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Vaticano – CONVERSÃO | Editorial Voz de Lamego | 17 de novembro

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No passado dia 14 de novembro, dentro da Semana dos Seminários (8 a 15 de novembro), realizou-se, no Seminário Maior de Lamego, a ASSEMBLEIA DO CLERO, tendo como principal orador o Pe. José Frazão Correia, sj (sacerdote jesuíta), Superior Provincial da Companhia de Jesus em Portugal. Assim sendo, a edição posterior à referida Assembleia dá-lhe o devido destaque, bem como à vivência da Semana dos Seminários.

Outro tema em destaque é a Visita Pastoral de D. António Couto na Paróquia de Santo Amaro de Alvite. Relembra-se que decorre a Visita Pastoral na Zona Pastoral de Moimenta da Beira e que se prolonga até abril do próximo ano.

O Editorial, do Pe. Joaquim Dionísio, traz à reflexão acontecimentos que expõem o Vaticano, sublinhando a necessidade e a urgência da conversão, a todos os níveis, conversão que começa por cada um, como bem sublinhava Madre Teresa de calcutá.

Vaticano – CONVERSÃO

Alguém questionou Madre Teresa de Calcutá sobre o que mudar na Igreja e ela respondeu: tu e eu! A resposta indica que todos os baptizados são Igreja e que há razões para mudar. A reforma da Igreja é mais do que a alteração de estruturas; deve, sobretudo, abranger comportamentos.

Por estes dias foram notícia alguns factos ocorridos no Vaticano, envolvendo pessoas e números. Já se sabe que a comunicação social tem a particularidade de divulgar o menos bom, belo e justo protagonizado por uns quantos, levando a que muitos tomem o todo pela parte.

Se a divulgação dos factos deve envergonhar e converter os protagonistas, também é verdade que fortalece a determinação de quem procura acabar com tais situações. E louva-se o empenho do Papa para pôr cobro a exageros, a gastos exorbitantes ou a mordomias pouco cristãs. O mundo é testemunha da sua sobriedade, embora o seu exemplo tarde em contagiar alguns próximos.

O escrutínio prévio dos nomeados, o acabar com certas regalias, o combate aos instalados e carreiristas, a rotatividade, a transparência e o controlo poderão contribuir para uma maior verdade.

Apesar dos limites dos seus membros, a Igreja continua a sua missão, protagonizando uma presença que vivifica e um serviço que respeita e eleva a dignidade humana. E quantas vezes o faz em circunstâncias difíceis, sem apoios, ao lado dos perseguidos, dos que sofrem, dos doentes e marginalizados.

A maioria dos bispos e sacerdotes e consagrados vive sem luxos, à vista de todos, no meio do povo cristão, testemunhando exemplos e histórias de vida que incarnam o evangelho. Acreditamos que, no Vaticano, muitos se inserem neste grupo e cumprem a sua missão de forma exemplar.

A comunicação social tem tendência a esquecer tais exemplos, mas sabemos quanto o mundo cresce e se eleva com tais vidas.

in Voz de Lamego, ano 85/51, n.º 4338, 17 de novembro

Eucaristia de Encerramento do Sínodo | Homilia do Papa Francisco

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SANTA MISSA DE ENCERRAMENTO
DA XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA DO SÍNODO DOS BISPOS

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica Vaticana
XXX Domingo do Tempo Comum, 25 de Outubro de 2015

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As três leituras deste domingo apresentam-nos a compaixão de Deus, a sua paternidade, que se revela definitivamente em Jesus.

O profeta Jeremias, em pleno desastre nacional, enquanto o povo é deportado pelos inimigos, anuncia que «o Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel» (31, 7). E por que o fez? Porque Ele é Pai (cf. 31, 9); e, como Pai, cuida dos seus filhos, acompanha-os ao longo do caminho, sustenta «o cego e o coxo, a mulher grávida e a que deu à luz» (31, 8). A sua paternidade abre-lhes um caminho desimpedido, um caminho de consolação depois de tantas lágrimas e tantas amarguras. Se o povo permanecer fiel, se perseverar na busca de Deus mesmo em terra estrangeira, Deus mudará o seu cativeiro em liberdade, a sua solidão em comunhão: e aquilo que o povo semeia hoje em lágrimas, recolhê-lo-á amanhã com alegria (cf. Sal 125, 6).

