Arquivo

Posts Tagged ‘Pe. Manuel Gonçalves’

Editorial da Voz de Lamego: Razões da nossa esperança

Vivemos em democracia. Somos, aparentemente, comandados pela maioria. Muitas vezes por uma maioria silenciosa, indiferente, ao jeito de Pilatos, demitida ou desiludida. Em cada eleição, a abstenção ganha terreno. Os deputados da Assembleia da República são eleitos por metade do país, a outra metade não quer saber, ou não acredita, ou sente-se defraudado, ou não entrevê que quem venha possa fazer melhor a favor dos mais desprotegidos. Claro que os eleitos têm a legitimidade para legislar, mas com o avançar do tempo vamos verificando que os programas de governo que são propostos não são exatamente os que são cumpridos. Nas eleições seguintes, aumenta a abstenção ou aumenta da representatividade dos partidos extremistas.

Somos responsáveis uns pelos outros. Em nome da liberdade e da autonomia, abdicamos da responsabilidade que nos une, nos irmana, nos familiariza. No Principezinho faz-se essa acentuação: somos responsáveis por aqueles que cativamos! Talvez tenhamos necessidade e urgência de cativar, de criar laços, de nos tornarmos mais dependentes uns dos outros, reconhecendo a nossa indigência e a verdade que nos humaniza. Quando desistimos dos outros, por mais trabalho que nos possam dar, e todos os relacionamentos exigem persistência, cuidado, atenção, dedicação, perdemos um pouco de nós. Pertencemo-nos uns aos outros. Quando uma relação falha, quando alguém parte porque não lhe demos o tempo que precisava e merecia, quando desistimos por cansaço, por indiferença ou por medo (medo de sofrermos ou de vermos sofrer), ficamos mais pobres e menos humanos.

A Assembleia da República, em nome do Estado, vai optar por dar “mais liberdade” para desistir, para matar dentro da legalidade. A Eutanásia, dizem-nos, é uma opção pessoal, isto é, individual, em que cada um pode abdicar de viver. Se é uma questão pessoal, da liberdade de cada um, então porque há de o Estado legislar e intrometer-se nesse desejo e/ou decisão e, com isso, “obrigue” outros a serem carrascos. Por outro lado, é inequívoco que esta lei será aprovada sub-repticiamente. À direita ou à esquerda, não ouvimos qualquer referência à eutanásia na última campanha eleitoral. O assunto tinha sido discutido na Assembleia da República, em 2018, mas, não tendo sido aprovada a despenalização/liberalização/obrigação da eutanásia – morte ativamente provocada no paciente, a pedido do próprio, pelos familiares ou por decisão de um médico – caberia ser amplamente discutida e claramente proposta na campanha eleitoral que antecedeu a composição do atual parlamento. Alguns contratos têm letras miudinhas e isso é feito propositadamente para aproveitar a distração! E todos nós já fomos enganados em situações similares (venderam-nos banha de cobra). Engraçado! Há disponibilidade de meios e de médicos para a morte assistida e faltam tantos meios e tantos médicos para atenderem os doentes. Ainda há dias na Urgência de Lamego faleceu um paciente por falta de médicos para fazerem face a tantos pedidos!

Um bloco que quer acabar com o privado, na Educação e na Saúde, e obrigar, agora, os privados a praticarem a eutanásia… em nome da liberdade!

Com a aprovação da eutanásia, do suicídio com ajuda de médicos, a nossa responsabilidade, como cidadãos, como crentes e/ou cristãos é continuar a cuidar, sem desistir nunca, dando razões da nossa fé e da nossa esperança, apostando na companhia, na proximidade, pedindo a Deus o discernimento para sermos melhores cuidadores e a força para lidarmos com o nosso sofrimento e com o sofrimento daqueles que Deus coloca à nossa beira e por quem somos responsáveis.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/12, n.º 4547, 18 de fevereiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Eutanásia, suicídio ou homicídio?

