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MISSÃO E PROXIMIDADE | Editorial Voz de Lamego | 7 de julho

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A edição desta semana, como não poderia deixar de ser, abre com a Ordenação do Fabrício e do Valentim, na Sé Catedral, no passado dia 5 de julho. Além do destaque na primeira páginas, outras páginas dedicadas a esta celebração importantíssima na vida dos ordenados, suas famílias e comunidades, mas também de toda a Igreja em Lamego.

O Editorial do nosso Diretor, Pe. Joaquim Dionísio ambienta e sublinha este acontecimento, balizando a ordenação e o sacerdócio entre a missão e a proximidade:

MISSÃO E PROXIMIDADE

A ordenação sacerdotal, culminar de uma caminhada formativa e de discernimento, é sempre um momento decisivo para quem se dispõe a seguir e a servir o Senhor, mas também de alegria para a Igreja que pede a sua ordenação e para o presbitério que cresce com os novos membros.

Por isso, é sempre oportuno agradecer tal graça ao Senhor da Messe, suplicando-Lhe que acompanhe os sacerdotes, cooperadores dos bispos, e os ajude a viver, com alegria, o serviço ao Povo de Deus.

A propósito da exigente missão dos padres, o Decreto conciliar sobre o “Ministério e a Vida dos Sacerdotes” (PO), recorda que estes são “testemunhas e dispensadores duma vida diferente da terrena”, mas só poderão servir os homens se não permanecerem “alheios à sua vida e às suas situações” (PO 3). O seu ministério exige “que não se conformem a este mundo”, mas, “como bons pastores”, tudo devem fazer para conhecer e trazer todos para o “redil de Cristo”. Daí que o título dado ao próximo Simpósio do Clero, “Padre, Irmão e Pastor” revele uma oportunidade sempre actual: a proximidade humana é condição para a missão de pastor.

O número já citado do documento conciliar, partindo do que escreveu S. Paulo (Fil 4, 8), convida os presbíteros a protagonizarem determinadas virtudes “que se apreciam no convívio humano” (bondade, sinceridade, fortaleza de alma, constância, cuidado assíduo da justiça, delicadeza) e que muito contribuirão para o concretizar da missão de pastor, cujo objectivo será “levar todos a ouvir a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só pastor”.

Alegramo-nos com a ordenação dos Padres Fabrício e Valentim e acreditamos que, no serviço à Igreja, vão atingir, “com o seu ministério e a sua vida, a glória de Deus Pai em Cristo” (PO 2).

in Voz de Lamego, n.º 4320, ano 85/34, de 7 de julho de 2015

ORDENAÇÕES SACERDOTAIS | HOMILIA DE D. ANTÓNIO COUTO

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  1. Refere uma indicação do Pontifical Romano acerca da Ordenação dos Presbíteros que o Bispo faz a homilia, dirigindo-se ao povo e aos Eleitos, falando-lhes do ministério dos presbíteros, a partir do texto das leituras lidas na liturgia da palavra (n.º 123). É o que vou tentar fazer, caríssimos fiéis leigos, caríssimos Eleitos Fabrício e Valentim, caríssimos sacerdotes e diáconos, consagrados, seminaristas.

