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Posts Tagged ‘São João Batista’

Editorial Voz de Lamego: Quando foi que nos perdemos?

Poderás ser tu a ovelha perdida? Ou serei eu?

Será que ainda estamos no caminho certo? Seguimos com os outros! Mas continuamos a seguir Jesus ou apenas um esqueleto de tradições e obrigações? É a fé que nos anima ou pesa-nos a falta de alegria e de festa? Alguém caminha em sentido contrário! Ou fui eu que me enganei na direção? Ou foste tu que te perdeste no caminho?

Onde ou quando se terá perdido Judas?

Não sabemos. Era um dos apóstolos mais próximos de Jesus. A ele foi confiada a administração dos parcos bens, a bolsa comum. Alguns insistem que era corrupto, ainda que os dados dos Evangelhos não permitam tal juízo. Há vários estudiosos que sustentam que não foi a falta de fé ou a avareza que o conduziram ao descalabro, mas uma fé enviusada, demasiado zelo e demasiada pressa. Uma fé infantil que quis obrigar Jesus a agir como “Deus”, com milagres e poder. Faltou-lhe clareza e confiança. Não foi capaz de dar o salto. Como ninguém pode dizer que ele se condenou, há quem diga que o próprio suicídio foi uma forma (extrema e doentia) de apressar o encontro com Jesus na eternidade. Nalgum momento queimou os fusíveis e perdeu a direção!

Pedro também se perdeu no caminho! Não conheço esse homem, não sei quem é, nunca o vi mais gordo, não sei onde pendura o pote! Do mesmo jeito, os demais apóstolos fogem, com medo, e mantêm-se à distância, como observadores, neutros, amorfos, indiferentes! Como cristãos, alguns de nós assumimos a mesma postura, ficamos na nossa zona de conforto até ver onde param as modas!

Por ocasião dos 12 anos de Jesus, Maria e José levam-n’O ao Templo, para cumprirem a tradição.  Ele assume a Sua adultez diante dos doutores da Lei e dos sacerdotes do Templo. A partir de então, Jesus pode ler em público a Escritura Sagrada, podendo propor alguma meditação. No regresso a casa, no final do primeiro dia de viagem, Maria e José apercebem-se que Jesus não se encontra na caravana! Hoje, esta aparente perda abriria telejornais e espalhar-se-ia rapidamente pelas redes sociais, uns culpando os pais por falta de cuidado e de responsabilidade; outros, diriam que Jesus era demasiado arisco e que se tinha perdido em consequência das suas traquinices (e óbvia falta de educação!). Seja como for, Maria e José, quando se apercebem que Jesus não regressou para a ceia, partem a buscá-l’O entre parentes e amigos. E voltam atrás. Não descansam até que O encontram. Não adianta correr se não sabes onde vais (Amália Rodrigues)!

João Batista aponta Jesus aos seus discípulos que, doravante, seguem o Messias de Deus. Voltando-se Jesus, pergunta-lhes: a quem buscais? Eles por sua vez, questionam-n’O: onde moras? Vinde ver, diz-lhes Jesus. Eles foram e ficaram com Jesus.

Já as mulheres, no primeiro dia da semana, vão ao sepulcro, com o fito de embalsamar o corpo de Jesus, pois não tiveram tempo de o fazer ao cair da tarde de sexta, quando se iniciava o dia sagrado de sábado. O anjo diz-lhes: «Sei que buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado; não está aqui, ressuscitou… Ide depressa dizer aos Seus discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá O vereis’» (Mt 28, 5-7).

É importante seguir Jesus, ver onde mora, como vive! Ele mora, como canta a Ir Maria Amélia, em tua casa, no teu coração, na tua rua, no teu vizinho. Pior do que nos perdermos e/ou perdermos Jesus é não nos apercebermos que Jesus já não segue na nossa barca! Quando foi que nos perdermos? Sempre que esvaziámos a alegria da fé e a alma do Evangelho…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/33, n.º 4615, 30 de junho de 2021

PERIGO DO “NIM” | Editorial Voz de Lamego | 16 de dezembro

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A poucos dias da celebração do Natal de Jesus Cristo, a edição desta semana transparece, desde logo, a luminosidade deste tempo, que se expressa nas imagens e nos textos, nos desejos e nos comentários. Desde logo, chamada de atenção para a MENSAGEM DE NATAL DE D. ANTÓNIO COUTO a abrir o Jornal, na primeira página.

Mas muitos outros motivos, entre notícias e as habituais reflexões, apresenta a edição do Jornal da Diocese de Lamego. Aqui fica, para ambientar, o Editorial:

PERIGO DO “NIM” 

Na caminhada para a celebração do Natal faz-nos companhia a figura de João Baptista, de quem continuamos a ouvir o convite para mudar, para crescer, para avançar. Anunciando a presença d’Aquele que salva e apontando para o baptismo no Espírito Santo, o precursor cumpre a sua missão.

As poucas linhas que os evangelhos lhe dedicam são suficientes para o visualizarmos na sua simplicidade, o ouvirmos em interpelações provocadoras, o acompanharmos até à prisão e ali testemunharmos a sua morte.

Apontando para a verdadeira Luz, com humildade, apresenta-se como testemunha d’Aquele a quem nem sequer é digno de “desatar a correia das sandálias”. E se é verdade que protagoniza uma “pastoral de estaca”, na medida em que espera que venham ter com ele, não deixa de ser referência pela responsabilidade com que assume a sua missão e eleva a voz para anunciar e denunciar.

A frontalidade diante da vida e a clareza nas respostas merecem destaque, não se escondendo em declarações dúbias ou em palavreado que pode significar tudo e também o seu contrário. O seu posicionamento não deixa dúvidas e a coerência acompanha-o. Com posturas claras e escolhas nem sempre fáceis, a sua coragem marca-nos.

O Apocalipse, último livro da Bíblia, tece duras críticas a todos quantos evitam compromissos, que nem são quentes nem frios, mas vencidos pela tentação do silêncio, da fuga e da facilidade.

A fé exige opções, não é neutra. Querer preservar-se do risco de escolher pode ser apenas sinónimo de comodismo e não de prudência. Eis as “pessoas nim”, que estão algures entre o não e o sim, incapazes de dizer e de dizer-se com clareza, humildade e verdade.

O Advento é também oportunidade para, com frontalidade, clarificar e assumir.

Pe. Joaquim Dionísio, in VOZ DE LAMEGO, n.º 4293, ano 84/55, de 16 de dezembro de 2014