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Editorial da Voz de Lamego: Santos que nos batem à porta

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Sede santos como o vosso Pai celeste é santo. Interpelação de Jesus aos discípulos. Sede misericordiosos como o Vosso Pai do Céu é misericordioso. A santidade passa pela misericórdia, pela compaixão, pela ternura. A santidade não é, definitivamente, uma atitude passiva, de quem não faz bem nem mal, mas a decisão firme de seguir as pegadas de Jesus, fazendo-se próximo, apostando na docilidade, gastando-se a favor dos outros.

A vocação primeira do cristão é ser santo. Podemos dizê-lo de outra maneira: a vocação primeira do cristão é seguir Jesus, amar Jesus, viver Jesus, testemunhar Jesus. Ora, Jesus trouxe-nos a santidade de Deus, humanizando as relações entre as pessoas, devolvendo a dignidade aos excluídos daquele tempo, sarando os corações dilacerados pela discórdia, curando as enfermidades do corpo e da alma, espalhando ternura!

O Vaticano II veio sublinhar a vocação universal dos cristãos à santidade. Esta não é um “privilégio” ou compromisso dos religiosos ou dos padres e bispos, mas de cada e de todo o batizado: identificação da própria vida a Jesus Cristo. Mesmo que não possamos afirmar como o Apóstolo “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim” (Gál 2,20), esse há de ser o propósito de toda a nossa vida, presente nas nossas escolhas diárias. Na verdade, no batismo fomos introduzidos na santidade de Jesus, na vida divina, tornamo-nos novas criaturas, morremos para o pecado, fomos retirados às trevas e imersos na luz do Espírito Santo. É como “santos”, como eleitos, que nos pertencemos a Cristo e ao Seu Corpo que é a Igreja.

O Papa Francisco dirigiu à Igreja a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e exultai), de que já demos nota na Voz de Lamego, precisamente como chamamento à santidade no mundo atual. Um dos incisivos assenta nos santos que nos batem à porta ou que encontramos na nossa vida quotidiana, nas nossas famílias e nas nossas comunidades. Diz-nos o Papa que “o Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus… Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras – da ‘classe média da santidade’”.

Solenidade de Todos-os-Santos e comemoração dos Fiéis Defuntos: a fidelidade a Jesus conduzem à santidade.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 88/46, n.º 4483, 30 de outubro de 2018

CONVITE À SANTIDADE | Editorial Voz de Lamego | 17 de abril de 2018

CONVITE À SANTIDADE

Numa época marcada pelo provisório, pela perda de sentido e pelo narcisismo, o Papa Francisco convida a humanidade em geral e os cristãos em particular a estarem disponíveis para responder ao chamamento à santidade.

A proposta agora apresentada na Exortação Apostólica “Alegrai-vos e Exultai” não é nova e insere-se na missão eclesial de “promover o desejo da santidade” (177). Um apelo oportuno para responder aos riscos e desafios actuais, nomeadamente “a ansiedade nervosa e violenta que nos dispersa e enfraquece; o negativismo e a tristeza; a acédia cómoda, consumista e egoísta; o individualismo e tantas formas de falsas espiritualidades sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso” (111).

Nos caminhos da vida, com ritmos e contextos diferentes, cada um poderá exercitar a vontade de agradar a Deus, deixando-se guiar pelas bem-aventuranças e praticando a caridade. Um percurso que aproxima do Criador e dos outros e não dispensa dos compromissos com a criação.

O itinerário não está isento de dificuldades e insucessos, mas a abertura à transcendência, o assumir humilde dos limites e a determinação perseverante permitirão avançar e crescer. Porque se é verdade que não estamos sós nem desamparados, temos consciência de que “a graça não nos faz improvisadamente super-homens” (50), sendo indispensável o esforço individual. “Aquele que te criou sem ti não te pode salvar sem ti” (St. Agostinho). A santidade dá trabalho!

