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Solenidade de São Sebastião | Homilia de D. António Couto

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SOLENIDADE DE SÃO SEBASTIÃO

  1. A nossa Igreja de Lamego está hoje em festa, porque celebra jubilosamente o seu Padroeiro principal, São Sebastião, e dele recebe a necessária proteção e a suprema lição da dádiva da vida. Jesus Cristo foi a sua verdadeira razão de viver… e de morrer. A sua LUZ foi intensa, o seu TESTEMUNHO imenso e descarado no meio da cidade ensonada e coroada pelos ídolos. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte, não se pode apagar o horizonte, não se acende uma LUZ para a colocar debaixo da ponte. De qualquer lugar se via, em qualquer lugar se via, que Sebastião trazia Cristo a arder no coração. Não o escondia. Por isso, o imperador romano, Diocleciano, quis fazer desaparecer este soldado de Cristo. Por isso, o fez morrer na grande perseguição desencadeada nos primeiros anos do século IV. Mas já o bom perfume do fiel soldado de Cristo se tinha espalhado pelo mundo inteiro, e frutificava em novas comunidades, de acordo com o célebre aforismo de Tertuliano: «Sangue de mártires, semente de cristãos». E frutificava cada vez mais, sobretudo em circunstâncias difíceis, quando a fome, a peste e a guerra assolavam as populações.
  1. Acorda, Lamego, não tenhas medo! Coragem! Tem confiança! Ele chama-te! E diz-te, na página de hoje do Evangelho (Mateus 10,28-33), que vales mais do que muitos passarinhos. Do menor para o maior: se Deus, nosso Pai, cuida da vida dos passarinhos, que não trabalham nem ceifam, com quanto mais carinho cuidará de nós! Como a vida do Mártir São Sebastião, também a nossa está segura nas mãos de Deus (cf. Sabedoria 3,1), tatuada nas palmas das mãos de Deus (cf. Isaías 49,16). Como a dos sete jovens irmãos Macabeus e a do velhinho Eleazar, de 90 anos, como nos mostra hoje a história edificante e exemplar do Segundo Livro dos Macabeus, Capítulos 6 e 7. Portanto, levanta-te, Lamego, Igreja amada, acariciada, não abandonada (cf. Isaías 62).
  1. E a lição da Primeira Carta de São Pedro (3,14-17), também hoje escutada, ensina-nos bem: «Estai sempre prontos, preparados, para dar, a quem vos pedir, a razão da esperança que há em vós» (1 Pedro 3,15. Dá-se a razão, como se dá o pão. Sem argumentação. Mas com a mão e o coração. Não é em vão que a lição da Carta de São Pedro diz «razão» com o termo grego lógos. Está bom de ver que o lógos bíblico não é nada nosso, não são os nossos raciocínios teóricos e abstratos, fáceis, que não doem. A razão que somos chamados a dar não é um objeto do nosso pensamento, mas uma PESSOA a nós dada: Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido de Maria, «feito Homem como nós e que veio habitar no meio de nós» (João 1,14). É Ele a razão, o Lógos, «pelo qual tudo foi feito, e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Estar prontos, preparados, para dar a razão, o lógos, da nossa esperança, é estar prontos a dar a este mundo Jesus Cristo!
  1. De resto, amados irmãos e irmãs, é de Jesus Cristo que nós precisamos e de que este mundo precisa. É Jesus Cristo que as pessoas nos pedem. Foi Jesus Cristo que São Sebastião deu ao mundo no seu tempo. É Jesus Cristo que São Sebastião, Padroeiro da nossa Diocese, nos entrega hoje. Não como um valor a conservar e guardar com todas as cautelas em alguma gaveta ou cofre-forte. Mas para nós o entregarmos generosamente aos nossos irmãos. Quando celebramos um mártir, não sobra lugar para o acidental. É Jesus Cristo que um mártir tem nos olhos e no coração. É esta herança do essencial, sem estratégias ou malabarismos, que recebemos do nosso Padroeiro.
  1. Jovem soldado, jovem mártir, São Sebastião, ensina a tua Igreja de Lamego, que proteges, a estar sempre pronta, preparada e diligente para dar Jesus Cristo aos nossos irmãos que no-lo pedem.

