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Editorial da Voz de Lamego: A vinha do Senhor

As primeiras palavras do Papa Bento XVI, logo depois da eleição, a 19 de abril de 2005: “Os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”.

Muitas vezes se contrapõe Bento XVI ao Papa Francisco, e vice-versa, instrumentalizando um ou outro, conforme as conveniências e interesses pessoais ou de grupo. Cada um, com a sua personalidade e sensibilidade, mais Paulo ou mais Pedro, mas a mesma doçura ao serviço do mesmo Evangelho, da mesma Igreja, na fidelidade sem tréguas a Jesus Cristo, presente e atuante na Igreja, sacramento de Salvação, e no mundo ao qual somos enviados a testemunhar o amor de Deus, para que a fé seja contágio curativo, atração e luz. Não são cópia, mas também não são traição; não são correção, um em relação ao outro, mas simples servos servidores da vinha do Senhor, em tempos sucessivos, com o mesmo amor a Jesus, à Igreja, como Corpo de Cristo no tempo e na história, e ao mundo das pessoas, que louvam toda a criação.

No último Domingo, o Evangelho (Mt 20, 1-16a) apresentava mais uma parábola, com a qual Jesus nos faz vislumbrar um Deus que nos procura, em todo o lado, também na praça, nos caminhos e nas avenidas. Vem uma e outra vez, em todas as horas do dia e em todas as idades da nossa vida. Um Deus que é Pai e, por conseguinte, Se dá por inteiro, não tanto a partir dos nossos méritos, mas a partir do amor que transborda do Seu coração. Como Pai não pode senão amar e amar por inteiro. Não se ama devagarinho, às prestações, na condicional ou com as reservas para ver no que pode dar o relacionalmente! Ama-se. Ponto. Ama-se inteiramente. De contrário, serão cópias de amor, mas não amor.

Cada um de nós é, a um tempo, trabalhador da primeira hora, do meio do dia, do entardecer. Deus desafia-nos, convoca-nos, espera pela nossa resposta. Todos têm lugar à Sua mesa. Todos são acolhidos e agraciados com todo o Seu amor. Ele não desiste de ninguém. Não nos retira parte da herança, pois é sempre Pai que nos ama como Mãe.

A vinha do Senhor entende-se até onde há pessoas, mesmo que esquecidas da sociedade. Deus, revelado em Jesus, é a referência para nós. Daí o compromisso de uma “Igreja em saída”, como reiteradamente tem sublinhado o Papa Francisco. Se o Senhor sai em busca dos trabalhadores, para Quem nunca é tarde, como o Pastor em busca da ovelha perdida, em todas as encruzilhadas, também os Seus discípulos têm a mesma missão. Por um lado, são simples trabalhadores da vinha e, por outro, seguem o exemplo do proprietário, não descansam enquanto houver alguém desocupado, sem trabalhar, sem vínculo, sem amor, sem pertença ao Reino de paz e de amor. A vinha do Senhor é para todos, ricos e pobres, melhor, é para aqueles que aceitarem ser de Deus. Os últimos serão primeiros. É a opção de Deus. É a nossa opção. E como, mais uma vez, insiste o Santo Padre, os últimos, os mais desfavorecidos, devem ser os primeiros a ter acesso a uma vacina, gratuita, contra a COVID-19. Será uma forma de o mundo mostrar que as palavras têm a consistência das opções.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/41, n.º 4571, 22 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Regresso ao futuro

Não se regressa ao passado, mas pode revisitar-se. Regressar ao futuro não passa de um desejo de querer controlar o tempo, o espaço e a história. No imaginário cinematográfico e televisivo, surgiram filmes e séries que permitem o regresso ao passado, em que uma ou outra personagem aparece anos ou séculos antes, podendo modificar o futuro, mudando algumas engrenagens. A ida ao passado tem o propósito de corrigir, no passado, as situações presentes menos positivas, beneficiando uma pessoa, uma cidade ou um país. Mas ficou também no nosso imaginário o filme “Regresso ao Futuro”. A máquina do tempo abria essa possibilidade, mas o propósito de ir ao futuro era o mesmo de ir ao passado, neste caso, ver como se tinha desenrolado a vida, a história, as consequências futuras de determinados acontecimentos atuais, para que no regresso ao presente, a ação pudesse mudar o que não foi tão agradável para os próprios e para a humanidade.

