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Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha?

É. É possível que aqueles que nos lisonjeiam na frente, atrás nos pintem com cores escurecidas! Prefiro não perder tempo com isso, sabendo que os verdadeiros amigos são um tesouro que nos estimam apesar das nossas limitações e pecados.

Voltamos, desta forma, à expressão lapidar de Shakespeare. Nem sempre os que te batem nas costas ou te aplaudem são os mesmos com os quais podes contar na adversidade.

Vejamos outra expressão também criada e popularizada pelo nosso dramaturgo, sobre a tragédia de Júlio César. “Até tu, Brutus?” No dia 15 de março do ano 44 a.C., o grande general Júlio César, autoproclamado ditador perpétuo de Roma, foi assassinado. Tinha-se tornado autocrata e tirano. 60 senadores perpetraram o homicídio. Logo que a reunião do senado começou, cercaram Júlio César e esfaquearam-no, com 23 facadas. Não se sabem as palavras que terá proferido com exatidão, mas é-lhe atribuído o lamento dirigido a Marcus Junius Brutus, filho da sua amante favorita e a quem tratava como amigo: “Também tu, criança?”. Contudo, os historiadores mais antigos parecem concordar que Júlio César não disse nada depois do primeiro golpe.

Shakespeare inspirou-se nesta frase para criar estoutra: “Até tu, Brutus, meu filho?” A admiração é também uma desilusão por ter sido traído por alguém que considerava filho. Depois da história e do teatro, deixemo-nos, agora, conduzir por Jesus, Aquele que ensina com autoridade, fazendo corresponder o que proclama com o que vive.

Nas disputas com alguns fariseus prevalece precisamente a crítica de Jesus àqueles que têm duas caras, exigindo o que não fazem. “Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não” (Mt 5, 37). E não deixar de sorrir… “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39). Não ter duas caras, ser coerente, procurar agir em conformidade com o que pensa. Quem não vive como pensa, acabará por pensar como vive (B. Pascal).

Vem novamente à colação o contraponto do Santo Padre, entre pecadores, que assim se reconhecem humildemente, abrindo-se à graça de Deus, e corruptos, que vivem na indiferença e no desprezo pelo seu semelhante.

José Luiz Silva, “Na calçada do Café São Luiz”, situa-nos entre o santo e o canalha. Os dois perdoam e os dois não sofrem.

“Há dois tipos de homem, capaz de perdoar 70 vezes 7: o santo e o canalha. Somente os dois serão capazes de dar a face direita depois de ter apanhado na face esquerda. Aquele pela humildade, este pela malandragem. Para o santo, esquecer é um gesto natural. Para o canalha também. O santo escuta desaforos, vai aos tribunais, recebe insultos e depois volta sorrindo, porque a sua força está dentro dele.

E o canalha? Justamente porque é destituído de qualquer força interior, desnutrido de qualquer dimensão ética, ele aceita tudo sorrindo. Seu sorriso, porém, é um misto de cinismo e desfibramento. O santo não sofre. O canalha também [não]. Para ambos tudo é passageiro e supérfluo… O canalha… Na hora de dizer sem estar dizendo, ou abraçar traindo, de sorrir denunciando, de convocar recusando, de oferecer retirando, de aderir explorando, de chorar sorrindo por dentro, de sorrir queimando de ódio. O canalha é o artesão da maldade… Ele consegue ter a cor do trigo, o farfalhar do trigo, mas ele é joio. Aproveita o vento que sopra e os raios do sol para também tornar-se cheio de vida. O santo é exigente com ele mesmo. O canalha é exigente com os outros”. O caminho do cristão é o da santidade. A sua opção é a de Jesus Cristo: em tudo procurar a vontade de Deus – amar, perdoar, cuidar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/29, n.º 4611, 1 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha!

Esta é um conhecida expressão de Shakespeare, na peça de teatro Hamlet. Desabafo? Crítica? Resignação? Ainda estou à procura de um significado mais clarividente e definitivo. O propósito aqui, contudo, é acentuar a importância de um sorriso e como este pode significar salvação, proximidade, acolhimento, como pode sancionar e transparecer a presença e o sorriso de Deus.

Há sorrisos para todos os gostos.

Um sorriso espontâneo traz saúde ao corpo e à alma, e pode irmanar-nos. O sorriso ilumina a pessoa, torna-a vulnerável, acessível, disponível diante da outra. É como o sol que desperta quem o recebe, animando-o e aquecendo-lhe o rosto e o dia.

Há sorrisos amarelos, de escárnio e de enfadonho, de cansaço (dos outros) e de desprezo, de indiferença e de sobranceria. Mas estes não fazem bem nem ao próprio, nem àquele a quem se destina.

Numa série de desenhos animados, Naruto, tropeçamos em sorrisos! “Sorrir é a melhor maneira de lidar com situações difíceis… Quando estás com alguém que gostas, sempre sorris… Um sorriso pode tirar-te de uma situação difícil, mesmo que seja falso”. Esta última frase aproxima-nos da expressão de Shakespeare. Um personagem é traído pelo sorriso da companheira de missão. Julgou que a piada que disse tinha provocado um sorriso, mas era um sorriso falso e na resposta levou um valente soco!

Eloquente são as milhentas provocações de Santa Teresa de Calcutá.

“Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor… É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento… Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir… A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso”.

E com o sorriso a alegria.

“A alegria é oração, a alegria é força, a alegria é uma rede de amor. Quem dá com alegria dá muito mais. O melhor modo de mostrar gratidão a Deus e aos homens é aceitar tudo com alegria… Nada deve provocar-te tanta dor que te faça esquecer a alegria de Cristo ressuscitado… A alegria é a marca de uma pessoa generosa, humilde que se esquece de tudo, até de si mesma, e procura agradar a Deus em tudo o que faz. Frequentemente, a alegria esconde uma vida de sacrifício, uma contínua união com Deus… O amor é um fruto de todas as estações e ao alcance de todos”.

A Madre Teresa de Calcutá confidenciou que, por vezes, o seu coração estava demasiado dorido, por ver tanta miséria, mas, ainda assim, obrigava-se a sorrir, porque era dessa forma que o sorriso de Deus chegava às pessoas. Não se trata de fingir sorrisos, trata-se de uma escolha: sorrir em todas as circunstâncias, não pela disposição, mas pela atitude de missão em relação aos outros a quem devemos o sorriso de Deus.

“Fazei com que todo aquele que for ter convosco saia da vossa beira sentindo-se melhor. Todos devem ver a bondade no vosso rosto, nos vossos olhos, no vosso sorriso. A alegria transparece pelos olhos, manifesta-se quando falamos e caminhamos. Não pode permanecer encerrada dentro de nós. A alegria é contagiosa”. Sorri e no sorriso coloca a expressividade de um Deus que ama e se faz presente em ti e através de ti. Não te sufoques com lamentos…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/28, n.º 4610, 25 de maio de 2021