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Cuidar de idosos não é um trabalho… é uma prova de amor à vida

SILÊNCIO é a palavra que não deve existir quando se tem conhecimento de um idoso ser maltratado, seja de forma verbal ou física. É vergonhoso que num país como o nosso, com uma população tão envelhecida, se oiçam histórias em lares que já se ouviam há 40 anos atrás.
RESPEITO é o mínimo que se exige para quem passa o dia a trabalhar com um idoso.  Se conhece algum caso, POR FAVOR, DENUNCIE! Porque quem cala, consente. 

EDUCAÇÃO NUM LAR significa dizer bom dia e boa tarde, sempre, depois de bater à porta do quarto dos utentes. Ter a roupa preparada para o dia seguinte, com cores a combinar, porque a autoestima no idoso também existe.  Não é entrar por ali a dentro como se fosse o quintal de casa. Perguntar o que gostava de vestir, se posso levantá-lo e se permite que lhe faça a higiene, explicando, sempre, o que se está a fazer… Mais, NUNCA falar em tons agressivos ou a imitar desenhos animados, pois idoso não é bebé e odeia ser tratado como tal. Dar comida a uma pessoa na velhice não é enfiar as colheradas goela a baixo, é servir o utente com a maior dignidade. “Não fazer aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti”. Água, mais do que comida, é de extrema importância para todos nós. Não se pode deixar desidratar. A substituição de água e chá devem ter horários e à noite não pode faltar! Carinho é uma coisa que se dá, mais do que com palavras, através de gestos. Mudar uma fralda ou ajudar na casa de banho não pode ser VIOLAR a privacidade, é aconchegar, fazer tudo com o máximo de cuidado e atenção, tapando as partes íntimas sempre que possível e não comprometer a estabilidade da pessoa que por si só já pensa que “dantes fazia isto sozinha, agora já não consigo”. Basta imaginar, como se VAI SENTIR no futuro quando lá chegar?

Formação e vocação, assim como um enfermeiro, um professor, um bombeiro, os profissionais dos lares que cuidam, diretamente, os seus utentes devem ter formação adequada e, acima de tudo, vocação por esta profissão que é desgastante e cansativa, mas muito compensadora para os que têm um bom coração.

VERDADE, ao verem as imagens do “Sexta às 9” imaginem como se sente a esposa daquele senhor que é maltratado, diariamente? MEDO é a palavra que define o coração daquela esposa, que passou uma vida a dois sem nunca imaginar que as frustrações das funcionárias do “lar”, para onde iriam no fim do seu ciclo de vida, fazer atos tão horrendos ao pai dos seus filhos.

DIGNIDADE até à morte. É um ato CRIMINOSO não conceder a todos os utentes de um lar, com ou sem demência, com ou sem problemas físicos, com ou sem família, a maior dignidade, enquanto humanos e pessoas que escreveram a história deste país.

Na escola que eu frequentei ensinaram-nos a dar a mão a um idoso na hora da morte, para que nem nesse momento não se sentisse sozinho e o medo do incerto não lhe atormentasse o coração. Palavras doces todos temos, vocação para algumas tarefas NÃO.

TRABALHAR POR DINHEIRO NÃO CHEGA.

Andreia Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Inúteis servos, fizemos o que devíamos

Na apresentação do seu novo livro, o nosso Bispo, D. António Couto, expôs um contraponto do “outro” que sou interpelado a acolher, a reconhecer, a servir, pois no rosto do outro irrompe o Outro. Alguém com uma arma que suscita medo e me obriga a servi-lo não é um senhor, um “outro”, é um tirano. Um pobre que me estende a mão, obriga-me a debruçar-me sobre ele, mas esse é o verdadeiro “senhor” a quem sirvo, de quem sinto compaixão, que irrompe na minha vida e suscita o meu olhar e me liberta do meu egoísmo.

