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Posts Tagged ‘Pe. Manuel Gonçalves’

Editorial da Voz de Lamego: A minha alma engrandece o Senhor

– Ainda o apanhamos!

É a esperança de Carlos e de João da Ega quando avistam o “americano”. Apressam o passo – ainda o apanhamos – e, logo depois, lançam-se a correr a ver se ainda o apanham. É o final da emblemática obra d’ Os Maias, de Eça de Queirós. Esta esperança, de apanhar o “elétrico”, é sobretudo analogia em relação à vida. A vida torce-nos, tantas vezes, mas há sempre uma réstia de esperança e enquanto houver essa réstia, esse lampejo de luz, então é possível caminhar, apressar o passo, lutar um pouco mais. Como sói dizer-se, morremos, não quando o coração para e o cérebro se desliga, mas no momento em que perdemos toda a esperança.

A partir de sábado, 30 de maio, as celebrações comunitárias regressam em Portugal continental, ainda dentro do mês dedicado especialmente a Nossa Senhora, Mãe da Eucaristia, Mãe de Jesus. Com cuidados, com medos, precauções e afastamentos, mas, para muitos portugueses, é um momento de júbilo, tempo de recuperar parte da alegria, momentos que cadenciavam a vida. Por estes dias, tenho encontrado algumas pessoas que me vão dizendo isso mesmo: faz-nos falta a Missa, era um momento de sairmos de casa, de nos encontrarmos, de rezarmos em conjunto, o tempo até custa mais a passar, não sei o que parece…

Regressamos na Solenidade do Pentecostes, aniversário da Igreja, pois é a partir de então que os Apóstolos, destemidamente, anunciam o Evangelho e começam a cumprir o mandato de Cristo: ir e ensinar, batizar e fazer discípulos de todas as nações.

Maria é a Mãe da primeira Igreja que é Jesus. No Pentecostes surge a Igreja, mas sempre enxertada em Jesus, pois é o Seu Corpo, agora constituída de vários membros. Maria, como Mãe de Jesus, a primeira Igreja, é Mãe da Igreja que incorporam todos os discípulos do Seu filho Jesus. No início deste caminho está o seu “sim”: faça-se em mim segundo a Tua Palavra.

No alto da cruz, o próprio Jesus no-la dá por Mãe: eis aí o teu filho, eis aí a tua mãe. E como discípulos prediletos trazemos Maria para nossa casa, para a nossa vida ou, como se depreende, se ela não habita connosco é porque não somos filhos diletos do Deus altíssimo, irmãos de Jesus.

Se ela habita connosco, como com os primeiros, na comunidade primitiva, então teremos de verificar se a nossa vida e a nossa missão estão conformidade com a vida e a missão de Maria, para que ela se sinta realmente em casa.

Na Visitação, Maria ensina-nos a colocar a misericórdia de Deus ao centro. “A minha alma engrandece (glorifica) o Senhor”. Esta é a humildade de quem se deixa preencher pelo Espírito Santo e transparece a grandeza de Deus, o Seu poder e o Seu amor. Nas Bodas de Canaã, novamente a opção de Maria: “fazei o que Ele vos disser”. Maria vive descentrada de si, é a Igreja em saída, que não se vangloria por ser a Mãe, mas se regozija por ser discípula, por ser a serva do Senhor. Pergunte-se às mães de que forma são “servas” dos seus filhos! São-no por amor e opção, por vocação e missão. Por amor, somente por amor. Maria assume-se, também em relação a nós, como Mãe e como serva, intercedendo por nós: eles não têm vinho. Nossa Senhora da Alegria, rogai por nós.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/26, n.º 4561, 26 de maio de 2020

Editorial Voz de Lamego: Totus tuus – Todo teu, Maria

Karol Wojtyła nasceu a 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polónia. Em 1942, entrou no seminário clandestino de Cracóvia e a 1 de novembro de 1946 foi ordenado sacerdote. A 4 de julho de 1958, Pio XII nomeou-o bispo auxiliar de Cracóvia. Como lema episcopal escolheu a expressão mariana “Totus tuus” de são Luís Maria Grignion de Montfort.