Com o Salmo, também nós manifestámos a alegria que é fruto da salvação do Senhor: «A nossa boca encheu-se de sorrisos e a nossa língua de canções» (125, 2). O crente é uma pessoa que experimentou na sua vida a acção salvífica de Deus. E nós, pastores, experimentamos o que significa semear com fadiga, por vezes em lágrimas, e alegrar-se pela graça duma colheita que sempre ultrapassa as nossas forças e as nossas capacidades.

O trecho da Carta aos Hebreus apresentou-nos a compaixão de Jesus. Também Ele «Se revestiu de fraqueza» (cf. 5, 2), para sentir compaixão por aqueles que estão na ignorância e no erro. Jesus é o Sumo Sacerdote grande, santo, inocente, mas ao mesmo tempo é o Sumo Sacerdote que tomou parte nas nossas fraquezas e foi provado em tudo como nós, excepto no pecado (cf. 4, 15). Por isso, é o mediador da nova e definitiva aliança, que nos dá a salvação.

O Evangelho de hoje liga-se directamente à primeira Leitura: como o povo de Israel foi libertado graças à paternidade de Deus, assim Bartimeu foi libertado graças à compaixão de Jesus. Jesus acaba de sair de Jericó. Mas Ele, apesar de ter apenas iniciado o caminho mais importante, o caminho para Jerusalém, detém-Se ainda para responder ao grito de Bartimeu. Deixa-Se comover pelo seu pedido, interessa-Se pela sua situação. Não Se contenta em dar-lhe uma esmola, mas quer encontrá-lo pessoalmente. Não lhe dá instruções nem respostas, mas faz uma pergunta: «Que queres que te faça?» (Mc 10, 51). Poderia parecer uma pergunta inútil: que poderia um cego desejar senão a vista? E todavia, com esta pergunta feita «face a face», directa mas respeitosa, Jesus manifesta que quer escutar as nossas necessidades. Deseja um diálogo com cada um de nós, feito de vida, de situações reais, que nada exclua diante de Deus. Depois da cura, o Senhor diz àquele homem: «A tua fé te salvou» (10, 52). É belo ver como Cristo admira a fé de Bartimeu, confiando nele. Ele acredita em nós, mais de quanto acreditamos nós em nós mesmos.

Há um detalhe interessante. Jesus pede aos seus discípulos que vão chamar Bartimeu. Estes dirigem-se ao cego usando duas palavras, que só Jesus utiliza no resto do Evangelho. Primeiro, dizem-lhe «coragem!», uma palavra que significa, literalmente, «tem confiança, faz-te ânimo!» É que só o encontro com Jesus dá ao homem a força para enfrentar as situações mais graves. A segunda palavra é «levanta-te!», como Jesus dissera a tantos doentes, tomando-os pela mão e curando-os. Os seus limitam-se a repetir as palavras encorajadoras e libertadoras de Jesus, conduzindo directamente a Ele sem fazer sermões. A isto são chamados os discípulos de Jesus, também hoje, especialmente hoje: pôr o homem em contacto com a Misericórdia compassiva que salva. Quando o grito da humanidade se torna, como o de Bartimeu, ainda mais forte, não há outra resposta senão adoptar as palavras de Jesus e, sobretudo, imitar o seu coração. As situações de miséria e de conflitos são para Deus ocasiões de misericórdia. Hoje é tempo de misericórdia!

Mas há algumas tentações para quem segue Jesus. O Evangelho de hoje põe em evidência pelo menos duas. Nenhum dos discípulos pára, como faz Jesus. Continuam a caminhar, avançam como se nada fosse. Se Bartimeu é cego, eles são surdos: o seu problema não é problema deles. Pode ser o nosso risco: face aos contínuos problemas, o melhor é continuar para diante, sem se deixar perturbar. Desta maneira, como aqueles discípulos, estamos com Jesus, mas não pensamos como Jesus. Está-se no seu grupo, mas perde-se a abertura do coração, perdem-se a admiração, a gratidão e o entusiasmo e corre-se o risco de tornar-se «consuetudinários da graça». Podemos falar d’Ele e trabalhar para Ele, mas viver longe do seu coração, que Se inclina para quem está ferido. Esta é a tentação duma «espiritualidade da miragem»: podemos caminhar através dos desertos da humanidade não vendo aquilo que realmente existe, mas o que nós gostaríamos de ver; somos capazes de construir visões do mundo, mas não aceitamos aquilo que o Senhor nos coloca diante de olhos. Uma fé que não sabe radicar-se na vida das pessoas, permanece árida e, em vez de oásis, cria outros desertos.