A postura de Jesus encaminha-nos para o pobre. Jesus faz-Se caminho para nós e nesse caminho aponta as prioridades e as opções. Há oito dias, víamos, seguindo as reflexões do Pe. Luigi Epicoco, que Deus pede-nos que ocupemos o último lugar porque somos filhos, não se pediria isso a um hóspede. Tratamos o hóspede o melhor possível, como filhos do dono da casa, como donos na casa, podemos abdicar do que nos pertence precisamente porque podemos e queremos fazê-lo.

Voltamos a inspirar-nos no texto de Epicoco que nos desafia a descentrar-nos de nós, para cuidarmos, para amarmos e servirmos o outro. Quem está demasiado preocupado consigo não tem tempo, nem disposição, nem disponibilidade para o outro. “Quem é inseguro (em sentido patológico) não se entrega, porque está demasiado ocupado a tratar de si próprio, a tratar de sobreviver a todo o custo. Este não é o cuidado de quem ama, são os cuidados de quem, apenas, sobrevive, de quem não consegue viver as relações com os outros senão na medida em que lhe interessam”.

Uma das figuras que melhor exemplifica este descentramento é São José. Vale a pena deixar-nos guiar pelas palavras de Epicoco: “Hoje em dia faltam pessoas que saibam viver como São José, pessoas capazes de cuidar do mundo, de o guardar e de o amar, como um pai ama o filho, tornando-o livre e não dependente. Se tivéssemos de arranjar uma referência sã para sermos cristãos, ela seria José de Nazaré, um homem silencioso e criativo. É um homem concreto que encontra soluções… e depois afastou-se, após cumprir o seu dever… agir e desaparecer. Não o desaparecer de quem, depois, se entristece por ninguém ter reconhecido o seu trabalho, mas de quem não precisa de nada e, por isso, se vê como inútil, isto é, não precisa de lucro, não procura o lucro. Não deveríamos procurar a gratidão dos outros, deveríamos experimentar uma profunda alegria em nos afastarmos, em nos sentirmos verdadeiramente inúteis. «Inúteis», no Evangelho, significa sentirmo-nos tão amados e valiosos ao ponto de não termos de procurar outro ganho. Neste sentido, dizemos «inútil»: não no sentido de não valermos nada, mas que valemos tanto e nos sentimos tão cheios deste valor que não precisamos de procurar mais nada para nos satisfazer ou que nos digam que temos valor. Este motivo pelo qual nos podemos permitir ser inúteis”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/10, n.º 4545, 4 de fevereiro de 2020

Editorial Voz de Lamego: Só os filhos têm direito ao último lugar

Precisamos de nos descentrar de nós e, como cristãos, colocar Cristo ao centro. É a divisa do Papa Bento XVI. Uma Igreja autorreferencial não cumpre a sua missão, terá de ser uma Igreja lunar e, como a Lua reflete a luz do Sol, refletir Jesus Cristo, saindo para as periferias. É a divisa do Papa Francisco.

Seguir Jesus Cristo implica que O imitemos e como Ele nos gastemos pelos outros. Amar a Deus faz-nos irmãos. A vida eterna não se inicia quando morrermos, mas agora. Diz-nos o Pe. Luigi Epicoco (ver a sugestão de leitura desta semana): “Esquecemos que Jesus, que é Filho de Deus, veio a este mundo, fez-Se carne, encheu-o com a Sua presença, santificou, transformou em possibilidade cada fragmento desta nossa vida”.

Se Jesus Cristo encarnou, também nós temos de encarnar. “O irmão, o seu rosto, o seu corpo, a sua história, história de homem, história imperfeita, história de luz e trevas, é rosto, corpo e história para os quais as nossas mãos se estendem, mãos estendidas para o próprio Cristo”.

Uma das doenças do nosso tempo é o egocentrismo. Tornamo-nos o centro de tudo. Fazemos de nós próprios um absoluto. “Neste egocentrismo tudo é insatisfação… é um vazio que nunca se consegue preencher, é o vazio de quem se concentra em si próprio, de quem se tomou por absoluto”.

