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Posts Tagged ‘Pe. Manuel Gonçalves’

Editorial da Voz de Lamego: A vinha do Senhor

As primeiras palavras do Papa Bento XVI, logo depois da eleição, a 19 de abril de 2005: “Os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”.

Muitas vezes se contrapõe Bento XVI ao Papa Francisco, e vice-versa, instrumentalizando um ou outro, conforme as conveniências e interesses pessoais ou de grupo. Cada um, com a sua personalidade e sensibilidade, mais Paulo ou mais Pedro, mas a mesma doçura ao serviço do mesmo Evangelho, da mesma Igreja, na fidelidade sem tréguas a Jesus Cristo, presente e atuante na Igreja, sacramento de Salvação, e no mundo ao qual somos enviados a testemunhar o amor de Deus, para que a fé seja contágio curativo, atração e luz. Não são cópia, mas também não são traição; não são correção, um em relação ao outro, mas simples servos servidores da vinha do Senhor, em tempos sucessivos, com o mesmo amor a Jesus, à Igreja, como Corpo de Cristo no tempo e na história, e ao mundo das pessoas, que louvam toda a criação.

No último Domingo, o Evangelho (Mt 20, 1-16a) apresentava mais uma parábola, com a qual Jesus nos faz vislumbrar um Deus que nos procura, em todo o lado, também na praça, nos caminhos e nas avenidas. Vem uma e outra vez, em todas as horas do dia e em todas as idades da nossa vida. Um Deus que é Pai e, por conseguinte, Se dá por inteiro, não tanto a partir dos nossos méritos, mas a partir do amor que transborda do Seu coração. Como Pai não pode senão amar e amar por inteiro. Não se ama devagarinho, às prestações, na condicional ou com as reservas para ver no que pode dar o relacionalmente! Ama-se. Ponto. Ama-se inteiramente. De contrário, serão cópias de amor, mas não amor.

Cada um de nós é, a um tempo, trabalhador da primeira hora, do meio do dia, do entardecer. Deus desafia-nos, convoca-nos, espera pela nossa resposta. Todos têm lugar à Sua mesa. Todos são acolhidos e agraciados com todo o Seu amor. Ele não desiste de ninguém. Não nos retira parte da herança, pois é sempre Pai que nos ama como Mãe.

A vinha do Senhor entende-se até onde há pessoas, mesmo que esquecidas da sociedade. Deus, revelado em Jesus, é a referência para nós. Daí o compromisso de uma “Igreja em saída”, como reiteradamente tem sublinhado o Papa Francisco. Se o Senhor sai em busca dos trabalhadores, para Quem nunca é tarde, como o Pastor em busca da ovelha perdida, em todas as encruzilhadas, também os Seus discípulos têm a mesma missão. Por um lado, são simples trabalhadores da vinha e, por outro, seguem o exemplo do proprietário, não descansam enquanto houver alguém desocupado, sem trabalhar, sem vínculo, sem amor, sem pertença ao Reino de paz e de amor. A vinha do Senhor é para todos, ricos e pobres, melhor, é para aqueles que aceitarem ser de Deus. Os últimos serão primeiros. É a opção de Deus. É a nossa opção. E como, mais uma vez, insiste o Santo Padre, os últimos, os mais desfavorecidos, devem ser os primeiros a ter acesso a uma vacina, gratuita, contra a COVID-19. Será uma forma de o mundo mostrar que as palavras têm a consistência das opções.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/41, n.º 4571, 22 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Regresso ao futuro

Não se regressa ao passado, mas pode revisitar-se. Regressar ao futuro não passa de um desejo de querer controlar o tempo, o espaço e a história. No imaginário cinematográfico e televisivo, surgiram filmes e séries que permitem o regresso ao passado, em que uma ou outra personagem aparece anos ou séculos antes, podendo modificar o futuro, mudando algumas engrenagens. A ida ao passado tem o propósito de corrigir, no passado, as situações presentes menos positivas, beneficiando uma pessoa, uma cidade ou um país. Mas ficou também no nosso imaginário o filme “Regresso ao Futuro”. A máquina do tempo abria essa possibilidade, mas o propósito de ir ao futuro era o mesmo de ir ao passado, neste caso, ver como se tinha desenrolado a vida, a história, as consequências futuras de determinados acontecimentos atuais, para que no regresso ao presente, a ação pudesse mudar o que não foi tão agradável para os próprios e para a humanidade.