A 20 de fevereiro celebra-se a memória litúrgica de duas crianças que fazem parte do imaginário, da vida, da história e da identidade do país, Jacinta e Francisco. No mesmo dia, os nossos representantes eleitos vão pronunciar-se contra um dos valores da sociedade, da civilização e dos direitos humanos fundamentais: em que condições se pode facilitar a morte?

Sem vida não há direitos, não há civilização, não haverá sociedade.

Deixaremos de poder confiar nos profissionais de saúde, pois podem decidir matar-nos quando acharem que já não temos autonomia suficiente ou se o prejuízo para as finanças públicas estiver a ultrapassar as expectativas. Talvez também não possamos confiar nos nossos familiares que, por cansaço ou para receberem alguns proventos mais cedo, podem decidir que a nossa vida já não tem valor. Num momento podemos ser nós a pedir que nos matem, e a seguir podem matar-nos sem nos pedir a opinião, como vai sendo na Bélgica e na Holanda.

A questão do aborto permite que os pais (e a sociedade) relativizem o direito à vida. A criança será um estorvo, as condições socioeconómicas são desfavoráveis, não é o momento certo ou porque pode colocar em causa a progressão na carreira! Já há defensores do infanticídio: a criança quando nasce tem a mesma consciência do que o feto, logo se não agradar aos pais, estes podem decidir matá-la, e tudo dentro da lei.

Não se combatem as condições socioeconómicas, combate-se a vida. Sem menosprezar situações de aflição, de desespero e dúvida, de sofrimento… teremos que apostar mais na prevenção, na educação, na proteção e ajuda às pessoas e às famílias. Numa sociedade que definha e envelhece, as políticas de natalidade talvez mereçam muito mais que reflexão… A acérrima defesa dos animais contrasta, muito, com a defesa e promoção da vida humana.

O Papa Francisco tem reiteradamente falado numa cultura de descarte. Dispensamos todos os que nos incomodam, afastamo-los da nossa vista, os pobres, os doentes, os idosos, as pessoas portadoras de deficiência; passeamos os cães, mas não temos tempo para os pais ou para os filhos. A democracia dá lugar à egolatria. Todos somos livres e iguais… desde que os meus interesses sejam caucionados. Veja-se a liberdade de expressão nos livres! À primeira dificuldade, não fazemos caminho, desistimos das pessoas e descartámo-las.

Eu decido! Eu mando! Conta o que me beneficiar! Mais liberdade, mais autonomia! Independência total face aos outros e ao mundo. No dizer de D. António Couto, um “eu” sem pai nem mãe, sem irmãos e sem filhos, sem Deus, sem raízes e sem chão, sem céu nem Providência, sem vínculos nem pertenças. Vazio total. O Iluminismo, em nome da razão, dispensou tudo o que poderia ser limitação à minha liberdade, ao meu pensamento, à minha ação. Eu sou a medida de todas as coisas!

Os pobres serão os primeiros a ser legalmente eutanasiados. Em Auschwitz foram os judeus, os velhos, os aleijados, os que não podiam trabalhar… agora serão novamente os “velhos”, os aleijados e os que não têm acesso (tão fácil) aos cuidados de saúde, e que não podem escolher os médicos ou as instituições de saúde que desejam. Na Holanda daqui a nada estarão disponíveis comprimidos para morrer para as pessoas a partir dos 70 anos, basta que estejam cansados de viver! Nem precisam de “responder”, de refletir, de solicitar alguma opinião.

“A pessoa tem o direito de acabar com a sua vida, chama-se suicídio, não tem o direito de me convocar para esse suicídio, porque aí passa a ser homicídio” (Henrique Raposo, RR).

