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ENCONTRO DE COROS

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“Quem bem canta, duas vezes reza” (Stº. Agostinho)

ENCONTRO DE COROS

Decorreu, no dia 31 de Março de 2015, na Catedral de Lamego, em plena Semana Santa, um Encontro de Coros Litúrgicos, organizado pelo Departamento Diocesano de Música Sacra.00

Participaram neste encontro quatro Coros:

– Grupo Coral da Paróquia de S. Pedro de Castro Daire;

– Grupo Coral da Paróquia de Santíssimo Salvador de Resende;

– Grupo Coral da Universidade Sénior Jerónimo Cardoso-Lamego;

– Coro da Catedral de Lamego.

O acolhimento aos participantes aconteceu no Museu Diocesano, com uma palavra de boas vindas proferida pelo Pe. João Carlos, Pró Vigário Geral.

De seguida todos se dirigiram para a Sé, que estava repleta de gente, para escutar as vozes daqueles que louvam a Deus cantando.

O responsável do Departamento Diocesano de Música Sacra, Pe. Marcos Alvim, na palavra de abertura, falou da importância do canto litúrgico e agradeceu a presença de todos.

Cada coro cantou quatro cânticos de natureza litúrgica.

A palavra final foi dirigida pelo Pe. Joaquim Dias Rebelo, Vigário Geral, que se congratulou com a iniciativa, felicitando organizadores e participantes.

No final, todos os elementos cantaram um cântico em conjunto, cuja partitura fora previamente enviada aos diretores de coro para os devidos ensaios.

O objetivo destes encontros é aumentar a partilha e a aproximação entre pessoas que professam a mesma fé e aumentar competências na transmissão da Palavra de Deus pela música e pelo canto.

in Voz de Lamego, n.º 4308, ano 85/21, de 7 de abril de 2015

HOMILIA DE D.ANTÓNIO COUTO NA VIGÍLIA PASCAL

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NA NOITE SANTA 

  1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor fez para nós! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de Alegria» (Salmo 126,3).

  1. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida florida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo, o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e não encontrámos nelas um único «não». Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não. Nós também, pois nos criaste à tua imagem.

  1. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante», segundo o belo dizer do Livro da Sabedoria (19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

  1. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável protecção. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, sem Deus, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos, não apenas roupa nova, mas também um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 36,16-28).

  1. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Baptismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

  1. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Era, na verdade, muito grande aquela pedra que barrava a entrada e a saída do sepulcro (Marcos 16,3-4). Quem a pode retirar? A pedra da morte é sempre intransponível para as nossas forças. Tem, por isso, de ser trabalho de Deus. É assim que as mulheres que vão de madrugada ao sepulcro, veem com espanto a pedra do sepulcro retirada para sempre (apokekýlistai: perf. pass. de apokylíô), e, entrando, veem, com não menor espanto, um Anjo teu vestido de branco, sentado do lado direito.

  1. A pedra muito grande retirada, no tempo perfeito, representa a porta da habitação da morte para sempre aberta. O modo passivo (passivo divino ou teológico) do verbo revela que um tal operar é coisa só Deus. O teu Anjo, «sentado», indica que tem autoridade para falar das tuas coisas. «O lado direito» é o lado favorável (Marcos 12,36; 14,62), e sugere que o teu Anjo é portador de boas notícias, vindas de Ti. A cor branca é a cor celeste (Marcos 9,3). Só de Ti e do teu Anjo pode vir este dizer com autoridade: «Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou; não está aqui (…). Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos disse» (Marcos 16,6-7). Ao mandar levar a notícia aos seus discípulos, acrescenta especificamente o nome de Pedro. É como que o reconhecimento de que o arrependimento de Pedro pela sua tríplice negação (Marcos 14,66-72) foi aceite. É quase como dizer que, ao contrário do «não conheço esse homem», de Pedro a respeito de Jesus (Marcos 14,71), Jesus manda dizer, por meio do Anjo: «mas Eu conheço-te, Pedro, e ver-me-ás de novo»! Fica ainda claro que o Ressuscitado nos precede sempre, e que, portanto, o nosso verdadeiro lugar é sempre «atrás d’Ele», pois é Ele o Caminho, e permanece sempre o único Senhor da nossa vida.

  1. À flor do texto do Evangelho de Marcos, que estamos a seguir, as mulheres atravessam dias intensos e silenciosos. Na verdade, durante o inteiro relato da Paixão e agora junto do túmulo e depois, elas não falam. Limitam-se a ver, com o verbo theôréô, que é um verbo de observação atenta e amorosa, desde a crucifixão e morte de Jesus (Marcos 15,40), passando pelo seu sepultamento (Marcos 15,47), até ao avistamento da pedra muito grande para sempre retirada (Marcos 16,4). Ouvem as notícias e as ordens do Anjo, mas continuam em silêncio, mesmo quando o Anjo as manda ir dizer. O narrador informa-nos, com rigorosa precisão, que as tinha (eíchen autás) um tremor e assombro, e a ninguém disseram nada (Marcos 16,8). Não são elas que têm tremor e assombro: elas não são o sujeito; é o tremor e o assombro que as tem a elas, experiência desconcertante e incontrolável, corporal e mental, que as afeta desde fora. Sujeito Deus. Ele é sempre o verdadeiro sujeito de cada maravilha que nos ultrapassa e nos transforma. Já hoje cantámos por duas vezes: «Minha força e meu canto é o Senhor!» (Êxodo 15,2; Isaías 12,2).

  1. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora. E o Ressuscitado, nas suas aparições ou manifestações, não mostra o Rosto. Mostra as mãos e o lado. É esta a sua verdadeira identidade: vida dada por amor, para sempre, para todos.

  1. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Baptismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Baptismal. E cada baptizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume sempre Novo e incontrolável.

