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Posts Tagged ‘Tradições’

O Rei às nossas mesas

Chega a esta altura e, ao fechar os olhos, e ao imaginar a sua próxima Ceia de Natal, a tradição portuguesa surge de imediato no seu imaginário. Na noite de 24 de dezembro, noite de consoada, temos de ter, nas nossas travessas, o nosso bacalhau.  

Para descobrir porque é que o bacalhau faz parte da nossa tradição temos de recuar até a Idade Média. Os cristãos faziam jejum, nas principais festas católicas, quer no Natal, quer na Páscoa, e o bacalhau era o “peixe” mais barato, logo mais acessível a todas as famílias.

Mesmo, quando o jejum por altura do Natal desaparece, a tradição de comer bacalhau persiste, até aos dias de hoje, e não acontece, apenas, no nosso país, pois os nossos emigrantes levaram com eles o rei salgado das nossas mesas.

A Voz de Lamego quis saber se a tradição ainda é o que era e fomos perguntar às pessoas. Hugo Borges, de 34 anos, diz que “o bacalhau está sempre na mesa, embora cozinhado de duas formas. O cozido para a maioria das pessoas da minha família e o bacalhau com broa, para os mais jovens, onde me incluo”. António, 50 anos, lembra-se desde criança de ter o bacalhau e o polvo na mesa de casa, “é uma tradição que se manteve, mesmo após o casamento e o nascimento do meu filho, até hoje”.  Maria Sequeira, 22 anos, gosta de bacalhau e “se tivesse uma ceia de Natal sem ele, não seria a mesma coisa”, refere a jovem, de sorriso rasgado.

Portugal é o maior consumidor de bacalhau do mundo, sendo responsável por 25% do consumo global. Por isso, no dia 24 de dezembro, em vários países, em fusos horários diferentes, portugueses em Portugal e emigrados terão na mesa bacalhau, com certeza, espalhadas as raízes da nossa tradição.

Os maiores especialistas deixam a dica que se o bacalhau for demolhado mole, não demolha tão bem, tem de ter cor de palha.

Neste Natal, já sabemos, dentro de dias, teremos bacalhau cozido com batatas e couves, temperado com azeite da nossa região.

Demolhar…

Saiba que para demolhar de forma correta o bacalhau deve: Lavar o bacalhau em água fria corrente para retirar o excesso de sal à superfície; colocar num recipiente com água fria (a menos de 8ºC), com a pele virada para cima e totalmente coberto pela água; reservar o bacalhau, de preferência no frigorífico, para manter a água bem fria durante 24 ou 36 horas, de acordo com a grossura das postas; renove a água até 3 vezes por dia.

Valor nutritivo:

O bacalhau é um peixe com baixo teor de gordura (0,1% da DDR por 100g), rico em proteína de alto valor biológico, com quantidades apreciáveis em vitamina D, fósforo, potássio e magnésio. O bacalhau é particularmente rico em selénio, que integra diversas enzimas com capacidades de proteção das células do organismo contra os radicais livres de oxigénio responsáveis.

Apesar de demolhado, podemos verificar que o bacalhau ainda apresenta quantidades relativamente elevadas de sal (cerca de 3g por 100g), pelo que a adição de sal durante a confeção se torna desnecessária.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/04, n.º 4539, 17 de dezembro de 2019

A História do Bolo Rei

Era uma vez,

num lugar e tempo, muito distantes, que se designava Roma antiga, que nasceu a tradição de eleger o rei da festa, durante as celebrações pagãs e religiosas. Havia grandes banquetes e ditava a sorte através das favas, quem seria o rei daquela festa.

A Igreja Católica achou esta ideia tão interessante e porque decorria, anualmente, em dezembro, decidiu relacioná-lo com o período de tempo entre o nascimento de Jesus e o dia dos Reis, a 6 de janeiro, que ficaria marcado por uma fava que apareceria no bolo Rei. Seria doce e “representaria os presentes oferecidos pelos Reis Magos ao Menino Jesus aquando do seu nascimento. A côdea simbolizava o ouro, os frutos secos e cristalizadas representavam a mirra, e o aroma do bolo assinalava o incenso. Ao avistarem a Estrela de Belém que anunciava o nascimento de Jesus, os três Reis Magos disputaram entre si, qual dos três teria a honra de ser o primeiro a entregar ao menino os presentes que levavam. Como não teriam conseguido chegar a um acordo e com vista a acabar com a discussão, um padeiro confecionou um bolo escondendo no interior da massa uma fava. De seguida cada um dos três Reis Magos pegaria numa fatia, o que tivesse a sorte de retirar a fatia contendo a fava seria o que ganharia o direito de entregar em primeiro lugar os presentes a Jesus. O dilema ficou solucionado, embora não se saiba se foi, Gaspar, Baltazar, ou Belchior o feliz contemplado, segundo nos conta uma lenda bem antiga”.

Contudo foi na corte do rei Luís XIV que surgiu o “bolo Rei”, que se fazia especificamente para a época de Natal. Estando, assim bem documentada a sua origem.