  1. Ezequiel é um profeta. Portanto, é frágil. Portanto, não é autorreferencial, não vive de si e para si, mas vive da força de Deus (é o que significa o nome de Ezequiel), que o atravessa e nele se manifesta como uma nascente, como uma música suave e melodiosa em palavras de namoro decantada (Ezequiel 33,32). Eis Ezequiel entre os exilados de Tel ʼAbîb, na Babilónia, com a sua harpa dependurada nos salgueiros do rio Cobar, atual Shatt Ennil, um canal de irrigação feito sair do rio Eufrates para irrigar a cidade de Nippur. É ali, àquela colina de Tel ʼAbîb, ou da primavera ou das espigas, que acorrem os judeus ali exilados para ouvir aquela doce melodia que o vento do Espírito faz ressoar, repassando as cordas da harpa de Ezequiel ali dependurada. É por 93 vezes que Ezequiel é interpelado por Deus com a locução «filho do Homem», para abrir logo ali duas avenidas: uma, que liga Ezequiel, «filho do Homem», ao «Homem» de Génesis 1, que recebe de Deus o mandato de cuidar com doçura da inteira criação, até pôr cada criatura a cantar com renovada emoção aquele: «Louvado sejas, meu Senhor…», que São Francisco de Assis, já cego, nos ensinou a entoar; outra, que abre caminho para aquele Jesus, manso e humilde de coração, que atravessa os Evangelhos, e que, por 82 vezes, se diz a si mesmo com a locução «Filho do Homem», assumindo o Homem, desde Génesis 1, e nele imprimindo a verdadeira imagem do Deus invisível (Colossenses 1,15).

  1. É este Jesus que vemos no Evangelho de hoje (Marcos 6,1-6), a sair de lá (ekeîthen) (Marcos 6,1), de lá, de Cafarnaum, da casa de Jairo, onde o tínhamos deixado no Domingo passado (Marcos 5,35-43). Sai da casa de Jairo, onde tinha encontrado e levantado do sono da morte uma sua irmã verdadeira, Talitha (feminino de Talyaʽ, que significa “Servo”, “Cordeiro”, “Pão” e “Filho”, decifrando claramente Jesus), e dirige-se agora para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos. Esta ida à sua pátria, ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, tem o seu ponto alto no dia de sábado, e a sinagoga é o lugar desse encontro (Marcos 6,2). Trata-se, no Evangelho de Marcos, da primeira ida de Jesus à sua pátria, e é também a última vez, neste Evangelho, que Jesus ensina numa sinagoga (Marcos 1,21.23.29.30; 3,1; 6,2). É ainda significativo que o sábado seja mencionado, neste Evangelho, apenas mais uma vez, precisamente naquela manhã de Páscoa, «passado o sábado» (Marcos 16,1).

  1. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um carácter denso e decisivo. Desde logo a escolha do termo pátria (pátris), que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação», «lugar» ou «aldeia» (chôra, tópos, kômê). Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galileia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel. E a rejeição que lhe é movida ali, na sua pátria (Marcos 6,2b-4), aponta já para a rejeição que lhe será movida pelo inteiro Israel. Indo mais fundo: são mesmo já visíveis, desde aqui, as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro, dizendo de Jesus: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta primeira ida de Jesus à sua pátria, e esta última vez de Jesus a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem despertar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a primeiro e último carrega, como sabemos, um particular peso específico, uma carga ou descarga única de emoção. Sim, é a primeira vez que Jesus nos vem visitar! É a última vez que vemos Jesus a ensinar na nossa terra! E este sábado já a passar, já passado, deixa-nos à beira do tempo novo da ressurreição e da missão!

  1. É aí que vos deixo, caríssimos Eleitos Fabrício e Valentim, no limiar mistério e do ministério, no limiar da missão. A última vez como Diáconos, a primeira vez como Presbíteros. Fazei sempre tudo com particular intensidade e emoção. Como se fosse sempre a primeira vez, como se fosse sempre a última vez! A vossa missão é simultaneamente crepuscular e auroral. Morrei para vós mesmos; dai vida aos vossos irmãos e irmãs. Como Moisés. No último dia da sua vida, não chora, não se lamenta, não olha para trás, mas empurra o povo de Israel para a Terra Prometida. O Livro do Deuteronómio cabe todo, narrativamente, no último dia da vida de Moisés. Podia ter o tom de uma despedida, mas é uma das mais belas auroras que algum dia despontou nas páginas da Escritura. Assim também Ezequiel, assim Jesus, assim Paulo. Todos completamente ao dispor de Deus e dos seus irmãos e irmãs. Dizia Deus, hoje, para Paulo: «Basta-te a minha graça» (2 Coríntios 12,9), a que Paulo responde bem, confessando: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Coríntios 12,10).

