Arquivo

Posts Tagged ‘Vida’

Editorial: Poderá a pena de morte ser um direito humano?

Por estes dias surgiu a proposta do aborto passar a ser um direito humano. Subsequentemente, elimina-se a possibilidade de objeção de consciência.

O aborto, mais clandestino ou mais visível, era uma prática que não deixava tranquilo quem o praticava, em situações de exceção, de desespero, medo e dúvida. Avançou-se para a despenalização, para a mãe e para os que ajudavam (e ganhavam com isso). Em condição penalizadora já se encontrava aquela mãe, muitos vezes forçada pelas circunstâncias, pelo contexto familiar, social e cultural, ou porque tinha sido vítima de estupro. Por outro lado, a clandestinidade do aborto, como também no caso da toxicodependência, levava a correr muitos mais riscos para a saúde, além de encarecer a prática do mesmo, afastando das clínicas os que tinham menos recursos. Com estes argumentos compassivos, a despenalização surgia quase como uma bênção. De fora ficaram sempre os homens, que quando muito pegavam em algumas notas e esqueciam o assunto, e os que ganhavam a vida à custa da fragilidade alheia. Seguiu-se a liberalização. O que era excecional, passou a ser banal, democrático, enquadrado como um serviço de saúde. Hoje o aborto surge em paralelo com os métodos contracetivos. A mesma pessoa recorre aos SNS para o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto aborto. E sucessivamente!

As recomendações iniciais, levariam a mãe a uma consulta, a verificar as causas e, eventualmente, apontar soluções que não passassem pelo aborto, limitando às primeiras semanas. Reconhece-se a dramaticidade vivida por algumas mães ao olharem para o presente e para o futuro e para as condições em que trariam uma criança ao mundo, sem o apoio da família ou da comunidade. Uma visão demasiado moralista, que excluía, não ajudava em nada, como uma sociedade demasiado permissiva também não ajuda. Veio, posteriormente, através de um casal de cientistas a proposta que o aborto se estendesse até ao parto. Se na altura do nascimento da criança, os pais não ficassem satisfeitos, poderiam desfazer-se do bebé, matando-o. O argumento é de que não há diferença substancial entre um embrião, um feto e um bebé recém-nascido.

O Parlamento Europeu, seguindo a recomendação da deputado croata Predraf Matić, sustenta agora a possibilidade de o aborto ser considerado um direito humano fundamental, o que tem vindo a ser progressivamente defendido pelos organismos da O.N.U., recusando a recusa dos médicos e dos serviços por questões de consciência e/ou de religião. O Relatório Matić faz prevalecer os direitos das mulheres, subjugando o direito à vida.

Durante alguns anos, a pena de morte constou do Catecismo da Igreja Católica, como último recurso, caso não fosse possível pôr termo a uma situação de violência grave. Colocavam-se algumas questões paradoxais: como é que a Igreja é contra o aborto e é a favor da pena de morte? Nas duas situações estavam em causa a vida humana e a possibilidade de ser destruída. Com o tempo, percebeu-se que não havia justificação para a pena de morte, até porque, na atualidade, havia meios para afastar da sociedade, de forma segura e definitiva, os prevaricadores. A pena de morte voltou à discussão pública, em casos de gravidade, como homicídios. Poderemos assistir, dentro de pouco tempo, à solicitação para que também a pena de morte seja, não um castigo excecional, mas um direito humano fundamental? E que é que isso tem a ver com o aborto? Tem a ver com vidas humanas que, perante circunstâncias mais específicas ou mais genéricas, podem ser impedidas de prosseguir… O mandamento: não matarás, terá de ser refeito! Se quiseres matar terás a ajuda da sociedade, para que não te faltem os meios nem a ajuda necessária.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/35, n.º 4617, 14 de julho de 2021

Foto: Olivier Hoslet/EPA

Editorial da Voz de Lamego: Maio, mês de Maria e da vida

Este é um dos meses mais luminosos e preenchidos!