Como sempre, o Papa escreve de maneira simples (diferente de simplista) um texto pouco extenso, atento ao mundo actual e preocupado com o essencial. Não diz tudo, mas convida todos.

Apesar dos comentários ou resumos que sempre aparecem, importante seria fazer uma leitura integral do texto, deixando-se interpelar pela totalidade e não ficando limitado ao que outros julgaram ser oportuno sublinhar. A comunhão com o Papa também passa pela leitura dos seus textos!

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/20, n.º 4457, 17 de abril de 2018

Modelo cristão de felicidade como alternativa: Alegrai-vos e exultai

Exortação apostólica Gaudete et Exsultate

O Papa Francisco publicou ontem a sua nova exortação apostólica (documento pontifício de índole catequética), dedicada à santidade, na qual propõe um modelo cristão de felicidade como alternativa ao consumismo, à pressa e à indiferença face ao outro. “Se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabamos por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar”.

A exortação apresenta-se como um “apelo” renovado à santidade como proposta radical de vida. “O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa”.

A terceira exortação apostólica do pontificado defende a necessidade de travar a “corrida febril” da sociedade contemporânea para recuperar espaço para Deus e tempo para os outros. “Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive”, adverte o pontífice, que fala na tentação de “absolutizar o tempo livre”.

Francisco diz que, nesta sociedade, “volta a ressoar o Evangelho” para oferecer “uma vida diferente, mais saudável e mais feliz”, a santidade. Esta, explica, não está reservada apenas a algumas pessoas, mas encontra-se “por toda a parte”, nas famílias, no trabalho, naquilo a que o Papa chama como “classe média da santidade”, inclusive “fora da Igreja Católica e em áreas muito diferentes”.

O Papa elogia os “estilos femininos de santidade” que se manifestaram, ao longo da história, em “tantas mulheres desconhecidas ou esquecidas que sustentaram e transformaram, cada uma a seu modo, famílias e comunidades com a força do seu testemunho”

A ‘Gaudete et Exsultate’ recomenda a santidade dos “pequenos gestos”, que impede de falar mal dos outros, olha para o pobre e reserva tempo para a oração. O texto elogia a “ousadia” nas comunidades católicas e diz que a santificação é um caminho comunitário, “contra a tendência para o individualismo consumista que acaba por isolar, na busca do bem-estar à margem dos outros”.

O Papa elenca “grandes manifestações do amor a Deus e ao próximo” que devem contrariar uma cultura marcada pela “ansiedade nervosa e violenta”, “o negativismo e a tristeza” ou o individualismo, rejeitando “tantas formas de falsa espiritualidade sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso atual”.

in Voz de Lamego, ano 88/19, n.º 4456, 10 de abril de 2018

Santos, esses (quase) desconhecidos… São João Esmoler

sao-joao-esmolerOs pobres eram os seus senhores

Habitualmente, é pelo nome que somos conhecidos. Mas há vidas que se tornaram tão marcantes que até foram acopladas ao nome.

São João Esmoler (não vai ser difícil perceber porque é que aparece este sobrenome) nasceu em Chipre, foi funcionário do imperador, enviuvou e veio a ser patriarca de Alexandria por volta de 610. Espantou toda a gente com uma pergunta que fez à chegada: «Quantos são aqui os meus senhores?»

Como ninguém percebeu o alcance, ele descodificou: «Quero saber quantos pobres temos. Eles são os meus senhores, pois representam na terra Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 25, 34-46). Dependerá deles que eu venha a entrar no Seu reino». Fizeram o apuramento. Havia 7500 pobres, que ficaram a receber, todos os dias, uma boa esmola.

É claro que as críticas não demoraram. Que havia alguns que não eram pobres, antes mandriões. Réplica cortante do Bispo: «Se não fôsseis não curiosos, não o saberíeis. Curai-vos da vossa intriga e curiosidade e deixai-me em paz. Prefiro ser enganado dez vezes a violar, uma vez que seja, a lei do amor».