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/11, n.º 4546, 11 de fevereiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Inúteis servos, fizemos o que devíamos

Na apresentação do seu novo livro, o nosso Bispo, D. António Couto, expôs um contraponto do “outro” que sou interpelado a acolher, a reconhecer, a servir, pois no rosto do outro irrompe o Outro. Alguém com uma arma que suscita medo e me obriga a servi-lo não é um senhor, um “outro”, é um tirano. Um pobre que me estende a mão, obriga-me a debruçar-me sobre ele, mas esse é o verdadeiro “senhor” a quem sirvo, de quem sinto compaixão, que irrompe na minha vida e suscita o meu olhar e me liberta do meu egoísmo.

A postura de Jesus encaminha-nos para o pobre. Jesus faz-Se caminho para nós e nesse caminho aponta as prioridades e as opções. Há oito dias, víamos, seguindo as reflexões do Pe. Luigi Epicoco, que Deus pede-nos que ocupemos o último lugar porque somos filhos, não se pediria isso a um hóspede. Tratamos o hóspede o melhor possível, como filhos do dono da casa, como donos na casa, podemos abdicar do que nos pertence precisamente porque podemos e queremos fazê-lo.

Voltamos a inspirar-nos no texto de Epicoco que nos desafia a descentrar-nos de nós, para cuidarmos, para amarmos e servirmos o outro. Quem está demasiado preocupado consigo não tem tempo, nem disposição, nem disponibilidade para o outro. “Quem é inseguro (em sentido patológico) não se entrega, porque está demasiado ocupado a tratar de si próprio, a tratar de sobreviver a todo o custo. Este não é o cuidado de quem ama, são os cuidados de quem, apenas, sobrevive, de quem não consegue viver as relações com os outros senão na medida em que lhe interessam”.

Uma das figuras que melhor exemplifica este descentramento é São José. Vale a pena deixar-nos guiar pelas palavras de Epicoco: “Hoje em dia faltam pessoas que saibam viver como São José, pessoas capazes de cuidar do mundo, de o guardar e de o amar, como um pai ama o filho, tornando-o livre e não dependente. Se tivéssemos de arranjar uma referência sã para sermos cristãos, ela seria José de Nazaré, um homem silencioso e criativo. É um homem concreto que encontra soluções… e depois afastou-se, após cumprir o seu dever… agir e desaparecer. Não o desaparecer de quem, depois, se entristece por ninguém ter reconhecido o seu trabalho, mas de quem não precisa de nada e, por isso, se vê como inútil, isto é, não precisa de lucro, não procura o lucro. Não deveríamos procurar a gratidão dos outros, deveríamos experimentar uma profunda alegria em nos afastarmos, em nos sentirmos verdadeiramente inúteis. «Inúteis», no Evangelho, significa sentirmo-nos tão amados e valiosos ao ponto de não termos de procurar outro ganho. Neste sentido, dizemos «inútil»: não no sentido de não valermos nada, mas que valemos tanto e nos sentimos tão cheios deste valor que não precisamos de procurar mais nada para nos satisfazer ou que nos digam que temos valor. Este motivo pelo qual nos podemos permitir ser inúteis”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Só os filhos têm direito ao último lugar

Precisamos de nos descentrar de nós e, como cristãos, colocar Cristo ao centro. É a divisa do Papa Bento XVI. Uma Igreja autorreferencial não cumpre a sua missão, terá de ser uma Igreja lunar e, como a Lua reflete a luz do Sol, refletir Jesus Cristo, saindo para as periferias. É a divisa do Papa Francisco.

Seguir Jesus Cristo implica que O imitemos e como Ele nos gastemos pelos outros. Amar a Deus faz-nos irmãos. A vida eterna não se inicia quando morrermos, mas agora. Diz-nos o Pe. Luigi Epicoco (ver a sugestão de leitura desta semana): “Esquecemos que Jesus, que é Filho de Deus, veio a este mundo, fez-Se carne, encheu-o com a Sua presença, santificou, transformou em possibilidade cada fragmento desta nossa vida”.

Se Jesus Cristo encarnou, também nós temos de encarnar. “O irmão, o seu rosto, o seu corpo, a sua história, história de homem, história imperfeita, história de luz e trevas, é rosto, corpo e história para os quais as nossas mãos se estendem, mãos estendidas para o próprio Cristo”.

