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Homilia de D. António Couto na festa do Sagrado Coração de Jesus

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(Imagem de Arquivo)

CORAÇÃO PARA SEMPRE ABERTO

  1. Passa hoje, no calendário litúrgico desta sexta-feira, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que assinala a presença viva, próxima e intensa de um amor sublime e de uma esperança nova, refletida no rosto, no coração e no horizonte de cada ser humano. Esse horizonte novo brota do coração aberto de Jesus Cristo, fogo ardente de amor e de sentido que enche de luz os nossos passos, tantas vezes andados na penumbra e no escuro. São Paulo diz bem aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Jesus Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). A questão, entenda-se bem, já não é apenas viver sem Deus, no desconhecimento (agnôsía) de Deus. É viver sem Deus no mundo, no meio de nós, pertinho de nós, connosco. Sim, se repararmos bem, sem a presença de Deus no mundo, também a nossa habitação fica desabitada, uma espécie de câmara escura, e fica sem sentido a nossa vida. Sem Deus no mundo, pode haver apenas pequenas e inúteis deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.
  1. Com Deus no mundo, muda tudo. É o céu que desce à terra, é o Último que enche de sentido o penúltimo. Fica habitada a nossa habitação, e um sentido novo rebenta o nosso escuro duro. Sim, o coração aberto do Deus humanado enche-nos de luz e de esperança. Enche-nos de Jesus, de cujo lado aberto saiu sangue e água (João 19,34): o sangue do Cordeiro que assinala as umbreiras das nossas casas (Êxodo 12,22-23) e lava as nossas túnicas brancas (Apocalipse 7,14); a água, que é o Espírito Santo, que vem para nós da humanidade crucificada e glorificada de Jesus, e alumia a nossa inteligência e o nosso coração de filhos, ensinando-nos a dizer: Ab-ba! Do lado aberto do primeiro Adam adormecido nasceu Eva (Génesis 2,21-22). Do lado aberto do novo e último Adam adormecido nasce a Igreja!
  1. Aí está então, amados irmãos e irmãs, o mistério por Deus dado a conhecer e a amar (Efésios 3,8-19) (o conhecimento incha; só o amor edifica), a fonte da nossa vida verdadeira, as nossas habitações (êthos) habitadas de sentido, os nossos hábitos (éthos) luminosos e branqueados. Habitação diz-se, na língua grega, êthos. A habitação é a casa, é a Igreja, a Casa bela habitada por filhos e irmãos. Hábito diz-se éthos, de onde vem «ética», que é a norma para viver na Casa, é o amor e a alegria de que os filhos e irmãos, que vivem na Casa, devem andar sempre revestidos. Habitação e hábito! Oh admirável mundo novo, belo e sublime, que Deus não se cansa de oferecer aos seus filhos amados.
  1. Veja-se outra vez este admirável solilóquio divino, que o Livro de Oseias hoje nos oferece. Diz Deus: «Quando Israel era um menino, Eu o amei. Fui Eu que ensinei a andar Efraim, que os tomei nos meus braços, mas não conheceram que era Eu que cuidava deles! Com vínculos humanos Eu os atraía. Com laços de amor, Eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face, e me debruçava sobre ela para lhe dar de comer» (Oseias 11,1-4).
  1. Um Deus maternalmente debruçado sobre nós. A tão admirável amor condescendente, só podemos responder com adoração e contemplação, dizendo com São Paulo: «Àquele, cujo amor, agindo em nós, é capaz de fazer muito mais, infinitamente mais do que possamos pedir ou conceber, a Ele seja dada a glória na Igreja e em Cristo Jesus, em todas as gerações, pelos séculos dos séculos. Ámen» (Efésios 3,20-21).
  1. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a nossa Diocese de Lamego, as suas crianças, jovens, adultos e velhinhos.

Lamego, 12 de junho, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

+ António, vosso bispo e irmão

Publicada na Voz de Lamego, n.º 4318, ano 85/31, de 16 de junho de 2015

POR UM AMOR MAIOR | Homilia de D. António Couto no Corpo de Deus

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POR UM AMOR MAIOR

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

  1. A Igreja celebra Hoje, jubilosamente, a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. E, pela página intensa e bela do Evangelho deste Dia grande (Marcos 14,12-16.22-26), começamos por nos dirigir a Jesus para que Ele nos diga «onde» e «como» preparar a sua Ceia. Sim, amados irmãos, Só Ele sabe «onde» e «como». E ainda assim, entendamos bem, nós apenas podemos fazer os preparativos. A Festa é com Ele. O Pão e o Vinho, o seu Corpo e Sangue, só os podemos receber d’Ele. E é quanto continuamos a fazer ainda Hoje. Ele é o Bem, Ele é a Bondade, Ele é a Beleza. E a celebração da Ceia Eucarística é sempre dizer Bem, pensar Bem, querer bem, fazer Bem. É encher de Bem, de Bondade e de Beleza a nossa vida. É assim que estamos em união com Deus e com os irmãos. O Bem une. O mal divide.