Maio fala-nos de primavera, de vida, de alegria, de festa, fala-nos de amor, de paixão; fala-nos de Páscoa; fala-nos de Maria e de São José; fala-nos do verde que floresce e das flores que despontam. Tudo nos fala de vida e de Maria. A primavera começa antes e termina depois, mas é maio que melhor nos fala de ressurgimento da vida e da multicolaridade da natureza.

Não podemos falar de maio sem falar do mês de Maria. É-lhe dedicado por inteiro. Mas logo de início, temos a memória litúrgica de São José Operário, no dia 1, e o Dia da Mãe, no primeiro Domingo, acontecimentos estritamente ligados a Maria.

São José é o guardião de Maria e de Jesus, e da Igreja. Com Maria, São José cuida de Jesus, dá-lhe um teto, um espaço para crescer, para aprender a vida, para se sentir aconchegado, amado, protegido.

Comemorar um Dia das Mães quando elas são mães todos os dias do ano, a todo o instante, suscita uma atenção redobrada ao que significa ser mãe. Desde que uma mulher sente o ventre a bulir, ou pressente a gravidez que se está a manifestar, não mais deixa de ser mãe. Até durante o sono! É um trabalho constante, sem pausas, e com muitos sobressaltos à mistura. Claro que a alegria de gerar um filho, e quando é desejado, por maioria de razão, ajuda a enfrentar o mundo, as adversidades, a passar vergonhas, a sujeitar-se a pedir pelos filhos ou a mendigar o carinho deles.

Maria é a cheia de graça. Deus achou-lhe graça e encheu-a da Sua graça, gerando Jesus. Mas cada mãe, a seu jeito, se enche de graça. Claro que há mães que geram no ventre, mas não geram no coração! Se gerarem também no coração, este dilatar-se-á e até as mais egoístas passam a descentrar-se de si para se darem totalmente ao fruto do seu ventre. Maria é exemplo do cuidado permanente, da atenção ao filho, presente nos momentos mais importantes na vida de Jesus, mas com o desprendimento suficiente para saber que o filho que nasceu das Suas entranhas não Lhe pertence, como em absoluto os filhos não pertencem aos pais, pelo menos na ordem da posse, eles têm vida própria e as mães sofrem quando percebem que têm de deixar os filhos trilhar os seus próprios caminhos. E, então, mesmo que os vejam sofrer ou ir pelo caminho errado, terão que renunciar ao comando materno.

Na terceira semana do mês, temos a Semana da Vida. É também o mês do coração. A vida e o amor. O amor que gera vida, que cuida, que se dá. O coração, talvez mais poeticamente, continua a ser o centro dos sentimentos, do amor, o epicentro da vida. Cuidar do coração é cuidar da vida. A melhor forma de cuidar da vida é amar, pois só o amor nos humaniza, nos irmana, só o amor dá calor, cor, beleza e sentido à vida. Quem ama despoja-se de si mesmo para se dar, para servir, para ser prestável. A pressa de Nossa Senhora, por ocasião da Visitação, é bem a expressão do amor em movimento, em correria, ao encontro de quem precisa.

Maria teve que passar por alguns encómios: uma gravidez misteriosa, a explicar; a fuga para o Egipto; a perda do Menino em Jerusalém; as insinuações sobre a sanidade de Jesus, o processo que Lhe levam o filho desta vida, mas em todas as situações prevaleceu o amor que tudo suporta, a fé que tudo alcança, uma imensa confiança em Deus, que garante vida, eternamente…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/25, n.º 4607, 4 de maio de 2021

Editorial da Voz de Lamego: Em menos de nada estaremos em maio!

