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Posts Tagged ‘Sinodalidade’

Editorial Voz de Lamego: E da discussão nasce a luz

Em diferentes ocasiões, o Papa Francisco tem proposto a cultura do encontro, que passa, obviamente, pela cultura do diálogo. Nesta época de globalização, tornamo-nos vizinhos, mas longe estamos de ser irmãos. Corremos o sério risco de nos ligarmos a todo o mundo, mas sem nenhuma ligação que nos humanize e irmane, nos responsabilize pelos que vivem à nossa beira, quanto mais pelos que estão longe da vista e do coração. A pandemia fez-nos chegar mais longe, ver mais coisas e mais pessoas, mas parece que em definitivo nos separou da vida, dos cheiros e dos sabores, dos sofrimentos e necessidades dos outros!

À fraternidade desejada contrapõe-se a globalização da indiferença. Em tempo real, vemos as desgraças que se espalham pelo mundo fora, a miséria, os conflitos familiares, intergeracionais, a corrupção, a guerra, a ameaça, o terrorismo, a violência extrema. O nosso olhar, e sobretudo o nosso coração, habitua-se a estas situações, algumas macabras, mas que já não têm a força de nos chocar. É como quem vive perto da Igreja… por mais alto que o sino toque já não desperta. O cérebro acostuma-se aos odores, aos sons, às imagens! E adormece!

Contra a indiferença, apontando para Jesus Cristo, o Papa propõe a fraternidade. Em Cristo, reconhecemo-nos como irmãos, tendo um mesmo Pai que a todos ama como filhos. A referência constante há de ser Jesus que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos. A Sua opção preferencial é pelos mais pobres da sociedade, os excluídos social, cultural e até religiosamente. A pandemia acrescentou pobreza à existente, em sociedades desenvolvidas, mas empobrecendo os países mais pobres. Pelo menos ficou em maior evidência a pobreza e a miséria para responder a esta catástrofe. Exemplo disso é o número reduzido de vacinação anticovid nos países terceiro-mundistas.

Como sublinhou o Papa Francisco, no 5.º Dia Mundial dos Pobres, “a humanidade progride, a humanidade desenvolve-se, mas os pobres estão sempre connosco, há sempre pobres e neles está presente Cristo”.

Não há tempos favoráveis, todo o tempo pode ser abençoado e oportunidade de empenho na transformação do mundo e das estruturas existentes para as colocar ao serviço de todos, mas especialmente dos que vivem nas periferias. Também a Igreja é chamada a esta conversão permanente. Um fazer-se que demora o tempo de uma vida, de cada vida, da vida de todos nós!

O adágio popular que intitula esta reflexão é uma interpelação constante na Igreja e à Igreja, mas de forma mais concreta nas diferentes fases do Sínodo dos Bispos, 2021-2023, que visa aprofundar a sinodalidade da Igreja, auscultando, discutindo, acolhendo propostas. A ideia não é apresentar um documento final irrepreensível, mas colocar os cristãos a refletir formas de participar mais ativamente na vida da Igreja, tornando-nos a todos mais corresponsáveis, em missão, partilhando das preocupações e dos anseios do Evangelho para este tempo. Como dizia uma santa senhora, na paróquia de Tabuaço, em Igreja importa mais que muitos façam pouco do que poucos façam muito ou façam tudo. É importante que todos se sintam responsáveis, chamados e enviados.

Este é mais um tempo favorável à discussão, enformada pela luz que vem do Pai, que nos traz Jesus, e que se expande no tempo por ação do Espírito Santo que sopra onde quer… e naqueles que Lhe permitem a inspiração! Tempo de diálogo e de escuta, não para diluir a verdade ou as convicções, mas para nos abrirmos aos outros. Três ações que se interligam, segundo o Papa Francisco: encontrar, porque o encontro muda a vida; escutar as perguntas, as preocupações, as esperanças de cada Igreja; discernir o que Deus quer dizer à Igreja e qual a direção para onde Ele nos quer conduzir.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/02, n.º 4633, 17 de novembro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Levantai-vos! Vamos! Caminhemos juntos!

O tema escolhido pelo nosso Bispo e proposto a toda a Diocese de Lamego – Levantai-vos! Vamos! (Mt 26, 46) – coloca-nos em pleno mistério pascal. Depois da Ceia, no Jardim das Oliveiras, Jesus ora, uma e outra vez, para que Se faça a vontade do Pai, apesar do sofrimento que se entrevê, aquela hora tenebrosa que se vislumbra e que Ele sente na pele, no corpo, na alma. Os discípulos adormecem. É noite! Jesus desperta-os, uma e outra vez, e finalmente chama-os.

Ele está com eles, Ele está sempre connosco. Não estamos sós, não caminhamos sozinhos. O chamamento é claro: Levantai-vos! Vamos. Mesmo quando Jesus nos diz: Ide, é um “ide” em que Ele vai connosco. Ide, eu estarei convosco até ao fim dos tempos!

Após a ressurreição, ainda não inteiramente anunciada, no caminho de Emaús, Jesus faz-Se ouvir e faz-Se ver. Iam dois discípulos, desanimados, cabisbaixos, quase a murmurar, desencantados com o que tinha sucedido naqueles dias. Jesus aproximou-Se deles e pôs-Se com eles a caminho. Perceber-se-á que Ele é o caminho. Eles regressavam para se refugiar em casa; Jesus anuncia-Se, caminha com eles, entra com eles em casa e senta-Se com eles à mesa e, depois da bênção e da distribuição do pão, deixam de O ver. (cf. Lc 24, 13-35). Quando deixam de O ver, exteriormente, já Jesus os habita interiormente! Já não necessitam dos olhos físicos, mas do coração e, por conseguinte, a noite deixa de amedrontar, pois logo se levantam e regressam a Jerusalém, à comunidade dos discípulos.

