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Editorial Voz de Lamego: A vida, a vinha e a paciência do agricultor

Lançar as sementes à terra… plantar a vinha… exige uma grande dose de confiança e de paciência. Os frutos não são imediatos. A vinha, os vegetais e legumes, e muitas árvores de fruta, levam muitos anos a dar fruto. A cultura depende da incerteza do clima. A falta de chuva em alguns períodos do ano pode ser devastadora para certas produções, o trigo, as batatas, a vinha, a azeitona, para as árvores de fruto, para vegetais e legumes. Quando se semeia ou planta, há uma expectativa muito grande em que o ciclo das estações do ano cumpra com a tradição. Quantas vezes é precisa a água, chuva, e vem sol e seca? Ou na estação do sol e do calor, vem chuva, trovoada e granizo?

Cada ano, o agricultor, no tempo certo, volta a semear, a plantar, a cuidar dos campos e das árvores! Se a produção foi proveitosa no ano anterior, espera que no novo ano haja ainda melhor produção, em quantidade, qualidade e preço de venda. Se o ano foi mau, a preocupação por um ano bom aumenta e também os cuidados. Numa época de maior religiosidade (popular), as comunidades renuíam-se para pedir a chuva, mesmo não sendo possível em simultâneo o sol na eira e a chuva no nabal. O Missal continua a subsidiar, e bem, estas preces. Pela chuva: “Senhor nosso Deus, em quem vivemos, nos movemos e existimos, concedei-nos a chuva necessária, para que, ajudados pelos bens da terra, aspiremos, com mais confiança aos bens do céu”. Mas, logo a seguir, também a oração pelo bom tempo, que se pressupõe, tempo menos chuvoso e/ou menos tempestuoso: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos purificais com as provações, e, com o vosso perdão, nos salvais, concedei-nos tempo sereno e favorável, a fim de podermos usar os benefícios da vossa bondade para vossa glória e nossa salvação”.

A vinha, como a agricultura em geral, exige um trabalho contínuo, na atenção a todos os fatores, ao clima, às pragas, ao solo… Nem tudo depende do agricultor (viticultor). Também assim a vida, nem tudo depende de nós. Há fatores externos e internos que nos escapam, por mais que gostássemos de ter um controlo total e permanente sobre tudo o que nos diz respeito.

Por ocasião da plantação da vinha, as vides plantadas são regadas, para criarem raízes e se agarrarem à terra. Precisam de água e de terra, mas também crescem e se desenvolvem na adversidade, na terra pedregosa, nos socalcos do Douro!

Quando as vides ganham raízes, o viticultor deixa de as regar. Não há uma regra única, pois em tempos de grande seca é possível, e talvez necessário, regar as vinhas e há quem tenha sistemas de rega. Porém, dizem alguns entendidos, deve evitar-se a rega e deixar que as raízes se esforcem por encontrar água e/ou humidade. Se se regam, as videiras tornam-se preguiçosas, e as raízes, em vez de se enraizarem em fundura, tenderão a fixar-se mais à superfície.

É um paralelismo incrível com a vida humana! Os seres humanos, contudo, são os seres vivos mais dependentes, ao longo de toda a vida, também nos inícios. Na atualidade, esta dependência é também querida e acentuada pelos pais, pelo cuidado e proteção constante, evitando todas as variáveis ou tentando controlá-las. Resulta do amor (e também da posse?) dos pais pelos filhos. O desejo, sincero e defensável, de proteger os filhos de toda a dor e sofrimento, e das contrariedades da vida. Porém, tal como em relação às videiras, é necessário que as crianças e os adolescentes não sejam substituídos nas suas buscas e aprendam a enfrentar as adversidades, pois nem sempre os pais estarão por perto, e precisam de ganhar defesas. É curioso, como os pediatras, e os especialistas em geral, defendem que as crianças não sejam colocadas numa redoma de vidro, mas, pelo contrário, sejam “expostas” à terra, a ambientes menos “saudáveis”, no convívio com outras crianças, para irem ganhando defesas para o futuro…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/35, n.º 4666, 13 de julho de 2022

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Editorial da Voz de Lamego: A vinha do Senhor

As primeiras palavras do Papa Bento XVI, logo depois da eleição, a 19 de abril de 2005: “Os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”.

Muitas vezes se contrapõe Bento XVI ao Papa Francisco, e vice-versa, instrumentalizando um ou outro, conforme as conveniências e interesses pessoais ou de grupo. Cada um, com a sua personalidade e sensibilidade, mais Paulo ou mais Pedro, mas a mesma doçura ao serviço do mesmo Evangelho, da mesma Igreja, na fidelidade sem tréguas a Jesus Cristo, presente e atuante na Igreja, sacramento de Salvação, e no mundo ao qual somos enviados a testemunhar o amor de Deus, para que a fé seja contágio curativo, atração e luz. Não são cópia, mas também não são traição; não são correção, um em relação ao outro, mas simples servos servidores da vinha do Senhor, em tempos sucessivos, com o mesmo amor a Jesus, à Igreja, como Corpo de Cristo no tempo e na história, e ao mundo das pessoas, que louvam toda a criação.

No último Domingo, o Evangelho (Mt 20, 1-16a) apresentava mais uma parábola, com a qual Jesus nos faz vislumbrar um Deus que nos procura, em todo o lado, também na praça, nos caminhos e nas avenidas. Vem uma e outra vez, em todas as horas do dia e em todas as idades da nossa vida. Um Deus que é Pai e, por conseguinte, Se dá por inteiro, não tanto a partir dos nossos méritos, mas a partir do amor que transborda do Seu coração. Como Pai não pode senão amar e amar por inteiro. Não se ama devagarinho, às prestações, na condicional ou com as reservas para ver no que pode dar o relacionalmente! Ama-se. Ponto. Ama-se inteiramente. De contrário, serão cópias de amor, mas não amor.

Cada um de nós é, a um tempo, trabalhador da primeira hora, do meio do dia, do entardecer. Deus desafia-nos, convoca-nos, espera pela nossa resposta. Todos têm lugar à Sua mesa. Todos são acolhidos e agraciados com todo o Seu amor. Ele não desiste de ninguém. Não nos retira parte da herança, pois é sempre Pai que nos ama como Mãe.

A vinha do Senhor entende-se até onde há pessoas, mesmo que esquecidas da sociedade. Deus, revelado em Jesus, é a referência para nós. Daí o compromisso de uma “Igreja em saída”, como reiteradamente tem sublinhado o Papa Francisco. Se o Senhor sai em busca dos trabalhadores, para Quem nunca é tarde, como o Pastor em busca da ovelha perdida, em todas as encruzilhadas, também os Seus discípulos têm a mesma missão. Por um lado, são simples trabalhadores da vinha e, por outro, seguem o exemplo do proprietário, não descansam enquanto houver alguém desocupado, sem trabalhar, sem vínculo, sem amor, sem pertença ao Reino de paz e de amor. A vinha do Senhor é para todos, ricos e pobres, melhor, é para aqueles que aceitarem ser de Deus. Os últimos serão primeiros. É a opção de Deus. É a nossa opção. E como, mais uma vez, insiste o Santo Padre, os últimos, os mais desfavorecidos, devem ser os primeiros a ter acesso a uma vacina, gratuita, contra a COVID-19. Será uma forma de o mundo mostrar que as palavras têm a consistência das opções.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/41, n.º 4576, 22 de setembro de 2020

D. António Couto no 70×7, sobre a vinha… Deus na bela terra do Douro