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Editorial: Antes de Jerusalém, encontrar-nos-emos no Egito

Ponhamo-nos a caminho!

Se ainda estivermos na praça pública, ociosos, a ver o comboio passar e o Sol a levantar-Se, ergamo-nos, prontos para sair, para ir, para partir, já se vislumbra a cidade, já floresce a amendoeira, é tempo de esperança, o inverno já não apagará a nossa a chama, o fogo que nos arde no peito. Ergamo-nos, a salvação está a chegar, o dia a despontar, e a paz, finalmente pode voltar a desassossegar o meu e o teu coração! Esta paz que nem sempre o mundo nos dá, mas sempre Jesus nos traz e que nos queima a alma, nos inquieta o coração, nos faz ver que o outro está à espera, à espera que lhe levemos um pouco de calor, de sol e de amor.

Parece que vivemos embotados na neblina que não deixa o Sol surgir, pela madrugada, ou faz com que os dias anoiteçam muito mais cedo! Não é, ainda, novembro, mas quantos de nós sentirão os dias cada vez mais pequenos e as noites cada vez mais tenebrosas. A cada boa notícia, surge uma dúzia de más notícias, que geram dúvida, receio, recuo!

Chegaremos a Jerusalém, mas temos um longo caminho a percorrer, um caminho que é do tamanho da nossa vida, da nossa história, do tempo que Deus nos dá. Estamos a viver o Ano de São José! Se calhar, já nem nos lembrávamos! São José, o Pai de Jesus, Aquele que custodia a vida de Maria e de Jesus. Cuida, proporciona casa, tona-se suporte para a Mãe e para o Filho, em Belém e em Nazaré, no Egito e nas ruas de Jerusalém. Quarenta dias depois do nascimento, José leva Jesus e Maria ao Templo. O Menino é apresentado ao Senhor Deus, colocado sob a Sua proteção. Maria completa os dias de Purificação. Pode, doravante, participar novamente eventos públicos e religiosos.

Não muito tempo depois, José faz como o seu antepassado, o Patriarca José, Filho de Jacob. As semelhanças são curiosas, até no nome dos respetivos pais: Jacob. O primeiro José foi vendido como escravo. Com o passar dos anos, será ele a garantir a salvação do seu povo que recorre ao Egito em tempo de fome. Mais tarde, o povo tornar-se-á escravo e Moisés conduzi-lo-á, em nome de Deus, de regresso à terra prometida (onde corre leite e mel).

Perante a ameaça que recai sobre o Menino Jesus, a Sagrada Família põe-se em fuga, em direção ao Egito, onde ficará até que Deus lhe dê sinais de que é seguro regressar a Belém. Entre os sinais que Deus dá e e interpretação (prática) de José, fixam-se em Nazaré. O Egito serve os tempos conturbados, de emigração e refúgio. Um pouco a época atual. Porém, a nossa pátria não é aqui. E o facto de sabermos que Jerusalém nos espera, faz com que não desanimemos, mas também que não nos prendamos em demasia. Jerusalém está-nos na retina! E no coração. Muitas vezes teremos que descer ao Egito, mas sempre que isso acontecer, Deus acompanha-nos, vela para que não nos percamos e não nos falte a luz e a esperança para regressarmos.

«Enquanto o país não descontou os seus sábados, esteve num sábado contínuo, durante todo o tempo da sua desolação, até que se completaram setenta anos» (2 Cr 36,14-16). É uma página da Sagrada Escritura que faz uma leitura religiosa da adversidade, não já em jeito de lamento, mas de esperança e gratidão por saber que, em todo o tempo, Deus não afastou o Seu favor.

Quando São José desceu ao Egito e lá permaneceu, viveu na fidelidade ao que Deus lhe revelou em sonhos, partiu apressadamente, sabendo que regressaria. Mas não partiu sozinho! Levou a família, deixou-se guiar por Deus.

Façamos o mesmo, a caminho do Egito, na estadia e no regresso à cidade de David, permaneçamos unidos, e não deixemos que nos roubem a esperança que nos vem de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/42, n.º 4624, 15 de setembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: aos pés de Nossa Senhora

@Hermínio Lopes / @ Voz de Lamego

A edição desta semana do nosso jornal diocesano assinala-se pela Festa e Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, fixada na Natividade de Maria.

O nascimento de um bebé, na cultura semita como em muitas outras culturas, é uma bênção para a família, antes de mais, e para a povoação. Se atendermos aos Censos 2021 e para a percentagem de natalidade talvez percebamos o quanto estamos a precisar que esta aumente exponencialmente, pelo menos na Europa, muito em Portugal e, por maioria de razão, no interior Norte. A diocese de Lamego, e as 223 paróquias que a constituem, tem vindo a juntar ao envelhecimento populacional a desertificação, além da emigração que continua também em alta. A diminuição de pessoas na maioria das paróquias levava-nos a pensar que saíam das aldeias para as vilas e cidades, mas nos últimos anos também as sedes dos concelhos têm vindo a perder residentes.

A comemoração litúrgica dos santos está fixada, habitualmente, no dia da morte, o “dies natalis”, nascimento para a eternidade. Mas como os dias do ano se vão preenchendo, alguns têm o dia da comemoração nos dias próximos ao da morte ou a assinalar algum momento importante das suas vidas, a conversão ou o início de uma missão. Alguns santos Papas são comemorados no dia em que iniciaram o pontificado. De Jesus e de Nossa Senhora assinalam-se diversas solenidades, festas, comemorações, mais universais ou mais nacionais, mais regionais ou mais locais. De referir que também de São João Batista se celebra o nascimento (24 de junho) e o martírio (29 de agosto).