Fui Eu, o Senhor, que te chamei, Sebastião,

E te enviei a tirar água com alegria

Das fontes da salvação.

Tomei-te pela mão

E modelei-te,

Coloquei-te

Como aliança do povo,

Como luz das nações

E dos corações.

Vai, de casa em casa, ó aguadeiro da paz e da bondade,

Dessedenta o meu povo ressequido,

Tu és o meu servo eleito e querido,

Amado,

Consagrado,

Tu és meu!

Vai, ergue bem alto esta lumieira,

E alumia

De alegria

A terra inteira.

E quando chegares ao fim,

Volta ao começo.

Recomeça!

Que a tua paz corra como um rio,

Como um fio de luz,

Como um desafio,

De pavio em pavio,

De mão em mão,

De coração em coração.

A tua missão,

Sebastião,

É ser clarão,

E entregar a luz

De Jesus

A cada irmão. Ámen

Lamego, 20 de janeiro de 2016, Solenidade de São Sebastião,

Padroeiro principal da nossa Diocese

+ António, vosso bispo e irmão

Abertura da Porta Santa abre Jubileu | Ano Santo da Misericórdia

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A diocese de Lamego, em comunhão com a Igreja universal, viveu festivamente o início do Jubileu extraordinário da Misericórdia, na tarde do passado domingo. Em simultâneo, as cerimónias aconteceram em Lamego, na Sé, e no Santuário de Nossa Senhora da Lapa.

Em Lamego, os fiéis congregaram-se na igreja de S. Francisco, sob a presidência do nosso bispo, D. António Couto. Nos ritos iniciais, a par da saudação, o Pastor diocesano sublinhou a singularidade do momento e a alegria da misericórdia proposta como caminho e porta de entrada no convívio de Deus e dos irmãos.

Após a proclamação do evangelho proposto pelo guião preparado para toda a Igreja, a multidão dirigiu-se, em procissão, para a Sé, entoando louvores a Deus e pedindo a intercessão de todos os santos, rezando a ladainha. Algumas centenas de metros depois, no adro da igreja catedral, uns trompetes anunciaram a abertura da Porta da Misericórdia que o Senhor Bispo abriu logo de seguida. E foi também seguindo o Pastor, que transportava o Evangeliário, que a numerosa assembleia entrou e ocupou todos os espaços da igreja. A cerimónia continuou com o rito da aspersão, recordando a todos as fontes baptismais pelas quais se incorporaram a Cristo, e com a celebração eucarística.

Como notas finais, sublinhar a multidão que encheu por completo a Sé, o razoável número de sacerdotes (cerca de quarenta), a participação do coro da catedral e o trabalho dos que mais de perto estiveram envolvidos na preparação das cerimónias.

De acordo com alguns testemunhos, a abertura da Porta da Misericórdia no Santuário da Lapa também decorreu bem. Presidiu à celebração o nosso bispo emérito, D. Jacinto Botelho, a que se juntaram alguns sacerdotes (nove) e um razoável número de fiéis leigos.

Com alegria, a diocese iniciou a vivência deste Ano Santo que se espera seja ocasião privilegiada de encontro de cada baptizado consigo próprio, com Deus e com os irmãos.

in Voz de Lamego, ano 85/54, n.º 4341, 15 de dezembro

Homilia de D. António Couto | Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

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(FOTO: Entrada solene de D. António na Diocese de Lamego, 29 de janeiro de 2012)

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA

 

  1. Depois de ontem (Domingo II do Advento) termos avistado e ouvido a lição magistral de um homem sólido e firme como um tronco, de antes quebrar que torcer, que não tem nada a ver com as canas ocas (Mateus 11,7), João Baptista, contemplamos hoje, Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, a grácil e terna figura de Maria, no seu ser inteiro, obra de Deus. João Baptista é como um tronco, plantado no deserto. Plantação de Deus, portanto, pois mais ninguém planta o deserto. João Baptista é como um tronco plantado no deserto. Vendo bem, já lá estão outros troncos, igualmente sólidos, igualmente firmes. Ajustando um pouco melhor o olhar, veem-se uns fios que vão de tronco em tronco, de poste em poste. Estes troncos sólidos, estes postes firmes, estes finos fios sãos semelhantes aos postes e aos fios do telefone, das comunicações, da comunicação.

