Arquivo

Posts Tagged ‘Pe. Manuel Gonçalves’

Editorial da Voz de Lamego: sulcos de esperança

Para semear ou plantar alguma coisa é necessário criar sulcos, regos, rasgos na terra. Temos vindo a escutar, no Evangelho de domingo, parábolas que falam da semente lançada à terra e que encontra solos diversos, ou semente boa que resiste apesar do joio, ou o grão de mostarda, pequena semente que virá a tornar-se uma árvore grandiosa. Em todas as circunstâncias, Deus age, espera, usa de benevolência e de paciência.

O nosso Bispo, D. António Couto, em reunião promovida pela coordenação pastoral da Diocese, de que damos notícia nesta edição do jornal, ao tomar a palavra, referiu-se aos sulcos de esperança, lembrando que as sementes precisam desses sulcos para germinarem, crescerem e darem fruto. Estes tempos de pandemia são também tempos dos sulcos da esperança. Tempos marcados pela adversidade, mas nem por isso deixam de ser tempos de esperança. Teremos que, no meio da desgraça, encontrar a graça e a presença de Deus. Deus não está ausente. Haverá lugar ao esforço, sacrifício e até lágrimas, mas, simultaneamente, não deixemos de preencher os sulcos de esperança e de alegria.

No lema episcopal do nosso Bispo – Vejo um ramo de amendoeira – baseado numa passagem de Jeremias (1, 11-12), em que ele é interpelado por Deus a ver para lá do inverno, para lá dos tempos de agrura e de dificuldade, surge de algum modo a mesma perspetiva. Em pleno inverno, a amendoeira flori, resplandecente, apesar do frio, do tempo adverso para flores e frutos. Refere D. António: “A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Ao responder [ao Senhor]: «Vejo um ramo de amendoeira», Jeremias já ergueu os olhos da invernia e da tempestade e do lodo e da lama e da catástrofe e da morte que tinha pela frente, e já os fixou lá longe, ou aqui tão perto, na frágil-forte-vigilante flor da esperança que a amendoeira representa”.

Esta é a missão da Igreja, Bispo, padres e leigos, mostrar que os sulcos cavados na terra têm neles a semente da esperança, da alegria e da festa. Daí também, nesse contexto, a necessidade de não ficarmos à espera que passe a pandemia. Urge transparecer a esperança e a alegria e a certeza de que este também é tempo de Deus. A palavra de Deus é um oxímoro, um contraponto à realidade atual, um desafio, uma provocação. O tempo é diferente, novo, mas ainda assim desafiante, comprometendo-nos como “agentes” da pastoral da graça e da esperança. Temos que responder perante as comunidades, perante as pessoas que Deus coloca nas nossas vidas e que formam as nossas paróquias. A Diocese viveu e viverá em caminho e em comunhão, mas dará passos novos, com uma mensagem de esperança, de graça e de beleza, avançando! O surto pandémico é um sulco que envolve sofrimento e lágrimas, mas é também um sulco grávido da presença e do amor de Deus.

Os responsáveis nacionais da catequese já apresentaram Orientações para a catequese da infância e da adolescência (acessíveis na página da Diocese: www. diocese-lamego.pt) para o novo ano pastoral, com o envolvimento de todos, pais, crianças, catequistas, párocos, comunidade, prevendo a catequese presencial e digital, apelando também a que novos elementos se comprometam como catequistas. A diocese de Lamego, departamentos e paróquias, está também a tratar disso… para que o caminho e a comunhão nos façam descobrir o rosto e a identidade da Igreja.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/34, n.º 4569, 21 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O Evangelho de Nazaré e de Lampedusa

Papa Francisco, presidiu à celebração da Santa Missa, em Lampedusa, a 8 de julho de 2013

Completaram-se sete anos desde que o Papa Francisco se deslocou a uma das periferias da Europa, à Ilha de Lampedusa, lugar de refúgio de milhares de pessoas que abandonaram a sua terra em busca de uma vida melhor, a fugir da guerra, da pobreza, da perseguição. A Ilha italiana é um dos pontos de entrada para a Europa; e um lugar para manter “isolados” do mundo os que se atrevem a embarcar para um futuro incerto.

