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Archive for the ‘Editorial’ Category

Editorial da Voz de Lamego: Os outros somos nós

É uma expressão banal, mas que interpela e compromete.

O ideal será colocarmo-nos no lugar dos outros, sabendo que, em absoluto, não é possível, mas é louvável o esforço em procurar ver a partir do que outro vê, vive, sente e sofre. Tentar compreender o seu agir e o seu pensar. A isso se chama empatia, pôr-se em sintonia com o outro. Não se trata, entenda-se, de renunciar às próprias convicções, mas fomentar o diálogo para caminharmos juntos. Só dialoga quem tem convicções, permitindo um confronto saudável de ideias e ideais. Quem não tem convicções, segue aqueles que gritam mais!

No próximo domingo, 24 de janeiro, vamos votar para o Presidente da República, e digo vamos votar, porque é nossa obrigação e compromisso, como cidadãos e como cristãos, participarmos na vida da comunidade, fazendo as escolhas que consideramos melhores para os destinos do país. Cabe-nos ouvir e discernir, sabendo que o sistema português é parlamentar e que o Presidente da República tem um papel de representatividade do povo português e da sua cultura, é moderador da ação política e partidária, garante do cumprimento da Constituição, aglutinador de vontades e projetos para o desenvolvimento e integridade de Portugal, como nação. Não legisla, nem executa, mas pode suscitar caminhos, promover uma visão para o país, inserido na União Europeia, com ligações privilegiadas aos países de língua oficial portuguesa, país tolerante e acolhedor.

Como cristãos, não deixando de ser cidadãos comprometidos, a nossa visão da vida e do mundo deve influenciar as nossas escolhas. Não somos melhores, como ponto de partida, mas devemos ser diferentes. Cabe-nos refletir sobre o candidato que melhor assume a nossa mundivisão judaico-cristã, na promoção da vida, na defesa dos mais frágeis, na busca do bem comum, na proteção da dignidade de cada pessoa, na assunção da fraternidade.

Reconhecemos a autonomia da República, mas sabemos que esta se enriquece com o contributo de cada um e também com os princípios que nos orientam como crentes. Onde estivermos, é Cristo que temos de imitar! Em todas as dimensões da vida, aquilo que fizermos ao mais pequeno dos irmãos é a Cristo que o fazemos. O bem comum terá que ser o horizonte do envolvimento político-partidário dos cristãos, como construtores de pontes, incluindo e optando, como Cristo, pela atenção e cuidado aos mais pobres.

Extremismos, de esquerda ou de direita, muito convincentes no discurso, excluem, radicalizam, vivem na lógica sectária, só quem pensa como eles é que é bom. Nós ou os outros? Excluímos ou somos excluídos? E, como se tem visto, na política, como na religião, na cultura, no desporto, discursos que fragmentam e dividem, mais cedo ou mais tarde criam crises e violência. Como disse um candidato, caminhamos com dois pés, um direito e outro esquerdo!

Atendamos às palavras do Papa Francisco: «Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão… os cristãos não podem fazer de Pilatos, lavar as mãos… a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum… Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil… A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas… mas eu, que faço?».

E, por falar em política e bem comum, tentaremos trazer à Voz de Lamego a voz dos 14 municípios que a Diocese de Lamego integra, através dos Presidentes de Câmara.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/10, n.º 4592, 19 de janeiro de 2021

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Editorial da Voz de Lamego: Quero ver o vosso rosto

Na edição da Voz de Lamego desta semana teremos, num dos pratos principais, a entrevista ao novo Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lamego. Numa das respostas às nossas questões, o Dr. António Carreira referiu uma expressão do nosso Bispo, D. António Couto, na entrada solene da Diocese: “Quero ver os vossos rostos”.

Eis a citação: “Queridos filhos e irmãos, pais e mães que Deus me deu nesta dorida e querida Diocese de Lamego. Quero muito ver o vosso rosto. Já sabeis que trago notícias de Deus. E que conto muito com cada um de vós, para levar a todos os lugares e a todas as pessoas desta bela Diocese este vendaval de graça e de bondade que um dia Jesus desencadeou em Cafarnaum” (D. António Couto, 29 de janeiro de 2012).

