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RELEVÂNCIA E PRESENÇA | Editorial Voz de Lamego | 5 de junho de 2018

RELEVÂNCIA E PRESENÇA

A recente votação parlamentar “adiou” a legalização da eutanásia, já que os seus promotores não descansarão enquanto não puderem inscrever mais esse “avanço” na legislação portuguesa. Tal como na questão do aborto, o tema voltará à ordem do dia e os “arautos do progresso” inscreverão mais essa página na história lusa.

A este propósito, e a par dos defensores de tal prática, muitas foram os portugueses que se fizeram ouvir apelando ao “não”. E se noutros tempos caberia, maioritariamente, aos bispos e padres tal apelo, a verdade é que se ouviram outras vozes e se viram outros rostos nas manifestações concretizadas. O facto mostra que a Igreja cresceu, dando vez e voz a quem não é ministro ordenado, proporcionando aos fiéis leigos afirmarem-se como sujeitos.

Num tempo marcado pelo fim da cristandade e consequente perda de relevância da Igreja no debate público, saúda-se e sublinha-se a aparição de vozes formadas e informadas que enriquecem o debate e, de alguma forma, podem colmatar a ausência da hierarquia, tantas vezes ignorada pelos grandes meios de comunicação.

A Igreja sabe e assume que a perda de relevância no debate, a ausência do convite ou a invisibilidade a que, involuntariamente, é muitas vezes votada em nada diminuem a sua determinação em permanecer fiel ao Senhor, cumprindo a missão de anunciar o Evangelho, servir a humanidade e ser “sacramento de salvação”.

Porque enquanto a Igreja estiver disponível para servir, acolher, escutar, ocupar-se dos mais frágeis, marcar presença nos lugares não cobiçados… a Igreja permanecerá.

É verdade que a Igreja pode ter perdido a relevância de outros tempos, mas para ser fiel Àquele que a fez nascer será sempre mais importante estar presente, promovendo e defendendo a dignidade de todos.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/27, n.º 4464, 5 de junho de 2018

Dor e Sofrimento. Onde está Deus?

No passado dia 21 de abril o grupo Almacave Jovem promoveu uma conferência subordinada à temática “Dor e Sofrimento”, no Auditório do Centro Paroquial. Foi um momento de partilha de conhecimentos e experiências em torno de questões importantes, como o conceito de dor total e a abordagem do sofrimento na perspetiva da Igreja e dos cuidados de saúde, apontando os cuidados paliativos como uma das respostas. A European Association for Palliative Care (EAPC) define cuidados paliativos como “cuidados ativos e totais do doente cuja doença não responde à terapêutica curativa, sendo primordial o controlo da dor e outros sintomas, problemas sociais, psicológicos e espirituais. São cuidados interdisciplinares que envolvem o doente, família e a comunidade nos seus objetivos e devem ser prestados onde quer que o doente deseje ser cuidado, seja em casa ou no hospital. Afirmam a vida e assumem a morte como um processo natural e, como tal, não antecipam nem adiam a morte. Procuram preservar a melhor qualidade de vida possível, prevenindo e aliviando o sofrimento evitável, ou seja, reconhecendo e melhorando a experiência da pessoa que sofre.

Cuidados às pessoas na fase final da sua vida, nomeadamente aos moribundos, foram sendo disponibilizados e efetuados desde os tempos mais remotos da História por personalidades individuais ou grupos, sobretudo religiosos. Embora não se possa nem deva retirar o mérito e importância a estes cuidados, que eram sobretudo cuidados de âmbito geral e caritativo, é importante não confundir com o Movimento Moderno dos Cuidados Paliativos, que se reporta aos anos 60, pela mão da Dame Cicely Saunders. Na sua perspetiva mais moderna, estes cuidados combinam cuidados clínicos, formação e investigação e são prestados no seio de uma equipa multidisciplinar constituída por médico, enfermeiro, assistente social, psicólogo, assistente operacional, fisioterapeuta, nutricionista, assistente espiritual, voluntário e outros que seja necessário envolver, de acordo com o plano individual e integral de cuidados. No centro da equipa está o doente e família. ”. Por forma a mitigar o sofrimento, os vários elementos da equipa desenham intervenções holísticas e compassivas que promovam a transição a uma nova circunstância de vida, reduzindo formas evitáveis de sofrimento e ansiedade e promovendo o bem-estar. Os cuidados devem refletir a coordenação, competência, acessibilidade,  informação entendível, na quantidade adequada a cada pessoa e um rigoroso controlo sintomático e expressão emocional.

Em Portugal, a história dos cuidados paliativos modernos tem cerca de 25 anos. As primeiras equipas multidisciplinares estavam sediadas no IPO Porto (Professor Ferraz Gonçalves), no Hospital do Fundão (Dr Lourenço Marques) e no Centro de Saúde de Odivelas (Drª Isabel Galriça Neto. Para aceder ao número, localização, contactos e tipologia das equipas (intrahospitalar, comunitária de suporte e internamento) consulte informação em https://www.sns.gov.pt/sns/cuidados-paliativos/unidades-de-cuidados-paliativos/. Existem ainda equipas de cuidados paliativos em hospitais privados. O médico assistente, no hospital ou comunidade, é a pessoa mais bem colocada para facilitar o acesso a cuidados paliativos.

Catarina Simões (enfermeira de cuidados paliativos)

in Voz de Lamego, ano 87/24, n.º 4409, 25 de abril de 2017