Há uma segunda tentação: cair numa «fé de tabela». Podemos caminhar com o povo de Deus, mas temos já a nossa tabela de marcha, onde tudo está previsto: sabemos aonde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os nossos ritmos e qualquer inconveniente perturba-nos. Corremos o risco de nos tornarmos como «muitos» do Evangelho que perdem a paciência e repreendem Bartimeu. Pouco antes repreenderam as crianças (cf. 10, 13), agora o mendigo cego: quem incomoda ou não está à altura há que excluí-lo. Jesus, pelo contrário, quer incluir, sobretudo quem está relegado para a margem e grita por Ele. Estes, como Bartimeu, têm fé, porque saber-se necessitado de salvação é a melhor maneira para encontrar Jesus.

E, no fim, Bartimeu põe-se a seguir Jesus ao longo da estrada (cf. 10, 52). Não só recupera a vista, mas une-se à comunidade daqueles que caminham com Jesus. Queridos Irmãos sinodais, nós caminhámos juntos. Agradeço-vos pela estrada que compartilhámos tendo o olhar fixo no Senhor e nos irmãos, à procura das sendas que o Evangelho indica, no nosso tempo, para anunciar o mistério de amor da família. Continuemos pelo caminho que o Senhor deseja. Peçamos-Lhe um olhar são e salvo, que saiba irradiar luz, porque recorda o esplendor que o iluminou. Sem nos deixarmos jamais ofuscar pelo pessimismo e pelo pecado, procuremos e vejamos a glória de Deus que resplandece no homem vivo.

FONTE: página oficial do VATICANO.

Papa Francisco no encerramento do Sínodo dos Bispos

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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO

NA CONCLUSÃO DA XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA

DO SÍNODO DOS BISPOS

Amadas Beatitudes, Eminências, Excelências,
Queridos irmãos e irmãs!

Quero, antes de mais, agradecer ao Senhor por ter guiado o nosso caminho sinodal nestes anos através do Espírito Santo, que nunca deixa faltar à Igreja o seu apoio.

Agradeço de todo o coração ao Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, a D. Fabio Fabene, Subsecretário e, juntamente com eles, agradeço ao Relator, o Cardeal Peter Erdö, e ao Secretário Especial, D. Bruno Forte, aos presidentes delegados, aos secretários, consultores, tradutores e todos aqueles que trabalharam de forma incansável e com total dedicação à Igreja: um cordial obrigado! E quero agradecer também à Comissão que fez a Relação; alguns passaram a noite em branco.

Agradeço a todos vós, amados padres sinodais, delegados fraternos, auditores, auditoras e conselheiros, párocos e famílias pela vossa activa e frutuosa participação.

Agradeço ainda a todas as pessoas que se empenharam, de forma anónima e em silêncio, prestando a sua generosa contribuição para os trabalhos deste Sínodo.

Estai certos de que a todos recordo na minha oração ao Senhor para que vos recompense com a abundância dos seus dons e graças!

Enquanto acompanhava os trabalhos do Sínodo, pus-me esta pergunta: Que há-de significar, para a Igreja, encerrar este Sínodo dedicado à família?

Certamente não significa que esgotámos todos os temas inerentes à família, mas que procurámos iluminá-los com a luz do Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja, infundindo neles a alegria da esperança, sem cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já se disse.

Seguramente não significa que encontrámos soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam a família, mas que colocámos tais dificuldades e dúvidas sob a luz da Fé, examinámo-las cuidadosamente, abordámo-las sem medo e sem esconder a cabeça na areia.

Significa que solicitámos todos a compreender a importância da instituição da família e do Matrimónio entre homem e mulher, fundado sobre a unidade e a indissolubilidade e a apreciá-la como base fundamental da sociedade e da vida humana.

Significa que escutámos e fizemos escutar as vozes das famílias e dos pastores da Igreja que vieram a Roma carregando sobre os ombros os fardos e as esperanças, as riquezas e os desafios das famílias do mundo inteiro.