Voltas e mais voltas na história, este delicioso manjar chegou a Portugal e, a partir de 1870, os bolos traziam escondido uma fava simbólica e, ainda, um brinde. 

A Confeitaria Nacional, na baixa pombalina, em Lisboa, foi a primeira casa em Portugal a realizar esta iguaria natalícia, o que fez com que melhorassem a qualidade das especialidades daquela casa e que granjeasse grande fama no nosso país. Um deles foi o célebre confeiteiro Gregório, que se baseou numa receita secreta de Bolo Rei que Baltazar Castanheiro Júnior trouxera de Toulouse, em 1869, contrariando outros relatos que indicam como ter vindo de Paris. Orgulha-se, esta confeitaria, de ter trazido a receita e a manter integralmente como receita francesa do sul de Loire. Balthazar Castanheiro Júnior, que aos seus méritos de confeiteiro juntava os de artista, trouxe uma cópia do quadro “Gateau des Rois”, de Jean-Baptiste Greuze, que durante anos teve exposto no seu estabelecimento como alusão a este famoso bolo. Como curiosidade é interessante ainda relembrar que, inicialmente, além da fava, posta em todos os Bolos Rei, alguns ocultavam prémios valiosos em ouro ou prata. Durante a quadra natalícia, a Confeitaria Nacional oferecia aos lisboetas uma exposição de tudo quanto de mais delicado e original a arte dos doces podia então produzir e claro o Bolo Rei. Assim o Bolo Rei atravessou com êxito os reinados de D. Luiz I, D. Carlos e D. Manuel II. De referir que a Confeitaria Nacional, devido à grande qualidade dos seus produtos, recebeu, em 1873, do rei D. Luiz I de Portugal, o alvará que a torna fornecedora oficial da Casa Real, condição essa que se manteve até à implantação da República, em 1910. Esteve ainda presente e ganhou prémios em exposições internacionais como a Exposição Universal de Viena de Áustria de 1873, a de Filadélfia de 1876; recebeu uma medalha na Exposição Universal de Paris de 1878 e na de Lisboa de 1884. A Confeitaria Nacional, um dos ex-libris da cidade de Lisboa, é uma casa que conta já com 187 anos de atividade comercial e industrial, sem nunca ter saído da mesma família, sempre no mesmo local e sempre com o mesmo critério, e a especialidade que a marcou, o famoso Bolo Rei. Aos poucos, outras confeitarias da cidade passaram também a fabricar o Bolo Rei, originando assim várias versões diferentes. Tradicionalmente este bolo de forma redonda, com um grande buraco no centro, é feito de uma massa fofa e branca, misturada com passas, frutos secos, e frutas cristalizadas.

Na cidade do Porto, o Bolo Rei foi introduzido em 1890, por iniciativa da Confeitaria Cascais, segundo uma receita que o proprietário, Francisco Júlio Cascais, trouxera de Paris, receita muito semelhante à da Confeitaria Nacional.

Salazar chegou, posteriormente, a proibir a colocação da fava e do brinde, no bolo rei, cujo nome também não agradava, mas anos mais tarde voltou a ser permitido.

O Bolo Rei está em cada mesa de Natal, em Portugal, e não se limita a ser um bolo vistoso e de um sabor único, é, também, um símbolo da nossa tradição.

 

Andreia Gonçalves,  in Voz de Lamego, ano 90/03, n.º 4538, 10 de dezembro de 2019

Procissão do Senhor Morto reúne milhares de fiéis em Lamego

Envolta num manto de silêncio, interrompido de vez em quando pelo som áspero das tradicionais matracas e dos acordes fúnebres da Banda Filarmónica de Magueija, a Procissão do Senhor Morto, a mais solene e comovente de todas as procissões que se realizam no âmbito das celebrações da Semana Santa, voltou a levar pelas ruas da cidade o esquife do Senhor Morto. Como é hábito, os mesários da Misericórdia de Lamego, trajados a rigor com as suas “opas”, acompanharam o cortejo, presidido por D. António Couto, Bispo da Diocese de Lamego.

Com início na renovada Igreja das Chagas, o percurso noturno foi, num ambiente solene, sempre ladeado por milhares de fiéis que quiseram venerar o Senhor. Acompanhado por vários andores, o desfile realiza-se na noite de Sexta-Feira Santa, data em que os cristãos recordam o julgamento, a paixão, a crucificação, a morte e o enterro de Jesus Cristo. Nesta procissão, em que predomina a luz das tochas e das velas que os crentes transportam, participaram muitos lamecenses, clérigos e irmandades. Chegados à Sé Catedral, D. António Couto presidiu a uma celebração litúrgica perante uma igreja repleta de fiéis, que também fizeram questão de visitar o caixão com a imagem de Cristo.