  1. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte baptismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel e ardente. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

 

Lamego, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor, Vigília Pascal

+ António, vosso bispo e irmão

HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO NA PAIXÃO DO SENHOR

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  1. Amados irmãos e irmãs, foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.
  1. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cedron e entrámos no «jardim», onde não entrávamos desde Génesis 3,24. É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas, mísero sucedâneo da LUZ, e com armas (João 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, refere o relato de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). Não com Jesus, como é próprio do discípulo, mas com os guardas. Como Pedro mudou! E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).
  1. Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Marcos 14,72; João 18,1-27). Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que, depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato da negação de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o necessário relato do anunciador. É necessário, de facto, acentuar que o que habilita os anunciadores tem as suas raízes no próprio relato da Paixão, em que os futuros anunciadores aparecem claramente designados como aqueles que abandonaram Jesus, que renegaram Jesus e se perderam de Jesus. Só saberão anunciar correctamente a Ressurreição de Jesus se confessarem também até que ponto esse acontecimento da Ressurreição os transformou desde dentro, acendendo neles a Chama da Vida verdadeira. O anunciador anunciará então que Jesus morreu e que foi salvo da morte, Ressuscitou, e que o seu Perdão o reabilitou. Se o Ressuscitado o perdoou e reabilitou, então Ele está vivo, actuante e eficaz! O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Génesis 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já, antes disso, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos.
  1. Mas vejamos ainda melhor a qualidade ou falta dela do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo-Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (João 18,19-21). Impressionante e suprema ironia sermos levados a verificar que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (João 18,17.25-27).
  1. Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espectáculo da morte! Não quero que penseis, meus irmãos e irmãs, que isto são coisas do passado, e que não têm nada a ver connosco. Não. O que estou a dizer acerca deste doentio gosto pela morte passa-se hoje. Como gostamos nós de ver os nossos irmãos a atolar-se na lama! A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Salmo 35,19; 69,5; João 15,25). Sim, Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 João 4,19), quando éramos ainda pecadores (Romanos 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Isaías 2,2-4; Miqueias 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gálatas 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Colossenses 2,14).
  1. Ainda vamos a tempo de ver que, sob o olhar do Crucificado, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (João 19,23). O contraponto, estupendo, belo, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus (para tô staurô), como se ela fosse uma pessoa (João 19,25). Sim, elas não se interessam pelas coisas de Jesus; elas abraçam Jesus e levam consigo o amor de Jesus!
  1. Na Cruz, Jesus reza o salmo 22, todo, desde «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Salmo 22,2), até «Esta é a obra do Senhor!» (Salmo 22,32), que são as últimas palavras do Salmo 22, que deixam a claro que é de Deus a obra da Cruz! É assim, nos braços do Pai, que Jesus morre, sendo depois o seu corpo descido da Cruz e carinhosamente envolvido em panos de linho literalmente encharcados com 32 quilos e 800 gramas de perfume! (João 19,39), à imagem do Rei messiânico cantado no Salmo 45,9. Foi sepultado no jardim, num sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido deposto (João 19,41). O Rei é sempre o primeiro em tudo. Ninguém tinha sido sepultado naquele sepulcro novo, mas também ninguém tinha sido sepultado no «jardim», se levarmos a sério o relato de Génesis 3,24. Vem depois aquela madrugada nova da Ressurreição.
  1. Por isso, depois disso, por causa disso, os primeiros cristãos rapidamente fizeram deste Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. O Imperador Adriano (117-138) soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de afastar os cristãos. No lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).
  1. Adoremos nós também, com amor, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida.

Esta sexta-feira é Santa. Grande. Autêntica.

Vê-se Jesus exposto na Cruz por todo o lado.

Solene exposição.

Mesmo fechando os olhos, as janelas e as portas,

Tu rebentas as comportas com jatos de Luz,

E saltas as trincheiras do meu coração.

 

Vem, Senhor Jesus,

Entra pela janela dos meus olhos,

Enche todos os recantos do meu ser,

Ilumina todos os redutos,

E faz-me ver que todo o comodismo e egoísmo

É sem raiz nem flor nem frutos.

 

Irei, Senhor, em procissão de amor, beijar a tua Cruz.

E quando eu olhar para ti, para o teu rosto ferido e desfigurado,

Para as tuas muitas chagas a sangrar,

Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

Com esse meigo olhar de serena compaixão,

Dá-me a graça de ver o teu perdão nunca poupado,

E de sair com o coração transfigurado.

Lamego, Sexta-Feira Santa, Celebração da Paixão do Senhor, 03 de Abril de 2015

+ António, vosso bispo e irmão

(foto: solenidade de São Sebastião, 20 de janeiro de 2015)

HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO NA MISSA DA CEIA DO SENHOR

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  1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Segundas Vésperas de Domingo), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.
  1. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos semi-nómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa nocturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens. Com os hebreus, no Egipto, conforme o colorido relato do Êxodo que hoje Deus nos deu a graça de ouvir (Êxodo 12,1-14), sedentarizámos e actualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores semi-nómadas de Israel, e aprendemos a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, aprendemos a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos filhos no Filho (Bento XVI, Verbum Domini, n.º 50), aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que nos diz: «Toda a terra é minha, e vós sois, para Mim, estrangeiros e hóspedes», como se pode ler no Livro do Levítico 25,23.
  1. É aí que estamos todos, meus amados irmãos e irmãs. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, sentados, tranquilos, felizes, hospedados. E é somente aí e daí, que podemos compreender o grande Capítulo 13 do Evangelho de S. João, que Hoje ouvimos nos nossos ouvidos, e que relata em vez da Ceia Primeira um lava-pés. Ceia Primeira, e não Última, porque nós continuamos à Mesa (o que é este Altar?) a celebrar esta Ceia (o que é este Pão e este Vinho?). E a recomendação atenta de S. Paulo, que nos lembra que nós continuamos a comer este Pão e a beber este Vinho sempre novo: «Sempre que comerdes deste Pão e beberdes deste Cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Coríntios 11,26). Anunciar a morte do Senhor não é, todavia, entristecer-nos, chorar ou vestir de luto. Não é esta a vocação cristã. É preciso compreender, e é o que S. Paulo nos quer dizer, que anunciar a morte do Senhor é anunciar a Dádiva da Vida por amor, para sempre e para todos!
  1. Mas é à Mesa que estamos, meus amados irmãos e irmãs, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de Hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar, paradigmático e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», entre «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não tens parte comigo!» (João 13,8).
  1. «Ter parte com» Cristo é participar no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida em abundância, a transbordar. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos.
  1. Digamos tudo outra vez, seguindo passo por passo este imenso Capítulo 13 do Evangelho de S. João: no v. 4, Jesus DEPÕE o manto, com o mesmo verbo com que, em João 10,17, Jesus DEPÕE a vida; no v. 12, Jesus RECEBE o manto, com o mesmo verbo com que, no mesmo João 10,17, Jesus RECEBE a vida. No v. 4, DEPÕE o manto ou a vida. No v. 12, RECEBE o manto ou a vida. No v. 8, que é o centro geométrico e teológico entre 4 e 12, Jesus lava os pés a Pedro, e diz-lhe: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo». Entenda-se bem: «Se não te lavo, Pedro, não participarás da minha vida Dada e Recebida em abundância». Compreenda-se então que este Lava-pés não é um simples gesto de humildade por parte de Jesus. Este Lava-pés é a verdadeira ordenação sacerdotal dos discípulos de Jesus! Sim, os discípulos de Jesus têm de saber que é dando a vida por amor, para sempre e para todos, que se recebe a vida em abundância.
  1. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer revelatório ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus amados irmãos e irmãs, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o como se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.
  1. Que o único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo, nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Deus,