Diz a história que o cofre nunca se esvaziou. A quem lhe agradecia ele respondia: «Agradece-me só quando eu derramar o meu sangue por ti; até lá, agradeçamos, os dois juntos, a Nosso Senhor Jesus Cristo».

Ninguém tinha coragem de lhe negar nada. Só que alguns costumavam sair, furtivamente, da igreja antes do fim da Santa Missa. Sucede que o Bispo saía também e, de báculo na mão, juntava-se a eles cá fora intimando-os: «Meus filhos, um pastor deve estar com o seu rebanho; por isso, venho ter convosco. Mas não posso ficar aqui e não me posso cortar em dois; que iria ser das minhas ovelhas que estão lá dentro?» Desde então, toda a gente esperava pelo fim da Santa Missa para sair.

Dizem que, muito mais tarde, também Bossuet repetia: «Nossos senhores, os pobres». De facto e como assinalou Bento XVI, «o pobre é sempre uma surpreendente aparição de Deus».

Pe. João António Pinheiro Teixeira, in Voz de Lamego, ano 86/49, n.º 4385, 1 de novembro de 2016

SANTOS ANÓNIMOS | Editorial Voz de Lamego | 25 de outubro

The fresco at Holy Trinity Church in Lorain, photographed after Wednesday morning mass, August 26, 2009. The church is scheduled to close December 13th, and the future of the fresco, painted by Romeo Celleghin, remains up in the air. (Gus Chan / The Plain Dealer)

Nas páginas centrais da edição da Voz de Lamego desta semana, o destaque para as Visitas Pastorais em Fráguas e em Vila Nova de Paiva, bem como o testemunho de fé e de vivência cristã do Selecionador Nacional, Eng. Fernando Santos, no Arciprestado da Mêda, Penedono, São João da Pesqueira e Vila Nova de Foz Côa. A abrir o jornal, o destaque a solenidade de Todos os Santos e dos Fiéis defuntos. É também esta a temática proposta pelo nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio.

SANTOS ANÓNIMOS

Os católicos iniciam o penúltimo mês do ano com uma festa em honra dos que passaram pela vida “fazendo o bem”. No dia 1 de novembro celebramos a Solenidade de Todos os Santos, com origens no séc. IV e que, depois de várias datas, foi fixada neste dia, no séc. IX.

A festa da santidade enaltece o testemunho responsável e livre. Por isso, lembrar os santos não é apenas recordar exemplos de vida, mas também comprometer-se com uma resposta ao chamamento divino. A santidade é para todos e está ao alcance de todos.

Um teólogo católico do século passado falou de “cristãos anónimos” para referir todos os homens e mulheres de boa vontade que, não tendo tido acesso à revelação de Jesus Cristo, vivem a sua vida de acordo com os princípios evangélicos. A intuição valeu-lhe muitas críticas, mas serviu também para alargar horizontes.

Na festa da santidade, poderíamos também falar dos “santos anónimos”, aqueles de quem não sabemos o nome, que nada escreveram e que jazem em campa rasa, mas que neste dia honramos e que, na comunhão dos santos, nos acompanham:

  • os que se fizeram próximos de todos;
  • os pais que, com maior ou menor dificuldade, se empenharam na defesa e promoção da vida;
  • os fiéis leigos que, vencendo o comodismo, se esforçaram na transmissão da fé e na edificação das comunidades;
  • os ministros ordenados que se doaram ao povo que lhes foi confiado;
  • crianças, jovens e adultos a quem a doença abreviou a vida e que, sem culparem Deus, permaneceram fiéis;
  • as vítimas da intolerância, do egoísmo, da exploração e da indiferença que viveram sem sorrisos e sem liberdade…

Porque a santidade não é resultado de um processo canónico, mas fruto de uma vida singular.

