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AMOR MAIOR | Editorial Voz de Lamego | 22 de março

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Com o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, entramos na Semana Maior da nossa fé. O Pe. Joaquim Dionísio sublinha, em Editorial da Voz de Lamego, esta semana, este Amor Maior, porque Deus Se revela com toda a força do amor que nos liberta:

AMOR MAIOR

A Semana Santa, durante a qual celebramos a Paixão e Ressurreição do Senhor, revela-nos um Deus-Amor que vem ao nosso encontro, não para dominar ou aniquilar, mas para perdoar e elevar. Eis diante de nós o convite à contemplação de um Deus que caminha entre nós e permanece connosco, que nos ensina a servir e nos alimenta na peregrinação para a eternidade.

O Senhor que é levantado na cruz continua a atrair muitos, a escandalizar alguns e a provocar indiferença aos curiosos que vêem de longe.

A cruz, que continua a escandalizar e a incomodar os protagonistas de um laicismo que pretende “empurrar” a fé cristã para a sacristia, é a prova desse amor sem medida que vivifica, “o mistério do aniquilamento de Deus, por amor” e não é um ornamento ou uma obra de arte.

A cruz que encontramos na paisagem, que desenhamos quando nos benzemos, que transportamos ou guardamos como símbolo identificador é a recordação contínua de Alguém sempre presente e vivo que nos convoca, provoca e de nós espera uma resposta merecedora da Sua dádiva.

Neste ano jubilar, contemplar a cruz é tomar consciência do dom da misericórdia e assumir, livre e responsavelmente, o dever de o agradecer e testemunhar. E nem sempre é fácil seguir o exemplo do bom samaritano ou imitar o Senhor que, na cruz, ainda tem forças para perdoar! Não há amor que não seja exigente nem caminho isento de perigos ou momentos de prova.

A cruz, sinónimo de morte, dor, perseguição ou abandono continua a pesar e a fazer sofrer tantos e tantos com quem nos cruzamos. Mas testemunhamos também a presença, o conforto e a alegria de tantos “Cireneus” que, acompanhando e aliviando, “passam fazendo o bem”.

A cruz de Cristo é sinal de um amor maior que liberta.

in Voz de Lamego, ano 86/18, n.º 4355, 22 de março de 2016

D. ANTÓNIO COUTO PRESIDE A CELEBRAÇÕES DA SEMANA SANTA

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Celebrações da Semana Santa | Em Casa e à Mesa

A diocese Lamego, à imagem da Igreja que vive nos mais diversos cantos do mundo, viveu as celebrações da Semana Santa e da Páscoa da Ressurreição com alegria. Nas diferentes paróquias que formam esta porção do Povo de Deus, com mais ou menos residentes, com maior ou menor visibilidade, a fé foi assumida e festivamente celebrada.

 Ungidos e enviados

Mais de oitenta sacerdotes da nossa diocese juntaram-se à volta do bispo diocesano, D. António Couto, na manhã de Quinta-feira Santa, na Sé, para a celebração da Missa Crismal. Presentes também D. Jacinto Botelho, os dois diáconos que serão ordenados em julho próximo e um diácono permanente natural da nossa diocese e residente no Porto, bem como várias dezenas de fiéis leigos que, não enchendo os bancos da Sé, participaram na cerimónia.

Partindo dos textos bíblicos proclamados, sublinhando a importância de todos para a edificação da Igreja neste “hoje” contínuo que é o tempo do Povo de Deus, D. António Couto dirigiu-se, em particular, ao seu presbitério. “«O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu». É assim também que nós Hoje, caríssimos sacerdotes, submersos pelo Espírito, reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade Sacerdotal e Diaconal, à maneira de Jesus Cristo. É mesmo a única maneira de nós podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isaías e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres…

Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes. Sim, somos um presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, e em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bemóis, porque Deus estava com Ele (Actos 10,37-38), porque Deus tocava nele, porque nele se tocava em Deus. Se o Ungido é Cristo, então nós somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, então a referência da nossa maneira de viver terá de ser também sempre Cristo. Temos, então, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; Gálatas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona ChristiCapitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal, à maneira de Jesus”.

