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Posts Tagged ‘Sínodo para a Família’

À conversa com o Pe. João Carlos sobre a Exortação do Papa Francisco

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Aquando da preparação das assembleias sinodais sobre a família (2014 e 2015), o povo de Deus foi convidado a manifestar-se e a contribuir para as mesmas, nomeadamente respondendo a questões que visavam recolher a opinião e o sentir dos baptizados. O Pe. João Carlos Morgado, Pró-Vigário Geral da nossa  Diocese de Lamego foi o responsável por essa recolha e posterior envio para a Conferência Episcopal. Numa altura em que a exortação Papal sobre o tema é notícia. Quisemos saber a sua opinião.

Após a leitura da exortação pós-sinodal e depois de ter coligido as sugestões de muitos diocesanos, sente que as expectativas foram satisfeitas?

Sim, sente-se de forma geral, que as sugestões, reflexões e problemáticas apresentadas nas respostas aos questionários foram tidas em conta. A Exortação Apostólica do Papa Francisco “Amoris Laetitia” é um documento longo e bastante inclusivo daquilo que é o sentir do Povo de Deus sobre as questões que se colocam às famílias do nosso tempo e que foi expresso na síntese das respostas aos dois inquéritos. Recordo que o primeiro questionário começava por “avaliar” o conhecimento dos batizados acerca do ensinamento bíblico e do Magistério da Igreja sobre a família e a sua receção na vida quotidiana. A exortação apostólica dedica todo o primeiro capítulo à exposição da doutrina sobre a família à luz da Palavra de Deus e no capítulo III, nomeadamente nos números 67 a 70, faz-se uma síntese dos principais ensinamentos do magistério sobre a família. No resto da “Amoris Laetitia” sente-se a mesma simetria no tratamento dos temas.

Como caracteriza o procedimento sinodal escolhido e vivido neste caso? 

Foram enviados às dioceses dois questionários. O primeiro, em 2014, tinha como finalidade permitir às Igrejas particulares participar ativamente na preparação do Sínodo Extraordinário, sob a temática do anúncio do Evangelho nos atuais desafios pastorais a respeito da família. O segundo, em 2015, foi feito a partir da Relatio Synodi que saiu do Sínodo Extraordinário e pretendia saber se a “Relatio” correspondia a quanto emerge na Igreja e na sociedade de hoje e que aspetos faltavam que se pudessem integrar. Houve assim um percurso sinodal que envolveu toda a Igreja. Todos os batizados tiveram a oportunidade de se exprimirem.

A leitura deste documento é aconselhada a todos, mas sabemos que nem sempre tal é viável. Que sugestões daria para uma leitura e reflexão na nossa Diocese?

A primeira sugestão é dada pelo próprio Papa, que logo no início da exortação propõe: “Devido à riqueza que os dois anos de reflexão do caminho sinodal ofereceram, esta exortação aborda, com diferentes estilos, muitos e variados temas. Isto explica a sua inevitável extensão. Por isso, não aconselho uma leitura espiritual apressada. Poderá ser de mais proveitoso, tanto para as famílias como para os agentes de pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou procurar nela aquilo de que precisam em cada circunstância concreta. É provável, por exemplo, que os esposos se identifiquem mais com o capítulo IV e V, que os agentes pastorais tenham especial interesse pelo capítulo VI, e que todos se sintam muito interpelados pelo VIII. Espero que cada um, através da leitura, se sinta chamado a cuidar com amor da vida das famílias, porque elas ‘não são um problema, são sobretudo oportunidade’.” (AL, 7)

Sei que isto está já a ser feito na nossa diocese. Por exemplo os responsáveis pelo CPM estão agora a estudar os números do documento que se referem à necessária e adequada preparação para o Matrimónio e que o Papa tanto sublinha( AL 205 -211). Também as Equipas de Nossa Senhora começaram já a estudar a exortação nas suas reuniões de casais. Nos recentes Cursilhos de Cristandade a Exortação Apostólica Amoris Laetitia fez parte dos documentos do magistério estudados e recomendados para estudo.