in Voz de Lamego, ano 86/48, n.º 4384, 25 de outubro de 2016

Madre Teresa e a misericórdia divina

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A missão de Madre Teresa de Calcutá “permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres”, disse o Papa Francisco na canonização da religiosa fundadora das Missionárias da Caridade, na Praça São Pedro, perante 120 mil fiéis e peregrinos provenientes de todas as partes do mundo. Um dia de festa para a Igreja e para o mundo, para todos homens e mulheres de boa vontade que conheceram nesta religiosa de origem albanesa uma gigante da caridade dos nossos dias, apresentada pelo Pontífice ao mundo do voluntariado “como modelo de santidade para todos os Agentes de Misericórdia. Ler mais…

SANTIDADE E SERVIÇO | Editorial Voz de Lamego | 30 de agosto

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O Jornal Diocesano, Voz de Lamego, regressa de férias e em vésperas da canonização de Madre Teresa de Calcutá, o nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio, partindo do seu exemplo, para que nos procuremos ser santos. É uma vocação comum a todos, independentemente o estado de vida e/ou das circunstâncias pessoais, familiares, profissionais. Pequena e frágil, mas de uma grandeza humana e cristã inexcedível.

SANTIDADE E SERVIÇO

No próximo domingo, 04 de setembro, em Roma, o Papa presidirá à canonização de Madre Teresa de Calcutá (1910 – 1997) e a Igreja colocará, diante de todos, a figura frágil e discreta desta mulher, convidando à imitação do seu exemplo de vida e à confiança na sua intercessão junto do Senhor da Vida.

Cerimónias destas são comuns e sempre divulgadas, mas a contemporaneidade desta religiosa de origem albanesa (nasceu na Macedónia) faz a diferença, já que a sua fé, obra, testemunho e ensinamento marcaram a segunda metade do século passado.

Ao contrário de tantos santos que nos são temporalmente distantes, a proximidade da fundadora das Missionárias da Caridade (1950) motiva a uma maior atenção, graças também aos meios que registaram a sua fisionomia, guardaram a sua voz e divulgaram a sua acção.

Servir foi a sua divisa, destacando-se pelo serviço humilde aos “mais pobres entre os pobres”, aos que viviam em ruas esquecidas pelo poder ou em favor de gente socialmente irrelevante.

Teresa de Calcutá é exemplo quando ensina a acolher sem distinção ou quando serve sem esperar honras, mas também o é quando denuncia a falta de amor ao próximo e o egoísmo que impede de nascer ou quando desafia os poderosos a fazer diferente. E não deixa de ser grande quando, na opinião de alguns, tem desabafos que poderão evidenciar alguma dúvida. A Bíblia mostra-nos exemplos de crentes que, sem duvidarem da sua fé e de Deus, não deixaram de questionar-se diante do mistério da vida ou do aparente silêncio de Deus.

A santidade é transversal e pode ser atingida no silêncio orante de um mosteiro, nas ruas sujas de Calcutá existentes noutros países, à volta das panelas de uma cozinha ou num qualquer trabalho honesto.

Afinal, a santidade é fruto do serviço.

in Voz de Lamego, ano 86/40, n.º 4376, 30 de agosto de 2016

SANTIDADE – SIM| Editorial Voz de Lamego | 27 de outubro de 2015

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No último Domingo, 25 de outubro, encerrou a XIV Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, pelo que a edição da Voz de Lamego desta semana não poderia deixar de fazer eco do acontecimento bem como a mensagem vincada no mesmo, na preocupação comum de valorizar a família.

Por outro lado, e sintonizando com a solenidade do Todos os Santos, aí está também o Editorial do pe, Joaquim Dionísio para que a santidade seja o jeito normal de realizar a vida.

SANTIDADE – SIM

O texto “Retrato de Mónica” faz parte do livro “Contos Exemplares”, da escritora Sophia de Mello Breyner. Com a mestria que todos lhe reconhecem, a autora descreve o ser e o agir de alguém que tudo faz para ter sucesso e influência social, imune ao vazio que a habita e cega à futilidade que alimenta, seleccionando contactos, mantendo aparências e promovendo iniciativas que lhe dão visibilidade.

