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À conversa com D. António Couto sobre a Visita Ad Limina

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Os bispos portugueses viveram, entre 07 e 12 deste mês, a “visita ad limina”, da qual se falou na edição anterior deste jornal e na qual participaram D. António Couto e D. Jacinto Botelho. No sentido de podermos levar aos nossos leitores algumas notas sobre este acontecimento eclesial, pedimos a colaboração do nosso bispo.

Senhor D. António, que balanço faz desta visita ad limina?

Para mim é sempre uma peregrinação aos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, e também fazer sentir ao bispo de Roma, hoje o Papa Francisco, a nossa fidelidade e disponibilidade para acolher com amor e inteligência as suas intenções e ideias, rumos pastorais e modos de fazer. Os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo foram, nos primeiros séculos da Igreja, os únicos grandes lugares de peregrinação de todos os cristãos. A visita ad limina Apostolorum tem de cumprir sempre esse objetivo. Fiquei com a ideia de que o fizemos muito depressa, muito a correr. Eu tive necessidade de lá voltar e de lá passar mais tempo. Pedro e Paulo são, como lembra a tradição antiga, os prôtóthronoi, os primeiros na cátedra da doutrina divina e salvífica. É preciso estar ali, junto deles, até estremecer alguma coisa em nós. A mesma atitude se deve reservar ao bispo de Roma. Tudo o resto, os restantes pontos da agenda, são mais ou menos úteis, são para preencher o ramalhete, mas estão longe de fazer estremecer. A visita ad limina Apostolorum que os bispos de Portugal realizaram recentemente teve um pouco de tudo isto. Para mim, ficou o que faz estremecer. No que vi e ouvi. O encontro com o bispo de Roma, o Papa Francisco, foi muito bom. As lições recebidas nos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, no silêncio, na oração e na meditação, foram importantes. Restam depois, como diz bem Robert Musil, as iluminações. Mas estas nunca me seduziram.

 Que importância e consequências podem ter tais visitas na vida da diocese?

Na minha vida, e, portanto, no que de mim passar para a nossa Diocese, mais autenticidade, mais Evangelho, mais Jesus Cristo. Não trago nenhuma diretriz específica, nenhum recado ou receita, para o andamento pastoral da Diocese. Antes da Visita, é-nos pedido um relatório pormenorizado sobre a vida da Diocese. Aí, sim, fui obrigado a refletir sobre a realidade da nossa Diocese e os rumos pastorais seguidos e a seguir. Quero crer que o relatório foi lido e sublinhado, mas não tive disso nenhum eco concreto. O encontro com o Papa Francisco, esse sim, apontou perspetivas e maneiras de ser e de fazer, que me parecem oportunas e incisivas, e que registei para que o bispo, os sacerdotes, os consagrados e os fiéis leigos da nossa Diocese dediquem mais tempo e qualidade à oração, à pregação e escuta da Palavra de Deus, e ao testemunho de vida. Sim, o Papa disse-nos que muitas vezes o nosso testemunho anula a nossa pregação. Nada que nós não soubéssemos já, mas é sempre bom ouvi-lo outra vez e outra vez e outra vez… até estremecer.

Como caracterizaria o encontro com o Papa Francisco?

Rico. Belo. Sereno. Claro. Certeiro. Sem nada na manga. Sem nada a defender. Sem nada a atacar. Bem ao estilo que todos já lhe conhecemos. Mas com uma vontade imensa de fazer passar a pessoa de Jesus Cristo. E deixando transparecer um coração atento e paternal para com todos, sobretudo para com os que mais sofrem, também como já nos habituou. Não começou a fazer discursos ou advertências. Pôs-se à vontade e pôs-nos à vontade. Quis ouvir primeiro as nossas perguntas ou inquietações, a que ele ia depois amavelmente respondendo com palavras certeiras ou um simples aceno de cabeça.

Entre outros temas, O Santo Padre falou do acompanhamento aos mais novos, da interparoquialidade e de abertura. Nesse sentido, que caminhos percorrer entre nós?

Sim. Temos de pensar seriamente a forma como estamos a viver a fé e a transmitir a fé. Mas isso já ia nos relatórios das nossas Dioceses. O Papa confirmou que temos de rever os caminhos seguidos até aqui, na área da iniciação cristã (catequese) e de toda a formação (religião e moral católicas e formação de adultos). Impõe-se muito mais anúncio direto e simples do querigma cristão juntamente com o testemunho, e saber pôr as crianças, os jovens, as famílias numa verdadeira envolvência cristã. Claro: precisamos de sacerdotes que o sejam verdadeiramente, a tempo inteiro e coração inteiro. Há tanta coisa à nossa espera. Desde a oração, à formação, ao testemunho. Precisamos de verdadeiros líderes cristãos, que arrastem por contágio as pessoas desanimadas e cansadas. A «debandada» de que falou o Papa lembra os pássaros. E os sociólogos atentos, como Zygmunt Bauman de há muito que comparam a juventude aos pássaros. Foi assim que, à imitação dos pássaros, nasceu em 2006, o Twitter, que quase reproduz os sons emitidos pelos pássaros em bando (tweet, tweet…), uma forma de dizerem «estou aqui», no bando. Mais ou menos o que se verifica na juventude em bando, sempre com o telemóvel a emitir sinais. Pergunto: como captamos esses sinais? Como respondemos? O que temos feito para ir ao encontro dos jovens? O que estamos dispostos a fazer? Ou estamos contentes com o que temos e com o que fazemos? Há aqui um mundo de imaginação e de proximidade que temos de saber construir. O tema da interparoquialidade e da intereclesiadade impõe-se hoje, e sempre se impôs. É da própria natureza da Igreja. Sim, temos de aprender a partilhar muito mais uns com os outros. Ficamos mais ricos. E temos também de aprender a partilhar os nossos párocos e os ministérios laicais. É um enriquecimento.