Existe também o risco de um descentramento negativo: “anular-se de tal maneira que deixa de ter um personalidade… começamos a pensar que não merecemos nada, que nada nos é lícito, que não temos o direito a sermos felizes, que só erramos, que nunca encontraremos o amor, que, por mais que desejemos a felicidade, não é para nós… Essas pessoas confundem a religião com frustração, a humildade com o humilhar-se. Escolher o último lugar não é sentir-se em último lugar. Significa reconhecermo-nos como filhos, ao ponto de nos podermos sentar em último lugar sem nos sentirmos diminuídos na nossa dignidade de filhos. Somos tão donos da casa que nos podemos sentar no último lugar porque, habitualmente, o dono trata sempre melhor o hóspede e escolhe para si o que resta. Fá-lo não por servilismo, mas porque esse é o estilo do dono da casa.

A humildade que nos ensina o Evangelho não é a humildade de quem tem uma baixa autoestima, mas de quem pensa de tal modo bem de si próprio que se reconhece filho do dono e, por isso mesmo, se pode levantar do primeiro lugar e sentar-se no último sem se sentir menos amado, mas antes profundamente amado. É porque tem intimidade connosco que Se permite mandar-nos levantar e sentarmo-nos no último lugar: não o faria com um hóspede ou com um estranho, para não o humilhar, com um filho sim. A nós, filhos, o Senhor solicita muitas coisas que aos olhos do mundo podem parecer sacrifícios, mas, na realidade, são apenas sinais da familiaridade profunda com que Deus nos ama e trata. É porque somos filhos que nos pede isto, pede-nos mais”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/09, n.º 4544, 28 de janeiro de 2020

COMUNHÃO E SERVIÇO | Editorial Voz de Lamego | 30 de maio

Pe. Joaquim Dionísio, Diretor da Voz de Lamego, no editorial desta semana convida-nos a olhar para o próximo ano pastoral acolhendo as vivências do ano pastoral ainda em curso mas que se encaminha para o final. O desafio, para lá de todas as iniciativas, é “verdadeiro espírito de comunhão no serviço da missão e do Evangelho”.

COMUNHÃO E SERVIÇO

O ano pastoral caminha para o fim e já se começa a olhar para o próximo, assumindo o desejo de preparar atempadamente uma nova etapa e de agrupar iniciativas e propostas diversas em torno de um tema comum.

Numa altura em que as festas, os convívios, os passeios e as férias marcam o ritmo das famílias, das comunidades paroquiais, dos grupos e movimentos, não será de excluir a oportunidade para se reflectir, a sós e em grupo, sobre o caminho percorrido e as vivências conseguidas. Sempre com vontade de perceber, sem saudosismo ou euforias, a situação em que se está e sem perder de vista o Senhor que convoca e provoca para diante.

Tais momentos proporcionarão a escuta do Espírito, o diálogo e a partilha de ideias e visões assentes em diferentes sensibilidades, bem como a possibilidade para se sublinharem forças e fraquezas da vida comunitária. Porque a Igreja é um corpo com muitos membros, um “nós” que estará sempre acima de um qualquer “eu”, por mais lúcido, culto ou santo que seja.

Ao olharmos para as realidades que dão corpo à nossa diocese, não podemos deixar de sublinhar o dinamismo das suas comunidades, uma riqueza para a Igreja, apesar do envelhecimento dos protagonistas e do esvaziamento dos lugares. A generosidade e a fé que animam o compromisso de tantos baptizados mais empenhados revelam a vontade de servir a missão.

Mas encontramos também desafios. Por exemplo, o individualismo que se tornou norma na sociedade, onde a emergência de expectativas e de reivindicações pessoais originam situações e dificuldades, sobretudo aos párocos.

