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Santa Teresa de Jesus | Tempo de caminhar

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Em 28 de Março de 1515 nasceu em Ávila, Teresa de Cepeda y Ahumada, mais conhecida como Teresa de Jesus. Desde então e até aos nossos dias passaram-se cinco séculos; no entanto, a passagem do tempo não fez desaparecer a sua figura, antes a foi engrandecendo. A sua existência ficou marcada temporal e geograficamente na Espanha do século XVI. Apesar disso, apesar de ser filha da sua época, Teresa foi capaz de romper as estreitas margens espacio-temporais que lhe foram impostas para se fazer companheira de caminho do homem e da mulher dos nossos dias. A nós, que vivemos no século XXI e não conhecemos a Madre Teresa de Jesus em vida. Mas podemos reconhecê-la viva nas suas filhas, as Carmelitas, e nos seus escritos.

Por trás de uma intensa actividade funcional, Teresa de Jesus fechou os olhos para esta vida em Alba de Tormes em 4 de Outubro de 1582. Cansada e doente, entregava a sua alma a Deus, não sem antes pronunciar as célebres palavras: «É tempo de caminhar», palavras que exprimem não só o estilo de vida de uma mulher, qualificada depreciativamente como «inquieta e andarilha», com a condição peregrinante de todo o ser humano. Agora e sempre, é tempo de caminhar. Convencida disso, Teresa de Jesus não só nos anima a seguir caminhando, apesar dos obstáculos e dificuldades que possam sobrevir, mas até a não e nunca perder de vista a meta do caminho: essa meta não é outra senão a verdade, e a sua consecução justifica sobejamente os trabalhos e penalidades sofridas. A este respeito, é muito eloquente que, nos tempos modernos, outra grande mulher, Edith Stein, confessará ter encontrado a verdade lendo a Vida de Santa Teresa de Jesus.

Esta mulher, andarilha de tosco burel, deixou uma folha inesquecível em todas as ordens da vida. Prova disso é a veneração e estudo da sua figura sob as mais diversas perspectivas ao longo dos cinco séculos passados desde o seu nascimento aos nossos dias. Ávila e Alba de Tormes são os marcos que assinalaram a trajectória vital e espiritual de Teresa de Cepeda e Ahumada. Na fria e amuralhada cidade castelhana espreitou a luz pela primeira vez, e na Vila Ducal ribeirinha de Tormes deu o último suspiro rodeada pela comunidade carmelita que ela mesma tinha fundado.

Estamos a terminar um ano cheio de celebrações e homenagens. Instâncias estatais, autonómicas, provinciais e locais deram a este acontecimento uma inusitada relevância. As mais altas hierarquias eclesiásticas, tendo em primeiro lugar o seu mais alto representante, o Papa Francisco, estiveram implicadas no centenário teresiano. A ordem carmelita, por seu lado, acolheu com satisfação e legítimo orgulho o patrocínio de um evento de singular importância para uma comunidade que deu suficientes mostras de grande espiritualidade, fortaleza, sabedoria e entrega por todo o mundo.

Teresa mostra a cada um de nós essa capacidade ilimitada para imaginar, admirar, maravilhar, espantar, estranhar-se tanto perante fenómenos da natureza como diante dos mistérios sobrenaturais e mostrar o seu assombro nessa dupla vertente. Expressões como «é coisa de ver» repetem-se com frequência e ilustram esse espírito aberto à admiração de quantas coisas Deus colocou sobre a face da terra, desde as mais pequenas criaturas até às grandes obras da natureza, prova da magnificência divina. Essa capacidade de assombro e de busca, que costuma ficar fixa na adopção de um claro estilo de admiração no seu discurso, exercita-a igualmente quando se trata da palavra de Deus, dos mistérios divinos, dos livros sagrados, do carácter insondável da alma humana e, sobretudo, da figura de Cristo, o seu grande interlocutor.

As obras de Santa Teresa podem ter distintos níveis de leitura, Podemos ficar nas componentes autobiográfica, literária, com a mensagem religiosa, com o valor testemunhal dos seus escritos, etc. O mais importante é que os textos teresianos supõem uma valiosa contribuição para a literatura mística, tanto pelo desdobramento de recursos de estilo como pela carga espiritual do conteúdo. Sob o ponto de vista da comunicação, soube trasladar com grande mestria a mensagem das suas experiências pessoais. O domínio demonstrado das imagens, figuras e símbolos coloca-a a uma altura semelhante à de S. João da Cruz.

Segundo L. Pérez López, Deão da Catedral de Santiago (de Compostela)

(Tradução de P.e Armando Ribeiro), in Voz de Lamego, ano 85/45, n.º 4332, 6 de outubro

Encontro Tereseano na Diocese de Lamego

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V centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus

A Ordem dos Carmelitas Descalços está a celebrar, desde o passado dia 15 de Outubro de 2014 o V Centenário do nascimento de Santa Teresa de Jesus (Teresa de Ávila): Santa, Fundadora, Mestra de oração, Doutora da Igreja … As celebrações culminarão, em Portugal, com a celebração de um Congresso e uma peregrinação Nacional a Fátima nos dias 16 a 18 de Outubro próximo.

