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Editorial Voz de Lamego: Regresso às Igrejas… vazias!

É uma sensação que varre o pensamento de muitos cristãos durante a época dos confinamentos e da suspensão das celebrações comunitárias. O regresso não trouxe mais pessoas. Regressaram algumas. Algumas ainda estão a aguardar por melhores dias. Algumas ficaram satisfeitas por assistir do sofá ou até da cama. Outras perceberam que a Eucaristia dominical afinal nem fazia assim tanta falta: criam-se outras rotinas!

Não há Igrejas vazias! Espiritual, teologicamente falando! Diz-nos Jesus: “Onde dois ou três estiverem reunidos no meu nome Eu estarei no meio deles” (Mt 18, 20). Onde está Jesus está a Igreja. Onde estão dois ou três em comunhão com Deus, Trindade Santíssima, está toda a Igreja, a gloriosa, dos que se encontram na eternidade de Deus, e a peregrina, dos que caminham na história e no tempo. Podemos olhar para o lado e não ver ninguém, mas os bancos das igrejas estão cheios de familiares e amigos que celebram connosco a vida divina.

Tomáš Halík preparou, gravou e divulgou, pela Internet, homilias na ausência de celebrações comunitárias na Paróquia Universitária de São Salvador, na República Checa, durante o todo o período da Páscoa, de quarta-feira de cinzas ao Pentecostes, de 2020. A este conjunto de homilias, em livro, deu o título: “O tempo das Igrejas vazias!”

Este sacerdote viveu na Igreja das profundezas, subjugada pela perseguição comunista, ordenado padre na clandestinidade, a celebrar Missa às escondidas, sozinho, ou acompanhado de uma pessoa ou de um casal. O tempo de igrejas vazias não o terá surpreendido tanto assim, mas foi oportunidade para dar lugar ao silêncio e à oração, à contemplação do mistério e à reflexão sobre o caminho percorrido, pela Igreja, e o caminho a percorrer, com as possibilidades que se abrem à Igreja e aos cristãos.

A pandemia pode dar lugar à desolação ou à pregação apocalíptica. E, pelos vistos, alguns voltaram a pregações medievais, provocando o medo, como se o medo obrigasse as pessoas a regressarem à Igreja.

As Igreja vazias devem preocupar-nos? Sim. Mas são também um desafio a darmos maiores razões da nossa fé, não no anúncio de um deus vingativo, mas na certeza confiante de um Deus misericordioso, que é Pai e Mãe, e que em Jesus Cristo abraça a história e o sofrimento humano, caminhando connosco.

Perante Igrejas cada vez mais vazias, resignação ou a tristeza?

Resignação: torna-se visível o que já vinha sucedendo, não há muito a fazer!

Tristeza: não conseguimos mostrar o bom Deus aos outros. E tantas pessoas que se conhecessem o amor de Deus poderiam ser bem mais felizes! Bento XVI relembrava-nos que a Igreja se expande pela atração, pela alegria com que se vive, se anuncia e se partilha a fé. Teremos de dar razões da nossa fé, em todos os momentos, nas situações favoráveis e adversas. Deus faz-Se presente na oração – rezemos mais; na Palavra proclamada e meditada – sacudamos o pó das nossas Bíblias; na vivência da Eucaristia, como remédio e alento para o caminho – não desperdicemos este alimento; no cuidado do irmão, no serviço aos mais frágeis – o que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis. As Igrejas vazias são oportunidade para sermos Igreja onde quer que nos encontremos, e em tudo o que fizermos. A Eucaristia, vivida com autenticidade, é o primeiro passo para a caridade.

Em 1992, o cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, profetizava o regresso à Igreja de minorias. Como no cristianismo primitivo, a Igreja, a partir de 12 apóstolos, pequeno rebanho, mas fermento que espalha com a alegria o Evangelho, sem medos, na certeza confiante de que é Jesus quem vai no leme!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/24, n.º 4606, 27 de abril de 2021

PERGUNTA – RESPOSTA | Editorial Voz de Lamego | 17 de março

pergunta_respostaBem dentro da Quaresma, destaque da Voz de Lamego para a Procissão do Senhor dos Passos, na cidade de Lamego, presidida pelo Senhor Bispo, D. António Couto, e que foi precedida da habitual conferência na Sé Catedral. Mas muitos outros temas preenchem as páginas do Jornal Diocesano, a Visita Pastoral de D. António à Paróquia de Avões, encontro de formação, jovens do Arciprestado de Lamego, Jovens Sem Fronteiras de Vila da Ponte, presença do Seminário em Lalim, Via-sacra no mosteiro das Dominicanas, artigo no Ano de Vida Consagrada dedicado aos Franciscanos e à sua presença em Lamego; e o habitual comentário à liturgia dominical, artigos de opinião, notícias de alguns dos concelhos que compõem a Diocese, as intervenções do Papa Francisco.

Vamos ao Editorial, que nos coloca como discípulos diante de Jesus:

PERGUNTA – RESPOSTA 

O jesuíta Tomás Halik, no livro “Paciência com Deus” (p. 36), transcreve o que um dia viu escrito nas paredes de uma estação de metro. A par do que alguém escrevera, em jeito de alegre e convicto testemunho, “Jesus é a resposta”, outro mais céptico escreveu: “Mas qual era a pergunta?”.

Se a afirmação do crente deve ser assumida e divulgada (Jesus é a resposta), o exteriorizar da dúvida (Mas qual era a pergunta?) serve ao autor para sublinhar a oportunidade do perguntar. Porque sem isso não há lugar à resposta e “respostas sem perguntas… são como árvores sem raízes”.

Viver a fé é assumir a vontade de caminhar, assumindo o risco das opções e o desconforto dos limites, mas também a alegria de se saber e sentir acompanhado pelo Senhor que chama e por tantos irmãos que se dispõem a caminhar também, aventurando-se a ir. E na caminhada do crente também há lugar à dúvida, às interrogações, aos lamentos e desabafos e, quantas vezes, à tentação de desistir ou ficar parado.

O discípulo de Jesus Cristo sabe que a conversão é um processo, tantas vezes lento e árduo, que se concretiza com muito custo. E não perder de vista a pergunta, o sentido da vida, ajuda a não desistir na resposta.

Perante o atrapalhado Tomé que assume não saber por onde ir, Jesus apresenta-se como “Caminho, Verdade e Vida” (Jo 14, 6) e revela-lhe que o seguimento exige movimento e é um processo constante.

A quaresma pode ajudar-nos a tomar consciência deste movimento, exigente, que é seguir o Mestre, ajudando-nos a assumirmo-nos como “buscadores com aqueles que procuram e interrogadores com aqueles que se interrogam”, a exemplo de Paulo que se faz “tudo para todos”.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, n.º 4305, ano 85/18, de 17 de março de 2015