A eleição do Papa Francisco, oriundo da Argentina, define por si só, uma periferia que é colocada no centro da Europa, no centro do mundo, da sociedade e da Igreja. O então Cardeal Jorge Mario Bergoglio agita as águas na intervenção que faz no conclave que viria a elegê-lo, mostrando que a Igreja, para ser fiel a Jesus Cristo, tem de se descentrar e ser Igreja em saída, indo às periferias, não apenas geográficas, mas sobretudo existenciais. Uma Igreja autorreferencial tende a adoecer, tornando-se inútil, anquilosada, desnecessária. A Igreja está para Cristo como a Lua para o Sol. A lua não tem luz própria, mas é um astro luminoso porque espelha e projeta a luz do Sol. Assim a Igreja, não se anuncia a si mesma, mas a Cristo e ao Seu Evangelho de amor. Cabe-lhe viver, seguir e testemunhar Jesus, tornando-O acessível a todos.

Após a eleição, Bergoglio escolheu, como patrono e referência, São Francisco de Assis. Os pobres, a identificação a Cristo pela pobreza e pelo despojamento, e as questões ambientais… programa do Papa Francisco, com o seu dinamismo latino, e, obviamente, a identidade da Igreja que quer estar onde Cristo deve estar, junto dos mais pobres.

Escolheu para primeira viagem apostólica, a 8 de julho de 2013, a Ilha de Lampedusa para se encontrar com os mais pobres dos pobres, pessoas sem teto, sem pátria, sem um futuro definido e, ao mesmo tempo, para rezar por todos quantos morreram a tentar passar o mar atlântico.

Palavras incisivas do Papa: “neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença… acostumamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é assunto nosso!  Foi-nos tirada a capacidade de chorar”. Pediu “perdão pela indiferença para com tantos irmãos e irmãs, perdão para aqueles que se acomodaram e se fecharam no seu próprio bem-estar, o que leva à anestesia do coração, perdão para aqueles que com suas decisões globais, criaram situações que levam a esses dramas”, para que o mundo tenha “a coragem de acolher aqueles que buscam uma vida melhor”.

Passaram sete anos. O Santo Padre assinalou o aniversário na passada quarta-feira, 8 de julho, na Eucaristia celebrada na Capela de Santa Marta, recordando a viagem como um desafio permanente contra a globalização da indiferença. Esta pandemia acentuou ainda mais as periferias, a pobreza, as desigualdades sociais, o isolamento dos mais vulneráveis… Em Nazaré, um carpinteiro, vive de forma simples, discreta e humilde, em família e em comunidade, até ao dia em que Se faz batizar, deixando-Se impelir pelo Espírito Santo, indo de terra em terra a anunciar a Boa Notícia da Salvação. Ninguém dava nada por Nazaré, mas é a partir daí que é lançada a semente do Reino de Deus. Será também da Galileia… que os apóstolos partem para outros mundos… De Lampedusa, mais uma etapa na revolução dos corações que se iniciou com Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/33, n.º 4568, 14 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Para que tenham vida em abundância!

É o programa de vida de Jesus. Não tem outro. Realizar a vontade do Pai. É o Seu alimento, o Seu propósito, a Sua vida. Qual é a vontade do Pai? Que ninguém se perca. Nem um só dos Seus filhos! E, por isso, Jesus é o enviado do Pai, fazendo-Se um de nós, tornando-Se um dos nossos. Por amor. Somente amor. Para nos reconduzir ao Pai. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para entrarmos na comunhão com o Pai, com a Santíssima Trindade, temos de nos assumir, antes de mais, como irmãos, filhos do mesmo Pai, deixando-nos mover pelo Espírito de Amor que estabelece e garante a comunhão.

No Evangelho de São João, Jesus apresenta-Se como o bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas, e como a Porta, pela qual entram as ovelhas. Jesus conclui dizendo: “Eu vim para que tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). O Seu discurso está em sintonia com a Sua postura, em cada olhar e em cada palavra, em cada gesto e em cada prodígio, Jesus traduz e concretiza o amor de Deus para connosco, para com todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, camponeses e pecadores, mulheres e crianças, estrangeiros!