É uma mensagem que nos interpela, e por maioria de razão, nos dias que passam. Queremos ver o rosto uns dos outros! O olhar e o sorriso! O coração e a vida! As esperanças e as angústias! Há quem se tenha afeiçoado de tal forma à máscara que já não a dispensa, nem nos perfis das redes sociais e, quem sabe, no CV, por acharem que essa é a sua (nova) identidade!

Quando encontramos alguém pela primeira vez, a tentação é de pedir para que nos mostre o rosto. O olhar é importante – os olhos são a janela da alma –, mas também os contornos do rosto, o sorriso completo. O cuidado que os outros nos merecem exigem o uso da máscara e o distanciamento físico, mas o desejo permanece: quero ver o teu rosto! Mau é quando não queremos ver o rosto do outro; quando escondemos o rosto e nos protegemos do olhar alheio. Já tiveram a experiência de conversar com alguém que se esconde, que está fechado em si mesmo e não levanta os olhos, e nos olha de esguelha? É uma estranha sensação! Não estamos em casa! Não nos sentimos em casa com o outro quando o seu olhar se esconde! Curiosamente, com as máscaras, tendemos a confrontar-nos mais com o olhar. Só conseguimos ver as expressões junto aos olhos! Não conseguimos ler os lábios, então olhamos mais nos olhos uns dos outros. Olhar nos olhos é colocar-nos no mesmo plano, nem acima nem abaixo.

A um determinado momento, uns gregos, que se encontravam em Jerusalém, por ocasião da festa, vão ter com Flipe e dizem-lhe: “Senhor, nós queremos ver Jesus” (Jo 12, 20-22). Não sabemos os motivos para quererem ver Jesus, mas é um desejo que os leva a dar os passos necessários para chegarem à presença de Jesus. Não basta a informação que recebemos dos outros, não são suficientes números ou estatísticas, mas olhar olhos nos olhos, ver a face, acolher o rosto dos outros! Assim a nossa relação com Jesus, assim a nossa relação com os outros. Ver o rosto, o coração e a vida, ir ao encontro de quem sofre, conhecer a sua história de vida, escutar e perceber, amar e servir! E não é filosofia! É a vida de Jesus, terá de ser a nossa também.

Os tempos que se avizinham não vão ser fáceis, cabe-nos fazer tudo o que está ao nosso alcance, e envolver outros, para que os mais frágeis ou os que caiam numa situação precária não se convertam em números de estatística.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/09, n.º 4591, 12 de janeiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: A cultura do naufrágio no novo ano

O ano de 2020 ficou para trás! Ou talvez não! Tenho lido comentários estranhos a propósito: 2020 deveria ser um parêntesis, avançando de 2019 para 2021; deveria passar-se uma borracha para apagar o ano!

Apagar o passado não é possível, pois não somos máquinas computadorizadas. Querer apagar o passado, por causa de um acontecimento negativo, revela ingenuidade ou infantilismo. A memória torna-nos verdadeiramente humanos, na certeza de que vamos acumulando memórias de muitos acontecimentos e encontros, lugares e pessoas, nem sempre o que procurámos ou desejávamos, mas os que a vida ou, quem sabe, Deus colocou no meu e no teu caminho.

Numa nova etapa, num novo ano, misturam-se ansiedade e esperança, dúvidas e receios. Como será o que vem pela frente? Será que o mundo se tornará melhor e as pessoas mais humanas e solidárias? A nossa vida será risonha? É um misto de sentimentos e emoções que nos faz desejar este (re)começo! Mas, como em todas as dimensões da vida, não se apaga o que somos, o que vivemos, as adversidades que enfrentámos. Se assim fora, teríamos que começar do zero, sem memória nem conhecimentos, sem comodidades, e perderíamos tudo o que de bom nos sucedeu, as pessoas que encontrámos, o que nos fez crescer. Não é possível fazer tábua rasa de um ano ou de um mês. Somos também o que vivemos, somos as opções que fazemos, seremos o que somos com o que lhe juntarmos.

O Papa Francisco empresta-nos o conceito da cultura do naufrágio, acerca da educação, mas que se adequa também à nossa vida. “O náufrago enfrenta o desafio de sobreviver com criatividade. Ou espera que o venham resgatar ou dá início ao seu próprio resgate. Na ilha onde chega, tem de começar a construir uma palhota, para a qual pode utilizar as tábuas do barco afundado e, também elementos novos que encontra no lugar. O desafio de assumir o passado, ainda que já não flutue, e de utilizar as ferramentas que o presente oferece, tendo em vista o futuro”.

