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Posts Tagged ‘Violência doméstica’

Editorial da Voz de Lamego: Ir além da violência

Nestes dias, têm-se acentuado a preocupação da violência (sobretudo) doméstica. A casa é o lugar do encontro, da partilha, da vida acolhida, partilhada e amadurecida. A casa e a família. Como sói dizer-se, é em casa, a começar no berço, que aprendemos a ser gente, aprendemos os valores, aprendemos a conviver, a respeitar os mais velhos, a cuidar dos mais novos, a interagir com as gerações, a respeitar o espaço e as coisas dos outros, a preservar o diálogo, em saudável convivência entre todos.

Casa que não é ralhada não é governada, mas nem oito nem oitenta. Discussões entre irmãos, entre pais e filhos, entre marido e mulher?! Com conta, peso e medida. Significa que o outro conta, o outro é importante, a sua opinião e a sua presença, os seus gestos e as suas palavras, bem como a ausência de palavras, de gestos, e de gratidão.

Há famílias que são cemitérios, campos de batalha, território minado, sobrevindo a agressão (física, verbal, emocional), o desrespeito pelo outro, as chantagens emocionais, a possessão: és meu/minha, então tens que fazer o que eu quero. “Quero, posso e mando”. A civilidade, a evolução civilizacional parece, em tantos casos, uma miragem. A globalização da comunicação, o acesso fácil à cultura e à educação, nem sempre gera pessoas maduradas e equilibradas.

Seja como for, não podemos desistir. Todos temos responsabilidade, família, escola, Igreja, comunicação social. A educação, mais que uma paixão, terá que ser uma opção e um compromisso constante. No Dia dos Namorados (14/02), houve reportagens que reproduziram formas de viver o namoro na adolescência: agressividade de linguagem e de gestos, o controlo “militar” sobre o outro, acedendo ao telemóvel, decidindo com quem fala e com quem está proibido de falar, o que pode e o que não pode fazer.

Para haver conflito basta haver duas pessoas. As birras e os arrufos, os silêncios e o excesso de palavras fazem parte da família, por certo! Há dias de sol e dias em que as nuvens o escondem. Pior é a indiferença dentro de portas! O Papa Francisco, a propósito, tem incentivado o uso de três palavrinhas: por favor, obrigado, desculpa. Delicadeza, gratidão e consciência dos próprios limites e fragilidades.

Um desafio que muitos casais vivem: não se deitar sem dar um beijo, rezar uma oração, dar as mãos. Há momentos em que as palavras são difíceis, mas há pequenos “hábitos” que podem ajudar a serenar o coração e a manter a confiança. Numa discussão, ideal seria que houvesse discernimento para saber parar, não forçando o outro a reagir, multiplicando a dureza das palavras, e, quanto possível, não usar palavras que destruam ou espezinhem o outro. O perdão tornar-se-á mais difícil e mais ainda o restaurar da confiança. Respeito e educação.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/12, n.º 4498, 19 de fevereiro de 2019

Editorial Voz de Lamego: Violência X Violência

Nos últimos dias, semanas, a violência tem multiplicado. Melhor, nos últimos anos. Não faltam diagnósticos, faltam, isso sim, soluções, caminhos, compromissos para alterar este estado de coisas. Talvez porque não exista um receituário eficaz para diminuir ou tornar menos letal a violência.

A educação por certo será sempre um compromisso a ter em conta. A educação que começa no berço e se alarga à escola, à Igreja, aos clubes e associações, movimentos! É preocupante abrir um jornal, uma revista, uma aplicação, o televisor e deparar-nos com situações que ainda nos horrorizam. Mas como há tempos alertava o Papa Francisco, o risco é que a violência se torne banal. Já vimos tanto, já vimos situações inenarráveis, que nada mais nos poderá surpreender, nada mais nos comove! É preocupante, porque a habituação à violência torna-nos indiferentes. É mais um caso. Mais uma agressão, uma morte, entre tantas outras e, olhando de fora, até justificamos alguns casos de violência doméstica, pois achamos que era merecido! E isso é muito preocupante!

Vemos conflitos em diversas partes do mundo ou, se ainda não são visíveis, já se esperam a qualquer momento, tais são os radicalismos que se acentuam. Nem os países industrializados ou as democracias ocidentais estão imunes a este flagelo. Se pararmos um pouco talvez percebamos que a violência que se multiplica nas ruas já se multiplicou em casa e na família. A violência doméstica em Portugal tem aumentado a olhos vistos nos últimos três anos. O inverso também é possível, a violência avança da rua para casa, ou entra diretamente através dos meios de comunicação social. E alguns dão-nos doses repetidas, esquadrinhando até ao ínfimo pormenor todas as variantes possíveis e imagináveis da violência.

A Igreja deixou de considerar a confissão pública dos seus fiéis não tanto por expor os mesmos, mas porque dessa forma se ensinava a outros como pecar. A comunicação social, pelas notícias, documentários, debates, filmes e novelas, explica-nos como ser violentos e como escapar. Claro que a comunicação social também ajuda a denunciar formas de violência, de escravização, de exploração. A comunicação social por perto pode ser dissuasora de alguns comportamentos abusivos, se bem que também pode multiplicar os focos de violência. Nem tudo é branco ou preto. Alguns meios de comunicação, mais focados em audiências e lucros, continuarão a ser combustível que se junta à violência.

A violência gera violência e gera radicalismos, à esquerda e à direita, e, se momentaneamente parecem trazer mais segurança, os radicalismos conduzem a novas formas de violência. Temos de voltar ao berço. Temos de embainhar a espada da agressividade, e apostar na paciência da educação e do amor.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 89/11, n.º 4497, 12 de fevereiro de 2019

UM REPARO: VIOLÊNCIA

Um homem agrediu violentamente a mulher e um juiz atenuou a pena pelo facto da mulher ter um amante. Mais um triste episódio de violência conjugal em que a mulher foi vítima do marido e em que o agressor não foi devidamente punido.

Apesar da violência doméstica não cessar de ser notícia, este caso foi muito comentado por causa do acórdão do Tribunal da Relação do Porto, no qual o juiz escreveu: “Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte” (p. 19).

Sem se negar o mal praticado por quem falta ao compromisso (adultério), o comportamento violento do agressor não pode ser atenuado, já que a violência exercida sobre outrem é sempre condenável e sempre merecerá condenação. E um tal discurso, pensado e proferido por quem deve aplicar a justiça, continua a ser violento e agressivo para com a vítima (mulher). A que se acrescenta a infeliz tentativa de querer justificar o injustificável com a referência bíblica.

Aperfeiçoando a lei veterotestamentária, Jesus ensinou a dar mais um passo na promoção da dignidade humana de todos, quando desafiou para a humildade os zelosos defensores da lapidação, convidando-os a olharem para si próprios e a só atirarem pedras quando se descobrissem imaculados (Jo 8, 1-11).

Nada pode justificar o que se faz às vítimas da violência. Podem surgir explicações, mas nada pode legitimar a violência conjugal, que não se restringe apenas à agressão física. Recusar a violência é fazer frente à injustiça. Opor-se ao mal e defender o que é justo é colocar-se ao lado de Deus.

JD, in Voz de Lamego, ano 87/48, n.º 4434, 31 de outubro 2017