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POR UM AMOR MAIOR | Homilia de D. António Couto no Corpo de Deus

Corpo Deus4

POR UM AMOR MAIOR

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

  1. A Igreja celebra Hoje, jubilosamente, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. E, pela página intensa e bela do Evangelho deste Dia grande (Marcos 14,12-16.22-26), começamos por nos dirigir a Jesus para que Ele nos diga «onde» e «como» preparar a sua Ceia. Sim, amados irmãos, Só Ele sabe «onde» e «como». E ainda assim, entendamos bem, nós apenas podemos fazer os preparativos. A Festa é com Ele. O Pão e o Vinho, o seu Corpo e Sangue, só os podemos receber d’Ele. E é quanto continuamos a fazer ainda Hoje. Ele é o Bem, Ele é a Bondade, Ele é a Beleza. E a celebração da Ceia Eucarística é sempre dizer Bem, pensar Bem, querer bem, fazer Bem. É encher de Bem, de Bondade e de Beleza a nossa vida. É assim que estamos em união com Deus e com os irmãos. O Bem une. O mal divide.

  1. «Se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança (…), sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Êxodo 19,5-6), propõe o próprio Deus, por intermédio de Moisés, ao povo de Israel, chegado HOJE e HOJE acampado no sopé do Sinai (Êxodo 19,1-2). Como nos propõe HOJE a nós, acampados em Lamego. A proposta-promessa de Deus de transformar Israel num povo sacerdotal e santo é condicional: se escutardes a minha voz, se guardardes a minha aliança. Considerada atentamente a proposta-promessa de Deus, o povo de Israel responde que «sim», resposta unânime e sem hesitação, afirmando sob palavra de honra: «Tudo o que o Senhor falou, nós o faremos» (Êxodo 19,8). Este «faremos» do povo aparece consolidado mais à frente, na lição do Livro do Êxodo que hoje tivemos a graça de ler e de ouvir, em que o povo afirma por duas vezes: «Faremos todas as Palavras que o Senhor falou» (Êxodo 24,3 e 7).

  1. O povo compromete-se a fazer as Palavras do Senhor, e Deus cumpre logo aí a sua proposta-promessa de fazer de Israel um povo todo sacerdotal e santo. O texto bíblico do Livro do Êxodo que nos foi dada a graça de escutar, mostra, de forma admirável, a realização da promessa de Deus, pondo diante dos nossos olhos, primeiro os jovens (Êxodo 24,3), e depois os anciãos (Êxodo 24,9-11), a oficiar e presidir ao culto. Os jovens e os anciãos de Israel, os jovens e os velhos de Israel: aí está uma forma muito bíblica de dizer a totalidade de Israel, um Israel todo sacerdotal. Pouco depois, sempre com um modo de dizer muito bíblico, sela-se a aliança entre Deus e o seu povo. O sangue dos novilhos imolados é recolhido em bacias. Metade desse sangue é destinado a aspergir o altar, que simboliza Deus (Êxodo 24,6); a outra metade é destinada a aspergir o povo de Israel (Êxodo 24,8). É visível que Deus e o povo de Israel participam, então, do mesmo sangue. Participar do mesmo sangue é igual a fazer parte da mesma família. É uma maneira fortíssima de mostrar a fidelidade e a familiaridade que se estabelece entre Deus e o seu povo, entre Deus e nós, aqui Hoje reunidos, caríssimos irmãos.

  1. Tudo isto, porém, assenta naquele falar primeiro e criador de Deus, e no falar segundo, portanto, responsorial, do povo, que diz que «sim», comprometendo-se assim com a Palavra primeira de Deus. Há, portanto, um falar de Deus e um falar nosso a atravessar o texto, a atravessar Israel e a atravessar-nos nós. Também está aqui a nascer um povo sacerdotal, verdadeiro «sacerdócio comum dos fiéis», assente na escuta qualificada e no consequente fazer a Palavra de Deus: «Faremos todas as Palavras que o Senhor falou». Admirável.

  1. O texto bíblico é admirável, pois nos faz ver Deus a tecer sucessivos cenários de amor e de beleza para o seu povo, para nós. Mas o texto bíblico é ainda admirável, quando nos mostra que Deus, que é Deus, não quer fazer as coisas sozinho, e fica tantas vezes à nossa espera, suspenso da nossa resposta. «A sua Palavra é digna de fé» (1 Timóteo 4,9), porque «Deus é fiel» (1 Coríntios 1,9). É a nossa palavra que não é muito de fiar. É também aqui que o texto bíblico, continuando a ser admirável, se mostra também implacável, fazendo-nos ver em cenas sucessivas como tão depressa escorregamos do «sim» para o «não». E aí está o texto implacável a mostrar-nos como tão depressa dizemos que fazemos todas as Palavras de Deus, como, logo a seguir, nos pomos a fazer um bezerro de ouro (Êxodo 32,1-6), que é mais ou menos por onde andamos ainda hoje, parodiando o verdadeiro fazer, que é sempre fazer todas as Palavras de Deus. Como o texto bíblico nos desvenda. Implacavelmente!

  1. Vale-nos, «oh abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!» (Romanos 11,33), que «Deus permanece fiel, mesmo quando nós lhe somos infiéis» (2 Timóteo 2,13). Aí está, então, o dizer e o fazer novo de Jesus a refazer o nosso dizer e o nosso fazer tão depressa abandonados, aliança rompida: «Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade», declara Jesus, verdadeiro sumo-sacerdote na Carta aos Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8-9). E «Não se faça a minha vontade, mas a tua», reza Jesus no Getsémani (Marcos 14,36). «Seja feita a Tua vontade», rezamos nós na oração do Pai Nosso (Mateus 6,10).

  1. E levando até ao fim o seu amor, ainda nos implica por graça no seu próprio belo fazer. «Tomai, isto é o meu corpo» (Marcos 14,22); «Este é o meu sangue, o sangue da Aliança, por todos derramado» (Marcos 14,24). «Fazei isto em memória de mim» (Lucas 22,19). Vida partida e dada por amor. Eis o inteiro programa de Jesus. Eis tudo o que devemos fazer, imitando-o eucaristicamente. Só o bem, pensado, dito, feito, une eucaristicamente. O mal divide e separa sempre. Divide a comunidade e separa-nos de Deus. Celebrar a Eucaristia é sempre um fazer novo e belo à nossa espera.

  1. É este pensar, dizer, querer, fazer Bem, amados irmãos e irmãs, que estamos a fazer aqui, nesta Celebração Eucarística, nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Daqui a pouco, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, as ruas da nossa cidade. O pálio (pallium) de Deus atravessará a nossa cidade. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos e irmãs. Verdadeiramente, num mundo em crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia São Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.

  1. Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos e de amor que prestamos aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004). Hoje, o pálio do amor de Deus sai à cidade.

Dá-nos, Senhor, um coração novo,

capaz de conjugar em cada dia

os verbos fundamentais da Eucaristia:

RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,

PARTILHAR e DAR,

COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,

capaz de escutar

e de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,

à volta do pão e da palavra.

E ajuda-nos a discernir

os rumos a seguir

nos caminhos sinuosos deste tempo,

por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos, Senhor,

a saber colher

o Teu amor

semeado e redentor,

única fonte de sentido

que temos para oferecer

a este mundo

de que és o único Salvador.

Sé Catedral de Lamego, 7 de junho de 2015

+ D. António José da Rocha Couto, Bispo de Lamego

  1. Ainda sem comentários.
  1. 11/06/2015 às 9:01

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