É uma fartura ficcionada de regressos ao passado ou ao futuro. Mas, convenhamos, a vida é só uma, não tem voltas nem regressos temporais ou cronológicos; cabe-nos, a mim e a ti, hoje, aqui e agora, agir, decidir, fazer escolhas. A vida, em certo sentido, é linear, avança, não fica parada à espera que nos resolvamos ou que outros tomem as rédeas por nós, qual caudal de um rio que avança, mais rápido ou mais devagar, mais sereno ou mais tempestuoso, conforme a tipologia do terreno, a chuva que cai, a água que encontra, os obstáculos que surgem. Mas avança. Já dizia o velhinho na praça, o comboio não espera por ninguém! Quem chegou, chegou, quem não chegou fica em terra! Mas neste caso talvez fosse o barco e não o comboio!

Por experiência, vamos vendo que, por vezes, surgem novas oportunidades, que poderemos então aproveitar, mas podem também não surgir ou poderemos já não estar cá nós, então há que aproveitar o tempo atual. Quantas vezes à espera da melhor oportunidade, não adiamos o futuro que acabou por nunca chegar? E tornamo-nos amargurados com a vida e com os outros que realizaram sonhos e projetos, com sacrifícios e dores, mas tornaram-se pessoas felizes e sábias porque souberam viver o presente em cada presente!

O surto pandémico, do novo coronavírus, provoca-nos o sonho da espera, do adiamento, da expetativa. Quando em março, o país entrava em “paragem cardíaca”, no confinamento, em estado de emergência, que se foi renovando, bem pensávamos que no fim de maio, ou em pleno junho, ou talvez em finais de julho, ou quem sabe, em agosto, verão dos emigrantes e das festas, tudo estaria como dantes! Afinal, já vamos em meados de setembro e continuam a pairar sobre nós os cuidados, os números de infetados e as mortes, na expetativa confiante da criação de uma vacina segura e universal!

Não podemos voltar ao antes, mas também não podemos avançar para o futuro, ou suspender a vida até ver. Importa que avancemos, juntos, com todos os regressos possíveis, com todo o cuidado, mais do que nunca, respeitando o outro e o seu espaço. Como cristãos, cabe-nos cuidar. Cuidar também é salvar. Cuidar da segurança dos outros é responder ao chamamento de Jesus Cristo, tendo em atenção, sempre, em não deixar ninguém esquecido, em não deixar ninguém para trás ou excluído. Deus, a quem o futuro pertence, caminha connosco nas alegrias e nas adversidades.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/40, n.º 4574, 15 de setembro de 2020

Jubileu da Terra: Recordar, regressar, repousar, restaurar e jubilar

Editorial da Voz de Lamego, edição de 8 de setembro de 2020

No dia 1 de setembro, celebrámos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, abrindo o Tempo da Criação que se conclui a 4 de outubro, memória de São Francisco de Assis. O tema escolhido para este ano, pela família ecuménica, foi um “Jubileu pela Terra”, no quinquagésimo aniversário do Dia da Terra. O Santo Padre, na sua Mensagem para este Dia Mundial, publicada/divulgada nesse mesmo dia, contextualiza: “Na Sagrada Escritura, o Jubileu é um tempo sagrado para recordar, regressar, repousar, restaurar e rejubilar”.

A mensagem completa está disponível, por exemplo, na página da nossa diocese: www.diocese-lamego.pt. Alguns sublinhados a partir dos verbos escolhidos pelo Papa:

RECORDAR. “O jubileu é tempo de graça para recordar a vocação primordial da criação: ser e prosperar como comunidade de amor… Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra”.

REGRESSAR. “O Jubileu é tempo de regresso a Deus nosso criador amoroso. Não é possível viver em harmonia com a criação, sem estar em paz com o Criador, fonte e origem de todas as coisas… o Jubileu convida-nos a pensar novamente nos outros, especialmente nos pobres e nos mais vulneráveis… o Jubileu é tempo para dar a liberdade aos oprimidos e a quantos estão acorrentados aos grilhões das várias formas de escravidão moderna, nomeadamente o tráfico de pessoas e o trabalho infantil. Além disso precisamos de voltar a ouvir a terra… Hoje, a voz da criação incita-nos, alarmada, a regressar ao lugar certo na ordem natural, lembrando-nos que somos parte, não patrões, da rede interligada da vida”.