Em algumas regiões da diocese já se consolidaram as realizações anuais de assembleias (arciprestais ou de zona) de famílias, assim como as celebrações comunitárias das Bodas de Ouro e de Prata Matrimoniais. Aliás o Papa Francisco, no nº 223, considera um recurso válido “animar os cônjuges a reunirem-se regularmente para promoverem o crescimento da vida espiritual e a solidariedade nas exigências concretas da vida. Liturgias, práticas devocionais e Eucaristias celebradas para as famílias, sobretudo no aniversário do matrimónio”. Tudo serão oportunidades para refletir sobre a exortação e talvez não fosse impraticável a distribuição de um exemplar da mesma a cada uma das famílias presentes, que depois a poderiam estudar em casal e redescobrir a alegria do amor que este documento sublinha no título e no conteúdo.

Os órgãos de informação da diocese, desde a Voz de Lamego aos paroquiais, tem dado desde a primeira hora publicidade e “chaves de leitura” da exortação. Tendo esta uma acentuada componente missionária, como aliás os demais documentos do Papa Francisco, urge fazer das famílias atores da nova evangelização, com uma pastoral de conjunto que congregue sinergias.

Teremos naturalmente de,também, estar atentos às situações novas da família, tratadas no Cap. VIII, e aos desafios pastorais que nos lançam para “acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” a partir das indicações que a exortação nos dá e dos caminhos que deixa abertos e que será necessário aprender a percorrer. É andando que se faz caminho.

in Voz de Lamego, ano 86/22, n.º 4361, 3 de maio de 2016

A ALEGRIA DO AMOR. Exortação apostólica pós-sinodal sobre a família

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Papa defende maior abertura, acompanhamento e «discernimento» das situações dos católicos divorciados e rejeita soluções únicas, sem abordar diretamente a possibilidade de acesso à comunhão ou alterar doutrina. O card. Ch. Schoenborn, arcebispo de Viena, apresentou a exortação, considerando que o caminho de “discernimento”, proposto aos católicos divorciados é “delicado, mas necessário”.

O Papa propõe, na sua nova exortação apostólica sobre a família, um caminho de “discernimento” para os católicos divorciados que voltaram a casar civilmente, sublinhando que não existe uma solução única para estas situações. “Não se devia esperar do Sínodo ou desta exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos”, sublinha Francisco, no documento divulgado na passada sexta-feira, com o título ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor).

Tal como aconteceu com o relatório final da assembleia de outubro de 2015, a exortação apostólica pós-sinodal não aborda diretamente a possibilidade de acesso à Comunhão pelos divorciados recasados, que é negada pela Igreja Católica, mas numa das notas do texto, o Papa observa que “o discernimento pode reconhecer que, numa situação particular, não há culpa grave”. “Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho”, escreve Francisco.

O Papa apresenta critérios de reflexão, recordando que há “condicionamentos” e “circunstâncias atenuantes” que podem anular ou diminuir a responsabilidade de uma ação.

“Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal”, precisa. Estas pessoas, reforça, precisam da “ajuda da Igreja”, procurando os “caminhos possíveis de resposta a Deus”, e “em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos”.

O texto apela a um “responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares”, reconhecendo que há situações em que “a separação é inevitável” e, por vezes, “até moralmente necessária”. “Acompanhar”, “discernir” e “integrar” são as indicações centrais do Papa nesta matéria, integradas numa “lógica da misericórdia pastoral”. “Temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”, assinala Francisco.

A exortação apostólica com as conclusões do Sínodo da Família, que decorreu em duas sessões (2014 e 2015), fala na necessidade de um “adequado discernimento pessoal e pastoral”, recordando que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”.

“Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”, adverte o Papa. Para o card. De Viena, que participou nas duas assembleias sinodais, “é uma armadilha centrar tudo neste ponto” dos divorciados recasados.

O texto refere que é missão dos padres “acompanhar as pessoas no caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do bispo”, apelando a um “exame de consciência” das pessoas em causa sobre a forma como trataram os seus filhos ou como viveram a “crise conjugal”.

Francisco sublinha ainda a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial.

O pontífice observa que os divorciados que vivem numa nova união se podem encontrar em situações “muito diferentes”, que não devem ser “catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas”. “Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e amadurecer como membros vivos da Igreja”, realça. Para o Papa, mais importante do que uma “pastoral dos falhanços” é o esforço de “consolidar os matrimónios e assim evitar as ruturas”.

