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Editorial Voz de Lamego: Só se vive uma vez!

Em meados dos anos 90, do século e milénio passados, um duo espanhol, Azucar Moreno, popularizou-se com este tema: Sólo se vive una vez! Deixamos o ritmo para quem o tiver, e partirmos deste desafio que perpassa na letra desta canção, cheia de vida. “Apaga o televisor… dá marcha ao coração… Se te importa o que dirão e se te querem enrolar, lembra-te bem: só se vive uma vez… Se te querem amargar com problemas… não te deixes convencer: só se vive uma vez”.

Saímos da Semana da Vida (8 a 15 de maio), num indelével convite a acolher, amar, proteger a vida, cuidar dos mais frágeis, as crianças e os idosos, os pobres e as pessoas portadoras de deficiência. Nestes dois meses de guerra, imposta pela Rússia à Ucrânia, multiplicam-se as pobrezas, gerando órfãos, pais que veem os filhos morrer, filhos que deixam os pais para trás, sem esperança de os voltarem a ver, mulheres cujos maridos, companheiros, namorados, noivos estão na linha da frente. Uma guerra gera orfandade e viuvez, gera luto e tristeza, e desolação, medo e vontade de vingança. Os estragos atuais terão reflexo nas próximas gerações. Os edifícios construir-se-ão, os corações levarão muito mais tempo e as famílias, muitas delas, ficarão destroçadas para sempre.

Neste cenário preocupante, o desafio a viver é mais premente. Se nunca sabemos a nossa hora, num contexto de guerra, que pode alargar-se a toda a Europa ou a todo o mundo, a incerteza agudiza-se. A fé, também neste caso, ajuda-nos a relativizar, sem desvalorizar o pecado da violência, da agressão gratuita, dos assassinos em massa em prol do poder, do controlo, da supremacia de uma ideologia ou de um país ou de um líder. A fé garante-nos que a vida não acaba com a morte e que também o tempo de morte e de trevas passará. A história mostra-nos longos períodos de guerra e de embotamento face à duração da mesma. Porém, para quem é agredido, violado, torturado, perseguido, expulso de sua casa, para quem é morto, ferido, ou vê os seus a serem feridos e mortos, não será o tempo a curar, a repor, a compensar, ainda que amenize a dor ou mesmo o desejo de vingança. Nas perdas humanas, só a fé garante a esperança na vida eterna, a certeza de novo reencontro, sem o qual a vida fica a meio, deficitária, por completar.

Se nós soubéssemos que amanhã já não estávamos (fisicamente) por cá, talvez acelerássemos algumas tarefas e compromissos, para deixarmos resolvido, para vivermos. Como não sabemos, também não o devemos adiar, pois o futuro só a Deus pertence. Ele dá-nos o tempo atual como presente para desfrutarmos, para vivermos, para construirmos um mundo fraterno, que seja casa de todos e para todos. Há quem não viva hoje à espera de viver o amanhã, de melhores dias e melhores circunstâncias que não chegam ou quando chegam já é demasiado tarde.

Jesus, numa página da Sua vida (histórica), tranquiliza os Seus discípulos, desafiando-os: «Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã preocupar-se-á consigo próprio. A cada dia bastam os seus males».

Mas atenção, não se trata de despreocupação ou de demissão, mas de compromisso e empenho em viver e em cuidar da vida, das pessoas, do mundo que é a nossa casa. Diz-nos Jesus, numa parábola: «A terra de um homem rico deu uma boa colheita. E discutia consigo próprio, dizendo: “Que hei de fazer, dado que não tenho onde recolher os meus frutos?”. Disse, então: “Vou fazer assim: destruirei os meus celeiros e edificarei uns maiores; lá recolherei todo o grão e os meus bens. E direi à minha alma: “Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-te!”. Mas Deus disse-lhe: “Insensato! Esta noite a tua vida ser-te-á reclamada. O que preparaste, para quem será?”. Assim acontece àquele que acumula para si e não se torna rico diante de Deus».

Se conjugarmos os dois textos, vivamos hoje, sem adiamentos, empenhados em sermos bênção e casa uns dos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/27, n.º 4658, 18 de maio de 2022

Editorial Voz de Lamego: Rezai o terço todos os dias

Um dia Jesus disse aos Seus discípulos para rezarem sem cessar e sem desfalecer, sem desistir. «Pedi e ser-vos-á dado, procurai encontrareis, batei e abrir-se-vos-á; pois todo o que pede recebe, o que procura encontra, e ao que bate abrir-se-á» (Mt 7, 7ss). Jesus prossegue, dizendo que se os pais dão coisas boas aos filhos, muito mais o nosso Pai do Céu nos dará aquilo que Lhe pedimos.

Na passagem paralela, em São Lucas, Jesus aprofunda esta temática, contando uma parábola: «Quem de entre vós terá um amigo e irá ter com ele a meio da noite para lhe dizer: ‘Amigo, empresta-me três pães, visto que um amigo meu chegou de viagem e não tenho nada para lhe pôr à frente’; e ele, de dentro, respondendo, dirá: ‘Não me importunes, a porta está fechada, e os meus filhos estão na cama comigo; não posso levantar-me para tos dar’? Digo-vos: ainda que não se levante para lhos dar por ser seu amigo, levantar-se-á por causa da falta de vergonha dele e dar-lhe-á tudo quanto necessite».