A maioria das pessoas comemora o aniversário natalício, mas também outras datas festivas. O Papa Francisco tem insistido para que se comemore o Batismo, dia em que nos tornamos novas criaturas pela água e pelo Espírito.

O aniversário é um instante, mas pode ser oportunidade para agradecer a vida, para refletir sobre o caminho percorrido, para avaliar a direção em que se vive. No caso dos santos, é uma belíssima ocasião para confrontarmos a vivência da nossa fé e a nossa configuração a Jesus Cristo. Os santos, amigos de Jesus, fazem-nos sentir mais próximos d’Ele e deixam ver que é possível viver a fé em situações díspares e em circunstâncias diversas. O padroeiro/patrono de uma paróquia, de uma Igreja ou de uma profissão, de uma aldeia, de uma cidade ou de um país obriga-nos, no mínimo, a pensar as razões para ter sido escolhido um e não outro. Na dinâmica cristã, não apenas a raiz história e a tradição, mas aquilo que, hoje, aqui e agora, nos diz esta festa, este santo. Vejamos então o convite que nos faz Maria na celebração do Seu nascimento e na evocação de Senhora dos Remédios.

O Santuário de Nossa Senhora está situado sobre a cidade de Lamego, no monte de Santo Estêvão, com um escadório que nos traz ao chão (propriamente dito) da cidade ou desta nos faz subir, degrau a degrau, até ao cimo, ao lugar em que se venera a Mãe de Deus e nossa Mãe, para Lhe pedirmos auxílio e proteção, para que seja remédio para os nossos achaques, sejam eles corporais ou espirituais.

Desde o início do cristianismo que os discípulos de Jesus, os cristãos, souberam acolher Maria de uma forma muito carinhosa, pois é esse também o mandato de Jesus: eis aí a Tua Mãe… A partir daquela hora, o discípulo recebeu-A em sua casa. Cada discípulo. Levamo-l’A para a nossa casa, para a nossa vida, colocamo-nos, como a cidade de Lamego diante do Santuário, aos Seus pés, para escutar a Sua oração, para rezarmos com Ela, para nos deixarmos contagiar por Ela, a cheia de Graça, para com Ela aprendermos a gerar Jesus, a amar e anunciar o filho de Deus ao mundo inteiro, comunicando alegria e apressando-nos a levá-l’O a todos, pela voz e pela vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/41, n.º 4623, 8 de setembro de 2021

Editorial: Submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo

“Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). Em resposta ao chamamento divino, Maria apresenta-se pronta a servir, a esvaziar-se de si para se encher de Deus.

Ninguém é neutro ou imparcial. Na linguagem, na biologia, na psicologia, há tendência de excluir palavras que signifiquem opção, escolha, diferença, optando pelo neutro, pelo insosso, pelo indiferente e indistinto, colocando tudo no mesmo patamar, tudo relativizando. O curioso é que esta pretensa neutralidade irrompe (sobretudo) de grupos, movimentos, associações ideologicamente extremistas, excludentes de outras opiniões, à procura de provocar ruturas. A tolerância não tem a ver com indiferença, mas com aceitação do outro e de respeito pelas suas convicções.

Um dia destes ouviremos alguém a dizer que “de passagem” ouviu estas palavras de Maria e a Sua escolha e dirá que não se compreende como ainda são proclamadas na Eucaristia!

“As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor… como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos”.

No 21.º Domingo do Tempo Comum (ano B), escutámos um texto da missiva de São Paulo aos Efésios (5, 21-32). Não damos a mesma atenção a todas as leituras, até porque já as conhecemos! A Palavra de Deus deve ser escutada e não apenas ouvida. Daí a recomendação, sempre urgente, da formação cristã. Por outro lado, o desafio a que as leituras de Domingo se leiam previamente, durante a semana, e algum comentário que ajude a perceber o contexto e ajude a visualizar melhor a forma de viver a Palavra de Deus na atualidade.

Este pedaço de texto foi partilhado e comentado como escandaloso, advogando a distração dos cristãos ou a suposta perpetuação da discriminação das mulheres em relação aos maridos. Atente-se: a leitura começava assim: “Irmãos: Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. É uma mensagem firme e inequívoca que a todos implica, o cristão não pode senão amar ao jeito de Jesus. O apóstolo volta-se então para as esposas. Obviamente que o texto tem o seu contexto e o autor sagrado, ainda que inspirado por Deus, inserido na comunidade crente que reflete, acolhe e amadurece a Palavra transmitida e colocada por escrito, não é um robot que reproduz um ditado, mas um ser humano com um vocabulário específico e sujeito às coordenadas culturais e religiosas. Os textos de Paulo não são iguais aos de Pedro ou de Tiago.

A leitura continua. “Maridos: amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela”. Há uma ligação, um mistério, que une Cristo e a Igreja! A Igreja vive, serve e testemunha Jesus Cristo que, primeiramente, amou e Se entregou por ela.

O essencial é amar ao jeito do Mestre gastando a própria vida a favor dos demais. Cristo amou e entregou-Se pela Igreja. É o modelo do amor para os casais, mas igualmente para toda a Igreja, para cada batizado. Submetei-vos uns aos outros, colocai o outro em primeiro lugar, servi-o e amai-o, em Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por nós. A “submissão” entende-se, habitualmente, como subjugação ao outro, situação de dependência e de escravidão, e até de humilhação desumana. Na lógica do Evangelho, contudo, prevalece a submissão por amor, voluntária, como escolha. A Vida, diz Jesus, ninguém ma tira, Sou Eu que a ofereço. Ele que era de condição divina, não se valeu da Sua igualdade com Deus, mas humilhou-Se a Si mesmo e tornou-Se obediente até à morte. Não há maior submissão do que esta. Sendo rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, despojado de todo o poder e majestade, revestido somente de amor, de compaixão e de ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/40, n.º 4622, 1 de setembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Atrás de quem corremos?