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Jubileu sacerdotal

Durante a Eucaristia, a nossa diocese deu graças pelos 50 anos de sacerdócio de quatro dos seus presbíteros: Joaquim Manuel Silvestre, pároco de S. João Baptista de Avões, Nossa Senhora das Candeias de Ferreiros de Avões e de S. Pedro de Samodães, no arciprestado de Lamego; Vitor Esteves Rosa, pároco de Nossa Senhora dos Remédios de Lamelas e de S. João Baptista de S. Joaninho, na zona pastoral de Castro Daire; Albano de Almeida Pereira, pároco da paróquia de Nossa Senhora da Graça, na zona pastoral de Armamar; Manuel Esteves Alves, pároco da paróquia S. João Baptista de S. João de Fontoura, na zona pastoral de Resende. Graças também pelos 25 anos de sacerdócio do Padre José António Magalhães Rodrigues que vive a sua missão pastoral na paróquia de Nossa Senhora da Graça da Abrigada, no Patriarcado de Lisboa. Ler mais…

HOMILIA DE D.ANTÓNIO COUTO NA VIGÍLIA PASCAL

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NA NOITE SANTA 

  1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor fez para nós! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de Alegria» (Salmo 126,3).

  1. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida florida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo, o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e não encontrámos nelas um único «não». Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não. Nós também, pois nos criaste à tua imagem.

  1. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante», segundo o belo dizer do Livro da Sabedoria (19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

  1. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável protecção. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, sem Deus, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos, não apenas roupa nova, mas também um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 36,16-28).

  1. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Baptismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

  1. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Era, na verdade, muito grande aquela pedra que barrava a entrada e a saída do sepulcro (Marcos 16,3-4). Quem a pode retirar? A pedra da morte é sempre intransponível para as nossas forças. Tem, por isso, de ser trabalho de Deus. É assim que as mulheres que vão de madrugada ao sepulcro, veem com espanto a pedra do sepulcro retirada para sempre (apokekýlistai: perf. pass. de apokylíô), e, entrando, veem, com não menor espanto, um Anjo teu vestido de branco, sentado do lado direito.

  1. A pedra muito grande retirada, no tempo perfeito, representa a porta da habitação da morte para sempre aberta. O modo passivo (passivo divino ou teológico) do verbo revela que um tal operar é coisa só Deus. O teu Anjo, «sentado», indica que tem autoridade para falar das tuas coisas. «O lado direito» é o lado favorável (Marcos 12,36; 14,62), e sugere que o teu Anjo é portador de boas notícias, vindas de Ti. A cor branca é a cor celeste (Marcos 9,3). Só de Ti e do teu Anjo pode vir este dizer com autoridade: «Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou; não está aqui (…). Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos disse» (Marcos 16,6-7). Ao mandar levar a notícia aos seus discípulos, acrescenta especificamente o nome de Pedro. É como que o reconhecimento de que o arrependimento de Pedro pela sua tríplice negação (Marcos 14,66-72) foi aceite. É quase como dizer que, ao contrário do «não conheço esse homem», de Pedro a respeito de Jesus (Marcos 14,71), Jesus manda dizer, por meio do Anjo: «mas Eu conheço-te, Pedro, e ver-me-ás de novo»! Fica ainda claro que o Ressuscitado nos precede sempre, e que, portanto, o nosso verdadeiro lugar é sempre «atrás d’Ele», pois é Ele o Caminho, e permanece sempre o único Senhor da nossa vida.

  1. À flor do texto do Evangelho de Marcos, que estamos a seguir, as mulheres atravessam dias intensos e silenciosos. Na verdade, durante o inteiro relato da Paixão e agora junto do túmulo e depois, elas não falam. Limitam-se a ver, com o verbo theôréô, que é um verbo de observação atenta e amorosa, desde a crucifixão e morte de Jesus (Marcos 15,40), passando pelo seu sepultamento (Marcos 15,47), até ao avistamento da pedra muito grande para sempre retirada (Marcos 16,4). Ouvem as notícias e as ordens do Anjo, mas continuam em silêncio, mesmo quando o Anjo as manda ir dizer. O narrador informa-nos, com rigorosa precisão, que as tinha (eíchen autás) um tremor e assombro, e a ninguém disseram nada (Marcos 16,8). Não são elas que têm tremor e assombro: elas não são o sujeito; é o tremor e o assombro que as tem a elas, experiência desconcertante e incontrolável, corporal e mental, que as afeta desde fora. Sujeito Deus. Ele é sempre o verdadeiro sujeito de cada maravilha que nos ultrapassa e nos transforma. Já hoje cantámos por duas vezes: «Minha força e meu canto é o Senhor!» (Êxodo 15,2; Isaías 12,2).

  1. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora. E o Ressuscitado, nas suas aparições ou manifestações, não mostra o Rosto. Mostra as mãos e o lado. É esta a sua verdadeira identidade: vida dada por amor, para sempre, para todos.

  1. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Baptismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Baptismal. E cada baptizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume sempre Novo e incontrolável.

