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Archive for the ‘Editorial’ Category

Editorial Voz de Lamego: Maria, modelo da Igreja em saída

“A Igreja negligencia algo que lhe é mandado se não louva Maria. Quando o louvor de Maria nela emudece, a Igreja afasta-se da palavra bíblica. Quando isso acontece também não louva a Deus de forma suficiente…. Maria foi uma dessas pessoas que se inserem de forma muito especial no nome de Deus, tanto que não O louvamos suficientemente quando A pomos de parte” (Cardeal Ratzinger / Bento XVI).

Em cada ano pastoral, Maria terá que ser, sempre, uma figura visivelmente presente. Ela ensina-nos a dizer sim, mesmo quando os nossos passos são vacilantes ou incertos. Ela dá-nos Jesus. Gera-O no seu sim e no seu ventre. Ela mostra-nos Jesus. Ela guia-nos para Jesus. Ela manda-nos obedecer a Jesus: Fazei tudo o que Ele vos disser. Com São José, ensina-nos a procurar Jesus, caso nos desencontremos d’Ele. Nos momentos de maior tensão, quando Jesus é acossado de variadas maneiras, Maria ensina-nos a persistência do caminho. Não se afasta. Vai para o meio da multidão. Segue Jesus de perto, mesmo que sujeita a injúrias ou ao destino do Filho. Prevalece a maternidade, a ligação umbilical, o amor, o sim a Deus. Hão de ter havido momentos em que Maria não podia mais: os maus tratos infligidos a Jesus, as agressões, o chorrilho de calúnias, o Seu corpo dilacerado pelas chicotadas, pelo peso da cruz e, para concluir, a crucifixão, em carne viva, quase irreconhecível… Maria, como Mãe, não vacilou, manteve-Se perto, como tantas Mães para as quais não há limites para protegerem os filhos ou respeitarem (em silêncio) as suas opções… E o reconhecimento vem também do alto da Cruz: eis o teu filho, eis a tua Mãe… e a partir dessa hora, o discípulo predileto recebeu-A em sua casa. Se queremos ser hoje os discípulos prediletos, já sabemos quem temos de levar/trazer para casa, e para a Igreja.

A Diocese de Lamego dá tom ao ano pastoral que se avizinha com o lema: Igreja em caminho e em comunhão. A dinâmica, de sempre, sublinhada nos últimos anos na diocese, e com insistência no magistério do Papa Francisco, faz-nos tomar consciência de somos Igreja em saída, que caminha ao encontro dos outros, sobretudo dos que estão nas margens sociais, religiosas, culturais, políticas e económicas, para com eles construirmos fraternidade, comunhão dos irmãos que reconhecem o mesmo Pai, assumindo-se como irmãos em Jesus Cristo. Maria é paradigma e modelo desta Igreja em saída para fomentar a comunhão: sai da sua vida calma para ser Mãe de Deus; apressa-se em ir em auxílio de Isabel, levando a alegria da salvação; nas Bodas de Canaã, sai da descrição de convidada para interceder pelos noivos; na Cruz, passa da sua casa para a casa de cada um de nós; depois da morte de Jesus, mantém a comunhão da comunidade, em oração e em espera.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/38, n.º 4525, 10 de setembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Igreja sinodal e conciliar

O Deus revelado em Jesus Cristo é Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Um só Deus e três Pessoas distintas. É um mistério que se desvela em Cristo como comunhão de vida e de amor; paradigma, fonte e inspiração para a Igreja, modelada à imagem da Santíssima Trindade, acolhendo a diversidade de povos, línguas e nações, congregando-as como Povo de Deus, como Corpo de Cristo. Nestas duas imagens, Povo e Corpo, já temos a origem, divina, e a prevalência comunitária, mas inclusiva, dos seus membros. Um povo é constituído por pessoas, mas simultaneamente dá-lhes identidade, é este povo (de Deus) e não outro. Um corpo, do mesmo modo, é constituído por vários membros, distintos, mas que integram e formam o todo.

A Igreja em Lamego vai ser desafiada a caminhar em comunhão, numa perspetiva sinodal.