É uma fartura ficcionada de regressos ao passado ou ao futuro. Mas, convenhamos, a vida é só uma, não tem voltas nem regressos temporais ou cronológicos; cabe-nos, a mim e a ti, hoje, aqui e agora, agir, decidir, fazer escolhas. A vida, em certo sentido, é linear, avança, não fica parada à espera que nos resolvamos ou que outros tomem as rédeas por nós, qual caudal de um rio que avança, mais rápido ou mais devagar, mais sereno ou mais tempestuoso, conforme a tipologia do terreno, a chuva que cai, a água que encontra, os obstáculos que surgem. Mas avança. Já dizia o velhinho na praça, o comboio não espera por ninguém! Quem chegou, chegou, quem não chegou fica em terra! Mas neste caso talvez fosse o barco e não o comboio!

Por experiência, vamos vendo que, por vezes, surgem novas oportunidades, que poderemos então aproveitar, mas podem também não surgir ou poderemos já não estar cá nós, então há que aproveitar o tempo atual. Quantas vezes à espera da melhor oportunidade, não adiamos o futuro que acabou por nunca chegar? E tornamo-nos amargurados com a vida e com os outros que realizaram sonhos e projetos, com sacrifícios e dores, mas tornaram-se pessoas felizes e sábias porque souberam viver o presente em cada presente!

O surto pandémico, do novo coronavírus, provoca-nos o sonho da espera, do adiamento, da expetativa. Quando em março, o país entrava em “paragem cardíaca”, no confinamento, em estado de emergência, que se foi renovando, bem pensávamos que no fim de maio, ou em pleno junho, ou talvez em finais de julho, ou quem sabe, em agosto, verão dos emigrantes e das festas, tudo estaria como dantes! Afinal, já vamos em meados de setembro e continuam a pairar sobre nós os cuidados, os números de infetados e as mortes, na expetativa confiante da criação de uma vacina segura e universal!

Não podemos voltar ao antes, mas também não podemos avançar para o futuro, ou suspender a vida até ver. Importa que avancemos, juntos, com todos os regressos possíveis, com todo o cuidado, mais do que nunca, respeitando o outro e o seu espaço. Como cristãos, cabe-nos cuidar. Cuidar também é salvar. Cuidar da segurança dos outros é responder ao chamamento de Jesus Cristo, tendo em atenção, sempre, em não deixar ninguém esquecido, em não deixar ninguém para trás ou excluído. Deus, a quem o futuro pertence, caminha connosco nas alegrias e nas adversidades.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/40, n.º 4574, 15 de setembro de 2020

Amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas

Reportagem-entrevista de Andreia Gonçalves para a Voz de Lamego

O valor da amizade é incalculável. Mais ainda, quando atravessam a história e ultrapassam os 50 anos. Nem com as barreiras e pontes longínquas, as duas amigas que encontrei se perderam. Conheça esta história, que tem valor de joia rara. 

Alzira e Lurdes estão separadas por um oceano, a primeira vive e trabalha em Lamego, e a outra lá no país irmão, Brasil. Ambas filhas de portugueses, e nascidas em Angola. Foi em Luanda que viram nascer a amizade que seria para a vida. “Éramos vizinhas, morávamos na Vila Clotilde e estudávamos no Liceu Feminino que era uma referência muito forte da juventude da cidade de Luanda”, diz Lurdes com o seu sotaque doce que há anos recebeu de presente do país que a acolheu, a si e aos seus pais, quando os portugueses tiveram de abandonar as suas vidas, após 1974, e recomeçarem, onde quer que fosse, sem medo. Lurdes e Alzira lembram os tempos de meninas de Angola, com muita diversão, sorriso e calor. Ao chegarem do Liceu “reuníamo-nos no portão da minha casa e assim convivíamos com os amigos que também eram nossos vizinhos”. “Nas manhãs de domingo íamos à praia na Ilha de Luanda e à tarde às matinés no cinema em frente à Liga Nacional Africana ou ao Clube Transmontano onde havia uns bailes únicos”. Alzira acrescenta que “para não irmos sozinhas, a mãe da Lurdes e a minha irmã mais velha iam connosco, era engraçado, o pai dela tinha um táxi e então íamos todas no carro (a Lurdes, a mãe, a irmã, eu e minha irmã), ele deixava-nos lá e depois ia buscar-nos”.