  1. «Se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha aliança (…), sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Êxodo 19,5-6), propõe o próprio Deus, por intermédio de Moisés, ao povo de Israel, chegado HOJE e HOJE acampado no sopé do Sinai (Êxodo 19,1-2). Como nos propõe HOJE a nós, acampados em Lamego. A proposta-promessa de Deus de transformar Israel num povo sacerdotal e santo é condicional: se escutardes a minha voz, se guardardes a minha aliança. Considerada atentamente a proposta-promessa de Deus, o povo de Israel responde que «sim», resposta unânime e sem hesitação, afirmando sob palavra de honra: «Tudo o que o Senhor falou, nós o faremos» (Êxodo 19,8). Este «faremos» do povo aparece consolidado mais à frente, na lição do Livro do Êxodo que hoje tivemos a graça de ler e de ouvir, em que o povo afirma por duas vezes: «Faremos todas as Palavras que o Senhor falou» (Êxodo 24,3 e 7).

  1. O povo compromete-se a fazer as Palavras do Senhor, e Deus cumpre logo aí a sua proposta-promessa de fazer de Israel um povo todo sacerdotal e santo. O texto bíblico do Livro do Êxodo que nos foi dada a graça de escutar, mostra, de forma admirável, a realização da promessa de Deus, pondo diante dos nossos olhos, primeiro os jovens (Êxodo 24,3), e depois os anciãos (Êxodo 24,9-11), a oficiar e presidir ao culto. Os jovens e os anciãos de Israel, os jovens e os velhos de Israel: aí está uma forma muito bíblica de dizer a totalidade de Israel, um Israel todo sacerdotal. Pouco depois, sempre com um modo de dizer muito bíblico, sela-se a aliança entre Deus e o seu povo. O sangue dos novilhos imolados é recolhido em bacias. Metade desse sangue é destinado a aspergir o altar, que simboliza Deus (Êxodo 24,6); a outra metade é destinada a aspergir o povo de Israel (Êxodo 24,8). É visível que Deus e o povo de Israel participam, então, do mesmo sangue. Participar do mesmo sangue é igual a fazer parte da mesma família. É uma maneira fortíssima de mostrar a fidelidade e a familiaridade que se estabelece entre Deus e o seu povo, entre Deus e nós, aqui Hoje reunidos, caríssimos irmãos.

  1. Tudo isto, porém, assenta naquele falar primeiro e criador de Deus, e no falar segundo, portanto, responsorial, do povo, que diz que «sim», comprometendo-se assim com a Palavra primeira de Deus. Há, portanto, um falar de Deus e um falar nosso a atravessar o texto, a atravessar Israel e a atravessar-nos nós. Também está aqui a nascer um povo sacerdotal, verdadeiro «sacerdócio comum dos fiéis», assente na escuta qualificada e no consequente fazer a Palavra de Deus: «Faremos todas as Palavras que o Senhor falou». Admirável.

  1. O texto bíblico é admirável, pois nos faz ver Deus a tecer sucessivos cenários de amor e de beleza para o seu povo, para nós. Mas o texto bíblico é ainda admirável, quando nos mostra que Deus, que é Deus, não quer fazer as coisas sozinho, e fica tantas vezes à nossa espera, suspenso da nossa resposta. «A sua Palavra é digna de fé» (1 Timóteo 4,9), porque «Deus é fiel» (1 Coríntios 1,9). É a nossa palavra que não é muito de fiar. É também aqui que o texto bíblico, continuando a ser admirável, se mostra também implacável, fazendo-nos ver em cenas sucessivas como tão depressa escorregamos do «sim» para o «não». E aí está o texto implacável a mostrar-nos como tão depressa dizemos que fazemos todas as Palavras de Deus, como, logo a seguir, nos pomos a fazer um bezerro de ouro (Êxodo 32,1-6), que é mais ou menos por onde andamos ainda hoje, parodiando o verdadeiro fazer, que é sempre fazer todas as Palavras de Deus. Como o texto bíblico nos desvenda. Implacavelmente!

  1. Vale-nos, «oh abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!» (Romanos 11,33), que «Deus permanece fiel, mesmo quando nós lhe somos infiéis» (2 Timóteo 2,13). Aí está, então, o dizer e o fazer novo de Jesus a refazer o nosso dizer e o nosso fazer tão depressa abandonados, aliança rompida: «Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade», declara Jesus, verdadeiro sumo-sacerdote na Carta aos Hebreus 10,7; cf. Salmo 40,8-9). E «Não se faça a minha vontade, mas a tua», reza Jesus no Getsémani (Marcos 14,36). «Seja feita a Tua vontade», rezamos nós na oração do Pai Nosso (Mateus 6,10).

  1. E levando até ao fim o seu amor, ainda nos implica por graça no seu próprio belo fazer. «Tomai, isto é o meu corpo» (Marcos 14,22); «Este é o meu sangue, o sangue da Aliança, por todos derramado» (Marcos 14,24). «Fazei isto em memória de mim» (Lucas 22,19). Vida partida e dada por amor. Eis o inteiro programa de Jesus. Eis tudo o que devemos fazer, imitando-o eucaristicamente. Só o bem, pensado, dito, feito, une eucaristicamente. O mal divide e separa sempre. Divide a comunidade e separa-nos de Deus. Celebrar a Eucaristia é sempre um fazer novo e belo à nossa espera.