  1. Caríssimos irmãos e irmãs, caríssimos sacerdotes e diáconos, caríssimos Eleitos. Permiti que vos deixe ainda uma advertência: amai mais, louvai mais, admirai-vos mais, estremecei mais, espantai-vos mais! Todos teremos certamente reparado que aqueles conterrâneos de Jesus sabiam tudo acerca de Jesus: a sua terra de origem, os nomes dos seus familiares, profissão e residência. Sabiam isto tudo, mas não sabiam de onde (póthen) lhe vinha aquela sabedoria única e os prodígios que realizava.

  1. Permiti ainda que vos diga, caríssimos irmãos e irmãs, que às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença, narrada em João 9. Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos de onde (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando assim a cegueira deles: «Isso é “espantoso” (tò thaumastón): vós não sabeis de onde (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus «estava espantado» (ethaúmazen), lê-se no Evangelho de hoje, com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada concepção de Deus. Podemos mesmo dizer que se rejeita Jesus para salvar a honra de Deus! Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira!

  1. Amados irmãos e irmãs, caríssimos Eleitos. Tomai hoje verdadeiramente conta de Jesus, que Ele tomará conta de vós! Tomai hoje verdadeiramente conta do Evangelho, que o Evangelho tomará conta de vós! Caríssimos Eleitos, vivei com amor, estremecimento, espanto e emoção os sacramentos que realizareis, sobretudo a Eucaristia e a Reconciliação. Como diz o Pontifical Romano, «Recebei a oferenda do povo santo para a apresentardes a Deus. Tomai consciência do que vireis a fazer; imitai o que vireis a realizar, e conformai a vossa vida com o mistério da cruz do Senhor». Amen.

Lamego, 05 de julho de 2015, Dia do Senhor e de Ordenações Sacerdotais

+ António, vosso bispo e irmão

À Conversa com o Diácono Valentim Fonseca

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1 – Para os nossos leitores, quem é o Diác. Valentim Fonseca?

Sou natural da freguesia de Almacave – Lamego, residente na Freguesia de Ferreiros, onde dei os primeiros passos, aprendi o saber das gentes entre a serra e o Douro.

Frequentei a escola primária na mesma freguesia. Aprendi nos bancos corridos da Igreja o que é ser cristão.

Dou graças a Deus por ainda estar entre nós a minha professora primária, bem como a minha catequista do primeiro ano da catequese. Com a minha professora aprendi a ser pessoa socializante, com a minha catequista aprendi a ser cristão assíduo.

Sou o mais novo de 10 filhos, nasci no seio de uma família profundamente cristã e participativa na vida da paróquia. Desde muito cedo comecei a ajudar na catequese paroquial e no Movimento da Mensagem de Fátima.

Desde tenra idade senti que a minha vocação era o sacerdócio, talvez pelo facto do meu irmão mais velho ter frequentado durante dois anos os Missionários Combonianos.

Estudei na Escola Profissional, na altura Agrícola, de Lamego onde muito conversei com o Monsenhor Ilídio, que Deus o tenha em sua presença. A minha vocação foi-se manifestando, durante este tempo.

Fiz o ensino secundário e curso de Teologia na cidade de Braga.

De volta a Lamego em 2007 iniciei o Curso Superior de Gestão Turística, Cultural e Patrimonial. Numa das atividades desenvolvidas neste curso foram umas férias Culturais, no Mosteiro de Salzedas, sendo Pároco o saudoso Sr. Pe. António Seixeira, e que muito me ajudou na entrada no Seminário de Lamego.

Trabalhei e cooperei na Obra Kolping de Portugal, como coordenador das famílias Kolping. No contacto com os párocos mais motivação senti em seguir em frente.

