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Editorial Voz de Lamego: A capa e a túnica

No Sermão da Montanha, que inicia com proclamação das bem-aventuranças, Jesus contrapõe à Lei de Talião (olho por olho, dente por dente… com o risco de nos tornarmos todos cegos e desdentados), que já provia a alguma equidade na justiça ou numa vingança mais equilibrada, a Lei do Amor. “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele durante duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado” (Mt 5, 39-42).

Na parte final do Evangelho, Jesus faz-nos refletir sobre o que será o juízo final, colocando-nos, não diante de uma ameaça catastrófica, mas desafiando-nos a viver bem, predispondo com generosidade dos nossos dons e talentos para colocarmos ao serviço dos irmãos. O reino de Deus, com efeito, inicia, não na hora da nossa morte, mas na vida presente, atual, histórica. O que havemos de ser já se há de vislumbrar na nossa vida temporal, ainda que só sejamos totalmente diante do olhar último e misericordioso de Deus que é Pai e mais Mãe.

«Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’» (Mt 25, 31-46).

No dia 11 de novembro, comemoramos um dos santos mais populares da Igreja, cujo gesto de dividir a sua capa com um mendigo, nos interpela à vivência do Evangelho da Caridade. São Martinho de Tours nasceu em 316, na cidade de Sabaria, Panónima, e era filho de um tribuno romano. Acompanha o pai para a cidade de Pavia e logo que atinge a idade de recrutamento, com quinze anos, entra para a armada romana, incorporando a guarda pessoal do imperador.

O regimento de Martinho desloca-se para a Gália, para Amiens, cenário da lenda da capa. Um inverno rigoroso. Num dia em que transpunha o portão da cidade, deparou com um pobre mendigo esfarrapado, a tiritar de frio. Vendo que ninguém o acudia, ele mesmo, com a espada, rasgou a sua capa militar e deu metade ao pobre mendigo. A capa militar pertencia ao exército, pelo que não podia ser vendida ou dada. O cortá-la a meio foi uma forma de dar (a sua parte, o que lhe pertencia) conservando uma parte que era posse militar. Os colegas de armas fizeram troça dele. Nessa noite, teve uma visão em que viu Jesus Cristo com a metade da capa vestida. Concluiu que foi a Cristo que deu a sua capa.

No dia seguinte, em nova visão, ouviu uma voz que lhe disse: “Cada vez que fizeres o bem ao mais pequeno dos meus irmãos é a mim que o fazes”. Uma e outra visão assentam no juízo final narrado por Jesus. Martinho passou a ver os cristãos com outros olhos. Converteu-se, fez-se batizar e, pelo seu zelo, viria a ser eleito para Bispo, preocupado em configurar-se a Cristo e a atender os mais pobres.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/01, n.º 4632, 10 de novembro de 2021