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Editorial Voz de Lamego: Popularidade dos santos

Estamos em plena época dos santos populares. Com o desejo da praia, das férias e do convívio, da descontração e do descanso, ombreiam as festas populares que se iniciam em junho com os afamados “santos populares”. Se são populares, são do povo! O povo identifica-se com eles! Calma! Talvez não se identifique com os santos, mas com as festas e tradições a eles associadas!

Se olharmos para figuras populares, um artista, um cantor, um futebolista, como Cristiano Ronaldo ou Messi, têm seguidores nas redes sociais, aos milhares, ou milhões, e onde se deslocam há centenas ou milhares de fãs que querem ver, tirar uma foto, um selfie, solicitar um autógrafo, pedir a camisola! Quantos pais colocam aos filhos os nomes dos seus heróis/ídolos? Quantas jovens querem ser como Cristiano Ronaldo?

Passemos então à popularidade de Santo António, de São João e de São Pedro!

São João Batista era de facto bastante popular, atraía multidões, batizava centenas de pessoas, conduzia à conversão muitas pessoas, desafiando à não violência, à justiça social e à partilha, ao cumprimento dos mandamentos. A popularidade de São João Batista custou-lhe a vida. Herodes, a pedido da bela filha de Herodíade, mandou cortar-lhe a cabeça. Alguém quer imitar São João Batista? Outra característica de João é a humildade, não das palavras, mas na atitude, apontando para Jesus Cristo. É Ele, é Ele que deve crescer e eu diminuir… nem sou digno de Lhe desatar as correias das sandálias!

E Pedro, aquele apóstolo simples, titubeante e impulsivo que segue Jesus, quereremos imitá-lo? Deixou tudo para seguir Jesus! Se calhar pensou que largava uma vida sacrificada e dura por uma vida mais faustosa e tranquila. Essa foi uma das suas tentações, tal como a de outros discípulos. Quando vê que as coisas estão complicadas, assusta-se e nega Jesus: não tem nada a ver com Ele, não quer ser identificado com Jesus Cristo! E com os outros discípulos, mantém-se à distância de segurança! Depois da ressurreição e das aparições de Jesus, Pedro transfigura-se e torna-se um convicto pregador. Mais tarde será morto por ser cristão. Algum de nós quer seguir as pisadas de Pedro? Não estamos a falar do facto de ter sido o primeiro Papa, mas de ter sido mártir e antes um indisciplinado apóstolo!

E que dizer de Santo António? Sim, é um dos santos bem populares. De família nobre, renunciou a uma vida faustosa para se tornar monge. Depois de ordenado sacerdote dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, escolhe (ou melhor, é escolhido por Deus para) outro caminho, faz-se monge franciscano, assumindo a pobreza dos frades e a ânsia de se tornar mártir missionário em África, mas também aí Deus lhe muda o destino e virá a tornar-se um grande pregador, com centenas de pessoas a ir ao seu encontro para o ouvirem. Por outro lado, passa horas a confessar e realiza, em nome de Deus, muitos milagres. Esta parte dos milagres até que nos dava jeito! Mas o verdadeiro milagre é o da conversão. A fé move montanhas. Deus realiza os milagres através de crentes, cuja fé está amadurecida e fundada na oração e na intimidade com o Senhor. Prontos para sermos como Santo António? Seguros nos bens que temos ou no risco de tudo colocarmos em Deus?

Se fizéssemos uma sondagem sobre popularidade… talvez São João, São Pedro e Santo António não figurassem nas primeiras cem opções! Obviamente que as festas populares são importantes, referidas a estes ou outros santos. É também oportunidade para os conhecermos melhor. Por outro lado, a santidade, como cristãos, está sempre no horizonte. Cabe-nos acolher a santidade de Deus que em Cristo Se manifesta amor e compaixão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/31, n.º 4613, 16 de junho de 2021

ASSUMIR AS IMPERFEIÇÃO | Editorial Voz de Lamego | 7 de junho

Assumir a Imperffeição

Assumir a Imperfeição

O primeiro destaque da Voz de Lamego desta semana, a partir da primeira página, vai para a Peregrinação Arciprestal a pé ao Santuário da Lapa das paróquias que constituem o Arciprestado de Moimenta da Beira, Sernancelhe e Tabuaço, mas muitos outros temas estão evidência, como a Visita Pastoral de D. António Couto na paróquia de Vila da Ponte, o CONVITE para toda a Diocese para participar no DIA DA FAMÍLIA DIOCESANA, que se realizará a 25 de junho, também no Santuário de Nossa Senhora da Lapa, bem assim como a informação sobre a Peregrinação Anual, de 10 de junho, do referido Santuário da Lapa… entre muitas outras notícias e reflexões.

Iniciamos a leitura do Jornal Diocesano com o Editorial que nos propõe o nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, num desafio a viver o mês de junho: “no mês dos santos populares, no ano da misericórdia, importa acolher o convite à santidade e assumir com esperança o tempo que vem”.

ASSUMIR A IMPERFEIÇÃO

As festas em honra de alguns santos, o convívio entre familiares e amigos, bem como os feriados municipais contribuem para a popularidade do mês de Junho. E tudo isso é importante e necessário: o exemplo dos santos edifica, a celebração congrega, o convívio familiar aproxima e a pausa laboral permite o repouso e o encontro.

Para os cristãos, celebrar e exaltar a memória e o exemplo dos santos é sempre uma oportunidade para contemplar a santidade, louvando percursos de vida e enaltecendo opções. Mas é também a ocasião para renovar o seu próprio compromisso na mesma caminhada. Porque a santidade é ponto de chegada, meta de uma procura consciente e responsável, prémio para a perseverança fiel; não é herança ou fruto do acaso, mas o resultado de um caminho de transformação iluminado pela prática das virtudes cristãs e humanas.

E nesta caminhada, marcada por diferentes ritmos e sujeita a avanços e recuos, o primeiro passo consiste em assumir os próprios limites. A imperfeição e a fragilidade fazem-nos companhia.

E é neste contexto de imperfeição, de seres frágeis, fracos e, às vezes, rebeldes que Deus oferece a sua santidade como caminho de felicidade. E ninguém fica excluído deste chamamento (LG 39). Aliás, a recusa a este convite só poderá vir daqueles que o julgam supérfluo (já se consideram sem mácula) ou dos que desesperam dos seus limites (duvidar do perdão divino). Se no primeiro caso a imodéstia alimenta uma ilusória auto-suficiência, no segundo há uma deficiente compreensão de Deus que exclui a misericórdia divina.

No mês dos santos populares, no ano da misericórdia, importa acolher o convite à santidade e assumir com esperança o tempo que vem. Porque, como bem escreveu Orson Welles, se todo o santo tem passado, todo o pecador tem um futuro.

in Voz de Lamego, ano 86/26, n.º 4365, 31 de maio de 2016