  1. João Baptista é como um poste telefónico, uma antena de comunicação. Vendo melhor, vê-se que está em linha com Isaías e com Deus. Aí está o fio de sentido, a Palavra que não é nem de João nem de Isaías, mas de Deus. É essa Palavra que grita no deserto, ou no nosso desertificado, árido, endurecido coração. Mas Deus sabe fazer correr rios de água no deserto (Isaías 35,7; 41,18; 43,20). Deus sabe fazer florir o deserto, fazer frutificar o deserto (Isaías 35,1-2).

  1. É assim que Nazaré é literalmente a cidade florida (de natsar = florescer). E é assim que Maria é a cidade fruticada, e não fortificada. Também Maria está em linha com a Palavra de Deus. Não a perturbeis, porque ela não se cansa de escutar com o coração. Nós aproximamo-nos, e vemos um anjo. Mas os anjos não são para se verem. São para se ouvirem. Maria ao telefone com Deus. Mas este telefone não foi instalado pela PT. Tão-pouco é um telemóvel que se possa trazer no bolso. Vendo mais de perto, este telefone toca no coração.

  1. Memorial desta beleza incandescente é a Basílica da Anunciação, em Nazaré. Esta grandiosa Basílica, em três planos, foi inaugurada em 25 de Março de 1969, e foi visitada, ainda as obras estavam em curso, em 1964, pelo Beato Papa Paulo VI. Escavações feitas antes desta grandiosa construção puseram a descoberto, e podem ver-se ainda hoje, os majestosos pilares de uma Catedral levantada em 1099, pelo príncipe cruzado Tancredo, bem como o pavimento em mosaico de uma igreja bizantina, que pode ser datada do ano 450. Mas, descendo mais fundo, até às entranhas da atual Basílica, acede-se à Gruta da Anunciação, sob cujo altar se lê a inscrição Verbum caro hic factum est [«Aqui o Verbo se fez carne»], e a outros lugares de culto antigos, talvez já do século II. Numa grafite antiga foi encontrada a gravação XE MAPIA, abreviação de Chaîre Maria, a primeira Ave-Maria da história.

  1. São Paulo adverte-nos, na Carta aos Efésios, também de que a instalação deste telefone, deste fio de sentido, desta Palavra de graça é obra, não da PT, mas de Deus, que nos escolheu antes da criação do mundo (Efésios 1,4), e antes da criação do mundo nos fez filhos no seu Filho (Efésios 1,5).

  1. É esta comunicação de Graça, que de Deus chega a Maria, que a Igreja inteira, Ocidente e Oriente, hoje celebra. Sim, hoje todos os filhos e irmãos estamos unidos na mesma alegria, que de Deus chega a Maria, e de Maria a todos nós. Por isso, ela, a Mãe do Amor e da Graça, a Cheia de Graça, é a nossa Mãe e Padroeira, Padroeira também de Portugal e desta nossa Catedral.

  1. Por isso também nos reunimos hoje, aqui, em linha contigo, Maria, nossa Mãe e Padroeira e Protetora. Em linha com Deus, que olhou para nós, para mim e para ti, meu irmão e minha irmã, desde toda a eternidade. Sim, olhou para nós, com o seu olhar de Graça, e assim continua ainda hoje. Bendita Tu, Maria, e Bendito Deus.