Sabe a pão,

Sabe a alegria,

Sabe a Eucaristia!

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a amor,

A dádiva da vida,

A uma lágrima comovida.

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Ceia e a Jesus,

Luz grande que incendeia

As trevas do coração,

E faz nascer amor e comunhão.

Lamego, Quinta-Feira Santa, Missa da Ceia do Senhor, 02 de Abril de 2015

+ António, vosso bispo e irmão

HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO NA MISSA CRISMAL

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AOS OMBROS E NO CORAÇÃO 

  1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu», diz Isaías (61,3), reconhecendo nesta unção a nova e bela missão da graça e da liberdade e da alegria e da consolação que Deus agora lhe confia. Sim, a razão desta missão da alegria por Deus confiada a Isaías reside na unção que lhe é feita: «porque o Senhor me ungiu». E, para o ungir, Deus tem de se aproximar tanto de Isaías, que tem de tocar em Isaías! Esta proximidade de Deus, que toca no barro de Isaías e lhe comunica o seu alento, é o segredo da vida de Isaías e da nossa vida!

  1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu», repete Jesus na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18), assumindo sobre si a unção e a nova e bela missão de Isaías. Jesus levantou-se para fazer a leitura litúrgica (anaginôskô), e sentou-se para fazer a homilia. E «Os olhos de todos», informa o narrador, «estavam fixos (atenízô) nele!», num misto de espanto, de encanto e de esperança (Lucas 4,20). Esta anotação sobre os olhos, se bem que importante, não pode distrair-nos do essencial. De facto, na breve e intensa homilia que profere, é para os ouvidos que Jesus aponta, pois diz somente: «Hoje foi plenificada (peplêrôtai: perf. pass. de plêróô) (passivo divino ou teológico!) esta Escritura nos vossos ouvidos» (Lucas 4,21).

  1. Condensação e hipérbole do tempo e da Escritura. O tempo deixa de ser o fio tecido e a tecer de chrónos, o fio dos dias e dos anos a fio, para se concentrar neste único Hoje (sêmeron), termo técnico, clássico, nas homilias dos Padres gregos, em que cai sobre nós, como um relâmpago, uma vertigem, a Palavra toda de Deus, não nos deixando também senão este único Hoje para responder! Tudo Hoje e Aqui. É este vinco na página, esta dobra, esta mão-cheia de tempo, apenas esta mão-cheia de tempo, que se chama kairós, tempo da graça. Entenda-se: tempo da Revelação de Deus e da nossa resposta. Hoje esta Escritura encheu os vossos ouvidos, diz Jesus, impedindo-nos de continuar a ver os episódios à distância, «naquele tempo»! Em vez de «naquele tempo», é Hoje, entre nós, que tudo se passa. Interessante ainda que esta Escritura não seja uma página para os olhos, mas uma Palavra para os ouvidos! A vocação desta página única são os ouvidos do discípulo todas as manhãs por Deus desobstruídos (Isaías 50,4-5) ou por Deus escavados, como se de um poço se tratasse, até que em nós nasça água limpa (Salmo 40,7). De forma significativa, a lição da Carta aos Hebreus traduziu ou «ouvidos escavados» do Salmo por «formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). Entenda-se: para eu pôr a minha vida completamente ao serviço de Deus.

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  1. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu». É assim também que nós Hoje, caríssimos sacerdotes, submersos pelo Espírito, reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade Sacerdotal e Diaconal, à maneira de Jesus Cristo. É mesmo a única maneira de nós podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isaías e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres.

  1. «Encontrei o meu Servo David, e ungi-o com o meu óleo santo», cantávamos com o Salmo 89,21. Encontro e unção do rei segundo o coração de Deus (1 Samuel 13,14). Mas também o sacerdote era ungido com o azeite santo, como é dito de Aarão num belo poema artisticamente construído em cascata, e que diz: «Como é bom, como é belo, viverem unidos os irmãos. É como azeite do bom sobre a cabeça, descendo pela barba, a barba de Aarão, descendo sobre a boca das suas vestes» (Salmo 133,1-2).