REPOUSAR. “Durante o Jubileu, o Povo de Deus era convidado a repousar dos seus trabalhos habituais, para deixar que a terra se regenerasse e o mundo reentrasse na ordem. Hoje precisamos de encontrar estilos de vida équos e sustentáveis, que restituam à Terra o repouso que lhe cabe, vias de subsistência suficientes para todos, sem destruir os ecossistemas que nos sustentam. De algum modo a pandemia atual levou-nos a redescobrir estilos de vida mais simples e sustentáveis… Devemos aproveitar este momento decisivo para acabar com atividades e objetivos supérfluos e destrutivos, e cultivar valores, vínculos e projetos criadores. Devemos examinar os nossos hábitos no uso da energia, no consumo, nos transportes e na alimentação”.

RESTAURAR. “O Jubileu é um tempo para restaurar a harmonia primordial da criação e para curar relações humanas comprometidas. Convida a restabelecer relações sociais equitativas, restituindo a cada um a sua liberdade e os bens próprios, e perdoando as dívidas dos outros. Por isso não devemos esquecer a história de exploração do Sul do planeta, que provocou um enorme deficit ecológico, devido principalmente à depredação dos recursos e ao uso excessivo do espaço ambiental comum para a eliminação dos resíduos. É o tempo duma justiça reparadora”.

REJUBILAR. “É uma alegria ver tantos jovens e comunidades, especialmente indígenas, na linha da frente para dar resposta à crise ecológica. Apelam por um Jubileu da Terra e um novo começo, cientes de que «as coisas podem mudar» (Laudato Si’, 13)… Continuemos a crescer na consciência de que todos moramos numa casa comum enquanto membros da mesma família!”

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/39, n.º 4574, 8 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Ensaio sobre a cegueira

Não, não é a sugestão do livro de José Saramago, ainda que, pessoalmente, goste muito dos seus livros, mas, a sugerir, talvez começasse por recomendar “A Jangada de Pedra”, pela originalidade, pela criatividade e pela história que constrói unindo as duas pátrias da península ibérica. Mas não se trata de aconselhar esta leitura, mas de partir da cegueira a que a população fica sujeita. Em pouco tempo a cegueira espalha-se. As autoridades isolam (em quarentena) os que ficam cegos. É tão surpreendente que não é possível gerir um problema que se agudiza. As decisões iniciais até parecem sensatas. É necessário isolar todos os que ficam cegos, para evitar o contágio do resto da população. Os soldados, armados até aos dentes, garantem que ninguém sai, um manicómio vazio, devoluto, murado em todo o perímetro, rapidamente convertido em aquartelamento para a quarentena. Mas também os soldados e as autoridades acabam, sem se saber como, de ficar cegos. Só restará a mulher do primeiro cego, que mantém a visão. Em alguns momentos talvez também ela desejasse não ver o que fazem as pessoas quando sabem que os outros não estão a ver! José Saramago cria parábolas muitos sugestivas, sobre o mundo atual, em vários livros como, o já citado, “A Jangada de Pedra”, “A Caverna”, “A Viagem do Elefante”, “O Homem duplicado” ou “O Ensaio sobre a Lucidez”.

A pandemia provocada pelo novo corona vírus veio suscitar uma ampla reflexão. O Papa Francisco, no momento de oração extraordinário, a 27 de março, sublinha que não era possível viver de forma saudável num mundo doente. Doente pelo egoísmo, pela prepotência, pela discriminação racial, social, cultural, religiosa. Doente pela indiferença em relação aos pobres, às pessoas e povos que vivem na miséria. Doente no exacerbado consumismo e na exploração exaustiva dos recursos naturais, sem a solidariedade intergeracional necessária para a sobrevivência do planeta. Estamos no mesmo barco e a destruição deste a todos afetará, não apenas no futuro, mas já vislumbrável nos nossos dias. A pandemia mostra que pobres ou ricos, mais novos ou mais velhos, países desenvolvidos ou em desenvolvimento, todos podem ser contaminados. Claro que os cuidados de saúde continuam a depender em grande escala do poder económico e do desenvolvimento dos povos. Milhares de pessoas morrerão de fome antes da Covid19 ou derivado a esta mas sem que haja possibilidade de verificar tal casualidade.

