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Editorial Voz de Lamego: Atrás de quem corremos?

Num dos últimos números da revista “Audácia” encontrei uma história narrada pelos Padres do Deserto e ponto de partida para Susana Vilas Boas falar de discernimento vocacional.

Comecemos pela história:

“Um homem passeia-se com o jovem filho levando o seu cão de caça. A um dado momento, o cão avista um coelho branco no meio do bosque. Como está treinado – e é impulso natural dos cães – o cão começa a correr atrás do coelho, enquanto ladra freneticamente para dar o alerta da sua perseguição. No mesmo bosque – e vindos da mesma aldeia – outros cães, ao ouvirem o primeiro ladrar, começam a ladrar e a correr como ele. Após alguns minutos de corrida, desencorajados e cansados, os cães vão abandonando a perseguição e só o primeiro permanece atrás do coelho até o conseguir apanhar. Chegados a este ponto, o jovem rapaz – não habituado às andanças da caça – pergunta ao pai: «Paizinho, porque é que todos abandonaram a perseguição menos o nosso cão?» O pai respondeu-lhe: «Ora aqui está uma grande lição de vida: os outros cães corriam e ladravam por verem outros cães a correr e a ladrar. Com o nosso cão era diferente. Ele sabia a razão pela qual estava a correr e a ladrar – ele viu o coelho! Na nossa vida acontece o mesmo, se corremos por ver correr, a nenhum lado chegamos. Mas, se “virmos o coelho” e pusermos pés ao caminho, será duro, mas nada nos fará desistir sem alcançar os nossos objetivos».

Como cristãos, tem-no-lo dito o Papa Francisco recorrentemente, não podemos ser cópias, que vão atrás das últimas modas, seguem os “influencers” das redes sociais, vivendo uma vida maquilhada de rótulos, maiorias, opinião geral, que não nos realiza e em que nada nos diferencia dos demais. “Maria vai com as outras!” O cristão tem de ser original. Esta originalidade remete-nos, em primeiro lugar, à origem, a Deus, a Jesus Cristo. Como seres humanos somos também seres miméticos; desde crianças aprendemos a imitar, crescemos e amadurecemos olhando, vendo e depois fazendo. Mesmo que quiséssemos, não nos criamos / não nos inventamos a nós mesmos. E não somos ilhas isoladas! Rodeados de familiares, amigos e colegas crescemos conjuntamente, testamos os limites e as fronteiras. A educação também passa por aqui, por apresentar referências, balizas, orientação, valores! A criança não é um baldio que se deixe ao deus-dará, mas dão-se-lhe as ferramentas para discernir, para saber o que é bem e mal, responsabilizando-a progressivamente pelas suas ações, mas não a substituindo. Tarefa difícil, mas nobre.

Desafia-nos São Paulo: sede meus imitadores como eu sou imitador de Cristo. O paradigma continua a ser Jesus Cristo, mas pessoas próximas e concretas podem ajudar-nos a perceber o que nos sintoniza da nossa origem e o que desvirtua a nossa identidade cristã.

Uns séculos depois, São Paulo VI dir-nos-á: «O homem contemporâneo escuta com maior boa vontade as testemunhas do que os mestres ou se escuta os mestres é porque são testemunhas» (EN 19), desafiando-nos a viver de tal forma que os outros possam ver em nós o Evangelho de Jesus, não apenas pelo que dizemos, mas sobretudo, e antes de mais, pelo que somos, pelo que fazemos.

A cada momento teremos que discernir as nossas escolhas e caminhos. Cabe-nos verificar se estamos a “correr” por Cristo ou àqueles que nos rodeiam. É uma tarefa essencial, pois só a intimidade com Cristo nos faz prevalecer na fé e persistir na configuração ao Seu Evangelho, encarnado no tempo e na história, experimentado em Igreja. Chegámos a Jesus através da família, da Igreja, no ambiente em que nascemos e crescemos, mas só o encontro pessoal com Ele nos motiva a permanecer e a inundarmos a nossa vida com a Sua ternura.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/39, n.º 4621, 25 de agosto de 2021

Entrevista com o Pároco de Penude, Pe. Adriano Cardoso

A Voz de Lamego foi até Penude para conhecer o projeto presidido pelo Padre Adriano, como pároco, à frente de uma das paróquias maiores da diocese, de um centro social paroquial que começou a funcionar há 10 anos (27 de julho de 2011), e a criação de uma vacaria. O Padre Adriano Cardoso contou-nos como tudo surgiu e a importância que dá à comunidade; cada passo dado é a pensar na mesma.

O que o levou a seguir a vocação?