  1. Olhamos para o texto, e vemos o azeite de oliveira, perfumado com mirra, cinamomo, cálamo e cássia (Êxodo 30,22-33), a encharcar a cabeça e o cabelo de Aarão, a descer pela barba, e sobre a boca das vestes… A escrita é meticulosa e quer que se veja o azeite, não a descer pelo pescoço, mas por fora, encharcando o humeral (ʼephod), uma espécie de roquete que desce sobre os ombros, e, descendo sempre, encharca depois o peitoral (hoshen), bolsa quadrada, com 25 cm de lado, aplicada sobre o humeral, cobrindo o peito. Sim, quem escreve interessa-se que o azeite encharque o tecido que está sobre os ombros e sobre o peito do sacerdote. Sim, porque nas duas fitas do humeral que estão sobre os ombros, traz o sacerdote incrustradas duas pedras de ónix, uma sobre cada ombro, cada uma gravada com seis nomes das doze tribos de Israel (Êxodo 28,1-14). E, sobre o peito, no peitoral, traz o sacerdote doze pedras preciosas diferentes, dispostas em quatro camadas de três pedras cada uma, e em cada uma das pedras está gravado o nome de uma das doze tribos de Israel (Êxodo 28,15-30), que aparecem assim irmanadas, como se fosse uma jóia em unidade harmónica. Extraordinária simbologia! O sacerdote carrega aos ombros (Êxodo 28,12) e leva sobre o coração (Êxodo 28,29) todos e cada um dos filhos de Israel, todos e cada um dos filhos de Deus! É assim que se vê bem a missão do sacerdote. Mas vê-se igualmente bem que se trata de um povo todo ungido, todo sacerdotal, diaconal e aromático.

  1. Dizia bem a lição do Livro do Apocalipse: «Graça e paz […] da parte de Jesus Cristo, Aquele que nos ama, que nos libertou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um Reino de Sacerdotes» (Apocalipse 1,4-6), respondendo e cumprindo a lição do Livro do Êxodo 19,6, em que Deus dizia, com o verbo no futuro: «Farei de vós um Reino de Sacerdotes».

  1. Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes. Sim, somos um presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, e em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bemóis, porque Deus estava com Ele (Actos 10,37-38), porque Deus tocava nele, porque nele se tocava em Deus. Se o Ungido é Cristo, então nós somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, então a referência da nossa maneira de viver terá de ser também sempre Cristo. Temos, então, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; Gálatas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona Christi Capitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal, à maneira de Jesus.

  1. Mas também vós, caríssimos Fiéis Leigos, baptizados e crismados, sois, na verdade inteira, outros Cristos, porque fostes também Ungidos com o óleo do Crisma, que recebe o seu nome de Cristo. Cristo significa Ungido. Crisma significa Unção. Também vós, amados Fiéis Leigos, fostes Ungidos na fronte, no Baptismo e na Confirmação, com o óleo do Crisma. Além de Ungidos na fronte, no Baptismo e na Confirmação, os Sacerdotes foram ainda Ungidos nas mãos com o mesmo óleo do Crisma, e o Bispo foi-o ainda na cabeça. Também as igrejas e os altares são ungidos com o óleo do Crisma no dia da sua Dedicação.

  1. Mas não podemos ficar só pelo exterior – a fronte, as mãos, a cabeça –, e pelo pouco óleo, tão pouco que mal se vê e mal se sente, com que costumamos fazer esta Unção. Quando lemos, na Bíblia, relatos de Unção com óleo, por exemplo, quando Samuel unge Saul (1 Samuel 10,1) ou David (1 Samuel 16,13), ou quando admiramos a bela cascata do Salmo 133, que canta a unção sacerdotal, constatamos logo que anda ali demasiado óleo perfumado, de modo a encharcar os cabelos, os vestidos e a regar ainda o próprio chão. Somos então levados a perguntar: porquê tanto óleo, se acaba por escorrer e se perder no chão? E a resposta é: derramando tanto óleo na cabeça, vê-se que ficam empapados os cabelos, os vestidos, e acaba por escorrer para o chão. Mas o povo bíblico vê ou compreende ainda mais, muito mais, e é para este «mais» que é preciso chamar ainda a atenção. O povo bíblico compreende ainda que desse muito óleo em grande quantidade derramado na cabeça, uma parte entra para dentro da cabeça, e vai banhar o interior do homem, vai banhar o coração, a alma e as entranhas.

  1. Aí está então a verdade da Unção com o óleo do Crisma que fazemos na fronte, nas mãos ou na cabeça. Na verdade, é no coração que somos Ungidos. E se a Unção feita na fronte, nas mãos ou na cabeça pode sempre ser lavada com um pouco de água e sabão, a Unção feita no coração é indelével, imprime carácter, não pode mais ser apagada. É assim, amados irmãos Ungidos no coração, que não podemos mais deixar de ser quem somos, outros Cristos: eu, bispo; vós, sacerdotes; vós, diáconos; vós, fiéis leigos.

  1. É este óleo do Crisma, com que todos somos ungidos no coração, identificando-nos assim com Cristo, que vai ser, nesta Missa Crismal, confeccionado e consagrado pelo Bispo, com o testemunho e cooperação dos Sacerdotes. Vão igualmente ser benzidos o óleo dos enfermos, destinado a servir de remédio e de alívio aos doentes, e o óleo dos catecúmenos, destinado a preparar e dispor os catecúmenos para o Baptismo.

  1. O óleo do Crisma que vamos consagrar, e os óleos dos enfermos e dos catecúmenos que vamos benzer, constituem, no meio de nós, um autêntico manancial ou programa de vida. Igual ao de Cristo. Outros Cristos, Ungidos no coração, para levar o anúncio do Evangelho a todos os nossos irmãos. Se somos outros Cristos, Ele está connosco, em nós, no meio de nós. A messe e a plantação são d’Ele. A Ele a honra, a glória e o louvor para sempre. Ámen.

Lamego, Quinta-Feira Santa, Missa Crismal, 02 de Abril de 2015

+ António, vosso bispo e irmão

(FOTOS: Missas Crismal 2012)

5.ª Conferência Quaresmal de D. António: Uma vida com mais amor

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(Foto da Visita Pastoral de D. António Couto à Penajóia)

Uma vida com mais amor, graça e Deus

As programadas cinco conferências quaresmais ficaram concluídas no passado domingo. Ao longo de cinco semanas, de forma consecutiva, D. António Couto esteve na Sé para nos falar de Deus e nos convidar a um seguimento atento e contínuo. Aqui fica mais um breve relato, na esperança de, em breve, podermos usufruir da integralidade de tais catequeses.