Jesus não desiste de ninguém. Não desiste de Judas, nem de Pedro, nem dos demais apóstolos; não desiste da mulher acusada de adultério nem da prostituta que lhe lava os pés com as lágrimas; não desiste de Mateus, chefe de publicanos, nem de Lázaro, o amigo que morreu! Jesus vai até ao fim, até onde tem de ser. Já o dissemos, a vida não é um absoluto, mas é um direito inalienável, que vem antes e está acima dos demais, é fundamento e substrato de todos os direitos e garantias. Absoluto, na vida de Jesus, na minha e na tua vida, porque somos Seus discípulos missionários, é o amor.

O amor faz-nos pobres, faz-nos servos, não por obrigação, mas por opção.

O amor faz-nos pobres… quem ama, dá e dá-se por inteiro, predispõe do que tem e do que é para que a pessoa amada se sinta agraciada. Vejam-se os pais em relação aos filhos… deixam de comer e de comprar roupa e calçado para que os filhos comam melhor e possam comprar aquela peça de roupa ou aquelas sapatilhas! Como não lembrar as mães que na hora da refeição não se sentavam à mesa, dizendo que já tinham comido para que não faltasse aos filhos…

O amor faz-nos servos… isto é, filhos! O filho do Homem veio para servir e não para ser servido! Já não vos chamo servos mas amigos! O filho do dono da casa serve os seus comensais e convidados. E não se sente secundarizado ou menosprezado, pelo contrário, o filho também é dono na casa. Como é que nos sentimos? Filhos (donos da casa) ou convidados? Se somos filhos amados é com alegria que acolhemos e servimos os “convidados”, as visitas! Como não recordar a parábola do Pai misericordioso e do filho pródigo? A um momento, cada um dos filhos se sentiu, em relação ao Pai, como empregado, não como filho! É o amor do Pai que salva, é o amor de nos sentimos filhos que nos salva. Preenchidos de amor, estamos disponíveis para nos gastarmos em prol da vida dos outros, independentemente das pandemias.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Os extremismos segregam e desumanizam

Ainda focados na pandemia, mas com temáticas que emergem na sociedade e na cultura como tsunamis que destroem, criando divisões, perpetuando guerrilhas, ódios e vinganças, deixando vir ao de cima o lado lunar do ser humano, o seu lado mais instintivo e selvagem. Refira-se, como ponto permanente, que a vida não é branco e preto, não é linear, mas são várias as matizes que enformam cada pessoa e, por conseguinte, não há duas pessoas iguais e uma pessoa não é a mesma ao longo da vida. Por vezes, parece que a pessoa tem várias caras, ou máscaras! Não. É precisamente a mesma pessoa, mas com matizes e mutações várias.

Isto, todavia, não nos afasta de refletirmos sobre nós e de procurarmos ter um chão mais ou menos seguro, raízes e referências que nos permitem ser pessoas confiáveis (em quem se pode confiar). Há pessoas que nunca sabemos para que lado estão viradas, pois a variação de disposição, de humor, de trato é doentia. Não nos referimos aqui a pessoas com depressão, cuja doença é verdadeiramente desumanizadora, mas às pessoas ditas “sãs”! Destas, todos conhecemos, algumas que não são confiáveis, ora nos metem no coração ora nos rotulam, denegrindo-nos generosamente.

Um parêntesis, para dizer que a palavra “denegrir” nada tem de racista, ainda que alguns digam que deveria ser banida da língua portuguesa, pois pode ferir suscetibilidades! Nesse caso não poderíamos falar em trevas, em escuridão ou em obscuro, ou lado lunar ou em eclipse! Há pessoas a lutar contra o racismo que são verdadeiramente extremistas, racistas disfarçados e violentos, além de serem desmemoriados e aculturais.

Quem não vive como pensa acabará por pensar como vive (Gabriel Marcel). Para dialogarmos com alguém precisamos de estar seguros do nosso ponto de vista, de contrário será um “diálogo de surdos” em que ninguém se entende. Obviamente, se estamos seguros do caminho que percorremos e se sabemos para onde nos encaminhamos é mais fácil perceber o caminho dos outros e respeitar o percurso que eles escolheram. A intolerância e a arrogância convivem demasiado bem com a ignorância. Esta faz-me autocentrar-me, contando só o que eu digo, o que faço, tudo o que possa vir de diferente dos outros é estorvo ou é armanço.

Vem à memória aquele dia em que os discípulos proibem um homem que estava a falar e a curar em nome de Jesus só por não pertencer ao grupo dos discípulos. As palavras de Jesus são taxativas: “Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em Meu nome e vá logo dizer mal de Mim” (Mc 9, 40).