Mas para atingir tal “sucesso” – escreve a autora – teve que “renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade”. À poesia só precisou de dizer não uma vez e o amor, após algumas recusas, deixou de aparecer. “Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias”.

A vocação comum de homens e mulheres é a santidade, entendida como fruto de uma humanidade plenamente assumida, resultado das opções e decisões de todos os dias, soma do sim ao Senhor, aos irmãos e ao mundo. Não é um acaso ou uma herança, mas resulta de um caminho consciente e responsável que não se cumpre sem sacrifício. Porque o bem, a verdade e a justiça dão trabalho!

Dizer não à santidade será, então, viver sem sentimentos, calcular egoisticamente os percursos e calar a consciência que alerta, corrige e denuncia, deixando de lado valores e princípios que elevam, aproximam e dignificam.

No próximo domingo celebramos a festa de Todos os Santos, a oportunidade para louvar e recordar todos quantos, com esforço e perseverança, disseram sim à vida e ao Seu Autor.

Eis uma ocasião propícia para repensar opções e percursos, aceitando o convite à santidade que chega diariamente. O sim será exigente, mas mais realizador que o cansativo não!

in Voz de Lamego, ano 85/48, n.º 4335, 27 de outubro

SANTIDADE E LIBERDADE | Editorial Voz de Lamego | 4 de novembro

santidade_liberdadeUm dos temas de fundo desta edição da Voz de Lamego, de 4 de novembro, e destaque de primeira página, é a Família, com entrevista ao responsável da Comissão Diocesana da Família, Pe. Carlos Lopes. Porém, e, como já nos habitou, o Jornal da Diocese traz até nós um conjunto de reflexões, sobre a vida, a felicidade, as comunicações sociais, a Igreja, o mundo atual… Sendo um semanário regionalista e que abrange o território da Diocese de Lamego, notícias do que vai acontecendo ou do que vai acontecer, em diferentes lugares, com acontecimentos variados, como o Encerramento do Serviço Serviço de Atendimento Permanente (SAP), no Centro de Saúde de Resende, e a consequente e urgente contestação; a formação de catequistas para o próximo sábado, no Seminário Maior de Lamego; iniciativas no projeto + Ser; Tarouca em promoção do Aeroporto Sá Carneiro no Porto; balanço da festa da castanha, em Armamar; os Forais de Sernancelhe; e muitos outros motivos de interesse na região e na diocese.

Como habitualmente, sugerimos que a leitura se inicie com o EDITORIAL proposto pelo Diretor do Jornal, Pe. Joaquim Dionísio, esta semana relacionando a santidade e a liberdade:

SANTIDADE E LIBERDADE

Afirmar que a santidade é fruto da liberdade pode incomodar quem vê a santidade como negação de si mesmo para agradar ao Outro e contempla a liberdade como o direito de fazer e dizer sem depender de ninguém. Nesse sentido, a liberdade será entendida como ausência de obrigações e responsabilidades, isto é, uma liberdade de. Tal liberdade facilmente resvala para a libertinagem.

A liberdade de que aqui se fala, condição fundamental para a santidade, é a liberdade de quem sabe que aos direitos correspondem deveres: cidadania, fraternidade, responsabilidade social… Trata-se, então, de uma liberdade para.

A liberdade concretiza-se na vida de todos os dias, nas relações humanas, correndo riscos, assumindo limites, valores e princípios. A sua falta faz-nos pensar na escravidão ou na impossibilidade de movimentos ou da livre expressão, tal como escreveu Dostoiévsky: “Quando ouço gritar ‘liberdade’ venho à janela ver quem vai preso”.

Para o cristão, a liberdade é dom que Deus dá ao homem para lhe permitir caminhar no amor. Uma presença que não oprime, esmaga ou destrói a subjectividade. Por isso, Paulo escreve: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Fomos libertos para sermos livres. E é esta liberdade que deve ser santificada diariamente. Como? Assumindo-a com responsabilidade.