Numa outra passagem, Jesus conta outra parábola, de uma viúva que insiste com um juiz iníquo, que não teme a Deus nem aos homens. Inicialmente, ele recusa-se, fica indiferente ao pedido, mas finalmente resolve-se, fazendo-o, não por convicção, mas por se sentir incomodado com a insistência. E Jesus conclui: «Ouvi o que diz o juiz injusto. E não fará Deus justiça aos seus eleitos que por Ele clamam dia e noite? Vai fazê-los esperar? Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo, quando o Filho do Homem vier, encontrará porventura a fé sobre a terra?»

A parábola, diz-nos o evangelista, é acerca da necessidade de rezar sempre sem desanimar. Mas a concluir, Jesus fala de fé. Mas que tem uma coisa a ver com a outra? Sem fé, a nossa oração é vazia e inútil. Deus responde-nos sempre, mas será que O escutamos? Que confiamos na Sua bondade? Será que acreditamos que Ele quer o melhor para nós?

Nossa Senhora, em Fátima, convida a uma oração simples, acessível a todos. Tal como a mensagem que resulta das diversas aparições, também este apelo está em conformidade com o Evangelho e com o mandato de Jesus. Rezar. Sem cessar. A oração, porém, não é (apenas) a repetição de fórmulas. A oração implica sintonia, ligação, predisposição para acolher. Com efeito, Nossa Senhora pede aos pastorinhos orações pelo Santo Padre, pela paz no mundo e, reiteradamente, pela conversão dos pecadores. A conversão é ação de Deus e Deus pode agir quando e onde quer, mas podemos impedi-l’O de agir em nós, podemos fechar-nos ao Seu Espírito. A oração predispõe-nos a acolhê-l’O. A verdadeira conversão é acreditar em Jesus Cristo, pois se acreditamos n’Ele como Deus feito homem, não temos como não procurar segui-l’O, amá-l’O, imitá-l’O. Muitas vezes queremos que Ele faça a nossa vontade e esperamos que atenda as nossas preces automaticamente. É difícil a espera, é difícil colocarmos a nossa confiança, total e sem condições, em Deus, porque receamos que nos peça algo que não estamos dispostos a realizar. Por outro lado, os desígnios de Deus sempre se esbatem com a vontade humana. Ele criou-nos livres e respeita a nossa vontade. Rezamos pela paz e pedimos que Deus ilumine o coração dos agressores, dos governantes, mas não sabemos até que ponto eles pensam que estão a fazer o bem! Contudo, não deixemos de rezar, pela paz, para que o amor de Deus permite “amolecer” o coração dos homens. Este mês de maio, mês de Maria e de Fátima, rezemos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo, pelo santo Padre e que a “repetição” de “aves-marias” e de “pai-nossos” seja a nossa forma de dizermos: Maria, eu amo-te mas aumenta a minha docilidade para com os outros; Jesus, eu amo-te, mas faz com que me sinta verdadeiro filho, verdadeiramente teu irmão e irmão de todos os que colocas no meu caminho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/26, n.º 4657, 11 de maio de 2022

Editorial: Levantai-vos! Vamos! Temos muito para andar…

A nossa diocese vive o ano pastoral neste desafio de Jesus aos Seus apóstolos: Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46). No Jardim das Oliveiras, os guardas aproximam-se para O prender. Depois de intensos instantes de oração e súplica, Jesus desperta os seus amigos mais próximos, para que não se deixem abater pelo sono, pela noite, pela ansiedade ou pelo medo. As horas que estão pela frente não auguram nada de bom. À noite todos os gatos são pardos. A escuridão acentua o medo, pois o espaço é muito fechado, não se sabe quem está a rondar, se há alguém com uma emboscada preparada, ou se há animais perigosos por perto.

A noite proporciona, noutro contexto, recolhimento para a oração, para a escuta, para a introspeção. Pela noite ou de madrugada, Jesus retira-Se para orar. Foi assim também naquele dia, depois da Ceia, Jesus, levando os discípulos, dirige-se para o Jardim das Oliveiras. A oração é audível: Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice. Contudo, não Se faça como Eu quero, mas como Tu queres! Os discípulos não puderem vigiar com o Mestre nem uma hora! Adormeceram. Agora, Jesus desperta-os para se levantarem e envolve-os, e a nós também, no caminho a seguir: Vamos! Juntos. Conto convosco no Meu caminho!

O lema da diocese procurou sincronizar com o lema da Jornada Mundial da Juventude: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39). A Anunciação dá lugar, rapidamente, à Visitação. O Anjo anuncia a Maria que Ela será mãe do Filho de Deus Altíssimo. Tranquilizando-a, o Anjo informa-a que também a sua prima Isabel, de idade avançada e para lá de todas as possibilidades, está grávida, já no sexto mês. A primeira decisão de Maria é partir. Levantar-se e partir apressadamente para a montanha ao encontro de Isabel, em direção a Ain Karim, povoação nas proximidades de Jerusalém.