A Santa Casa da Misericórdia de Lamego voltou este ano a ser um importante parceiro institucional das celebrações da Semana Santa que terminaram no Domingo de Páscoa. Ao integrar o grupo restrito de instituições locais que promovem estas solenidades, esta Misericórdia junta-se a um dos maiores momentos de vivência comunitária da cidade e de dinâmica cultural.

in Voz de Lamego, ano 87/23, n.º 4408, 18 de abril de 2017

Santo Amaro e os Alvitanos

Feira-de-Tradições-de-Alvite

METER O BEDELHO

Menino e moço subia, muitas vezes, a Serra da Nave ora ajudando o meu pai a cortar o mato que, nas cortes do gado, se havia de transformar em estrume para condimentar as terras aráveis ora explorando, com os colegas, os limites territoriais. No fundo do Outeiro Maior, havia, não sei se ainda existe, uma pequena fonte a que éramos levados por um carreirinho, o chamado “carreirinho de Santo Amaro”. O povo chamava aquela fonte, a Fonte de Santo Amaro. Uma pastora, já velhota, informou-nos que, segundo ouvira a seus avós, houvera, ali, uma Capela e um Povo –“sabem os meninos que os primeiros habitantes eram pastores, viviam nos altos para vigiarem os horizontes, depois desceram aos baixios para amanharem as terras. Só eu e poucos mais ficamos, por aqui, presas às nossas ovelhas que estimamos mais que alguns padres as suas apesar de serem humanas ” – e ficou a Capela de Santo Amaro. Abandonada, entrou em ruinas e a imagem – ela dizia ‘o Santo’- foi levada – ela dizia ‘roubada’ – para Alvite. O povo do Touro não gostou e até começou a entoar cantigas de maldizer – de “raiva” dizia ela – cujo coro, ainda, guardo na memória:

          – “Santo Amaro de Alvite

             Que é feito de amieiro,

             É irmão dos meus tamancos

             Criado no meu lameiro.”

Acrescentou, ainda, a velha pastora que até Santo Amaro ficou triste e, de noite, sentia saudades dos altos e voltava para a sua Capela. Mas os Alvitanos são espertos – ela dizia ‘finórios’ – vieram busca-lo em procissão. Depois já foi todo contente. “Sabem meninos, os Santos são rapioqueiros, gostam muito de passear nos andores. Vejam nas festas como vão todos conchos e vaidosos!”

Já em casa, o meu pai confirmou a lenda. Certa ou errada não sei nem vou investigar mas onde há lenda, há factos reais com acrescentos de muita imaginação. E que Santo Amaro é Padroeiro de Alvite também é verdade mas a imagem que se venera na ampla, funcional e linda Igreja Alvitana é das últimas décadas do século passado e não desses tempos de histórias enfeitadas com tanta fantasia. E as Gentes de Alvite veneram-no tão ao seu jeito!… Missa e Procissão seguidas dum grande Convívio Popular em que abatem uma vitela, meia dúzia de suínos e…  comem e dançam até às tantas. Gente bairrista, esta gente alvitana!…

Mas a que propósito vem esta história?

Hoje, 15 de Janeiro, é dia de Santo Amaro e reli a sua biografia e recordeo a sua fonte.

Entregue, desde criança, aos cuidados de São Bento tornou-se, pelas suas qualidades, o seu homem de confiança e seu sucessor.

Vindo uma delegação gaulesa pedir a São Bento que enviasse alguns monges para fundarem um mosteiro, enviou-lhes Amaro. E foi tão profícuo o seu trabalho que o mosteiro deu origem a uma cidade que lhe deu o nome, Saint Maur-sur-Loire.

Morreu vítima duma peste epidémica que limpou mais duma centena de monges. As suas relíquias guardam-se na Cripta da capela do mosteiro do Montecassino.

  Foram os Beneditinos com a sua paciência – a célebre “paciência beneditina” – , os reconstrutores da Europa depois da destruição do Império pelas invasões bárbaras. Com a sua regra, “Ora et labora” “reza e trabalha com alegria” – foram civilizando os bárbaros e construindo as Pátrias à sombra dos seus mosteiros. Os Beneditinos tinham, –  ainda têm?!.. – como seu, o lema romano – “age quod agis”, faz bem feito aquilo que estás a fazer. Esta “cultura do fazer bem feito” implica uma disciplina interior para resistir à tentação do fazer de qualquer maneira. Esta cultura não nasce por decreto mas por educação, por exercício da paciência.

À sombra dos mosteiros beneditinos havia e há um albergue ou hospedaria para o peregrino ou para quem deseje descansar e, – porque não?! – silenciar o barulho interior e restaurar a paz de consciência; havia uma escola diferenciada nos conteúdos donde, mais tarde, surgiram as Universidades.

Séculos mais tarde, os Beneditinos/Cistercienses tornaram-se os cantores da Mãe de Deus. Dizia S. Bernardo, o reformador beneditino:

-“Nas tentações olha para Maria, invoca Maria”.

– “O Senhor não nos quis dar nada que não viesse pelas mãos de Maria”.

E ensinou-nos aquela linda prece: –“Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria….

Uma saudação especial para os Alvitanos e que Santo Amaro, como dizia a velha pastora, “ a eles, proteja e a nós não nos desampare”.

Pe. Justino Lopes, in Voz de Lamego, ano 86/09, n.º 4346, 19 de janeiro de 2016