A separação foi muito rápida e muito difícil, entre os 16 anos de uma e os 17 da outra, e não tínhamos muito tempo para pensar no que faríamos. Os sonhos derreteram-se rapidamente. “A minha família tinha a opção de vir para o Brasil ou ir para Portugal, mas por motivo de doença, o meu pai estava a padecer de cancro e precisaria morar num país tropical, decidimos vir para o Brasil” explica Lurdes.  

Para Alzira foi uma separação muito sentida! “Pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado… A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fôssemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira”, diz Alzira, relembrando o coração apertado da altura.

A separação de duas amigas foi inevitável, e havia a incerteza por toda a parte, contudo, continuaram durante anos a alimentar a amizade por carta, que atravessavam, o atlântico, nas datas mais marcantes como aniversário ou Natal. Foram precisos 25 anos, para que no ano 2000, as amigas pudessem viver um abraço, novamente, Encontraram-se em Lamego e descrevem este momento como mágico de enorme emotividade.

Agora, passaram os sessentas, e são as novas tecnologias que facilitam as comunicações. “No começo a Alzira não tinha Facebook mas trocámos e-mails, conversávamos pelo Skype e agora conversamos por WhatsApp, por Messenger, as nossas mães também conversam e a interação ficou muito fácil”.

Foi em 2010, que estiveram juntas pela última vez.  Mas, quando acabar a pandemia, Lurdes quer voar de novo até Portugal, porque quando a amizade é verdadeira “a distância não separa, as lembranças estão sempre vivas”.

Diz a filosofia chinesa que amizades verdadeiras são como árvores de raízes profundas: nenhuma tempestade consegue arrancar, então como não podemos nos visitar assiduamente usamos a tecnologia a favor da nossa amizade, referem as duas.

Uma união das meninas, que foram mães e que num pequeno nada partilharão ambas a experiência da nova etapa de Alzira, ser avó. Aí Lurdes já dará umas dicas!

Como foi a separação e para onde foram?

Foi uma separação muito sentida, pois veio-me logo à cabeça que não nos íamos ver mais, que a nossa amizade ficava por ali, porque íamos para muito longe uma da outra, eu vinha para Portugal e a Lurdes para o Brasil. Tudo isto foi em 1975, portanto há 45 anos, para mim era impensável ir ao Brasil visitar a minha amiga, pois o Brasil não era logo ali ao lado…

A mãe da minha amiga (que também era muito amiga da minha mãe) ainda queria que fôssemos todos para o Brasil com eles e começávamos lá uma vida nova. Mas tal não aconteceu, porque aqui em Portugal já tínhamos pelo menos uma casinha e uns terrenos, que por ironia do destino ou não, tínhamos herdado do meu avô paterno precisamente um ano antes quando viemos a Portugal de Graciosa, e as minhas tias e o meu avô quiseram aproveitar a estadia do meu pai para fazerem as partilhas, pois não tínhamos intenção de vir a Portugal tão depressa. Fizeram-se as partilhas e o meu avô faleceu uns meses a seguir.

Se não tivesse acontecido isso era provável que também fossemos para o Brasil com eles.

Na altura da separação não me lembro de ter havido troca de direções, só sabíamos que eram de Loulé e que iam para o Brasil, e elas sabiam que os meus pais eram de Nagosa – Moimenta da Beira.

Como mantiveram apesar de todas as condicionantes a vossa amizade?