E poderíamos estar em junho ou em dezembro. O importante é mesmo hoje, AGORA, viver, sentir, amar, servir, cuidar. Não amanhã, mas hoje. Não daqui a pouco, mas agora. O amanhã pertence a Deus. Ele deu-nos cada instante para darmos sentido à nossa vida e cuidarmos para que o mundo seja terra fértil, habitável, seja casa onde há espaço para todos, onde todos se sintam em segurança, amados, se sintam filhos, se assumam e tratem como irmãos.

Podemos esperar para depois? Claro que podemos! Mas se não chegarmos a maio? Se não chegarmos ao “depois”? Quando dermos conta, estaremos em dezembro!

No final de “Os Maias” (1888), obra prima de Eça de Queirós, num último fôlego, Carlos e João da Ega, esboçam uma réstia de esperança, misturada com um trago de resignação:

“– Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. / – Ainda o apanhamos!

Os dois amigos lançaram o passo… – Ainda o apanhamos! / – Ainda o apanhamos!”.

O cristão é enformado pela alegria e pela esperança! A alegria de se saber amado e a esperança de saber que a vida é garantida pelo amor de Deus. Jesus desafia-nos a viver hoje. «Não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado» (Mt 6, 34). Conhecemos a expressão latina “Carpe Diem”, que desafia a viver o presente com uma dose de irreverência e descontração, temperada com a responsabilidade pelos outros. Não é um propósito egoísta de quem esgota a vida, destruindo-se e aos outros, mas de quem gasta a vida por amor.

Não esperemos que o amanhã chegue! Já é dia, é Páscoa. Este é o tempo que Deus coloca nas nossas mãos para vivermos.

Vale a pena recuperar, e meditar, no desafio de São João XXIII:

1. Somente hoje, procurarei viver o presente (em sentido positivo), sem querer resolver o problema da minha vida inteiramente de uma só vez.

2. Somente hoje, terei o máximo cuidado pelo meu aspeto: vestirei com sobriedade; não levantarei a voz; serei gentil nos modos; ninguém criticarei; não pretenderei melhorar ou disciplinar alguém, a não ser eu mesmo.

3. Somente hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para ser feliz não só no outro mundo, mas também neste.

4. Somente hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias, sem pretender que as circunstâncias se adaptem aos meus desejos.

5. Somente hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando que como o alimento é necessário para a vida do corpo, do mesmo modo a boa leitura é necessária para a vida da alma.

6. Somente hoje, realizarei uma boa ação e não o direi a ninguém.

7. Somente hoje, farei algo que não gosto de fazer, e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, farei de modo que ninguém perceba.

8. Somente hoje, organizarei um programa: talvez não o siga exatamente, mas o organizarei. E tomarei cuidado com dois defeitos: a pressa e a indecisão.

9. Somente hoje, acreditarei firmemente, não obstante as aparências, que a boa providência de Deus se ocupa de mim como de ninguém no mundo.

10. Somente hoje, não temerei. De modo particular, não terei medo de desfrutar do que é bonito e de acreditar na bondade. Posso fazer, por doze horas, o que me espantaria se pensasse em ter que o fazer por toda a vida.

Conclusão: um propósito totalitário: “Quero ser bom, hoje, sempre, com todos”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/23, n.º 4605, 20 de abril de 2021

Editorial da Voz de Lamego: A vida, a verdade, o amor e o bem

Portugal foi dos primeiros países a abolir a pena de morte e um dos primeiros a legalizar a eutanásia. Somos primeiros em muitas coisas, também na pobreza, nas desigualdades sociais e na corrupção.

Na passada sexta-feira, 29 de janeiro, em dias de tragédia nacional, o Parlamento português aprovou a lei que promove a eutanásia, invertendo o que é um direito inalienável, desde tempos imemoriáveis, remontando ao juramento de Hipócrates. A Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra este direito, no Artigo 3.º: “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.” A Constituição da República Portuguesa, diz, no Artigo 24.º: “1. A vida humana é inviolável.”

A vida é um direito antes dos direitos. Sem vida não há direitos.