A exortação pós-sinodal coloca os filhos como “primeira preocupação” para quem se separou, com atenção ao seu sofrimento. “O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios”, lamenta o Papa.

in Voz de Lamego, ano 86/21, n.º 4358, 12 de abril de 2016

SÍNODO DA FAMÍLIA | Editorial Voz de Lamego | 13 de outubro

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O Editorial da Voz de Lamego aviva um dos acontecimentos importantes que a Igreja está a viver, o Sínodo dos Bispos sobre a Família, procurando acolher a família como um dom para a Igreja e para o mundo, ajudando a encontrar caminhos para melhor viver a fé no mundo atual.

O Pe. Joaquim Dionísio sublinha a proximidade ao Jubileu da Misericórdia que pode ajudar a Igreja a ir mais longe, discernindo o Espírito que age no nosso tempo, procurando a fidelidade a Jesus Cristo.

Muitos outros pontos de interesse tem a edição desta semana, a começar pelo tema de capa, o Dia Mundial das Missões, com a Mensagem do Papa Francisco para esta Jornada.

SÍNODO DA FAMÍLIA

Os olhos de muitos estão voltados para Roma, não à espera da salvação, mas atentos às conclusões do Sínodo dos Bispos que ali decorre, entre os dias 04 e 25 deste mês. Na sua função consultiva, no final dos trabalhos, este órgão eclesial endereçará ao Papa algumas “proposições” que poderão ser tidas em conta na habitual Exortação pós-sinodal e nas (re)orientações pastorais.

O tema em debate – a família – já havia motivado e ocupado, extraordinariamente, a assembleia sinodal no ano passado. Nessa altura, a preparação do singular encontro motivou a participação dos fiéis de todo o mundo, contribuindo para as expectativas então surgidas, a que não estará alheia, também, uma certa postura papal. Os destinatários dessa consulta pré-sinodal e os participantes no Sínodo foram “desafiados” por Francisco a não terem medo das questões e a falarem frontal e abertamente (parresia) sobre o assunto.

Este segundo momento sinodal não desencadeou tanta curiosidade, mas esperam-se novidades, mesmo que não sejam “espectaculares”! Não se trata de esperar mudanças doutrinais nem de pôr em causa a inquestionável doutrina da indissolubilidade. Há fundamentadas expectativas de se poderem vislumbrar novas atitudes pastorais que respondam ao sofrimento de tantos casais recasados que vivem a angústia de não poderem comungar ou assumir determinadas responsabilidades.

No passado, a Igreja soube interpretar a realidade e responder oportunamente sem se afastar do Evangelho e permanecendo perto do Homem. O mesmo deverá acontecer agora, sob pena de contribuir para um sentimento de frustração em tantos que anseiam por respostas. Acreditamos nas capacidades humanas dos membros sinodais para acolher e interpretar a voz do Espírito.

Na proximidade do Ano da Misericórdia, sem cair no facilitismo ou popularismo, talvez seja possível ir um pouco mais longe, porque “a misericórdia não teme o julgamento”.

in Voz de Lamego, ano 85/46, n.º 4333, 13 de outubro

Mensagem do Papa para o 49.º Dia Mundial das Comunicações Sociais

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MENSAGEM do PAPA FRANCISCO para o XLIX DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

COMUNICAR A FAMÍLIA:

ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor

17 de Maio de 2015

 

O tema da família encontra-se no centro duma profunda reflexão eclesial e dum processo sinodal que prevê dois Sínodos, um extraordinário – acabado de celebrar – e outro ordinário, convocado para o próximo mês de Outubro. Neste contexto, considerei  oportuno que o tema do próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais tivesse como ponto de referência a família. Aliás, a família é o primeiro lugar onde aprendemos a comunicar. Voltar a este momento originário pode-nos ajudar quer a tornar mais autêntica e humana a comunicação, quer a ver a família dum novo ponto de vista.

Podemos deixar-nos inspirar pelo ícone evangélico da visita de Maria a Isabel (Lc 1, 39-56). «Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”» (vv. 41-42).