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Como interpreta o aparecimento do recente “motu próprio” do Papa sobre a questão da nulidade dos matrimónios dias antes da Assembleia sinodal sobre a família?

Sem mexer na doutrina, e o Papa repetiu-o, e tem-no repetido. Mas o que pudermos fazer já para agilizar as coisas práticas, isso devemos fazer já. Há, de facto, assuntos, de prática pastoral, não doutrinária, que podemos simplificar, facilitar, agilizar, e tornar mais baratos ou mesmo sem custos para as pessoas que reunirem as condições necessárias. Sim, há ainda outra luta mais importante pela frente, de que ainda poucos se apercebem. É a indiferença e a insensibilidade, em que esses problemas de nulidade ou outros já nem se põem, em que tanto se nos dá como se nos deu; mas é sobretudo a equivalência, em que tudo é igual e tudo vale o mesmo. Esta é a verdadeira luta que teremos pela frente nos próximos anos. Sim, chegam tempos em que o bem é igual ao mal, a noite ao dia, a família aos bandos…

in Voz de Lamego, ano 85/43, n.º 4330, 22 de setembro

Bispos portugueses em Roma | Visita ad limina

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Descrição e finalidades

Na Carta que escreve aos Gálatas, S. Paulo refere, logo no primeiro capítulo, que subiu a Jerusalém “para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias” (Gal 1, 18). Repetiu o mesmo gesto “catorze anos depois” (cf. Gal 2, 1-2). Desde os primeiros tempos da Igreja que, à medida que esta se ia expandindo geograficamente, os Bispos se deslocavam a Roma, não só para peregrinarem à cidade onde se encontram os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, mas também para submeterem à apreciação do Romano Pontífice, sucessor de S. Pedro, os mais variados assuntos referentes às suas comunidades e ao povo de Deus que lhe estava confiado. Ao longo da história da Igreja (pelo menos desde o séc. IV), que este costume de visitar o Romano Pontífice e rezar junto dos túmulos dos Apóstolos foi sendo enriquecido com uma estrutura própria e deu lugar à actual normativa relativa à visita ad limina Apostolorum, uma expressão latina que se poderia traduzir por visita aos umbrais (ou túmulos) dos Apóstolos. A visita ad limina é, portanto, a peregrinação que o Bispo da Diocese deve realizar a Roma de cinco em cinco anos, “se de outro modo não houver sido decidido pela Sé Apostólica”, com a finalidade de “venerar os sepulcros dos Bem-Aventurados Apóstolos Pedro e Paulo” e apresentar-se ao Sumo Pontífice (cf. cân. 400 §1).

Esta visita deve ser antecedida da elaboração e envio de um relatório, que apresente os dados mais significativos e relevantes da vida da Diocese:  organização pastoral e administrativa da Diocese; dados estatísticos vários (como, por exemplo, número de sacerdotes; número de religiosos; número de católicos; número de baptismos, confirmações, matrimónios e dados relativos à prática dominical, etc.); situação e dados relativos à formação (catequese, escolas católicas, Seminários e centros de espiritualidade); descrição dos dados mais relevantes relativos à vida e ministério dos sacerdotes, movimentos e associações; etc. Este relatório deve ser enviado à Santa Sé alguns meses antes da data prevista para a realização da visita, de modo a que, quer o Santo Padre, quer os vários Dicastérios e Departamentos do Vaticano o possam ler, apreciar e delinear algumas linhas de orientação.

Quando se realiza a visita, ou seja, quando o Bispo Diocesano, juntamente com os restantes Bispos que compõem a Conferência Episcopal (ou, no caso de a Conferência Episcopal ser muito grande, com os restantes Bispos de uma determinada Região de um país) peregrinam a Roma, os dias que lá transcorrem são aproveitados para rezar junto dos túmulos dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, respectivamente nas Basílicas de S. Pedro e de S. Paulo fora de muros. Esses momentos de oração, habitualmente, materializam-se na celebração da Eucaristia. Além disso, é costume também celebrar a Eucaristia nas outras duas Basílicas Maiores (Santa Maria Maior e S. João de Latrão) e noutras igrejas de especial importância (como no caso da Igreja de S. António dos Portugueses, no caso da Conferência Episcopal Portuguesa). Para além dos momentos de oração, outro acontecimento importante é o encontro dos Bispos, quer individual, quer em grupos pequenos (por Províncias Eclesiásticas) com o Romano Pontífice. No final desses encontros, é costume o Santo Padre ter um encontro final com todos os Bispos e dirigir-lhes um discurso que, habitualmente, contém alguns elementos que deverão orientar a acção pastoral e missionaria da Igreja dawuele país ou região nos anos seguintes.

Para além da visita ao Romano Pontífice, os Bispos, quer individualmente, quer em grupo, são recebidos nos principais Dicastérios da Cúria Romana.

Como refere o Diretório para o ministério pastoral dos Bispos, “a visita, nos seus diversos momentos litúrgicos, pastorais e de encontro fraterno, tem um significado preciso para o Bispo: aumentar o seu sentido de responsabilidade como sucessor dos Apóstolos e fortalecer a sua comunhão com o sucessor de Pedro. A visita constitui ainda um momento importante para a vida da mesma Igreja particular que, através do seu representante, consolida os vínculos de fé, comunhão e disciplina que a ligam à Igreja de Roma e a todo o corpo eclesial” (n. 15).

 

Pe. José Alfredo Patrício, in Voz de Lamego, ano 85/41, n.º 4328, 8 de setembro