Antes de ser direito, a vida é dom. A origem da vida não me cabe nem a mim nem a ti. O controlo sobre a própria vida tornou-se um direito narcisista: a minha vida só a mim diz respeito, o meu corpo, o que faço, o que como, o que visto e o que compro. Ninguém tem nada a ver com isso. Curiosamente, a nossa dependência aos outros é incontornável, na alimentação, no vestuário, na habitação…

Atenção, não podemos e não devemos menosprezar o sofrimento de uma pessoa concreta, ou de uma família, e as situações limite que vive. Há situações em que parece não haver saída, tal o sofrimento, a angústia, a incerteza e o medo do futuro. Porém, a nossa opção é deixá-la decidir se vive ou se morre, se deixa viver ou se mata? Afastamo-nos da pessoa quando ela mais precisa de nós, quando sofre? Ou, decidimos estar do lado dessa pessoa, ou família, escutá-la, fazendo-lhe sentir que não vamos embora, que estamos ali para ela?

Ao Estado compete assegurar a igualdade de direitos e garanti-los, assegurar a todos o direito à vida, à justiça e à habitação, à educação e aos cuidados de saúde, à igualdade de oportunidades e à liberdade de opinião e de circulação. Não lhe cabe a tutela da vida humana. Hoje, o Estado responsabiliza-se por antecipar a morte a pedido; amanhã, o pedido poderá ser obrigatório, até para criar mais vagas nos hospitais e racionalizar os recursos humanos.

Tantos profissionais que gastam a vida para cuidar e salvar o máximo de vidas. É uma tragédia. Os incêndios de 2017 chocaram-nos! As mortes diárias por COVID-19 já ultrapassam as três centenas. A pressão sobre os hospitais é imensa!

Sinal do Parlamento: facilitar a morte! Uma pessoa está a sofrer? O Serviço Nacional de Saúde ajuda-a a morrer? E para quando o acesso universal a cuidados continuados e paliativos?

Absoluto só Deus. A vida é um valor supremo, referencial para outros valores que pressupõe e exige. Ora vejamos: Jesus morre por amor, para que tenhamos vida abundante.  O filósofo Sócrates morre pela verdade. Martin Luther King e Mahatma Gandhi morrem pela liberdade e igualdade Os Apóstolos e os mártires morrem pela fé. Há pessoas que morrem ou são sacrificadas por serem honestas. Santa Teresa de Calcutá preencheu a sua vida a cuidar dos mais pobres e abandonados.

Ninguém, pelo menos para já, é obrigado a recorrer à eutanásia. A nós, cristãos cabe-nos cuidar, dar razões da nossa fé e da nossa esperança, amar e servir, acompanhar, não desistir de ninguém, ninguém deixar para trás, testemunhar a beleza e o sentido da vida, do início ao fim, não escondendo as dificuldades do caminho.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/12, n.º 4594, 2 de fevereiro de 2021

Categorias:Deus, , Vida Etiquetas:, ,

Editorial da Voz de Lamego: Em busca do que somos

Não podemos voltar ao passado, mas devemos tornar-nos aquilo que somos como pessoas. É o desafio permanente do cristão, tonar-se aquilo que é pelo batismo, filho amado de Deus. Estamos enxertados em Cristo, morremos com Ele e com Ele ressuscitamos novas criaturas, ajustando a nossa vida com a d’Ele e fazendo com que a nossa vontade esteja sincronizada com a d’Ele. É também essa a missão de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). O discipulado consiste em O seguir. “Como O Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós” (Jo 20, 21), “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando” (Jo 15, 14).

