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Editorial Voz de Lamego: Jonas foi lançado ao mar

Estaremos ainda no mesmo barco?

Há mais de um ano, em 27 de março de 2020, o Papa Francisco subia a praça do São Pedro, num momento extraordinário de oração, lançando diversos desafios. Estamos todos no mesmo barco, sob uma tempestade que a todos surpreendeu. A pandemia do novo coronavírus colocou a descoberto muitas fragilidades. “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades… Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.

Desta pandemia sairemos melhores ou piores, mas não iguais. A esperança é que esta tempestade nos fizesse sentir verdadeiramente irmãos, para que todos se sentissem em casa, no mesmo barco, sob o mesmo céu e a caminhar sobre o mesmo chão. Havia quem profetizasse um tempo novo, em que tudo seria diferente, exultando a certeza de que ficaria tudo bem. Exultaram os ambientalistas (desencarnados da vida), pois o ambiente tornou-se mais respirável. Alguns (quase) sugeriram que o ser humano está a mais na terra!

Há muito tempo…

Deus chama Jonas e envia-o à grande cidade de Nínive, uma terra estrangeira, para dizer aos seus habitantes que estão à beira da destruição. Jonas hesita e segue, de barco, noutra direção, pouco interessado no destino dessa cidade. Abate-se uma grande tormenta e os tripulantes lançam sortes para saber de quem é a culpa, que recai em Jonas. Pegam nele e deitam-no ao mar. E a tempestade acalmou. Jonas acabará por cumprir a missão a que estava chamado por Deus e anuncia a necessidade de conversão.

Jonas tornou-se pesado. Não tanto do corpo, mas da consciência. Para ele, Nínive ser destruída ou salva seria igual. Não se lembra que o chão é o mesmo e estão debaixo do mesmo Céu. Também aqui a imagem do barco é sugestiva. Alguns pensarão que a desgraça dos outros não os atinge ou que sucesso alheio fere a sua paz. Na verdade, Jonas ficou irritado quando verifica que a cidade não foi destruída, pois os seus habitantes souberam mudar de vida!

“O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança” (Papa Francisco).

Se estamos no mesmo barco, cuidemos para que não se afunde. Passado mais de um ano, e quando as coisas parecem encaminhar-se para a bonança, nomeadamente com a vacinação, olhamos para o lado e vemos que alguns estão em belos camarotes, protegidos do sol e da chuva e com seguranças à porta; outros estão no convés a espreguiçar-se à espera de serem servidos; outros estão no porão a trabalhar no duro, alguns foram lançados borda fora, excluídos, por se recear que o barco tivesse peso a mais!

Ao tempo de Jesus, ouvimos por estes dias, com poucos recursos, cinco pães e dois peixes, é possível alimentar muitas pessoas. O milagre da multiplicação revela-se na partilha. No nosso tempo, a multiplicação é facilitada pela ciência e pela técnica, não faltam recursos, mas há muitas pessoas a morrer à fome, a mendigar uma côdea de pão, sem casa, sem acesso nem à educação nem à saúde. Não falta a multiplicação, nem o excesso, falta a solidariedade.

Quando uma pessoa passa privações, vendo a opulência dos vizinhos, mais tarde ou mais cedo vai sentir inveja, revolta, e vai perceber que talvez não esteja a usufruir daquilo a que tem direito pelo trabalho ou pelas riquezas do solo que habita. Um país (ou continente) por vacinar, vai promover a replicação dos contágios…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/37, n.º 4619, 28 de julho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Pobres sempre os tereis

As palavras de Jesus nada têm de resignação ou demissão, pelo contrário, revelando tristeza, são uma crítica e um desafio ao compromisso sério e concreto. Somos responsáveis uns pelos outros e sobretudo pelos mais pequeninos. A opção preferencial pelos mais pobres não é um verbo de encher, é um compromisso que radica nas palavras e na vida de Jesus. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis (cf. Mt 25, 40). Não se trata de transformar as pedras em pão, mas de fazer com que o pão de cada dia seja multiplicado e partilhado para que chegue a todos. E, se somos filhos do mesmo Pai, cabe-nos agir, sempre, como irmãos, procurando que a ninguém falte o necessário (cf. Atos 2, 45; 4, 34-35).

Esta aldeia global democratizou modas e estilos de vida, esbateu diferenças culturais, mas também incentivou grupos e povos a agir pela liberdade e pelos direitos humanos fundamentais. Globalizou-se o bem e o mal, numa mistura nem sempre benéfica para as populações mais vulneráveis. Como tem referido o Papa Francisco, os meios de comunicação social e as redes sociais, em vez de levarem à afirmação da identidade pessoal, social, religiosa, integrando as diferenças e a multiculturalidade, conduzem, muitas vezes, à segregação, na procura do que é idêntico, a integrar grupos (sectários) que pensam da mesma forma, a fechar-se e radicalizar-se ainda mais.

Pobres sempre os tereis… Não basta encher os lábios de propósitos ou simplesmente responsabilizar os outros por situações de carência e de miséria. Ao aproximar-se o final da Sua vida, Jesus encontra-se em casa de Marta, Maria e Lázaro. E como Maria tivesse ungido os Seus pés com uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, Judas Iscariotes, e por certo os outros discípulos, murmura contra tal desperdício (cf. Jo 12, 8). Jesus re-situa as opções e prioridades.

Há pessoas que subestimam a riqueza “material” da Igreja, alienável a favor dos pobres! Sem aprofundarmos essa temática, que tem várias vertentes, seria de perguntar se essas pessoas, que olham para esta riqueza material, cultural, arquitetónica, alguma vez se predispuseram a fazer a parte que lhes compete e se exigem o mesmo a governantes, a multimilionários, pessoas e empresas com capital incalculável!

Há bens que não se podem alienar, mas, por outro lado, esses bens, bem geridos, ajudam a criar e/ou manter estruturas de apoio aos mais pobres. O Papa Francisco afirma que os museus do Vaticano permitem receitas para ajudar os “mendigos” de Roma e responder a solicitações que chegam de todo o mundo.

Sei, por experiência própria, como pároco, que aqueles que colaboram com a Igreja e no “adorno” dos seus edifícios, são os primeiros a cooperar em campanhas solidárias, muitas vezes como aquela viúva do Evangelho que deu, não apenas do que lhe sobrava, mas do que lhe fazia falta para viver (cf. Mc 12, 41-44).

As responsabilidades podem ser diferentes, conforme as possibilidades, o poder económico-financeiro, a capacidade de influência sobre entidades, grupos, governos, multinacionais, mas ninguém pode excluir-se deste compromisso de atender às necessidades dos mais vulneráveis.

Não basta dizer aos outros que é preciso fazer alguma coisa, cabe a cada um, inserido em grupos e/ou comunidades, agir, comprometer-se.

Pobres sempre os tereis e se conseguirdes vê-los e ajudá-los… melhor! Dai-lhes vós mesmos de comer. Adorar a Deus e amá-l’O sobre todas as coisas implica-nos com todos os Seus filhos, com todos os nossos irmãos, não nos isola nem espiritualiza!

Em Portugal como na Europa, mais de 70 % da população adulta já está vacinada, pelo menos com uma dose, contra a COVID-19… em África, 3%… As migalhas dos países mais ricos ainda não saíram das suas mesas fartas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/36, n.º 4618, 21 de julho de 2021