Uma das doenças do nosso tempo é o egocentrismo. Tornamo-nos o centro de tudo. Fazemos de nós próprios um absoluto. “Neste egocentrismo tudo é insatisfação… é um vazio que nunca se consegue preencher, é o vazio de quem se concentra em si próprio, de quem se tomou por absoluto”.

Existe também o risco de um descentramento negativo: “anular-se de tal maneira que deixa de ter um personalidade… começamos a pensar que não merecemos nada, que nada nos é lícito, que não temos o direito a sermos felizes, que só erramos, que nunca encontraremos o amor, que, por mais que desejemos a felicidade, não é para nós… Essas pessoas confundem a religião com frustração, a humildade com o humilhar-se. Escolher o último lugar não é sentir-se em último lugar. Significa reconhecermo-nos como filhos, ao ponto de nos podermos sentar em último lugar sem nos sentirmos diminuídos na nossa dignidade de filhos. Somos tão donos da casa que nos podemos sentar no último lugar porque, habitualmente, o dono trata sempre melhor o hóspede e escolhe para si o que resta. Fá-lo não por servilismo, mas porque esse é o estilo do dono da casa.

A humildade que nos ensina o Evangelho não é a humildade de quem tem uma baixa autoestima, mas de quem pensa de tal modo bem de si próprio que se reconhece filho do dono e, por isso mesmo, se pode levantar do primeiro lugar e sentar-se no último sem se sentir menos amado, mas antes profundamente amado. É porque tem intimidade connosco que Se permite mandar-nos levantar e sentarmo-nos no último lugar: não o faria com um hóspede ou com um estranho, para não o humilhar, com um filho sim. A nós, filhos, o Senhor solicita muitas coisas que aos olhos do mundo podem parecer sacrifícios, mas, na realidade, são apenas sinais da familiaridade profunda com que Deus nos ama e trata. É porque somos filhos que nos pede isto, pede-nos mais”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/09, n.º 4544, 28 de janeiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: À procura da unidade plural

Todos os anos, entre o dia 18 e 25 de janeiro, se celebra o Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, concluindo-se com a festa da conversão de São Paulo, apóstolo que zelou pela unidade da Igreja, pela unidade dentro das comunidades, procurando também a sintonia com os Doze (apóstolos).

Jesus, na oração sacerdotal, verdadeiro testamento espiritual, deixa claro a razão da encarnação e da entrega que se aproxima: “…para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti… Eu dei-lhes a glória que Tu me deste, de modo que sejam um, como Nós somos Um. Eu neles e Tu em mim, para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim” (Jo 17, 21-23).

A Igreja é santa, porque o Seu fundador é santo, mas simultaneamente pecadora, porque é constituída por homens. As divisões fizeram-se sentir ainda em vida de Jesus, quando alguns discípulos seguiram outro caminho ou quando Judas abandonou o barco. Com a evangelização, procuram-se pontos de contacto mas surgem também ruturas, discussões e de divisões. Paulo recorda-nos que todos de Cristo, fomos batizados no mesmo Espírito, professamos a mesma fé, recebemos, vivemos e anunciamos o mesmo Evangelho. Não existem cristãos de Paulo, de Apolo ou de Pedro, os cristãos são de Cristo, ponto de convergência! O caminho terá de ser, sempre, de fidelidade a Jesus.

Os cristãos passaram séculos a dividir-se até perceberem a traição ao mandato de Cristo. A transformação do mundo começa por cada um de nós, em nossa casa, na nossa família, na nossa comunidade, na Igreja. Os despiques e a fragmentação de grupos e de igrejas em nada contribuíram para a paz e para uma sociedade mais fraterna.