O ideal de uma aldeia global, facilitada pelos meios de comunicação e pela mobilidade viária, aérea e marítima, está longe de ser um sonho cumprido. Globalizou-se a indiferença, mas também a violência, os extremismos, os nacionalismos. Os “ismos” ideológicos são segregadores, fazem com que as fronteiras sejam muros que excluem, afastam, dividem, e não lugares de encontro e de relação. À esquerda ou à direita, vanguardistas ou retrógrados, desengane-se quem pensa que um extremismo é mais saudável que outro só por estar no extremo oposto. Nestes extremismos, palavras “liberdade” ou “segurança” não passam disso mesmo. E isso vê-se entre nós, a liberdade apregoada radicaliza e expulsa do grupo quem discorda, não é possível a opinião própria. A segurança apregoada é fautora de ameaça e violência, combatemos com as mesmas armas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/31, n.º 4566, 30 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Qual a prioridade do país?

Até há pouco, a prioridade era defender a vida, custasse o que custasse. Fechámos escolas, bares, fábricas, concelhos, igrejas, proibimos visitas a lares, ajuntamentos na rua, participação em velórios e funerais, visitas aos hospitais, à cadeia. Era necessário fazer tudo para proteger os mais vulneráveis.

A prioridade foi zelar pela vida. Horas e horas gastas por médicos e enfermeiros e outro pessoal auxiliar para evitar a morte de pessoas com COVID-19, expondo-se, mas com o intuito único e sublime de cuidar da vida.

Na tempestade, o melhor das pessoas vem ao de cima, mas manifesta-se igualmente o pior.

Houve e continua a haver verdadeiros heróis… muitos no anonimado, que abriram as portas e foram ao encontro dos mais desprotegidos, a levar mantimentos ou medicamentos, e assegurando-se que não haveria pessoas esquecidas.

Agora que a pandemia parece mais controlada, mesmo que todos os dias surjam surpresas desagradáveis, o Parlamento traz-nos a temática da eutanásia como uma urgência em facilitar a morte e ajudar a morrer… até aqui havia que evitar a morte a tudo o custo… agora que já morrem menos pessoas, há que facilitar a morte, independentemente dos motivos, ou mesmo sem motivos. Até agora… não desistir de ninguém… agora que as contas estão mais equilibradas, para quê gastar recursos e energias para acompanhar aqueles que vivem em situações mais difíceis?

Para aqueles que veem a história como um eterno retorno, bem podemos dizer que a civilização parece estar a regredir até ao tempo dos faraós, dos reis e das rainhas, e dos imperadores, em que a vida valia conforme o estrato social, o género ou a idade, o poder ou o dinheiro… A vida de alguns valia pouco ou nada: escravos, mulheres, crianças, pessoas portadoras de deficiência ou simplesmente doentes, podiam ser excluídas da sociedade, maltratadas e até mortas, sem que houvesse necessidade de prestar contas… ainda há alguns países assim…

O cristianismo valorizou a vida, não a qualquer custo, mas enformada pela verdade e pelo amor, pela filiação divina. Somos filhos amados de Deus. Eu e tu. Todos. A criança, a mulher, o escravo, o grego, o chinês. Todos, sem exceção. O enfermo, o leproso, o estrangeiro. O que a todos une e identifica é a filiação divina, a dignidade de cada um, e a sua insubstituibilidade.

O direito à vida tornou-se essencial para qualquer sociedade. Foi um salto qualitativo na civilização. O direito à morte… significa que se abdica do direito à vida, por qualquer motivo ou mesmo que não haja motivo nenhum.

Será esta uma prioridade do país? Consigo coligir algumas prioridades: empregabilidade, produtividade, acesso facilitado aos cuidados de saúde, para as pessoas idosas e com menos recursos; recuperar a economia, promover uma efetiva justiça social… erradicar a pobreza; aumento significativo do ordenado mínimo nacional; pagamento do trabalho doméstico para mães/pais que optem ficar em casa a cuidar/educar os filhos, política de natalidade abrangente…

A despenalização, liberalização e promoção da eutanásia, como antes o aborto, será uma questão de dias… pois mesmo que no Parlamento não houvesse uma maioria para levar à prática esta lei, contra os estudiosos, os médicos, contra a filosofia, far-se-iam tantos referendos quantos fossem precisos até conseguirem outra maioria…

Contudo, como cidadãos e como cristãos só temos uma prioridade: amar e servir, cuidar, defender, proteger e celebrar a vida, não desistir de ninguém, não deixar ninguém para trás; salvar, curar, sarar… é a nossa missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/30, n.º 4565, 23 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: As cores da (in)tolerância…

Somos tolerantes. Intolerantes são os outros. Ou talvez sejamos as duas coisas, dependendo dos temas com que nos deparamos!