A palavra “sínodo”, de origem grega, é composta de duas palavras, “syn”, que significa “juntos”, e “hodos”, que significa “estrada ou caminho”. Pode entender-se como reunião ou assembleia (Igreja), valorizando-se mais a reflexão ou mais o caminho. Mas será sempre na perspetiva de nos pormos a “caminhar juntos”, procurando acolher a vontade de Deus na realidade atual, indo ao encontro daqueles que estão em situação mais frágil.

Sobretudo depois do Concílio Vaticano II, e com o Papa Paulo VI, foi dada relevância aos sínodos, instrumentos de auscultação sobre uma temática atual, preocupações e desafios, ou sobre a vida eclesial em determinado território (dioceses ou regiões do mundo), mais locais ou sob a presidência do Papa, no Vaticano. O concílio, por sua vez, é mais abrangente. Concílio provém do latim “concilium” e significa reunião, assembleia. Sínodo e Concílio são, como se vê, termos muito idênticos, ainda que a abrangência seja diferente. Há, a propósito, três tipos de concílios: provinciais, plenários e ecuménicos. Os mais conhecidos são os ecuménicos ou universais. São reconhecidos 21, sendo o primeiro o de Niceia, realizado no ano de 325, e o último o do Vaticano II, nos anos de 1962-1965. O concílio ecuménico reúne bispos do mundo inteiro, sob a autoridade do Bispo de Roma, o Papa. Acentua-se a colegialidade apostólica, entre os Bispos, como no início da Igreja com os 12 Apóstolos.

Logo nos primórdios da Igreja realiza-se o que foi considerado o primeiro concílio da Igreja, a assembleia dos Apóstolos, em Jerusalém. Paulo e Barnabé fazem chegar aos Doze uma discussão havida na Igreja de Antioquia sobre a forma de acolher os pagãos, predispondo-se a refletir com os Apóstolos e a regressarem com as decisões aí tomadas.

Mas já antes os Apóstolos se tinham reunido com comunidade para tomar decisões, como a escolha do Apóstolo que substitui Judas Iscariotes no grupo dos Doze ou a criação dos sete diáconos.  Vislumbre da sinodalidade da Igreja, que procura perscrutar os sinais dos tempos, colocando-se à escuta do Espírito Santo.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/37, n.º 4524, 3 de setembro de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Em caminho e em comunhão

O caminho faz-se caminhando. Pouco importa ter intenção de caminhar, dizer que se gosta e se vai caminhar se não se der um primeiro passo. É a vida. Pode custar a começar. Mas sem o primeiro não há o segundo passo, nem o terceiro passo.

Alguns ficam no início, outros à beira do caminho, outros voltam para trás, outros perdem-se e seguem por atalhos. O caminho é sempre mais fácil quando não vamos sozinhos. Um anima o outro, com uma palavra, uma provocação, um sorriso ou pegando pela mão ou, quem sabe, como o bom pastor, levando aos ombros. Agora ajudo eu. A seguir sou ajudado!

Jesus, para nós cristãos, é o próprio Caminho. “Eu Sou o caminho, a Verdade e a Vida”. Só por Ele vamos ao Pai. Se, por um lado, Ele vem em busca das ovelhas perdidas, por outro lado é o alimento e o alento, é o caminho, é por Ele e com Ele que prosseguimos.

A Igreja em saída não é uma descoberta do Papa Francisco – pese embora o mérito e a intuição com que tem desafiado os cristãos –, a Igreja em saída deriva de Jesus e da Sua missão. Ele sai, vem do Altíssimo, ao nosso encontro. E sai tanto que Se faz um de nós para connosco caminhar. A Sua vida pública é marcada pelo caminhar por aldeias e cidades para anunciar o Evangelho. Cedo se percebe que não é um excêntrico como, por exemplo, João Batista. Jesus não Se isola, a não ser para os momentos de oração e intimidade com o Pai, pelo contrário, rodeia-Se de pessoas, dos apóstolos, dos discípulos e das mulheres que os acompanham, como discípulas e ajudando, por certo, na logística das deslocações.