Neste contexto, estamos a realizar Encontros de Espiritualidade sobre esta figura, sua doutrina e espiritualidade, em vários locais. Fizemos uma oferta a todos os senhores Bispos de Portugal para realizar em algum local da sua diocese um destes encontros.

Também o Senhor D. António Couro se mostrou inteiramente aberto e agradecido por esta iniciativa: já o marcamos para os dias 6 a 8 de Fevereiro próximo, na Casa de Retiros de São José, na cidade de Lamego.

Destina-se, este encontro, a todos os que desejam conhecer e/ou aprofundar nesta doutrina a espiritualidade da oração e da vida interior, especialmente os responsáveis e mais comprometidos com a pastoral: catequistas, leitores, acólitos, ministros extraordinários da comunhão, responsáveis de grupos de jovens e outros movimentos e obras paroquiais e diocesanas.

 

Pe. Alpoim Portugal, in VOZ DE LAMEGO, n.º 4297, ano 85/10, de 20 de janeiro de 2015

INTELIGÊNCIA E HUMOR | Editorial Voz de Lamego | 21-10-2014

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Decorrida a 3.ª Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, no Vaticano, de 5 a 19 de outubro, dedicado à temática da família, o Jornal da Diocese faz eco deste encontro de debate, reflexão, diálogo. Na conclusão do Sínodo, a beatificação do papa Paulo VI, com a presença do Papa Emérito Bento XVI a concelebrar com o Papa Francisco, repetindo o gesto da canonização de outros dois antecessores, João XXIII e João Paulo II, no passado dia 27 de abril. A figura de Paulo VI é outro dos destaques desta edição da Voz de Lamego.

Além dos diversos temas de reflexão/opinião, a informação de diversos eventos, na Diocese de Lamego (por exemplo: Dedicação da Igreja de Leomil; Vigília Missionária, em Castro Daire; o arranque da catequese em diferentes paróquias; os alunos inscritos em EMRC por concelhos) e na região que baliza a Diocese (por exemplo: a desfolhada em Magueija; o prémio Manuel Coutinho, entregue no Museu de Lamego; Lamego em promoção no aeroporto Sá Carneiro).

O editorial desta semana centra-se em Santa Teresa de Jesus/Santa Teresa d’Ávila, na sua inteligência e bom humor. Por ocasião do V centenário do seu nascimento, oportunidade de redescobrir os seus textos mas sobretudo acolher o testemunho de santidade. O subtítulo do editorial poderia ser a última frase desta reflexão: “A inteligência aproxima da realidade e o humor não afasta de Deus”.

INTELIGÊNCIA E HUMOR

 

Até 15 de Outubro de 2015 assinala-se o V Centenário do nascimento de Sta. Teresa de Ávila, grande reformadora da Ordem Carmelita (fundou 32 conventos e reformou outros tantos) e mística singular que a Igreja declarou Doutora, em 1970, atendendo à profundidade dos seus escritos espirituais; a primeira mulher a receber tal título.

Oportunidade para nos (re)aproximarmos dos seus textos, contemplarmos a sua vida e meditarmos em tão marcante testemunho. Com o seu ardor missionário contribuiu para a vida e a santificação da Igreja no país vizinho, mais do que a Inquisição de então. E na oração encontrou sempre Aquele que lhe deu forças para avançar e vencer as dificuldades do percurso. E foram muitas.

Nesta breve referência, dois traços desta figura ímpar: a inteligência prática e o humor.

Membro de uma Igreja convidada pelo concílio de Trento a renovar-se / santificar-se, atenta à realidade vivida na sua comunidade religiosa e disponível para participar na obra de Deus, avança e decide reformar a sua Ordem. Tem consciência de que Deus espera algo de si e promove a união de esforços para avançar: a partir da sua casa, da sua família religiosa. A inteligência prática permite-lhe concretizar uma intuição, propor caminhos novos e manter-se resoluta, apesar de se confessar falível.

Por outro lado, a santidade, fruto da seriedade com que se assume a vida, não impede um sadio humor que traduz confiança filial em Deus, revela serenidade interior e aproxima dos irmãos. Um dia alguém a terá provocado: “Madre, dizem que sois bonita, inteligente e santa. Que dizeis de vós mesma?” E Teresa respondeu: “Bonita, vê-se bem. Inteligente, penso que nunca fui tonta. E santa, a veremos, assim Deus o queira.”

A inteligência aproxima da realidade e o humor não afasta de Deus.

 

Pe. Joaquim Dionísio, VOZ DE LAMEGO, 21 de outubro de 2014, n.º 4285, ano 84/47