Ainda dentro desta linha, enquanto diocese, talvez o grande desafio seja o de passar da adição de iniciativas e de expectativas para um verdadeiro espírito de comunhão no serviço da missão e do Evangelho. Como conseguir?

in Voz de Lamego, ano 87/29, n.º 4414, 30 de maio de 2017

SANTIDADE E SERVIÇO | Editorial Voz de Lamego | 30 de agosto

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O Jornal Diocesano, Voz de Lamego, regressa de férias e em vésperas da canonização de Madre Teresa de Calcutá, o nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, partindo do seu exemplo, para que nos procuremos ser santos. É uma vocação comum a todos, independentemente o estado de vida e/ou das circunstâncias pessoais, familiares, profissionais. Pequena e frágil, mas de uma grandeza humana e cristã inexcedível.

SANTIDADE E SERVIÇO

No próximo domingo, 04 de setembro, em Roma, o Papa presidirá à canonização de Madre Teresa de Calcutá (1910 – 1997) e a Igreja colocará, diante de todos, a figura frágil e discreta desta mulher, convidando à imitação do seu exemplo de vida e à confiança na sua intercessão junto do Senhor da Vida.

Cerimónias destas são comuns e sempre divulgadas, mas a contemporaneidade desta religiosa de origem albanesa (nasceu na Macedónia) faz a diferença, já que a sua fé, obra, testemunho e ensinamento marcaram a segunda metade do século passado.

Ao contrário de tantos santos que nos são temporalmente distantes, a proximidade da fundadora das Missionárias da Caridade (1950) motiva a uma maior atenção, graças também aos meios que registaram a sua fisionomia, guardaram a sua voz e divulgaram a sua acção.

Servir foi a sua divisa, destacando-se pelo serviço humilde aos “mais pobres entre os pobres”, aos que viviam em ruas esquecidas pelo poder ou em favor de gente socialmente irrelevante.

Teresa de Calcutá é exemplo quando ensina a acolher sem distinção ou quando serve sem esperar honras, mas também o é quando denuncia a falta de amor ao próximo e o egoísmo que impede de nascer ou quando desafia os poderosos a fazer diferente. E não deixa de ser grande quando, na opinião de alguns, tem desabafos que poderão evidenciar alguma dúvida. A Bíblia mostra-nos exemplos de crentes que, sem duvidarem da sua fé e de Deus, não deixaram de questionar-se diante do mistério da vida ou do aparente silêncio de Deus.

A santidade é transversal e pode ser atingida no silêncio orante de um mosteiro, nas ruas sujas de Calcutá existentes noutros países, à volta das panelas de uma cozinha ou num qualquer trabalho honesto.

Afinal, a santidade é fruto do serviço.

in Voz de Lamego, ano 86/40, n.º 4376, 30 de agosto de 2016

JUBILEU DA MISERICÓRDIA | VOLUNTARIADO

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No âmbito do Ano Jubilar em curso, em que a misericórdia é tema e contínuo é o convite à sua vivência, talvez seja oportuno deixar uma palavra sobre o voluntariado e expressar gratidão diante de tantos que o protagonizam, sem esperar publicidade ou homenagens públicas.

Falar de voluntariado é fazer referência a uma actividade própria do exercício de cidadania que se traduz numa relação solidária para com o próximo, participando, de forma livre e organizada, na solução dos problemas que afectam a sociedade em geral. Sob variadas formas, individualmente ou de forma organizada e articulada com outros, o voluntariado pode desenvolver-se através de projectos e programas de entidades públicas e privadas. Mas, ser voluntário, corresponde sempre a uma decisão livre, apoiada em motivações e opções pessoais.

Apesar do bem que assim é feito, a líder de um partido político português proferiu, há algumas semanas, palavras que desvalorizavam o voluntariado, quando afirmou tratar-se de “uma treta”. Talvez a ânsia de protagonismo e a distância do chamado “país real” justifiquem tais palavras, que se revelam injustas e ingratas para tantos e tantos que, discreta e eficientemente, dão algum do seu tempo e do seu saber, bem como algumas das suas forças e dos seus meios em favor do próximo, de instituições, associações ou grupos da comunidade. Talvez seja difícil para essa líder política perceber e aceitar que alguém se disponibilize para fazer o bem sem esperar outra recompensa imediata que não seja a alegria, o sorriso ou o bem-estar do outro, sobretudo o mais carenciado. É verdade que, às vezes, os grandes meios de comunicação dão mais destaque a uma esporádica campanha de recolha de lixo numa praia qualquer, mas há gente que, diariamente, se ocupa e preocupa em fazer o bem, voluntariamente.