Seguindo Jesus, teremos de agir como Ele, procurando o que nos irmana, reconhecendo que somos todos filhos de Deus. Um dos pontos de contacto e de sintonia é a oração. Rezamos ao mesmo Deus, que é Pai e Filho e Espírito Santo. Por sua vez, a oração leva-nos à opção preferencial pelos mais pobres. Por outras palavras, a oração leva-nos a agir como Aquele a Quem rezamos.

Este ano, o subsídio de apoio para esta semana foi elaborado pelas Igrejas de Malta e Gozo, partindo do versículo dos Atos dos Apóstolos “Trataram-nos com gentileza” (28,2). “No dia 10 de fevereiro, em Malta, muitos cristãos celebram a Festa do Naufrágio do Apóstolo Paulo, a comemorar e a agradecer pela chegada da fé cristã àquela ilha. O trecho dos Atos dos Apóstolos proclamado para a ocasião da festa é o mesmo escolhido como tema da Semana de Oração deste ano”. O contexto destas Igrejas das ilhas permite um sublinhado importante, a atualidade do naufrágio e dos refugiados. “Hoje muitas pessoas enfrentam os mesmos perigos no mesmo mar. Os mesmos lugares citados nas Escrituras caracterizam as histórias dos migrantes de hoje. Em várias partes do mundo, muitas pessoas enfrentam viagens perigosas, por terra e pelo mar, para fugir de desastres naturais, guerras e pobreza. Também para eles, são vidas à mercê de forças imensas e altamente indiferentes, não só naturais, mas também políticas, económicas e humanas”.

Para cada um dos dias, uma temática a rezar e a refletir, e que nos diz do caminho que temos de percorrer: reconciliação, luz, esperança, confiança, força, hospitalidade, conversão e generosidade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/08, n.º 4543, 21 de janeiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Dar a outra face… ou nem tanto!

No início de cada ano, e neste não foi diferente, há uma onda de esperança, com milhentos votos e propósitos de que tudo poderá ser melhor, a nível pessoal, familiar e social, a nível profissional, extensível à economia, à política, às relações internacionais. Mas logo a borrar a pintura o assassinato do general iraniano Soleimani, a 3 de janeiro, com a justificação que comandou diversas ofensivas contra militares americanos. Como vingança, os iranianos lançaram, dias depois, a 7 de janeiro, vários mísseis contra duas bases áreas americanas, situadas no Iraque, sem baixas.

Entretanto chegou a notícia de que um avião ucraniano se tinha despenhado, matando 176 pessoas que iam a bordo, no dia 9 de janeiro. Num primeiro momento, a informação de que se tratava de um acidente, mas logo se veio a saber que tinha sido abatido pelos iranianos. O Irão foi negando mas as informações levaram à admissão da culpa, ainda que tenham sublinhado ter-se tratado de um erro. Erro ou propositado, os protestos saíram à rua contra as autoridades iranianas, pois muitos dos que iam a bordo eram precisamente iranianos. Foram mortas 176 pessoas. É demasiado grave para esconder e se distorcer a informação.

A ameaça da guerra é uma constante; a paz, muitas vezes, não é conseguida pelo diálogo e pela verdade, mas pela força, pela demonstração bélica. Segundo as palavras do Papa Francisco já vivemos a Terceira Guerra mundial não apenas pelos focos de guerrilha, perseguição, mas também pelas políticas castradoras que exploram os mais pobres, pessoas e povos, obrigando-os a mendigar o que lhes pertence; a miséria, o tráfico de pessoas e/ou de órgãos humanos, a exploração sexual; o narcotráfico, as ditaduras que perduram, a corrupção, os guetos e os muros construídos; a ditadura da bolsa de valores e de novas ideologias, de multinacionais da comunicação e das empresas multinacionais que exploram exaustivamente as riquezas naturais, com trabalho escravo, comprando barato, e vendendo caro (aos mesmos que exploram). Como não lembrar, outro caso estranho, a Alemanha que, ao mesmo tempo, emprestava dinheiro, com juros, à Grécia, e vendia-lhe armamento, ganhando duas vezes à custa dos gregos. Os refugiados continuam a ser o rosto da miséria, da insegurança, da violência gratuita e da indiferença dos países mais ricos!