Vamos iniciar um novo ano litúrgico e cada novo ano, seja civil, seja, neste caso, litúrgico, desafia-nos a avaliar o caminho percorrido e a traçar propósitos que nos façam avançar, confiantes, seguros e disponíveis para lidar com o dia a dia, com as suas adversidades e com as suas bênçãos, comprometendo-nos, mais e mais com aquilo que nos torna mais humanos, mais cristãos, comprometidos na transformação do mundo, o que passa pela nossa conversão. Parar é morrer. Mais vale, como muitas vezes nos tem dito o Papa Francisco acerca da Igreja, mais vale sair e ter um acidente do que ficar parado a ganhar mofo. É a nossa condição humana. É a nossa vocação cristã. No dizer de Blaise Pascal, “o homem ultrapassa infinitamente o homem”. Fomos criados por Deus para as alturas, para coisas grandiosas. A nossa condição humana pode transparecer egoísmo, mas a nossa identidade primeira, o primeiro amor, de Deus por cada um de nós, desafia-nos a acolher o Seu projeto: sermos felizes. Como disse o Santo Padre aos jovens: “Não fomos feitos para sonhar os feriados ou o fim de semana, mas para realizar os sonhos de Deus neste mundo. Ele tornou-nos capazes de sonhar, para abraçar a beleza da vida. E as obras de misericórdia são as obras mais belas da vida”.

A nossa busca, incessante, é voltar, não atrás, mas a efetivar o que somos em potência, pela graça do Batismo. É sugestiva a música da dupla Carlos Tê/Rui Veloso: “Nunca voltes ao lugar / Onde já foste feliz / Nunca mais voltes à casa / Onde ardeste de paixão / Só encontrarás erva rasa / Por entre as lajes do chão / Nada do que por lá vires / Será como no passado / Não queiras reacender / Um lume já apagado / Por grande a tentação / Que te crie a saudade / Não mates a recordação / Que lembra a felicidade / Nunca voltes ao lugar / Onde o arco-íris se pôs / Só encontrarás a cinza / Que dá na garganta nós”.

A Nicodemos, Jesus responde precisamente: “Quem não nascer de novo, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no reino de Deus” (Jo 3, 3.5). São elucidativas as palavras do Papa, no último domingo [ver homilia, página 7]: “A vida é o tempo das escolhas vigorosas, decisivas e eternas. Escolhas banais levam a uma vida banal; escolhas grandes tornam grande a vida. De facto, tornamo-nos naquilo que escolhemos, tanto no bem como no mal. Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos rancorosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/03, n.º 4585, 24 de novembro de 2020

Falecimento da Mãe do Pe. Vasco Pedrinho


Deus, na Sua infinda Misericórdia, na Sua infinita Sabedoria, chamou à Sua presença, no dia 10 de novembro, a Sra. D. Abília de Oliveira, mãe do reverendo Pe. Vasco Oliveira Pedrinho, que é pároco de Alvarenga, de Cabril, de Ester e de Parada de Ester e é natural da Paróquia de Magueija.

O Sr. Bispo, D. António Couto, em nome do presbitério de Lamego e da Diocese manifesta as suas condolências ao reverendo Padre Vasco, aos demais familiares e amigos, unindo-se neste momento de dor, mas igualmente ressalvando a esperança na ressurreição dos mortos e a vida eterna, confiando esta nossa irmã ao Deus da vida. À família, que sempre viveu num ambiente de fé e de forte ligação à Igreja, o Sr. Bispo agradece o testemunho da vivência cristã e a fidelidade e serviço à Igreja, certo que a Sra. Abília continua, agora na eternidade, a fazer parte dos que pertencem a Cristo e com Ele morreram e ressuscitaram, no Batismo e, depois, para a vida eterna.

As Exéquias fúnebres realizam-se em dia de São Martinho, na Igreja Matriz de Santiago de Magueija, pelas 15h00, prosseguindo o funeral no cemitério local.

Deus lhe conceda a vida eterna e aos seus familiares e amigos a consolação das palavras da fé.