Tornou-se arcebispo de Cracóvia a 13 de janeiro de 1964 e a 26 de junho de 1967 foi criado cardeal por Paulo VI. Na tarde de 16 de outubro de 1978, depois de oito escrutínios, foi eleito Papa. Foi Papa quase 27 anos. Faleceu a 2 de abril de 2005. Bento XVI, o seu Sucessor, proclamou-o beato a 1 de maio de 2011, e Francisco canonizou-o a 27 de abril de 2014.

Os Papas mostram uma grande carinho e proximidade a Nossa Senhora. Talvez seja também por isso que o Espírito Santo inspira os Cardeais para a eleição de cada Papa. João Paulo II colocou no lema episcopal e papal esse amor à Virgem Maria. “Totus tuus”, todo teu, Maria. A expressão deve-se São Luís Maria Grignion de Montfort: “Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt” (Eu sou todo teu, e tudo o que é meu te pertence). No brasão de João Paulo II, destaca-se a Cruz (de Cristo) e o M (de Maria).

A mão materna de Maria desvia a bala que se destinava a matar o Papa, a 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro. A partir de então a devoção a Nossa Senhora acentua-se numa ligação estreita às aparições de Fátima. João Paulo II pede para que lhe façam chegar a terceira parte do segredo de Fátima.

“…Um Bispo vestido de Branco ‘tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre’… subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontravam pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas” (posto por escrito, em Tuy, a 3.1.1944, pela Irmã Lúcia. Colocamos o texto em português atual).

Em 7 de junho de 1981, João Paulo II faz a consagração da Igreja e do mundo ao Imaculado Coração de Maria, pedido de Nossa Senhora aos Pastorinhos, em 13 de maio de 1917. Renovará a consagração em 25 de março de 1984.

O bispo vestido de branco, o Santo Padre, que é morto, pode referir-se especificamente a João Paulo II. Na interpretação do segredo de Fátima, sublinha o então Cardeal Ratzinger: “Na Via Sacra deste século [séc. 20], tem um papel especial a figura do Papa. Na árdua subida da montanha, podemos sem dúvida ver figurados conjuntamente diversos Papas, começando em Pio X até ao Papa atual [João Paulo II], que partilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram por avançar, no meio deles, pelo caminho que leva à cruz”. E como não lembrar o Papa Francisco, vacilante, a subir a Praça de São Pedro, no passado dia 27 de março? Todo teu, ó Maria. Saibamos, como ela, também hoje, confiar: faça-se a Tua vontade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/25, n.º 4560, 19 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Bendito é o fruto do teu ventre, Jesus

“A fragilidade humaniza a vida”, tematiza a vivência de mais uma Semana da Vida, proposta pela Igreja que caminha em Portugal, num contexto sui generis, de grande preocupação em defender, proteger e cuidar da vida, bem acentuada pela pandemia do novo coronavírus. Quem diria que aqueles que há poucos dias estavam apressados a legislar sobre direitos à morte estejam hoje a suspender direitos e liberdades a quem possa colocar em causa a saúde e a vida dos outros!

Para o cristão – seja onde for, na família, no desperto, na cultura, na política – é sempre oportuno a defesa e a promoção da vida, desde a sua conceção até à morte natural, não desistindo de encontrar respostas, ajudas, de comunicar esperança, de ser um apoio, privilegiando afetos e proximidade, aliviando a dor, procurando um sentido, mesmo que provisório, para continuar a viver bem. A morte boa não é uma opção de quem ama a vida, a opção é uma vida boa. Sem ser um valor absoluto, a vida é o primeiro dos direitos, é um valor fundante das liberdades, dos direitos e as garantias. Mais fácil é desistir. Cristão é confiar em Deus, entregar a Deus o esforço e a dedicação, e com Deus aliviar a carga que possa pesar sobre os demais.