  1. É este pensar, dizer, querer, fazer Bem, amados irmãos e irmãs, que estamos a fazer aqui, nesta Celebração Eucarística, nesta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Daqui a pouco, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, as ruas da nossa cidade. O pálio (pallium) de Deus atravessará a nossa cidade. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos e irmãs. Verdadeiramente, num mundo em crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia São Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.

  1. Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos e de amor que prestamos aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004). Hoje, o pálio do amor de Deus sai à cidade.

Dá-nos, Senhor, um coração novo,

capaz de conjugar em cada dia

os verbos fundamentais da Eucaristia:

RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,

PARTILHAR e DAR,

COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,

capaz de escutar

e de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,

à volta do pão e da palavra.

E ajuda-nos a discernir

os rumos a seguir

nos caminhos sinuosos deste tempo,

por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos, Senhor,

a saber colher

o Teu amor

semeado e redentor,

única fonte de sentido

que temos para oferecer

a este mundo

de que és o único Salvador.

Sé Catedral de Lamego, 7 de junho de 2015

+ D. António José da Rocha Couto, Bispo de Lamego

D. ANTÓNIO COUTO PRESIDE A CELEBRAÇÕES DA SEMANA SANTA

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Celebrações da Semana Santa | Em Casa e à Mesa

A diocese Lamego, à imagem da Igreja que vive nos mais diversos cantos do mundo, viveu as celebrações da Semana Santa e da Páscoa da Ressurreição com alegria. Nas diferentes paróquias que formam esta porção do Povo de Deus, com mais ou menos residentes, com maior ou menor visibilidade, a fé foi assumida e festivamente celebrada.

 Ungidos e enviados

Mais de oitenta sacerdotes da nossa diocese juntaram-se à volta do bispo diocesano, D. António Couto, na manhã de Quinta-feira Santa, na Sé, para a celebração da Missa Crismal. Presentes também D. Jacinto Botelho, os dois diáconos que serão ordenados em julho próximo e um diácono permanente natural da nossa diocese e residente no Porto, bem como várias dezenas de fiéis leigos que, não enchendo os bancos da Sé, participaram na cerimónia.

Partindo dos textos bíblicos proclamados, sublinhando a importância de todos para a edificação da Igreja neste “hoje” contínuo que é o tempo do Povo de Deus, D. António Couto dirigiu-se, em particular, ao seu presbitério. “«O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu». É assim também que nós Hoje, caríssimos sacerdotes, submersos pelo Espírito, reunidos em unum presbyterium, para nos dizermos, temos de receber de Jesus as mesmas palavras que Ele próprio pediu emprestadas e a que deu sentido pleno, corpo, rosto e voz, fazendo-as sair da superfície plana da folha de papiro. «O Espírito do Senhor sobre mim, porque o Senhor me ungiu» constitui, de facto, a maneira mais bela e profunda de o presbitério de uma Diocese poder afirmar em uníssono a sua identidade Sacerdotal e Diaconal, à maneira de Jesus Cristo. É mesmo a única maneira de nós podermos dizer quem verdadeiramente somos. Algumas formas verbais que podemos pedir outra vez emprestadas a Isaías e a Jesus podem ajudar-nos a perceber melhor a grandeza e a dignidade da nossa vocação e missão: ungidos e enviados para anunciar o Evangelho aos pobres…

Guardemos connosco, Hoje, amados irmãos, esta unção e este reino de sacerdotes. Sim, somos um presbitério de Ungidos, desde o bispo, aos sacerdotes, aos diáconos. Ungido diz-se em hebraico Mashîah, e em grego Christós, termos que, em português, soam Messias e Cristo. O Ungido por excelência é, então, Cristo, Jesus Cristo, Jesus Ungido, e d’Ele todos sabemos que, enquanto Ungido com o Espírito Santo, passou pelo meio de nós fazendo o bem e curando e libertando e amando até ao fim, intensa e plenamente, sem pausas nem bemóis, porque Deus estava com Ele (Actos 10,37-38), porque Deus tocava nele, porque nele se tocava em Deus. Se o Ungido é Cristo, então nós somos outros Cristos, porque somos igualmente Ungidos. E se somos outros Cristos, então a referência da nossa maneira de viver terá de ser também sempre Cristo. Temos, então, de nos revestir de Cristo (Romanos 13,14; Gálatas 3,27; Colossenses 3,12-14), de fazer nosso o estilo de vida de Cristo, manso e humilde, orante, feliz, evangelizador, apaixonado, pobre, despojado, ousado, próximo e dedicado. Só assim, configurados com Cristo, cristificados, podemos viver e agir in persona ChristiCapitis ou in persona Christi Servitoris, na pessoa de Cristo Cabeça do seu Corpo, que é a Igreja, ou na pessoa de Cristo Servo do seu Corpo, que é a Igreja. É assim que dizemos hoje, nesta Quinta-Feira Santa, a nossa identidade Sacerdotal e Diaconal, à maneira de Jesus”.

