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Archive for the ‘Editorial’ Category

ADVENTO – PERGUNTAR | Editorial Voz de Lamego | 12.dezembro.2017

ADVENTO – PERGUNTAR

Se a primeira palavra do anjo a Maria é um convite a alegrar-se por causa de ser amada por Deus, a primeira palavra de Maria ao convite do anjo para participar no mistério da Incarnação é uma pergunta: “Como será isso?” (Lc 1, 34).

Quantas vezes o crente se coloca diante de Deus para rezar e a sua oração é preenchida com perguntas ou perplexidades diante do acontecido, manifestando um espírito crítico e exercitando o dom da inteligência recebido?

Maria não coloca em causa o cumprimento de quanto lhe é dito “da parte do Senhor”, porque a Deus “nada é impossível”; apenas quer saber um pouco mais.

A pergunta potencia o diálogo, envolve e liberta os protagonistas. Não será apenas sinónimo de dúvida ou sinal de desrespeito, mas pode evidenciar uma procura sincera, a busca preocupada com a verdade, o ultrapassar de um comodismo acrítico ou a postura amorfa.

A pergunta e a procura abrem para a novidade e são um dom que permite avançar. O próprio Jesus educa os seus discípulos através de perguntas e motiva-os na busca das respostas. Alguém já se deu ao cuidado de fazer a contagem: os evangelhos referem mais de duzentas e vinte perguntas do Senhor.

Na vida familiar ou comunitária, nas relações hierárquicas ou na missão pastoral a pergunta tem sempre lugar e permite crescer, caminhar e formar opinião.

E se é importante perguntar ao Outro e aos outros e estar atento às respostas, o Advento pode ser uma oportunidade para nos colocarmos algumas questões. Por quem espero? Por quem caminho? O que posso pedir a Deus? O que é que eu sonho? O que é que me faz falta? De que preciso? O que é que procuro?

JD, in Voz de Lamego, ano 87/54, n.º 4440, 12 de dezembro de 2017

CONVITE à ALEGRIA | Editorial Voz de Lamego – 5.dezembro.2017

ROME, ITALY - MARCH 27, 2015: The fresco of Immaculate Conceptio

CONVITE À ALEGRIA

Na próxima sexta-feira, 8 de dezembro, a Igreja celebra a solenidade da Imaculada Conceição, Padroeira de Portugal. Uma festa que nos fala de um Deus que ama, que se ocupa e preocupa com as suas criaturas e nos mostra como o mal não vencerá.

O relato da Anunciação é o texto evangélico do dia, convidando a viajar até uma insignificante terra da Galileia, a entrar numa singela habitação e a testemunhar o encontro/diálogo entre o mensageiro divino e uma discreta jovem que se disponibiliza para participar no plano de Deus.

No chamamento/convite de Deus a Maria percebemos que, mais do que um desenvolvimento de capacidades humanas, a vocação será, sobretudo, abertura à novidade do alto e a confiança n’Aquele para quem “nada é impossível”. Consciência dos limites humanos e confiança na misericórdia divina.

“Alegra-te!” é a primeira palavra do anjo Gabriel, um convite, em tom imperativo, à alegria messiânica. Como alguém notou, o anjo não pede a Maria para se ajoelhar, esconder ou rezar; no início do anúncio/diálogo é pedido a Maria que se alegre. E que razões, humanamente falando, teria Maria para se alegrar? Talvez tantas como aqueles que, também hoje e em tantos lugares da terra, se sentem esquecidos de Deus, experimentam o ódio e a indiferença humanas ou se vêem privados de tudo e também da esperança!

Mas o convite mantém-se. Porque é o amor de Deus por todos e cada um que torna possível tal alegria, que não pode confundir-se com a gargalhada ruidosa, o gozo que vem do ter ou aparência que ilude. A humanidade é convidada a alegrar-se porque se sabe e se sente amada.

A Incarnação anuncia a derrota do mal e o sim de Maria ilustra a abertura do humano ao amor de Deus.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/53, n.º 4439, 5 de dezembro de 2017

ENDIREITAR CAMINHOS | Editorial Voz de Lamego | 28 de novembro

ENDIREITAR CAMINHOS

No próximo domingo iniciamos um novo ano litúrgico com o tempo do Advento que, como sempre, convida a esperar, de maneira atenta e activa, o Senhor. Uma espera que continua depois do Natal e se assume ao longo da vida, traduzindo-se num esforço de bem preparar o encontro definitivo.

Nesse sentido, uma das expressões que se ouve nestes dias, “endireitar os caminhos do Senhor”, vale para sempre e apela à participação consciente e responsável de cada um, revelando-se fundamental para acolher e testemunhar um Deus que não se impõe nem dispensa o contributo e o protagonismo humanos na edificação do Reino.