O ambiente familiar, a forma como fui educado levou a que seguisse a vocação de padre. Comecei com uma longa etapa em Castro Daire com uma grande equipa, um projeto que me acrescentou muito, mas, ao fim de 25 anos, optei por mudar de paróquia, procurando novos desafios.

Penude era uma terra que tinha uma certa sedução, e recuando a 1996, tinha muita população e bons padres. Um grande padre que a população não esquece é o Sr. Padre Borges, depois disso, de 1978 até 1996, esteve cá o Sr. Padre Germano, um padre mais doce, mais suave. A minha vontade de me mudar para Penude surgiu muito pela ideia que tinha da terra, uma paróquia com fortes raízes religiosas, com uma prática cristã acentuada. Quando aqui cheguei o objetivo era inovar mentalidades, transformar e mexer com a comunidade.

Passados 25 anos, nota-se essa diferença?

Acho que sim, no entanto não consegui alcançar todos os objetivos que queria. A emigração aumentou bastante, os jovens, a maioria do sexo masculino, opta muito por sair do país e, mais recentemente, também os do sexo feminino, diminuindo assim a população residente.

De que modo a pandemia condicionou a paróquia de Penude?

A visão que temos da paróquia não é necessariamente a mesma. A dispensa da missa dominical é um dos exemplos. Com estas dificuldades também conseguimos tirar coisas boas como a notoriedade da fidelidade de muitos. Temos vindo a assistir a grandes mudanças, as paróquias estão totalmente diferentes na relação com a religião e com o padre.

Para lidar com as pessoas temos de respeitar o espaço de cada um, a liberdade, a construção, a opinião e a participação. Embora, hoje, se fale muito da igreja com uma base de construção laical, como esperamos todos, acho que ainda estamos longe porque, de algum modo, as pessoas ainda não falam com o à vontade que deviam nas reuniões para casamentos e batizados.

Tem vindo a notar, de certa forma, um afastamento da comunidade?

Eu acho que não, a aderência é praticamente a mesma, no entanto estes dois anos serviram para manifestar a autenticidade de muita outra gente que vai ultrapassando tudo, não abdicando da prática religiosa.

Uma novidade importante disto tudo é que as pessoas passaram de uma prática religiosa por legalismo, por obrigação, para a prática religiosa brotar como uma necessidade interior.

Há 25 anos, quando chegou a Penude, a prática religiosa passava de geração em geração, os avós passavam aos pais e netos e os pais faziam questão de manter esses costumes no seio familiar. Sentem que isso, hoje, ainda acontece?

Os avós, sem dúvida. Agora, a faixa etária dos pais, é a que mais emigra e dos mais novos, poucos são os que vão ficar cá na terra. O aspeto religioso tem de ter uma fibra interior, há uma volta que tem de se dar.

Estamos a chegar a uma atitude de maior verdade daquilo que somos. A religião já não é tão passada por gerações, vem do interior de cada um.

Temos de acreditar na verdade da igreja e Jesus Cristo. A felicidade das pessoas está, antes de mais nada, no conseguirem ser aquilo que desejam interiormente e não propriamente em ser a capa social e obrigatoriedade, há outro espaço de realização e identificação.

Tem outras ocupações para além da igreja?

Já tive, já fui professor. Procurei sempre ter uma autonomia de vida em relação à comunidade, isto é, ter sempre uma profissão de onde vem a estabilidade do meu viver, do meu presente e também garantir o futuro com a minha reforma. Vivi sempre de uma profissão paralela.

Como surgiu a ideia da vacaria? Que contratempos e vantagens dá à comunidade?

Candidatámo-nos a um programa a nível nacional. Este projeto tinha um valor de um milhão e quinhentos mil euros, mas só nos financiavam seiscentos e cinquenta mil. Para conseguir seguir com o projeto tínhamos de arranjar forma de arrecadar o resto do dinheiro.

Os proprietários destes terrenos, terrenos baldios, tinham acabado de fazer um contrato com as eólicas, contrato de aluguer destes mesmos terrenos em que, durante trinta anos, iriam receber umas rendas que corresponderiam a, mais ou menos, um milhão e duzentos mil euros.

Com isto, eu reuni a comunidade, apresentei a proposta aos donos dos terrenos, apresentei o projeto, ao que, a comunidade votou favoravelmente. Assim nasceu este projeto em prol da comunidade.

O objetivo aqui é também retribuir à comunidade o seu gesto, fazendo com que os baldios de Penude ganhem dinâmica e também dar dinheiro, trabalho, desenvolvimento e também limpeza.