  1. Esta celebração da Mãe de Deus e nossa Mãe e Padroeira Principal de Portugal é um desafio imenso para o homem «em fuga» deste tempo, que se esconde de si mesmo, que continua a esconder-se de Deus, e que pretende esconder Deus, retirando-o da via pública e da vida pública. Atravessamos verdadeiramente a «noite do mundo» (Weltnacht), diz Martin Heidegger, onde «Cada um está sozinho no coração da terra/ atravessado por um raio de sol:/ e é logo noite», como bem escreve o escritor italiano Salvatore Quasimodo. Homem deste tempo às escuras, engessado, triste, exilado, escondido, anestesiado, volta para a Luz, reentra em tua casa, no teu coração despedaçado. Há de seguramente por lá haver ainda, caída no fundo da alma, uma lágrima dorida e uma mão de Mãe à tua espera!

Senhora de dezembro,

Maria, minha Mãe,

Passa hoje o dia da tua Imaculada Conceição.

Senhora de dezembro,

Dos dias frios e frágeis,

Dos passos firmes e ágeis,

Do coração que velava

À espera de quem te amava.

Assim te entregaste a Deus,

De coração inteiro,

Como um tinteiro

Todo derramado numa página.

Tu és a mais bela página de Deus,

A Deus doada, apresentada, dedicada,

Mãe da vida consagrada,

Imaculada,

Ensina-me a tua tabuada,

A tua nova alegria,

A luz do Evangelho que te aquece e alumia.

Eu te saúdo, Maria,

Neste dia da tua Imaculada Conceição.

Ave-Maria.

Lamego, 08 de dezembro de 2014, Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

+ António, vosso bispo e irmão

ELEITO E ELITE | Editorial Voz de Lamego | 25 de dezembro

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Com a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, chegou o DIA da IGREJA CATEDRAL, que este ano contou com a ordenação do Fabrício Pinheiro e do Valentim Fonseca. Como não poderia deixar de ser, a edição da Voz de Lamego desta semana dedica especial atenção a esta jornada do Dia da Igreja Catedral, nos vários momentos de encontro, formação, celebração, festa.

No Editorial, o Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, salienta as Ordenações Diaconais, que dão seguimento à vocação batismal:

ELEITO E ELITE 

No passado domingo, em ambiente de festa e de acção de graças, a nossa diocese testemunhou a livre decisão de dois jovens que, chamados por Deus através da Igreja, D. António Couto ordenou de Diáconos. E alegramo-nos já com a perspectiva da sua ordenação sacerdotal, no próximo verão.

O baptizado que recebe o sacramento da Ordem (diácono, sacerdote, bispo) é apresentado como “ministro”, traduzindo-se este termo por “servidor”; à missão que assume e cumpre chamamos “ministério”, sinónimo de “serviço”.

Assim, falar de “ministro ordenado” é referir aquele que, pelo sacramento da Ordem, recebeu e assumiu a missão de servir o Povo de Deus. Muito longe, portanto, da concepção de tal ministério em termos de poder. Porque na Igreja de Cristo há apenas o “poder de servir”.

Ser ordenado pressupõe um chamamento, exige uma resposta e é fruto de uma eleição. Deus chama através da Sua Igreja, mas ninguém avança sem uma livre decisão pessoal e sem a necessária escolha feita pela Igreja. Dito de outra forma, os ministros ordenados são previamente eleitos, escolhidos, não porque sejam imaculados, mas por causa da disponibilidade demonstrada e reconhecida capacidade para servir.

É verdade que, como seres livres e limitados, tais ministros podem falhar, ficar aquém do exemplo que se espera ou esquecerem o testemunho que se exige. Mas, em consciência, têm o dever de se esforçar por cumprir a missão para que foram chamados e ordenados.

Mas não são uma elite, no sentido habitual em que esta se compreende como uma minoria prestigiada e formada pelo que de melhor existe na sociedade, a fina flor ou nata que detém algum poder e influência. A tentação de confundir eleito com elite pode surgir, mas não é cristã.

