidade e a Braga, na primeira passagem?

FC – O primeiro ano foi de adaptação. Eu praticamente nunca tinha saído de Tabuaço, muito menos viver fora e sozinho. Foi complicado até porque não tinha carro e, apesar de ser perto de Tabuaço, era muito difícil ir a casa visitar a família.

VL – Depois de dois anos no Braga, o desafio seguinte foi o Benfica, onde jogaste durante seis temporadas. Foi mais fácil a adaptação no Benfica? Maior visibilidade, maior exigência?

FC – O primeiro ano também não foi fácil a adaptação à cidade, não propriamente ao clube, mas à cidade. Calhou ir viver para o centro de Lisboa, na zona da Graça e, por isso, não foi fácil, mas ao longo do ano fui-me adaptando e conhecendo. Acabei por gostar muito. Tanto o Braga/AAUM como o SL Benfica são clubes que querem vencer, tal como eu.

VL – Como viveste o confinamento, devido à pandemia? Como é que a modalidade lidou com esta situação?

FC – No momento em que tudo fechou, não houve muito a fazer. Fomos para casa, ficámos fechados e a modalidade parou nos pavilhões. O treino continuou cada um em sua casa. Tínhamos que nos manter ativos. Claro que não foi fácil. É muito diferente treinar em casa com o espaço que temos, mas depois tudo voltou ao normal, felizmente.

VL – Uma mensagem para os jovens de Tabuaço ou deste interior onde se situa a diocese de Lamego. FC – Costumo batalhar sempre em três palavras: trabalho, dedicação e persistência. Se têm sonhos, seja qual for, nunca desistam. Tudo é possível! Mesmo ser do interior e ganhar um Campeonato da Europa ou do Mundo. É possível!

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Editorial Voz de Lamego: Como combater a solidão? Alugar amigos

A edição de 5 de outubro do jornal I destacava em primeira página: “Alugar amigos para combater a solidão”. Como subtítulo: “A moda começou no Japão e já chegou aos EUA. Avós japonesas andam a assaltar lojas para serem presas”.

As tecnologias aproximaram as pessoas, fizeram com que o mundo parecesse uma aldeia global. Na Carta Encíclica “Caritas in Veritate”, Bento XVI chamava a atenção: “a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (19). Na mesma linha, o Papa Francisco tem contraposto a era da globalização à globalização da indiferença. Temos acesso a muitas informações, mas isso já não nos comove. Com efeito, a exposição da violência em excesso, da pobreza, da miséria, da corrupção, dos crimes horrendos, tornou-nos insensíveis. O que nos chocava tornou-se banal, já não mexe connosco.

Esta moda, de alugar amigos, começou no Japão e chegou a Portugal em 2015. E, pelos vistos, está em crescendo nos EUA. Há empresas que alugam amigos. O preço pode ir de 10 a 50 euros por hora. Um amigo, um familiar, um colega… o que precisares, a empresa arranja-te um substituto, um estranho, ao ponto de ajudar a organizar uma festa, permitindo, depois ou na hora, a publicitação de uma vida faustosa e interessante, nas redes sociais, para que os outros possam ver e invejar.

A solidão é um cancro que está espalhado na sociedade atual e que continua em plena expansão. As distâncias foram encurtadas com os meios digitais, mas, por outro lado, verifica-se que estes meios isolaram ainda mais as pessoas. Por um lado, facilitam a comunicação, o trabalho, amenizaram os confinamentos. Se um filho estiver no outro canto do mundo é possível vê-lo, ao vivo e a cores. Um filho, um neto! Esbate-se a saudade! Mas continua a ser uma substituição.

O ser humano precisa do toque como de pão para a boca, precisa de cheirar e sentir o aroma do outro, de abraçar (ser abraçado), beijar ou apertar as mãos. Este contacto que faz-nos humanos, faz-nos sentir vivos e frágeis ao mesmo tempo, necessitados e completos. Por outro, o mundo digital facilita a ausência, o escondimento, a solidão… eu frente a um ecrã, vejo o mundo todo, procuro o que me interessa, descarto e dispenso o que é diferente, o que me desafia ou incomoda. Se trabalho a partir de casa, para quê sair, encontrar-me com amigos, com os colegas de trabalho para beber uns copos?! Mostro aquilo que quero, subtraio, para os outros, a parte de mim que não gosto.

A pandemia suscitou uma enorme solidariedade, ainda que também os medos se tivessem multiplicado. Mostrou muita miséria, material, cultural, espiritual. Suscitou compaixão. Mostrou pessoas e comunidades isoladas, sem meios de comunicação ou acesso a bens de primeira necessidade ou a prestação de cuidados médicos. As pessoas isolaram-se e algumas habituaram-se a viver como ilhas isoladas, tendo acesso ao mundo inteiro, a partir do sofá, da cozinha, do escritório. Multiplicaram-se os esgotamentos, os estados depressivos, a ansiedade, a acomodação. O regresso a alguma normalidade, ao que tudo indica, parece estar complicado. Há pessoas a ameaçar trocar de emprego para ficarem em teletrabalho!!! Há laços que estão a ser destruídos, há contactos que desapareceram, interdependências saudáveis e enriquecedoras que cederam à preguiça, à desconfiança, ao comodismo egoísta.

Admiramo-nos que num restaurante, num almoço ou jantar de família, os membros estejam sozinhos, cada um diante do ecrã do telemóvel, a fazer likes, a ver notícias, a jogar, a instagramar o momento. Antes saía-se para arejar, conviver, para que, em ambiente diferente, a família pudesse dispor de mais tempo de qualidade! Agora sai-se e continua-se a ver o mesmo mundo que via em casa! Estivemos tanto tempo diante de ecrãs que já não conseguimos libertar tempo para estarmos uns com os outros!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/47, n.º 4629, 20 de outubro de 2021

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Editorial Voz de Lamego: Igreja em sínodo, Igreja à escuta

No passado sábado, 9 de outubro, o Papa Francisco deu início à XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O sublinhado do Papa Francisco: “As assembleias do Sínodo revelaram-se um instrumento válido para o conhecimento recíproco entre os bispos, a oração comum, o confronto leal, aprofundamento da doutrina cristã, reforma das estruturas eclesiásticas, promoção da atividade pastoral em todo o mundo”.

Durante o seu pontificado realizaram-se duas assembleias sinodais sobre a Família (2014 e 2015), uma assembleia dedicada aos jovens (2018) e um sínodo especial para a Amazónia (2019), e agora sobre a sinodalidade da Igreja.

Vale a pena reler algumas passagens da reflexão do Papa na abertura do Sínodo.

Três palavras chaves: comunhão, participação, missão. “Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – e é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra» (Lumen gentium, 5)… a terceira palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um”.

Três riscos: formalismo, intelectualismo, imobilismo. “O primeiro é o risco do formalismo. Pode-se reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela… Porque às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar…Um segundo risco é o do intelectualismo (da abstração, a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro): transformar o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma espécie de «falar por falar», onde se pensa de maneira superficial e mundana, alheando-se da realidade do santo Povo de Deus… Por fim, pode haver a tentação do imobilismo: dado que «se fez sempre assim» – esta afirmação “fez-se sempre assim” é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16). Por isso, é importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão”.

Três oportunidades. “A primeira é encaminhar-nos para uma Igreja sinodal (1): um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Depois o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja da escuta (2): fazer uma pausa dos nossos ritmos, controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração…. uma Igreja da proximidade. O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Deus sempre agiu assim. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor… uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/46, n.º 4628, 13 de outubro de 2021