  1. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte baptismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel e ardente. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

 

Lamego, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor, Vigília Pascal

+ António, vosso bispo e irmão

SEMANA SANTA | A passagem pela morte fez florir a vida

A Semana Santa é a “grande semana”, não porque tenha mais dias que as outras, ou porque os seus dias tenham mais horas, mas por causa da grandeza e da santidade dos mistérios que nela celebramos (S. João Crisóstomo). Um tempo ritmado pelos três últimos dias terrestres de Jesus, mas que começa com o Domingo de Ramos.Agony_in_the_Garden

Por amor de Deus e dos homens

Jesus avança humildemente para Jerusalém (o pequeno jumento sobre o qual se faz transportar expressa esta humildade). Na viagem não está só. Alguns encorajam-no, cantando “Hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor” (Sl 118, 26). Outros agitam ramos e estendem capas pelo caminho. Todos afirmam que Jesus é importante para eles, porque n’Ele encontram respostas e fundam a esperança. O amor de Jesus por Deus e pelos homens toca-os profundamente…

Mas se Jesus é admirado por alguns, outros estão incomodados… A partir do momento em que coloca o homem à frente do sábado, o amor à frente da lei, a oração à frente do respeito pelos ritos e sacrifícios… Jesus desconserta e escandaliza muitos. Uns tantos vão ocupar-se em dar-lhe a morte.

No dia de Ramos lembramos o belo acolhimento que a multidão reservou a Jesus. Também nós vamos à igreja com ramos verdes e cantamos a nossa alegria, ao mesmo tempo que meditamos na Paixão de Jesus, em tudo o que sofreu por Amor de Deus e dos homens.

Servir e amar até ao fim

Jesus sente que a morte se aproxima. Poderia fugir, retratar-se, esconder-se… Mas seria renegar tudo quanto havia sido a beleza e a profundidade da sua vida! Por outro lado, a sua confiança, a sua comunhão, o seu amor por Deus e pelos homens são tão grandes que ele não pode senão continuar a protagonizá-los livremente até ao fim, até dar a sua vida.

Na tarde de Quinta-feira Santa reúne-se com os seus amigos à volta de uma mesa para uma última refeição. No decurso desta, vai exprimir por palavras e por gestos, o sentido profundo da sua vida (o que conduziu a sua existência). Durante esta refeição, o povo judeu fazia memória das maravilhas que Deus lhe havia feito. Jesus não esquece isso: agradece a Deus pelas suas benesses, pela sua generosidade infinita e vai mais longe: “Enquanto comiam, tomou um pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo ‘Tomai: isto é o meu corpo’.” (Mc 14, 22).

Jesus partilha o pão e o vinho e apresenta-os como seu corpo, a sua vida que escolheu livremente entregar nas mãos do Pai: “Ninguém ma tira, mas sou eu que a ofereço livremente” (Jo 10, 18), a fim de que os homens saibam com que amor ama Deus e os seus irmãos; a fim de que os homens saibam com que amor Deus os ama, porque “ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

Jesus revela a plenitude de uma vida com Deus e encoraja os seus amigos a porem-se a caminho: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Pôr-se a caminho para o Amor, é bom! Mas também é difícil. É preciso aprender a caminhar ao ritmo de cada um, sobretudo dos mais pequenos! É preciso tornar-se, pouco a pouco, o “humilde servidor”… Jesus dá-nos o exemplo ao lavar os pés dos seus amigos.

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Estar com e não acima

Jesus coloca-se de joelhos diante dos seus amigos. Através deste gesto mostra-lhes a importância, a grandeza e a dignidade que têm aos olhos de Deus: “Visto que és precioso aos meus olhos, que te estimo e te amo…” (Is 43, 4). Mas Jesus diz-lhes que eles também são capazes de Deus, capazes de amar, capazes de melhorar e de crescer para uma maior humanidade. Neles dorme um tesouro infinito que pede para não ser esquecido, para crescer, ser partilhado para se multiplicar… A partilha conduz à abundância.

Jesus lava os pés dos seus amigos. O gesto diz-nos que amar é aceitar colocar-se ao nível dos mais pobres, dos mais humildes, dos mais pequenos: “O que for mais maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve” (Lc 22, 26). Trata-se de apreender a caminhar ao ritmo do mais pequeno, do mais pobre; estar com ele e não acima dele. Jesus diz-nos que amar é aceitar servir sem esperar algo em troca, aceitar tornar-se dom de si mesmo, em total gratuidade.

Jesus abaixa-se diante dos seus amigos, toma conta de nós e convida-nos a imitá-lo. Temos necessidade de Deus para fazer crescer o amor em nós e Deus necessita de nós para fazer avançar o amor sobre a terra. E vemos claramente: amar é difícil. Mas no caminho temos sempre uma ajuda: a oração, a certeza da presença de Deus a nosso lado.