A Quaresma é uma oportunidade para crescer diante de Deus, protagonizando sentimentos e gestos que denotem vontade em querer imitar Jesus Cristo, que viveu de forma radical o seu amor pela humanidade, não fazendo acepção de pessoas e doando a sua vida por todos. E como é difícil conjugar e concretizar, na primeira pessoa, um amor completamente gratuito que não actua em função do benefício esperado, mas apenas pela satisfação própria de fazer o bem!

Para nos ajudar nessa reflexão, D. António Couto partiu de três “ensinamentos” rabínicos…

a) Os três amigos

Um homem tinha três amigos, a quem distinguia hierarquicamente, segundo o “tempo gasto” com cada um: com o primeiro existia uma proximidade muito grande, sendo a grande referência, o mais íntimo e inseparável; o segundo era um amigo com quem confraternizava de vez em quando; o terceiro, e último, era alguém que só raramente via.

Um dia, este homem recebe uma intimação para se apresentar diante do rei. Aflito, sem saber como apresentar-se e com medo de ir sozinho, recorre aos amigos citados: o mais íntimo, o primeiro, desculpa-se, dizendo que estará sempre com ele, menos nessa ida ao rei; o segundo afirma-se com alguma disponibilidade, mas avisa-o que só o acompanhará até à porta; o terceiro, aquele que raramente encontrava, foi o que se prontificou de imediato para o acompanhar.

Interpretação: o homem é cada um de nós; o rei que convoca é Deus; o momento para esse encontro é a morte; o primeiro amigo são todas as ocupações e preocupações, que nos acompanham, mas que desaparecem na morte; o segundo são os familiares e amigos, que acompanham, mas ficam à porta do cemitério; o terceiro é o bem, as boas obras, o amor gratuito, que acompanham para a eternidade.

Conclusão: às vezes é preciso reescalonar ou até inverter a ordem dos amigos, porque só o amor puro, que não se vive para receber algo em troca, é decisivo. Tal como no-lo recorda S. Paulo: tudo passa, só o amor permanece.

b) O morto e o ferido

Um mestre, aquando de um ensinamento sinagogal, desafia os seus discípulos a responderem à questão: “no caminho, diante de um homem já cadáver e de um homem ferido, qual socorrer primeiro?”. A resposta foi unânime: o ferido!

Mas o mestre corrige: primeiro o morto, porque esse não poderá “pagar” o bem feito e, por isso, o bem assim praticado é sem retorno, desinteressado!

c) Resumo da lei

Uma terceira situação, também na Sinagoga, é protagonizada por alguém que coloca uma mesma questão a dois mestres, um mais conservador e fechado e outro mais liberal e aberto. O desafio feito aos mestres consistia em resumir a Lei enquanto o individuo aguentava assente apenas em um dos pés. O mais conservador reage expulsando quem pensa que a Lei poderia ser resumida de forma tão breve. O outro respondeu enunciando a chamada “regra de ouro”: não faças ao outro o que não queres que te façam a ti.

Uma formulação negativa que, aparentemente, não será difícil de cumprir: basta cruzar os braços e nada fazer!

A novidade de Jesus Cristo

Os evangelhos enunciam esta regra, formulando-a positivamente: faz aos outros o que queres que te façam a ti! Já não é suficiente cruzar os braços, ficar à defesa.

Mas estas duas formulações padecem de um mesmo vício: a autorreferencialidade do homem e a perspectiva de uma recompensa (negócio) diante do bem praticado, diminuindo a gratuidade. Ainda neste domínio, a fórmula “ama o teu próximo como a ti mesmo” permite sair do raio de ação do verbo “fazer”, mas não livra do mesmo perigo da autorreferencialidade, na medida em que sou a medida desse amor. E, se alguém não se ama, também não saberá amar o outro!

Jesus apresenta e protagoniza a novidade que permite ultrapassar tal perigo: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. E Jesus amou até ao fim, dando a vida, vivendo um amor sem medida, doando a vida gratuitamente. Trata-se de um amor radical. Vivido de forma incondicional, sem esperar nada em troca, pura gratuidade.

Diante de tais ensinamentos, confrontados com a caminhada quaresmal, que se pretende ascendente, nunca será inoportuno que cada um se questione no sentido de saber como vive tal amor incondicional, puro e gratuito.

Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, n.º 4306, ano 85/19, de 24 de março de 2015

4.ª Conferência Quaresmal de D. António: Ser discípulo de Jesus

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Por caminhos da Galileia até Jerusalém

Ser discípulo de Jesus

Foi este o tema apresentado pelo nosso Bispo na Conferência quaresmal do dia 15 do corrente. Com a Sé a abarrotar de gente, muitos à espera da Procissão do Senhor dos Passos que seguiria da Sé para a Igreja da Graça, na paróquia de Almacave, outros para ouvirem a palavra do Senhor D. António Couto e, depois, se integrarem na mesma Procissão; mas todos juntos ouviram com interesse a palavra do Senhor Bispo, que pôs diante de nós um tríptico tão instrutivo como simples de entender sobre o modo de mostrar que somos discípulos de Jesus.

Sob o signo do caminho, fomos convidados a olhar aquele que Jesus percorreu para ir da Galileia até Jerusalém, numa decisão por Ele tomada e que não dava a possibilidade de voltar atrás. «O rosto duro» com que Jesus iniciou a caminhada e que fazia lembrar a palavra de Isaías na descrição do «Servo do Senhor», indicava a dificuldade que Jesus encontraria na Cidade, mas não deixava de ser ocasião para alguns quererem tomar o mesmo caminho, indo com Jesus,

Assim nos aparecem as figuras do que quer seguir Jesus, mas a quem Ele responde que «o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça»; a dos que são chamados, mas querem ir sepultar seu pai ou despedir-se de toda a família e a quem Jesus diz a palavra «segue-Me» ou então «quem põe as mãos no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus».