Também acerca de Maria podemos usar as palavras do Profeta: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz” (Is 52, 7). Nossa Senhor leva uma mensagem de paz e de alegria. A felicidade tende a partilhar-se, multiplicando-se. Maria transporta o Príncipe da Paz e comunica essa bênção a sua prima Isabel. A celeridade de Maria em partir tem esta motivação de levar a Boa Nova, indo também inteirar-se das necessidades de Santa Isabel.

Iniciámos o mês de maio, mês dedicado especialmente a Maria. Ao dedicar-se uma jornada, uma novena ou um mês a Nossa Senhora, tem, pelo menos, dois propósitos. Por um lado, honrar, agradecer, suplicar e louvar a Deus por intercessão da Virgem Mãe. Por outro lado, deixarmo-nos interpelar por Ela, pelas Suas palavras, pela Sua vida. É desafio constante: fazei o que Ele vos disser… imitando-A: Faça-se a Tua vontade!

Numa das belas páginas da Bíblia, o profeta Elias, o grande profeta de Israel, faz-nos balançar entre a fé e o cansaço, entre a determinação e a desistência. Em fuga, sob ameaça da Rainha Jezabel, Elias vagueia pelo deserto durante um dia. No final, sentou-se debaixo de um junípero e clamou: “Basta, Senhor, tirai-me a vida, porque não sou melhor que os meus pais”. Deitou-se por terra e adormeceu. O Anjo do Senhor desperta-o e diz-lhe: “Levanta-te e come”. Comeu, o pão cozido, bebeu, o copo de água e voltou a adormecer. O Anjo voltou a despertá-lo: “Levanta-te e come porque tens um longo caminho a percorrer” (1Reis 19, 1-8). Desta feita, Elias levanta-se, come e, revigorado, põe-se a caminho, andando quarenta dias e quarenta noites até à montanha do Senhor, o Horeb.

Alimentemo-nos do Senhor, da Sua palavra, do Pão da vida, para que não nos falte o ânimo no caminho e que a presença da Virgem santa Maria nos anime nos momentos dolorosos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/25, n.º 4656, 4 de maio de 2022

Editorial Voz de Lamego: Verdadeiramente este homem era justo

O centurião, ao ver o que se passava, exclamou, glorificando a Deus (Lc 23, 46-47).

Aparentemente, a história de Jesus, e a Sua vida entre nós, chegou ao fim!

Que é que terá visto, ouvido, sentido o centurião para dar glória a Deus logo depois de Jesus ter expirado?

Um desenlace anunciado pelo próprio Jesus, a entrega às mãos das autoridades religiosas e políticas, julgado e morto! Último suspiro! A violência a que foi sujeito, desde a prisão no horto das Oliveiras, à agressividade dos soldados, que O injuriam e n’Ele descarregam frustração e, chicoteando-O, a carregar a pesada Cruz, já com pouquíssimas forças, a crucifixão, a morte parece quase um alívio! Não há forças para mais. Ele sofre, mas quem está por perto, Maria e as outras mulheres, também sofrem. Não nos é possível imaginar a agonia de Nossa Senhora, pese embora a fé e a confiança em Deus. Será um misto de sentimentos, angústia pelo sofrimento que se expressa no rosto e no corpo de Jesus, Seu amado filho, nas tremuras e dificuldades em respirar, e, por outro lado, paz e esperança, sabendo que a morte nada é diante do poder de Deus, não é um termo, é passagem, é páscoa. Ela sabe, Ela sente, Ela confia que o Seu Filho, o Filho de Deus, morre (biologicamente) como ser humano, mas o Pai não O abandonará à morte, assisti-l’O-á, por ação do Seu Espírito, na Sua descida ao túmulo, para O ressuscitar.

Se a morte tivesse a última palavra, a história fixaria Jesus como uma memória a esquecer-se ao longo do tempo. Mas a história não acaba aqui. Não acaba na sexta-feira santa. O calvário é mais uma etapa, ainda que mais significativa e final, expressão última e plena da entrega de Jesus. A desolação dos discípulos, familiares e amigos, da gente simples da Galileia, há de dar lugar à luz e à alegria, à festa e à vida nova. Teremos que descer do morro, teremos que abandonar o lugar da morte, da desumanização, da injustiça e do pecado. E regressarmos à vida! À comunidade! Lá nos encontraremos com o Ressuscitado.

Pela madrugada, as mulheres… sempre mais cuidadosas nos pormenores, vão-se assegurar que o Corpo do Senhor, tanto quanto possível, receba os cuidados que a pressa de sexta-feira santa não permitiu. Num primeiro momento, nem pensam que serão incapazes de mover a pesada pedra que bloqueia a entrada do sepulcro. Agem antes de racionalizar as questões práticas. Não há tempo a perder, é o Mestre e, sobretudo, Amigo, que é preciso honrar. Depois, Deus há de prover! E Deus provém… o sepulcro está de portas abertas, como pôde ver Maria de Magdala, como podem testemunhar as mulheres, como podem verificar os discípulos, Pedro e o predileto, que podes ser tu e posso ser eu, se e quando despertarmos confiantes para o amor e a omnipotência de Deus.