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4290, ano 84/52, de 25 de novembro de 2014

Homilia de D. António José da Rocha Couto no Dia da Igreja Catedral e Ordenação Diaconal

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DÍVIDA DE AMOR

Caríssimo Senhor D. Jacinto, meu irmão no episcopado,

Caríssimo Senhor Vigário geral,

Caríssimo Senhor Pró-Vigário Geral,

Caríssimo Senhor Reitor do Seminário,

Caríssimos Sacerdotes,

Caríssimos Eleitos para o Diaconado,

Caríssimos Seminaristas,

Caríssimos Irmãos e Irmãs

  1. Ainda agora comecei a homilia, mas, se estivestes atentos, já deveis estar espantados com esta ladainha de “caríssimos”. Já lá vamos. A nossa Diocese de Lamego vive hoje um excesso de celebrações, um excesso de celebração, que começo por recordar: a) a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo; b) o Dia desta Igreja Catedral; c) a ordenação de dois Diáconos, o Fabrício e o Valentim.
  1. Peço-vos a todos, caríssimos irmãos e irmãs, que estreitemos bem este nó celebrativo, para experimentarmos a alegria do Evangelho, traduzida no serviço humilde do amor que recebemos de Jesus Cristo, e que estamos sempre a dever uns aos outros. Dívida feliz que contraímos no dia do nosso Batismo, e que nunca chegaremos a pagar na totalidade. Pelo contrário, esta dívida de amor vai aumentando pela vida fora, conforme vamos conformando a nossa vida à forma de viver de Jesus Cristo. Na verdade, cada nova etapa da nossa vivência cristã aumenta a nossa dívida de amor. É assim (ou deve ser) na catequese, na profissão de Fé, no Sacramento do Crisma, no Matrimónio, mas também na Consagração Religiosa ou Secular, no Diaconado, Presbiterado, Episcopado. Sim, irmãos caríssimos, a nossa dívida de amor vai disparando sempre, de tal modo que nunca mais nos veremos livres dela. Estamos sempre em dívida de amor. O cristão verdadeiro tem de estar sempre endividado. E a ver esta dívida sempre a aumentar. E não pode declarar insolvência.
  1. O primeiro que olhou para nós, olhos nos olhos, e se endividou até aos ossos para comprar a nossa liberdade, foi Jesus Cristo, Senhor Nosso. São Paulo disse bem, na sua Primeira Carta ao Coríntios, que Ele nos comprou por alto preço (1 Coríntios 6,20; 7,23). Na verdade, teve de dar a sua vida toda por nós, para nos comprar. Somos, portanto, caríssimos, custamos um preço muito alto. O seu Reinado, que hoje celebramos juntamente com toda a Igreja, consiste nesta suprema atitude ou altitude do Amor que Jesus dedica a estes seus irmãos caríssimos.
  1. Passou, depois, como sabeis, caríssimos irmãos, esta dívida para nós, isto é, ensinou-nos a endividar-nos, gastando, como Ele, a vida toda por Amor. «Como Eu vos fiz, fazei vós também uns outros» (João 13,15). «Como Eu vos amei, amai-vos vós uns aos outros» (João 15,12 e 17). «Todas as vezes que fizestes isto (ou que o não fizestes) a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes (ou o deixastes de fazer)» (Mateus 25,40 e 45).
  1. Portanto, caríssimos irmãos, é preciso, precioso e urgente, que olhemos bem o rosto dos nossos irmãos e irmãs, que consideremos bem o altíssimo valor de cada um, e gastemos a nossa vida toda para os servir com a dignidade e a elevação, a Altura, que merecem. Só assim, seremos dignos súbditos deste Rei Novo e Manso.
  1. A presença entre nós, hoje, destes dois novos Diáconos ou Servidores do Evangelho da Alegria deve ajudar a avivar em nós a existência desta imensa dívida de Amor e de serviço humilde a todos e a cada um dos caríssimos irmãos e irmãs que Deus nos deu.
  1. E assim também, do coração ou do Altar ou do Ambão desta Igreja Catedral, cuja Dedicação hoje celebramos, podereis ver, caríssimos irmãos, que pode começar a surgir uma nascente de água viva. E vereis ainda que este fiozinho de água crescerá e alagará cada coração, cada rua, cada campo, cada casa, cada família, cada colina desta nossa Diocese de Lamego, fazendo brotar, por onde passa, vida nova em abundância. Sim, podeis beber e saciar-vos com esta água viva e salutar, fonte de saúde e de alegria. Não tem legionela. Tem amor. Abri todas portas a Jesus Cristo. Escancarai-as mesmo. Sem medo. O medo tolhe a nossa alegria. O medo rouba a nossa alegria. Fazei da Igreja de Lamego, caríssimos irmãos e irmãs, não uma cidade fortificada, mas uma cidade frutificada. Portanto, Ide e construí com mais amor a família de Deus. E que o Senhor Jesus Cristo reine sempre nos nossos corações. Ámen.