Como já tinha dito elas sabiam que éramos de Nagosa, e numa aldeia a correspondência chega com facilidade a casa das pessoas, pois toda a gente se conhece, bastava o nome e a carta era entregue ao destinatário. Foi assim que recebia primeira carta da Lurdes (mas não foi logo, ainda se passaram uns anitos). Foi com muita alegria e emoção que recebi a carta e pensei logo “a Lurdes não me esqueceu”… E a partir daí fomos mantendo o contacto através de carta. Ainda nos escrevemos durante alguns anos.

Ela já veio a Portugal 2 vezes.

As novas tecnologias aproximaram-vos ainda mais?

Sim, sem dúvida, primeiro por e-mail e depois falava com ela através do Facebook da minha filha (eu não tenho Facebook) e agora pelo WhatsApp.

Quando estiveram juntas fisicamente pela última vez?

Não sei ao certo, talvez há 7 ou 8 anos.

Para quando o próximo abraço?

No início deste ano a minha amiga estava a pensar vir cá no verão para trazer a mãe, pois como a senhora já tem idade ela não queria que a mãe “morresse” sem vir à terra, mas com isto da pandemia do Covid-19 o desejo de vir a Portugal ficou adiado, por isso neste momento é difícil prever uma data.

O que é uma verdadeira amizade?

É aquela em que ambas as partes continuam a preocupar-se uma com a outra apesar da distância e sem segundas intenções.

E como se alimenta essa mesma amizade?

É tentar fazer com que a mesma não acabe, mantendo sempre o contacto através de qualquer meio.

in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Jubileu da Terra: Recordar, regressar, repousar, restaurar e jubilar

Editorial da Voz de Lamego, edição de 8 de setembro de 2020

No dia 1 de setembro, celebrámos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, abrindo o Tempo da Criação que se conclui a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. O tema escolhido para este ano, pela família ecuménica, foi um “Jubileu pela Terra”, no quinquagésimo aniversário do Dia da Terra. O Santo Padre, na sua Mensagem para este Dia Mundial, publicada/divulgada nesse mesmo dia, contextualiza: “Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar”.

A mensagem completa está disponível, por exemplo, na página da nossa diocese: www.diocese-lamego.pt. Alguns sublinhados a partir dos verbos escolhidos pelo Papa:

RECORDAR. “O jubileu é tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor… Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra”.

REGRESSAR. “O Jubileu é tempo de regresso a Deus nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas… o Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis… o Jubileu é tempo para dar a liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil. Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra… Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida”.

REPOUSAR. “Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam. De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis… Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação”.

RESTAURAR. “O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas. Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora”.

REJUBILAR. “É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (Laudato Si’, 13)… Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

DIA INTERNACIONAL DA CARIDADE

A Cáritas assinala amanhã, 5 de setembro, o Dia Internacional da Caridade, instituído pela Organização das Nações Unidas. Este dia, coincide, também, com o aniversário da morte de Madre Teresa de Calcutá, padroeira da Cáritas em todo o mundo. É um dia em que todos os colaboradores e voluntários da Cáritas renovam o seu compromisso com o serviço ao outro, inspirando-se nesta mulher que fez do serviço a alegria da sua vida.

Neste dia homenageamos todos aqueles que estão na linha da frente na defesa dos mais vulneráveis, em todo o mundo. Homens e mulheres para quem os mais pobres, doentes, isolados, marginalizados, são a imagem do Amor que materializa a missão e a identidade da Cáritas.

É também uma oportunidade para lembrar as muitas situações, no mundo inteiro, onde as circunstâncias de vida são especialmente difíceis e exigem uma atenção e uma ação particular. Todos os que, em Portugal, viram as suas vidas mais fragilizadas desde o início da pandemia provocada pela COVID-19 seja do ponto de vista da saúde, seja pelos efeitos emocionais e, particularmente, os que vivem a angústia das gravíssimas consequências económicas.  Uma preocupação muito grande com o aumento exponencial de pessoas com diferentes debilidades na área da saúde mental, dadas as incapacidades estruturais em responder, atempadamente, às necessidades de já milhares de pessoas a precisar de auxílio. Depois, em todo o mundo, aqueles que se confrontam com situações de conflito e de medo. A Cáritas, em Portugal, acompanha, de forma particular, a situação da população de Cabo Delgado, em Moçambique, onde os efeitos da passagem dos ciclones Idai e Keneth são ainda uma marca e cuja população vive agora confrontada com o medo provocado pelos ataques terroristas, em Cabo Delgado.

