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Editorial Voz de Lamego: Caim e Abel, irmãos nossos

«Onde está o teu irmão Abel?» Deus questiona Caim pelo seu irmão e responsabiliza-o. A resposta de Caim preocupa: «Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?» Na verdade, é uma resposta que continuamos a dar ou a viver. O tempo que atravessamos traz-nos muitas histórias (reais) de indiferença, desprezo, exclusão, violência, conflito.

Deus chama à razão Caim: «A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 8ss). Caim sujeita-se às consequências dos seus atos, do seu mau proceder, contudo, Deus marca-o com um sinal para que ninguém lhe faça mal. A história de Caim e de Abel é uma história de infortúnio, mas também de esperança e de compromisso.

A história dos dois irmãos traz duas conceções de vida antagónicas: a vida das “cidades”, sedentária, e a vida do campo, nómada. As duas formas de vida estão presentes no povo de Israel. Alguns defendem que o povo não se deve fixar, mas estar sempre em deslocação, lembrando que Abraão é um “arameu errante”, sem-terra. Outros, pelo contrário, sustentam a ideia de uma terra, dada por Deus em herança, ao seu povo, cumprindo a Sua promessa. O relato de Caim e Abel faz a opção clara pela “errância” do povo, predominando o pastoreio em vez a agricultura. Esta fixa-se na terra. Aquela avança de terra em terra.

Olhando para a história da humanidade de todos os tempos, verifica-se que a violência gratuita, os fratricídios (irmãos que matam irmãos) são frequentes: povos que se aniquilam, irmãos que guerreiam pela herança, que se matam por ciúmes e inveja, umas vezes por um pedaço de terra, outras vezes por uma ninharia. Ainda que possa haver sempre o ideal da reconciliação.

A guerra imposta pela Rússia à Ucrânia é mais um episódio infeliz como a desconfiança e o medo, o egoísmo e prepotência, conduzem à violência, à imposição de ideais e vontades, recorrendo ao poderio militar. A história de Caim e Abel assume e faz-nos visualizar a realidade histórica.

Mas, infelizmente, histórias de violência familiar repetem-se todos os dias. Fomos surpreendidos pela morte de uma menina com três anos, em Setúbal. À posteriori podem ver-se descuidos, desatenções, demissões. A família, que deveria ser espaço seguro, de vivência do amor, de cuidado e proteção, afinal não garantiu a vida desta menina. Muitas pessoas se juntaram para “julgar”, condenando, movidas pela revolta em relação a uma situação que não deveria ter acontecido. Mas onde estávamos antes de acontecer mais esta desgraça? Onde estavam os vizinhos, a família, os amigos? Onde estavam os que vieram depois?

Na história bíblica há um rasto de esperança. Apesar da infidelidade humana, Deus acredita, Deus aposta no homem. Caim matou o irmão. Deus reafirma, e a fé também, o mandamento: “Não matarás”. Quando alguém é morto, o “normal” é a vingança, a morte do agressor. Porém, se a justiça é necessária, a vingança é dispensável, pois só gera mais violência e não suprime a perda nem a ofensa. Caim é marcado com o sinal de Deus que impede que outros possam agir de forma violenta sobre ele. É uma história de amor e de salvação. Deus quer o nosso bem, mesmo quando e apesar de nos desviarmos do bem.

Caim permanecerá como uma figura do lado mais obscuro que há em nós, mas em simultâneo na certeza que a descoberta de Deus nos conduz à salvação.

Vale a pena registar e mastigar as palavras de são Paulo: «Pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros. É que toda a Lei se cumpre plenamente nesta única palavra: ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’. Mas, se vos mordeis e devorais uns aos outros, cuidado, não sejais consumidos uns pelos outros» (Gál 5, 14-15).

Quando a guerra, a violência, os conflitos estão distantes, sossegamos porque não é (ainda) connosco! Mas, mais longe ou mais perto, os outros dizem-nos respeito e o que fazem ou deixam de fazer afeta-nos, se não mais cedo, mais à frente. Como cristãos, esta consciência deve ser ainda mais viva, pertencemo-nos, somos responsáveis pelos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/33, n.º 4664, 29 de junho de 2022