Ser discípulo de Jesus

Discípulo é o enviado, o que se aproxima dos outros que dele precisam e os que ouvem a Sua palavra. Personificados nos que Jesus enviou, dois a dois aos lugares onde Ele havia de ir, no samaritano e em Maria, irmã de Marta e de Lázaro, foram caracterizados por Jesus como os que Ele veio procurar e ensinar para serem Seus verdadeiros discípulos.

Enviados sem saco ou alforge às costas ou sandálias nos pés, levavam consigo o «Evangelho da Alegria». «Assim partem de Jesus, que os envia, e voltam a Jesus, cheios da Alegria» de que foram transportadores e anunciadores: o seu ponto de referência foi Jesus.

O segundo quadro do tríptico andou à volta da parábola do samaritano. Um homem ferido e abandonado à beira do caminho; roubado e espancado, ali ficou como «meio morto»; sem nome, como aqueles que por ali passaram, houve quem passasse ao lado, mesmo tendo-o visto e com necessidade de ajuda; vendo-o, passaram para o outro lado do caminho e seguiram em frente.

Passou também um samaritano, aproximou-se para ver e logo pôs em acção a sua capacidade activa, criativa: tratou-o como pôde e levou-o à estalagem próxima, dizendo ao hospedeiro: «cuida dele e o que gastares a mais, repor-to-ei quando voltar».

Figura central na doutrina de Jesus, é a aproximação ao irmão, para ver melhor o que podemos e devemos fazer.

O terceiro quadro do tríptico leva-nos a Betânia, a casa de uma família amiga de Jesus, mas onde há possibilidades e necessidades de trabalho e atenção ao Mestre que chega. Marta pensa logo na refeição e depressa se queixa a Jesus, de que a irmã não faz nada; Maria, sentada, pensa em ouvir a palavra de Jesus. Conhecemos bem o diálogo da ocasião, com Jesus a ensinar que o verdadeiro discípulo «escolhe a BOA parte, que não lhe será tirada».

Quem é, então, o verdadeiro discípulo de Jesus? O que é enviado, o que se aproxima, o que ouve. Assim faz caminho para Jerusalém, caminho da Páscoa, caminho da Ressurreição. Hoje o nosso caminho, podemos nós dizer também.

Senhor dos Passos

Foi do nosso Bispo a palavra de oração com que terminou a conferência deste Domingo e que damos a conhecer aos nossos leitores:

«Senhor Jesus,

Senhor dos Passos

Serenos e seguros na caminho da vida e da Paixão,

Da Ressurreição.

 

Senhor Jesus

Senhor dos Passos

Sossegados e firmes, Resolutos,

Até à porta do meu coração.

 

Senhor Jesus,

Senhor dos Passos,

Dos meus e dos teus,

Finalmente harmonizados,

Finalmente lado a lado,

Os meus, atravessados pela tua Paixão

Os teus, sincronizados pelo pulsar do meu coração.

 

Sim,

Eu sei que foi por mim que desceste a este chão

Pesado, íngreme, irregular,

De longilíneas lajes em que é fácil escorregar.

 

Senhor Jesus,

Deixa-me chegar mais um pouco junto de ti,

Chega-te tu também mais junto de mim.

Segura-me.

Dá-me a tua mão firme, nodosa e corajosa.

Agarro-me.

Sinto sulcos gravados nessa mão.

Sigo-os com o dedo devagar

Percebo que são as letras do meu nome.

Foi então por mim que desceste a este chão.

O amor verdadeiro está lá sempre primeiro.

 

Obrigado, Senhor Jesus,

Meu Senhor, meu Irmão e companheiro.»

Pe. Armando Ribeiro, in Voz de Lamego, n.º 4305, ano 85/18, de 17 de março de 2015

3.ª Conferência Quaresmal de D. António: Vai, a tua fé te salvou!

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Trilhar com ousadia o caminho de Jesus

Vai, a tua fé te salvou!

No final da sua visita pastoral às paróquias da cidade de Lamego, D. António Couto, apresentou mais um tema nas suas “Catequeses Quaresmais”. Fez uma breve retrospectiva da sua visita às duas paróquias da cidade e entrelaçou-a com alguns temas apresentados nas anteriores catequeses.

O cego de Jericó

O episódio oferecido na reflexão deste dia  é retirado de Mc 10, 46-52. Jesus vai a sair da cidade de Jericó e encontra um cego (Bartimeu) à beira do caminho que lhe suplica: Jesus, Filho de David, “faz-me graça”, “faz de mim um homem novo”, “recria-me, “embala-me nos teus braços maternais”… Chamai-o… Ele chama-te. E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus… Que queres que eu te faça? Mestre que eu veja! vai, a tua fé te salvou! E ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho. Jesus passa pelas pessoas e pára junto delas, dá-lhes atenção! Não passa à frente, com indiferença! E neste episódio Ele fica ao nível do cego, que estava à beira do caminho que seguia para Jerusalém. O gesto de acolhimento de Jesus e o convite para que o cego venha até Ele, provoca uma reação de total drespendimento e de liberdade ao ponto de deixar para trás a capa ou o “manto” que tinha para se envolver e depositar as moedas que lhe davam. Nada disso mais interessa. O que importa é aproximar-se de Jesus e fá-lo de modo radical, “tudo o que carrega” fica esquecido, não faz falta.

Jesus permite e quer que o cego diga o que quer, tal como “quer que nos digamos a nós”, “o que nos vai na alma e no coração”.

Os bons lugares

Aqui D. António estabelece um paralelismo e compara a “atitude radical”, decidida, corajosa, confiada, desprendida, do cego Bartimeu, no seguimento de Jesus, associando-lhe idêntica atitude de algumas pessoas que surgem no mesmo Evangelho de Marcos: a oferta da viúva pobre que deu tudo o que possuía, “deu a sua vida toda”, Mc 12, 41-44; e a mulher que vai ter com Jesus e derrama em sua cabeça todo o seu caro perfume que tinha, o frasco ficou partido, nada sobrou ou pode aproveitar-se, mas foi todo derramado na cabeça de Jesus Mc 14, 3-9; numa atitude bem diferente e contrastante estão outras personagens, algumas delas muito relevantes quanto à proximidade a Jesus, como é o caso dos Filhos de Zebedeu (Tiago e João), que querem um lugar bom, importante, “de quem está sentado”; a ambição dos melhores lugares, dos lugares principais. “Os outros dez começaram a indignar-se”… por inveja, porque também eles querem o mesmo, os lugares importantes! O mesmo pensava e ambicionava Pedro, esperando recompensa por terem deixado tudo para O seguir, mas com interesses, com cálculos… Bem diferente é a atitude do cego!

