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DESEJO e SEDE | EDITORIAL VOZ DE LAMEGO | 1 de maio de 2018

DESEJO e SEDE

Por estes dias não faltarão textos e testemunhos para assinalar o sucedido em Paris há 50 anos, Maio de 68, bem como a alusão a algumas das consequências do movimento então iniciado.

A propósito, sem entrar em grandes explicações ou detalhes, sublinha-se apenas a vontade de abolir interditos (“é proibido proibir”), abrindo à possibilidade de experimentar tudo sem a obrigatoriedade de não se decidir por nada. Uma postura que conduziu a uma certa volatilidade dos compromissos, ao consumismo, a uma atrofia dos fins e a uma cultura do “assédio constante”. Um facto que continua a ver-se: vivemos numa “sociedade excitada” que proporciona uma contínua possibilidade de experimentar, ansiosa pela novidade.

O desejo de experimentar é natural e inato, mas a ausência de regras e do sentido do interdito pode levar a uma “cultura frígida, estéril e esterilizadora”.

Daí que alguns estudiosos, como Maria Clara Bingemer (Experiência de Deus na contemporaneidade, Paulinas, 2018), afirmem que estamos numa “cultura em recesso de desejo”, onde o “desinteresse progressivo” se torna visível. Porque, “pretender experimentar tudo pode ser, no final, não experimentar verdadeiramente nada”.

O Padre Tolentino Mendonça, no recente retiro pregado em Roma, também falou do assunto (Elogio da sede, Quetzal, 2018), sublinhando a importância da “sede de viver”, afirmando que “há na nossa cultura, e nas nossas Igrejas de igual modo, um défice de desejo”.

E identifica esta ausência de desejo com a “acédia”, que conduz à perda de vontade, a “olhar para a vida de um modo atonal, sem apetite”, uma espécie de indiferença, falta de presença e de interesse, perda de gosto de viver, desvitalização interior.

E conclui: “quando renunciamos à sede é que começamos a morrer”, com o risco de sermos como um “corpo abandonado sem sepultura”.

O desejo e a sede traduzem a abertura ao infinito.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/22, n.º 44588, 1 de maio de 2018

SOCIEDADE DO CANSAÇO | Editorial Voz de Lamego | 14-10-2014

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Com uma identidade própria, como Jornal da Diocese de Lamego, a Voz de Lamego informa-nos sobre o que acontece na Igreja, com particular incidência no espaço da Diocese, o que se passa de mais relevante no mundo, com especial atenção à região geográfica da Diocese. Além disso, apresenta um conjunto de reflexões que sublinham os grandes valores humanos e cristãos, no desafio sempre renovado de acolher e viver Jesus Cristo, testemunhando-O e transparecendo-O ao mundo inteiro, a começar pela própria casa, pela família, pela vizinhança.

Alguns dos destaques desta semana: Peregrinação do Movimento de Mensagem de Fátima (MMF) ao Santuário de Nossa Senhora da Lapa; o Dia Mundial das Missões, sublinhando a MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO (que pode ler AQUI) e na edição impressa, o acompanhando do Sínodo Extraordinário dedicado às famílias; algumas estatísticas dos alunos inscritos em EMRC, numa altura que as escolas estão com dificuldade em preencher vagas de professores.

Como referência ao ambiente de cada edição, o Editorial, proposto pelo Diretor, que esta semana faz uma incursão no mais recente livro de Tolentino Mendonça. Vale a pena aproveitar uns minutos para ler e meditar:

SOCIEDADE DO CANSAÇO

No seu mais recente livro, “A mística do instante”, o padre Tolentino Mendonça apresenta a mística como realidade que rapidamente associamos a espiritualidade e a interioridade. Contudo, segundo o autor, a espiritualidade não deve ser dissociada da dimensão corporal, porque “o corpo que somos é uma gramática de Deus”.

Neste particular, observando a sociedade que formamos, os seres corporais que circulam, interagem, conhecem e se dão a conhecer, o autor fala da “sociedade do cansaço”, caracterizando este como uma “enfermidade” e uma “patologia”. Vencidas que estão algumas batalhas contra bactérias e vírus, segundo ele, a patologia do nosso século é “neuronal”: as “depressões”, os “transtornos da personalidade”, as “anomalias da atenção”, o “síndrome do desgaste ocupacional”.

E conclui: “o excesso (de emoções, de informação, de expectativas, de solicitações…) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais difícil retornar”.

O diagnóstico pode não estar completo, mas reconhecemos-lhe verdade e actualidade. Quantas vezes o desabafo mais comum soa a pregão contra o cansaço? Quantas mortes são procuradas em virtude do cansaço que se assume e da falta de perspectivas?

Um cansaço que, de resto, também se observa na Igreja. Não é por acaso que o Papa convida à alegria e que o apelo a uma “Igreja em saída” tem sido um refrão continuamente escutado. Porque, na verdade, um crente cansado (não apenas leigos, nem apenas os mais idosos) mais facilmente se lamenta do que sorri, olha mais para trás do que para diante e, sem esperança, enumera mais dificuldades do que possibilidades…

O cansaço estorva a missão do baptizado, porque deixa de ter forças para anunciar, por palavras e actos, as “razões da sua fé”.

 

Pe. Joaquim Dionísio, VOZ DE LAMEGO, 14 de outubro de 2014, n.º 4284, ano 84/46