A liberdade assume-se, plenamente, como obediência, como disponibilidade para seguir fazendo o bem. Quanto mais praticamos o bem, concretizando o amor, mais livres somos. Por isso, Lutero, que tanto se preocupou com a questão da liberdade, é capaz de exclamar: “o cristão é um ser absolutamente livre e a ninguém sujeito; o cristão é servo de tudo e a todos sujeito”.

Jesus é a expressão máxima do homem livre que obedece, porque ama.

in VOZ DE LAMEGO, n.º 4287, ano 84/49, de 4 de novembro de 2014.

Solenidade de TODOS OS SANTOS | Santidade | 1 de novembro

todos-os-santos-e-santasNeste sábado louvamos o Criador por todos quantos, antes de nós, viveram responsavelmente a sua vida, em plena liberdade. Homens e mulheres que, apesar de limites confessados e de percursos nem sempre isentos de dúvidas ou quedas, percorreram a vida de forma exemplar e são um testemunho a ter em conta. A Igreja celebra a Solenidade de Todos os Santos.

A santidade não está na moda. Nunca esteve. E falar dessa vocação a que todos os baptizados são chamados pode não motivar muito os ouvintes e leitores. Mas é a verdade: somos todos convidados a ser santos, a esforçarmo-nos por ser santos. Tal como nos esforçamos por saber algo ou a conseguir alguma coisa. E nada se consegue sem esforço. Porque a santidade não é um acaso, fruto de intenções, de discursos ou de fugas, mas o resultado de uma procura e a consequência de muitas escolhas acertadas e de opções correctas.

Alguém disse, com humor, gostar muito do trabalho e que seria capaz de estar horas e horas a olhar para ele. A santidade dá trabalho, mas não resulta apenas da contemplação. Até porque, entre os nossos pecados, talvez tenhamos que confessar sempre o da omissão. Quem quer ser santo? A resposta deveria vir, em uníssono, da boca de todos os baptizados. Sabemos que não é assim. Confiantes na misericórdia de Deus, acreditamos que a multidão dos santos é incontável. O que nos dá esperança de chegar lá, apesar dos muitos limites.

Festa de todos

No primeiro dia de Novembro a Igreja honra a imensa multidão dos que foram vivas e luminosas testemunhas de Cristo. Se um certo número de entre eles foi oficialmente reconhecido, concluindo um procedimento chamado “canonização”, e nos foram dados como modelos, a Igreja sabe bem que muitos outros viveram igualmente na fidelidade ao Evangelho e ao serviço dos irmãos. Por isso, nesta festa, celebramos todos, conhecidos ou desconhecidos.

Mas a festa serve também para nos recordar que todos somos chamados à santidade, por caminhos diferentes, às vezes surpreendentes ou não esperados, mas acessíveis. Porque a santidade não é uma via reservada a uma elite: diz respeito a todos os que escolhem seguir Cristo.

Por outro lado, a vida dos santos constitui uma verdadeira catequese, viva e próxima de nós. Mostra-nos a actualidade da Boa Nova e a presença actuante do Espírito Santo entre os homens. Testemunhas do amor de Deus, estes homens e mulheres são nossos próximos pelo seu caminhar – não se tornaram santos do dia para a noite – pelas suas dúvidas, pelos seus questionamentos, pela sua humanidade.

Santidade como meta

O texto das Bem Aventuranças, lido nesta festa, diz-nos que a santidade é fruto do acolhimento da Palavra de Deus, da fidelidade e da confiança n’Ele, mas também da bondade, justiça, amor, perdão e paz (cf. Mt 5, 1-12). E a multidão dos baptizados de todas as raças, de todas as línguas, de todas as nações, que são filhos adoptivos pela graça divina e participam na vida trinitária, é anónima aos olhos dos homens. Só Deus a conhece, Ele que a todos chamou.