Num dos últimos números da revista “Audácia” encontrei uma história narrada pelos Padres do Deserto e ponto de partida para Susana Vilas Boas falar de discernimento vocacional.

Comecemos pela história:

“Um homem passeia-se com o jovem filho levando o seu cão de caça. A um dado momento, o cão avista um coelho branco no meio do bosque. Como está treinado – e é impulso natural dos cães – o cão começa a correr atrás do coelho, enquanto ladra freneticamente para dar o alerta da sua perseguição. No mesmo bosque – e vindos da mesma aldeia – outros cães, ao ouvirem o primeiro ladrar, começam a ladrar e a correr como ele. Após alguns minutos de corrida, desencorajados e cansados, os cães vão abandonando a perseguição e só o primeiro permanece atrás do coelho até o conseguir apanhar. Chegados a este ponto, o jovem rapaz – não habituado às andanças da caça – pergunta ao pai: «Paizinho, porque é que todos abandonaram a perseguição menos o nosso cão?» O pai respondeu-lhe: «Ora aqui está uma grande lição de vida: os outros cães corriam e ladravam por verem outros cães a correr e a ladrar. Com o nosso cão era diferente. Ele sabia a razão pela qual estava a correr e a ladrar – ele viu o coelho! Na nossa vida acontece o mesmo, se corremos por ver correr, a nenhum lado chegamos. Mas, se “virmos o coelho” e pusermos pés ao caminho, será duro, mas nada nos fará desistir sem alcançar os nossos objetivos».

Como cristãos, tem-no-lo dito o Papa Francisco recorrentemente, não podemos ser cópias, que vão atrás das últimas modas, seguem os “influencers” das redes sociais, vivendo uma vida maquilhada de rótulos, maiorias, opinião geral, que não nos realiza e em que nada nos diferencia dos demais. “Maria vai com as outras!” O cristão tem de ser original. Esta originalidade remete-nos, em primeiro lugar, à origem, a Deus, a Jesus Cristo. Como seres humanos somos também seres miméticos; desde crianças aprendemos a imitar, crescemos e amadurecemos olhando, vendo e depois fazendo. Mesmo que quiséssemos, não nos criamos / não nos inventamos a nós mesmos. E não somos ilhas isoladas! Rodeados de familiares, amigos e colegas crescemos conjuntamente, testamos os limites e as fronteiras. A educação também passa por aqui, por apresentar referências, balizas, orientação, valores! A criança não é um baldio que se deixe ao deus-dará, mas dão-se-lhe as ferramentas para discernir, para saber o que é bem e mal, responsabilizando-a progressivamente pelas suas ações, mas não a substituindo. Tarefa difícil, mas nobre.

Desafia-nos São Paulo: sede meus imitadores como eu sou imitador de Cristo. O paradigma continua a ser Jesus Cristo, mas pessoas próximas e concretas podem ajudar-nos a perceber o que nos sintoniza da nossa origem e o que desvirtua a nossa identidade cristã.

Uns séculos depois, São Paulo VI dir-nos-á: «O homem contemporâneo escuta com maior boa vontade as testemunhas do que os mestres ou se escuta os mestres é porque são testemunhas» (EN 19), desafiando-nos a viver de tal forma que os outros possam ver em nós o Evangelho de Jesus, não apenas pelo que dizemos, mas sobretudo, e antes de mais, pelo que somos, pelo que fazemos.

A cada momento teremos que discernir as nossas escolhas e caminhos. Cabe-nos verificar se estamos a “correr” por Cristo ou àqueles que nos rodeiam. É uma tarefa essencial, pois só a intimidade com Cristo nos faz prevalecer na fé e persistir na configuração ao Seu Evangelho, encarnado no tempo e na história, experimentado em Igreja. Chegámos a Jesus através da família, da Igreja, no ambiente em que nascemos e crescemos, mas só o encontro pessoal com Ele nos motiva a permanecer e a inundarmos a nossa vida com a Sua ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/39, n.º 4621, 25 de agosto de 2021

Entrevista com o Pároco de Penude, Pe. Adriano Cardoso

A Voz de Lamego foi até Penude para conhecer o projeto presidido pelo Padre Adriano, como pároco, à frente de uma das paróquias maiores da diocese, de um centro social paroquial que começou a funcionar há 10 anos (27 de julho de 2011), e a criação de uma vacaria. O Padre Adriano Cardoso contou-nos como tudo surgiu e a importância que dá à comunidade; cada passo dado é a pensar na mesma.

O que o levou a seguir a vocação?

O ambiente familiar, a forma como fui educado levou a que seguisse a vocação de padre. Comecei com uma longa etapa em Castro Daire com uma grande equipa, um projeto que me acrescentou muito, mas, ao fim de 25 anos, optei por mudar de paróquia, procurando novos desafios.