Este episódio mostra-nos, antes de mais nada, a comunicação como um diálogo que tece com a linguagem do corpo. Com efeito, a primeira resposta à saudação de Maria é dada pelo menino, que salta de alegria no ventre de Isabel. Exultar pela alegria do encontro é, em certo sentido, o arquétipo e o símbolo de qualquer outra comunicação, que aprendemos ainda antes de chegar ao mundo. O ventre que nos abriga é a primeira «escola» de comunicação, feita de escuta e contacto corporal, onde começamos a familiarizar-nos com o mundo exterior num ambiente protegido e ao som tranquilizador do pulsar do coração da mãe. Este encontro entre dois seres simultaneamente tão íntimos e ainda tão alheios um ao outro, um encontro cheio de promessas, é a nossa primeira experiência de comunicação. E é uma experiência que nos irmana a todos, pois cada um de nós nasceu de uma mãe.

Mesmo depois de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num «ventre», que é a família. Um ventre feito de pessoas diferentes, interrelacionando-se: a família é «o espaço onde se aprende a conviver na diferença» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 66). Diferenças de géneros e de gerações, que comunicam, antes de mais nada, acolhendo-se mutuamente, porque existe um vínculo entre elas. E quanto mais amplo for o leque destas relações, tanto mais diversas são as idades e mais rico é o nosso ambiente de vida. O vínculo está na base da palavra, e esta, por sua vez, revigora o vínculo. Nós não inventamos as palavras: podemos usá-las, porque as recebemos. É em família que se aprende a falar na «língua materna», ou seja, a língua dos nossos antepassados (cf. 2 Mac 7, 21.27). Em família, apercebemo-nos de que outros nos precederam, nos colocaram em condições de poder existir e, por nossa vez, gerar vida e fazer algo de bom e belo. Podemos dar, porque recebemos; e este circuito virtuoso está no coração da capacidade da família de ser comunicada e de comunicar; e, mais em geral, é o paradigma de toda a comunicação.

A experiência do vínculo que nos «precede» faz com que a família seja também o contexto onde se transmite aquela forma fundamental de comunicação que é a oração. Muitas vezes, ao adormecerem os filhos recém-nascidos, a mãe e o pai entregam-nos a Deus, para que vele por eles; e, quando se tornam um pouco maiores, põem-se a recitar juntamente com eles orações simples, recordando carinhosamente outras pessoas: os avós, outros parentes, os doentes e atribulados, todos aqueles que mais precisam da ajuda de Deus. Assim a maioria de nós aprendeu, em família, a dimensão religiosa da comunicação, que, no cristianismo, é toda impregnada de amor, o amor de Deus que se dá a nós e que nós oferecemos aos outros.

Na família, é sobretudo a capacidade de se abraçar, apoiar, acompanhar, decifrar olhares e silêncios, rir e chorar juntos, entre pessoas que não se escolheram e todavia são tão importantes uma para a outra… é sobretudo esta capacidade que nos faz compreender o que é verdadeiramente a comunicação enquanto descoberta e construção de proximidade. Reduzir as distâncias, saindo mutuamente ao encontro e acolhendo-se, é motivo de gratidão e alegria: da saudação de Maria e do saltar de alegria do menino deriva a bênção de Isabel, seguindo-se-lhe o belíssimo cântico do Magnificat, no qual Maria louva o amoroso desígnio que Deus tem sobre Ela e o seu povo. De um «sim» pronunciado com fé, derivam consequências que se estendem muito para além de nós mesmos e se expandem no mundo. «Visitar» supõe abrir as portas, não encerrar-se no próprio apartamento, sair, ir ter com o outro. A própria família é viva, se respira abrindo-se para além de si mesma; e as famílias que assim procedem, podem comunicar a sua mensagem de vida e comunhão, podem dar conforto e esperança às famílias mais feridas, e fazer crescer a própria Igreja, que é uma família de famílias.

Mais do que em qualquer outro lugar, é na família que, vivendo juntos no dia-a-dia, se experimentam as limitações próprias e alheias, os pequenos e grandes problemas da coexistência e do pôr-se de acordo. Não existe a família perfeita, mas não é preciso ter medo da imperfeição, da fragilidade, nem mesmo dos conflitos; preciso é aprender a enfrentá-los de forma construtiva. Por isso, a família onde as pessoas, apesar das próprias limitações e pecados, se amam, torna-se uma escola de perdão. O perdão é uma dinâmica de comunicação: uma comunicação que definha e se quebra, mas, por meio do arrependimento expresso e acolhido, é possível reatá-la e fazê-la crescer. Uma criança que aprende, em família, a ouvir os outros, a falar de modo respeitoso, expressando o seu ponto de vista sem negar o dos outros, será um construtor de diálogo e reconciliação na sociedade.