Significa que demos provas da vitalidade da Igreja Católica, que não tem medo de abalar as consciências anestesiadas ou sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família.

Significa que procurámos olhar e ler a realidade, melhor dito as realidades, de hoje com os olhos de Deus, para acender e iluminar, com a chama da fé, os corações dos homens, num período histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente negatividade.

Significa que testemunhámos a todos que o Evangelho continua a ser, para a Igreja, a fonte viva de novidade eterna, contra aqueles que querem «endoutriná-lo» como pedras mortas para as jogar contra os outros.

Significa também que espoliámos os corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas.

Significa que afirmámos que a Igreja é Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores à procura do perdão e não apenas dos justos e dos santos, ou melhor dos justos e dos santos quando se sentem pobres e pecadores.

Significa que procurámos abrir os horizontes para superar toda a hermenêutica conspiradora ou perspectiva fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível.

No caminho deste Sínodo, as diferentes opiniões que se expressaram livremente – e às vezes, infelizmente, com métodos não inteiramente benévolos – enriqueceram e animaram certamente o diálogo, proporcionando a imagem viva duma Igreja que não usa «impressos prontos», mas que, da fonte inexaurível da sua fé, tira água viva para saciar os corações ressequidos.[1]

E vimos também – sem entrar nas questões dogmáticas, bem definidas pelo Magistério da Igreja – que aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral – como disse, as questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja – cada princípio geral, se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado.[2] O Sínodo de 1985, que comemorava o vigésimo aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II, falou da inculturação como da «íntima transformação dos autênticos valores culturais mediante a integração no cristianismo e a encarnação do cristianismo nas várias culturas humanas».[3] A inculturação não debilita os valores verdadeiros, mas demonstra a sua verdadeira força e a sua autenticidade, já que eles adaptam-se sem se alterar, antes transformam pacífica e gradualmente as várias culturas.[4]

Vimos, inclusive através da riqueza da nossa diversidade, que o desafio que temos pela frente é sempre o mesmo: anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques ideológicos e individualistas.

E, sem nunca cair no perigo do relativismo ou de demonizar os outros, procurámos abraçar plena e corajosamente a bondade e a misericórdia de Deus, que ultrapassa os nossos cálculos humanos e nada mais quer senão que «todos os homens sejam salvos» (1 Tim 2, 4), para integrar e viver este Sínodo no contexto do Ano Extraordinário da Misericórdia que a Igreja está chamada a viver.

Amados irmãos!

A experiência do Sínodo fez-nos compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão. Isto não significa de forma alguma diminuir a importância das fórmulas – são necessárias –, a importância das leis e dos mandamentos divinos, mas exaltar a grandeza do verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua Misericórdia (cf. Rm 3, 21-30; Sal 129/130; Lc 11, 47-54). Significa vencer as tentações constantes do irmão mais velho (cf. Lc 15, 25-32) e dos trabalhadores invejosos (cf. Mt 20, 1-16). Antes, significa valorizar ainda mais as leis e os mandamentos, criados para o homem e não vice-versa (cf. Mc 2, 27).

Neste sentido, o necessário arrependimento, as obras e os esforços humanos ganham um sentido mais profundo, não como preço da Salvação – que não se pode adquirir – realizada por Cristo gratuitamente na Cruz, mas como resposta Àquele que nos amou primeiro e salvou com o preço do seu sangue inocente, quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5, 6).

O primeiro dever da Igreja não é aplicar condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor (cf. Jo 12, 44-50).

Do Beato Paulo VI temos estas palavras estupendas: «Por conseguinte podemos pensar que cada um dos nossos pecados ou fugas de Deus acende n’Ele uma chama de amor mais intenso, um desejo de nos reaver e inserir de novo no seu plano de salvação (…). Deus, em Cristo, revela-Se infinitamente bom (…). Deus é bom. E não apenas em Si mesmo; Deus – dizemo-lo chorando – é bom para nós. Ele nos ama, procura, pensa, conhece, inspira e espera… Ele – se tal se pode dizer – será feliz no dia em que regressarmos e Lhe dissermos: Senhor, na vossa bondade, perdoai-me. Vemos, assim, o nosso arrependimento tornar-se a alegria de Deus».[5]