Penude era uma terra que tinha uma certa sedução, e recuando a 1996, tinha muita população e bons padres. Um grande padre que a população não esquece é o Sr. Padre Borges, depois disso, de 1978 até 1996, esteve cá o Sr. Padre Germano, um padre mais doce, mais suave. A minha vontade de me mudar para Penude surgiu muito pela ideia que tinha da terra, uma paróquia com fortes raízes religiosas, com uma prática cristã acentuada. Quando aqui cheguei o objetivo era inovar mentalidades, transformar e mexer com a comunidade.

Passados 25 anos, nota-se essa diferença?

Acho que sim, no entanto não consegui alcançar todos os objetivos que queria. A emigração aumentou bastante, os jovens, a maioria do sexo masculino, opta muito por sair do país e, mais recentemente, também os do sexo feminino, diminuindo assim a população residente.

De que modo a pandemia condicionou a paróquia de Penude?

A visão que temos da paróquia não é necessariamente a mesma. A dispensa da missa dominical é um dos exemplos. Com estas dificuldades também conseguimos tirar coisas boas como a notoriedade da fidelidade de muitos. Temos vindo a assistir a grandes mudanças, as paróquias estão totalmente diferentes na relação com a religião e com o padre.

Para lidar com as pessoas temos de respeitar o espaço de cada um, a liberdade, a construção, a opinião e a participação. Embora, hoje, se fale muito da igreja com uma base de construção laical, como esperamos todos, acho que ainda estamos longe porque, de algum modo, as pessoas ainda não falam com o à vontade que deviam nas reuniões para casamentos e batizados.

Tem vindo a notar, de certa forma, um afastamento da comunidade?

Eu acho que não, a aderência é praticamente a mesma, no entanto estes dois anos serviram para manifestar a autenticidade de muita outra gente que vai ultrapassando tudo, não abdicando da prática religiosa.

Uma novidade importante disto tudo é que as pessoas passaram de uma prática religiosa por legalismo, por obrigação, para a prática religiosa brotar como uma necessidade interior.

Há 25 anos, quando chegou a Penude, a prática religiosa passava de geração em geração, os avós passavam aos pais e netos e os pais faziam questão de manter esses costumes no seio familiar. Sentem que isso, hoje, ainda acontece?

Os avós, sem dúvida. Agora, a faixa etária dos pais, é a que mais emigra e dos mais novos, poucos são os que vão ficar cá na terra. O aspeto religioso tem de ter uma fibra interior, há uma volta que tem de se dar.

Estamos a chegar a uma atitude de maior verdade daquilo que somos. A religião já não é tão passada por gerações, vem do interior de cada um.

Temos de acreditar na verdade da igreja e Jesus Cristo. A felicidade das pessoas está, antes de mais nada, no conseguirem ser aquilo que desejam interiormente e não propriamente em ser a capa social e obrigatoriedade, há outro espaço de realização e identificação.

Tem outras ocupações para além da igreja?

Já tive, já fui professor. Procurei sempre ter uma autonomia de vida em relação à comunidade, isto é, ter sempre uma profissão de onde vem a estabilidade do meu viver, do meu presente e também garantir o futuro com a minha reforma. Vivi sempre de uma profissão paralela.

Como surgiu a ideia da vacaria? Que contratempos e vantagens dá à comunidade?

Candidatámo-nos a um programa a nível nacional. Este projeto tinha um valor de um milhão e quinhentos mil euros, mas só nos financiavam seiscentos e cinquenta mil. Para conseguir seguir com o projeto tínhamos de arranjar forma de arrecadar o resto do dinheiro.

Os proprietários destes terrenos, terrenos baldios, tinham acabado de fazer um contrato com as eólicas, contrato de aluguer destes mesmos terrenos em que, durante trinta anos, iriam receber umas rendas que corresponderiam a, mais ou menos, um milhão e duzentos mil euros.

Com isto, eu reuni a comunidade, apresentei a proposta aos donos dos terrenos, apresentei o projeto, ao que, a comunidade votou favoravelmente. Assim nasceu este projeto em prol da comunidade.

O objetivo aqui é também retribuir à comunidade o seu gesto, fazendo com que os baldios de Penude ganhem dinâmica e também dar dinheiro, trabalho, desenvolvimento e também limpeza.

Havia a opção de reflorestação e da criação de gado. A reflorestação iria acrescentar pouco a Penude, ao longo de trinta anos não iria acrescentar nada à comunidade, correndo ainda o risco de os incêndios acabarem com todo o projeto e, no caso de correr bem, quem beneficiaria com isso seria o estado. Aqui o objetivo é o bem-estar da comunidade.

Este gado, é gado arouquês. No passado, em Penude, haviam mil ou mais vacas, cada família tinha três ou quatro. Volto a referir, isto é tudo pela comunidade.

Já gastámos mais de um milhão de euros no projeto, estamos ainda a pagar três ordenados anuais, o que resulta em despesas na ordem dos sessenta mil. Com a alimentação do gado e as restantes contas, resulta numa despesa de cento e vinte anuais e nós, por enquanto não atingimos esse valor em receitas.

Tudo começou com quarenta vacas e todos os machos são vendidos, isto quer dizer que, há um crescimento lento, todos os anos aumentamos o número de vacas em vinte ou trinta. Este ano já temos cento e vinte vacas, daqui a dois anos já teremos, eventualmente, cento e cinquenta. Temos licença parta ter duzentas e três, assim que atingirmos esse número, se ainda for eu a presidir o projeto, vou tentar ir para as quatrocentas.

