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Posts Tagged ‘Vida’

Editorial da Voz de Lamego: Em busca do que somos

Não podemos voltar ao passado, mas devemos tornar-nos aquilo que somos como pessoas. É o desafio permanente do cristão, tonar-se aquilo que é pelo batismo, filho amado de Deus. Estamos enxertados em Cristo, morremos com Ele e com Ele ressuscitamos novas criaturas, ajustando a nossa vida com a d’Ele e fazendo com que a nossa vontade esteja sincronizada com a d’Ele. É também essa a missão de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). O discipulado consiste em O seguir. “Como O Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21), “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (Jo 15, 14).

Vamos iniciar um novo ano litúrgico e cada novo ano, seja civil, seja, neste caso, litúrgico, desafia-nos a avaliar o caminho percorrido e a traçar propósitos que nos façam avançar, confiantes, seguros e disponíveis para lidar com o dia a dia, com as suas adversidades e com as suas bênçãos, comprometendo-nos, mais e mais com aquilo que nos torna mais humanos, mais cristãos, comprometidos na transformação do mundo, o que passa pela nossa conversão. Parar é morrer. Mais vale, como muitas vezes nos tem dito o Papa Francisco acerca da Igreja, mais vale sair e ter um acidente do que ficar parado a ganhar mofo. É a nossa condição humana. É a nossa vocação cristã. No dizer de Blaise Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Fomos criados por Deus para as alturas, para coisas grandiosas. A nossa condição humana pode transparecer egoísmo, mas a nossa identidade primeira, o primeiro amor, de Deus por cada um de nós, desafia-nos a acolher o Seu projeto: sermos felizes. Como disse o Santo Padre aos jovens: “Não fomos feitos para sonhar os feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida”.

A nossa busca, incessante, é voltar, não atrás, mas a efetivar o que somos em potência, pela graça do Batismo. É sugestiva a música da dupla Carlos Tê/Rui Veloso: “Nunca voltes ao lugar / Onde já foste feliz / Nunca mais voltes à casa / Onde ardeste de paixão / Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado / Por grande a tentação / Que te crie a saudade / Não mates a recordação / Que lembra a felicidade / Nunca voltes ao lugar / Onde o arco-íris se pôs / Só encontrarás a cinza / Que dá na garganta nós”.

A Nicodemos, Jesus responde precisamente: “Quem não nascer de novo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3.5). São elucidativas as palavras do Papa, no último domingo [ver homilia, página 7]: “A vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas. Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam grande a vida. De facto, tornamo-nos naquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos rancorosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/03, n.º 4585, 24 de novembro de 2020

Falecimento da Mãe do Pe. Vasco Pedrinho


Deus, na Sua infinda Misericórdia, na Sua infinita Sabedoria, chamou à Sua presença, no dia 10 de novembro, a Sra. D. Abília de Oliveira, mãe do reverendo Pe. Vasco Oliveira Pedrinho, que é pároco de Alvarenga, de Cabril, de Ester e de Parada de Ester e é natural da Paróquia de Magueija.

O Sr. Bispo, D. António Couto, em nome do presbitério de Lamego e da Diocese manifesta as suas condolências ao reverendo Padre Vasco, aos demais familiares e amigos, unindo-se neste momento de dor, mas igualmente ressalvando a esperança na ressurreição dos mortos e a vida eterna, confiando esta nossa irmã ao Deus da vida. À família, que sempre viveu num ambiente de fé e de forte ligação à Igreja, o Sr. Bispo agradece o testemunho da vivência cristã e a fidelidade e serviço à Igreja, certo que a Sra. Abília continua, agora na eternidade, a fazer parte dos que pertencem a Cristo e com Ele morreram e ressuscitaram, no Batismo e, depois, para a vida eterna.

As Exéquias fúnebres realizam-se em dia de São Martinho, na Igreja Matriz de Santiago de Magueija, pelas 15h00, prosseguindo o funeral no cemitério local.

Deus lhe conceda a vida eterna e aos seus familiares e amigos a consolação das palavras da fé.