Por sua vez São João Paulo II afirmava que «a Igreja vive uma vida autêntica, quando professa e proclama a misericórdia, (…) e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador das quais ela é depositária e dispensadora».[6]

Também o Papa Bento XVI disse: «Na realidade, a misericórdia é o núcleo da mensagem evangélica, é o próprio nome de Deus (…). Tudo o que a Igreja diz e realiza, manifesta a misericórdia que Deus sente pelo homem, portanto, por nós. Quando a Igreja deve reafirmar uma verdade menosprezada, ou um bem traído, fá-lo sempre estimulada pelo amor misericordioso, para que os homens tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10, 10)».[7]

Sob esta luz e graça, neste tempo de graça que a Igreja viveu dialogando e discutindo sobre a família, sentimo-nos enriquecidos mutuamente; e muitos de nós experimentaram a acção do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista e artífice do Sínodo. Para todos nós, a palavra «família» já não soa como antes do Sínodo, a ponto de encontrarmos nela o resumo da sua vocação e o significado de todo o caminho sinodal.[8]

Na verdade, para a Igreja, encerrar o Sínodo significa voltar realmente a «caminhar juntos» para levar a toda a parte do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia Deus!

Obrigado!

FONTE: página oficial do VATICANO | Santa Sé

À conversa com D. António Couto sobre a Visita Ad Limina

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Os bispos portugueses viveram, entre 07 e 12 deste mês, a “visita ad limina”, da qual se falou na edição anterior deste jornal e na qual participaram D. António Couto e D. Jacinto Botelho. No sentido de podermos levar aos nossos leitores algumas notas sobre este acontecimento eclesial, pedimos a colaboração do nosso bispo.

Senhor D. António, que balanço faz desta visita ad limina?

Para mim é sempre uma peregrinação aos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, e também fazer sentir ao bispo de Roma, hoje o Papa Francisco, a nossa fidelidade e disponibilidade para acolher com amor e inteligência as suas intenções e ideias, rumos pastorais e modos de fazer. Os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo foram, nos primeiros séculos da Igreja, os únicos grandes lugares de peregrinação de todos os cristãos. A visita ad limina Apostolorum tem de cumprir sempre esse objetivo. Fiquei com a ideia de que o fizemos muito depressa, muito a correr. Eu tive necessidade de lá voltar e de lá passar mais tempo. Pedro e Paulo são, como lembra a tradição antiga, os prôtóthronoi, os primeiros na cátedra da doutrina divina e salvífica. É preciso estar ali, junto deles, até estremecer alguma coisa em nós. A mesma atitude se deve reservar ao bispo de Roma. Tudo o resto, os restantes pontos da agenda, são mais ou menos úteis, são para preencher o ramalhete, mas estão longe de fazer estremecer. A visita ad limina Apostolorum que os bispos de Portugal realizaram recentemente teve um pouco de tudo isto. Para mim, ficou o que faz estremecer. No que vi e ouvi. O encontro com o bispo de Roma, o Papa Francisco, foi muito bom. As lições recebidas nos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, no silêncio, na oração e na meditação, foram importantes. Restam depois, como diz bem Robert Musil, as iluminações. Mas estas nunca me seduziram.

 Que importância e consequências podem ter tais visitas na vida da diocese?

Na minha vida, e, portanto, no que de mim passar para a nossa Diocese, mais autenticidade, mais Evangelho, mais Jesus Cristo. Não trago nenhuma diretriz específica, nenhum recado ou receita, para o andamento pastoral da Diocese. Antes da Visita, é-nos pedido um relatório pormenorizado sobre a vida da Diocese. Aí, sim, fui obrigado a refletir sobre a realidade da nossa Diocese e os rumos pastorais seguidos e a seguir. Quero crer que o relatório foi lido e sublinhado, mas não tive disso nenhum eco concreto. O encontro com o Papa Francisco, esse sim, apontou perspetivas e maneiras de ser e de fazer, que me parecem oportunas e incisivas, e que registei para que o bispo, os sacerdotes, os consagrados e os fiéis leigos da nossa Diocese dediquem mais tempo e qualidade à oração, à pregação e escuta da Palavra de Deus, e ao testemunho de vida. Sim, o Papa disse-nos que muitas vezes o nosso testemunho anula a nossa pregação. Nada que nós não soubéssemos já, mas é sempre bom ouvi-lo outra vez e outra vez e outra vez… até estremecer.