Lamego, 23 de Novembro, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo,

Dia da Igreja Catedral e de Ordenações Diaconais.

+ António, vosso bispo e irmão

Festa da Dedicação da Igreja Catedral de Lamego

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Em anos anteriores, na Solenidade de Cristo Rei do Universo, Lamego vivia o Dia da Igreja Diocesana, comemorando a dedicação da igreja catedral e assinalando a abertura do novo ano pastoral. Na mesma data, testemunhava, com alegria, a ordenação diaconal dos seminaristas que tinham concluído a sua formação. Este ano houve alterações: a abertura do novo ano pastoral teve lugar no último sábado de Setembro e o dia da família diocesana (festa) será no último sábado de Junho. Mas, neste dia de Cristo Rei, a diocese continua a celebrar o Dia da Igreja Catedral e a acolher os novos diáconos.

Um espaço

Tal como no-lo recorda o livro dos Atos dos Apóstolos, Deus “não habita em santuários construídos pela mão do homem” (Act 17, 24), mas nós precisamos de um espaço para as nossas celebrações litúrgicas. Por isso, à nossa volta, há imóveis construídos para o efeito, com interiores devidamente organizados para acolher a comunidade que se encontra como assembleia reunida para louvar Aquele que a todos convoca. As igrejas e capelas, maiores ou mais pequenas, sumptuosamente adornadas ou singelas… foram edificadas para serem espaço de encontro entre irmãos e com a divindade. Ali se escuta a Palavra, se celebra a Eucaristia e os demais sacramentos; ali se reza e se apresentam súplicas ao Pai…

Desde os primórdios do Cristianismo, que os fiéis se reúnem em assembleia (ecclesiæ) para celebrar a Eucaristia, ministrar os sacramentos e ouvir a pregação da Palavra de Deus. Nos primeiros tempos, os lugares de reunião eram habitualmente as próprias casas, onde utilizavam a sala mais espaçosa para esse fim. Alguns desses locais de culto são mencionados no Novo Testamento.

Nos Atos dos Apóstolos (20, 7-11), conta-se que São Paulo o fez num terceiro andar, adornado com muitas lâmpadas, onde se haviam reunido os fiéis, aos quais, depois de bem instruídos, distribuiu o Pão Eucarístico. Também é tradição certa que o Príncipe dos Apóstolos, São Pedro, se hospedava em Roma em casa do senador Pudente. Ali se congregavam os cristãos para ouvir suas instruções, assistir aos santos Mistérios e receber a Sagrada Eucaristia.

Com o tempo, as casas nas quais se reunia a assembleia passaram a ter espaços específicos reservados para o culto divino. E, a partir do fim do século II, esses prédios começam a ser chamados de “Domus Ecclesiæ”. Ao longo do século III, esses aposentos foram crescendo em importância e as outras partes do edifício, destinadas a finalidades profanas, vão sendo separadas dele. A “Domus Ecclesiæ” transforma-se em “Domus Dei”.