Padre Domingos da Silva Pereira » 1928 – 2020

Deus, na Sua Misericórdia infinita, fez regressar a Casa o Seu filho Domingos da Silva Pereira, sacerdote, neste dia 5 de novembro de 2020, em vésperas de completar 93 anos de idade. Nasceu a 30 de dezembro de 1928, na paróquia de Magueija, onde irá a sepultar, a 6 de novembro, pelas 15h00, seguindo as normas da Direção Geral de Saúde e as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa.

Foi ordenado sacerdote a 6 de julho de 1952.

Durante anos foi ecónomo do Seminário Maior de Lamego.

Nos últimos anos acolheu-se às Lareiras – Centro Social Filhas de São Camilo (As Lareiras).

O Sr. Bispo, D. António Couto, em comunhão com o presbitério e com a diocese de Lamego, a que preside, manifesta as condolências aos familiares e amigos, sublinhando a esperança na Ressurreição e na Vida eterna. A Deus confia a vida deste irmão no batismo e no sacerdócio, agradecendo o dom da vida e do ministério sacerdotal, convidando-nos à oração confiante, na certeza da fé numa vida que não acaba, mas se transforma, como diz São Paulo, para que, desfeita a morada terreste, entremos, em definitivo, na habitação eterna, não feita por mãos humanas, mas pelo amor infindo de Deus.

Ao Padre Domingos, Deus lhe conceda o prémio dos justos e a todos quantos choram a sua partida deste mundo a consolação das palavras da fé, na esperança de um dia nos encontrarmos todos na comunhão com Deus, nosso Pai, em Jesus Cristo, nosso irmão, na ação do Espírito Santo.

Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Para que tenham vida em abundância!

É o programa de vida de Jesus. Não tem outro. Realizar a vontade do Pai. É o Seu alimento, o Seu propósito, a Sua vida. Qual é a vontade do Pai? Que ninguém se perca. Nem um só dos Seus filhos! E, por isso, Jesus é o enviado do Pai, fazendo-Se um de nós, tornando-Se um dos nossos. Por amor. Somente amor. Para nos reconduzir ao Pai. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para entrarmos na comunhão com o Pai, com a Santíssima Trindade, temos de nos assumir, antes de mais, como irmãos, filhos do mesmo Pai, deixando-nos mover pelo Espírito de Amor que estabelece e garante a comunhão.

No Evangelho de São João, Jesus apresenta-Se como o bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas, e como a Porta, pela qual entram as ovelhas. Jesus conclui dizendo: “Eu vim para que tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). O Seu discurso está em sintonia com a Sua postura, em cada olhar e em cada palavra, em cada gesto e em cada prodígio, Jesus traduz e concretiza o amor de Deus para connosco, para com todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, camponeses e pecadores, mulheres e crianças, estrangeiros!

Jesus não desiste de ninguém. Não desiste de Judas, nem de Pedro, nem dos demais apóstolos; não desiste da mulher acusada de adultério nem da prostituta que lhe lava os pés com as lágrimas; não desiste de Mateus, chefe de publicanos, nem de Lázaro, o amigo que morreu! Jesus vai até ao fim, até onde tem de ser. Já o dissemos, a vida não é um absoluto, mas é um direito inalienável, que vem antes e está acima dos demais, é fundamento e substrato de todos os direitos e garantias. Absoluto, na vida de Jesus, na minha e na tua vida, porque somos Seus discípulos missionários, é o amor.

O amor faz-nos pobres, faz-nos servos, não por obrigação, mas por opção.