Com as mulheres, com os discípulos, vamos ao lugar da morte! Ali, depois de horas densas e intensas, de enorme desolação, foi colocado o corpo de Jesus, desfigurado. Como se aproximava o sábado, pois o entardecer de sexta-feira, cultualmente, faz-nos entrar no grande sábado, não foi possível deixar o corpo de Jesus com os unguentos todos, que remetem para o respeito pelos mortos, para a amizade, para a vida que perdura, pelo menos, na memória agradecida. Cedinho, portanto, no primeiro dia da semana, novo dia, resplandecente de luz, de beleza e de vida, levantemo-nos, vamos nós também, e deixemo-nos envolver pelos sinais que estão ali, pelos sinais que Deus faz ver e sentir. Jesus não está ali! Ele precede-nos! Ele levantou-Se antes de nós chegarmos, ressuscitou! É tempo de desfazermos a ansiedade e o luto! Ele está vivo. Encontrámo-l’O, não no sepulcro, mas na Galileia, em Jerusalém, em Tabuaço e em Lamego, em Penude, na minha e na tua povoação, na Igreja e em casa, nas encruzilhadas da vida. É tempo de cantar e agradecer, é tempo de viver e anunciar a vida, a ternura, o amor, a compaixão. É tempo de fazer com que os destroços da morte se convertam em compromisso com a vida, agindo de tal forma, em palavras, gestos e obras, que prevaleça o diálogo e a verdade, a partilha e a comunhão, a solidariedade e a justiça, a bondade e a paz, a entreajuda solidária e a opção preferencial pelos mais desfavorecidos. Uma vez ressuscitados com Jesus, vivamos esta nova vida que nos identifica e compromete em amar a todos do jeito com que Deus nos ama, dando a Sua vida, em Jesus Cristo, até ao último fôlego. Levantemo-nos, é tempo de viver e testemunhar o Evangelho da Alegria e da Caridade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/23, n.º 4654, 20 de abril de 2022

Editorial Voz de Lamego: A maior semana da nossa fé

Vivemos a Semana Santa, a maior da nossa fé, não pela duração das horas ou dos dias, mas pela intensidade e pelo significado fundante da comunidade cristã. Jesus entrega a Sua vida por inteiro! Nem a morte tem poder de lhe colocar um termo, pois a vida emerge em plenitude na Sua ressurreição. Cada Eucaristia é Páscoa, na qual celebramos um mistério que nos faz contemporâneos de Jesus, pois Ele vive agora, no meio de nós, pela força do Espírito Santo, em Igreja. A cada ano, de forma mais solene, vivemos os acontecimentos que marcam o culminar da Sua vida história, em dinâmica de entrega.

A semana é santa, porque Jesus é o Santo de Deus! Vem de Deus e dá-nos Deus. Santifica-nos e envolve-nos no Seu mistério de amor e no Seu ministério de serviço. Jesus percorre connosco as diversas situações da vida. São Paulo faz uma síntese perfeita: “Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou”.

Ele está no meio de nós como quem serve; amando, sujeita-Se às mesmas circunstâncias finitas, frágeis, limitadas; caminha lado a lado, entra connosco na cidade, ouve as nossas preces e os nossos gritos, aceita o nosso louvor, as nossas oferendas e a nossa conversão, a nossa alegria e a nossa cobardia. A realeza de Jesus é despojada de poder, de riqueza, de exuberância.

O Rei aclamado por uma multidão entusiasta e feliz, no início da semana, dá lugar a um Rei coroado de espinhos, injuriado por uma multidão enraivecida e embrutecida. O tempo que decorre nas últimas horas é mais demorado, doloroso, tenebroso.

Oportunamente, Jesus avisa os discípulos. O Filho do homem vai ser entregue aos anciãos, vai ser julgado, condenado e morto! Durante aqueles instantes, o coração dos discípulos estremeceu… mas a vida continua, e foram esquecendo a sentença que pesava sobre a Sua cabeça!

Aproxima-se a Páscoa (judaica). Jesus manda preparar a ceia pascal. Em casa, à volta da mesa, numa refeição festiva, recordando as maravilhas que Deus realizou, através dos tempos, a favor do Seu povo, Jesus faz ver que tudo se precipitará para o fim! “Não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o reino de Deus”.

Os discípulos percebem que alguma coisa não está bem, mas ainda não sabem a dimensão das palavras de Jesus, que institui o memorial, antecipando, no repartir do pão e do vinho, a Sua permanência no meio de nós, depois da Sua morte e ascensão para Deus. Ouvem Jesus a dizer que entre eles está alguém cujas intenções não são concordes com o Seu projeto. A casa começa a desfazer-se. Um deles levanta-se da mesa e sai de casa. Doravante a casa fica vulnerável, exposta, as portas não são forçadas, abrem-se por dentro. A história de famílias, comunidades e povos! Os inimigos, mais perigosos, porque mais silenciosos, estão dentro, na família, na comunidade, no povo, e dentro de nós!