A vida nem sempre é fácil. E há momentos em que as trevas são mais densas, como no tempo que atravessamos, mas nem por isso as pessoas ponderam desistir e, quando isso acontece nos outros, reclamam por vigilância, cuidado, respeito, responsabilidade pelos mais velhos, pelos que estão na linha da frente, na saúde, na alimentação, na manutenção da ordem, nas farmácias… respeito pelas normas! A liberdade, seja a 25 de abril ou a 25 de novembro, seja a 1 de maio ou a 10 de junho, não vai avante sem a discussão da responsabilidade e do compromisso de cuidarmos uns dos outros, mesmo que tentemos e consigamos arranjar exceções para nós!

Dentro da Semana da Vida, nos dias 12 e 13 de maio, haverá uma multidão de fiéis com os olhos colocados no Santuário de Fátima, que encherá de oração, de bênção e das intenções dos devotos, mas cuja presença física de milhares de pessoas, em nome da saúde de todos, no respeito pelas normas sanitárias e pelos avisos reiterados ao distanciamento social, contará com um número muito reduzido de pessoas, os celebrantes, funcionários do Santuário, os que ajudam na celebração e na transmissão da mesma para o mundo inteiro. A fé exige o serviço à vida, o cuidado pelos outros.

A vida nova que se gera em Isabel e que germina em Maria está envolvida no mistério de Deus. Isabel já tinha vivido tempo demais na desolação da infertilidade, mas Deus surpreende-a. Maria não sonhava com o que estava para vir, a alegria e o sofrimento atroz que a aguardariam, e Deus surpreende-a com um sonho, um projeto de vida que a envolve com a humanidade inteira.

Maria é a Senhora da esperança e da alegria, com ela Deus faz com que a humanidade seja enxertada no Seu sonho de amor e de paz, de bênção e de comunhão.

«Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre» (Lc 2, 42). Esta é a maior esperança e o fundamento de toda a alegria: Deus connosco. E luz para caminharmos neste tempo.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/24, n.º 4559, 12 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Por Maria a Jesus

Esta expressão – Per Mariam ad Iesum – sublinha como Maria nos aproxima de Jesus e nos conduz a Ele. Neste mês que lhe é particularmente dedicado, quase iniciando com o Dia das Mães, no primeiro Domingo de maio, Maria surge como Mãe que intercede por nós, nos impele para Jesus, nos comunica, através dos silêncios e das palavras, da presença e dos gestos, o Evangelho da ternura.

Numa família, a mãe tem essa missão especial de humanizar a casa e a família, de aproximar entre si os pais e os filhos e os irmãos. A maternidade, creio que é verificável em quase todas, predispõe as mulheres para uma atenção alargada aos outros, humanizando os relacionamentos. Uma vez mãe (é-o também em relação a outros filhos e na sintonia com outras mães), tem o olhar mais aguçado para as necessidades e a injustiças e uma prontidão maior para “reclamar” por justiça e verdade. Há nas mães uma capacidade imensa de reparar nos pormenores, observar tudo o que as rodeia, de forma peculiar as pessoas. Se de uma mulher se pode dizer isso, muito mais de uma mãe, pois aprendeu (desde sempre) a estar atenta aos filhos para ver por onde andam, para onde vão, que obstáculos têm por perto e se alguém é ameaça para eles ou, simplesmente, lançarem um olhar fulminante se alguém não os trata com delicadeza que merecem.

Temos muito a aprender com as mães, temos muito a aprender com Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.

Não são muitos os textos do Novo Testamento que nos falam diretamente de Nossa Senhora, mas é possível sentirmo-nos próximos em cada instante em que nos é permitido vê-la e ouvi-la.