Como caracterizaria o encontro com o Papa Francisco?

Rico. Belo. Sereno. Claro. Certeiro. Sem nada na manga. Sem nada a defender. Sem nada a atacar. Bem ao estilo que todos já lhe conhecemos. Mas com uma vontade imensa de fazer passar a pessoa de Jesus Cristo. E deixando transparecer um coração atento e paternal para com todos, sobretudo para com os que mais sofrem, também como já nos habituou. Não começou a fazer discursos ou advertências. Pôs-se à vontade e pôs-nos à vontade. Quis ouvir primeiro as nossas perguntas ou inquietações, a que ele ia depois amavelmente respondendo com palavras certeiras ou um simples aceno de cabeça.

Entre outros temas, O Santo Padre falou do acompanhamento aos mais novos, da interparoquialidade e de abertura. Nesse sentido, que caminhos percorrer entre nós?

Sim. Temos de pensar seriamente a forma como estamos a viver a fé e a transmitir a fé. Mas isso já ia nos relatórios das nossas Dioceses. O Papa confirmou que temos de rever os caminhos seguidos até aqui, na área da iniciação cristã (catequese) e de toda a formação (religião e moral católicas e formação de adultos). Impõe-se muito mais anúncio direto e simples do querigma cristão juntamente com o testemunho, e saber pôr as crianças, os jovens, as famílias numa verdadeira envolvência cristã. Claro: precisamos de sacerdotes que o sejam verdadeiramente, a tempo inteiro e coração inteiro. Há tanta coisa à nossa espera. Desde a oração, à formação, ao testemunho. Precisamos de verdadeiros líderes cristãos, que arrastem por contágio as pessoas desanimadas e cansadas. A «debandada» de que falou o Papa lembra os pássaros. E os sociólogos atentos, como Zygmunt Bauman de há muito que comparam a juventude aos pássaros. Foi assim que, à imitação dos pássaros, nasceu em 2006, o Twitter, que quase reproduz os sons emitidos pelos pássaros em bando (tweet, tweet…), uma forma de dizerem «estou aqui», no bando. Mais ou menos o que se verifica na juventude em bando, sempre com o telemóvel a emitir sinais. Pergunto: como captamos esses sinais? Como respondemos? O que temos feito para ir ao encontro dos jovens? O que estamos dispostos a fazer? Ou estamos contentes com o que temos e com o que fazemos? Há aqui um mundo de imaginação e de proximidade que temos de saber construir. O tema da interparoquialidade e da intereclesiadade impõe-se hoje, e sempre se impôs. É da própria natureza da Igreja. Sim, temos de aprender a partilhar muito mais uns com os outros. Ficamos mais ricos. E temos também de aprender a partilhar os nossos párocos e os ministérios laicais. É um enriquecimento.

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Como interpreta o aparecimento do recente “motu próprio” do Papa sobre a questão da nulidade dos matrimónios dias antes da Assembleia sinodal sobre a família?

Sem mexer na doutrina, e o Papa repetiu-o, e tem-no repetido. Mas o que pudermos fazer já para agilizar as coisas práticas, isso devemos fazer já. Há, de facto, assuntos, de prática pastoral, não doutrinária, que podemos simplificar, facilitar, agilizar, e tornar mais baratos ou mesmo sem custos para as pessoas que reunirem as condições necessárias. Sim, há ainda outra luta mais importante pela frente, de que ainda poucos se apercebem. É a indiferença e a insensibilidade, em que esses problemas de nulidade ou outros já nem se põem, em que tanto se nos dá como se nos deu; mas é sobretudo a equivalência, em que tudo é igual e tudo vale o mesmo. Esta é a verdadeira luta que teremos pela frente nos próximos anos. Sim, chegam tempos em que o bem é igual ao mal, a noite ao dia, a família aos bandos…