Sairemos diferentes da pandemia!? Melhores ou piores. Em momentos extraordinários, vem ao de cima o melhor e/ou o pior de nós. Como se tem visto! Tantos voluntários… mas continua a haver comportamentos desonestos de quem se serve das situações de precaridade para esmagar o seu semelhante! Continuamos a assistir a contendas demolidoras, a politiquices de caserna, não se discutem medidas, medem-se os ganhos político-partidários e age-se em conformidade. Há tantas pessoas que continuam a ser esquecidas!

Deveremos aprender com as adversidades! Será que voltaremos mais maduros?

E, por falar em voltar… a provocação saramaguiana, quando ninguém nos vê, ou talvez apenas Deus ou nem Deus nos veja, seremos “metade de indiferença, metade de ruindade”! E a concluir: “penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Inspirado ou não, estas palavras encontramo-las no Evangelho, na cura do cego de nascença, em que Jesus sublinha que há muitos que, tendo vista, não veem, continuam a prosperar no seu pecado, morrendo e mantando!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/38, n.º 4573, 1 de setembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Estamos a viver a crédito

Dito assim, sem outros acrescentos, já é uma expressão que preocupa e alerta, ainda que seja uma situação recorrente. O recurso ao crédito, amplamente publicitado, desafia a cumprir com todos os desejos: quer, não pode pagar? não se preocupe, diga quanto quer e rapidamente aprovamos o seu crédito! Vivemos a crédito e a prestações! Sem com isso desvalorizar esta ferramenta da banca e de outras empresas, facilitando a vida das pessoas e permitindo-lhes uma vida mais cómoda. Por exemplo, antigamente, um casal construía a casa no fim da vida ou conforme ia tendo possibilidades! Pouco usufruía dela, somente os filhos! Hoje podem usufruir da aplicação do seu trabalho e do seu esforço. Como em tudo, convém atender às letras pequeninas e ponderar as possibilidades, dando sempre uma margem de folga para o caso de alguma coisa correr menos bem!

Porém, não é acerca deste crédito que quero refletir convosco nesta semana, mas no crédito em relação aos recursos naturais do planeta. No ano passado, foi batido o record, a 29 de julho, e que seria alcançável este ano não fora a pandemia do novo coronavírus. Os recursos naturais para este ano esgotaram-se no dia 21 de agosto. O dia 22 de agosto foi assinalado como o Dia da Sobrecarga da Terra. Estamos a viver a crédito. O orçamento anual foi esgotado! A organização internacional Global Footprint Network (GFN) sublinha que este ano a sobrecarga foi retardada, em três semanas, devido à pandemia, o que levou à “diminuição da extração de madeira (-8,4%) e das emissões de CO2 (-14,5%) resultantes da combustão de combustíveis fósseis” que “são os principais motores por detrás da mudança histórica de trajetória”. Refere a GFN que “a pandemia de Covid-19 fez com que a pegada ecológica da humanidade se contraísse, demonstrando que é possível mudar os padrões de consumo de recursos num curto período de tempo. No entanto, a verdadeira sustentabilidade, a que possibilita que todos prosperem na Terra, apenas poderá ser alcançada através da planificação e não da catástrofe”.

A humanidade gasta cerca de 60% a mais dos recursos que é possível renovar. É como se tivéssemos à disposição 1,6 planetas! Em Portugal, os recursos naturais disponíveis para 2020 foram esgotados a 25 de maio (dados calculados antes da pandemia). Desde o dia 26 de maio, estamos a viver a crédito, com os recursos de 2021! Em Portugal precisaríamos de 2,5 planetas para sermos ecologicamente sustentáveis!

Preocupante! E se pensarmos nos países mais pobres de África, da Ásia e da América Latina, mais preocupante ainda, pois os países ricos gastam em excesso os próprios recursos e o desses países. Se estes consumissem da mesma maneira, então os recursos naturais esgotariam muito antes da primeira metade do ano.

Segundo a associação portuguesa Zero, o défice ecológico global começou em 1970 e, neste momento, serão precisos 18 anos terrestres para corrigir este défice. Se em cada ano se reduzisse em cinco dias o défice, o deve-haver estaria equilibrado em 2050! Um orçamento equilibrado garante o futuro, o nosso e o dos nossos vindouros!