Havia a opção de reflorestação e da criação de gado. A reflorestação iria acrescentar pouco a Penude, ao longo de trinta anos não iria acrescentar nada à comunidade, correndo ainda o risco de os incêndios acabarem com todo o projeto e, no caso de correr bem, quem beneficiaria com isso seria o estado. Aqui o objetivo é o bem-estar da comunidade.

Este gado, é gado arouquês. No passado, em Penude, haviam mil ou mais vacas, cada família tinha três ou quatro. Volto a referir, isto é tudo pela comunidade.

Já gastámos mais de um milhão de euros no projeto, estamos ainda a pagar três ordenados anuais, o que resulta em despesas na ordem dos sessenta mil. Com a alimentação do gado e as restantes contas, resulta numa despesa de cento e vinte anuais e nós, por enquanto não atingimos esse valor em receitas.

Tudo começou com quarenta vacas e todos os machos são vendidos, isto quer dizer que, há um crescimento lento, todos os anos aumentamos o número de vacas em vinte ou trinta. Este ano já temos cento e vinte vacas, daqui a dois anos já teremos, eventualmente, cento e cinquenta. Temos licença parta ter duzentas e três, assim que atingirmos esse número, se ainda for eu a presidir o projeto, vou tentar ir para as quatrocentas.

Tudo isto é um processo, com cento e cinquenta vacas vamos conseguir cobrir os gatos anuais e, depois, com o aumentar do número de gado, vamos fazer deste projeto, um projeto rentável.

in Voz de Lamego, ano 91/38, n.º 4620, 4 de agosto de 2021

ESCUTAR E RESPONDER |Editorial Voz de Lamego | 11 de novembro

editorial

Depois da primeira página, partilhamos agora o EDITORIAL, no qual do Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, relaciona a escuta com a vocação, e com a resposta ao chamamento de Deus.

Muitos motivos de interesse para ler a Voz de Lamego, e oportunidades para aprender, refletir, meditar, envolver-se na missão evangelizadora da Igreja.

ESCUTAR E RESPONDER

Entre os cinco sentidos, dizem que os ocidentais privilegiam a visão. Habituamo-nos a contemplar para descrever, a olhar para repousar, a admirar para sentir, a encontrar na paisagem o que retratar na pintura ou relatar na escrita. Para nós, ver é fazer parte da paisagem e contemplar é saborear a vida. Dizem que os orientais privilegiam o ouvido.

Daqui se percebe a nossa maior facilidade em falar, apresentar, descrever… e o sacrifício que representa, às vezes, ter que ouvir. Quantos mestres não há que se deleitam quando são ouvidos, mas que não escondem o desconforto quando têm que ouvir?

Ouvir custa! Seja porque o conteúdo é repetitivo, pouco atractivo ou apresentado com deficiências; seja porque não há empatia com o interlocutor; seja porque não partilhamos pontos de vista semelhantes; seja porque nos corrigem ou provocam…

Escutar exige esforço e demonstra respeito. E não basta dizer que é importante fazê-lo ou escrever muito sobre o assunto; é fundamental exercitar (pastoral do acolhimento e da escuta). A começar na família: um pai ou uma mãe que não saibam ouvir não conhecem verdadeiramente os seus filhos. Da mesma forma, um pároco diante dos seus fiéis ou um bispo perante os diocesanos…

É fundamental ouvir para obedecer (a mesma raiz latina). Nem sempre obedecemos – cumprir responsavelmente um dever ou desempenhar uma missão – porque não ouvimos.

Por último, sabemos como é essencial ouvir para escutar Deus: na Palavra, na oração, nos irmãos, na consciência, na natureza…

Na Semana dos Seminários que estamos a viver é importante valorizar o “ouvir”. A crise de vocações sacerdotais de que se fala pode ser reflexo da indisponibilidade para ouvir. Porque é preciso escutar para responder. Mas não será isso que acontece em tantas situações da vida, uma crise de escuta?

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4288, ano 84/50, de 11 de novembro de 2014.

VOZ DE LAMEGO | primeira página | DESTAQUES

Primeira página do Jornal da Diocese, VOZ DE LAMEGO. Em Semana dos Seminários, o destaque não poderia deixar de ser os nosssos Seminários. No interior desta edição, a chegar a casa dos assinantes ou disponível nas bancas habituais, a mensagem de D. António Couto, breve testemunho dos seminaristas maiores, um texto de fundo sobre o seminário, a sua razão de ser, concretizando na nossa Diocese, texto de um seminarista menor sobre a pastoral vocacional. Para abrir o apetite, eis a primeira página:

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