Muito têm para nos ensinar, a propósito de limitações e comunicação, as famílias com filhos marcados por uma ou mais deficiências. A deficiência motora, sensorial ou intelectual sempre constitui uma tentação a fechar-se; mas pode tornar-se, graças ao amor dos pais, dos irmãos e doutras pessoas amigas, um estímulo para se abrir, compartilhar, comunicar de modo inclusivo; e pode ajudar a escola, a paróquia, as associações a tornarem-se mais acolhedoras para com todos, a não excluírem ninguém.

Além disso, num mundo onde frequentemente se amaldiçoa, insulta, semeia discórdia, polui com as murmurações o nosso ambiente humano, a família pode ser uma escola de comunicação feita de bênção. E isto, mesmo nos lugares onde parecem prevalecer como inevitáveis o ódio e a violência, quando as famílias estão separadas entre si por muros de pedras ou pelos muros mais impenetráveis do preconceito e do ressentimento, quando parece haver boas razões para dizer «agora basta»; na realidade, abençoar em vez de amaldiçoar, visitar em vez de repelir, acolher em vez de combater é a única forma de quebrar a espiral do mal, para testemunhar que o bem é sempre possível, para educar os filhos na fraternidade.

Os meios mais modernos de hoje, irrenunciáveis sobretudo para os mais jovens, tanto podem dificultar como ajudar a comunicação em família e entre as famílias. Podem-na dificultar, se se tornam uma forma de se subtrair à escuta, de se isolar apesar da presença física, de saturar todo o momento de silêncio e de espera, ignorando que «o silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras ricas de conteúdo» (Bento XVI, Mensagem do XLVI Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24/1/2012); e podem-na favorecer, se ajudam a narrar e compartilhar, a permanecer em contacto com os de longe, a agradecer e pedir perdão, a tornar possível sem cessar o encontro. Descobrindo diariamente este centro vital que é o encontro, este «início vivo», saberemos orientar o nosso relacionamento com as tecnologias, em vez de nos deixarmos arrastar por elas. Também neste campo, os primeiros educadores são os pais. Mas não devem ser deixados sozinhos; a comunidade cristã é chamada a colocar-se ao seu lado, para que saibam ensinar os filhos a viver, no ambiente da comunicação, segundo os critérios da dignidade da pessoa humana e do bem comum.

Assim o desafio que hoje se nos apresenta, é aprender de novo a narrar, não nos limitando a produzir e consumir informação, embora esta seja a direcção para a qual nos impelem os potentes e preciosos meios da comunicação contemporânea. A informação é importante, mas não é suficiente, porque muitas vezes simplifica, contrapõe as diferenças e as visões diversas, solicitando a tomar partido por uma ou pela outra, em vez de fornecer um olhar de conjunto.

No fim de contas, a própria família não é um objecto acerca do qual se comunicam opiniões nem um terreno onde se combatem batalhas ideológicas, mas um ambiente onde se aprende a comunicar na proximidade e um sujeito que comunica, uma «comunidade comunicadora». Uma comunidade que sabe acompanhar, festejar e frutificar. Neste sentido, é possível recuperar um olhar capaz de reconhecer que a família continua a ser um grande recurso, e não apenas um problema ou uma instituição em crise. Às vezes os meios de comunicação social tendem a apresentar a família como se fosse um modelo abstracto que se há-de aceitar ou rejeitar, defender ou atacar, em vez duma realidade concreta que se há-de viver; ou como se fosse uma ideologia de alguém contra outro, em vez de ser o lugar onde todos aprendemos o que significa comunicar no amor recebido e dado. Ao contrário, narrar significa compreender que as nossas vidas estão entrelaçadas numa trama unitária, que as vozes são múltiplas e cada uma é insubstituível.

A família mais bela, protagonista e não problema, é aquela que, partindo do testemunho, sabe comunicar a beleza e a riqueza do relacionamento entre o homem e a mulher, entre pais e filhos. Não lutemos para defender o passado, mas trabalhemos com paciência e confiança, em todos os ambientes onde diariamente nos encontramos, para construir o futuro.