Estamos, assim, longe do sentido dado por muitos quando afirmam “é preciso alguém para endireitar isto ou aquilo”, como sinónimo de imposição de normas ou de uma visão justiceira (para os outros), esquecendo a compaixão e a misericórdia.

Endireitar caminhos será, porventura e antes de mais, olhar para si e, confiando na graça de Deus e nos dons recebidos, avançar:

evitar os sempre atractivos e ilusoriamente cómodos atalhos que, a pretexto da facilidade, podem levar por vias contrárias ao Evangelho;

deixar de preocupar-se tanto com as cinzas e ocupar-se mais com as brasas que ainda ardem;

viver com serena alegria a paixão por Jesus Cristo e a pertença eclesial, testemunhando a fé e tornando-se credível;

fazer da proximidade uma meta, encurtando distâncias e vencendo indiferenças;

ser sal e luz que se espalham, não para ofuscar, ferir, ocupar o centro, chamar a atenção ou perpetuar o ego, mas para valorizar os outros, ao jeito de João Baptista e de tantos que se doaram e voluntariamente se apagaram sem medo de desaparecer…

Endireitar caminhos seguindo o convite do Senhor, o mesmo que nosso plano pastoral repete: “Vai e faz também tu do mesmo modo”.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/52, n.º 4438, 28 de novembro de 2017

ORDENAÇÃO – DIÁCONO | Editorial Voz de Lamego | 21 de novembro

ORDENAÇÃO – DIÁCONO

No próximo domingo, 26 de novembro, encerramos o ano litúrgico em curso, com a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo.

Na nossa diocese, a data é também marcada pelo assinalar de mais um aniversário da dedicação da igreja catedral (21 de novembro).

Mas este dia festivo será ainda enriquecido com a ordenação diaconal de um jovem que terminou há poucos meses a sua caminhada no Seminário e vive agora o seu estágio pastoral, o Vitor Manuel Teixeira Carreira. Natural de Queimadela, Armamar, deixou-nos um texto antes de partir para Avessadas, Marco de Canavezes, onde, por estes dias, está em retiro espiritual, acompanhado pelos padres Carmelitas.

Com alegria, esperamos testemunhar a sua ordenação presbiteral no primeiro domingo de julho de 2018. Até lá, caminharemos com ele e por ele rezaremos ao Senhor da Messe, para que o proteja e abençoe na vivência do seu sacerdócio e no cumprimento da sua vida.

A ordenação é sempre um momento de festa para a Igreja e o acontecimento deve ser anunciado e vivido com alegria por toda a comunidade que testemunha a entrega generosa de uma vida à causa do Evangelho e da humanidade. Porque toda a ordenação visa sempre testemunhar Jesus Cristo para a salvação de todos.

Mais do que lamentar a diminuição do número de ordinandos, importa enaltecer a prontidão de quem responde ao chamamento e a disponibilidade generosa para ser enviado a servir no mundo. Não sabemos como será o futuro nem se teremos muitas ou poucas ordenações; sabemos que não estamos sós e confiamos na providência divina para os dias que virão e para iluminar a Igreja no encontrar de soluções.

Por agora, felicitamos o Vitor pela sua decisão e juntamo-nos a todos quantos se alegram com a sua ordenação.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 87/51, n.º 4437, 21 de novembro de 2017

SERVIDORES DA FESTA | Editorial Voz de Lamego | 14 de novembro

SERVIDORES DA FESTA

Estamos a viver a Semana dos Seminários, este ano sob o lema “Fazei tudo o que Ele vos disser”.

Conhecemos estas palavras do episódio bíblico das “bodas de Caná”. São proferidas por Maria, a Mãe de Jesus, e dirigidas aos serventes presentes na festa. Não sabemos os seus nomes, nem se todos foram diligentes a obedecer. A verdade é que, logo a seguir, a bebida chegou às mesas e surpreendeu pela qualidade. O vinho novo é obra do Senhor, mas foram os discretos serventes que o distribuíram aos convivas.

Os nossos padres também andam por aí, quais serventes, a esforçarem-se por estar junto de quem lhes foi confiado, a cumprir o que deles se espera, a obedecer ao Senhor que os chamou e enviou, a servir a humanidade… De vez em quando alguns são notícia, mas a grande maioria continuará anónima.

Apesar dos limites e tentações, dos muitos ou poucos talentos, em meios mais ou menos acolhedores e gratos, com sorrisos e também com lágrimas, a verdade é que os nossos sacerdotes contribuem decisivamente para o anúncio da Palavra, a celebração da Fé e o testemunho da Caridade.