Tudo isto é um processo, com cento e cinquenta vacas vamos conseguir cobrir os gatos anuais e, depois, com o aumentar do número de gado, vamos fazer deste projeto, um projeto rentável.

in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

Entrevista com o Dr. Miguel Mota, Presidente da ESTGL

Dr. Miguel Mota, presidente da ESTGL, o polo académico de Lamego, conta-nos, um pouco mais sobre o polo universitário. Politécnico, situado bem no centro de Lamego, todos os anos traz novas caras à cidade, caras que, acabam esta fase do seu percurso académico com uma costela lamecense.

No final de mais um ano letivo é hora de analisar o que correu bem e ver o que se pode melhorar, sempre a pensar no melhor para os alunos. Em setembro começa mais um ano, 2021/2022 e o Dr. Miguel Mota conta-nos um pouco de tudo.

1 – Como começou esta caminhada e o que o levou a estar aqui, como presidente da ESTGL?

Foi no ano de 2008 que, como Professor Assistente Convidado, comecei a lecionar unidades curriculares na área de Matemática na ESTGL.

Encarei, à data, essa oportunidade como mais uma experiência profissional que, com toda a sinceridade, pensei ser temporária. A minha paixão pela academia, enquanto estudante, voltou a ser despertada e prendeu-me à ESTGL de corpo e alma, levando-me a fazer o doutoramento em Gestão para prosseguir a carreira de docente do Ensino Superior. Desempenhei, ao longo desta última década, vários cargos na Instituição nomeadamente: Diretor de Curso, Diretor de Departa mento, Coordenador do Empreendedorismo, membro do Conselho Técnico Científico,

Presidente do Conselho Pedagógico e membro do Conselho Académico do IPV. Em outubro de 2019 tomei posse como Presidente da Escola e, já neste ano, como elemento do Conselho Geral do IPV.

2 – Quais as licenciaturas que a ESTGL disponibiliza?

A Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego iniciou as suas atividades no ano letivo de 2000/2001 com as licenciaturas de Gestão e Informática e Gestão Turística, Cultural e Patrimonial, sendo a oferta formativa para 2021/2022 assente em três grandes áreas, as tecnologias, a área social e a gestão, compostas por 7 Cursos Técnicos Superiores Profissionais, 6 Licenciaturas e 2 Mestrados. A ESTGL oferece os seguintes CTeSP: Informática Industrial; Intervenção Social e Comunitária; Gestão Comercial e Vendas; Integração de Sistemas e Serviços de Telecomunicações; Assessoria e Comunicação Organizacional; Enoturismo; Tecnologias e Programação de Sistemas de Informação. Oferecemos, também, as seguintes licenciaturas: Gestão e Informática; Gestão Turística, Cultural e Patrimonial; Engenharia Informática e Telecomunicações; Serviço Social –regime diurno; Serviço Social – regime Pós-Laboral; Secretariado de Administração. Atualmente temos dois mestrados disponíveis o de Gestão de Organizações Sociais e de Gestão do Património Cultural e Desenvolvimento Local. A estreita ligação empresarial permite uma adaptação da oferta formativa às necessidades das organizações e dos negócios, da qual resulta uma constante inovação de programas e de metodologias de ensino ativo e de desenvolvimento profissional. Paralelamente à aprendizagem teórica, nas licenciaturas, desenvolvemos as competências transversais necessárias para um primeiro contacto com o mercado de trabalho ou para que os alunos prossigam os seus estudos.

Nos mestrados, preparamos profissionais especializados, por áreas funcionais vitais na Região. A ESTGL conta, este ano letivo, com cerca de 700 alunos provenientes de todo o território nacional e, também, alunos internacionais.

3 – Quais serão os desafios futuros para a ESTGL?

O principal desafio é o de projetar a ESTGL no território, implementando dinâmicas que permitam transmitir à comunidade que a Instituição é de todos e existe para servir as populações. O trabalho que temos desenvolvido pretende afirmar esta escola como uma escola de ensino politécnico de referência da região do Douro, desde Cinfães até Vila Nova de Foz Côa. Pretende-se que todos os concelhos, deste território sintam a ESTGL como a SUA ESCOLA de Ensino Superior. Na atual sociedade do conhecimento e perante um mercado altamente concorrencial e competitivo, a avaliação e classificação dos estabelecimentos de ensino superior é um imperativo a curto prazo, determinado pela capacidade de captação de estudantes, pela qualidade dos seus cursos, pela internacionalização e pela sua produção científica. A internacionalização é, de facto, uma aposta institucional, com a ligação a organizações e a instituições de ensino superior em Salamanca, em Ávila, em Valladolid, em Vigo, etc. Apesar trabalharmos principalmente com Espanha, neste momento, estamos a alargar e a estabelecer novas parcerias com a Bélgica, Polónia, Suíça e Lituânia.

As parcerias internacionais são, sem dúvida, uma exigência a nível académico, mas para nós é fundamental este estabelecimento de parcerias, assim como para os nossos alunos. A ESTGL, relativamente à sua oferta formativa, está a trabalhar, em cooperação com os seus parceiros (públicos e privados), na criação de novas formações em todas as nossas áreas de intervenção.

Na área das tecnologias, analisando o mercado e as necessidades dos nossos parceiros, criamos um novo Mestrado e um CTESP em parceria com a SOFTINSA. Este último vai ter a sua primeira edição já este ano letivo de 2021/2022, sendo uma inovação no que diz respeito às metodologias de ensino e aos apoios aos alunos.