Isto deve fazer questionar o estilo de vida que levamos e a forma como vivemos a solidariedade entre gerações, a nossa e as futuras, e a solidariedade entre (países) ricos e (países) pobres. Vamos ver se a vacina anti-covid chega igualmente aos mais pobres!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/37, n.º 4572, 25 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: De que adianta ir à Lua?

Todas as semanas disponibilizamos, na Voz de Lamego, palavras proferidas pelo Papa Francisco, contextualizando os momentos e os encontros. Nesta semana teremos oportunidade de ler e refletir, entre outras, as palavras que precederam e introduziram a oração mariana do Angelus, no passado sábado, 15 de agosto, na Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.

É a partir dessas palavras que desejo refletir convosco. Serão palavras incisivas se previamente estivermos dispostos a escutar, a meditar e a encontrar brechas na nossa vida que permitam encaixá-las com alegria. Como cristãos não nos cabe, primeiramente, dizer o que diz o Papa. É o próprio a dizê-lo a bispos e a padres, desafiando-nos, nas homilias, a falarmos do Evangelho, de Jesus Cristo, mostrando, com palavras, imagens, exemplos, a alegria de sermos cristãos, deixando-nos guiar pela postura de Jesus, pela Luz da fé, que conduz à verdade, nos faz ver os irmãos necessitados e abre o nosso coração à vivência das obras de misericórdia.

Porém, vale a pena fixar-nos na imagem que o Papa utilizou na alocução que precedeu o Angelus. Relembrou a frase dita quando o primeiro homem – Neil Armstrong – pisou a Lua: «Este é um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade». Era um marco importantíssimo para a história. Na altura, este acontecimento foi comparado à descoberta do caminho marítimo para a Índia, por parte dos portugueses, mormente com a figura de Vasco da Gama. A partir desta frase o Papa sublinhou um acontecimento maior: “Na Assunção de Maria ao Céu, celebramos uma conquista infinitamente maior. Nossa Senhora colocou os pés no paraíso: ela foi lá não só em espírito, mas também com o seu corpo. Este passo da pequena Virgem de Nazaré foi o grande salto, para frente, da humanidade”.

E conclui, dizendo: “De pouco adianta ir à lua se não vivermos como irmãos na Terra”. E poderíamos dizer nós, de que adianta amar o mundo inteiro, as pessoas, os animais e a natureza se não somos capazes de cuidar dos nossos familiares e dos vizinhos?

Vivemos um tempo diferente. Todos os tempos são diferentes, pois a vida não se repete, a história não volta atrás, o relógio não permite recuar o tempo. Não temos outro tempo que não seja o de hoje, o que Deus nos dá. O que passou é memória e raiz. O que está para vir é de esperança (e expetativa), mas deixa de o ser quando o alcançamos e/ou se chegarmos lá!

Temos de nos colocar à escuta, com os olhos do coração, para perscrutarmos a presença de Deus nos acontecimentos e, sobretudo, nos nossos irmãos, especialmente os que carregam o peso da idade e da solidão, da doença e do abandono, aqueles cujas vidas são desvalorizadas ou sacrificadas no altar da liberdade e da comodidade.

Concluímos com as palavras do Santo Padre, que salienta que Maria “coloca Deus como a primeira grandeza da vida. Daqui nasce o Magnificat, daqui nasce a alegria: não da ausência de problemas, que mais cedo ou mais tarde chegam, mas a alegria nasce da presença de Deus que nos ajuda e está perto de nós. Porque Deus é grande e olha para os pequenos. Somos a sua fraqueza de amor: Deus olha e ama os pequenos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Não há verão como antigamente

A vida nunca se repete. Sublinham os historiadores que há acontecimentos similares, ciclos completos que são preenchidos pela evolução e por grande crescimento económico e paz social, seguindo-se a crise, a conflitualidade e o aparente fim da história, a que sucede a reconciliação e crescimento e avanço civilizacional! É também essa a dialética hegeliana, em que o filósofo (Hegel) alemão analisava a história e a vida num constante ciclo: tese – antítese – síntese. Esta visão desafia-nos, em todo o caso, a ter os pés bem assentes no chão, uma vez que na bonança temos consciência que ainda não estamos no paraíso, fazendo-nos antecipar, preparar e precaver-nos, tanto quanto possível, dos conflitos que espreitam. Por outro lado, em tempos de crise, de tempestade e trevas, conhecendo a história e os seus ciclos, é possível relativizar as contradições, assumindo que as situações de crise são oportunidade de crescimento e de evolução e, simultaneamente, sabendo que não são para sempre, pois já vivemos momentos assim que ultrapassámos, então há que manter confiança e a certeza em dias muitos felizes que estão a chegar.