Existam pessoas, preenchidas de humildade e sabedoria, com a elasticidade generosa para acolher e respeitar os outros, mesmo divergindo, e capazes de integrar, aprendendo, as diferenças, como riqueza e não como estorvo ou sombra!

Quando nos autocaracterizamos, somos humildes, tolerantes, frontais… e ninguém nos dá lições de moralidade, lealdade, honestidade.

Os maiores teóricos da liberdade foram os maiores ditadores… à esquerda e à direita! Hitler, Mussolini, Lenine… Bolsonaro? Países em que imperou o fascismo ou o comunismo… Portugal, Itália, Rússia, China… e ninguém lhes poderia (então) dizer que eram ditadores… pois estavam a defender os direitos dos seus povos!

No dia 25 de maio morreu George Floyd, afro-americano, depois de um polícia de Minneapolis se ter ajoelhado sobre o seu pescoço, durante oito minutos e quarenta e seis segundos, enquanto estava deitado de bruços na estrada e a dizer que não conseguia respirar. De imediato se multiplicaram as manifestações contra o racismo, o abuso de poder e a descriminação. Pena foi, novamente, que algumas minorias extremistas se apropriassem da causa, como se não dissesse respeito a todos.

Um erro… não se corrige com outro. A violência não se corrige com violência, apenas a multiplica. Se a um excesso se responde com outro, o que resulta é destruição.

As manifestações integram muitas pessoas que nada têm a ver com as causas que as provocam. É lamentável. As boas intenções de uns são adulteradas pela inconsciência, burrice e oportunismo de outros. As diversas manifestações antirracistas, relevantes e oportunas, são ensombradas e perdem o sentido quando se escolhe o caminho da violência e do desrespeito pelos outros. Há cristãos que se converteram a movimentos religiosos e queriam reescrever a pertença religiosa, apagando o registo do batismo, quase como quando um relacionamento termina e se rasgam as fotografias… como se dessa forma também a memória fosse apagada.

Como portugueses talvez tivéssemos de criar um tribunal para julgar Afonso Henriques e os reis que lhe sucederam. Talvez tivéssemos que queimar livros, romances e poemas, rasgar fotos, desgravar sons e películas… talvez precisássemos de destruir praças e monumentos e não apenas colocar-lhes outros nomes!

A história enraíza-nos no que somos, assumindo que os nossos antepassados fizeram coisas boas e outras menos boas, o que também nos acontece e aos nossos contemporâneos. Porém, não nos cabe tanto julgar ou mesmo destruir a história, sabendo que se tivéssemos vivido nesses tempos poderíamos ter sido as vítimas ou os vilões! Quem o poderá saber?!

Sem renegarmos as nossas raízes, cabe-nos construir hoje a história, contribuir para um mundo mais solidário e fraterno, lançando novas raízes que integrem e incluam solidariamente os que seguem no mesmo barco que nós. Do passado, poderemos sempre colher lições… para não cairmos nos erros que destroem, e possamos avançar e progredir num caminho de humanização e integração…

Regressemos às cores da (in)tolerância. Seremos tolerantes quando deixamos andar e não queremos saber do outro?

Seremos tolerantes quanto respeitamos desde que não nos chateiem, não nos incomodem, não nos calquem os calcanhares e não nos cheguem mostarda ao nariz?

Sou tolerante… com os meus amigos e desde que não divirjam e/ou sejam da minha cor clubística, da minha área político-partidária, pertençam à minha religião!!!

O caminho da tolerância é aceitação do outro, com as suas qualidades e fragilidades, respeitando-o como pessoa, amando e cuidando.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/29, n.º 4564, 16 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Saudáveis num mundo doente?!

Em dois momentos, o Santo Padre interpelou a humanidade com esta expressão: não é possível mantermo-nos saudáveis num mundo doente!