Logo na Anunciação podemos aprender algumas coisas com Nossa Senhora para melhorarmos, amadurecermos e, eventualmente corrigirmos a nossa direção como cristãos, priorizando com o que nos pode levar a encontrar Deus e, partindo da Sua graça, preenchermos a nossa vida de docilidade. Para escutar e perceber a voz do Anjo, Maria terá de ser alguém que faz silêncio. Não é, por certo, uma barata-tonta (os mais sensíveis desculpem-se a expressão), mas alguém capaz de se recolher, de rezar, de deixar que Deus fale nela e na sua vida. É uma mulher de oração e de coração. Alguém que escuta. Temos uma boca e dois ouvidos, para ouvirmos mais e falarmos menos. Quem muito fala até pode acertar muito, mas é possível, como sói dizer-se, que acerte pouco. Quem escuta, com o coração, torna-se sábio, não se precipita, não tem tendência para fazer juízos de valor precipitados, mas age pacientemente para que o trigo e o joio se revelem a seu tempo. Maria é uma pessoa inteligente: escuta, pondera, espera e coloca os dons que Deus lhe dá a funcionar. Não paralisa, decide, acolhe, aceita a vontade de Deus: faça-se em mim segundo a Tua palavra.

Ainda na Anunciação, podemos descortinar a docilidade, a pobreza, a pureza de Maria: Ave, cheia de Graça, o Senhor está contigo… Isto vale também para nós, na medida em que nos esvaziamos de nós, dos nossos egoísmos e demónios, e nos deixamos preencher pelo Espírito de Deus. Mais tarde Jesus há de dizer-nos: minha Mãe, minhas irmãs e meus irmãos são aqueles que escutam e fazem a vontade de Meu Pai que está nos Céus.

Pe. Manuel Gonçalves,

in Voz de Lamego, ano 90/23, n.º 4558, 5 de maio de 2020

Editorial da Voz de Lamego: lado a lado… na indiferença

Há mais vida além da pandemia do covid-19! Não há de ser o novo coronavírus a acabar com a humanidade; o que, em definitivo, acabará connosco será a indiferença, o egoísmo, a sobranceria, que se materializa na inveja, no desejo imoderado da posse, nos tiques ditatoriais de quem se sente e se situa acima dos demais!

Nada será como antes! Estamos todos de acordo. Mas será que os tempos que se avizinham serão melhores? As pessoas, finalmente, concluirão que estão no mesmo barco e que precisam e dependem umas das outras?

Têm surgido interpelações, iniciativas, reflexões, apelos à generosidade solidária e, antecipando o futuro, apontando prioridades, caminhos, possibilidades e urgências. Há, em alguns, um otimismo louvável, expresso e vivido como estímulo, como desejo, um caminho a seguir, como provocação para que os tempos de esforço, de sacrifício, de confinamento social, de tantos gestos de abnegação, na procura de soluções, na ajuda aos mais vulneráveis, na luta para confinar o vírus e proteger a vida das pessoas, cuidando para que ninguém seja esquecido, para que ninguém fique para trás, que se preste ajuda a quem precisa, presencial ou digitalmente, não sejam apenas um momento, mas como postura permanente na pós-pandemia.

Tantos são aqueles e aquelas que verdadeiramente deram e estão a dar a vida para salvar, para curar, para sarar os outros. Tantos, em tantas áreas, que não se furtam aos maiores esforços. Além dos que estão na linha da frente, na saúde, na segurança e na ordem, na alimentação, muitos outros estão disponíveis para ajudar, indo, ou, a partir de casa, aderindo a campanhas e iniciativas e deixam palavras de ânimo de incentivo, em diretos, diálogos e conversas, em concertos musicais, em declamação de poemas, em momentos de oração. E se o pão é necessário para sobreviver, a palavra e o ânimo serão fundamentais para viver. Pois só procuraremos o pão e o partilharemos se a nossa vida fizer sentido, se houver esperança, se soubermos que não estamos sós.

Como cristãos, cabe-nos, como antes, também agora, também depois, em todo o tempo, fazermos o melhor, o que está ao nosso alcance, mesmo que seja ficar em casa…

Nada será como dantes! Positiva e negativamente. Cada tempo é único. Há propósitos curiosos, parece que tudo vai ser diferente, e será, inevitavelmente, diferente, pois os tempos não se repetem! Um tempo novo, teremos que olhar mais para os outros, para as suas necessidades e sofrimentos, temos de fazer melhor, ser mais solidários, pensarmos nos mais frágeis, nos mais desfavorecidos… Mas quando passar a tormenta… há quem se tenha “habituado” ao bem e haverá quem volte ao que era antes.

