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Posts Tagged ‘Tradições’

Procissão do Senhor Morto reúne milhares de fiéis em Lamego

Envolta num manto de silêncio, interrompido de vez em quando pelo som áspero das tradicionais matracas e dos acordes fúnebres da Banda Filarmónica de Magueija, a Procissão do Senhor Morto, a mais solene e comovente de todas as procissões que se realizam no âmbito das celebrações da Semana Santa, voltou a levar pelas ruas da cidade o esquife do Senhor Morto. Como é hábito, os mesários da Misericórdia de Lamego, trajados a rigor com as suas “opas”, acompanharam o cortejo, presidido por D. António Couto, Bispo da Diocese de Lamego.

Com início na renovada Igreja das Chagas, o percurso noturno foi, num ambiente solene, sempre ladeado por milhares de fiéis que quiseram venerar o Senhor. Acompanhado por vários andores, o desfile realiza-se na noite de Sexta-Feira Santa, data em que os cristãos recordam o julgamento, a paixão, a crucificação, a morte e o enterro de Jesus Cristo. Nesta procissão, em que predomina a luz das tochas e das velas que os crentes transportam, participaram muitos lamecenses, clérigos e irmandades. Chegados à Sé Catedral, D. António Couto presidiu a uma celebração litúrgica perante uma igreja repleta de fiéis, que também fizeram questão de visitar o caixão com a imagem de Cristo.

A Santa Casa da Misericórdia de Lamego voltou este ano a ser um importante parceiro institucional das celebrações da Semana Santa que terminaram no Domingo de Páscoa. Ao integrar o grupo restrito de instituições locais que promovem estas solenidades, esta Misericórdia junta-se a um dos maiores momentos de vivência comunitária da cidade e de dinâmica cultural.

in Voz de Lamego, ano 87/23, n.º 4408, 18 de abril de 2017

Santo Amaro e os Alvitanos

Feira-de-Tradições-de-Alvite

METER O BEDELHO

Menino e moço subia, muitas vezes, a Serra da Nave ora ajudando o meu pai a cortar o mato que, nas cortes do gado, se havia de transformar em estrume para condimentar as terras aráveis ora explorando, com os colegas, os limites territoriais. No fundo do Outeiro Maior, havia, não sei se ainda existe, uma pequena fonte a que éramos levados por um carreirinho, o chamado “carreirinho de Santo Amaro”. O povo chamava aquela fonte, a Fonte de Santo Amaro. Uma pastora, já velhota, informou-nos que, segundo ouvira a seus avós, houvera, ali, uma Capela e um Povo –“sabem os meninos que os primeiros habitantes eram pastores, viviam nos altos para vigiarem os horizontes, depois desceram aos baixios para amanharem as terras. Só eu e poucos mais ficamos, por aqui, presas às nossas ovelhas que estimamos mais que alguns padres as suas apesar de serem humanas ” – e ficou a Capela de Santo Amaro. Abandonada, entrou em ruinas e a imagem – ela dizia ‘o Santo’- foi levada – ela dizia ‘roubada’ – para Alvite. O povo do Touro não gostou e até começou a entoar cantigas de maldizer – de “raiva” dizia ela – cujo coro, ainda, guardo na memória:

          – “Santo Amaro de Alvite

             Que é feito de amieiro,

             É irmão dos meus tamancos

             Criado no meu lameiro.”

Acrescentou, ainda, a velha pastora que até Santo Amaro ficou triste e, de noite, sentia saudades dos altos e voltava para a sua Capela. Mas os Alvitanos são espertos – ela dizia ‘finórios’ – vieram busca-lo em procissão. Depois já foi todo contente. “Sabem meninos, os Santos são rapioqueiros, gostam muito de passear nos andores. Vejam nas festas como vão todos conchos e vaidosos!”

Já em casa, o meu pai confirmou a lenda. Certa ou errada não sei nem vou investigar mas onde há lenda, há factos reais com acrescentos de muita imaginação. E que Santo Amaro é Padroeiro de Alvite também é verdade mas a imagem que se venera na ampla, funcional e linda Igreja Alvitana é das últimas décadas do século passado e não desses tempos de histórias enfeitadas com tanta fantasia. E as Gentes de Alvite veneram-no tão ao seu jeito!… Missa e Procissão seguidas dum grande Convívio Popular em que abatem uma vitela, meia dúzia de suínos e…  comem e dançam até às tantas. Gente bairrista, esta gente alvitana!…

Mas a que propósito vem esta história?

Hoje, 15 de Janeiro, é dia de Santo Amaro e reli a sua biografia e recordeo a sua fonte.

Entregue, desde criança, aos cuidados de São Bento tornou-se, pelas suas qualidades, o seu homem de confiança e seu sucessor.

Vindo uma delegação gaulesa pedir a São Bento que enviasse alguns monges para fundarem um mosteiro, enviou-lhes Amaro. E foi tão profícuo o seu trabalho que o mosteiro deu origem a uma cidade que lhe deu o nome, Saint Maur-sur-Loire.

Morreu vítima duma peste epidémica que limpou mais duma centena de monges. As suas relíquias guardam-se na Cripta da capela do mosteiro do Montecassino.

  Foram os Beneditinos com a sua paciência – a célebre “paciência beneditina” – , os reconstrutores da Europa depois da destruição do Império pelas invasões bárbaras. Com a sua regra, “Ora et labora” “reza e trabalha com alegria” – foram civilizando os bárbaros e construindo as Pátrias à sombra dos seus mosteiros. Os Beneditinos tinham, –  ainda têm?!.. – como seu, o lema romano – “age quod agis”, faz bem feito aquilo que estás a fazer. Esta “cultura do fazer bem feito” implica uma disciplina interior para resistir à tentação do fazer de qualquer maneira. Esta cultura não nasce por decreto mas por educação, por exercício da paciência.

À sombra dos mosteiros beneditinos havia e há um albergue ou hospedaria para o peregrino ou para quem deseje descansar e, – porque não?! – silenciar o barulho interior e restaurar a paz de consciência; havia uma escola diferenciada nos conteúdos donde, mais tarde, surgiram as Universidades.

Séculos mais tarde, os Beneditinos/Cistercienses tornaram-se os cantores da Mãe de Deus. Dizia S. Bernardo, o reformador beneditino:

-“Nas tentações olha para Maria, invoca Maria”.

– “O Senhor não nos quis dar nada que não viesse pelas mãos de Maria”.

E ensinou-nos aquela linda prece: –“Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria….

Uma saudação especial para os Alvitanos e que Santo Amaro, como dizia a velha pastora, “ a eles, proteja e a nós não nos desampare”.

Pe. Justino Lopes, in Voz de Lamego, ano 86/09, n.º 4346, 19 de janeiro de 2016