Antes da bênção Urbi et Orbi (sobre a cidade e o mundo), no dia 27 de março, diante de uma majestosa praça de São Pedro vazia, o Papa colocava-nos a pensar: “Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

Os momentos de crise levam-nos a refletir, sabendo que, passada a tempestade, logo continuaremos nos nossos afazeres e a ocupar-nos das nossas coisas. Nãos será muito diferente no período pós-pandemia. Porém, nada será igual, pois não é possível voltar ao antes e, por outro lado, o presente e o futuro carregam as perdas materiais e sobretudo humanas. Contudo, a esperança deve moldar-nos e a reflexão deve ajudar-nos a novos propósitos e compromissos. Haverá alguns que agirão de forma mais altruísta, o treino a que se sujeitaram e a alegria de terem contribuído para melhorar a vida de alguém ou mesmo salvado vidas, fazem-nos querer continuar. A reflexão pode ajudar outros a tomar consciência de que estamos no mesmo barco e que a tempestade atingiu a todos e se alguns escaparam entre os pingos podem ser apanhados em tempestades futuras, porque as consequências afetarão a todos, cultural e civilizacionalmente.

No dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, que se comemorou virtualmente a partir de Bogotá, na Colômbia, o Papa, em missiva enviada ao Presidente colombiano, voltou a insistir na indiferença de quem enterra a cabeça na areia: “A proteção do meio ambiente e o respeito pela biodiversidade do planeta são questões que nos afetam a todos. Não podemos fingir ser saudáveis ​​num mundo doente. As feridas infligidas à nossa mãe terra são feridas que também sangram em nós. Cuidar de ecossistemas exige um olhar para o futuro, que não se preocupe apenas com o momento imediato ou que busque um lucro rápido e fácil, mas que se preocupe com a vida e que busque a sua preservação para o benefício de todos”.

A visão da Igreja é holística, envolve toda a criação, pois toda a criação é dom de Deus confiada ao ser humano para cuidar. Excluir o ser humano para proteger a natureza, o ambiente, é uma lógica doente e infantil; por outro lado, a pessoa déspota em relação ao meio ambiente revela ignorância e estupidez. Só o ser humano é capaz de admirar e com-criar, louvando o Criador por esta obra sublime. O caminho é a ecologia integral. Proteger o ambiente sem prestar atenção aos mais desfavorecidos, aos explorados que não beneficiam dos frutos da criação, é hipocrisia fundamentalista. Proteger o ser humano é o primeiro passo para defender esta casa comum. Aliás, o conserto do mundo passa, inevitavelmente, pela conversão da pessoa.

“Ao entrar no mundo, Cristo disse: «Não quiseste sacrifícios nem oblações, mas formaste-Me um corpo… Eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade»”. Por mais que queiramos espiritualizar a fé…. Jesus encarnou, assumiu um corpo, veio ao mundo e é no mundo que nos salva!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/28, n.º 4563, 9 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: novo normal?!

Em novas situações emerge um novo vocabulário. É recorrente ouvirmos: “pandemia”, “distanciamento social”, “confinamento” e “desconfinamento”, “higienização”… entre outras!

Depois de uma grande tempestade, que desejamos? Regressar à normalidade, a uma normalidade possível, pois que nunca será igual, porque se perderam bens e, nalgumas situações, se feriram ou morreram pessoas, além do susto que pode gerar outra atitude: medo patológico (ainda que provisório) ou mudança das prioridades, sabendo que a vida (terrena) não é para sempre.

Em absoluto, mesmo quando não há tempestades, vamos despindo várias camadas e assumindo outras que nos fazem avançar, renovando as opções, normalizando as alterações e as novidades, numa espécie de espiral, integrando, debaixo da pele, o que nos acontece e, eventualmente, permitindo-nos estar mais preparados para outras situações.

Sob o reinado da Covid-19, já não se fala em regressar à normalidade, mas em assumir um novo normal, a tal normalidade possível, ajustando comportamentos e compromissos, sem esperar pelo controlo do novo corona vírus, mas convivendo com ele e não deixando de viver, de trabalhar, de confiar.