E prossegue na mesma linha: “Para educar é preciso ter em conta duas realidades: o quadro de segurança e a zona de risco. Não se pode educar apenas com base em quadros de segurança, nem apenas com base em zonas de risco; tem de haver uma proporção, não digo equilíbrio. Uma pessoa começa a caminhar quando nota o que lhe falta, porque se não lhe faltar qualquer coisa não caminha”.

É com esta criatividade e expectativa que damos novas cores, rostos e configuração à Voz de Lamego, com os seus 90 anos, feitos a 8 de novembro de 2020. Não apagamos o que somos, como jornal, ao serviço da diocese e da região, mas queremo-nos ainda mais próximos, mais ágeis, e sempre transparentes nos valores da vida, da verdade e do bem, na senda do humanismo cristão, a informar e a refletir, a desafiar e a debater. Contamos com todos. A cada um solicitamos a colaboração para chegarmos mais longe, a mais pessoas, leitores, assinantes e anunciantes. A sobrevivência da Voz de Lamego passa por aqui, por ti e por mim, e pela captação de novos amigos. Prosseguimos com alegria e com esperança. Muito obrigado por esta entreajuda, certos da bênção e do favor de Deus. Bom ano de 2021.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/08, n.º 4590, 5 de janeiro de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Um Menino nos foi dado

O nascimento de uma criança é, ou deveria ser, uma bênção. Um bebé chega e altera tudo! Desinstala, incomoda, preenche tempos e espaços, exige atenção e cuidado. Vivemos num mundo de contradições várias, precisamos de ser férteis, nesta Europa envelhecida, e, no entanto, as taxas de natalidade continuam a ser muito baixas e todos os dias vemos agressões para com as crianças, abusos, tráfico, trabalho infantil, violência. Sem o nascimento de novos seres humanos não é possível a sobrevivência da humanidade e sabe-se que qualquer comunidade que não tenha crianças ou que as tenha num número reduzido tende a ser mais frágil, mais dependente do exterior, economicamente insustentável, pois são as crianças e os jovens que geram mais movimento e fazem circular a economia.

Jesus vem para desinstalar, para ser sinal de contradição, como sublinha o velho Simeão diante de Maria e de José, é Ele a Luz das nações (cf. Lc 2, 25-35). Nasce pobremente, numa manjedoura, sem grandes confortos, num ambiente pouco limpo, junto de animais. Ele que era rico, fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza, isto é, com a Sua vida, com o Seu amor (2 Cor 8, 9).

Vivemos num tempo diferente, com outras comodidades, mas temos consciência que o conforto sem o calor humano vale de pouco. Precisamos de comodidade, mas precisamos muito mais da amizade e de com quem partilharmos a vida. A vida, diz-nos Augusto Cury, “contém capítulos imprevisíveis e inevitáveis. Todo ser humano passa por turbulências na sua vida. A alguns falta o pão na mesa; a outros, a alegria na alma. Uns lutam para sobreviver. Outros são ricos e abastados, mas mendigam o pão da tranquilidade e da felicidade. Por isso há miseráveis que moram em palácios e ricos que moram em casebres”.

Aquele Menino obriga-nos a ajoelhar, a debruçar-nos sobre ele, a colocar-nos à mesma altura, para estarmos olhos nos olhos. Um Menino, numa manjedoura! Um Menino que é luz, bênção e alegria para aqueles pais, para mim e para ti, para a humanidade inteira. Quando queremos ver bem um bebé aproximamo-nos da mãe ou do berço, o que nos obriga a inclinar-nos ou a baixar-nos. O mesmo sucede se queremos conversar com uma criança de igual para igual, ajustamos a nossa altura, ajoelhamo-nos, adaptamos a voz, tornando-a mais suave (e muitas vezes acriançada, como se dessa forma a criança nos percebesse melhor!). Se olhamos a criança a partir de nós, ela ver-nos-á como gigantes; se a olhamos a partir dela mesma, da sua estatura, ela perceberá que queremos comunicar e lhe queremos bem.