A pobreza de alguns países tem a conivência das autoridades locais. As lideranças políticas têm pouca vontade de resolver as dificuldades das suas gentes, mantendo-se infindamente no poder, controlando os militares, usufruindo, em benefício próprio, do comércio com países industrializados, empobrecendo os seus países!

Pouco a pouco, ainda que lentamente, as populações parecem abrir os olhos. O recente protesto contra as autoridades iranianas é expressivo: primeiro apoiaram a vingança contra os americanos, depois perceberam que as autoridades iranianas não se importam em sacrificar os seus ou de os enganar, mentindo-lhes…

A violência, a ameaça, as injustiças e a corrupção, o controlo da informação e as guerrilhas impedem o almejado desenvolvimento dos povos, destruindo as possibilidades de uma paz duradoura. Ainda estamos longe do desafio de Jesus, mas não chegaremos lá antes da justiça solidária!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/07, n.º 4542, 14 de janeiro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Um dia de cada vez… bom Ano!

Quando se aproxima o final de um ano ou se inicia um novo ano, é recorrente ouvirmos/lermos os propósitos de mudança. Agora é que vai ser… é a altura oportuna para pôr em marcha este projeto, esta decisão… uma dieta, a arrumação de situações que tardam a ficar resolvidas, altura para remediar uma amizade, visitar um familiar, para fazer um telefonema ou juntar os amigos do 10.º ano do liceu… E, com muitos e grandes projetos, talvez cheguemos ao final doutro ano ou ao início de um novo ano e as coisas continuem a arrastar-se como antes!

Pessoas que avançam na idade desejam mais um ano, mas, muitas vezes, o momento seguinte: um dia de cada vez! Um bom ano para todos. Abençoado e feliz! Mas que é um ano sem os momentos que o preenchem, sem os instantes que nos fazem rir, chorar, cantar, dançar, gritar, que nos cansam ou nos deixam de coração cheio? Então, se calhar, mais que muitos propósitos, ou muito projetos – também são necessários a médio e longo prazo – vale a pena viver, aqui e agora, valorizar as pessoas que Deus colocou à minha, à tua beira, que fazem parte da nossa vida, verificar a atitude que temos diante dos outros e diante da vida. O que ressalta em nós, o azedume, a ingratidão, a murmuração? A alegria, a paz a semear e partilhar, a gratidão?

Jesus, no Evangelho, recomenda vivamente aos seus discípulos, e hoje somos nós, que não se preocupem com o dia de amanhã! Calma, não é um desafio à mandriagem, longe disso, mas antes o convite a encontrar paz nos momentos que nos são dados viver, não nos levemos tão a sério, como diria Bento XVI, aprendamos a confiar em Deus e na Sua providência, comprometidos a cada momento a darmos o melhor de nós mesmos e a empenhar-nos pelo bem de todos. “Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia o seu problema” (Mt 6, 34). Um dia de cada vez, sem antecipar problemas, ainda que sejamos bons a fazê-lo, vivemos os problemas por antecipação e talvez nem surjam ou não surjam com a força que esperávamos.

Noutro momento, Jesus dir-nos-á: “Vinde a mim, todos os que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito (Mt 11, 28-29). Se dramatizamos cada situação negativa, podemos entrar em curto-circuito e desistir porque tudo nos corre mal, porque não conseguimos, porque amanhã vai ser a mesma coisa! Sossegue, amanhã será diferente!

Faça propósitos, trace projetos, mas não espere pela respetiva realização… não deixe para amanhã para sorrir, para dançar, para gritar, para amar, para abraçar, para chorar… chore hoje, grite hoje, ame hoje, dance hoje, sorria hoje, ajude hoje, amanhã logo se verá, pois o futuro a Deus pertence! Vivamos hoje.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/06, n.º 4541, 7 de janeiro de 2020

Categorias:Editorial Etiquetas:, ,