“Por todo o mundo multiplicam-se as situações de vulnerabilidade para quem presta e para quem pede auxílio. A Cáritas pede que, neste dia, ninguém deixe de ter um gesto de auxílio em favor de quem esteja em necessidade. Uma visita, um donativo, um abraço, uma diligência, …são algumas das formas de viver, de verdade, este dia. Neste dia que ninguém em sofrimento seja esquecido!” Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa

Márcia Carvalho | marciacarvalho@caritas.pt

Editorial da Voz de Lamego: Ensaio sobre a cegueira

Não, não é a sugestão do livro de José Saramago, ainda que, pessoalmente, goste muito dos seus livros, mas, a sugerir, talvez começasse por recomendar “A Jangada de Pedra”, pela originalidade, pela criatividade e pela história que constrói unindo as duas pátrias da península ibérica. Mas não se trata de aconselhar esta leitura, mas de partir da cegueira a que a população fica sujeita. Em pouco tempo a cegueira espalha-se. As autoridades isolam (em quarentena) os que ficam cegos. É tão surpreendente que não é possível gerir um problema que se agudiza. As decisões iniciais até parecem sensatas. É necessário isolar todos os que ficam cegos, para evitar o contágio do resto da população. Os soldados, armados até aos dentes, garantem que ninguém sai, um manicómio vazio, devoluto, murado em todo o perímetro, rapidamente convertido em aquartelamento para a quarentena. Mas também os soldados e as autoridades acabam, sem se saber como, de ficar cegos. Só restará a mulher do primeiro cego, que mantém a visão. Em alguns momentos talvez também ela desejasse não ver o que fazem as pessoas quando sabem que os outros não estão a ver! José Saramago cria parábolas muitos sugestivas, sobre o mundo atual, em vários livros como, o já citado, “A Jangada de Pedra”, “A Caverna”, “A Viagem do Elefante”, “O Homem duplicado” ou “O Ensaio sobre a Lucidez”.

A pandemia provocada pelo novo corona vírus veio suscitar uma ampla reflexão. O Papa Francisco, no momento de oração extraordinário, a 27 de março, sublinha que não era possível viver de forma saudável num mundo doente. Doente pelo egoísmo, pela prepotência, pela discriminação racial, social, cultural, religiosa. Doente pela indiferença em relação aos pobres, às pessoas e povos que vivem na miséria. Doente no exacerbado consumismo e na exploração exaustiva dos recursos naturais, sem a solidariedade intergeracional necessária para a sobrevivência do planeta. Estamos no mesmo barco e a destruição deste a todos afetará, não apenas no futuro, mas já vislumbrável nos nossos dias. A pandemia mostra que pobres ou ricos, mais novos ou mais velhos, países desenvolvidos ou em desenvolvimento, todos podem ser contaminados. Claro que os cuidados de saúde continuam a depender em grande escala do poder económico e do desenvolvimento dos povos. Milhares de pessoas morrerão de fome antes da Covid19 ou derivado a esta mas sem que haja possibilidade de verificar tal casualidade.

Sairemos diferentes da pandemia!? Melhores ou piores. Em momentos extraordinários, vem ao de cima o melhor e/ou o pior de nós. Como se tem visto! Tantos voluntários… mas continua a haver comportamentos desonestos de quem se serve das situações de precaridade para esmagar o seu semelhante! Continuamos a assistir a contendas demolidoras, a politiquices de caserna, não se discutem medidas, medem-se os ganhos político-partidários e age-se em conformidade. Há tantas pessoas que continuam a ser esquecidas!