Assim faz Deus connosco, em Jesus Cristo, abaixa-Se, apequena-Se, encarna, faz-Se um de nós, coloca-Se ao mesmo nível, da nossa carne, mortal e finito como nós, frágil e sujeito às mesmas vicissitudes, a ser amado, esquecido ou maltratado. Tudo por amor. Este Menino veio para ser luz e bênção e para ser sinal de contradição. Com a Sua vida próxima e terna ensina-nos que o caminho da salvação se veste de amor e de perdão, de serviço e de cuidado. Para sermos como Ele, e somo-lo enquanto discípulos missionários, não precisamos de nos agigantarmos diante dos outros, precisamos de nos despojar de adornos, tornando-nos crianças na docilidade e transparência, na sinceridade de coração.

Santo Natal a todos os que fazem a Voz de Lamego (edição, publicação, colaboração de textos, notícias e fotos, na publicidade e anúncios, assinantes, leitores e amigos) e a todas as famílias a quem esta boa nova chegar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/07, n.º 4589, 22 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: São José, com coração de Pai

São José está estreitamente ligado à economia da salvação. No passado dia 8 de dezembro, completaram-se 150 anos da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX, em 8 de dezembro de 1870. Face a esta efeméride, o Papa Francisco convocou um ano para refletir especialmente sobre São José e o seu papel na vida da Igreja e dos cristãos, como exemplo de um homem simples e discreto. Ele passaria ao lado dos grandes títulos de jornais, tal como tantos homens e mulheres que no anonimato transformaram e continuam a transformar o mundo com o seu compromisso, optando pelo bem e pela verdade, prosseguindo a justiça e a paz, no serviço aos irmãos e no cuidado para com os mais desfavorecidos.

Ao convocar o Ano de São José (de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021), o Papa brindou-nos com uma Carta Apostólica, Patris Corde (Com o coração de Pai), enquadrando a importância de São José, como Pai adotivo de Jesus, esposo da Virgem Maria, Padroeiro dos operários, invocado para uma tranquila e boa morte, confiando-nos à Sua intercessão nas contrariedades da vida, imitando-O na delicadeza, na fidelidade à vontade de Deus, na escuta atenta do Senhor, no cuidado decidido de Jesus e de Nossa Senhora.

“Os meus antecessores aprofundaram a mensagem contida nos poucos dados transmitidos pelos Evangelhos para realçar ainda mais o seu papel central na história da salvação: o Beato Pio IX declarou-o «Padroeiro da Igreja Católica», o Venerável Pio XII apresentou-o como «Padroeiro dos operários»; e São João Paulo II, como «Guardião do Redentor». O povo invoca-o como «padroeiro da boa morte»”.

“Na parte inferior [do brasão do Papa Francisco], estão a estrela e a flor de nardo. A estrela, segundo a antiga tradição heráldica, simboliza a Virgem Maria, mãe de Cristo e da Igreja; a flor de nardo indica são José, padroeiro da Igreja universal. Com efeito, na tradição iconográfica hispânica, são José é representado com um ramo de nardo na mão. Colocando estas imagens no seu brasão, o Papa pretendeu expressar a sua devoção particular à Virgem Santíssima e a São José”.

O Santo Padre iniciou o pontificado no dia de São José, a 19 de março de 2013. Por outro lado, tem uma imagem de São José a dormir e, como já explicou, quando tem um problema ou dificuldade escreve num papelinho e coloca debaixo da imagem, para que São José sonhe e reze por essa dificuldade.

Nesta Carta Apostólica, o Papa apresenta, de forma mais sistematizada, as suas reflexões sobre São José, meditadas ao longo do tempo. A partir de vários títulos, apresenta-nos São José e desafia-nos a imitá-l’O: Pai amado; Pai de ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador, e Pai na sombra.