O amor faz-nos pobres… quem ama, dá e dá-se por inteiro, predispõe do que tem e do que é para que a pessoa amada se sinta agraciada. Vejam-se os pais em relação aos filhos… deixam de comer e de comprar roupa e calçado para que os filhos comam melhor e possam comprar aquela peça de roupa ou aquelas sapatilhas! Como não lembrar as mães que na hora da refeição não se sentavam à mesa, dizendo que já tinham comido para que não faltasse aos filhos…

O amor faz-nos servos… isto é, filhos! O filho do Homem veio para servir e não para ser servido! Já não vos chamo servos mas amigos! O filho do dono da casa serve os seus comensais e convidados. E não se sente secundarizado ou menosprezado, pelo contrário, o filho também é dono na casa. Como é que nos sentimos? Filhos (donos da casa) ou convidados? Se somos filhos amados é com alegria que acolhemos e servimos os “convidados”, as visitas! Como não recordar a parábola do Pai misericordioso e do filho pródigo? A um momento, cada um dos filhos se sentiu, em relação ao Pai, como empregado, não como filho! É o amor do Pai que salva, é o amor de nos sentimos filhos que nos salva. Preenchidos de amor, estamos disponíveis para nos gastarmos em prol da vida dos outros, independentemente das pandemias.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Qual a prioridade do país?

Até há pouco, a prioridade era defender a vida, custasse o que custasse. Fechámos escolas, bares, fábricas, concelhos, igrejas, proibimos visitas a lares, ajuntamentos na rua, participação em velórios e funerais, visitas aos hospitais, à cadeia. Era necessário fazer tudo para proteger os mais vulneráveis.

A prioridade foi zelar pela vida. Horas e horas gastas por médicos e enfermeiros e outro pessoal auxiliar para evitar a morte de pessoas com COVID-19, expondo-se, mas com o intuito único e sublime de cuidar da vida.

Na tempestade, o melhor das pessoas vem ao de cima, mas manifesta-se igualmente o pior.

Houve e continua a haver verdadeiros heróis… muitos no anonimado, que abriram as portas e foram ao encontro dos mais desprotegidos, a levar mantimentos ou medicamentos, e assegurando-se que não haveria pessoas esquecidas.

Agora que a pandemia parece mais controlada, mesmo que todos os dias surjam surpresas desagradáveis, o Parlamento traz-nos a temática da eutanásia como uma urgência em facilitar a morte e ajudar a morrer… até aqui havia que evitar a morte a tudo o custo… agora que já morrem menos pessoas, há que facilitar a morte, independentemente dos motivos, ou mesmo sem motivos. Até agora… não desistir de ninguém… agora que as contas estão mais equilibradas, para quê gastar recursos e energias para acompanhar aqueles que vivem em situações mais difíceis?

Para aqueles que veem a história como um eterno retorno, bem podemos dizer que a civilização parece estar a regredir até ao tempo dos faraós, dos reis e das rainhas, e dos imperadores, em que a vida valia conforme o estrato social, o género ou a idade, o poder ou o dinheiro… A vida de alguns valia pouco ou nada: escravos, mulheres, crianças, pessoas portadoras de deficiência ou simplesmente doentes, podiam ser excluídas da sociedade, maltratadas e até mortas, sem que houvesse necessidade de prestar contas… ainda há alguns países assim…

O cristianismo valorizou a vida, não a qualquer custo, mas enformada pela verdade e pelo amor, pela filiação divina. Somos filhos amados de Deus. Eu e tu. Todos. A criança, a mulher, o escravo, o grego, o chinês. Todos, sem exceção. O enfermo, o leproso, o estrangeiro. O que a todos une e identifica é a filiação divina, a dignidade de cada um, e a sua insubstituibilidade.

O direito à vida tornou-se essencial para qualquer sociedade. Foi um salto qualitativo na civilização. O direito à morte… significa que se abdica do direito à vida, por qualquer motivo ou mesmo que não haja motivo nenhum.

