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Editorial da Voz de Lamego: sulcos de esperança

Para semear ou plantar alguma coisa é necessário criar sulcos, regos, rasgos na terra. Temos vindo a escutar, no Evangelho de domingo, parábolas que falam da semente lançada à terra e que encontra solos diversos, ou semente boa que resiste apesar do joio, ou o grão de mostarda, pequena semente que virá a tornar-se uma árvore grandiosa. Em todas as circunstâncias, Deus age, espera, usa de benevolência e de paciência.

O nosso Bispo, D. António Couto, em reunião promovida pela coordenação pastoral da Diocese, de que damos notícia nesta edição do jornal, ao tomar a palavra, referiu-se aos sulcos de esperança, lembrando que as sementes precisam desses sulcos para germinarem, crescerem e darem fruto. Estes tempos de pandemia são também tempos dos sulcos da esperança. Tempos marcados pela adversidade, mas nem por isso deixam de ser tempos de esperança. Teremos que, no meio da desgraça, encontrar a graça e a presença de Deus. Deus não está ausente. Haverá lugar ao esforço, sacrifício e até lágrimas, mas, simultaneamente, não deixemos de preencher os sulcos de esperança e de alegria.

No lema episcopal do nosso Bispo – Vejo um ramo de amendoeira – baseado numa passagem de Jeremias (1, 11-12), em que ele é interpelado por Deus a ver para lá do inverno, para lá dos tempos de agrura e de dificuldade, surge de algum modo a mesma perspetiva. Em pleno inverno, a amendoeira flori, resplandecente, apesar do frio, do tempo adverso para flores e frutos. Refere D. António: “A amendoeira é uma das poucas árvores que floresce em pleno inverno. Ao responder [ao Senhor]: «Vejo um ramo de amendoeira», Jeremias já ergueu os olhos da invernia e da tempestade e do lodo e da lama e da catástrofe e da morte que tinha pela frente, e já os fixou lá longe, ou aqui tão perto, na frágil-forte-vigilante flor da esperança que a amendoeira representa”.

Esta é a missão da Igreja, Bispo, padres e leigos, mostrar que os sulcos cavados na terra têm neles a semente da esperança, da alegria e da festa. Daí também, nesse contexto, a necessidade de não ficarmos à espera que passe a pandemia. Urge transparecer a esperança e a alegria e a certeza de que este também é tempo de Deus. A palavra de Deus é um oxímoro, um contraponto à realidade atual, um desafio, uma provocação. O tempo é diferente, novo, mas ainda assim desafiante, comprometendo-nos como “agentes” da pastoral da graça e da esperança. Temos que responder perante as comunidades, perante as pessoas que Deus coloca nas nossas vidas e que formam as nossas paróquias. A Diocese viveu e viverá em caminho e em comunhão, mas dará passos novos, com uma mensagem de esperança, de graça e de beleza, avançando! O surto pandémico é um sulco que envolve sofrimento e lágrimas, mas é também um sulco grávido da presença e do amor de Deus.

Os responsáveis nacionais da catequese já apresentaram Orientações para a catequese da infância e da adolescência (acessíveis na página da Diocese: www. diocese-lamego.pt) para o novo ano pastoral, com o envolvimento de todos, pais, crianças, catequistas, párocos, comunidade, prevendo a catequese presencial e digital, apelando também a que novos elementos se comprometam como catequistas. A diocese de Lamego, departamentos e paróquias, está também a tratar disso… para que o caminho e a comunhão nos façam descobrir o rosto e a identidade da Igreja.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/34, n.º 4569, 21 de julho de 2020

CRISTÃOS EFICIENTES | Editorial Voz de Lamego | 26 de agosto

vL_26_agostoCom o início das Festas dos Remédios, o destaque (de Capa) da Voz de Lamego não poderia deixar de se reportar à Romaria de Portugal, que, por estes dias, traz milhares de pessoas à cidade, vindas de Portugal inteiro, mas também muitos emigrantes e muitos turistas.

É apenas um dos muitos interesses que a VOZ DE LAMEGO nos apresenta, entre notícias, reflexões, sugestões. Aí está mais uma edição. Segue, como habitualmente o EDITORIAL do seu Diretor, ambientando-nos e convidando-nos a uma leitura mais demorada do jornal diocesano:

CRISTÃOS EFICIENTES

A palavra “eficiência” faz parte do habitual discurso que nos chega. Genericamente compreendemos que tal conceito nos recorda a importância de bem utilizar o que se tem para se obterem bons resultados a partir dos meios disponíveis.

Com efeito, um dos desejos do ser humano é ser eficiente no que faz, conseguindo resultados visíveis e satisfatórios nas tarefas assumidas. Não é por acaso que, em algumas circunstâncias, se estabelecem prémios para distinguir o cumprimento de determinados índices. E não é segredo para ninguém que a fixação de objectivos e respectivos prémios são motivadores.

No entanto, em ambiente eclesial, facilmente compreendemos que a “eficiência” seja difícil de conjugar quando falamos de evangelização. Porque, por maior que seja o entusiasmo do semeador, não sabemos qual o fruto que a semente dará. Não temos dúvidas da singular qualidade da semente, mas desconhecemos o seu desenvolvimento na seara onde cai. Porque isso é obra de Deus.

Mesmo assim, podemos manter parte do discurso sobre a eficiência na acção de evangelizar. Porque, se não podemos quantificar com objectividade o resultado de tal acção, podemos, ao menos, tê-la presente (eficiência) em tudo quanto deve acompanhar a missão evangelizadora: na forma diligente como se actua, nos meios que se utilizam, nas forças que se empenham ou no entusiasmo que se protagoniza. No fundo, trata-se de conjugar na primeira pessoa o tal “novo ardor” recomendado numa evangelização que se deseja sempre nova, vivida com fervor por todos os baptizados.

Porque este tempo precisa mais de testemunhas do que de mestres (Paulo VI), é possível ser eficiente na evangelização que se protagoniza, não só pelo que se possa ensinar ou contabilizar, mas sobretudo pela forma como se pode viver.

Pe. Joaquim Dionísio, VOZ DE LAMEGO, 26 de agosto de 2014, n.º 4277, ano 84/39