Padre Domingos da Silva Pereira » 1928 – 2020

Deus, na Sua Misericórdia infinita, fez regressar a Casa o Seu filho Domingos da Silva Pereira, sacerdote, neste dia 5 de novembro de 2020, em vésperas de completar 93 anos de idade. Nasceu a 30 de dezembro de 1928, na paróquia de Magueija, onde irá a sepultar, a 6 de novembro, pelas 15h00, seguindo as normas da Direção Geral de Saúde e as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa.

Foi ordenado sacerdote a 6 de julho de 1952.

Durante anos foi ecónomo do Seminário Maior de Lamego.

Nos últimos anos acolheu-se às Lareiras – Centro Social Filhas de São Camilo (As Lareiras).

O Sr. Bispo, D. António Couto, em comunhão com o presbitério e com a diocese de Lamego, a que preside, manifesta as condolências aos familiares e amigos, sublinhando a esperança na Ressurreição e na Vida eterna. A Deus confia a vida deste irmão no batismo e no sacerdócio, agradecendo o dom da vida e do ministério sacerdotal, convidando-nos à oração confiante, na certeza da fé numa vida que não acaba, mas se transforma, como diz São Paulo, para que, desfeita a morada terreste, entremos, em definitivo, na habitação eterna, não feita por mãos humanas, mas pelo amor infindo de Deus.

Ao Padre Domingos, Deus lhe conceda o prémio dos justos e a todos quantos choram a sua partida deste mundo a consolação das palavras da fé, na esperança de um dia nos encontrarmos todos na comunhão com Deus, nosso Pai, em Jesus Cristo, nosso irmão, na ação do Espírito Santo.

Chegou agosto, e vem com tempo

O nosso jornal diocesano, Voz de Lamego, tem um grupo de cronistas que nos envolvem, desafiam, nos fazem refletir, com temáticas e sensibilidades variadas, e, como facilmente se pode verificar, apontam caminhos, rasgam horizontes, comprometem-nos com a vida, com o amor, com a beleza, com a justiça e a verdade, com a bondade e a caridade, comprometem-nos na construção de um mundo mais humano, fraterno, cristão. Esta semana, contamos com uma nova cronista, a Ana Carolina Fernandes, com a sugestão que se segue:

“Chegou agosto, e vem com tempo

Chegou em sobressalto, depois de um março agitado onde a nossa sensação de tempo foi alterada. Fomos obrigados a parar. A vida como a conhecíamos em agitação, rotinas definidas, horários estipulados e correrias diárias bloqueou e mexeu, mexeu com tudo aquilo que sempre tomámos por garantido.

Revirou o nosso calendário, insistiu para que a nossa agenda não comandasse os nossos dias e deu-nos tempo.

Deu-nos tempo, aquele que sempre pedimos.

Tirou-nos muitas coisas, mas será que todas essas coisas eram verdadeiramente essenciais?

Será que não nos trouxe coisas boas também?

Será que não nos ofereceu uma nova sensação de tempo?

Vivemos uma vida inteira, com a queixa constante que gostávamos de ter mais tempo. E esquecemos uma coisa: tempo é agora.

E se o tempo é agora, agosto é hoje. Chegou quente como o conhecíamos e repentino como não estávamos tão habituados, e diz-nos que podemos viver assim. Que os dias de azáfama podem abrandar, que é tempo para “estar”, num sentido de

“estar” que a correria do dia-a-dia não nos deixava conhecer.

É “sentir” agora, num “sentir” que estava habituado a preparar o dia a seguir.

É “ser” mais, num “ser” que só queria ser melhor.

E agora pode soar a cliché, mas se há algo de maravilhoso que toda esta mudança nos trouxe foi o tempo que sempre desejámos ter. E mais do que isso, é o tempo que precisávamos. E que finalmente chegou!

E agora?

Agora só cabe a cada um de nós saber vivê-lo da melhor forma.