Decisões tomadas em momentos críticos, dramáticos, sobre pressão, são decisões voláteis, que terminarão como começaram, com a mesma rapidez. Claro que nem tudo é branco ou preto, mas as opções fundamentais nascem da “conversão”, que as circunstâncias atuais podem facilitar, brotam de convicções, não se baseiam na pressão momentânea, mas na vontade firme de seguir um caminho, uma direção, contando com as circunstâncias de cada tempo. Em todo o caso, como se diz das grandes “concentrações de fé”, para alguns, podem haver o clique que faltava… afinal, já numa perspetiva mais religiosa, o Espírito de Deus sopra onde quer… 

Como cristãos, cabe-nos, como antes, também agora, também depois, em todo o tempo, fazermos o melhor, o que está ao nosso alcance, mesmo que seja ficar em casa… haverá tempo para seguir o desafio do Papa e nos levantarmos do sofá!

Pe. Manuel Gonçalves,

in Voz de Lamego, ano 90/22, n.º 4557, 28 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Cruzámo-nos a subir e a descer

As pessoas que encontro ao subir serão as mesmas que encontrarei ao descer. É uma expressão luminosa do Papa Francisco sobre os valores que aprendeu em casa com os pais: a humildade, respeito pelos outros, bondade para com todos.

Quando foi eleito Bispo, e depois Cardeal, procurou manter a mesma proximidade com todos, misturando-se entre o povo que lhe foi sendo confiado e, na grande metrópole de Buenos Aires, tratou de ter o cheiro das ovelhas, expressão que usa frequentemente. Proximidade com os sacerdotes e proximidade com os fiéis leigos. Na residência episcopal, recebia pessoalmente as visitas e oferecia-lhes um chá, bolos e, se necessário, cozinhava para “os convidados”. Ainda hoje, quando recebe alguém na Casa de Santa Marta faz do mesmo modo. Curioso quando, pela primeira vez, o vimos, como Papa a subir as escadas do avião, com a sua mala na mão, ou outros gestos similares, como ir pagar a conta do hotel onde esteve hospedado durante o conclave ou telefonar, sem intermediários, para várias pessoas.

A imagem é muito sugestiva. Imaginamos a vida como uma escada. Vamos subindo degraus. Passamos por algumas pessoas, enquanto estamos a subir, outras ficam para trás ou estão a descer. Mas haverá um momento em que nós estamos a descer, na mó debaixo, e vemos as mesmas pessoas, a subir. É uma imagem pragmática. Se hoje estamos bem, devemos lembrar-nos dos que estão mal ou menos bem, pois um dia podemos nós estar mal e eles bem e como gostaríamos que nos tratassem, quando estamos a descer ou estamos em baixo, assim os tratemos quando estamos nós em cima e eles em baixo. De algum modo corresponde à regra de outro: o que queres que te façam a ti, fá-lo tu aos outros. Como não lembrar a parábola de Jesus sobre o pobre Lázaro e o rico avarento. A vida eterna inicia-se no tempo presente, o que fizermos agora tem repercussão amanhã.

Se antes isto era verdade, agora faz ainda mais sentido. Estamos todos no mesmo barco, com um sublinhado importante, há alguns que continuem a ter mais ferramentas e melhores condições socioeconómicas para viver este tempo de “paragem” e os tempos que lhe seguirão. Os mais vulneráveis, em todas as situações, são os primeiros a sucumbir e sofrer a fustigação da tempestade. Porém, como temos visto, há momentos que não adianta ter uma fortuna, pois o vírus e a morte chegam de mansinho sem olharem para a marca de roupa ou do carro estacionado na garagem.

Por outro lado, havia muitas pessoas que estavam bem na vida, a viver sem grandes sobressaltos, mas esta pandemia revirou as suas vidas, sem contar o que estará para vir. A propalada expressão “vai ficar tudo bem” tem muito que se lhe diga. Tem o mérito de invocar a esperança, mas não mais do que isso, pois para alguns estão aí dias de grande caristia, de maior sofrimento e de incerteza. Pensemos, como se viu na crise económica, num casal com dois ou três filhos, com a casa para pagar e a universidade, com dois ordenados acima da média, de repente um deles ou os dois ficam desempregados!