“A grandeza de São José consiste no facto de ter sido o esposo de Maria e o pai de Jesus. Dia após dia, José via Jesus crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52). Como o Senhor fez com Israel, assim ele ensinou Jesus a andar, segurando-O pela mão: era para Ele como o pai que levanta o filho contra o seu rosto, inclinava-se para Ele a fim de Lhe dar de comer (cf. Os 11, 3-4). Jesus viu a ternura de Deus em José: «Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor Se compadece dos que O temem» (Sal 103, 13)”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/06, n.º 4588, 15 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Maria adentra-nos no Advento

Quando esta edição ficar disponível para leitura, já teremos vivido um dos momentos mais emblemáticos da liturgia católica, a Solenidade da Imaculada Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. Celebramo-la em pleno Advento. Preparamo-nos, liturgicamente, para a festa mais popular em todo o mundo, e não apenas em ambientes cristãos, o Natal de Jesus. A figura da Virgem Maria é incontornável, como o é também São José, ainda que ao longo dos anos tenha sido relegado para um papel muitíssimo secundário.

Desde os primeiros instantes, a Virgem Maria, Mãe de Jesus, tornou-se uma figura importantíssima para a Igreja e para os cristãos. Os discípulos perceberam, cedo, que Maria estivera sempre próxima de Jesus, desde a gestação até à morte, mas também uma presença autorizada nas primeiras “reuniões” dos discípulos após a morte de Jesus.

No alto da Cruz, Jesus revela que a Sua Mãe é também Mãe do discípulo amado, de todo o discípulo que O seguir por amor. Eis a tua Mãe, eis o teu filho. E dessa hora em diante, o discípulo recebeu-a em sua casa. Não é um discípulo, é cada discípulo amado, cada discípulo que se debruça sobre o peito de Jesus. Eu e tu. O discípulo amado não tem nome. Melhor, tem o nome de cada um de nós que segue Jesus, imitando-O, procurando, no dizer de São Paulo, que Ele viva em nós. A comunidade primitiva cumpre essa missão de acolher Maria como Mãe, em cada casa, em cada assembleia (= Igreja).

Ao longo da vida pública de Jesus, Maria é uma presença discreta, não se intromete, não ofusca a vida do Seu filho, confia, mas não se alheia d’Ele e por isso a vemos em situações mais críticas ou mais decisivas, nas Bodas de Canaã, intervindo, fazendo chegar a Jesus os pedidos das famílias dos noivos, apontando depois, para os servos, e para nós: fazei tudo o que Ele vos disser; quando se levantam vozes sobre a possível loucura de Jesus, Maria apresenta-se com outros familiares, para se assegurar que Ele está bem e, se necessário, acolhê-l’O de regresso a casa; junto à Cruz, ferida, mas firme, para dar forças ao Seu querido Filho. É fácil imaginar muitos outros momentos em que Nossa Senhora agiu com docilidade, sem chamar a atenção, em momentos de festa e de luto, no meio da multidão ou em casa, atarefada para acomodar Jesus e os Seus discípulos. E, como Mãe, sempre atenta e à espera de notícias sobre Jesus.

Maria adentra-nos no Advento, prepara-nos para o encontro com Jesus, inunda o nosso coração de festa, como de festa inundou o seio de Isabel e o coração de João Batista. Este, ainda dentro do ventre materno, salta de alegria pelo encontro, pela proximidade com o Salvador do mundo. Maria corre veloz pelas montanhas, como mensageira da paz, levando Jesus e as maravilhas que Deus opera nela e na humanidade. Quem está preenchido de festa, só pode extravasar de alegria. Cada um chora à sua maneira, mas a alegria tende a contagiar.  O sofrimento irmana-nos, pelo silêncio e pelo abraço, pelas lágrimas ou falta delas. A alegria, genuína, é sonora, expõe-nos diante do outro.

Perante o Anjo, Maria ensina-nos a rezar um sim que é chamamento eterno: faça-se segundo a tua Palavra. É esta a senha, a chave que nos faz ver Jesus, conhecer o Deus-connosco, e a dispormos o nosso coração para ser a manjedoura onde Jesus vai nascer, onde repousa a Luz do seu amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/05, n.º 4587,8 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Antes e para lá da pandemia

Sim, não é só para lá do orçamento que há mais vida, também antes e para lá da pandemia. Como está à vista, a pandemia veio tornar mais difícil a vida de empresas e de famílias, desequilibrar orçamentos e perigar as bolsas de valores, pôr à prova a resiliência de muitos e a agilidade dos governantes, exigir investimentos na saúde e na investigação. Como sublinhou o Papa Francisco, no dia 27 de março, a pandemia pôs a descoberto muitas fragilidades e a impossibilidade de continuarmos a ser saudáveis num mundo doente.