O Mestre clarifica de novo a opção pelo serviço: Eu estou no meio de vós para servir e dar a vida. A disputa não é pelo poder, mas pelo amor. Os nossos propósitos são testados pela realidade! A oração é a garantia da nossa comunhão com Deus, o contexto que nos permite querer o que Deus quer! Pela oração fortalecemos as nossas escolhas.

Até à Cruz, a postura de Jesus é constante, realizar a vontade de Deus, expressar o Seu amor por nós, apontar-nos o caminho do perdão, do serviço e da ternura de forma a construir fraternidade.

Qua a vivência da Semana Santa nos faça perceber que a vida se ganha, gastando-se por amor, no serviço uns aos outros, ao jeito de Jesus, nossa Páscoa e nossa Paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/22, n.º 4653, 13 de abril de 2022

Editorial Voz de Lamego: A vida… ninguém ma tira, sou Eu que a dou

Como darmos o que não nos pertence?

Ou como suprimirmos o que não podemos dar?

A vida… a vida não depende, na origem, de nós, é-nos dada! Também não a podemos retomar! Poderemos interrompê-la? Uma interrupção significaria que, posteriormente, poderia haver regresso. Se a recebemos, se a acolhemos, não nos cabe acabar o que não começamos! Em relação aos outros, muito menos, pois ninguém nos designou para assumirmos um papel que não é nosso, pois não somos autores da vida.

O quinto mandamento é taxativo e não tem vírgulas, nem acentuações, não se sujeita a interpretações. Direto: “Não matarás”. É uma ordem divina. Na formulação da catequese, explicita-se: “Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo)”. Infelizmente continuamos a matar e a causar dano uns aos outros. Jesus Cristo é crucificado em cada vítima, em cada pessoa faminta, perseguida, escravizada, em cada pessoa negociada, vendida, violentada e morta.

Jesus ensina-nos a formular o mandamento pela positiva: amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo, ao jeito do Bom Samaritano que se faz próximo de quem está caído à beira do caminho, sem voz nem vez.

Na verdade, “o amor é a única maneira de compreender outro ser humano no fulcro mais íntimo da sua personalidade. Ninguém pode ter um conhecimento profundo e completo da essência do outro ser humano a menos que o ame. Por meio do seu amor, fica capacitado para ver os traços e as características essenciais da pessoa amada” (Viktor Frankl).

Viktor Frankl foi prisioneiro, durante quatro anos, nos campos de concentração nazi, durante a Segunda Guerra Mundial. Logo que libertado, enquanto psiquiatra, escreveu para pessoas com tendência para o desespero. “Vislumbrei então o significado do maior segredo que a poesia, o pensamento e as crenças dos seres humanos podem comunicar: a salvação dos homens consegue-se no amor e pelo amor. Compreendi como pode um homem a quem nada resta no mundo conhecer ainda assim a felicidade, mesmo que por breves instantes, na contemplação do ser amado”.

A segunda guerra mundial fez emergir a maldade e o egoísmo, a prepotência e a sobranceria, centrada, sobretudo, na liderança de Hitler. As nações uniram-se para evitar que se repetissem situações como as verificadas, de tortura, maus-tratos, escravização, mortes às dezenas e centenas de pessoas, enterradas em valas comuns. Foi o sonho de um homem, movido pela sede de poder ou, simplesmente, com os neurónios em curto-circuito! Como tem alertado o Papa Francisco, estamos na terceira guerra mundial, ainda que aos pedaços, em diferentes zonas do planeta, além da fome, do tráfico de órgãos e de pessoas, da multidão de refugiados, oriundos de diferentes países, a fugir da violência, da perseguição, por motivos políticos, económicos, étnicos e religiosos. A agressão violenta da Rússia ao país irmão, a Ucrânia, é mais um lamentável episódio que tende a repetir a mesma prepotência de Hitler, agora com outro nome, Vladimir Putin. A facilidade com que se tira a vida, justificando atos hediondos com palavras como defesa (preventiva) e libertação! Libertação de um povo que se sente livre e que não pediu para ser libertado.

Numa das páginas do Evangelho, Jesus clarifica: «Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em Si mesmo» (Jo 5, 17-30). Só quem tem a vida em si mesmo, pode, de facto, dar a vida! «O Pai ama-me, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de Mim, mas Eu a dou a Mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir» (Jo 10, 17-18.)

Analogamente, a vida dá-se, amando, gastando-a a favor dos outros. Quem guardar a vida para si, perdê-la-á e quem perder a vida, por Minha causa e do Evangelho, diz Jesus, ganhá-la-á (cf. Mt 10, 39; 16, 25).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/21, n.º 4652, 6 de abril de 2022

Editorial Voz de Lamego: Hoje não me apetece ir à Missa

Não me apetece ir à Missa!