Para os cristãos, todos os tempos são preenchidos da presença graciosa de Deus e têm em si a boa semente para a qual nos cabe criar as condições para que frutifique em abundância, mesmo em ocasiões muito adversas. Porém, com a certeza de que estamos a caminho, somos peregrinos e que a nossa vida não se esgota na história e não fica limitada ao tempo cronológico. Pelo que nos cabe aproveitar bem todo o tempo, sem ficarmos à espera de termos outras oportunidades ou a extensão cronológica da vida! Faço hoje, vivo hoje, comprometo-me hoje, pois amanhã posso já não estar! Atravessamos uma tempestade? Com sofrimento e sacrifício? Sim, mas cientes que Deus continua a sustentar o mundo e que nos guiará ao futuro, aqui e na eternidade.

“À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento”. Palavras do Papa Francisco, no dia 27 de março, depois de subir a esplanada, deserta, da Praça de São Pedro, sintonizando com os tempos que passam, mas, igualmente, sintonizado com a presença amorosa e fiel de Deus na vida do mundo.

Estamos em pleno verão e a tempestade pandémica continua a fazer estragos, a assustar, a alterar comportamentos e a deixar muitas pessoas para trás, umas a caírem do barco, outras já fora do mesmo!

As nossas aldeias, vilas e cidades enchiam-se de pessoas nesta altura do ano, com os “emigrantes” que regressavam do estrangeiro ou de outras zonas do país. É certo que há lugares novamente pejados de migrantes e de turistas, mas nada comparado a outros anos. As festas e romarias que motivavam também a presença dos nossos conterrâneos foram suspensas e/ou adiadas para melhores dias. E, mesmo que se realizem algumas, no estrito cumprimento das normas sanitárias para o tempo da pandemia, a espontaneidade da festa não permite a mesma descontração e familiaridade.

Mas como a vida não se repete, não percamos tempo a lamentar-nos, aproveitemo-lo para nos ligarmos ainda com mais qualidade à família e aos amigos e que o distanciamento físico não seja, nem agora nem no futuro, distanciamento social!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/35, n.º 4570, 11 de agosto de 2020

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Editorial da Voz de Lamego: sulcos de esperança

Para semear ou plantar alguma coisa é necessário criar sulcos, regos, rasgos na terra. Temos vindo a escutar, no Evangelho de domingo, parábolas que falam da semente lançada à terra e que encontra solos diversos, ou semente boa que resiste apesar do joio, ou o grão de mostarda, pequena semente que virá a tornar-se uma árvore grandiosa. Em todas as circunstâncias, Deus age, espera, usa de benevolência e de paciência.

O nosso Bispo, D. António Couto, em reunião promovida pela coordenação pastoral da Diocese, de que damos notícia nesta edição do jornal, ao tomar a palavra, referiu-se aos sulcos de esperança, lembrando que as sementes precisam desses sulcos para germinarem, crescerem e darem fruto. Estes tempos de pandemia são também tempos dos sulcos da esperança. Tempos marcados pela adversidade, mas nem por isso deixam de ser tempos de esperança. Teremos que, no meio da desgraça, encontrar a graça e a presença de Deus. Deus não está ausente. Haverá lugar ao esforço, sacrifício e até lágrimas, mas, simultaneamente, não deixemos de preencher os sulcos de esperança e de alegria.

No lema episcopal do nosso Bispo – Vejo um ramo de amendoeira – baseado numa passagem de Jeremias (1, 11-12), em que ele é interpelado por Deus a ver para lá do inverno, para lá dos tempos de agrura e de dificuldade, surge de algum modo a mesma perspetiva. Em pleno inverno, a amendoeira flori, resplandecente, apesar do frio, do tempo adverso para flores e frutos. Refere D. António: “A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Ao responder [ao Senhor]: «Vejo um ramo de amendoeira», Jeremias já ergueu os olhos da invernia e da tempestade e do lodo e da lama e da catástrofe e da morte que tinha pela frente, e já os fixou lá longe, ou aqui tão perto, na frágil-forte-vigilante flor da esperança que a amendoeira representa”.