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Jubileu sacerdotal

Durante a Eucaristia, a nossa diocese deu graças pelos 50 anos de sacerdócio de quatro dos seus presbíteros: Joaquim Manuel Silvestre, pároco de S. João Baptista de Avões, Nossa Senhora das Candeias de Ferreiros de Avões e de S. Pedro de Samodães, no arciprestado de Lamego; Vitor Esteves Rosa, pároco de Nossa Senhora dos Remédios de Lamelas e de S. João Baptista de S. Joaninho, na zona pastoral de Castro Daire; Albano de Almeida Pereira, pároco da paróquia de Nossa Senhora da Graça, na zona pastoral de Armamar; Manuel Esteves Alves, pároco da paróquia S. João Baptista de S. João de Fontoura, na zona pastoral de Resende. Graças também pelos 25 anos de sacerdócio do Padre José António Magalhães Rodrigues que vive a sua missão pastoral na paróquia de Nossa Senhora da Graça da Abrigada, no Patriarcado de Lisboa. Ler mais…

ENCONTRO DE COROS

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“Quem bem canta, duas vezes reza” (Stº. Agostinho)

ENCONTRO DE COROS

Decorreu, no dia 31 de Março de 2015, na Catedral de Lamego, em plena Semana Santa, um Encontro de Coros Litúrgicos, organizado pelo Departamento Diocesano de Música Sacra.00

Participaram neste encontro quatro Coros:

– Grupo Coral da Paróquia de S. Pedro de Castro Daire;

– Grupo Coral da Paróquia de Santíssimo Salvador de Resende;

– Grupo Coral da Universidade Sénior Jerónimo Cardoso-Lamego;

– Coro da Catedral de Lamego.

O acolhimento aos participantes aconteceu no Museu Diocesano, com uma palavra de boas vindas proferida pelo Pe. João Carlos, Pró Vigário Geral.

De seguida todos se dirigiram para a Sé, que estava repleta de gente, para escutar as vozes daqueles que louvam a Deus cantando.

O responsável do Departamento Diocesano de Música Sacra, Pe. Marcos Alvim, na palavra de abertura, falou da importância do canto litúrgico e agradeceu a presença de todos.

Cada coro cantou quatro cânticos de natureza litúrgica.

A palavra final foi dirigida pelo Pe. Joaquim Dias Rebelo, Vigário Geral, que se congratulou com a iniciativa, felicitando organizadores e participantes.

No final, todos os elementos cantaram um cântico em conjunto, cuja partitura fora previamente enviada aos diretores de coro para os devidos ensaios.

O objetivo destes encontros é aumentar a partilha e a aproximação entre pessoas que professam a mesma fé e aumentar competências na transmissão da Palavra de Deus pela música e pelo canto.

in Voz de Lamego, n.º 4308, ano 85/21, de 7 de abril de 2015

HOMILIA DE D.ANTÓNIO COUTO NA VIGÍLIA PASCAL

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NA NOITE SANTA 

  1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor fez para nós! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de Alegria» (Salmo 126,3).

  1. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida florida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo, o tempo não nos mede e nos afasta e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado a lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e não encontrámos nelas um único «não». Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não. Nós também, pois nos criaste à tua imagem.

  1. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante», segundo o belo dizer do Livro da Sabedoria (19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2).

  1. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável protecção. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, sem Deus, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos. E como se isto não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos, não apenas roupa nova, mas também um coração novo e um espírito novo (Ezequiel 36,16-28).

  1. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado a lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. E S. Paulo a descodificar o nosso Baptismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (Romanos 6,3-5).

  1. E assim chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Era, na verdade, muito grande aquela pedra que barrava a entrada e a saída do sepulcro (Marcos 16,3-4). Quem a pode retirar? A pedra da morte é sempre intransponível para as nossas forças. Tem, por isso, de ser trabalho de Deus. É assim que as mulheres que vão de madrugada ao sepulcro, veem com espanto a pedra do sepulcro retirada para sempre (apokekýlistai: perf. pass. de apokylíô), e, entrando, veem, com não menor espanto, um Anjo teu vestido de branco, sentado do lado direito.

  1. A pedra muito grande retirada, no tempo perfeito, representa a porta da habitação da morte para sempre aberta. O modo passivo (passivo divino ou teológico) do verbo revela que um tal operar é coisa só Deus. O teu Anjo, «sentado», indica que tem autoridade para falar das tuas coisas. «O lado direito» é o lado favorável (Marcos 12,36; 14,62), e sugere que o teu Anjo é portador de boas notícias, vindas de Ti. A cor branca é a cor celeste (Marcos 9,3). Só de Ti e do teu Anjo pode vir este dizer com autoridade: «Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou; não está aqui (…). Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos disse» (Marcos 16,6-7). Ao mandar levar a notícia aos seus discípulos, acrescenta especificamente o nome de Pedro. É como que o reconhecimento de que o arrependimento de Pedro pela sua tríplice negação (Marcos 14,66-72) foi aceite. É quase como dizer que, ao contrário do «não conheço esse homem», de Pedro a respeito de Jesus (Marcos 14,71), Jesus manda dizer, por meio do Anjo: «mas Eu conheço-te, Pedro, e ver-me-ás de novo»! Fica ainda claro que o Ressuscitado nos precede sempre, e que, portanto, o nosso verdadeiro lugar é sempre «atrás d’Ele», pois é Ele o Caminho, e permanece sempre o único Senhor da nossa vida.