Há uma multidão imensa de pobres, de excluídos, de refugiados, de vítimas de violência doméstica ou de guerrilhas; crianças exploradas e esquecidas; mulheres com ventres esventrados e violados; famílias impedidas de o serem; crentes perseguidos e expulsos de empregos, das suas casas e dos seus países; crianças sem teto, sem pão, sem acesso à educação; tráfico de pessoas e de órgãos humanos; trabalho escravo, exploração sexual; descarte das pessoas que incomodam ou já não são úteis, tal como no nazismo. Tudo isto já existia antes da pandemia. O novo coronavírus fez parar o mundo ou, pelo menos, abrandá-lo, ao ponto de o ambiente estar agora mais saudável. E, no entanto, havia pessoas que morriam à fome e continua a haver muitas mais pessoas a morrer à fome.

A revista Além-Mar costuma presentar-nos com números e com percentagens que nos permitem ver rapidamente o quão longe estamos da fraternidade. No mês novembro, por exemplo, um estudo sobre o saneamento básico no mundo. É espantoso. Existem 2,3 milhões de pessoas sem saneamento básico. 297 000 crianças com menos de 5 anos que morrem todos os anos por falta de água potável e saneamento básico; 2 000 milhões de pessoas que usam água potável de fonte contaminada com fezes; 1 500 milhões de pessoas em todo o mundo que usam o serviços de saúde sem saneamento básico; 673 milhões de pessoas em todo o mundo que ainda praticam a defecação a céu aberto; 432 000 mortes anuais por diarreia provocada pela falta de saneamento; 1/3 fração de escolas em todo o mundo que não têm serviços de saneamento básico; é 20 vezes maior a probabilidade de crianças morrerem nos países em conflito devido à falta de saneamento básico do que devido à violência; 45% da população mundial tem acesso a uma gestão segura de saneamento básico em casa e 17% nos campos de refugiados.

Eis a população sem acesso a condições básicas de saneamento por zonas geográficas: 106 milhões na América Latina; 695 milhões na África subsariana; 176 milhões no Sudoeste asiático; 953 milhões no Sul da Ásia, e 337 milhões no Este asiático. São números, é certo, mas números de pessoas com nome, com rosto, com desejo de viver, mas sem muitas expetativas que não seja sobreviver mais um dia. E se avançássemos umas páginas na referida publicação, Além-Mar encontraríamos números sobre a exploração (escrava) do cobalto. Há um caminho longo a percorrer.

Entramos no caminho de preparação para o Natal. É um tempo de especial sensibilidade social. Sem esquecermos os de perto, podemos também ajudar os de longe. Por todos, diz o povo, não custa nada. Entre outras, duas campanhas solidárias, que já trouxemos à Voz de Lamego: 10 Milhões de Estrelas – Um gesto pela paz, da Cáritas, e a campanha do Banco Alimentar contra a Fome, na recolha de alimentos.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/04, n.º 4586, 2 de dezembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Em busca do que somos

Não podemos voltar ao passado, mas devemos tornar-nos aquilo que somos como pessoas. É o desafio permanente do cristão, tonar-se aquilo que é pelo batismo, filho amado de Deus. Estamos enxertados em Cristo, morremos com Ele e com Ele ressuscitamos novas criaturas, ajustando a nossa vida com a d’Ele e fazendo com que a nossa vontade esteja sincronizada com a d’Ele. É também essa a missão de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). O discipulado consiste em O seguir. “Como O Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21), “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (Jo 15, 14).

Vamos iniciar um novo ano litúrgico e cada novo ano, seja civil, seja, neste caso, litúrgico, desafia-nos a avaliar o caminho percorrido e a traçar propósitos que nos façam avançar, confiantes, seguros e disponíveis para lidar com o dia a dia, com as suas adversidades e com as suas bênçãos, comprometendo-nos, mais e mais com aquilo que nos torna mais humanos, mais cristãos, comprometidos na transformação do mundo, o que passa pela nossa conversão. Parar é morrer. Mais vale, como muitas vezes nos tem dito o Papa Francisco acerca da Igreja, mais vale sair e ter um acidente do que ficar parado a ganhar mofo. É a nossa condição humana. É a nossa vocação cristã. No dizer de Blaise Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Fomos criados por Deus para as alturas, para coisas grandiosas. A nossa condição humana pode transparecer egoísmo, mas a nossa identidade primeira, o primeiro amor, de Deus por cada um de nós, desafia-nos a acolher o Seu projeto: sermos felizes. Como disse o Santo Padre aos jovens: “Não fomos feitos para sonhar os feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida”.