A misericórdia, esse compadecer-se do outro para o dignificar e o ajudar a avançar, também precisa desse voluntariado para se concretizar, contribuindo para a alegria de quem dele beneficia e para a realização e satisfação pessoal de quem o protagoniza.

A Igreja não tem o monopólio da acção social, mas só um olhar muito distraído ou ideologicamente (de)formado não consegue ver o bem que é feito. E não será para angariar votos, ser notícia ou querer protagonismo. Também não será para promover um assistencialismo que gera dependências. A acção social de gente e instituições ligadas à Igreja é uma verdade e o trabalho voluntário de muitos dos seus membros merece outra atenção e outro tratamento.

Há pessoas que têm dificuldade em aceitar o facto de outros fazerem bem e melhor. A tentação para desvalorizar o esforço alheio deve ser vencida. Afinal, o voluntariado é muito mais vasto que o acto de colar cartazes em tempos de campanha ou andar em arruadas com bandeirinhas.

Os verdadeiros voluntários acreditam no que fazem, sabem distinguir a verdade das tontices e continuarão a dar o seu melhor, até porque “algumas vozes não chegam longe”.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/34, n.º 4370, 5 de julho de 2016

FRAGILIDADE HUMANA | Editorial Voz de Lamego | 5 de julho de 2016

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A edição desta semana da Voz de Lamego abre, a partir da primeira página, com a apresentação do novo livro do Pe. João António, Reitor do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, precisamente sobre este Santuário. Muitos outros temas podem ser encontrados na Voz de Lamego, notícias da diocese e da região, artigos de opinião, textos-reflexões. O Editorial, do Pe. Joaquim Dionísio lembra que o Evangelho nos remete para o dia-a-dia, no compromisso com a pessoa concreta que irrompe na minha e na tua vida.

FRAGILIDADE HUMANA

Trazemos connosco a ideia de que deveríamos ser diferentes, mais puros e mais santos. Mas a verdade é que estamos marcados pelo limite. E é importante compreender e aceitar a presença dos limites, das feridas, das zonas de sombra e promover uma certa reconciliação, porque só existimos enquanto limitados: no tempo, pelo corpo, no amor, pelos outros, pelo medo ou pelos vícios.

Às vezes pensamos que se fossemos diferentes, se tivéssemos outra inteligência, outro poder físico, si tivéssemos tido outra história, talvez outros pais, então sim, poderíamos…

Deus, ao contrário, joga com o que somos agora, neste momento. Intervém sempre na nossa situação concreta: onde reinam a desolação, os medos, as dúvidas paralisantes, as divisões de coração e as divisões entre as pessoas.

O Evangelho é uma escola de realismo que nos diz para nos aceitarmos nos nossos limites. Nós somos, também, as nossas imperfeições. E somos objecto do amor louco e único de Deus que, por sermos assim, vem visitar-nos e habitar-nos. A nossa imperfeição, a fragilidade do nosso carácter e da nossa história não são um impeditivo à acção de Deus em nós que se coloca na nossa história, caminha connosco, e volta a erguer a história a partir de dentro. Não como um mago que tudo conserta, mas um Pai que ama.

A religião tende a alcançar Deus com uma vida irrepreensível (fariseu); a fé é aperceber-se de um Deus que opera e se revela na nossa história ferida (publicano). No fundo, a fé é isto: crer que Deus está em nós.

E percebemos, então, que a nossa dignidade e a nossa grandeza não residem naquilo que fazemos ou naquilo que produzimos, dos aplausos ou do sucesso, mas exclusivamente do facto de que somos amados.

Se não nos sentirmos amados não iremos longe.

in Voz de Lamego, ano 86/34, n.º 4370, 5 de julho de 2016