Neste grupo de “calculistas”, dos que não arriscam tudo para seguir Jesus, encontramos o “homem rico” que, não obstante cumprir os mandamentos, tem o seu coração preso ao dinheiro e às riquezas… (tal como os negociantes do Templo) e preferiu não seguir Jesus pelo caminho! Podemos ainda incluir neste “clube de meias medidas” a figueira que só tinha folhas, que não dá fruto, pois não era tempo de  figos. Jesus secou-a completamente para nos dizer que “a nossa fé não pode ser de épocas ou de estações”, e que a nossa vida deve ser, toda ela, tempo de fé com frutos.

Com o coração aberto

Hoje somos nós convidados a trilhar com ousadia o caminho de Jesus, sem medo. Para seguir verdadeiramente Jesus não há outra ou outras atitudes que não seja esta a do CEGO DE JERICÓ, da MULHER QUE UNGIU JESUS em Betânia e da VIÚVA POBRE. Todos os outros personagens permanecem à beira do caminho parados e fixados apenas na busca desmedida da satisfação das suas “paixões, ambições e instintos” que não deixam ser homens novos e livres; não sejamos cegos pelo ciúme e pela inveja, sacrificando todo bem que poderíamos ter e dar à ambição do dinheiro e ao poder, ao prestígio, aos “bons lugares”. Também nós podemos cair neste erro e tentação… esforcemo-nos por “atirar fora tudo o que pesa”, aquilo que não nos deixa avançar pelo caminho com Jesus, de forma “corajosa”, “destemida”, “decidida”, “descarada” e “desavergonhada”… não aconteça que, embora vendo, sejamos nós os cegos, que não vêem os outros “com o coração aberto”, livre, generoso  e disponível para ouvir o desafio e convite de Jesus que me diz mim e que te diz a ti: VAI! IDE!

Pe. Vasco Pedrinho, in Voz de Lamego, n.º 4304, ano 85/17, de 10 de março de 2015

2.ª Conferência Quaresmal de D. António: A chama que chama

Conferencia na Sé

Rumo à ternura de um coração atento e fraterno

A chama que chama

A igreja-catedral acolheu os participantes para a segunda conferência quaresmal protagonizada pelo nosso bispo, D. António Couto, que, nessa manhã, ali presidira à Eucaristia, encerrando a visita pastoral que, na última semana, havia feito a esta paróquia de Nossa Senhora da Assunção da Sé.

Se a figura do profeta Jonas nos havia acompanhado no domingo anterior, nesta semana todos foram convidados a olhar para Moisés, esse judeu africano salvo das águas do Nilo graças ao amor da mãe, à vigilância da irmã e ao engenho maternal na feitura de uma cesta resistente. Uma cesta que atravessa as águas, qual arca que protege a humanidade do dilúvio, e leva o seu ocupante para uma nova margem, um mundo novo, um tempo de graça, deixando para trás o velho, o que estorva, a desgraça…

Sob o olhar atento de Deus

Tudo acontece sob o olhar atento e carinhoso de Deus que vela e permite que se passe de um lado para o outro, da dureza de um coração empedernido para a ternura de um coração atento e fraterno. Porque, para o crente, não existe ocaso, mas providência: Deus vela pelas suas criaturas.

E se o olhar de Deus nos protege e tranquiliza, a verdade é que também nos interpela e envia: é preciso velar pelo outro. Por isso, o tempo da Quaresma é uma oportunidade para o cristão exercitar a proximidade, tornando-se o irmão e a irmã que velam e cuidam do outro, ajudando-o a atravessar a dificuldade e a manter-se à tona. Cada cristão pode e deve ser para o outro o “apoio firme e necessário”, concretizando, no mundo de hoje, o olhar paternal e maternal de Deus.

Viver e construir a fraternidade é o desafio de hoje e de sempre, enfrentando um mundo egoísta e obscuro. E como é urgente o testemunho para sair deste ocaso e deixar a “lareira sem lume”, onde já só há cinza que não aquece nem se torna referência no frio e no escuro! “É bom e belo sentir o olhar dos irmãos e formar família; é bom e belo sentir a mão do irmão e viver em comunhão”.

A missão do cristão é “atravessar a indiferença, a solidão, o vazio e fazer brilhar as cores do céu”, contrariando o sentimento de orfandade sem luz e sem esperança que experimentam os que vivem sem Jesus. A humanidade, indiferente e só, órfã de Deus, precisa da mão do irmão para chegar a Deus.

E este esforço não se concretiza sem proximidade. Por isso, diz-nos D. António Couto, “tens que te aproximar do outro para que ele te sinta como irmão”. Foi o que fez Jesus: desceu à humanidade, fez-se irmão, pegou pela mão, lavou o coração…

Uma chama que chama

A Sagrada Escritura oferece-nos o exemplo de Moisés que vive a sua vida em torno de uma missão: contempla os seus irmãos e o seu sofrimento, acerca-se de Deus e aceita ser enviado para conduzir o povo à terra prometida, quando apascenta o rebanho do sogro e, no Horeb, se encontra diante da sarça-ardente (Ex 3, 1-4). Moisés é capaz de ver o que outros não viram, graças ao olhar curioso e à ousadia para afastar-se do habitual, permitindo-se contemplar a novidade. É este “olhar de criança”, ávido pela novidade, curioso e simples que se deixa encantar e se deslumbra com os porquês que Jesus nos recomenda.