Vaticano, 23 de Janeiro – Vigília da Festa de São Francisco de Sales – de 2015.

FRANCISCO PP.

APROFUNDAR PARA MUDAR | Editorial Voz de Lamego | 30-09-2014

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No dia 27 de setembro, sábado, no Seminário Maior de Lamego, em Dia de Igreja Diocesana, a apresentação do Plano Pastoral Diocesano e a apresentação da Carta Pastoral de D. António Couto, Bispo desta nobre Diocese de Lamego. “Ide e construí com mais amor a Família de Deus”. É o tema da carta e o lema para o Ano Pastoral de 2014-2015. O jornal diocesano faz largo eco deste dia, publicando imagens, desenvolvendo a notícia e publicando a Carta Pastoral do nosso Bispo, alargando desta forma a possibilidade de mais pessoas terem acesso à convocação de D. António Couto.

Outro tema em destaque: a entrada nas paróquias do Pe. José Fonseca Soares e do Pe. Vítor Taveira. Também esta edição da Voz de Lamego faz eco do que vai acontecendo na região, na igreja e um pouco por todo o lado.  Por outro lado, várias reflexões, sob inspiração cristã, à procura de dar pistas, para dizer bem e bem fazer, para melhor viver.

O editorial desta semana faz-nos compreender o que significa o Sínodo dos Bispos que inicia no próximo domingo, cuja temática principal será a família.

Aprofundar para mudar

No próximo domingo, dia 05, no Vaticano e com participantes de todo o mundo, tem início o Sínodo sobre a família.

Ao serviço dos homens e mulheres de hoje e de sempre, a Igreja está particularmente atenta à família. Por isso a sua voz se faz ouvir, constantemente, para sublinhar a sua importância na vida de cada um e no todo da sociedade. E procura fazê-lo com realismo e confiança, denunciando profeticamente o que a atinge e demonstrando esperança nas capacidades humanas para fazer melhor. Porque a família é um bem universal que deve ser defendido e promovido, independentemente da fé que se professa ou da falta de fé que se assume.

No âmbito familiar, diante de tantas situações que geram desconforto pastoral, multiplica-se o refrão: “a Igreja tem que mudar o seu ensinamento e a sua prática!” Mas será que a Igreja poderá reescrever o Evangelho? Não. Mas pode aprofundar o conhecimento e interpretação do mesmo, bem como da circunstância histórica em que nos encontramos.

Por isso, “mudar”, na Igreja, significa aprofundar para conhecer. E conhecer mais proporciona seguir melhor. Daí que a esperança seja legítima, convictos de que o Espírito guia e assiste e que a Igreja reunida saberá interpretar os sinais e encontrar respostas. Este é o grande desafio de sempre: articular fidelidade doutrinal (estar junto de Deus) com criatividade pastoral (estar perto dos homens).

O próprio Papa desafiou, recentemente, o Cardeal W. Kasper a colocar questões sobre o assunto e a partilhá-las com Cardeais (Consistório). Nessa perspectiva, o Sínodo vai certamente debruçar-se sobre questões doutrinais, mas vai também estar ocupado em oferecer possibilidades e perspectivas pastorais: para trazer luz, abrir portas, fazer pensar, convidar à mudança e, sobretudo, apresentar um sentido.

Pe. Joaquim Dionísio, VOZ DE LAMEGO, 30 de setembro de 2014, n.º 4282, ano 84/44

Sínodo sobre a Família: entrevista ao Pe. João Carlos Morgado

In Voz de Lamego, 07.01.2014

O nosso jornal, como era de esperar, divulgou oportunamente, em duas edições sucessivas, o documento (fundamentação e questionário) preparado pelo Secretariado do Sínodo dos Bispos com vista à preparação da assembleia episcopal agendada para o outono de 2014 e que a família como tema central. Os que quiseram puderam enviar as suas respostas. Para um breve balanço sobre esta consulta, na nossa diocese, fomos ao encontro do responsável pela recepção e tratamento das respostas, Padre João Carlos Costa Morgado.

Como caracteriza a participação dos diocesanos de Lamego nesta iniciativa?