Na área do turismo, a comunidade tem lançado vários desafios à nossa ESTGL que nos têm permitido ajudar a potenciar o desenvolvimento turístico regional através do Nosso Património. Destes de safios destacamos: A Rota das Catedrais (em fase de implementação pela CCDR-n e que inicia em Santiago de Compostela passando por Braga, Porto e a termina na nossa Sé de Lamego), A promoção do Távora-Varosa, O Caminho de Santiago (com duas rotas a passar pelo nosso território) e, por último, destacamos um trabalho, recentemente termina do, a Rota do Românico (cuja apresentação se realizou no dia 12 de julho). As novas for mações nesta área passam por pós-graduações direcionadas para a região do Douro e para o Turismo Gastronómico, sendo esta última um projeto a articular com a Escola de Hotelaria do Douro. A área Social continua a ser uma forte aposta da escola, com a licenciatura em Serviço Social, o CTESP de Intervenção Social e Comunitária, estando a preparar-nos para novas ofertas formativas nas Ciências Sociais e Humanas. Na área da Gestão continuamos a apostar nas formações existentes e a desenvolver novas, nomeadamente, mestrados, licenciaturas cuja lecionação esperamos iniciar no ano letivo 2022-23. Sendo uma região muito assente nos Serviços, será importante criar sinergias neste setor através de formação especializada.

O investimento na Investigação é uma prioridade. O investimento em atividades de Investigação e Desenvolvimento (I&D) torna-se cada vez mais importante e essencial em instituições de ensino superior, assumindo-se como um complemento essencial à for mação, promovendo a criação de novos saberes científicos e tecnológicos, com potencial de transferência para a sociedade em geral. A aposta em projetos desenvolvidos por estudantes e docentes é uma premissa fundamental. Paralelamente à atividade letiva, a ESTGL deseja incrementar a organização de eventos de divulgação da escola, entre outros de carácter científico e pedagógico, destinados aos seus estudantes e à comunidade envolvente. Pretendemos, igualmente, continuar a promover iniciativas de índole cultural e o envolvimento da escola em ações culturais e sociais.

4 – Nesta situação pandémica, certamente surgiram novas dificuldades que obrigaram a inovar ou moldar os métodos de ensino. Como se adaptaram?

Efetivamente a situação pandémica obrigou um esforço suplementar por parte de todos, docentes, não docentes e alunos, a quem não podemos deixar de agradecer. A passagem de um regime presencial para o regime não presencial, numa primeira fase, implicou a necessidade de adaptação a novas metodologias de ensino, com recurso às novas tecnologias que muitos não dominavam (docentes e alunos). No entanto, este esforço foi conseguido, apesar das dificuldades. O retorno gradual às atividades letivas presenciais e os planos de contingência foram muito bem-sucedidos dada a colaboração de toda a comunidade.

5 – O polo universitário de Lamego está um pouco distante da sede do instituto politécnico de Viseu, considera que se sente mais a academia e que o facto de serem menos alunos permite uma maior proximidade com os mesmos?

Efetivamente a Família ESTGL, como é designada, carateriza-se pela proximidade entre estudantes, estudantes e docentes, estudantes e pessoal não docente. Esta situação facilita muito o processo ensino-aprendizagem pois permite ao estudante o acompanhamento contínuo dos conteúdos lecionados com um contacto direto com o território e as necessidades dos parceiros. No entanto, a proximidade com Viseu tem sido uma constante com o crescente empenho numa Instituição colaborativa e envolvente.

6 – Como são as relações com os restantes polos do instituto politécnico de Viseu?

O Instituto Politécnico de Viseu é composto por cinco unidades orgânicas que se complementam e que estão em plena sintonia.

O trabalho atual passa pela criação de sinergias e de ofertas formativas transversais, com um objetivo comum de afirmar o Instituto (Educação, Formação, Transferência do conhecimento) no Território. A relação entre as escolas do instituto é salutar.

7 – Lamego é uma cidade pequena, considera esse fator benéfico para que haja o espírito de entreajuda entre as várias instituições locais?

A ESTGL, ao localizar-se numa cidade interior, de pequena dimensão, efetivamente beneficia com este facto, pois torna-se dinamizadora do desenvolvimento deste território, em estreita colaboração com os atores regionais. Importa não esquecer que a ESTGL está localizada numa Comunidade Intermunicipal, CIM Douro, que conta com cerca de 200.000 habitantes e mui tas empresas e organizações. Todos, em conjunto, desempenham um papel fundamental na região, pelo que a entreajuda é fundamental para Lamego e o Douro se projetarem e afirmarem cada vez mais o seu Património (material e imaterial) no país e no mundo. Sabemos que os territórios de baixa densidade são persistentes e mais resilientes. A ESTGL, faz parte desta rede de persistência.

8 – Há muitos estudantes que deixam a sua terra para estudar em Lamego e uma integração rápida pode ser crucial para o sucesso académico. De que forma a ESTGL facilita a integração dos alunos?

A integração dos estudantes é fundamental para o sucesso académico. Lamego propicia essa situação, nomeadamente o saber receber próprio da região, a proximidade existente, todas as dinâmicas criadas para acolhimento dos novos estudantes, quer pela Associação de Estudantes, quer pelo projeto Mentores em Ação que está em fase de implementação e que ajuda neste processo de inclusão. A integração numa escola de menor dimensão é facilitada pela proximidade entre alunos, discentes e docentes e discentes e funcionários. Há muita familiaridade.

9 – Chegamos agora ao fim de mais um ano letivo, fazendo uma análise do mesmo, com certeza que há mais pontos positivos do que negativos. O que há a melhorar e o que se pode aprender com o ano transato?