Abandonar-se nas mãos do Pai

Apercebemo-nos do desejo de Jesus em afastar-se do difícil caminho que se apresenta: “A minha alma está numa tristeza mortal” (Mc 14, 34). Jesus sente o sofrimento que se aproxima. Vemo-lo triste, angustiado, com receio. Claro que poderia fugir, já que ainda tem tempo. Mas fugir seria renegar a riqueza, a fecundidade, a felicidade e deixaria de viver verdadeiramente; seria viver uma vida de morte, estéril, inútil…

Jesus já deu muito a Deus e aos homens. Resta-lhe dar-se a si mesmo. Para isso é preciso morrer, deixar a terra e as suas maravilhas, deixar tudo quanto tentou construir e pôr em marcha, deixar as pessoas que amou… e tudo isso faz sofrer profundamente. Então reza ao Pai : “Tudo te é possível; afasta de mim este cálice” (Mc14, 36).

Sim, o Eterno pode sempre intervir. Pode falar aos corações abertos, prontos a acolher; pode falar aos sumos-sacerdotes, a Pilatos; pode inspirar-lhes uma outra solução, ajudá-los a reagir, a mudar, a levantarem-se e a porem-se a caminho para uma outra vida… Mas os corações estão endurecidos, e os mais amados – os discípulos – estão adormecidos, como que anestesiados, demasiado fracos, receosos de se levantarem…

Existirá ainda um coração que vela? Jesus sabe bem que os corações endurecidos não podem acolher a luz de Deus e que permanecerão na obscuridade. Jesus vê bem os corações adormecidos dos seus amigos, corações que não conseguem permanecer em oração. Apesar de tudo, Jesus decide continuar o seu caminho: abandona-se, plenamente, com total liberdade e confiança nas mãos do Pai: “Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc 14, 36). Não há vigilantes para acompanhar Jesus… Mas com o tempo Deus saberá acordá-los.

Jesus deixa-se prender no jardim das oliveiras. Conduzem-no até ao sumo sacerdote que o interroga…

Deus revela-se discreto

Jesus é conduzido até Pilatos (representante do imperador romano) que o condena a morrer na cruz. Alguém que passava, Simão de Cirene, ajuda-o a levar a cruz até ao Golgota, onde é crucificado.

Neste dia de Sexta-feira Santa, Jesus não sofre apenas no corpo, mas também no seu espírito. À sua volta não restam senão algumas mulheres… Onde estão todos os seus discípulos? Onde está a multidão que o aclamava algum tempo antes? Onde está o Pai amado e todo o amor que lhe concedeu? “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

Deus cala-se… parece ausente… Mas não será apenas uma certa imagem que fazemos de Deus que está ausente? A imagem do vendaval que afasta os obstáculos do caminho… a imagem da tempestade que destrói todos quanto se lhe opõem… a imagem do poder que força o coração dos homens para os obrigar a mudar, a levantarem-se…

Hoje, Deus revela-se discreto… Ele é humilde presença que acompanha, que leva, que ajuda a ir até ao fim do caminho… O amor faz-se silencioso, tal como o primeiro sopro anunciador da primavera.

Na Sexta-feira Santa Jesus morre na cruz e o seu corpo é depois deposto no sepulcro.

O grão morre e dá muito fruto

Ao longo de Sábado Santo, oportunidade para ler e meditar o texto do pequeno grão de trigo que, morrendo, dá muito fruto. À noite, os cristãos reúnem-se na igreja para proclamar e cantar a sua fé em Jesus ressuscitado!

Sobre o círio descobrimos uma cruz, duas letras (o alfa e ómega) e os quatro números do ano. A letra “alfa”, primeira letra do alfabeto grego, diz-nos que Deus está no começo de tudo; a letra ómega, última letra do alfabeto grego, diz-nos que Deus é o fim de todas as coisas. A cruz fala-nos de Jesus, da sua vida oferecida por amor.

Uma luz que se acende e nos fala de Jesus, que arde serenamente e ilumina, aquece e purifica. E diz-nos que Jesus está vivo. Ressuscitou! Ele é o nosso guia, a nossa luz; aquece as nossas vidas, escuta-nos e conforta-nos. Ele purifica-nos. Acender uma vela no círio pascal significa que queremos viver a vida de Deus, queremos acolher o seu amor para o propagar à nossa volta.