Pode parecer difícil e até mesmo desafiante aprender a viver de forma mais branda, com a incerteza do que aí vem, com novos medos e tantos receios, mas se calhar era mesmo isto que faltava aos dias. Para que deixem de ser só dias e passem a ser os nossos dias, no nosso tempo.

Parámos. E ainda bem que houve algo que nos obrigou a parar.

E eu só desejo que o agosto 2020, marcado por ser tão diferente, seja esperança para melhores “agostos” que estão por vir.

Porque no final de contas, todos queremos cantar “Meu querido mês de agosto, por ti levo o ano inteiro a sonhar”. Que acordemos deste sonho, para continuar a viver a vida em tempos felizes.

Chegou agosto, e vem com o TEU tempo.”

Carolina Fernandes, fisioterapeuta,

in Voz de Lamego, ano 90/36, n.º 4571, 18 de agosto de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Para que tenham vida em abundância!

É o programa de vida de Jesus. Não tem outro. Realizar a vontade do Pai. É o Seu alimento, o Seu propósito, a Sua vida. Qual é a vontade do Pai? Que ninguém se perca. Nem um só dos Seus filhos! E, por isso, Jesus é o enviado do Pai, fazendo-Se um de nós, tornando-Se um dos nossos. Por amor. Somente amor. Para nos reconduzir ao Pai. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Para entrarmos na comunhão com o Pai, com a Santíssima Trindade, temos de nos assumir, antes de mais, como irmãos, filhos do mesmo Pai, deixando-nos mover pelo Espírito de Amor que estabelece e garante a comunhão.

No Evangelho de São João, Jesus apresenta-Se como o bom Pastor, que dá a vida pelas ovelhas, e como a Porta, pela qual entram as ovelhas. Jesus conclui dizendo: “Eu vim para que tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). O Seu discurso está em sintonia com a Sua postura, em cada olhar e em cada palavra, em cada gesto e em cada prodígio, Jesus traduz e concretiza o amor de Deus para connosco, para com todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, pobres, doentes, pecadores, publicanos, camponeses e pecadores, mulheres e crianças, estrangeiros!

Jesus não desiste de ninguém. Não desiste de Judas, nem de Pedro, nem dos demais apóstolos; não desiste da mulher acusada de adultério nem da prostituta que lhe lava os pés com as lágrimas; não desiste de Mateus, chefe de publicanos, nem de Lázaro, o amigo que morreu! Jesus vai até ao fim, até onde tem de ser. Já o dissemos, a vida não é um absoluto, mas é um direito inalienável, que vem antes e está acima dos demais, é fundamento e substrato de todos os direitos e garantias. Absoluto, na vida de Jesus, na minha e na tua vida, porque somos Seus discípulos missionários, é o amor.

O amor faz-nos pobres, faz-nos servos, não por obrigação, mas por opção.

O amor faz-nos pobres… quem ama, dá e dá-se por inteiro, predispõe do que tem e do que é para que a pessoa amada se sinta agraciada. Vejam-se os pais em relação aos filhos… deixam de comer e de comprar roupa e calçado para que os filhos comam melhor e possam comprar aquela peça de roupa ou aquelas sapatilhas! Como não lembrar as mães que na hora da refeição não se sentavam à mesa, dizendo que já tinham comido para que não faltasse aos filhos…

O amor faz-nos servos… isto é, filhos! O filho do Homem veio para servir e não para ser servido! Já não vos chamo servos mas amigos! O filho do dono da casa serve os seus comensais e convidados. E não se sente secundarizado ou menosprezado, pelo contrário, o filho também é dono na casa. Como é que nos sentimos? Filhos (donos da casa) ou convidados? Se somos filhos amados é com alegria que acolhemos e servimos os “convidados”, as visitas! Como não recordar a parábola do Pai misericordioso e do filho pródigo? A um momento, cada um dos filhos se sentiu, em relação ao Pai, como empregado, não como filho! É o amor do Pai que salva, é o amor de nos sentimos filhos que nos salva. Preenchidos de amor, estamos disponíveis para nos gastarmos em prol da vida dos outros, independentemente das pandemias.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/32, n.º 4567, 7 de julho de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Qual a prioridade do país?