A mim também não!

Mas nem tudo na vida tem a ver com desejos ou com apetites.

Eu vou à Missa quando me apetece. Para quê ir contrafeito? E trabalhar? Aí tem de ser… E ir à escola? Como não? Temos que ir!

Em todas as dimensões da vida, há momentos em que o desejo nos faz querer adiar, hesitar, arranjar alguma justificação para não ir…

Quando um bebé é pequenino, na maioria dos casos, tem um sono que não está sintonizado com os dos pais, nem com os horários noturnos. Por outro lado, uma constipação, alguma doença, um dente a nascer, fazem com que os pais estejam enlevados o tempo todo, não conseguindo dormir bem nem de noite nem de dia, pois o cérebro mantém-se ligado. Se o bebé chorar dez vezes durante a noite, a mãe ou o pai, ou à vez, hão de se levantar de todas as vezes para ir engalhar o menino, ver o que tem e ver se precisa de comer, de mudar a fralda ou simplesmente de sentir a presença materna/ paterna. Os pais levantam-se cinco vezes ou quinze vezes, não por prazer, desejo, não por gosto ou por vontade, mas fazem-no por amor, com sacrifício, cansados, ensonados e até irritadiços quando voltam a ouvir chorar o filho. Mas levantam-se por amor, uma obrigação que vem de dentro, que vem do coração. Fá-lo-ão com satisfação? Duvido!

Voltemos então à questão inicial. Não vou à Missa. Vou apenas quando me apetece. Quando não tenho que fazer. Ou iria se o horário fosse outro, mas este horário não me dá muito jeito. Trabalho toda a semana, o Domingo é o único dia que tenho para descansar e me levantar um pouco mais tarde. E ao sábado à tarde? Ao sábado é quando arrumamos a casa, vamos às compras ou é tempo para algum lazer, para caminhar, ver um filme, para ir até ao café estar com os amigos. Se tivesse mais tempo, eu ia à Missa. Vendo bem, estes argumentos são razoáveis, justos e defensáveis! Afinal, nós conseguimos arranjar justificações para o que não nos apetece fazer ou para compromissos a que ninguém nos obriga.

Não vou à Missa porque não gosto do padre. Não me identifico com as homilias que ele faz. Demora muito. Repete as mesmas coisas. Só fala do Evangelho, que já ouvimos antes. A Igreja precisa de evoluir, ficou parada no tempo. Há dias fui a uma Missa, a um casamento, e gostei. O padre era engraçado, falava bem, divertiu-nos bastante. Se todos os padres fossem assim, as igrejas estavam cheias, até eu ia mais vezes à Missa. Contou uma anedota que pôs toda a gente a rir. Assim vale a pena.

Já todos ouvimos estes argumentos. Uma e outra vez. E identificamo-nos com algumas destas explicações e até acrescentaríamos outras. É certo que o sacerdote não é simplesmente um autómato, a sua maneira de ser e de estar e de falar pode cativar mais ou fazer com que as pessoas se sintam acolhidas, reconhecidas, parte importante na celebração. Porém, a Eucaristia, como os demais sacramentos, não é obra do padre, não tem a ver com apetites ou desejos, ainda que os tenhamos, tem a ver com fé, com compromissos, tem a ver com amor. Por vezes, somos convidados e não nos apetece muito sair de casa ou apetecer-nos-ia estar noutro lugar, mas vamos por amizade, por consideração, por estima (ou por dever profissional). A Eucaristia é, antes de mais, um convite a que respondemos. É Deus que nos convoca. Convoca-nos através da Igreja, que também somos, mas é um convite. Se temos fé, acolhemos o convite. Se amamos a Deus de todo o coração vamos querer estar onde Ele nos quer, num espaço e num tempo em que nos reunimos como família, como assembleia. Trata-se de responder a um convite, no qual todos contamos, como filhos, como amigos de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/20, n.º 4651, 30 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: Consagração da Ucrânia e da Rússia

No dia 25 de março, Solenidade da Anunciação do Senhor, sexta-feira, o Papa Francisco vai consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Para esta consagração, o Santo Padre pediu que os Bispos do mundo inteiro se unissem a ele. Esta consagração far-se-á durante a Celebração da Penitência, presidida pelo Papa, na Basília de São Pedro, pelas 17h00. Tendo em conta a diferença horário, pelas 16h00, no Santuário de Fátima, o enviado do Papa, cardeal Krajewski, esmoleiro pontifício, conjuntamente com os Bispos portugueses, fará este mesmo ato de entrega e consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.

Na aparição de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração: “Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, registava Irmã Lúcia, falecida em 2005, nas suas “Memórias”.

Os Papas viriam a responder a este pedido. Pio XII, em 31 de outubro de 1942, consagrou o mundo inteiro, e, em 7 de julho de 1952, consagrou os povos da Rússia: “Assim como há alguns anos atrás consagramos o mundo ao Imaculado Coração da Virgem Mãe de Deus, agora, de forma muito especial, consagramos todos os povos da Rússia ao mesmo Imaculado Coração”.