Deveremos aprender com as adversidades! Será que voltaremos mais maduros?

E, por falar em voltar… a provocação saramaguiana, quando ninguém nos vê, ou talvez apenas Deus ou nem Deus nos veja, seremos “metade de indiferença, metade de ruindade”! E a concluir: “penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Inspirado ou não, estas palavras encontramo-las no Evangelho, na cura do cego de nascença, em que Jesus sublinha que há muitos que, tendo vista, não veem, continuam a prosperar no seu pecado, morrendo e mantando!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/38, n.º 4573, 1 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Estamos a viver a crédito

Dito assim, sem outros acrescentos, já é uma expressão que preocupa e alerta, ainda que seja uma situação recorrente. O recurso ao crédito, amplamente publicitado, desafia a cumprir com todos os desejos: quer, não pode pagar? não se preocupe, diga quanto quer e rapidamente aprovamos o seu crédito! Vivemos a crédito e a prestações! Sem com isso desvalorizar esta ferramenta da banca e de outras empresas, facilitando a vida das pessoas e permitindo-lhes uma vida mais cómoda. Por exemplo, antigamente, um casal construía a casa no fim da vida ou conforme ia tendo possibilidades! Pouco usufruía dela, somente os filhos! Hoje podem usufruir da aplicação do seu trabalho e do seu esforço. Como em tudo, convém atender às letras pequeninas e ponderar as possibilidades, dando sempre uma margem de folga para o caso de alguma coisa correr menos bem!

Porém, não é acerca deste crédito que quero refletir convosco nesta semana, mas no crédito em relação aos recursos naturais do planeta. No ano passado, foi batido o record, a 29 de julho, e que seria alcançável este ano não fora a pandemia do novo coronavírus. Os recursos naturais para este ano esgotaram-se no dia 21 de agosto. O dia 22 de agosto foi assinalado como o Dia da Sobrecarga da Terra. Estamos a viver a crédito. O orçamento anual foi esgotado! A organização internacional Global Footprint Network (GFN) sublinha que este ano a sobrecarga foi retardada, em três semanas, devido à pandemia, o que levou à “diminuição da extração de madeira (-8,4%) e das emissões de CO2 (-14,5%) resultantes da combustão de combustíveis fósseis” que “são os principais motores por detrás da mudança histórica de trajetória”. Refere a GFN que “a pandemia de Covid-19 fez com que a pegada ecológica da humanidade se contraísse, demonstrando que é possível mudar os padrões de consumo de recursos num curto período de tempo. No entanto, a verdadeira sustentabilidade, a que possibilita que todos prosperem na Terra, apenas poderá ser alcançada através da planificação e não da catástrofe”.

A humanidade gasta cerca de 60% a mais dos recursos que é possível renovar. É como se tivéssemos à disposição 1,6 planetas! Em Portugal, os recursos naturais disponíveis para 2020 foram esgotados a 25 de maio (dados calculados antes da pandemia). Desde o dia 26 de maio, estamos a viver a crédito, com os recursos de 2021! Em Portugal precisaríamos de 2,5 planetas para sermos ecologicamente sustentáveis!

Preocupante! E se pensarmos nos países mais pobres de África, da Ásia e da América Latina, mais preocupante ainda, pois os países ricos gastam em excesso os próprios recursos e o desses países. Se estes consumissem da mesma maneira, então os recursos naturais esgotariam muito antes da primeira metade do ano.

Segundo a associação portuguesa Zero, o défice ecológico global começou em 1970 e, neste momento, serão precisos 18 anos terrestres para corrigir este défice. Se em cada ano se reduzisse em cinco dias o défice, o deve-haver estaria equilibrado em 2050! Um orçamento equilibrado garante o futuro, o nosso e o dos nossos vindouros!