Até há pouco, a prioridade era defender a vida, custasse o que custasse. Fechámos escolas, bares, fábricas, concelhos, igrejas, proibimos visitas a lares, ajuntamentos na rua, participação em velórios e funerais, visitas aos hospitais, à cadeia. Era necessário fazer tudo para proteger os mais vulneráveis.

A prioridade foi zelar pela vida. Horas e horas gastas por médicos e enfermeiros e outro pessoal auxiliar para evitar a morte de pessoas com COVID-19, expondo-se, mas com o intuito único e sublime de cuidar da vida.

Na tempestade, o melhor das pessoas vem ao de cima, mas manifesta-se igualmente o pior.

Houve e continua a haver verdadeiros heróis… muitos no anonimado, que abriram as portas e foram ao encontro dos mais desprotegidos, a levar mantimentos ou medicamentos, e assegurando-se que não haveria pessoas esquecidas.

Agora que a pandemia parece mais controlada, mesmo que todos os dias surjam surpresas desagradáveis, o Parlamento traz-nos a temática da eutanásia como uma urgência em facilitar a morte e ajudar a morrer… até aqui havia que evitar a morte a tudo o custo… agora que já morrem menos pessoas, há que facilitar a morte, independentemente dos motivos, ou mesmo sem motivos. Até agora… não desistir de ninguém… agora que as contas estão mais equilibradas, para quê gastar recursos e energias para acompanhar aqueles que vivem em situações mais difíceis?

Para aqueles que veem a história como um eterno retorno, bem podemos dizer que a civilização parece estar a regredir até ao tempo dos faraós, dos reis e das rainhas, e dos imperadores, em que a vida valia conforme o estrato social, o género ou a idade, o poder ou o dinheiro… A vida de alguns valia pouco ou nada: escravos, mulheres, crianças, pessoas portadoras de deficiência ou simplesmente doentes, podiam ser excluídas da sociedade, maltratadas e até mortas, sem que houvesse necessidade de prestar contas… ainda há alguns países assim…

O cristianismo valorizou a vida, não a qualquer custo, mas enformada pela verdade e pelo amor, pela filiação divina. Somos filhos amados de Deus. Eu e tu. Todos. A criança, a mulher, o escravo, o grego, o chinês. Todos, sem exceção. O enfermo, o leproso, o estrangeiro. O que a todos une e identifica é a filiação divina, a dignidade de cada um, e a sua insubstituibilidade.

O direito à vida tornou-se essencial para qualquer sociedade. Foi um salto qualitativo na civilização. O direito à morte… significa que se abdica do direito à vida, por qualquer motivo ou mesmo que não haja motivo nenhum.

Será esta uma prioridade do país? Consigo coligir algumas prioridades: empregabilidade, produtividade, acesso facilitado aos cuidados de saúde, para as pessoas idosas e com menos recursos; recuperar a economia, promover uma efetiva justiça social… erradicar a pobreza; aumento significativo do ordenado mínimo nacional; pagamento do trabalho doméstico para mães/pais que optem ficar em casa a cuidar/educar os filhos, política de natalidade abrangente…

A despenalização, liberalização e promoção da eutanásia, como antes o aborto, será uma questão de dias… pois mesmo que no Parlamento não houvesse uma maioria para levar à prática esta lei, contra os estudiosos, os médicos, contra a filosofia, far-se-iam tantos referendos quantos fossem precisos até conseguirem outra maioria…

Contudo, como cidadãos e como cristãos só temos uma prioridade: amar e servir, cuidar, defender, proteger e celebrar a vida, não desistir de ninguém, não deixar ninguém para trás; salvar, curar, sarar… é a nossa missão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/30, n.º 4565, 23 de junho de 2020