  1. À flor do texto do Evangelho de Marcos, que estamos a seguir, as mulheres atravessam dias intensos e silenciosos. Na verdade, durante o inteiro relato da Paixão e agora junto do túmulo e depois, elas não falam. Limitam-se a ver, com o verbo theôréô, que é um verbo de observação atenta e amorosa, desde a crucifixão e morte de Jesus (Marcos 15,40), passando pelo seu sepultamento (Marcos 15,47), até ao avistamento da pedra muito grande para sempre retirada (Marcos 16,4). Ouvem as notícias e as ordens do Anjo, mas continuam em silêncio, mesmo quando o Anjo as manda ir dizer. O narrador informa-nos, com rigorosa precisão, que as tinha (eíchen autás) um tremor e assombro, e a ninguém disseram nada (Marcos 16,8). Não são elas que têm tremor e assombro: elas não são o sujeito; é o tremor e o assombro que as tem a elas, experiência desconcertante e incontrolável, corporal e mental, que as afeta desde fora. Sujeito Deus. Ele é sempre o verdadeiro sujeito de cada maravilha que nos ultrapassa e nos transforma. Já hoje cantámos por duas vezes: «Minha força e meu canto é o Senhor!» (Êxodo 15,2; Isaías 12,2).

  1. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão é um relato, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora, como a Aurora. E o Ressuscitado, nas suas aparições ou manifestações, não mostra o Rosto. Mostra as mãos e o lado. É esta a sua verdadeira identidade: vida dada por amor, para sempre, para todos.

  1. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Baptismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Baptismal. E cada baptizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume sempre Novo e incontrolável.

  1. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte baptismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel e ardente. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

 