Isto deve fazer questionar o estilo de vida que levamos e a forma como vivemos a solidariedade entre gerações, a nossa e as futuras, e a solidariedade entre (países) ricos e (países) pobres. Vamos ver se a vacina anti-covid chega igualmente aos mais pobres!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/37, n.º 4572, 25 de agosto de 2020

A revolução liberal duzentos anos depois

No dia em que se assinalam 200 anos da revolução liberal, 24 de agosto, crónica do reverendo Pe. Joaquim Correia Duarte:

Muitos de nós conhecemos, na cidade do Porto, o “Campo 24 de Agosto”.

O nome pretende recordar e lembrar um dos grandes acontecimentos que marcaram para sempre a nossa história coletiva: a revolução liberal de 24 de Agosto de 1820.

O local, que antes se chamou Mijavelhas, Poço das Patas e Campo Grande, só foi batizado com este nome por edital da Câmara, em 1 de agosto de 1860.

Não foi aí que eclodiu a citada revolta, mas sim no Campo de Santo Ovídeo, hoje Praça da República.

Foi nesse dia e neste último local que a guarnição militar do Porto, doutrinada e impelida pelo Sinédrio, desembainhou as espadas e apontou os mosquetes, para proclamar extinto o antigo regime, absolutista, e implantado o novo regime, constitucional.

Pretendia-se ultrapassar a situação de um país pobre e devastado pelas invasões francesas, excluir da gestão do reino o domínio da Inglaterra na pessoa do General Beresford, fazer regressar a Portugal o rei ausente no Brasil, implementar no país o regime saído da revolução francesa, assentando teoricamente na igualdade de direitos de todos os cidadãos, na separação e na divisão de poderes – legislativo, executivo e judiciário – e tornando a lei, já não a vontade do soberano como no despotismo esclarecido, mas o resultado da vontade do povo, declarada e expressa pelos seus representantes nas Cortes.

Essa mudança de regime, que veio trazer a Portugal tantos oportunismos, tantos sofrimentos, tantas divisões e perseguições partidárias, tantos expatriados, e tantos prejuízos (basta referir a guerra civil que dividiu os portugueses ao longo de tantos anos, a extinção das ordens religiosas e a partilha dos seus bens pelos apaniguados do novo regime) trouxe também consigo as primeiras eleições para a escolha dos deputados às Cortes, em 1821, e a elaboração da primeira Constituição, no ano seguinte.

Por detrás de toda esta mudança, estavam as doutrinas iluministas do último quartel do século XVIII defendidas e propaladas pela maçonaria, e as ideias jacobinas trazidas pelas invasões francesas, difundidas entre os novos intelectuais em pasquins volantes, e discutidas nos cafés e nos botequins de vilas e cidades.

A presidir a tudo isto, e a mobilizar as tropas sem as quais nada lhes seria possível, estava o Sinédrio: um grupo de doze burgueses portuenses, a cujo movimento se aliaram alguns comandantes militares do norte, e ainda, D. Frei Francisco de São Luís, que veio a ser mais tarde patriarca de Lisboa, mais conhecido por Cardeal Saraiva.

Entre esses doze burgueses, havia um resendense, Manuel Borges Carneiro, de seu nome.

Nascido na Casa das Cotas, em Cimo de Resende, em 2 de novembro de 1774 e batizado na igreja da paróquia em 17 do mesmo mês, formou-se em Cânones em Coimbra e vivia no Porto nessa ocasião, já que, no início de 1820, fora nomeado Juiz Desembargador da Comarca da Relação do Porto.

Foi ele um dos grandes mentores da revolução liberal e também um dos grandes redatores da primeira Constituição Portuguesa, votada nas Cortes em 1821 e aprovada com a data de 23 de setembro de 1822.

Borges Carneiro era um dos deputados mais escutados nas assembleias das Cortes.

Um escritor italiano no exílio, presente em alguns debates, escreveu sobre ele: “Depois de Fernandes Tomás, levantou-se um orador mais alto em estatura do que ele, pouco rápido a falar, mas impetuoso, quase irresistível nas ideias. Ouvi então murmurar nas galerias o nome de Borges Carneiro. Esse deputado entusiasma frequentemente o auditório, porque as suas moções são sempre ousadas e vêm ao encontro das paixões populares”.