Esta é a missão da Igreja, Bispo, padres e leigos, mostrar que os sulcos cavados na terra têm neles a semente da esperança, da alegria e da festa. Daí também, nesse contexto, a necessidade de não ficarmos à espera que passe a pandemia. Urge transparecer a esperança e a alegria e a certeza de que este também é tempo de Deus. A palavra de Deus é um oxímoro, um contraponto à realidade atual, um desafio, uma provocação. O tempo é diferente, novo, mas ainda assim desafiante, comprometendo-nos como “agentes” da pastoral da graça e da esperança. Temos que responder perante as comunidades, perante as pessoas que Deus coloca nas nossas vidas e que formam as nossas paróquias. A Diocese viveu e viverá em caminho e em comunhão, mas dará passos novos, com uma mensagem de esperança, de graça e de beleza, avançando! O surto pandémico é um sulco que envolve sofrimento e lágrimas, mas é também um sulco grávido da presença e do amor de Deus.

Os responsáveis nacionais da catequese já apresentaram Orientações para a catequese da infância e da adolescência (acessíveis na página da Diocese: www. diocese-lamego.pt) para o novo ano pastoral, com o envolvimento de todos, pais, crianças, catequistas, párocos, comunidade, prevendo a catequese presencial e digital, apelando também a que novos elementos se comprometam como catequistas. A diocese de Lamego, departamentos e paróquias, está também a tratar disso… para que o caminho e a comunhão nos façam descobrir o rosto e a identidade da Igreja.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/34, n.º 4569, 21 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O Evangelho de Nazaré e de Lampedusa

Papa Francisco, presidiu à celebração da Santa Missa, em Lampedusa, a 8 de julho de 2013

Completaram-se sete anos desde que o Papa Francisco se deslocou a uma das periferias da Europa, à Ilha de Lampedusa, lugar de refúgio de milhares de pessoas que abandonaram a sua terra em busca de uma vida melhor, a fugir da guerra, da pobreza, da perseguição. A Ilha italiana é um dos pontos de entrada para a Europa; e um lugar para manter “isolados” do mundo os que se atrevem a embarcar para um futuro incerto.

A eleição do Papa Francisco, oriundo da Argentina, define por si só, uma periferia que é colocada no centro da Europa, no centro do mundo, da sociedade e da Igreja. O então Cardeal Jorge Mario Bergoglio agita as águas na intervenção que faz no conclave que viria a elegê-lo, mostrando que a Igreja, para ser fiel a Jesus Cristo, tem de se descentrar e ser Igreja em saída, indo às periferias, não apenas geográficas, mas sobretudo existenciais. Uma Igreja autorreferencial tende a adoecer, tornando-se inútil, anquilosada, desnecessária. A Igreja está para Cristo como a Lua para o Sol. A lua não tem luz própria, mas é um astro luminoso porque espelha e projeta a luz do Sol. Assim a Igreja, não se anuncia a si mesma, mas a Cristo e ao Seu Evangelho de amor. Cabe-lhe viver, seguir e testemunhar Jesus, tornando-O acessível a todos.

Após a eleição, Bergoglio escolheu, como patrono e referência, São Francisco de Assis. Os pobres, a identificação a Cristo pela pobreza e pelo despojamento, e as questões ambientais… programa do Papa Francisco, com o seu dinamismo latino, e, obviamente, a identidade da Igreja que quer estar onde Cristo deve estar, junto dos mais pobres.

Escolheu para primeira viagem apostólica, a 8 de julho de 2013, a Ilha de Lampedusa para se encontrar com os mais pobres dos pobres, pessoas sem teto, sem pátria, sem um futuro definido e, ao mesmo tempo, para rezar por todos quantos morreram a tentar passar o mar atlântico.