Lamego, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor, Vigília Pascal

+ António, vosso bispo e irmão

HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO NA PAIXÃO DO SENHOR

são Sebastião

  1. Amados irmãos e irmãs, foi-nos dada a graça de nos reunirmos aqui, na Casa de Deus, nesta Sexta-Feira Santa, para celebrarmos, unidos de alma e coração à Igreja inteira, a Una e Santa, a Paixão do único Senhor da nossa vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo.
  1. E foi-nos dado seguir, passo a passo, com a conversão do coração e o louvor no coração, o imenso relato da Paixão do único Senhor da nossa vida, a partir do Evangelho segundo S. João (18,1-19,42). Foi assim que atravessámos o Cedron e entrámos no «jardim», onde não entrávamos desde Génesis 3,24. É de noite, mas arde a LUZ, a LUZ, a LUZ. É verdade que já não estamos todos. Judas perdeu-se na NOITE, na NOITE, na NOITE (João 13,30). Virá depois com archotes e lanternas, mísero sucedâneo da LUZ, e com armas (João 18,3). Vem prender a LUZ, mas cai encandeado (João 18,6). Tem de ser a LUZ a ofuscar-se por amor e a entregar-se a ele por amor. Neste ponto preciso, refere o relato de Marcos que nós fugimos todos, abandonando-o (Marcos 14,50). E fugidos andaremos, e perdidos, na noite e no frio, até sermos outra vez por Ele encontrados e recolhidos. Mas já, entretanto, Pedro, perdido, se acolhe a outra luz e se aquece a outro lume (João 18,18). Não com Jesus, como é próprio do discípulo, mas com os guardas. Como Pedro mudou! E, interpelado, nega ter andado com Jesus, ter alguma coisa a ver com Jesus, ter parte com Jesus. Nega mesmo conhecer Jesus (Marcos 14,67-71; João 18,17-27).
  1. Até que o galo canta, e começa a nascer o dia para Pedro (Marcos 14,72; João 18,1-27). Notemos que quando Judas sai, é de NOITE, e que, depois da negação de Pedro, o DIA nasce com o canto do galo. O relato da negação de Pedro faz parte integrante do relato da Paixão, e não é um seu acompanhamento secundário. É o necessário relato do anunciador. É necessário, de facto, acentuar que o que habilita os anunciadores tem as suas raízes no próprio relato da Paixão, em que os futuros anunciadores aparecem claramente designados como aqueles que abandonaram Jesus, que renegaram Jesus e se perderam de Jesus. Só saberão anunciar correctamente a Ressurreição de Jesus se confessarem também até que ponto esse acontecimento da Ressurreição os transformou desde dentro, acendendo neles a Chama da Vida verdadeira. O anunciador anunciará então que Jesus morreu e que foi salvo da morte, Ressuscitou, e que o seu Perdão o reabilitou. Se o Ressuscitado o perdoou e reabilitou, então Ele está vivo, actuante e eficaz! O canto do galo é um sinal. Traz para a cena a obra criadora do primeiro dia, em que, segundo o relato do Génesis, «Deus separou a luz e as trevas» (Génesis 1,3-5). Aqui, em contraponto, estão as trevas de Judas e a luz nascente para Pedro. Obra luminosa e criadora. Mas também anunciadora, porque este canto exerce uma função de referência entre as fases do tempo: nenhum animal é mais querigmático do que o galo. Iremos encontrá-lo sobre os nossos antigos campanários, mas já, antes disso, o encontrámos muitas vezes sobre os primeiros sarcófagos cristãos.
  1. Mas vejamos ainda melhor a qualidade ou falta dela do testemunho que damos de Jesus. Também aqui a página do Evangelho é admirável e implacável. Jesus acaba de dizer ao Sumo-Sacerdote que não o interrogue a Ele, mas que interrogue aqueles que ouviram os seus ensinamentos, pois não falou às escondidas, mas em público (João 18,19-21). Impressionante e suprema ironia sermos levados a verificar que, ao mesmo tempo que Jesus faz esta afirmação dentro do Palácio, Pedro esteja a ser interrogado cá fora, e responda negando tudo! (João 18,17.25-27).
  1. Mas Jesus prossegue o seu caminho de amor até ao fim. Até à Cruz. É lá que se revela o rosto do doentio gosto pela morte que nos habita. «Salva-te a ti mesmo!» (Lucas 23,35.37.39), gritamos nós repetidamente zombando, porque o que queremos mesmo, não é que Ele se salve; o que queremos mesmo é assistir ao doentio espectáculo da morte! Não quero que penseis, meus irmãos e irmãs, que isto são coisas do passado, e que não têm nada a ver connosco. Não. O que estou a dizer acerca deste doentio gosto pela morte passa-se hoje. Como gostamos nós de ver os nossos irmãos a atolar-se na lama! A tanto chegou a nossa malvadez! Um ódio sem motivo, sem fundo, nos habita (Salmo 35,19; 69,5; João 15,25). Sim, Ele é o Justo. Ele é a Bondade absolutamente gratuita, sempre Primeira e radical, igualmente sem motivo, sem fundo. Ele ama Primeiro (1 João 4,19), quando éramos ainda pecadores (Romanos 5,8). Por isso, em vez de à nossa violência oferecer mais violência, Ele acolhe-a e acolhe-nos por amor, e por amor a nós se entrega, declarando assim ultrapassados e inúteis os nossos mais requintados ódios e os nossos mais sofisticados instrumentos de guerra (cf. Isaías 2,2-4; Miqueias 4,1-3). Ali, naquele Corpo Crucificado, morto por amor, e por amor exposto por escrito diante dos nossos olhos atónitos (Gálatas 3,1), morre o nosso desejo de morte, o nosso pecado, apagado pelo fogo do amor, que declara o nosso pecado completamente inútil, inutilizado, anulado e ultrapassado (cf. Colossenses 2,14).
  1. Ainda vamos a tempo de ver que, sob o olhar do Crucificado, quatro soldados levam as coisas de Jesus, que, para o efeito, dividem em quatro partes: uma para cada um deles (João 19,23). O contraponto, estupendo, belo, vem de quatro mulheres (a mãe de Jesus, / a irmã de sua mãe, / Maria, mulher de Cléofas, / e Maria Madalena), que não levam as coisas de Jesus, mas se abraçam à Cruz de Jesus (para tô staurô), como se ela fosse uma pessoa (João 19,25). Sim, elas não se interessam pelas coisas de Jesus; elas abraçam Jesus e levam consigo o amor de Jesus!
  1. Na Cruz, Jesus reza o salmo 22, todo, desde «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Salmo 22,2), até «Esta é a obra do Senhor!» (Salmo 22,32), que são as últimas palavras do Salmo 22, que deixam a claro que é de Deus a obra da Cruz! É assim, nos braços do Pai, que Jesus morre, sendo depois o seu corpo descido da Cruz e carinhosamente envolvido em panos de linho literalmente encharcados com 32 quilos e 800 gramas de perfume! (João 19,39), à imagem do Rei messiânico cantado no Salmo 45,9. Foi sepultado no jardim, num sepulcro novo, no qual ainda ninguém tinha sido deposto (João 19,41). O Rei é sempre o primeiro em tudo. Ninguém tinha sido sepultado naquele sepulcro novo, mas também ninguém tinha sido sepultado no «jardim», se levarmos a sério o relato de Génesis 3,24. Vem depois aquela madrugada nova da Ressurreição.
  1. Por isso, depois disso, por causa disso, os primeiros cristãos rapidamente fizeram deste Santo Sepulcro o seu primeiro e mais venerado lugar de culto. O Imperador Adriano (117-138) soterrou o Santo Sepulcro e paganizou-o, estabelecendo ali cultos pagãos com a clara intenção de afastar os cristãos. No lugar do Santo Sepulcro, pôs a estátua de Júpiter, e, no Calvário, pôs uma estátua de Vénus em mármore. O mesmo fez, de resto, em todos os lugares santos da Palestina. Todavia, quando em 13 de Setembro de 326, por indicação de um habitante de Jerusalém, Santa Helena, mãe do imperador Constantino, descobriu a Cruz do Senhor, mandou logo demolir as construções pagãs. Foi assim que vieram à luz outra vez os primitivos e venerados lugares cristãos, que foram então englobados num magnífico edifício Constantiniano, consagrado no dia 13 de Setembro do ano 335, e que era formado pela basílica da Anástasis, que guardava no centro o Santo Sepulcro, o Triplo Pórtico, que abrigava o rochedo do Gólgota e o Martyrium, que guardava o lugar da crucifixão e morte do Senhor. No dia imediatamente a seguir à dedicação da Basílica, 14 de Setembro desse ano 335, teve lugar e origem a adoração da Cruz de Cristo, hoje, Festa da Exaltação da Santa Cruz. A peregrina Egéria, da Galiza, que em finais do século IV, visitou demoradamente os Lugares Santos, diz-nos que a Santa Cruz era então exposta à adoração dos fiéis duas vezes no ano: em 14 de Setembro e em Sexta-Feira Santa. Egéria descreve assim a adoração de Sexta-Feira Santa: «desde as 08h00 da manhã até ao meio-dia», «todos passavam, um por um: inclinam-se, tocam a Cruz com a fronte, e depois com os olhos a Cruz e a inscrição, a seguir beijam a Cruz e saem, sem que ninguém toque com a mão na Cruz» (Itinerarium, 36,5; 37,3).
  1. Adoremos nós também, com amor, neste Dia de Sexta-Feira Santa, a Santa Cruz do único Senhor da nossa vida.