Infelizmente, o homem acabou por morrer cedo, e mal.

Com a ascensão de D. Miguel ao trono, foi preso em Lisboa em 15 de Agosto de 1828 e acabou por morrer de peste na Torre do Castelo de S. Julião da Barra cinco anos depois, apenas com 59 anos de vida, tendo sido sepultado na esplanada do mesmo castelo, como se de um simples animal se tratasse.

São assim as revoluções.

São assim as glórias deste mundo.

Passados duzentos anos, continua a haver na sociedade portuguesa integralistas, legitimistas, monárquicos e republicanos do coração.

O que importa é que todos nos respeitemos, que o país progrida, que todos vejam reconhecidos os seus direitos, que a ninguém falte o necessário, e que todos sejamos felizes.

Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: De que adianta ir à Lua?

Todas as semanas disponibilizamos, na Voz de Lamego, palavras proferidas pelo Papa Francisco, contextualizando os momentos e os encontros. Nesta semana teremos oportunidade de ler e refletir, entre outras, as palavras que precederam e introduziram a oração mariana do Angelus, no passado sábado, 15 de agosto, na Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.

É a partir dessas palavras que desejo refletir convosco. Serão palavras incisivas se previamente estivermos dispostos a escutar, a meditar e a encontrar brechas na nossa vida que permitam encaixá-las com alegria. Como cristãos não nos cabe, primeiramente, dizer o que diz o Papa. É o próprio a dizê-lo a bispos e a padres, desafiando-nos, nas homilias, a falarmos do Evangelho, de Jesus Cristo, mostrando, com palavras, imagens, exemplos, a alegria de sermos cristãos, deixando-nos guiar pela postura de Jesus, pela Luz da fé, que conduz à verdade, nos faz ver os irmãos necessitados e abre o nosso coração à vivência das obras de misericórdia.

Porém, vale a pena fixar-nos na imagem que o Papa utilizou na alocução que precedeu o Angelus. Relembrou a frase dita quando o primeiro homem – Neil Armstrong – pisou a Lua: «Este é um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade». Era um marco importantíssimo para a história. Na altura, este acontecimento foi comparado à descoberta do caminho marítimo para a Índia, por parte dos portugueses, mormente com a figura de Vasco da Gama. A partir desta frase o Papa sublinhou um acontecimento maior: “Na Assunção de Maria ao Céu, celebramos uma conquista infinitamente maior. Nossa Senhora colocou os pés no paraíso: ela foi lá não só em espírito, mas também com o seu corpo. Este passo da pequena Virgem de Nazaré foi o grande salto, para frente, da humanidade”.

E conclui, dizendo: “De pouco adianta ir à lua se não vivermos como irmãos na Terra”. E poderíamos dizer nós, de que adianta amar o mundo inteiro, as pessoas, os animais e a natureza se não somos capazes de cuidar dos nossos familiares e dos vizinhos?

Vivemos um tempo diferente. Todos os tempos são diferentes, pois a vida não se repete, a história não volta atrás, o relógio não permite recuar o tempo. Não temos outro tempo que não seja o de hoje, o que Deus nos dá. O que passou é memória e raiz. O que está para vir é de esperança (e expetativa), mas deixa de o ser quando o alcançamos e/ou se chegarmos lá!

Temos de nos colocar à escuta, com os olhos do coração, para perscrutarmos a presença de Deus nos acontecimentos e, sobretudo, nos nossos irmãos, especialmente os que carregam o peso da idade e da solidão, da doença e do abandono, aqueles cujas vidas são desvalorizadas ou sacrificadas no altar da liberdade e da comodidade.

Concluímos com as palavras do Santo Padre, que salienta que Maria “coloca Deus como a primeira grandeza da vida. Daqui nasce o Magnificat, daqui nasce a alegria: não da ausência de problemas, que mais cedo ou mais tarde chegam, mas a alegria nasce da presença de Deus que nos ajuda e está perto de nós. Porque Deus é grande e olha para os pequenos. Somos a sua fraqueza de amor: Deus olha e ama os pequenos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020