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Posts Tagged ‘Terrorismo’

Homenagem pública ao padre assassinado: Père Jacques Hamel

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O assassinato, em França, do Padre às mãos de dois terroristas disfarçados de crentes, abalou muita gente e motivou muitas declarações, homenagens e iniciativas. Numa destas, o arcebispo de Rouen, Dominique Lebrun, proferiu algumas palavras que vale a pena reter.

“Porque estamos aqui? Por causa da morte de um homem? Por causa da loucura mortífera de dois homens? Estamos aqui por causa da nossa recusa de tudo o que consideramos inadmissível!

Sabeis que os crentes gritam para Deus: Porquê? Porque deixas o mal invadir, submergir os corações humanos ao ponto de os transformar em monstros bárbaros? (…)

O Pe. Jacques Hamel morreu “paramentado”. Morreu quando celebrava a Eucaristia com um casal e três religiosas. Que mal fazia? Nenhum. Il fazia o que qualquer padre faz com amor: proclamar a morte de Jesus para anunciar a sua ressurreição, a vitória sobre a  morte, sobre o pecado. Isto faz-se em todas as Missas. Fazemo-lo com um pouco de pão, um pouco de vinho, símbolo da partilha e da alegria para todos. Para nós, católicos, é mais que um símbolo. É o próprio gesto de Jesus, na véspera da sua morte, quando se sabia condenado. Jesus queria doar a sua vida por amor, estar presente, acompanhar a história do mundo que se debate contra o mal, tornar-se alimento para a nossa vida. Ele queria que nós refizéssemos o seu gesto para que o amor invada o mundo, de forma doce e segura.

Uma Missa com cinco pessoas ou com centenas de milhar tem o mesmo valor, o mesmo sentido: dizer que o amor é o verdadeiro futuro da humanidade e não o ódio. A morte do Pe. Jacques assemelha-se à morte de Jesus. Como a morte de todos os mártires da verdade, da justiça, da paz, da fé. (…)

Na história da humanidade, os dez mandamentos marcam uma etapa decisiva no reconhecimento da dignidade humana. Não será importante recordar tal ensinamento para a nossa vida comum, para a educação, para um verdadeiro projecto social? Permitam-me recordar essas palavras comuns às tradições religiosas judaicas, muçulmanas e cristãs:

– Adorarás um só Deus

– Respeitarás o nome de Deus

– Respeitarás o dia consagrado ao Senhor

– Honrarás pai e mãe

– Não matarás

– Não cometerás adultério

– Não roubarás

– Não mentirás

– Não desejarás a mulher do próximo

– Não cobiçarás os bens do outro. (…)

Adorar a Deus é recusar servir-se do seu nome para matar, para roubar, para mentir, para trapacear. Matar o inocente é uma blasfémia contra Deus. O único poder que Deus delega ao crente é o de acreditar no perdão, na misericórdia infinita de Deus”. (…), 

in Voz de Lamego, ano 86/38, n.º 4374, 2 de agosto de 2016

GUARDAR A CRIAÇÃO | Editorial Voz de Lamego | 15 de dezembro

CUIDAR_CRIAÇÃO

Destaque especial nesta edição da Voz de Lamego para o Início do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, com a Abertura das Portas Santas, na Sé de Lamego e no Santuário da Lapa, no passado domingo, 13 de dezembro de 2015. mas outros temas preenchem o Jornal Diocesano, informando-nos e desafiando-nos.

A leitura poderá começar precisamente com o Editorial do nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, que parte da Cimeira sobre o Ambiente que se realizou em Paris e que merecer os focos da comunicação social dos últimos dias, pese embora os ataques terroristas que pareciam ensombrar outros acontecimentos:

GUARDAR A CRIAÇÃO 

A cimeira sobre o ambiente e a sua preservação decorreu em Paris. A cidade-luz, que dias antes fora palco de mais um cobarde atentado terrorista, acolheu delegações de todo o mundo para um debate sobre medidas a empreender para a salvaguarda da “casa comum”.