Como os serventes de Caná, podem ser discretos e anónimos, mas contribuem para a festa e para a alegria dos convivas, distribuindo as graças de Deus.

E os Seminários alegram-se com isso, porque, de alguma maneira, foram decisivos para a existência destes humildes servidores, a quem acolheu quando jovens, a quem formou e preparou, a quem continua a acompanhar e por quem continuamente reza para serem os “serventes” a quem o Senhor Se confia e entrega para chegar à vida e à mesa de todos.

 

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 87/50, n.º 4436, 14 de novembro de 2017

AMNÉSIA E CULTURA | Editorial Voz de Lamego | 7 de novembro

AMNÉSIA E CULTURA

O teólogo W. Kasper fala da “tradição” como a possibilidade do homem se alavancar nos ombros da geração anterior que o acolhe, protege, acompanha, apoia e lhe proporciona conhecimentos, técnicas e experiências. Dito de outra maneira, cada geração beneficia das vivências, descobertas e avanços das gerações anteriores.

No entanto, ao olharmos para a sociedade actual, somos capazes de a perceber como uma sociedade que se caracteriza como “pós-tradicional” (D. Hervieu-Leger), marcada pela “cultura da amnésia” (J. B. Metz) que a leva a esquecer-se de que o homem não é apenas a sua própria experiência, mas também a sua memória.

Numa época marcada pela diversidade, pelos desenvolvimentos tecnológicos e pelo ambiente urbano, as tradições perdem relevância, tal como as instituições que as defendem e promovem (família, Igreja…). Importa o momento presente, a ânsia de esgotar todas as possibilidades, a diversão constante, o gozo individual e a possibilidade de esquecer rapidamente (factos e pessoas).

Mas se a amnésia se impõe face ao acontecido, também se pode vislumbrar uma certa desresponsabilização diante das gerações futuras, a quem caberá “desenrascar-se” a seu tempo. E esta postura de quem vive como se não existisse um antes e um depois, leva a falar do “homo clausus”, ou seja, “de homem que vive para si mesmo, isolado, como mónada separado do mundo exterior” (L. Manicardi).

O mês de novembro (também) pode ajudar a contemplar as gerações passadas, a admirar os seus feitos e a valorizar o seu legado, ao mesmo tempo que convidará a sair de si e a olhar para diante, a descobrir-se limitado, mas capaz de contribuir para a geração futura. Uma rápida visita ao cemitério aviva a memória e convida a ultrapassar algum individualismo.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 87/49, n.º 4435, 7 de novembro de 2017

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SOCIEDADE PÓS MORTAL | Editorial Voz de Lamego | 31 de outubro

SOCIEDADE PÓS MORTAL

Em pleno Outono, quando a natureza se despede do verde e as cores amarelecidas anunciam o inverno, os cristãos professam a sua fé na comunhão dos santos e suplicam em favor dos que já partiram. Amanhã iniciamos o mês de novembro, o penúltimo do ano.

E falar do “mês das almas” é também lembrar a morte, essa temível e desconfortável realidade que esta sociedade vai escondendo, o que leva a caracterizá-la como “sociedade pós-mortal”. Não porque a morte tenha sido suspensa, como no livro de Saramago “As intermitências da morte”, mas porque paira a convicção de que o progresso acabará por retardar tal momento. Uma sociedade que se caracteriza pela “vontade de viver sem envelhecer, de vencer a morte com a técnica, de prolongar indefinidamente a vida” e que desafia o homem a preparar-se para “gerir a morte” (eutanásia).

Contudo, a morte continua a ser um obstáculo limitador do homem e do progresso ilimitado. O homem sabe que tem de morrer e isso incomoda-o, apesar do aumento da esperança de vida e do acréscimo de longevidade que prolonga a velhice e torna mais longa a espera da morte.

A religião também é afectada, já que se espera “da técnica, das tecnociências, das ciências biomédicas, aquilo que outrora se esperava da religião, ou seja, o sonho do prolongamento indefinido da vida”. Dito de outra maneira, espera-se que a ciência traga o que a religião prometeu durante séculos.

Para quem deseje ler algo sobre o tema, fica a sugestão do livro “Memória do limite. A condição humana na sociedade pós-mortal”, de Luciano Manicardi, no qual se expressa uma proposta de reflexão para melhor nos situarmos e avançarmos rumo a uma “ética da morte”, onde se conjuguem realidades como vulnerabilidade, compaixão, cuidado ou dignidade.

 

in Voz de Lamego, ano 87/48, n.º 4434, 31 de outubro 2017