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Grupo de Jovens de Tabuaço foi ao cinema… ver o Silêncio

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Nestes últimos tempos temos ouvido falar sobre o filme o “SILÊNCIO”

Trata-se de um filme, baseado no romance de Shusaku Endo, católico japonês, que narra a história de dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues e Francisco Garpe, que como missionários vão para o Japão. Têm como missão descobrir o paradeiro de um outro padre, Cristóvão Ferreira, que depois de torturado, terá renegado a sua fé.

Por tudo o que nos vinha chegando, parecia ser um filme que nos colocava várias questões, relativamente às dúvidas de fé, às de fidelidade, ao silêncio de Deus…

Sentindo o desafio de nos questionarmos, o Grupo de Jovens da nossa paróquia foi, no passado sábado, 11 de fevereiro, ver o filme. Depois de nos acomodarmos confortavelmente nas cadeiras da sala, não esquecendo as pipocas, lá começamos a vê-lo.

Com o decorrer do filme vai-se instalando o suspense entre todos. Algumas das cenas vividas despertam-nos para realidades muito presentes, como a perseguição aos cristãos!

No final ficamos todos um pouco baralhados. A necessidade de refletirmos sobre o que vimos era evidente. Esse era o objetivo! Interpelarmo-nos sobre o que sentimos e, de certa forma, identificar, nas nossas vidas, situações semelhantes, de dúvida, hesitação, interrogação do silêncio de Deus.

Brevemente, numa próxima reunião do grupo, teremos um tempo de reflexão sobre o que vimos e sentimos. Acredito que todos sairemos mais fortalecidos na fé e no amor a Deus!

Graça Ferraz, Grupo de Jovens de Tabuaço

in Voz de Lamego, ano 87/14, n.º 4399, 14 de fevereiro de 2017

“Silêncio” – filme de Martin Scorsese

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O filme “Silêncio” do realizador Martin Scorsese encontra-se nos nossos cinemas desde o dia 19 deste mês e tem sido propício para diversas discussões, uma vez que representa muito bem um grande marco da nossa história do séc. XVII: a perseguição aos Cristãos do Japão. Como bem sabemos, esta foi uma época bastante conturbada para o Cristianismo, repleta de perseguições, torturas e mortes.

Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe são dois sacerdotes jesuítas que partem para o Japão à procura do seu mestre Cristóvão Ferreira, tendo perfeita consciência dos grandes riscos que corriam. Já no Japão estes sacerdotes procuram, antes de mais, auxiliar os cristãos naquilo de que mais necessitavam, levando-lhes os sacramentos do Batismo, da Eucaristia e da Reconciliação. Por um lado, os cristãos sentiam-se reconfortados pela presença destes dois sacerdotes nas suas comunidades, pois iam percebendo que Deus não os abandonara, que o “Silêncio” de Deus, agora tornara-se presença. Mas, por outro lado, o medo se serem presos estava sempre presente nas suas vidas. Ler mais…

Do «SILÊNCIO» à palavra

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Fui interpelado para uma palavra sobre o «SILÊNCIO», o romance de Shusaku Endo, que serve de base e oferece o argumento para o filme com o mesmo nome (em português) de Martin Scorcese, que esta semana vai aparecer nas salas de cinema em Portugal e que está anunciado para o dia 17 de Fevereiro, em Lamego; assim se pode ler no prospecto do «Ribeiro Conceição» com a simples palavra SILÊNCIO.

Fui interpelado, porque li o livro, depois de ter participado no retiro espiritual do clero lamecense, orientado por um sacerdote que esteve no Japão, de ouvir alguma coisa sobre o seu conselho – pela primeira vez ouvido num retiro espiritual – «lede romances, mas bons»; ele achava, e com razão, que o livro de Shusaku Endo é um bom romance, com uma base histórica, missionária de inspiração católica, onde o nome de Portugal se lê várias vezes, onde os três personagens/protagonistas do livro eram portugueses, se bem que dois deles sejam figuras criadas pelo autor e, como tal, não se pode dizer que sejam daqui ou dali. E refiro, aqui, a palavra escrita e que define Shusaku Endo: ele é católico, não me admirando a mim que ele tenha escrito este romance baseado numa acção tão querida à Igreja: a evangelização, neste caso do Japão, dando seguimento à palavra de Cristo, o «Mestre dos Mestres» como o define outro escritor, hoje muito lido. A palavra é esta: «ide e ensinai…» Ler mais…

A simplicidade na oração em Taizé

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Em Taizé, três vezes por dia interrompem-se as diferentes atividades que ocupam os jovens: o trabalho, as reflexões bíblicas, as partilhas em pequenos grupos, o convívio. Os sinos chamam para a oração. Centenas, por vezes milhares de jovens dos mais diversos países dirigem-se à igreja e juntam-se aos irmãos da nossa Comunidade para rezar juntos.

Cânticos curtos, várias vezes repetidos, que procuram dizer em poucas palavras uma realidade fundamental facilmente assimilável. Depois, a leitura bíblica é feita em várias línguas. No centro de cada oração, o silêncio de alguns minutos é um momento único de encontro pessoal com Deus

Entre irmãos, ficamos frequentemente surpreendidos ao ver como os jovens participam nestas orações e depois as prologam ao serão, por vezes durante várias horas, em silêncio ou apoiados pelos cânticos meditativos. E os próprios jovens dizem-se muitas vezes espantados ao constatar o tempo que passam em oração em Taizé! Quando perguntamos aos grupos que encontramos no final de uma semana em Taizé o que mais os marcou, é raro a resposta não mencionar a oração.