Palavras incisivas do Papa: “neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença… acostumamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é assunto nosso!  Foi-nos tirada a capacidade de chorar”. Pediu “perdão pela indiferença para com tantos irmãos e irmãs, perdão para aqueles que se acomodaram e se fecharam no seu próprio bem-estar, o que leva à anestesia do coração, perdão para aqueles que com suas decisões globais, criaram situações que levam a esses dramas”, para que o mundo tenha “a coragem de acolher aqueles que buscam uma vida melhor”.

Passaram sete anos. O Santo Padre assinalou o aniversário na passada quarta-feira, 8 de julho, na Eucaristia celebrada na Capela de Santa Marta, recordando a viagem como um desafio permanente contra a globalização da indiferença. Esta pandemia acentuou ainda mais as periferias, a pobreza, as desigualdades sociais, o isolamento dos mais vulneráveis… Em Nazaré, um carpinteiro, vive de forma simples, discreta e humilde, em família e em comunidade, até ao dia em que Se faz batizar, deixando-Se impelir pelo Espírito Santo, indo de terra em terra a anunciar a Boa Notícia da Salvação. Ninguém dava nada por Nazaré, mas é a partir daí que é lançada a semente do Reino de Deus. Será também da Galileia… que os apóstolos partem para outros mundos… De Lampedusa, mais uma etapa na revolução dos corações que se iniciou com Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Para que tenham vida em abundância!

É o programa de vida de Jesus. Não tem outro. Realizar a vontade do Pai. É o Seu alimento, o Seu propósito, a Sua vida. Qual é a vontade do Pai? Que ninguém se perca. Nem um só dos Seus filhos! E, por isso, Jesus é o enviado do Pai, fazendo-Se um de nós, tornando-Se um dos nossos. Por amor. Somente amor. Para nos reconduzir ao Pai. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para entrarmos na comunhão com o Pai, com a Santíssima Trindade, temos de nos assumir, antes de mais, como irmãos, filhos do mesmo Pai, deixando-nos mover pelo Espírito de Amor que estabelece e garante a comunhão.

No Evangelho de São João, Jesus apresenta-Se como o bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas, e como a Porta, pela qual entram as ovelhas. Jesus conclui dizendo: “Eu vim para que tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). O Seu discurso está em sintonia com a Sua postura, em cada olhar e em cada palavra, em cada gesto e em cada prodígio, Jesus traduz e concretiza o amor de Deus para connosco, para com todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, camponeses e pecadores, mulheres e crianças, estrangeiros!

Jesus não desiste de ninguém. Não desiste de Judas, nem de Pedro, nem dos demais apóstolos; não desiste da mulher acusada de adultério nem da prostituta que lhe lava os pés com as lágrimas; não desiste de Mateus, chefe de publicanos, nem de Lázaro, o amigo que morreu! Jesus vai até ao fim, até onde tem de ser. Já o dissemos, a vida não é um absoluto, mas é um direito inalienável, que vem antes e está acima dos demais, é fundamento e substrato de todos os direitos e garantias. Absoluto, na vida de Jesus, na minha e na tua vida, porque somos Seus discípulos missionários, é o amor.

O amor faz-nos pobres, faz-nos servos, não por obrigação, mas por opção.

O amor faz-nos pobres… quem ama, dá e dá-se por inteiro, predispõe do que tem e do que é para que a pessoa amada se sinta agraciada. Vejam-se os pais em relação aos filhos… deixam de comer e de comprar roupa e calçado para que os filhos comam melhor e possam comprar aquela peça de roupa ou aquelas sapatilhas! Como não lembrar as mães que na hora da refeição não se sentavam à mesa, dizendo que já tinham comido para que não faltasse aos filhos…

O amor faz-nos servos… isto é, filhos! O filho do Homem veio para servir e não para ser servido! Já não vos chamo servos mas amigos! O filho do dono da casa serve os seus comensais e convidados. E não se sente secundarizado ou menosprezado, pelo contrário, o filho também é dono na casa. Como é que nos sentimos? Filhos (donos da casa) ou convidados? Se somos filhos amados é com alegria que acolhemos e servimos os “convidados”, as visitas! Como não recordar a parábola do Pai misericordioso e do filho pródigo? A um momento, cada um dos filhos se sentiu, em relação ao Pai, como empregado, não como filho! É o amor do Pai que salva, é o amor de nos sentimos filhos que nos salva. Preenchidos de amor, estamos disponíveis para nos gastarmos em prol da vida dos outros, independentemente das pandemias.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020