Será esta uma prioridade do país? Consigo coligir algumas prioridades: empregabilidade, produtividade, acesso facilitado aos cuidados de saúde, para as pessoas idosas e com menos recursos; recuperar a economia, promover uma efetiva justiça social… erradicar a pobreza; aumento significativo do ordenado mínimo nacional; pagamento do trabalho doméstico para mães/pais que optem ficar em casa a cuidar/educar os filhos, política de natalidade abrangente…

A despenalização, liberalização e promoção da eutanásia, como antes o aborto, será uma questão de dias… pois mesmo que no Parlamento não houvesse uma maioria para levar à prática esta lei, contra os estudiosos, os médicos, contra a filosofia, far-se-iam tantos referendos quantos fossem precisos até conseguirem outra maioria…

Contudo, como cidadãos e como cristãos só temos uma prioridade: amar e servir, cuidar, defender, proteger e celebrar a vida, não desistir de ninguém, não deixar ninguém para trás; salvar, curar, sarar… é a nossa missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/30, n.º 4565, 23 de junho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Descobrir e viver a Páscoa

A vida não se repete. Nem os acontecimentos. Nem as celebrações. Não há duas pessoas iguais. Não há dois momentos iguais. Por vezes ouvimos dizer: “bom, isto já aconteceu, não é nada que já não tivéssemos visto”, numa espécie de eterno retorno, como se situações do passado se pudessem voltar a repetir, quase milagrosamente. Em relação a esta pandemia, vamos ouvindo que não é novidade, já houve outras e até mais perigosas. É preciso ler a história e procurar compreender e relativizar as adversidades e tempestades do tempo atual! Sim, mas essa é apenas uma visão parcelar, que, obviamente, nos deve levar a retirar ensinamentos, a relativizar, ou a não absolutizar, a não dramatizar a situação atual como se fosse algo nunca visto que nos faça vislumbrar o fim do mundo. Em todo o caso, é uma situação nova, concreta, pela rapidez do contágio, e pelo facto de ter surpreendido as autoridades e as populações, quase como um tsunami ou um terramoto, além de todas as consequências que está a provocar na vida social, familiar, económica e eclesial.

Também não há duas Páscoas iguais e a deste ano é, seria, inevitavelmente diferente por todo o contexto que nos envolve e nos vai mantendo mais ou menos afastados com sucessivos apelos aos outros para que fiquem em casa, mesmo que, da nossa parte, arranjemos algumas formas de arejar, mais não seja em passeios, caminhadas ou corridas ditas higiénicas.

Páscoa, na verdade, há só uma, a morte e a ressurreição de Jesus, acontecida há dois mil anos, em Jerusalém. No decorrer da Última Ceia, Jesus antecipa e explica o mistério pascal e, preparando o futuro, faz-nos saber que oferece a vida por todos, o Seu corpo e o Seu sangue, para nos remir e reunir, para nos salvar e congregar, como família, na certeza de que sempre  que em Sua memória nos reunirmos e dissermos/fizermos o que Ele fez, nos tornaremos verdadeiramente participantes da Sua morte, oferenda por nós ao Pai, e da Sua ressurreição, certeza de que a Sua vida não foi em vão e não culminou no vazio!

Não repetimos a Páscoa de Jesus, mas tornámo-la atual, presente. Cristo, na Eucaristia, e demais sacramentos, torna-Se nosso contemporâneo. Ele deu-nos o Espírito Santo, agora o Espírito Santo dá-nos Jesus, torna-O presente, não como uma recordação histórica, longínqua, mas com uma Presença atual, com o mesmo mandato de então: Fazei isto em memória de Mim… como Eu fiz, fazei-o uns aos outros. A Missa leva-nos à missão. A oração conduz-nos ao serviço. O louvor a Deus agrafa-nos no cuidado aos irmãos. Celebrar Páscoa, hoje, é deixar-nos envolver pelo mistério de Deus, pela ação do Espírito Santo na Igreja e no mundo, cooperando para que Cristo que vive em nós viva nos outros também.

Os sinais da Páscoa podem ser ténues, mas estão aí, em cada um que faz o bem, que cumpre a missão de animar, transmitir confiança, ajudar os mais vulneráveis.