Vai à sinagoga ou acolhe as multidões. Sente necessidade de ir a outros lugares para se encontrar com pessoas. O mandato que nos deixa é explícito: ide e fazei discípulos. Caminho e comunhão. Anúncio do Evangelho e formação de comunidades que vivam a experiência da fé, a prática da caridade, marcados pela esperança que abarca a humanidade, a história e o tempo até à eternidade.

Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles (Mt 20, 18). Estarei convosco até ao fim dos tempos. Eu e o Pai somos Um. “Não peço apenas por estes, mas também por aqueles que acreditam em Mim, por meio da sua palavra: para que todos sejam um; tal como Tu, Pai estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em nós” (Jo 17, 20-21).

O compromisso missionário visa a construção da fraternidade cristã. Um só Pastor, um só rebanho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/35, n.º 4523, 27 de agosto de 2019

Editorial Voz de Lamego: Igreja em comunhão

Prefiro uma Igreja acidentada por sair, que uma Igreja “raquítica” por permanecer encerrada por medo ou por comodismo. São palavras do Papa Francisco que nos ajudaram a refletir sobre o lema pastoral da Diocese de Lamego para 2019/2020: “Igreja em caminho. Igreja em comunhão”. Enquanto esperamos pela Carta Pastoral do nosso Bispo, a apresentar a 28 de setembro, partiremos novamente das palavras do Santo Padre para refletirmos sobre a acentuação sinodal da Igreja.

Não basta partir! Partimos para levar Jesus, para dar Jesus aos outros, para transparecer Jesus, para, como Ele, cuidarmos dos mais frágeis. Não vamos sós. Não vamos em nosso nome. Mas em nome da comunidade, em nome da Igreja. Acentuação lunar da Igreja que reflete Jesus, a verdadeira Luz, assim como a Lua reflete a luz do Sol. Como membros da Igreja, também nós havemos de refletir a Vida de Jesus.

Em muitas das suas intervenções, o Papa junta dois vocábulos: caminhar e juntos. Não basta caminhar, mas caminhar juntos, inseridos na comunidade. Esta, à imagem da Santíssima Trindade, faz-nos avançar, ajuda-nos a não nos fecharmos sobre nós e não nos iludirmos com as nossas verdades! Juntos, apoiamo-nos, ajudamos a transportar a cruz uns dos outros. Pertencemo-nos, somos responsáveis pelos outros e eles por nós. Em Jesus, acentua-se a irmandade/fraternidade. Ele vem como Filho (de Deus) e logo Se assume como (nosso) Irmão. “Meu e Vosso Pai”. A oração que nos ensina é preenchida pela primeira invocação: Pai-nosso. Não Pai meu ou Pai teu, mas nosso. Colocamo-nos sob a mesma paternidade, assumimos a mesma filiação. Não é possível viver Cristo sem a comunidade, sem a Igreja, pois esta é o Seu Corpo, é no Corpo de Cristo que nos reconhecemos como irmãos uns dos outros e como filhos do mesmo Pai do Céu.

Outra das insistências do Papa é precisamente a construção da civilização do amor. Expressão muito cara aos seus Predecessores. Para isso, a aposta terá que ser na cultura do diálogo e do encontro, na opção pela ternura e pelo amor. E, como é óbvio, o encontro dá-se entre pessoas que se colocam em situação de igualdade e, de preferência, em situação de pertença mútua. Assim o diálogo, assim o amor. Vive-se. Partilha-se. Enriquece-se em comunidade, em família.

Jesus chama 12 Apóstolos que simbolicamente representam todo o povo. Ou chama e envia 72 discípulos, chama discípulos de todas as nações para os enviar a todas as nações. Vão dois a dois. Partem da comunidade e seguem ligados à comunidade. Não vão sós. Individualmente. Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, Eu estarei no meio deles. Sós, podemos equivocar-nos, perder-nos no caminho, desanimar…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/34, n.º 4522, 20 de agosto de 2019

Editorial da Voz de Lamego: A Igreja em caminho

O caminho da Igreja em Lamego é Jesus e em Jesus cada uma das pessoas que vive ou que visita o território que se estende de Cinfães a Foz Côa, de Castro Daire a São João da Pesqueira, de Vila Nova de Paiva a Armamar, integrando 14 concelhos, 6 arciprestados. Como sublinhou o concílio Vaticano II, o caminho da Igreja é o homem (GS 22).