Em absoluto, nunca é possível voltar atrás, repetir os momentos, sejam negativos, que dispensamos, sejam positivos, que desejamos. A vida não se repete. “Nunca voltes ao lugar onde já fostes feliz”, como nos recorda, cantando, Rui Veloso, “Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado”. Obviamente que a nossa memória emocional nos levará a recriar situações e momentos que nos fizerem bem e até podem, de facto, levar-nos a viver em dinâmica de bênção. Assim como assim, no entanto, estamos a avançar e não a repetir o passado, esse só podemos confiá-lo a Deus e mantê-lo na memória: se fomos felizes, podemos voltar a sê-lo. Temos pistas do que nos faz sentir em casa!

“Novo normal”. São duas palavras que me sugerem “conversão”, não como uma atitude pontual e definitiva, pode acontecer, mas como constante da nossa vida. Com efeito, precisamos de nos adaptar a novas situações, ora mais compassadas, ora mais urgentes, mas ainda assim, a vida continua, sempre nova, nunca se repete, não é igual para todos, nem todos ficarão bem, e os que ficarem bem, não ficarão em simultâneo ou na mesma medida. Numa perspetiva cristã, bem, bem, absolutamente bem, vamos ficar quando os nossos dias na terra estiverem cumpridos e Deus nos chamar a habitar eternamente com Ele. Estaremos a caminho de estar bem se confiarmos em Deus e nos “treinarmos” a amar, cuidar e servir…

Já aqui sugerimos, como leitura, “O desafio da normalidade”, do médico José Maria Cabral. É curioso, como buscamos tanto a novidade! Estamos com as antenas ligadas para vermos que modas vão surgir e como adaptarmos o penteado, a roupa, ou até a linguagem… e agora buscamos a normalidade. Por outras palavras, para voarmos precisamos de estar enraizados e certos de que poderemos voltar a poisar em chão seguro. A própria novidade assenta no que somos, temos e vivemos, só é novo comparado com o que já vimos ou experimentámos. Para nós cristãos, o normal é estarmos firmes pela fé e pela esperança, mas, sempre novo, a docilidade ao Espírito de Deus, abertos à ao futuro, para, hoje e a cada instante, renovarmos e concretizarmos o amor que nos liga aos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/27, n.º 4562, 2 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: A minha alma engrandece o Senhor

– Ainda o apanhamos!

É a esperança de Carlos e de João da Ega quando avistam o “americano”. Apressam o passo – ainda o apanhamos – e, logo depois, lançam-se a correr a ver se ainda o apanham. É o final da emblemática obra d’ Os Maias, de Eça de Queirós. Esta esperança, de apanhar o “elétrico”, é sobretudo analogia em relação à vida. A vida torce-nos, tantas vezes, mas há sempre uma réstia de esperança e enquanto houver essa réstia, esse lampejo de luz, então é possível caminhar, apressar o passo, lutar um pouco mais. Como sói dizer-se, morremos, não quando o coração para e o cérebro se desliga, mas no momento em que perdemos toda a esperança.

A partir de sábado, 30 de maio, as celebrações comunitárias regressam em Portugal continental, ainda dentro do mês dedicado especialmente a Nossa Senhora, Mãe da Eucaristia, Mãe de Jesus. Com cuidados, com medos, precauções e afastamentos, mas, para muitos portugueses, é um momento de júbilo, tempo de recuperar parte da alegria, momentos que cadenciavam a vida. Por estes dias, tenho encontrado algumas pessoas que me vão dizendo isso mesmo: faz-nos falta a Missa, era um momento de sairmos de casa, de nos encontrarmos, de rezarmos em conjunto, o tempo até custa mais a passar, não sei o que parece…

Regressamos na Solenidade do Pentecostes, aniversário da Igreja, pois é a partir de então que os Apóstolos, destemidamente, anunciam o Evangelho e começam a cumprir o mandato de Cristo: ir e ensinar, batizar e fazer discípulos de todas as nações.

Maria é a Mãe da primeira Igreja que é Jesus. No Pentecostes surge a Igreja, mas sempre enxertada em Jesus, pois é o Seu Corpo, agora constituída de vários membros. Maria, como Mãe de Jesus, a primeira Igreja, é Mãe da Igreja que incorporam todos os discípulos do Seu filho Jesus. No início deste caminho está o seu “sim”: faça-se em mim segundo a Tua Palavra.

No alto da cruz, o próprio Jesus no-la dá por Mãe: eis aí o teu filho, eis aí a tua mãe. E como discípulos prediletos trazemos Maria para nossa casa, para a nossa vida ou, como se depreende, se ela não habita connosco é porque não somos filhos diletos do Deus altíssimo, irmãos de Jesus.