Um Plano Pastoral aponta metas e vivências, faz-nos assentar os pés no chão para que aos ideais juntemos momentos, instantes, celebrações, encontros, tempos de oração e de reflexão, de formação e convívio. Não é possível traduzir a vida, o amor, se não por gestos, abraços, comunicação, sorrisos, pelas lágrimas e pelas palavras, na entreajuda, na prática das obras de misericórdia (corporais e espirituais), no respirar das bem-aventuranças, na atualização concreta dos Dez Mandamentos, sintetizados e explicitados no mandamento novo do amor: amais-vos uns aos outros como Eu vos amei.

A Diocese não é uma ilha, como o não são as paróquias, os movimentos, as associações, departamentos, serviços ou comissões. Estamos inseridos num país, a Igreja em Portugal, e no mundo, a Igreja Universal, procurando que haja valores, princípios, orientações e até linhas programáticas comuns. A este propósito vale a pena relembrar que estamos em Sínodo, convocado pelo Papa Francisco e inaugurado no fim de semana de 9 e 10 de outubro, no Vaticano, e na maioria das dioceses do mundo, no dia 17 de outubro.

O Sínodo dos Bispos 2021-2023 é um caminho que nos convida a todos, na escuta e no diálogo, na oração e na reflexão, para que, chegados a outubro de 2023, o caminho que percorremos em conjunto, com as dúvidas e interrogações levantadas, com as propostas e orientações sugeridas, possam ser debatidas, para que: o que a todos diz respeito seja por todos rezado e refletido. O tema do Sínodo: “Por uma Igreja Sinodal, comunhão, participação, missão”. Concluía o Pe. Diamantino Alvaíde, na admonição inicial, na Eucaristia de abertura do Sínodo, na Sé de Lamego: “Para uma Igreja sinodal: o Papa Francisco conta com a nossa comunhão; a Igreja espera a nossa participação, e Deus pede a nossa missão”.

No ano de 2023, realizar-se-ão as Jornadas Mundiais da Juventude, em Portugal, com o centro em Lisboa. O lema escolhido pelo Papa: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39) está, de algum modo presente no lema pastoral da nossa diocese. Por sua vez, o Movimento da Mensagem de Fátima servir-se-á de um lema semelhante: “Levanta-te! És testemunha do que viste!”

Levantemo-nos! Vamos! Jesus vai connosco!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/48, n.º 4630, 27 de outubro de 2021

Editorial Voz de Lamego: Igreja em sínodo, Igreja à escuta

No passado sábado, 9 de outubro, o Papa Francisco deu início à XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O sublinhado do Papa Francisco: “As assembleias do Sínodo revelaram-se um instrumento válido para o conhecimento recíproco entre os bispos, a oração comum, o confronto leal, aprofundamento da doutrina cristã, reforma das estruturas eclesiásticas, promoção da atividade pastoral em todo o mundo”.

Durante o seu pontificado realizaram-se duas assembleias sinodais sobre a Família (2014 e 2015), uma assembleia dedicada aos jovens (2018) e um sínodo especial para a Amazónia (2019), e agora sobre a sinodalidade da Igreja.

Vale a pena reler algumas passagens da reflexão do Papa na abertura do Sínodo.

Três palavras chaves: comunhão, participação, missão. “Comunhão e missão são expressões teológicas que designam – e é bom recordá-lo – o mistério da Igreja. O Concílio Vaticano II esclareceu que a comunhão exprime a própria natureza da Igreja e, ao mesmo tempo, afirmou que a Igreja recebeu «a missão de anunciar e instaurar o reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra» (Lumen gentium, 5)… a terceira palavra: participação. Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos meio abstratos, se não se cultiva uma práxis eclesial que se exprima em ações concretas de sinodalidade em cada etapa do caminho e da atividade, promovendo o efetivo envolvimento de todos e cada um”.

Três riscos: formalismo, intelectualismo, imobilismo. “O primeiro é o risco do formalismo. Pode-se reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela… Porque às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar…Um segundo risco é o do intelectualismo (da abstração, a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro): transformar o Sínodo numa espécie de grupo de estudo, com intervenções cultas mas alheias aos problemas da Igreja e aos males do mundo; uma espécie de «falar por falar», onde se pensa de maneira superficial e mundana, alheando-se da realidade do santo Povo de Deus… Por fim, pode haver a tentação do imobilismo: dado que «se fez sempre assim» – esta afirmação “fez-se sempre assim” é um veneno na vida da Igreja –, é melhor não mudar. O risco é que, no fim, se adotem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16). Por isso, é importante que o caminho sinodal seja verdadeiramente tal, que seja um processo em desenvolvimento; envolva, em diferentes fases e a partir da base, as Igrejas locais, num trabalho apaixonado e encarnado, que imprima um estilo de comunhão e participação orientado para a missão”.

Três oportunidades. “A primeira é encaminhar-nos para uma Igreja sinodal (1): um lugar aberto, onde todos se sintam em casa e possam participar. Depois o Sínodo oferece-nos a oportunidade de nos tornarmos Igreja da escuta (2): fazer uma pausa dos nossos ritmos, controlar as nossas ânsias pastorais para pararmos a escutar. Escutar o Espírito na adoração e na oração…. uma Igreja da proximidade. O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Deus sempre agiu assim. Se não chegarmos a esta Igreja da proximidade com atitudes de compaixão e ternura, não seremos Igreja do Senhor… uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações dilacerados com o bálsamo de Deus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/46, n.º 4628, 13 de outubro de 2021