Esta sexta-feira é Santa. Grande. Autêntica.

Vê-se Jesus exposto na Cruz por todo o lado.

Solene exposição.

Mesmo fechando os olhos, as janelas e as portas,

Tu rebentas as comportas com jatos de Luz,

E saltas as trincheiras do meu coração.

 

Vem, Senhor Jesus,

Entra pela janela dos meus olhos,

Enche todos os recantos do meu ser,

Ilumina todos os redutos,

E faz-me ver que todo o comodismo e egoísmo

É sem raiz nem flor nem frutos.

 

Irei, Senhor, em procissão de amor, beijar a tua Cruz.

E quando eu olhar para ti, para o teu rosto ferido e desfigurado,

Para as tuas muitas chagas a sangrar,

Dá-me a graça de aí ver bem o meu pecado.

E quando Tu, Senhor, olhares para mim,

Com esse meigo olhar de serena compaixão,

Dá-me a graça de ver o teu perdão nunca poupado,

E de sair com o coração transfigurado.

Lamego, Sexta-Feira Santa, Celebração da Paixão do Senhor, 03 de Abril de 2015

+ António, vosso bispo e irmão

(foto: solenidade de São Sebastião, 20 de janeiro de 2015)

HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO NA MISSA DA CEIA DO SENHOR