E neste caminho, a nossa diocese desafia-nos a refletirmos durante três anos sobre a identidade, a realidade, a vocação e a missão da Igreja. O primeiro ano, 2018-2019, sob a dinâmica vocacional e missionária – Igreja de Lamego, chamada e enviada em missão –; o segundo ano sob a dinâmica sinodal – Igreja em caminho e em comunhão –, e o terceiro ano em abordagem da realidade mais concreta da Igreja peregrina no chão da nossa diocese.

De Cristo fluem rios de água viva, que geram vida e nos alimentam, dando sentido aos nossos dias, sentido além do tempo e da história, da nossa fragilidade e finitude. A água parada, estagnada, acabará por se tornar salubre, inquinada, imprópria para consumo, deixará de ser lugar de vida e onde nenhuma vida sobrevirá, a não ser que seja oxigenada pela terra… assim a vida da Igreja e a nossa vida.

A determinada altura Jesus diz aos Seus discípulos: vamos a outros lugares, anunciar o Evangelho, foi para isso que Eu vim ao mundo. Com efeito, os Evangelhos mostram que Jesus não se fixa num lugar específico, a não ser em Nazaré durante mais de 30 anos, tempo de enraizamento, em que Jesus, num ambiente familiar, aprende o valor da família, da amizade, da solidariedade entre vizinhos que se ajudam e se protegem mutuamente, o valor do trabalho honesto e o sacrifício de quem trabalha a terra e com esforço  sobrevive, pagando os elevados impostos que pesam sobre a maioria dos judeus, vivam em Nazaré ou vivam em Belém. A vida pública de Jesus é tempo de sementeira, é necessário lançar mãos ao arado e espalhar sementes de amor, de perdão e de esperança, de paz e de justiça.

No último conclave, o então Cardeal Bergoglio, que viria a ser eleito Papa (Francisco), fixava o caminho da Igreja – sair ao encontro dos mais frágeis, indo às periferias geográficas, mas sobretudo existenciais. Nos dias que se seguiram à Sua eleição, esta seria uma das palavras mais usadas. Uma Igreja a caminhar, em saída, comprometida com as periferias, em dinâmica missionária. Um Igreja lunar, disponível para comunicar a Luz do Sol, Jesus Cristo e como Ele, Bom Pastor, indo em busca das ovelhas perdidas.

 

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/34, n.º 4521, 13 de agosto de 2019

Editorial Voz de Lamego: Vinde e descansai um pouco…

Palavras simples, mas cheias de cuidado e atenção, de Jesus aos seus discípulos.

O contexto é narrado pelo evangelista: Jesus tinha-os enviado, dois a dois, em missão (Mc 6, 6-13). “Eles partiram e pregavam o arrependimento, expulsavam numerosos demónios, ungiam com óleo muitos doentes e curavam-nos”. No regresso desta jornada missionária, reúnem-se com Jesus e contam-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.

O evangelista não nos diz da reação de Jesus, se ficou contente ou se perguntou por mais informações. Pela continuação da narração, até parece que Jesus não se interessou muito com a missão dos Apóstolos, talvez não esperasse outra coisa deles. Confiou neles e rezou para que tudo corresse bem; confiou no Pai, certo de tudo estaria em conformidade com a vontade de Deus. Afinal, tinha-os instruído com clareza sobre a missão!

Mas logo, São Marcos mostra a delicadeza de Jesus que diz aos Seus apóstolos: “Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco”. E São Marcos continua dizendo “que eram tantos os que iam e vinham, que nem tinham tempo para comer”. Seguindo o conselho de Jesus, “foram, pois, no barco, para um lugar isolado, sem mais ninguém. Ao vê-los afastar, muitos perceberam para onde iam; e de todas as cidades acorreram, a pé, àquele lugar, e chegaram primeiro que eles” (Mc 6, 30-33).