in Voz de Lamego, ano 85/43, n.º 4330, 22 de setembro

Bispos portugueses em Roma | Visita ad limina

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Descrição e finalidades

Na Carta que escreve aos Gálatas, S. Paulo refere, logo no primeiro capítulo, que subiu a Jerusalém “para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias” (Gal 1, 18). Repetiu o mesmo gesto “catorze anos depois” (cf. Gal 2, 1-2). Desde os primeiros tempos da Igreja que, à medida que esta se ia expandindo geograficamente, os Bispos se deslocavam a Roma, não só para peregrinarem à cidade onde se encontram os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, mas também para submeterem à apreciação do Romano Pontífice, sucessor de S. Pedro, os mais variados assuntos referentes às suas comunidades e ao povo de Deus que lhe estava confiado. Ao longo da história da Igreja (pelo menos desde o séc. IV), que este costume de visitar o Romano Pontífice e rezar junto dos túmulos dos Apóstolos foi sendo enriquecido com uma estrutura própria e deu lugar à actual normativa relativa à visita ad limina Apostolorum, uma expressão latina que se poderia traduzir por visita aos umbrais (ou túmulos) dos Apóstolos. A visita ad limina é, portanto, a peregrinação que o Bispo da Diocese deve realizar a Roma de cinco em cinco anos, “se de outro modo não houver sido decidido pela Sé Apostólica”, com a finalidade de “venerar os sepulcros dos Bem-Aventurados Apóstolos Pedro e Paulo” e apresentar-se ao Sumo Pontífice (cf. cân. 400 §1).

Esta visita deve ser antecedida da elaboração e envio de um relatório, que apresente os dados mais significativos e relevantes da vida da Diocese:  organização pastoral e administrativa da Diocese; dados estatísticos vários (como, por exemplo, número de sacerdotes; número de religiosos; número de católicos; número de baptismos, confirmações, matrimónios e dados relativos à prática dominical, etc.); situação e dados relativos à formação (catequese, escolas católicas, Seminários e centros de espiritualidade); descrição dos dados mais relevantes relativos à vida e ministério dos sacerdotes, movimentos e associações; etc. Este relatório deve ser enviado à Santa Sé alguns meses antes da data prevista para a realização da visita, de modo a que, quer o Santo Padre, quer os vários Dicastérios e Departamentos do Vaticano o possam ler, apreciar e delinear algumas linhas de orientação.

Quando se realiza a visita, ou seja, quando o Bispo Diocesano, juntamente com os restantes Bispos que compõem a Conferência Episcopal (ou, no caso de a Conferência Episcopal ser muito grande, com os restantes Bispos de uma determinada Região de um país) peregrinam a Roma, os dias que lá transcorrem são aproveitados para rezar junto dos túmulos dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo, respectivamente nas Basílicas de S. Pedro e de S. Paulo fora de muros. Esses momentos de oração, habitualmente, materializam-se na celebração da Eucaristia. Além disso, é costume também celebrar a Eucaristia nas outras duas Basílicas Maiores (Santa Maria Maior e S. João de Latrão) e noutras igrejas de especial importância (como no caso da Igreja de S. António dos Portugueses, no caso da Conferência Episcopal Portuguesa). Para além dos momentos de oração, outro acontecimento importante é o encontro dos Bispos, quer individual, quer em grupos pequenos (por Províncias Eclesiásticas) com o Romano Pontífice. No final desses encontros, é costume o Santo Padre ter um encontro final com todos os Bispos e dirigir-lhes um discurso que, habitualmente, contém alguns elementos que deverão orientar a acção pastoral e missionaria da Igreja dawuele país ou região nos anos seguintes.

Para além da visita ao Romano Pontífice, os Bispos, quer individualmente, quer em grupo, são recebidos nos principais Dicastérios da Cúria Romana.

Como refere o Diretório para o ministério pastoral dos Bispos, “a visita, nos seus diversos momentos litúrgicos, pastorais e de encontro fraterno, tem um significado preciso para o Bispo: aumentar o seu sentido de responsabilidade como sucessor dos Apóstolos e fortalecer a sua comunhão com o sucessor de Pedro. A visita constitui ainda um momento importante para a vida da mesma Igreja particular que, através do seu representante, consolida os vínculos de fé, comunhão e disciplina que a ligam à Igreja de Roma e a todo o corpo eclesial” (n. 15).