Não deixemos também nós, eu e tu, de mostrar os sinais e transparecer a certeza de que Cristo vive, em mim e em ti, no que dizemos e no que fazemos, sejamos portadores da alegria e da esperança, da fé e da caridade, do serviço e da bondade. Se mais não pudermos fazer, um sorriso, uma palavra de ânimo, um telefonema, uma mensagem enviada, a partilha do que os outros fazem de bem.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/20, n.º 4555, 14 de abril de 2020

Falecimento da irmã do Padre Albano Cardoso

O Senhor Deus, Pai de Misericórdia infinita, chamou a Si, à Sua morada eterna, a Sra. Dona Lourdes Cardoso, irmã do Padre Fernando Albano Cardoso, pároco Longa, da Granja do Tedo, de Vale de Figueira e de Nagosa.

O Senhor Bispo, D. António, em seu nome e do presbitério de Lamego, a que preside, manifesta as suas condolências à família e amigos, de forma particular ao Pe. Albano, sublinhando a comunhão espiritual na oração e na certeza da fé que nos garante a vida eterna, a ressurreição no Coração de Deus.

Face aos isolamento social, em virtude da pandemia, a presença física será diminuta, mas não a oração, não a comunhão, não a esperança da vida eterna.

Que o Deus de todo o bem a acolha calorosamente no Seu reino de glória, junto de Quem intercederá por nós, levando até Ele, Senhor nosso Deus, os nossos propósitos e intenções. E que os familiares sintam o aconchego de Deus e a ternura da Virgem Santa Maria, Mãe de Jesus e Mãe nossa.

Editorial da Voz de Lamego: A vida em suspenso?

O momento ainda não é tanto de reflexão mas de luta, de compromisso com todos os que estão no terreno a ajudar a manter a vida da cidade, a salvar vidas, a cuidar dos mais frágeis. É tempo de todos facilitarmos a vida às autoridades sanitárias, aos que tomam medidas para proteger a população, aos profissionais de saúde e todos os que velam pela segurança pública, e a todos os que produzem e transportam bens essenciais.

O nosso compromisso como cidadãos e, por maioria de razão, como cristãos, é fazermos o melhor, não desistir dos outros, não deixar ninguém para trás, não excluir, gastar-nos uns pelos outros como fez Jesus. A quarentena de que tanto se fala remete-nos para a quaresma. A raiz das duas palavras é a mesma e ambas sugerem luta, caminho, esforço e sacrifício, na esperança de chegarmos à meta, à vida saudável, nova, salva, à Páscoa.

Antes da Páscoa, o deserto, o caminho, a montanha, o poço de Jacob! Antes da Páscoa, a Paixão, a oração e o sofrimento, a perseguição e o julgamento, a CRUZ. A Cruz não é ainda o final, mas já nos fala de amor, de entrega, de vida, de esperança, de futuro.

A partir da China, o COVID 19 propagou-se rapidamente pelo mundo. Portugal, de dia para dia, vê aumentar o número de infetados, não se sabendo quando será o pico de doentes e se o Serviço Nacional de Saúde, com a cooperação dos privados, terá capacidade para atender a todos os doentes. Isto vai piorar, importa não o esconder, mas há um rasto de esperança a anunciar: os primeiros contaminados estão curados e outros em casa a recuperar.

A Quaresma de 2020 tornou-se um caminho árduo, longo, duro! Olhando para a Cruz, no contexto desta pandemia, foquemo-nos nas duas dimensões, a vertical, a oração, pedindo a Deus que nos dê ânimo e sabedoria para o melhor caminho a percorrer, e assim também pelas autoridades e profissionais de saúde; a horizontal, cumprindo com conselhos e orientações que nos são dadas para minimizar a propagação do vírus, respeitando tempos e espaços, mas cuidando para que ninguém fique esquecido.

Com o avançar da pandemia, todos começamos a aguçar mais a consciência de que estamos no mesmo barco. Há momentos em que somos mais egoístas. Tantas vezes nos perdemos no provisório, acentuámos as diferenças e as conveniências, mas agora há algo mais importante, essencial, a promoção e a defesa da vida humana. Ainda há dias estávamos a falar de eutanásia e suicídio assistido, e agora é a vida que precisamos, todos, de cuidar, de proteger e de salvar. A pandemia faz-nos perceber melhor como temos de respeitar os outros e o seu espaço, mas sobretudo que somos parte de um todo, pertencemo-nos.