A participação foi boa. Recebemos cerca de 130 inquéritos. Desses uma grande parte foi preenchida em grupos paroquiais e movimentos e uma porção ainda significativa preencheu o inquérito, que foi disponibilizado online, e enviaram directamente para a Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa. Assim, tendo em conta a nossa realidade sociocultural e demográfica, penso que temos uma participação que nos permite uma boa amostra do sentir diocesano sobre esta temática.

As respostas recebidas foram provenientes de pessoas singulares, famílias, grupos, movimentos ou até de gente que anda longe da Igreja…?

Tivemos de tudo. Como já referi atrás, uma percentagem significativa das respostas vieram de reflexão de grupos, sobretudo paroquiais e movimentos – perto de metade. Os outros vieram de pessoas singulares que pelas respostas que deram mostram ser de contextos sociais, etários e eclesiais muito diferentes. Há respostas que revelam virem de gente bastante afastada da Igreja e do seu magistério. Penso que foi importante essas pessoas terem voz e as suas reflexões foram, naturalmente, tidas em conta.

Pessoas que fomos ouvindo referiram a grande dificuldade de algumas questões, bem como a quantidade. Que comentários pode fazer sobre isso, a partir dos ecos que foram chegando?

Esses ecos chegaram-nos por telefone, por email, pessoalmente e mesmo nas respostas que as pessoas deram ao inquérito. Alguns sugeriram que transmitíssemos “a quem de direito” para, no futuro, fazerem um inquérito mais simples e menos extenso.

Foi por causa dessas “queixas” que a diocese possibilitou o preenchimento de dois formulários: o que foi enviado por Roma, a ser preenchido por extenso, e o que a Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa disponibilizou online na internet. Este último tinha a vantagem de ser de mais fácil preenchimento, mas mais “fechado” em termos de respostas. Felizmente recebemos respostas nas duas modalidades, o que permitiu uma leitura mais precisa sobre o sentir das pessoas. Um completou o outro.

A nossa diocese, nas suas estruturas, empenhou-se por analisar e responder ou não está preparada para este tipo de trabalho em pouco tempo?

Estamos muito gratos ao empenho de muita gente: sacerdotes, paróquias, movimentos e fiéis leigos, pelo esforço que fizeram. De facto foi uma corrida contra o tempo, mas foi um trabalho em equipa. Os seminaristas do ano pastoral fizeram a recolha estatística dos inquéritos onlinede que resultou um documento único. Esse documento foi analisado, em conjunto com os inquéritos por extenso, pelo Cónego José Manuel Melo, pelo Pe. Paulo Alves e por mim. Cada um produziu um relatório,que confrontamos em reunião, e desses relatórios resultou o relatório final, que ficou concluído e foi apresentado ao Sr. D. António Couto, a 30 de Dezembro e foi depois enviado para a CEP.

Qual o procedimento a ter agora com as respostas que chegaram?

Penso que elas constituem um bom instrumento de trabalho para a Pastoral Familiar, para a Pastoral da Evangelização e deverá ser dado a conhecer a todas as Comissões e Departamentos diocesanos.

Como elas nos transmitem muito do que é a nossa realidade diocesana – e mesmo nacional- será mais fácil a programação e implementação de uma pastoral que vá preferentemente de encontro às reais necessidades das pessoas. Ajuda-nos a estabelecer prioridades e, diria mesmo, urgências de actuação.

Que comentário final, genérico, lhe merecem as respostas enviadas, ao nível do conteúdo?

Revelam em primeiro lugar que há, ainda, um longo e persistente trabalho a fazer no campo da formação. Os documentos do magistério em geral e sobre a família, neste caso particular, são praticamente desconhecidos pela maioria da nossa gente. Depois constata-se que a família cada vez se demite mais da sua missão, tendendo a remeter a formação ética para a Escola e a transmissão da fé para a Paróquia.

Globalmente as pessoas queixam-se da crise económica, da falta de tempo, dos meios de comunicação social, como obstáculos para uma melhor vivência do modelo cristão de família.

Em relação aos novos modelos de família, as pessoas tendem a ter uma atitude cada vez mais compreensiva. Embora se reconheça o mal, é reclamada, pela quase totalidade, uma postura, por parte da Igreja, de acolhimento, de não descriminação e de atenção pastoral a estes casos.