Sabemos o que se segue: ao desembarcar, Jesus viu uma multidão, sentiu compaixão das pessoas que eram como ovelhas sem pastor, começou a ensinar-lhes muitas coisas. A delicadeza de Jesus é visível também agora: vendo que a hora ia adiantada, Jesus insiste com os discípulos: “dai-lhes vós mesmo de comer”. Jesus não prega para uma multidão anónima, mas para pessoas de carne e osso que precisam de descansar, de comer e de beber. Foi assim com os discípulos, foi assim com a multidão. Pode ensinar muitas coisas. É o início da caridade! Mas não pode deixar de atender às necessidades concretas que tem pela frente: dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, dar guarida a quem precisa de um ombro e de um abraço, levantar quem está caído, abatido, desiludido. O cristianismo faz-se de fé, de esperança e, sempre, de caridade. O cuidado concreto atesta da maturidade da fé. Acreditar no Amor de Deus para connosco compromete-nos com gestos concretos de serviço, atenção e docilidade para com a aqueles que o bom Deus coloca no nosso caminho.

São Marcos deixa ver um Jesus muito humano e cuja humanidade nos provoca a imitá-lO, a segui-l’O na concretude dos gestos de carinho e ajuda. Também nas férias e no descanso…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/33, n.º 4520, 23 de julho de 2019

Editorial da Voz de Lamego: Chamados e enviados… sempre

O ano pastoral está a chegar ao seu final. A Diocese de Lamego, em conformidade com o ano extraordinário missionário, de outubro a outubro, de 2018 a 2019, procurou, conjugando com a proposta do nosso Bispo para um triénio dedicado à Igreja, acentuar a nossa condição de vocacionados e enviados, podendo ser traduzido por uma expressão que amadureceu na América Latina, de onde é originário o Papa Francisco: discípulos missionários.

Tivemos a oportunidade, em diversos encontros, formativos ou celebrativos, de nos debruçarmos sobre o discipulado, sobre a nossa vocação. Com efeito, desde o seio materno, ou, numa expressão do Bento XVI, desde sempre, no pensamento de Deus, que somos chamados à vida, à felicidade, concretizável na santidade que nos humaniza e nos irmana.

O encontro com a alegria, o encontro com Jesus leva inevitavelmente à partilha, ao testemunho, ao anúncio. Tal como o amor de Deus implica o amor ao próximo, pois não é possível amar a Deus sem, em consequência, amar o(s) que Ele ama, também não é possível aproximar-se de Jesus, experimentar a alegria do encontro, a vocação, sem redundar em festa a necessitar de ser comunicada a todos os que vamos encontrando. Da reflexão, importa adequar a vida toda, a minha e a tua vida, a vida em comunidade, para viver em dinâmica missionária. Todos, tudo e sempre em missão.

Ao longo do Evangelho, Jesus explicita o chamamento, envolvendo as nações de toda a terra e, por conseguinte, o envio de 72 discípulos (símbolo dos povos de toda a terra) a todos os lugares.

De entre os discípulos, Jesus escolherá 12, a quem deu o nome de Apóstolos, para que fossem mais próximos e assumissem uma responsabilidade maior. Os discípulos vêm de diferentes proveniências, sobretudo de classes mais pobres, da Judeia e da Galileia. Entre eles existem laços familiares (André e Simão, Tiago e João), laços de amizade, laços profissionais, ou nenhum tipo de laço. O critério parece ser apenas um: despojamento, pobreza, disponibilidade para amar e para servir, e para partir. Haveria também Tiago, o irmão do Senhor, portanto parente de Jesus. Curiosamente, os familiares de sangue aparecem pouco, a não ser para O levarem para casa, por se dizer que Ele estaria tresloucado. Todavia, os que seguem Jesus hão de estar disponíveis para servir, não para se servir, e para irem por todo o mundo anunciar o Evangelho, rompendo com as fronteiras familiares e nacionalistas. Amar até os inimigos. Samaritanos, pecadores, publicanos, cananeus, gregos, homens ou mulheres. Ir às periferias, como tem apelado o Papa Francisco.

A Igreja de Lamego também no próximo ano, e nos seguintes, é chamada e enviada em missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/32, n.º 4519, 16 de julho de 2019