Tudo começa numa “chama que chama” e à qual Moisés responde: “estou aqui”. O lume ardia no coração de Moisés, tal como no coração dos que caminham desanimados para Emaús (Lc 24, 13-35) ou no do profeta Jeremias (Jr 20, 9). Um lume que arde interiormente, a que não se pode fugir porque é constitutivo da pessoa. Uma sarça que continua a alimentar-nos nesta travessia quaresmal, quando nos decidimos a queimar as gorduras do egoísmo, e nos devolve a pureza infantil.

Não vivemos na orfandade

Tal como ontem, Deus olha a realidade que atormenta o seu povo (Ex 3, 7-8) e liberta-o, guiando-o para uma terra nova, uma nova margem. Eis-nos diante de um “Deus em saída”, parafraseando o convite papal à Igreja, que vê, ouve, sente e vem visitar-nos “no nosso chão”. Deus interessa-se por nós e, por isso, não vivemos na orfandade.

E diante das dificuldades observadas e clamores, Deus não responde alguma coisa, mas alguém. Partindo desta evidência, fácil se torna concluir que, também hoje, diante do sofrimento, da escuridão, do vazio, da falta de sentido para a vida, diante da indiferença, num mundo sem Deus, a resposta divina continua a não ser alguma coisa “mas alguém”. A resposta somos nós, os enviados por Deus a este mundo desencantado que vive na solidão e na escuridão e que precisa de um irmão para sair da indiferença.

E o nosso bispo concluía com um voto, em jeito de prece: “Que o Senhor da Messe nos encontre comprometidos, comovidos, fiéis e disponíveis” para ajudar o outro a chegar à nova margem, a chegar a Deus!

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, n.º 4303, ano 85/16, de 3 de março de 2015

Conferência Quaresmal de D. António Couto, na Sé Catedral

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ATENÇÃO PARA ESCUTAR DEUS E CONHECER OS IRMÃOS

 

Cumprindo o programado no Plano Pastoral Diocesano, D. António Couto esteve na Sé para dirigir aos fiéis diocesanos a sua primeira conferência quaresmal, que também poderia chamar-se catequese quaresmal, no sentido de que alguém nos fala de Deus e nos ensina o caminho para chegar até Ele e aos irmãos.

Após uma breve introdução e saudação feitas pelo pároco da Sé, Cón. José Manuel Ferreira, a assembleia entoou um cântico e preparou-se para escutar o Pastor da diocese, recém-chegado da visita pastoral às paróquias de S. Sebastião de Bigorne e de S. Nicolau de Pretarouca, no arciprestado de Lamego.

Da banalidade insensível à beleza divina

A conferência, primeira das cinco programadas, incidiu sobre a necessária atenção para escutar Deus e conhecer os irmãos. Porque sem a atenção devida, Deus e os seus desígnios e convites podem permanecer desconhecidos, assim como a vida do outro, com as suas circunstâncias, pode permanece estranha. E será essa atenção que permitirá, no dizer do conferencista, “passar da banalidade insensível e da indiferença para a beleza divina no rosto de quem vem até nós”. Decorrente da atenção a Deus estará sempre a atenção ao outro, a quem somos convidados a mostrar o caminho, avisando dos perigos e incentivando nas dificuldades, para que a “porta do sentido da vida” não permaneça fechada e se mantenha aberta a porta do amor.

Um esforço que não se esgota num momento, mas que deve ser contínuo e marcar “viagem da nossa vida”, (duração expressa no número quarenta), uma viagem intransitiva nem sempre livre da rigidez que só perturba e que, nas palavras do Papa, contribui para a “globalização da indiferença”. Eis um dos objetivos da Quaresma, “desinstalar vícios e instalar a verdade, o amor e a justiça” que dignifiquem quem os vive e deles beneficia.

Mas a atenção ao outro não se esgota diante do que se diz, mostra ou pede, mas concretiza-se também quando se esforça para intuir e perceber as perguntas e os pedidos que o mesmo não ousa formular. Sem atenção e tempo, tudo pode ficar escondido e a mudança e o auxílio podem não surgir oportunamente.

Esta atenção, devida e vivida perante Deus e o outro, contribui para que a nossa presença no grupo ou na comunidade eclesial seja proveitosa, muito diferente de uma presença para “passar o tempo”, aumentando significativamente a nossa “responsabilidade da prática religiosa”.

Atravessar para convidar

A propósito da visita pastoral às 24 paróquias do arciprestado que está a decorrer, D. António lembrou a missão do profeta Jonas, enviado aos ninivitas para os convidar à conversão. Uma missão cumprida em três dias e com resultados práticos em quarenta. Jonas, cujo nome se pode traduzir por “pomba” é enviado a uma cidade estrangeira para anunciar a novidade de uma vida que desponta quando se estabelece a necessária sintonia e responsabilidade para com Deus e para com os outros.

A visita pastoral às duas paróquias da cidade, Santa Maria de Almacave e Nossa Senhora da Assunção da Sé, levará quinze dias, mais do que os gastos em Nínive, mas com o mesmo desejo: convidar os paroquianos e demais residentes a descobrirem a novidade que Deus a todos oferece. Uma vida nova que se apresenta bela, mas frágil, tal como frágil era a arca que protegeu Noé do dilúvio e Moisés do afogamento no Nilo.

A nossa vida é como um ramo novo, frágil e tenro, de onde é preciso retirar as “folhas amarelecidas”, a tal indiferença que, no dizer do Papa Francisco, está hoje globalizada.

Convite à participação

Referir a profundidade com que habitualmente D. António Couto trata cada tema, bem como a arte poética e musical com que dispõe as palavras, escritas ou ditas, é já um refrão conhecido. Respeitando a vontade do autor, certamente que também estas conferências poderão vir a ser publicadas ou largamente divulgadas, para proveito de todos e única forma de a todos dar a conhecer a singularidade do que na Sé se ouviu no domingo passado, às 17h00.

No próximo domingo terá lugar a segunda conferência, no mesmo horário e local. Fica o convite pelo muito que se pode aprender e crescer em Igreja.

Joaquim Dionísio, a publicar na Voz de Lamego, n.º 4302, ano 85/15, de 24de fevereiro de 2015