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Editorial da Voz de Lamego: A vinha do Senhor

As primeiras palavras do Papa Bento XVI, logo depois da eleição, a 19 de abril de 2005: “Os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor. Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações”.

Muitas vezes se contrapõe Bento XVI ao Papa Francisco, e vice-versa, instrumentalizando um ou outro, conforme as conveniências e interesses pessoais ou de grupo. Cada um, com a sua personalidade e sensibilidade, mais Paulo ou mais Pedro, mas a mesma doçura ao serviço do mesmo Evangelho, da mesma Igreja, na fidelidade sem tréguas a Jesus Cristo, presente e atuante na Igreja, sacramento de Salvação, e no mundo ao qual somos enviados a testemunhar o amor de Deus, para que a fé seja contágio curativo, atração e luz. Não são cópia, mas também não são traição; não são correção, um em relação ao outro, mas simples servos servidores da vinha do Senhor, em tempos sucessivos, com o mesmo amor a Jesus, à Igreja, como Corpo de Cristo no tempo e na história, e ao mundo das pessoas, que louvam toda a criação.

No último Domingo, o Evangelho (Mt 20, 1-16a) apresentava mais uma parábola, com a qual Jesus nos faz vislumbrar um Deus que nos procura, em todo o lado, também na praça, nos caminhos e nas avenidas. Vem uma e outra vez, em todas as horas do dia e em todas as idades da nossa vida. Um Deus que é Pai e, por conseguinte, Se dá por inteiro, não tanto a partir dos nossos méritos, mas a partir do amor que transborda do Seu coração. Como Pai não pode senão amar e amar por inteiro. Não se ama devagarinho, às prestações, na condicional ou com as reservas para ver no que pode dar o relacionalmente! Ama-se. Ponto. Ama-se inteiramente. De contrário, serão cópias de amor, mas não amor.

Cada um de nós é, a um tempo, trabalhador da primeira hora, do meio do dia, do entardecer. Deus desafia-nos, convoca-nos, espera pela nossa resposta. Todos têm lugar à Sua mesa. Todos são acolhidos e agraciados com todo o Seu amor. Ele não desiste de ninguém. Não nos retira parte da herança, pois é sempre Pai que nos ama como Mãe.

A vinha do Senhor entende-se até onde há pessoas, mesmo que esquecidas da sociedade. Deus, revelado em Jesus, é a referência para nós. Daí o compromisso de uma “Igreja em saída”, como reiteradamente tem sublinhado o Papa Francisco. Se o Senhor sai em busca dos trabalhadores, para Quem nunca é tarde, como o Pastor em busca da ovelha perdida, em todas as encruzilhadas, também os Seus discípulos têm a mesma missão. Por um lado, são simples trabalhadores da vinha e, por outro, seguem o exemplo do proprietário, não descansam enquanto houver alguém desocupado, sem trabalhar, sem vínculo, sem amor, sem pertença ao Reino de paz e de amor. A vinha do Senhor é para todos, ricos e pobres, melhor, é para aqueles que aceitarem ser de Deus. Os últimos serão primeiros. É a opção de Deus. É a nossa opção. E como, mais uma vez, insiste o Santo Padre, os últimos, os mais desfavorecidos, devem ser os primeiros a ter acesso a uma vacina, gratuita, contra a COVID-19. Será uma forma de o mundo mostrar que as palavras têm a consistência das opções.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/41, n.º 4576, 22 de setembro de 2020

D. António Couto no 70×7, sobre a vinha… Deus na bela terra do Douro