A nossa busca, incessante, é voltar, não atrás, mas a efetivar o que somos em potência, pela graça do Batismo. É sugestiva a música da dupla Carlos Tê/Rui Veloso: “Nunca voltes ao lugar / Onde já foste feliz / Nunca mais voltes à casa / Onde ardeste de paixão / Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado / Por grande a tentação / Que te crie a saudade / Não mates a recordação / Que lembra a felicidade / Nunca voltes ao lugar / Onde o arco-íris se pôs / Só encontrarás a cinza / Que dá na garganta nós”.

A Nicodemos, Jesus responde precisamente: “Quem não nascer de novo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3.5). São elucidativas as palavras do Papa, no último domingo [ver homilia, página 7]: “A vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas. Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam grande a vida. De facto, tornamo-nos naquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos rancorosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/03, n.º 4585, 24 de novembro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: O encontro com o Senhor do Tempo

O tempo é uma espécie de espiral que se enlaça entre lutos e vidas novas, entre fins de ciclos que nos conduzem para novas situações e novos projetos. Com efeito, como seres humanos somos constituídos no tempo e inseridos no espaço, somos presente, enraizados no passado e impelidos para o futuro. As memórias solidificam o que somos e as capacidades que temos, permitem-nos caminhar entre as coisas boas que já fizemos, as menos boas que queremos e podemos evitar, para que na atualidade não sejamos fantasmas do que fomos. Por outro lado, como o amanhã pertence a Deus, olhamos para o futuro com esperança, pois Aquele que está no início também vai estar à nossa espera no final do caminho; Quem nos gerou para vida também garantirá que a nossa vida não se perde.

No final do ano litúrgico, particularmente nas parábolas de Jesus, que o Evangelho nos serve aos Domingos, somos colocados diante do Senhor do Tempo, como Juiz benevolente e Pai misericordioso.

No entretanto, sem Se ausentar, alheado e distante, Deus confia-nos o mundo, dá-nos o tempo, gratuitamente, os dons e os talentos, para que cuidemos uns dos outros e para administrarmos os bens da criação. A perspetiva não é o açambarcamento, mas a partilha que multiplica o que se dá! Como sublinha D. António Couto, o pecado dos primeiros pais não foi o comerem do fruto da árvore, mas o facto de o recolherem e o reterem só para si mesmos, sem deixar nada para outros. O que Deus dá não é para esconder, para guardar, mas para dividir. O que guardamos perde-se, o que damos multiplica-se.

No final da caminhada, Ele estará, como sempre, à nossa espera. Ajustamos contas, não com um estranho, mas com Alguém que nos conhece e que conhecemos. Precede-nos na vida e espera por nós para nos acolher na Sua habitação eterna.

O Reino de Deus é comparável a 10 virgens que esperam para receber e acompanhar o noivo ao banquete nupcial. Esperamos, não de braços cruzados, mas ativamente, vigilantes. Quem vai para mar prepara-se em terra. Parte do grupo prepara-se e leva azeite nas candeias e de reserva nas almotolias. As outras apostam na sorte: ou que o noivo venha cedo ou alguém possa ajudá-las caso fiquem sem azeite. Na verdade, somos responsáveis uns pelos outros. Mas há a responsabilidade pessoal, os outros não nos substituem, não vivem por nós. Deus não vive na nossa vez.