Eu e tu somos responsáveis. Responderemos uns pelos outros. Responderemos a Deus pelos irmãos que não ajudarmos.

A Páscoa há de estar mais à frente. Caminhemos!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/16, n.º 4551, 17 de março de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Deus ressuscita-nos das nossas cinzas

Na mitologia grega, e também noutras culturas, existia uma ave, a Fénix, que ao morrer entrava em autocombustão e ressurgia (ressuscitava) das cinzas. Um pássaro grande, semelhante à águia ou ao falcão, capaz transportar no seu dorso um animal do tamanho de um elefante. Duraria uns 500 anos, segundo uns, ou mesmo 97200 anos, segundo outros, antes de morrer em chamas. Pássaro colorido em tons de vermelho, roxo e amarelo, fazendo lembrar o sol ou o fogo, os olhos azuis a brilharem como safiras. Ressurge das cinzas ainda mais forte para um nova e longa vida. É símbolo da imortalidade e do renascimento espiritual.

No início do cristianismo, a Fénix foi também associada a Cristo, morto e ressuscitado.

Mas esqueçamos por ora a fénix e voltemos o nosso olhar para Jesus. Novamente. Sempre. É Ele que nos traz aqui a estas páginas, para através delas sermos, também nós, eu e tu, portadores de uma Notícia, sempre Nova: Deus tanto nos ama que nos confia o Seu filho amado e, n’Ele, revela que este amor não tem limites, vai até à Cruz, gastando-se totalmente por nós. E um amor assim não perece, porque nos liga, nos faz permanecer, nos faz sobreviver às limitações. Jesus apresenta-Se no meio dos Seus, vivo, ressuscitado. É este o mistério maior da nossa fé, que em cada ano acentuamos solenizando, pela Páscoa, mas que nos faz viver como cristãos do Domingo, a Páscoa semanal na Eucaristia, traduzindo e concretizando o Domingo em todos os dias e circunstâncias. Somos filhos da Luz, da Ressurreição e da Vida nova que Cristo nos dá, fazendo-nos participantes da Sua vida divina, por ação do Espírito Santo.

Estamos dentro da Quaresma, como caminho que nos conduz à Páscoa. Um caminho que iniciou na Quarta-feira de cinzas, precisamente com a cerimónia da imposição das cinzas, um gesto significativo que nos irmana, pois somos filhos da mesma terra. Como nos recordava o Papa Francisco, na belíssima Homilia proferida em Quarta-feira de Cinzas, somos pó, pó da terra e ao pó havemos de voltar. O pó é nada! Mas somos pó amado por Deus. O Senhor insufla o sopro de vida neste pó e chama-nos à vida. “Somos um pó preciso, destinado a viver para sempre. Somos a terra sobre a qual Deus estendeu o Seu céu, o pó contém os Seus sonhos. Somos a esperança de Deus, o Seu tesouro, a Sua glória”.

Por outro lado, prosseguia o Santo Padre, “a cinza pousa nas nossas testas, para que, nos corações, se acenda o fogo do amor. Com efeito, somos cidadãos do céu”. Há muita poeira que teremos que sacudir, muito pó que destrói, que aniquila e desumaniza! Não esqueçamos as nossas raízes, a nossa identidade. “Somos cidadãos do Céu. E o amor a Deus e ao próximo é o passaporte para o Céu; é o nosso passaporte”. O fogo do amor de Deus há de consumir a cinza do nosso pecado. “Deixemo-nos reconciliar, para viver como filhos amados, pecadores perdoados, doentes curados, viandantes acompanhados. Para amar, deixemo-nos amar; deixemo-nos erguer, para caminhar rumo à meta – à Páscoa. Teremos a alegria de descobrir que Deus nos ressuscita das nossas cinzas”. E aqui termina o mito, aqui vislumbra-se o amor de Deus que nos ressuscita!

Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/14, n.º 4549, 3 de março de 2020