Paulo VI renovou esta consagração, a 21 de novembro de 1964, na presença dos Padres do Concílio Vaticano II.

Por sua vez, o Papa João Paulo II compôs uma oração em forma de “Ato de entrega”, celebrado a 7 de junho de 1981, na Basílica de Santa Maria Maior. A 25 de março de 1984, na Praça São Pedro, em memória do Fiat pronunciado por Maria no momento da Anunciação, em união espiritual com todos os bispos do mundo, previamente “convocados”, João Paulo II confiou todos os povos ao Imaculado Coração de Maria: “E por isso, ó Mãe dos homens e dos povos, Tu que conheces todos os seus sofrimentos e todas as suas esperanças, Tu que sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhe o nosso grito que, movido pelo Espírito Santo, dirigimos diretamente ao teu Coração: abraça com amor de Mãe e Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Te confiamos e consagramos, cheio de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. De modo especial Te confiamos e consagramos aqueles homens e nações que têm necessidade particular desta entrega e consagração”.

No ano de 2000, foi revelada a terceira parte do segredo de Fátima. Tarcísio Bertone, secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, comunicou à Igreja e ao mundo que a Irmã Lúcia, numa carta de 1989, tinha confirmado pessoalmente que este ato de consagração solene e universal correspondia ao que Nossa Senhora queria.

Diante da barbárie que Vladimir Putin impingiu à Ucrânia e ao mundo, o Papa Francisco convoca-nos à oração, por uns e por outros e por todos. Os nossos Bispos sintonizam-se, como expectável, com este desejo e iniciativa: “Por intercessão do Imaculado Coração de Maria, Rainha da Paz, continuemos a rezar pelo povo ucraniano, perseguido na sua terra e disperso pelo mundo, para que o Senhor atenda as nossas preces e os esforços das pessoas de boa vontade, e lhe conceda a paz e o regresso a suas casas”.

D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, sublinha que esta consagração “não é um gesto contra ninguém, os povos são muito mais dos que os seus governantes”. A bênção de Deus não exclui ninguém, Ele faz chover sobre bons e maus. Incluamo-nos, também nós, nesta consagração, para que a nossa vida seja promotora de vida e de paz.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/19, n.º 4650, 23 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: Cristo quer a tua ajuda para amar

Estamos a viver a Semana Nacional Cáritas, que prevê o peditório de rua, as ofertas nas Eucaristias do fim de semana e donativos online. O primeiro compromisso é da oração, pois esta alimenta a nossa vontade, purifica as nossas intenções, converte-nos à humildade, faz-nos irmãos uns dos outros, em Cristo Jesus.

D. José Traquina, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, titula a mensagem para esta semana: Cáritas, o amor que transforma! “Sabemos que só o amor transforma. É Cáritas. Só o amor tem essa força, esse dinamismo que é capaz de transformar o mundo em que vivemos numa terra de paz, num mundo de irmãos”. Na mesma mensagem, a citação de algumas palavras do Papa Francisco, na Fratelli Tutti (n.º 224), dizendo-nos que ser formos amáveis, seremos capazes de «prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença. Este esforço, vivido dia a dia, é capaz de criar aquela convivência sadia que vence as incompreensões e evita os conflitos. O exercício da amabilidade não é um detalhe insignificante nem uma atitude superficial ou burguesa. Dado que pressupõe estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, transforma profundamente o estilo de vida, as relações sociais».

Como título desta reflexão, escolhemos uma canção de Cesáreo Gabaráin, sacerdote espanhol e compositor de músicas para a liturgia. É uma melodia que facilmente fica no ouvido e cujas palavras vale a pena reter. “Cristo quer a tua ajuda para amar… / Não te importes da raça nem da cor da pele; / ama a todos como irmãos e faz o bem! / Ao que sofre e ao triste dá-lhe amor… / Ao humilde e ao pobre dá-lhe amor. / Ao que vive a teu lado dá-lhe amor… / Ao que vem de outra terra dá-lhe amor. / Ao que fala outra língua dá-lhe amor… / Ao que pensa diferente dá-lhe amor. / Ao amigo de sempre dá-lhe amor… / E ao que não te saúda dá-lhe amor”.

Nestes dias que atravessamos, a atualidade destas palavras é por demais evidente. Alguns crentes poderão questionar-se sobre a “utilidade” da fé e da oração. Não há uma resposta fácil à barbárie que acontece na Ucrânia, provocando um rasto de destruição, de mortandade, abrindo velhas feridas, semeando o ódio e o desejo de vingança que sobrevirá nas futuras gerações. A fé é um dom que amadurece com a oração, colocando a confiança na omnipotência e no amor de Deus, mas a que podemos opor a nossa vontade, o nosso poder, o nosso egoísmo. Deus criou-nos livres, confiou-nos o mundo, faz-nos irmãos. A Caim responsabiliza-o pela morte do irmão. Somos responsáveis uns pelos outros. Pertencemo-nos! Sempre que não ajudamos o outro, quando o tratamos como inimigo, quando não lhe prestamos ajuda, estamos a trair a nossa originalidade. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Muitas vezes usámo-l’O para justificar perseguições e morte!