Se ela habita connosco, como com os primeiros, na comunidade primitiva, então teremos de verificar se a nossa vida e a nossa missão estão conformidade com a vida e a missão de Maria, para que ela se sinta realmente em casa.

Na Visitação, Maria ensina-nos a colocar a misericórdia de Deus ao centro. “A minha alma engrandece (glorifica) o Senhor”. Esta é a humildade de quem se deixa preencher pelo Espírito Santo e transparece a grandeza de Deus, o Seu poder e o Seu amor. Nas Bodas de Canaã, novamente a opção de Maria: “fazei o que Ele vos disser”. Maria vive descentrada de si, é a Igreja em saída, que não se vangloria por ser a Mãe, mas se regozija por ser discípula, por ser a serva do Senhor. Pergunte-se às mães de que forma são “servas” dos seus filhos! São-no por amor e opção, por vocação e missão. Por amor, somente por amor. Maria assume-se, também em relação a nós, como Mãe e como serva, intercedendo por nós: eles não têm vinho. Nossa Senhora da Alegria, rogai por nós.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/26, n.º 4561, 26 de maio de 2020

Editorial Voz de Lamego: Totus tuus – Todo teu, Maria

Karol Wojtyła nasceu a 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polónia. Em 1942, entrou no seminário clandestino de Cracóvia e a 1 de novembro de 1946 foi ordenado sacerdote. A 4 de julho de 1958, Pio XII nomeou-o bispo auxiliar de Cracóvia. Como lema episcopal escolheu a expressão mariana “Totus tuus” de são Luís Maria Grignion de Montfort.

Tornou-se arcebispo de Cracóvia a 13 de janeiro de 1964 e a 26 de junho de 1967 foi criado cardeal por Paulo VI. Na tarde de 16 de outubro de 1978, depois de oito escrutínios, foi eleito Papa. Foi Papa quase 27 anos. Faleceu a 2 de abril de 2005. Bento XVI, o seu Sucessor, proclamou-o beato a 1 de maio de 2011, e Francisco canonizou-o a 27 de abril de 2014.

Os Papas mostram uma grande carinho e proximidade a Nossa Senhora. Talvez seja também por isso que o Espírito Santo inspira os Cardeais para a eleição de cada Papa. João Paulo II colocou no lema episcopal e papal esse amor à Virgem Maria. “Totus tuus”, todo teu, Maria. A expressão deve-se São Luís Maria Grignion de Montfort: “Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt” (Eu sou todo teu, e tudo o que é meu te pertence). No brasão de João Paulo II, destaca-se a Cruz (de Cristo) e o M (de Maria).

A mão materna de Maria desvia a bala que se destinava a matar o Papa, a 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro. A partir de então a devoção a Nossa Senhora acentua-se numa ligação estreita às aparições de Fátima. João Paulo II pede para que lhe façam chegar a terceira parte do segredo de Fátima.

“…Um Bispo vestido de Branco ‘tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre’… subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontravam pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas” (posto por escrito, em Tuy, a 3.1.1944, pela Irmã Lúcia. Colocamos o texto em português atual).

Em 7 de junho de 1981, João Paulo II faz a consagração da Igreja e do mundo ao Imaculado Coração de Maria, pedido de Nossa Senhora aos Pastorinhos, em 13 de maio de 1917. Renovará a consagração em 25 de março de 1984.

O bispo vestido de branco, o Santo Padre, que é morto, pode referir-se especificamente a João Paulo II. Na interpretação do segredo de Fátima, sublinha o então Cardeal Ratzinger: “Na Via Sacra deste século [séc. 20], tem um papel especial a figura do Papa. Na árdua subida da montanha, podemos sem dúvida ver figurados conjuntamente diversos Papas, começando em Pio X até ao Papa atual [João Paulo II], que partilharam os sofrimentos deste século e se esforçaram por avançar, no meio deles, pelo caminho que leva à cruz”. E como não lembrar o Papa Francisco, vacilante, a subir a Praça de São Pedro, no passado dia 27 de março? Todo teu, ó Maria. Saibamos, como ela, também hoje, confiar: faça-se a Tua vontade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/25, n.º 4560, 19 de maio de 2020