Desde o século IV que a Igreja síria consagrava um dia para festejar todos os mártires, já que o seu número se tornara tão grande que impossibilitava a comemoração individual. Três séculos mais tarde, num esforço para cristianizar as festas pagãs, o Papa Bonifácio IV transformava um templo romano dedicado aos deuses, o Panteão, numa igreja consagrada a todos os santos. O costume expandiu-se no ocidente, mas cada Igreja festejava em datas diferentes, até ao ano 835, quando é fixada no primeiro dia de Novembro.

Como escreveu S. Bernardo: “É do nosso interesse, não do interesse dos santos, que honremos a sua memória. Pensar neles, é uma forma de os ver. Com isso, somos transportados espiritualmente para a Terra dos Viventes”.

Procura e não acaso

Ao longo da Revelação bíblica, Deus dá-se a conhecer não somente como Deus criador, vivo e verdadeiro, ao qual se deve render culto com sacrifícios santos, mas mais ainda como Aquele que ama os homens, que os livra do mal e lhes oferece a possibilidade de viverem em aliança com Ele.

Ao longo deste caminhar na Aliança, aparece a inconstância dos homens e a sua recusa em amar, o seu pecado. É a estes homens fracos e por vezes rebeldes que Deus oferece a sua própria santidade como caminho de felicidade: “Vós sereis santos, porque eu sou santo” (Lev 19, 2).

Tornar-se santo não é fazer coisas para Deus ou em seu nome, mas tornar-se semelhante a Ele, ser participantes da vida de Deus (cf. 2 Pd 1, 4) que é Amor e Luz. Ser santo é então uma maneira nova de ser, enraizado no amor, iluminado pela Palavra de Deus, e que se traduz pelo dom de si mesmo para o serviço de Deus e do próximo: “Procurai imitar Deus, como filhos bem amados, a exemplo de Cristo que vos amou e se entregou por vós” (Ef 5, 1).

Jesus Cristo é “o Santo de Deus” (Jo 4, 34), perfeita imagem de Deus na nossa humanidade. Ele é o modelo que nos é proposto e o próprio caminho da santidade. É por Ele, único mediador entre Deus e os homens, que comunicamos com Deus, o Pai, no Espírito de amor.

Tornar-se santo é percorrer um caminho de transformação profunda, vivendo a “vida nova dos filhos de Deus”, pela prática das virtudes cristãs e humanas. Dito de outra forma, protagonizar comportamentos habituais, a partir do coração, na fé em Jesus Salvador, na esperança fiel de Deus e suas promessas de vida, no amor de Deus, a si mesmo e ao próximo, na justiça, na franqueza, na sobriedade, na luta contra o mal, etc.

Vocação comum

O Concílio Vaticano II relançou este apelo de Deus para participarmos na sua santidade: é a vocação comum de todos os fiéis de Cristo e que os coloca em pé de igualdade, homens e mulheres, desde o Papa até ao mais pequeno dos baptizados. Um convite único que não está reservado aos cristãos, mas que estes assumem a missão de anunciar a todos os homens e mulheres, porque a alegria ou se partilha ou não está completa.

Entre os cristãos, alguns – mesmo crianças – gozam de uma grande consideração pelo testemunho de santidade que deram até ao fim das suas vidas, às vezes pelo martírio, mas mais frequentemente pela sua total fidelidade ao quotidiano. A sua reputação de santidade manifesta-se no povo cristão pela estima dedicada ao seu exemplo, mas também pela oração que lhe é confiada junto de Deus e pelas respostas ou graças que lhes são atribuídas. A sua vida cristã é tomada como exemplo, considerados como irmãos mais velhos na fé, chegados a bom porto depois das dificuldades desta vida, mas que continuam próximos de nós e nos assistem com a sua intercessão.

 

in Voz de Lamego, 28 de outubro de 2014, n.º 4286, ano 84/48

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