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  1. Com esta celebração da Ceia do Senhor, em Quinta-Feira Santa, a Igreja Una e Santa reacende a memória da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade, e dá início ao Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do seu Senhor (o Tríduo Pascal prolonga-se até às Segundas Vésperas de Domingo), que constitui o ponto mais alto do Ano Litúrgico, de onde tudo parte e aonde tudo chega, coração que bate de amor em cada passo dado, em cada gesto esboçado, em cada casa visitada, em cada mesa posta, em cada pedacinho de pão sonhado e partilhado. É assim que Deus nos dá a graça de caminhar durante todo o Ano Litúrgico, dia após dia, Domingo após Domingo, sempre partindo da Páscoa do Senhor, sempre chegando à Páscoa do Senhor.
  1. «Páscoa» quer dizer «passagem», e põe em cena «passageiros». Com os antigos pastores beduínos semi-nómadas, que preenchem a memória da pré-história de Israel, aprendemos a passar festivamente para um tempo novo, do inverno para a primavera, numa festa nocturna, ao luar, na primeira lua-cheia da primavera, que marca o início da transumância ao encontro de novas pastagens. Com os hebreus, no Egipto, conforme o colorido relato do Êxodo que hoje Deus nos deu a graça de ouvir (Êxodo 12,1-14), sedentarizámos e actualizámos a festa da primeira lua-cheia da primavera dos antigos pastores semi-nómadas de Israel, e aprendemos a passar da escravidão para a liberdade, que é um caminho sempre novo, nunca terminado e sempre a recomeçar, com a cintura apertada, sandálias nos pés, cajado na mão, lume novo aceso no coração. Com Jesus Cristo, aprendemos a passar do pecado para a graça, da soleira da porta para a mesa, da morte para a vida em abundância, da nossa casa para a Casa do Pai. É assim que nós, por graça feitos filhos no Filho (Bento XVI, Verbum Domini, n.º 50), aprendemos a ser estrangeiros e hóspedes, tranquilamente sentados em Casa e à Mesa daquele único Senhor que servimos e que nos diz: «Toda a terra é minha, e vós sois, para Mim, estrangeiros e hóspedes», como se pode ler no Livro do Levítico 25,23.
  1. É aí que estamos todos, meus amados irmãos e irmãs. Aí, entenda-se, em Casa e à Mesa, sentados, tranquilos, felizes, hospedados. E é somente aí e daí, que podemos compreender o grande Capítulo 13 do Evangelho de S. João, que Hoje ouvimos nos nossos ouvidos, e que relata em vez da Ceia Primeira um lava-pés. Ceia Primeira, e não Última, porque nós continuamos à Mesa (o que é este Altar?) a celebrar esta Ceia (o que é este Pão e este Vinho?). E a recomendação atenta de S. Paulo, que nos lembra que nós continuamos a comer este Pão e a beber este Vinho sempre novo: «Sempre que comerdes deste Pão e beberdes deste Cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Coríntios 11,26). Anunciar a morte do Senhor não é, todavia, entristecer-nos, chorar ou vestir de luto. Não é esta a vocação cristã. É preciso compreender, e é o que S. Paulo nos quer dizer, que anunciar a morte do Senhor é anunciar a Dádiva da Vida por amor, para sempre e para todos!
  1. Mas é à Mesa que estamos, meus amados irmãos e irmãs, nesta tarde e nesta Ceia Primeira de Quinta-Feira Santa, hospedados na Casa do único Senhor da nossa Vida, «Aquele que nos ama» (Apocalipse 1,5), Jesus Cristo. Reparemos então bem em tudo o que Ele faz e diz no Evangelho de Hoje (João 13,1-15), porque tudo n’Ele é exemplar, paradigmático e programático para nós. Diz-nos o narrador atento que Jesus «DEPÕE (títhêmi) o manto» a abrir a cena, no v. 4, e «RECEBE (lambánô) o manto» a fechar a cena, no v. 12. DEPOR e RECEBER são, aos nossos olhos encantados, os mesmos verbos com que, no Capítulo 10.º, o Bom Pastor «DEPÕE (títhêmi) a vida» e «RECEBE (lambánô) a vida» (v. 17). Ora, DEPOR a vida e RECEBER a vida são a imensa e penetrante tradução da Cruz. E entre uma e outra coisa, entre «DEPOR o manto» e «RECEBER o manto», entre «DEPOR a vida» e «RECEBER a vida», no centro geométrico e teológico do lava-pés (v. 8), aí está a advertência solene que Jesus dirige a Pedro e a cada um de nós: «Se não te lavo, Pedro, não tens parte comigo!» (João 13,8).
  1. «Ter parte com» Cristo é participar no seu supremo serviço de amor até dar a vida para receber a vida em abundância, a transbordar. «Ser lavado» e «ter parte com» e «estar puro» é linguagem bíblica de ordenação sacerdotal. Basta ler o texto do Livro dos Números 18,20, juntamente com os Capítulos 29 e 40 do Livro do Êxodo e o Capítulo 8.º do Livro do Levítico, acerca da ordenação sacerdotal de Aarão e dos seus filhos.
  1. Digamos tudo outra vez, seguindo passo por passo este imenso Capítulo 13 do Evangelho de S. João: no v. 4, Jesus DEPÕE o manto, com o mesmo verbo com que, em João 10,17, Jesus DEPÕE a vida; no v. 12, Jesus RECEBE o manto, com o mesmo verbo com que, no mesmo João 10,17, Jesus RECEBE a vida. No v. 4, DEPÕE o manto ou a vida. No v. 12, RECEBE o manto ou a vida. No v. 8, que é o centro geométrico e teológico entre 4 e 12, Jesus lava os pés a Pedro, e diz-lhe: «Se não te lavo, Pedro, não terás parte comigo». Entenda-se bem: «Se não te lavo, Pedro, não participarás da minha vida Dada e Recebida em abundância». Compreenda-se então que este Lava-pés não é um simples gesto de humildade por parte de Jesus. Este Lava-pés é a verdadeira ordenação sacerdotal dos discípulos de Jesus! Sim, os discípulos de Jesus têm de saber que é dando a vida por amor, para sempre e para todos, que se recebe a vida em abundância.
  1. Por isso, Jesus diz, num imenso dizer revelatório ainda a retinir nos nossos ouvidos e a ecoar em tudo o que fazemos: «Como Eu vos fiz, fazei vós também!» (João 13,15). Vê-se bem, meus amados irmãos e irmãs, que não é tanto o que se faz que interessa. Interessa muito mais o como se faz. O segredo é dar a vida por amor, para sempre, para todos. Jesus é o único Mestre que ensina a Viver desta maneira. E é assim que fica bem à nossa vista o significado da instituição da Eucaristia, do Sacerdócio e da Caridade.
  1. Que o único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo, nos ensine a ser fiéis ao seu dizer e ao seu modo admirável de fazer.

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Deus,

Sabe a pão,

Sabe a alegria,

Sabe a Eucaristia!

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a amor,

A dádiva da vida,

A uma lágrima comovida.

Esta Quinta-Feira é Santa:

Sabe a Ceia e a Jesus,

Luz grande que incendeia

As trevas do coração,

E faz nascer amor e comunhão.

Lamego, Quinta-Feira Santa, Missa da Ceia do Senhor, 02 de Abril de 2015

+ António, vosso bispo e irmão