A consciência das nossas limitações é algo fundamental para nos superarmos, ano após ano. O ano transato foi mais um ano marcado pela COVID-19, marcado pelo distanciamento físico que nos levou a pensar que a razão da nossa existência são os nossos alunos e que, independentemente das dificuldades é a eles que temos que chegar, são sempre a nossa prioridade. Assim, a afirmação da ESTGL no território nacional e internacional é algo prioritário para nós trabalharmos. Irmos ao encontro das necessidades do território, dos empregadores, … de forma a conseguirmos que os nossos estudantes tenham possibilidade de um futuro promissor é o nosso objetivo principal.

10 – Gostaria de deixar uma mensagem aos estudantes que estão perto de ingressar no ensino superior? Porque deveriam optar por estudar na ESTGL?

Basta dizer que a Família ESTGL está de braços abertos para vos receber. Efetivamente, possuímos uma diversidade de formações, em estreita relação com a região, permitindo um ensino prático de referência e com níveis de empregabilidade superiores a 85%.

Em Lamego os estudantes encontrarão segurança, convívio, uma receção muito pessoal numa cidade histórica inserida numa região ímpar- Douro. Estamos a trabalhar para são de escola de excelência.

Falecimento da Mãe do Pe. Agostinho Ramalho

Deus, Senhor do tempo e da história, na Sua infinita sabedoria e bondade, chamou a Si, para a Sua morada eterna, a Sra. D. Maria Nazaré Ramalho Matança, mãe do Pe. Agostinho Ramalho, pároco de Lalim, Lazarim e Cepões, no Arciprestado de Lamego.

O Sr. Bispo, D. António Couto, em comunhão e em nome do Presbitério de Lamego, manifesta o seu pesar ao reverendo Pe. Agostinho, aos seus familiares e amigos, confiado, na oração e na fé, na ressurreição dos mortos e na vida eterna. A comunhão de sentimentos, remete para a esperança na vida em Deus, no tempo e na eternidade e, assim, agradecendo a Deus por todo o bem operado nesta e através desta nossa irmã, confia que, na glória de Deus, continuará a rezar pelo seu filho, pela sua família e toda a família cristã.

A celebração das Exéquias realizar-se-ão em Bigorne, na Igreja Paroquial, pelas 18h00, seguindo-se o sepultamento no cemitério local.

Deus lhe conceda a vida eterna e à família e amigos a esperança da imortalidade.

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Editorial VL: GOSTO MAIS, MUITO MAIS DE MARTA

Gosto mais de Pedro. E também gosto de Judas, por ter sido um dos discípulos mais próximos de Jesus, homem de confiança, a quem foi confiada a administração dos parcos bens que iam recebendo para acomodar o estômago e circular entre povoações!

De Judas há de dizer-se muita coisa, mas no final só o juízo de Deus será definitivo. Tinha tudo para ser líder, inteligência e capacidade de gestão, mas perdeu-se a meio e não foi capaz de deixar que a Luz de Jesus destronasse as trevas que o vinham a consumir. Há estudiosos que sustentam que o último gesto de Judas, o suicídio, além dos fusíveis meios fritos, foi uma tentativa de se encontrar mais rapidamente com o Seu único Senhor, Jesus Cristo, no Paraíso.

Gosto muito mais de Pedro, porque é o Padroeiro da minha terra, Penude, onde nasci como cristão, onde comunguei pela primeira vez, onde celebrei a minha “Missa Nova”. Gosto muito de Pedro, não tanto por se tornar a Pedra sobre a qual Jesus constituiu a Sua Igreja, o que é deveras importante, mas pela sua espontaneidade. Esta valeu-lhe algumas reprimendas da parte do Mestre dos Mestres. Pedro tem o coração ao pé da boca, diz o que lhe dá na real gana, não mede o que diz, primeiro diz e só depois é que pensa. Mas é genuíno. Não tem duas caras, a não ser quando Paulo lhe mostra a duplicidade perante cristãos oriundos do judaísmo ou cristãos originários dos gentios! Mas nessa altura já Pedro está temperado pela humildade e pela luz da Páscoa, e reconhece que Paulo clarifica o caminho de Jesus.

Gosto muito de Marta, por alguns dos motivos pelos quais gosto muito de Pedro. Já lá vamos. Primeiro dizer que este “gostar mais” não é tanto uma comparação em relação a Maria ou a Lázaro! É uma família acolhedora, hospitaleira, próxima de Jesus. A casa deles, a família, o coração deles está disponível para Jesus, nas partidas e nos regressos.

No dia 29 de julho celebrávamos a memória litúrgica de Santa Marta. A 2 de fevereiro, deste ano, a Santa Sé decretou que a Igreja passasse a celebrar, nesse dia, os Santos Marta, Maria e Lázaro numa única Memória Litúrgica. Através de Lázaro, Jesus amadurece ou prepara a fé dos Seus discípulos na ressurreição. Com Maria, descobrimos a urgência, a primazia, a necessidade de estarmos aos pés de Jesus, para sintonizarmos o nosso com o Seu coração, para O escutarmos. De algum modo, como o discípulo amado, também Maria ajusta o bater do seu coração ao bater do coração de Jesus. Está tão perto d’Ele, que ouve este compasso com o qual sincroniza a sua vida.

Gosto mais de Marta, porque nela se visualiza uma faceta que o Papa tem acentuado em relação, por exemplo, a Abraão, a faceta de uma oração direta, sem medo, pronta a enfrentar o próprio Deus. Abraão negoceia o “destino” de Sodoma e Gomorra, até à exaustação. Na hora decisiva, a opção é por Deus, a quem confia o seu filho único. E por isso, porque confia em Deus, nele, Deus abençoa as nações da terra inteira. Ou como Jacob que luta com Deus até de madrugada!