Muitos dos que visitam a nossa colina dizem que em Taizé «se sentem em casa», que é como um porto seguro onde podem vir mesmo em momentos agitados. É impressionante ouvir estas mesmas expressões na boca de uma jovem professora lituana, de um jovem desempregado espanhol, de uma alemã estudante de teologia luterana, de uma estudante de enfermagem na Ucrânia ou de um informático húngaro. Ou ainda na boca de jovens africanos, latino-americanos e asiáticos que vêm a Taizé enviados pelas suas Igrejas, para passar três meses como voluntários durante o Verão

Será que podemos concluir que em Taizé nos esforçamos para nos adaptar aos jovens? Talvez, em certo sentido. Durante toda a sua vida, o irmão Roger procurou acolher e compreender aquilo que podia impedir alguém de confiar em Deus. Um dos primeiros irmãos da Comunidade, o irmão François, escreveu um artigo pouco depois da morte do irmão Roger onde dizia:

«O irmão Roger procurou sempre pôr-se no lugar dos jovens. O seu temperamento ajudava-o nesse sentido. Ele sentia e compreendia as coisas como eles. Ele pressentia facilmente o que era incompreensível para os jovens. (…) Ao ouvir o irmão Roger falar aos jovens, eu pensava muitas vezes na atitude missionária de São Paulo. Nas suas cartas, São Paulo adaptava o vocabulário aos destinatários, que eram extremamente diferentes uns dos outros, e integrava algumas expressões deles, com a única preocupação de poder ser compreendido. Uma elasticidade de espírito destas não é um sinal de fraqueza ou de temperamento versátil. Provém do facto do essencial ser mais firme do que tudo o resto.» («La Croix», 2 de Setembro de 2005.

No entanto, o irmão Roger não costumava falar em querer adaptar-se. Falava de simplificar. Muitas pessoas diziam que ele tinha uma linguagem que passava bem junto dos jovens. Mas ele não falava como eles. Nos seus textos, encontramos constantemente palavras bíblicas como «misericórdia», «compaixão», «comunhão»… Palavras que até parecem pouco acessíveis aos jovens. Apesar disso, surpreendentemente, na boca do irmão Roger, com as suas frases simples, os jovens não se assustavam com este tipo de vocabulário. No fundo, o irmão Roger conseguia dizer-lhes com simplicidade alguns aspectos exigentes da Fé cristã. Um pouco como nas parábolas do Evangelho, ele adaptava-se sem se adaptar. Falar com parábolas não é dizer tudo, mas deixar antever que há algo para aprofundar. Desta forma, sem compreenderem sempre tudo, os jovens percebem que há caminho a percorrer e algo mais a descobrir. É uma linguagem que não os desconcerta, mas que deixar espaço para avançar.

O irmão Roger procurava continuamente simplificar, tanto a forma de viver como a forma de se expressar. O melhor exemplo desse desejo de simplificação é talvez a nossa oração comunitária. Também nessa área, o irmão Roger deu um salto gigante: transformou pacientemente a oração, deixando de lado elementos que não são essenciais e que criam bloqueios inúteis. E tentou colocar nela tudo o que uma pessoa dos nossos tempos lá procura para aprofundar a confiança em Deus. Tornou contemplativa a própria oração comunitária.

A nossa forma de rezar, com cânticos simples e meditativos, teve a sua origem na vontade de tornar uma experiência interior acessível aos grandes números de jovens que nos visitam. Não que tudo tenha sido adaptado para a juventude. Os cânticos de Taizé não são propriamente feitos com músicas que se possam dizer «jovens». São cânticos profundamente enraizados na tradição contemplativa: através da letra, que vem frequentemente dos Salmos, da longa tradição de oração cantada que começou nas primeiras assembleias de Israel; e através do seu carácter meditativo e mesmo repetitivo. No fundo, no início a Comunidade cantava Salmos e hoje continua a fazer isso mesmo. Mas em vez de cantar todo o Salmo, ficamos só com um versículo, que meditamos juntos, deixando-o ecoar em nós e encontrar experiências que podem ser iluminadas.

Por isso não se trata verdadeiramente de uma adaptação, é preciso ir mais longe. O que toca os jovens em Taizé talvez seja o facto deles perceberem que nos esforçamos por tornar o mais simples possível a expressão da Fé, sem no entanto a nivelarmos ou a adocicarmos. Eles sentem, por vezes de forma emotiva e atingidos no mais profundo de si mesmos, que a oração que lhes é proposta não é a tradução na linguagem deles de uma realidade que lhes é estrangeira. É antes um convite a viver uma procura que os faz avançar e que, pondo na boca deles palavras de outros tempos, os obriga suavemente a saírem de si mesmos, libertando-os para novos horizontes.

Talvez os jovens sintam que, como Comunidade, ao termos em conta na liturgia a presença deles, procuramos alargar a nossa própria estrada, alargando a todos a intimidade que desejamos viver em Deus.

Para terminar, sublinho ainda dois aspetos da simplicidade que talvez ajudem a nossa oração a ser acessível, atraente e acolhedora para muitos jovens. Por um lado, ela não esmaga caminhos de Fé que podem ser muito tímidos e revelam até uma certa fragilidade. Por outro, centrando-se naquilo que é essencial, ela permite dar lugar à diversidade na expressão da Fé sem que cada detalhe seja motivo de discórdia. Hoje, para muitos jovens, a procura de unidade na diversidade não pode ser descuidada.

Irmão David, da Comunidade de Taizé, in Voz de Lamego, ano 85/39, n.º 4326, 25 de agosto