Apesar dos estudos publicados e dos consecutivos apelos à mudança, da pressão mediática e da presença de organizações ambientalistas, das evidências divulgadas (desertificação dos solos, desflorestação das selvas, inquinação das águas, devastação do ambiente, destruição…), mais uma vez, o mundo assistiu à grande dificuldade que foi aprovar as necessárias resoluções. As prolongadas negociações lá conseguiram obter consensos, mas sempre com grande relutância de quem mais polui e ficando aquém do desejado. As alterações climáticas e suas consequências vão continuar porque falta coragem para combater as suas causas.

O Papa Francisco já havia dado o mote com a encíclica Laudato Si, onde desafiou todos, a começar pelos que detêm o poder de governar, a olharem para o mundo como um bem a preservar, de que é preciso cuidar para legar aos vindouros, e não uma realidade a desbaratar.

No fundo, trata-se de assumir e defender uma cultura de vida, o que inclui uma nova atitude perante a criação e levanta a questão ecológica: “Amemos este magnífico planeta onde Deus nos coloca e amemos a humanidade que o habita” (EG 183). Porque o homem deve ser o guardião da criação.

É verdade que algo se vai conseguindo, que a consciência ecológica vai crescendo, que algumas práticas se alteram, mas os mais poluidores tardam em assumir uma posição mais radical. Entretanto, os estudos vão mostrando urgências e os mais pobres e menos poluidores vão sofrendo com o comportamento egoísta dos mais poderosos.

in Voz de Lamego, ano 85/54, n.º 4341, 15 de dezembro

IDENTIDADE (DE)FORMADA | Editorial Voz de Lamego | 13 de janeiro de 2015

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Nova edição do Jornal Diocesano, Voz de Lamego, refletindo a vida, os acontecimentos do tempo atual, o mundo envolvente, na sociedade e na Igreja, o que se passa à nossa volta, na Diocese e na região. Esta semana, como expectável, os acontecimentos de Paris estão em evidência desde a primeira página.

O Editorial faz eco dos acontecimentos e das preocupações que nos devem fazer refletir: a identidade que se dilui em busca de um sentido que se perdeu e a fixação em fundamentalismo que (aparentemente) oferecem uma referência, uma causa, uma motivação para “gastar” a vida. Vamos então à reflexão que nos propõe o Diretor da Voz de Lamrgo, Pe. Joaquim Dionísio:

IDENTIDADE (DE)FORMADA

Ao contemplarmos a sociedade ocidental em que nos inserimos são visíveis as dificuldades evidenciadas por alguns dos seus membros em assumirem compromissos duradouros ou para afirmarem e cultivarem uma pertença.

Ao mesmo tempo, vislumbramos também um estado generalizado de ansiedade que dificulta a serenidade e a paz necessárias à felicidade.

Apesar do desenvolvimento que se observa e da melhoria das condições de vida que se constatam, as relações humanas são marcadas pela fragilidade, os compromissos pela precariedade e as instituições enfraquecem com a deserção ou falta de interesse de muitos.

Por outro lado, é neste ambiente marcado por uma “falta de sentido” para a vida em que tantos nascem e crescem que, certas ideias, contrárias aos direitos humanos fundamentais, proliferam e alguns grupos recrutam voluntários. Assim se compreende a presença de milhares de jovens ocidentais, a quem aparentemente nada falta, junto de extremistas que apenas se destacam pela crueldade das mortes que executam e pelo fundamentalismo que protagonizam, perseguindo e matando quem crê, pensa e vive de forma diferente.

O que está em causa poderá ser uma fraca ou inexistente identidade destes jovens ocidentais. Perdidos entre opções, insatisfeitos nas escolhas e ansiosos por protagonizarem algo de diferente, tornam-se alvos fáceis para o tal recrutamento, a que se segue uma condenável (de)formação desviante e fundamentalista que leva a actos indignos, tal como os que aconteceram em França por estes dias.

Diante disto, importa contribuir para um crescimento sadio e realizador, através de uma formação assente em valores e princípios que defendam a vida. Uma formação integral e integradora, aberta e acessível, que passa pela acção de instituições e serviços, mas que se concretiza, de forma particular, pela missão educadora assumida pela família, onde as identidades se afirmam e promovem.

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4296, ano 85/09, de 13 de janeiro de 2015