O reino de Deus é comparável àquele homem que partiu de viagem e confiou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro. Os primeiros duplicaram o valor. O último, com medo, escondeu o talento, não produzindo. Não arriscou nada. O cristão é alguém que tem que arriscar. [Cf. Homilia do Papa Francisco no Dia Mundial dos Pobres, na página sete desta edição] O que nos é dado não é para devolver a Deus como Ele no-lo confiou, mas para o multiplicarmos, no cuidado por toda a criação, especialmente pela humanidade, e sobretudo na atenção privilegiada aos mais pobres, ao jeito de Jesus, traduzível na práticas das obras de misericórdia. No final seremos julgados pelo que fizemos aos mais pobres. É Jesus quem no-lo diz: o que fizeste aos mais pequeninos foi a Mim que o fizeste. A vida eterna começa em terra. O amanhã decide-se hoje, o final inicia-se na história e no tempo para que diante do Senhor do Tempo a nossa vida lhe seja entregue preenchida de amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/02, n.º 4584, 17 de novembro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Trump e Biden, conspirações e palhaçadas

Uma das notícias destes dias é a eleição do novo Presidente dos EUA, que tudo indica será Joe Biden, candidato democrata, derrotando o até aqui Presidente republicano Donald Trump. Lance-se o fogo de artifício, o mundo está a mudar! Agora até a pandemia vai chegar ao fim! A economia vai integrar os milhões de pobres; a liberdade, a igualdade e a fraternidade terão de novo cidadania!

Uma dose de confiança faz-nos bem, mas talvez o Presidente dos EUA, seja ele quem for, esteja mais preocupado com as intrigas internas, com a manutenção do status quo dos membros do partido, nos faça perceber que o país continua a dominar o mundo, e exiba acordos de paz, enquanto vende armamento armazenado para renovar os seus novos arsenais.

Isto pode parecer cinismo! Uma dose de esperança, ou de expetativa, faz-nos bem, porque nos mobiliza e nos empenha na transformação do mundo. No dia em que deixarmos de acreditar, começaremos a morrer. A eleição do Presidente da maior potência do mundo deve ser vista como um motivo de esperança e, por maioria de razão, quando chega ao final um dos mais controversos mandatos presidenciais.

Os norte-americanos são peritos em teorias da conspiração. Donalt Trump potenciou ao máximo estas teorias. Conspirações nas eleições, nas anteriores e nas atuais, conspirações na “criação” e expansão do contágio do novo corona vírus. Não é o primeiro a atribuir uma situação negativa, por culpa própria ou alheia, a conspirações, que muitas vezes não passam de desculpas e justificações. Não é exclusivo dos EUA, em muitos outros países acontece, em ditaduras, mas também em democracias, nos partidos, nos clubes e na Igreja. Há quem suspeite de tudo e de todos, numa preocupação excessiva por manter o estatuto ou o poder, há líderes (fracos) que veem conspiração em toda a parte, sentem-se ameaçados ou inseguros, esperam aplausos por tudo e por todos, independentemente dos méritos, não admitindo ideias diferentes, alternativas, visões que ajudem a melhorar as coisas. Claro que as conspirações existem, como sempre existiram, e, na maioria das vezes, vêm dos círculos mais próximos.

Mas, por outro lado, eu só votaria no Biden como se fosse um mal menor. No primeiro debate entre os dois candidatos, Joe Biden nunca olhou nos olhos do seu adversário e a única frase relevante que fixei foi: cale-se, palhaço. Cale-se, palhaço! Um candidato a Presidente da maior potência do mundo, com idade para ter juízo, chamar palhaço ao ainda Presidente, é no mínimo surrealista!

Que lições podemos tirar destas duas personagens?

Para nós cristãos o modelo por excelência é Jesus. São paradigmáticas as palavras de Jesus aos Seus discípulos, desejosos de constituírem um grupo fechado, excluindo outros, mesmo que façam o bem: “Ninguém fará uma ação em Meu nome e logo de seguida dizer mal de Mim; quem não é contra nós, é a nosso favor” (Mc 9, 39-40). Jesus Cristo, no final, foi vítima de conspiração, mas em nenhum momento Se deixou manietar pelos adversários ou mesmo pelos discípulos, sabia de que somos feitos, mas ainda assim apostou e aposta em nós, porque em nós habita a Sua santidade, ainda que sejamos habitados também pelas nossas limitações e pelo nosso egoísmo.

Não sei se aprenderíamos com o Biden a lidar com os nossos adversários, mas aprendemos com Jesus. Ele olha-nos nos olhos. O olhar de Jesus é uma constante. Olhos nos olhos. Mesmo os Seus adversários sentem um olhar terno, próximo, transparente. Quem não consegue olhar os outros nos olhos só pode esconder uma grande insegurança ou uma grande mentira.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/01, n.º 4583, 10 de novembro de 2020