Quando Marta se atarefa toda, afronta e enfrenta Jesus: não te importas que minha irmã fique na conversa? Após a morte de Lázaro, quando Jesus se aproxima, Marta corre ao Seu encontro e diz-lhe das boas: se Tu estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido! Direta, espontânea, confia em Jesus, revela uma grande fé, mas não deixa de Lhe fazer chegar o seu protesto, a sua oração. E, por isso, hoje gosto mais de Marta, porque me ensina a rezar em todos os momentos, mesmo sem guião!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

Falecimento do P. Acácio Ferreira Soares | 1924-2021

Na celebração dos 60 anos de sacerdote, em celebração presidida por D. Jacinto Botelho, então Bispo de Lamego

O Senhor Deus, Pai de bondade, Senhor do tempo e da história, chamou à Sua morada eterna, o nosso irmãos, Cónego Acácio Ferreira Soares, nascido a 14 de maio de 1924, em São Cristóvão de Nogueira, concelho de Cinfães, frequentou os semanários diocesanos, de Resende e de Lamego, e foi ordenado a 3 de setembro de 1950.

Logo após a ordenação sacerdotal, foi enviado como Pároco para Chavães e Vale de Figueira, no concelho de Tabuaço. Posteriormente, foi nomeado Prefeito e responsável da disciplina no Seminário Maior de Lamego. Foi ainda Diretor da Obra Diocesana das Vocações e Diretor Espiritual.

Em 01 de janeiro de 1969, tomou posse da Paróquia de Cinfães, onde serviu durante 38 anos, até 22 de outubro de 2006, e onde residia presentemente.

O Sr. Bispo, D. António Couto, nosso Bispo, manifesta a sua comunhão aos familiares e amigos, às comunidades que o Cónego Acácio serviu ao longo da sua vida sacerdotal, unindo-se em oração, na esperança na ressurreição dos mortos e na vida eterna. Esta esperança, faz-nos agradecer a vida, o ministério sacerdotal, certos que, junto de Deus, o P. Acácio falará/rezará por nós.

A celebração das Exéquias será na Igreja Matriz de Cinfães, amanhã, pelas 11h00, indo a sepultar no cemitério local.

Deus lhe dê o descanso dos justos e a nós a sabedoria por comunicarmos vida e bênção.

Entrevista VL com Filomena Matias

O restaurante A Tasquinha do Matias, é um espaço simples, mas altamente recomendável pela boa comida que apresenta, dos petiscos regionais aos substanciais milhos à lavrador, a marrã à tasquinha e o cozido à portuguesa. Para conhecer A Tasquinha do Matias, tem de conhecer Filomena Matias Pinto, a proprietária.

Filomena Matias Pinto é conhecida pelo amor que tem pela aldeia, carinho das pessoas e, como é obvio, pelos milhos no pote. Milhos no pote, prato esse que já foi premiado no concurso gastronómico “7 maravilhas à mesa” com o 3º lugar.

“Estes milhos fazem com que tenhamos as pessoas que temos.”

“Eu quando vim da suíça, precisava de emprego, já tinha 40 anos, e, por isso, era complicado arranjar emprego. Foi aí que pensei em arriscar na tasquinha que a minha mãe já tinha há algum tempo, tasquinha que, com a viragem do euro, a minha mãe não conseguiu gerir.

De 2000 até 2005 a tasquinha esteve fechada, e não podia ser assim. Esta torre e esta paisagem mereciam ter visibilidade, tinha de arranjar uma forma para que isso acontecesse.”

“Comida normal não ia fazer com que as pessoas fizessem o desvio para visitar esta ponte e torre romana, a torre e ponte de Ucanha.”

Torre e ponte de UCANHA

O monumento mais icónico de Tarouca é a torre e ponte de Ucanha, a mais bela ponte medieval Portuguesa e está classificada como Monumento Nacional desde 1910.Se na idade média muitas pontes com torres fortificadas foram erguidas, quase todas desapareceram, a que esteve associado a existência da sua proibição a partir de 1504, pelo rei dom Manuel I. Em Portugal ainda existem fortificadas, a ponte de Ucanha que está em perfeito estado de conservação.

“No início servia 20 refeições diárias, isto ao fim-de-semana, só ontem servi 302 refeições.

Temos gente de todo o lado, algarve, Alentejo, porto, Guimarães, Braga, Gerês. De abril a outubro foram 72 autocarros, cheios, até à Ucanha, à tasquinha do Matias.

“Fizemos 200 Km para comer os seus milhos e ainda temos a viagem de volta” – são estas palavras que compensam todo o trabalho diário. “

Foram já algumas figuras publicas que tiveram o prazer de conhecer a Sr. Filomena, uma das celebridades foi mesmo o presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

“Ele adorou os milhos e também me adorou a mim” – disse a proprietária da tasquinha do Matias em gargalhadas.

“Ainda me manda cumprimentos pelos jornalistas”.

Qual foi a refeição mais marcante que serviu até hoje?

“Foi uma refeição com a Maria João Abreu e o Fernando Mendes, fizeram questão de atuar, e fazer um pouco de comédia aqui no restaurante. Essa foi, sem dúvida, uma das refeições mais marcantes. Houve mais uma que me tocou muito, um cliente que era cego quis fazer o pedido de casamento à sua namorada aqui, colocámos tudo conforme foi pedido e assim foi, tão gratificante…”

 in Voz de Lamego, ano 91/36, n.º 4618, 21 de julho de 2021