Não deixemos ninguém para trás. Façamos o que está ao nosso alcance. Somos responsáveis uns pelos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/21, n.º 4556, 21 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Descobrir e viver a Páscoa

A vida não se repete. Nem os acontecimentos. Nem as celebrações. Não há duas pessoas iguais. Não há dois momentos iguais. Por vezes ouvimos dizer: “bom, isto já aconteceu, não é nada que já não tivéssemos visto”, numa espécie de eterno retorno, como se situações do passado se pudessem voltar a repetir, quase milagrosamente. Em relação a esta pandemia, vamos ouvindo que não é novidade, já houve outras e até mais perigosas. É preciso ler a história e procurar compreender e relativizar as adversidades e tempestades do tempo atual! Sim, mas essa é apenas uma visão parcelar, que, obviamente, nos deve levar a retirar ensinamentos, a relativizar, ou a não absolutizar, a não dramatizar a situação atual como se fosse algo nunca visto que nos faça vislumbrar o fim do mundo. Em todo o caso, é uma situação nova, concreta, pela rapidez do contágio, e pelo facto de ter surpreendido as autoridades e as populações, quase como um tsunami ou um terramoto, além de todas as consequências que está a provocar na vida social, familiar, económica e eclesial.

Também não há duas Páscoas iguais e a deste ano é, seria, inevitavelmente diferente por todo o contexto que nos envolve e nos vai mantendo mais ou menos afastados com sucessivos apelos aos outros para que fiquem em casa, mesmo que, da nossa parte, arranjemos algumas formas de arejar, mais não seja em passeios, caminhadas ou corridas ditas higiénicas.

Páscoa, na verdade, há só uma, a morte e a ressurreição de Jesus, acontecida há dois mil anos, em Jerusalém. No decorrer da Última Ceia, Jesus antecipa e explica o mistério pascal e, preparando o futuro, faz-nos saber que oferece a vida por todos, o Seu corpo e o Seu sangue, para nos remir e reunir, para nos salvar e congregar, como família, na certeza de que sempre  que em Sua memória nos reunirmos e dissermos/fizermos o que Ele fez, nos tornaremos verdadeiramente participantes da Sua morte, oferenda por nós ao Pai, e da Sua ressurreição, certeza de que a Sua vida não foi em vão e não culminou no vazio!

Não repetimos a Páscoa de Jesus, mas tornámo-la atual, presente. Cristo, na Eucaristia, e demais sacramentos, torna-Se nosso contemporâneo. Ele deu-nos o Espírito Santo, agora o Espírito Santo dá-nos Jesus, torna-O presente, não como uma recordação histórica, longínqua, mas com uma Presença atual, com o mesmo mandato de então: Fazei isto em memória de Mim… como Eu fiz, fazei-o uns aos outros. A Missa leva-nos à missão. A oração conduz-nos ao serviço. O louvor a Deus agrafa-nos no cuidado aos irmãos. Celebrar Páscoa, hoje, é deixar-nos envolver pelo mistério de Deus, pela ação do Espírito Santo na Igreja e no mundo, cooperando para que Cristo que vive em nós viva nos outros também.

Os sinais da Páscoa podem ser ténues, mas estão aí, em cada um que faz o bem, que cumpre a missão de animar, transmitir confiança, ajudar os mais vulneráveis.

Não deixemos também nós, eu e tu, de mostrar os sinais e transparecer a certeza de que Cristo vive, em mim e em ti, no que dizemos e no que fazemos, sejamos portadores da alegria e da esperança, da fé e da caridade, do serviço e da bondade. Se mais não pudermos fazer, um sorriso, uma palavra de ânimo, um telefonema, uma mensagem enviada, a partilha do que os outros fazem de bem.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/20, n.º 4555, 14 de abril de 2020