 

Pe. José Alfredo Patrício, in Voz de Lamego, ano 85/41, n.º 4328, 8 de setembro

SÍNODO DOS BISPOS: sem consenso sobre divorciados e homossexuais

Opening of the Extraordinary Family Synod

Assembleia falha consenso sobre divorciados e homossexuais

SÍNODO DOS BISPOS

O Vaticano apresentou o relatório final da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos que debateu os temas da família, no qual sublinha a “verdade” da indissolubilidade do casamento, recusando outros tipos de união. O documento refere que o único “vínculo nupcial” na Igreja Católica é o sacramento do Matrimónio e que “qualquer rutura do mesmo é contra a vontade de Deus”.

O Sínodo assume a necessidade de “discernir os caminhos para renovar a Igreja e a sociedade no seu compromisso pela Igreja fundada sobre o matrimónio”, a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”.

Os participantes sustentam que “os grandes valores do matrimónio e da família cristã” são a resposta aos anseios da existência humana face ao “individualismo” e “hedonismo”.

Debate aberto

O documento sintetiza as duas semanas de debate, com intervenções em sessões gerais e discussões em grupos linguísticos em que se discutiu muito a relação entre doutrina e misericórdia.

Jesus, “colocou em prática a doutrina ensinada, manifestando assim o verdadeiro significado da misericórdia”, pode ler-se, antes de se referir que “a maior misericórdia é dizer a verdade com amor”.

A reflexão sobre casamentos civis, divorciados e recasados na Igreja deixa uma mensagem de “amor” para com a “pessoa pecadora” e diz que esta participa “de forma incompleta” na vida eclesial. “Trata-se de acolher e acompanhar estas pessoas com paciência e delicadeza”, pode ler-se.

A caminho do consenso

O documento retoma as observações sobre a necessidade de fazer “escolhas pastorais corajosas” na ação da Igreja junto das “famílias feridas”, em particular junto de quem “viveu injustamente” a separação e o divórcio.

O relatório final do Sínodo de 2014 foi votado ponto a ponto, em cada um dos seus 62 números, que reuniu 470 propostas dos chamados ‘círculos menores’.

As votações sobre cada número foram divulgadas pelo Vaticano, por decisão do Papa, revelando que os parágrafos 52 (acesso dos divorciados recasados à Comunhão), 53 (comunhão espiritual a divorciados) e 55 (homossexuais) não chegaram a uma maioria de dois terços dos 183 padres sinodais presentes; o parágrafo 41 (matrimónios civis e uniões de facto) mereceu 54 votos contra.

Em relação ao acesso à Comunhão e à Penitência pelos divorciados em segunda união, tema sobre o qual se gerou divisão entre os participantes, alguns “argumentaram em favor da disciplina atual [que impede o acesso aos sacramentos]” e outros propõem um “acolhimento não-generalizado”. Este foi o ponto em que houve mais votos contra (74), no qual se pede que seja aprofundada a questão, “tendo presente a distinção entre situação objetiva de pecado e circunstâncias atenuantes”.

O texto apresenta dois números sobre a situação dos homossexuais, com críticas às “pressões” sobre os membros da Igreja por causa da sua doutrina nesta matéria e às leis que instituem uniões entre pessoas do mesmo sexo. 62 pessoas votaram contra um número no qual se afirma que “os homens e as mulheres com tendências homossexuais devem ser acolhidos com respeito e delicadeza”.

O relatório do Sínodo alude ainda às propostas para tornar “mais acessíveis e ágeis”, de preferência “gratuitos”, os procedimentos para o reconhecimento de casos de nulidade matrimonial, realçando que alguns participantes se mostraram “contrários” a mudanças.

Os vários pontos apelam à valorização dos métodos naturais de planeamento natural e da adoção, condenando a mentalidade “antinatalista”; recordam a reflexão sobre a família nos documentos da Igreja e pedem liberdade de educação para os pais.

Encontro marcado

Após a apresentação do texto citado, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, sublinhou que este não é um documento “doutrinal” e que vai servir de base para a preparação da assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015.

A 14ª Assembleia Geral ordinária do Sínodo dos Bispos vai decorrer de 4 a 25 de outubro de 2015, com o tema «A vocação e a missão da família na Igreja, no mundo contemporâneo».

 

in VOZ DE LAMEGO, 21 de outubro de 2014, n.º 4285, ano 84/47