Numa cidade foi bombardeada, durante a segunda guerra mundial, os habitantes descobriram, debaixo dos escombros, a estátua de Jesus Cristo bastante danificada. Repararam-na, menos as mãos, pois os danos eram irreversíveis. Entre eles, duas opções, contratar um escultor para refazer as mãos ou deixá-la sem mãos, ferida, imperfeita, incompleta! Prevaleceu esta opção, a estátua de Cristo permaneceu sem as mãos. Por baixo da imagem colocaram as seguintes palavras: “Vós sois minhas mãos”.

A Capela do Seminário de Lamego tem um crucifixo sem mãos e sem braços. Eu e tu somos os braços de Cristo para abraçar, as mãos para abençoar, para apoiar, para ajudar a levantar; a voz de Cristo para bendizer, para semear palavras de esperança e de paz; somos os pés de Jesus que se colocam a caminho, ao encontro de todos, sobretudo daqueles que continuam na berma, tristes, desalentados, excluídos, sedentos de quem os faça sentir vivos. Cristo precisa de ti para amar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/18, n.º 4649, 16 de março de 2022

Editorial Voz de Lamego: A paz que Eu vos deixo

O Papa Paulo VI convocou o mundo para celebrar o Dia Mundial da Paz: “Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o ‘Dia da Paz’, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro”.

Ao longo do ano, existem dias mundiais, internacionais, dias dedicados a uma causa, para relembrar um acontecimento, para promover um valor, uma atitude, um compromisso. Estas comemorações existem para colmatar um défice, um esquecimento, alguma injustiça ou desigualdade. Mesmo que evoquem um acontecimento, têm o propósito de assinalar uma vitória, uma conquista para a humanidade ou para determinado povo, uma personalidade que marcou a história ou, em sentido contrário, para que não seja esquecido aquele dia, aquele acontecimento, aquela pessoa, para que não se caia no mesmo erro.

O Dia Internacional da Mulher, assinalado a 8 de março, alerta para as muitas desigualdades que ainda existem entre homens e mulheres, no trabalho e na lida doméstica, sendo também uma chamada de atenção para a violência doméstica em que a maioria das vítimas são mulheres. O Dia Mundial da Árvore, a 21 de junho, evidencia o cuidado a ter com o meio ambiente, com o excesso de poluição, com a desflorestação, com os incêndios, mostrando como o descuido da natureza a todos afeta. O Dia Mundial do Pobre, no penúltimo Domingo do Tempo Comum, remete para a opção preferencial dos mais pobres e que a erradicação da pobreza que continua a ser uma miragem, mas também um compromisso urgente, como se viu em tempo de pandemia, como se está a ver em tempo de guerra. São apenas alguns exemplos!

Se não houvesse guerra, não precisaríamos de um Dia Mundial da Paz ou um Dia Mundial da Não Violência, ou da Não discriminação. Mas, infelizmente, continuam a existir diferentes focos de guerra, em Cabo Delgado ou Myanmar, e, agora, entre a Rússia e a Ucrânia. A guerra traz o pior da humanidade, pela matança de pessoas, pelo rasto de tristeza e de luto que deixa, semeando ódios e desejo de vingança nas gerações mais novas, que deveriam estar a cultivar a paz, a fraternidade, uma vida saudável, com esperança no futuro. Por outro lado, os recursos usados por uma guerra serviriam muito para a erradicação da pobreza, mas no caso multiplicam-na exponencialmente.

Paulo VI enumera os muitos perigos que persistem: “da sobrevivência do egoísmo nas relações entre as nações… das violências, a que algumas populações podem ser arrastadas pelo desespero de não verem reconhecido e respeitado o próprio direito à vida e à dignidade humana… do recurso a terríveis armas exterminadoras, de que algumas potências dispõem… de fazer crer que as controvérsias internacionais não podem ser resolvidas pelos meios da razão, isto é, das negociações fundadas no direito, na justiça e na equidade, mas só por meio de forças aterradoras e exterminadoras”.

O compromisso pela paz há de corresponder ao empenho pelo desenvolvimento dos povos, à luta pela igualdade social, pela liberdade e pela justiça. Não basta não haver paz, é urgente que as pessoas, as famílias, os povos vivam em ambiente de segurança e lhes sejam assegurados direitos e garantias fundamentais, habitação, educação, cultura, saúde.

Diz Jesus aos seus discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; Eu não vo-la dou como a dá o mundo» (Jo 14, 27). A paz que nos vem de Jesus alicerça-se, não no egoísmo, mas no amor, não no poder, mas no serviço, não na violência, mas na ternura, não rivalidade, mas na compaixão, não na inveja, mas na partilha, não no ódio, mas na comunhão, não na força, mas na humildade! É este o caminho da verdadeira paz, a que brota do coração.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/17, n.º 4648, 9 de março de 2022