Não me poderia esquecer de falar de quem me abriu a porta para o cristianismo, o meu Pároco que me administrou o Santo Sacramento do Batismo, a 8 de dezembro de 1978. Nele vejo um sacerdote dedicado ao rebanho a ele confiado há já 48 anos, como bom pastor. Neste ano em que celebra os seus cinquenta anos de Sacerdócio rezo ao Senhor para que continue a comular com as suas bênçãos. O Senhor Padre Silvestre foi a pedra fundamental para a minha ordenação. Desde já o meu profundo agradecimento ao Sr. Pe Silvestre, pela força que sempre me deu, foi a mão de Deus que operou através deste seu servo.

No meu lema escolhido para a Ordenação Presbiteral “Vem e Segue-Me”, ouço a voz do meu pároco a que siga o Senhor da Messe.

Ajudai-me Senhor Jesus, nesta nova fase da minha vida, vida que espero que continue a ser uma entrega de serviço aos irmãos na Tua Igreja.

2 – Como tem sido o teu estágio pastoral?

O meu serviço desenvolvido no estágio pastoral prendeu-se com o apoio directo à catequese, aos Jovens, à Liturgia, ao Sr. Padre António Ferraz, no seu múnus de Pároco desta paróquia de nossa Senhora do Pranto de Foz-Côa.

Por terras do Douro Superior realizei o meu estágio Pastoral, numa terra distante da minha terra natal, novas gentes, novas realidades, novos costumes. Todas estas realidades no início fizeram com que ficasse muito apreensivo quanto a esta fase muito importante no meu processo de crescimento e de aprendizagem, com quem já tem mais de duas dezenas de anos de experiência de serviço em prol das comunidades confiadas ao Sr. Pe. Ferraz.

No decorrer deste tempo de formação/preparação, tentei manter o contacto com todos, pois só através de um conhecimento das realidades locais se pode desenvolver um trabalho mais assertivo. Neste tempo deu para ouvir as pessoas nos seus anseios e canseiras do dia-a-dia, numa região profundamente marcada pela desertificação e elevada emigração.

Tornou-se um estágio muito produtivo, tanto no conhecimento como na prática. Desde já o meu sincero obrigado ao Sr. Padre António Ferraz pelo acompanhamento e ajuda dada neste ano.

3 – A partir da experiência entretanto conseguida, como vês a formação recebida no Seminário e na Faculdade de Teologia?

A Formação recebida no Seminário torna-se imprescindível, para o serviço. Ao colocar os seminaristas em estágio pastoral a partir do terceiro ano, no contacto com novas realidades, ver formas concretas de actuar no terreno, vai dando aos seminaristas um conhecimento mais aprofundado, o saber ser.

A Faculdade de Teologia ajuda no saber científico, o saber fazer, através do conhecimento das matérias abordadas no curso de Teologia faz com que na realidade se aplique aquilo, que muitas vezes durante o curso, achamos não ser relevante, embora na prática se torne exequível.

Aliando estas duas realidades, Seminário e Faculdade de Teologia os candidatos ao sacerdócio, no fim do seu percurso levam uma experiência, não indo completamente alheios às realidades que os esperam no seu serviço pastoral. Embora realisticamente a realidade ainda pode trazer alguns dissabores, que com a ajuda de Deus e dos irmãos no sacerdócio se consegue superar.

4 – Uma palavra para os nossos seminaristas e aos que estão a pensar entrar no seminário?

Aos nossos seminaristas e a todos os que estão a pensar entrar no seminário, gostaria de deixar uma breve palavra de encorajamento, vivemos numa sociedade que nos oferece mil e uma coisas, mas devemos centrar o nosso querer no Bem maior e Supremo que é a nossa Verdadeira Vida, Jesus Cristo, Aquele que no acto extremo de Amor entregou a sua vida por cada um.

Cristo continua a chamar, “Vem e Segue-Me”, saibamos nós responder ao seu chamamento com grandeza de ânimo confiando no poder da Oração e protecção.

in Voz de Lamego, n.º 4320, ano 85/33, de 30 de junho de 2015