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Alegria da Ressurreição

O Domingo de Páscoa é um dia de alegria! A boa notícia de que Jesus está vivo propaga-se. O túmulo está vazio. As mulheres estão emocionadas, tremem de medo e baixam a cabeça. Vivem na intimidade, no mais profundo de si, uma experiência que as ultrapassa, as inquieta. Uma luminosidade instalou-se nelas e uma certeza apoderou-se delas: Deus agiu! “Deus ressuscitou Jesus de entre os mortos”.

As mulheres saem, afastam-se do túmulo (do domínio da morte, do desespero, do passado) e guardam a luz no seu coração… E têm medo de libertar tal luz, de falar… Quem poderá acreditar nelas?

Ninguém testemunhou directamente a ressurreição, mas alguma coisa aconteceu a estas mulheres e a estes homens. Qualquer coisa que transformou as suas vidas, que os motivou a ir pelo mundo fora: acolheram a manifestação de uma presença que não reconhecem imediatamente como sendo a de Jesus (Emaús, Lc 24). Esta manifestação de presença pode tomar a forma de uma visão, de uma palavra murmurada, de uma recordação que regressa, de uma experiencia íntima, de um gesto que mexe com o coração, de um espanto que questiona, de um fogo que queima, de algo pequeno mas que enche, desarma, emociona e maravilha! Algo que toca, que fala fortemente à alma, que a envolve, a mergulha no infinito, a projecta para o céu, a empurra para os homens… O anjo que fala às mulheres convida-as a levantarem-se, a não se fecharem no desespero, a não ficarem voltadas para o passado, para a morte do túmulo, mas a caminhar para a vida, a comunicar o fogo que as queimou, a soprarem aos homens o divino que receberam (Mt 28, 7).

Para continuar…

O ressuscitado permanece presente naqueles que lhe abrem a porta do coração e cada um pode estabelecer uma relação com Ele. A abertura do coração alarga a vida, ajuda-a a crescer numa outra dimensão, condu-la sob uma outra luz, transfigura e atrai para uma vida nova.

“A morte é grande pela vida que faz surgir” (Durkheim). A passagem pela morte fez florir a vida sobre a terra.

 

JD, in Voz de Lamego, n.º 4307, ano 85/20, de 31 de março de 2015

MENSAGEIRO PASCAL | Editorial Voz de Lamego | 31 de março

Páscoa

Em SEMANA SANTA, os textos, as notícias, as reflexões, os eventos anunciados, têm como dominador comum as celebrações da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, com os seus diversos momentos e celebrações. Há, como sempre, uma grande variedade de notícias da região, destaque também para as Comemorações do Dia de Portugal, a 10 de junho, tendo sido escolhida a cidade de Lamego, pelo Presidente da República, Sua Excelência Professor Cavaco Silva, colocando a cidade no centro do país.

Para iniciar a leitura, o Editorial, do Pe. Joaquim Dionísio, Diretor do nosso jornal diocesano:

MENSAGEIRO PASCAL

A Semana Santa convida a seguir Jesus Cristo na sua Paixão. O caminho, marcado pela escuta e pelo silêncio, é oportunidade única para acolher e contemplar a revelação de um Deus que nos ama sem medida e que dá tudo para nos reencontrar. Mais uma vez somos convidados a entrar no mistério de Jesus e a comprometer-nos com Deus de quem Ele, no seu rosto desfigurado, é a imagem perfeita.

“Quando alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, vivia” (Nm 21, 9). O que experimentava o povo de Deus durante a caminhada para a terra prometida, a Igreja também o vive quando levanta os olhos e contempla Jesus crucificado e ressuscitado.

A Igreja vive-o de forma particular nos seus membros que, em certas regiões do mundo, levantam os olhos para Cristo morto e ressuscitado a fim de encontrarem esperança, força e vida. Cristãos perseguidos que testemunham a fé e se mantêm fiéis, que não renegam a fé em Deus Pai, no Filho Jesus Cristo e no Espírito Santo, apesar da humilhação, da tortura e da morte.

Vivemos estas festas pascais em plena comunhão com esses irmãos e irmãs. A sua dolorosa situação pode acordar-nos e colocar no devido lugar muitas das nossas preocupações e questões tantas vezes irrelevantes.

Na “mãe de todas as vigílias” veremos o círio pascal iluminar a noite e sabemos que é Cristo que nos ilumina e nos dá a vida para cumprir a obra de Deus.

Cristo ressuscitou de entre os mortos e as forças do mal e da morte foram vencidas. Todo aquele que acolhe esta boa notícia e se deixa iluminar por ela torna-se um mensageiro pascal, capaz de iluminar a vida dos que o rodeiam e responsável pela edificação de um mundo melhor e mais belo.

in Voz de Lamego, n.º 4307, ano 85/20, de 31 de março de 2015