A catedral

A palavra “catedral” vem do grego “kátedra” e pode ser traduzida por “cadeira”. Embora pensemos de imediato no objecto que serve para sentar e repousar, falar desta “cadeira” é referir o lugar onde se senta aquele que ensina. O título de catedral concedido a uma igreja não lhe vem da sua grandeza ou antiguidade, mas do facto do bispo diocesano ter ali a sua “cadeira”, ou seja, a sua cátedra onde prega, ensina, preside, celebra…

A expressão “ecclesia cathedralis” é utilizada para designar a igreja que contém a cátedra oficial do bispo diocesano. Esta designação foi utilizada, pela primeira vez, nas actas do concílio de Tarragona, em 516. Outra designação utilizada era “ecclesia mater”, ou “igreja-mãe”. Também utilizamos a palavra “sé” para nos referirmos a este mesmo espaço, do latim “sedis” e se traduz por “cadeira”. Por isso, dizer “Sé Catedral” é uma redundância, já que as duas palavras significam a mesma coisa.

Nos primeiros séculos da Igreja, a cátedra foi objecto de veneração, o que levou a dedicar festas especiais para honrar algumas delas, como em Roma, por exemplo.

Em todas as dioceses do mundo, a catedral é lugar de referência da fé, um lugar sagrado onde os fiéis de uma igreja particular se reúnem para exprimir e proclamar a própria fé e a unidade em Cristo. A catedral é o centro eclesial e espiritual da diocese, o símbolo visível da unidade de toda a comunidade cristã, onde se reúnem todos os fiéis, sacerdotes, religiosos e religiosas de diferentes congregações, fiéis de todas as paróquias, de todas as comunidades, com diferentes sensibilidades, numa só assembleia visível, presidida e unificada pelo bispo que é garantia da comunhão e, por isso, garantia da autenticidade da fé e da vida cristã, a ligação real, histórica e mística com o Cristo histórico e com o Cristo ressuscitado e glorioso.

Consagração ao culto

Já a partir do século IV, a dedicação da “Domus Dei” (Casa de Deus) era considerada uma das festas mais solenes da Liturgia, a fim de ressaltar o carácter sagrado do edifício, que não poderia ser usado para fins profanos.

No ritual litúrgico da dedicação de uma igreja destacam-se quatro elementos essenciais: a aspersão com a água benta, a deposição das relíquias dos santos, a unção sagrada do altar e da igreja, a incensação, a iluminação e, por fim, o principal, a Celebração Eucarística.

Por ser o edifício visível um sinal peculiar da Igreja peregrina na terra e imagem da Igreja que habita nos céus, a Jerusalém Celeste, esses ritos manifestam simbolicamente algo das obras invisíveis que o Senhor realiza por meio dos divinos mistérios da Igreja, ou seja, o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia.

Festa da Dedicação

Dedicação é o rito litúrgico solene, reservado em princípio ao bispo, pelo qual uma igreja ou um altar ficam consagrados e destinados ao culto divino. Quando, a partir do século IV, os cristãos passaram a construir as suas igrejas, foram-nas consagrando solenemente, com ritos e textos que se foram desenvolvendo, ao longo dos séculos.

Recomenda-se que as igrejas sejam sempre dedicadas, sobretudo, as catedrais e paroquiais. As outras devem ser, pelo menos, benzidas. O mais indicado é que a dedicação ou bênção seja feita pelo bispo da própria diocese.  O novo livro litúrgico, Ritual da Dedicação da Igreja e do Altar é o usado para estas celebrações cheias de simbolismo: a igreja/edifício é um símbolo expressivo da igreja/comunidade e também da «igreja» do Céu.

Ao longo do tempo foram surgindo também festas anuais, em recordação das dedicações mais significativas: a de Santa Maria Maior, em 5 de Agosto; a da Basílica de Latrão, em 9 de Novembro; e a de S. Pedro e S. Paulo, em 18 do mesmo mês.

Também é costume celebrar-se o aniversário da dedicação da própria igreja e, em cada diocese, da própria catedral, tal como fazemos em Lamego, no dia de Cristo Rei, domingo próximo da data da Dedicação (20 de Novembro).

in VOZ DE LAMEGO,  n.º 4289, ano 84/51, de 18 de novembro de 2014.

Dia da Igreja Catedral | Ordenações Diaconais | 23 de novembro