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Editorial Voz de Lamego: no Corpo de Cristo…

Ligamo-nos espiritual e afetivamente, mas a partir do nosso corpo que nos identifica e nos diferencia dos outros, limitando-nos fisicamente, com fronteiras no aquém da nossa pele, riqueza que nos permite situar-nos diante dos outros. Somos CORPO. Não é uma parte separável que possamos dispensar quando nos apetece, mas integra-se na nossa identidade (corporal e espiritual).

Como é que comunicamos uns com os outros? Com a presença (corporal), com a voz, e com o timbre com que falamos, comunicamos com os gestos, com o olhar, com o sorriso, com as expressões do rosto e até com a postura do corpo. Como podemos constatar, o Corpo já é comunicação. Aliás, sem corpo, nem se colocaria a questão da comunicação entre pessoas. Por vezes temos pressentimentos, sentimos o que outro está a sentir, intuímos o que está para suceder, mas de novo as raízes: a estrutura das emoções, dos sentimentos e do pensar está no corpo que somos.

A filosofia grega acentuava o confronto entre a alma e o corpo. O corpo era um entrave à verdadeira vida. O espírito, a alma, tinha que dominar o corpo, até à libertação definitiva. Nas religiões/filosofias orientais vinga a ideia de libertação do corpo pela ascese, pelo ioga, por diversas técnicas, até atingir o nirvana, um estado de (quase) puro espírito, sem dor, acima do mundo material. A perspetiva bíblica é diferente, o ser humano é corpo e espírito. É dom da criação de Deus, que nos dotou de um corpo espiritual, ou de um espírito corpóreo. Não somos um espírito dentro de um corpo, a tentar escapulir como de uma prisão, libertando o espírito, deixando o corpo para trás. Somos PESSOAS, criadas pelos Deus Amor, e que nos quer bem. Em Jesus, é o próprio Deus que vem, e assume um Corpo.

Na idade média, foi ganhando forma a convicção de acentuar o mistério da Eucaristia, a presença real de Jesus na hóstia e no vinho consagrados. Começou pela elevação da hóstia (século XII), para que todos se prostrassem em adoração e pudessem ver o Corpo de Cristo. Era um passo, porém, a Eucaristia continuava “limitada” à celebração da missa e da comunhão, estando prevista a conservação da hóstia consagrada, inicialmente, apenas para as pessoas doentes e ausentes.

No século XIII, a adoração da Eucaristia acentua-se e sai à rua, ganhando progressivamente relevo a Procissão do Santíssimo Sacramento. O desejo de ver a hóstia dá lugar à celebração da realeza de Cristo, a presença do Senhor, que bendiz a cidade e as pessoas.

Celebrar o Corpo de Deus, significa acreditar num Deus que faz caminho connosco. Percorre as nossas ruas e vielas, as nossas estradas e avenidas. Ele encontra-nos onde nós vivemos, onde caminhamos. Deus não é um foragido, que Se esconde, mantendo-se à distância para não Se envolver, mas tem um ROSTO, um CORPO, uma PRESENÇA efetiva e real na nossa vida.

Esta é a vontade de Deus. Gera-nos para uma vida feliz. Dá-nos o Seu Filho, em tudo igual a nós, exceto no pecado, e que assume um Corpo humano, para realizar a vontade paterna. Vive entre nós. É morto. Ressuscita. Pelo Espírito Santo fica entre nós, no Seu Corpo e Sangue. Como dissera na última Ceia, vai morrer, vai para o Pai, e do Pai envia-nos o Espírito. Entrega-Se por inteiro. É-nos devolvido, pelo Espírito Santo na consagração. Sempre que nos reunimos em Seu nome, fazemos o que Ele fez naquela noite. Mais, reunimo-nos para fazermos o que Ele fez em toda a vida, o serviço permanente a favor dos outros. Somos responsáveis uns pelos outros. Celebrar a Eucaristia, como membros do Corpo de Cristo, a Igreja, comungando o Corpo de Cristo, partilhamos Cristo e tornamo-nos guardadores uns dos outros. Não podemos sentar-nos à volta da mesma mesa, unidos no Corpo, e depois sair cada uma para sua casa, para a sua vida, como se tivesse sido um encontro de estranhos e/ou inimigos. Somos responsáveis uns pelos outros. A abundância e riqueza do Corpo de Jesus há de levar-nos a partilhá-lo entre todos, para que a ninguém falte o alimento corporal e espiritual.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/31, n.º 4662, 15 de junho de 2022

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