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Posts Tagged ‘Pe. Manuel Gonçalves’

Editorial Voz de Lamego: Pobres sempre os tereis

As palavras de Jesus nada têm de resignação ou demissão, pelo contrário, revelando tristeza, são uma crítica e um desafio ao compromisso sério e concreto. Somos responsáveis uns pelos outros e sobretudo pelos mais pequeninos. A opção preferencial pelos mais pobres não é um verbo de encher, é um compromisso que radica nas palavras e na vida de Jesus. O que fizerdes ao mais pequeno dos meus irmãos é a Mim que o fazeis (cf. Mt 25, 40). Não se trata de transformar as pedras em pão, mas de fazer com que o pão de cada dia seja multiplicado e partilhado para que chegue a todos. E, se somos filhos do mesmo Pai, cabe-nos agir, sempre, como irmãos, procurando que a ninguém falte o necessário (cf. Atos 2, 45; 4, 34-35).

Esta aldeia global democratizou modas e estilos de vida, esbateu diferenças culturais, mas também incentivou grupos e povos a agir pela liberdade e pelos direitos humanos fundamentais. Globalizou-se o bem e o mal, numa mistura nem sempre benéfica para as populações mais vulneráveis. Como tem referido o Papa Francisco, os meios de comunicação social e as redes sociais, em vez de levarem à afirmação da identidade pessoal, social, religiosa, integrando as diferenças e a multiculturalidade, conduzem, muitas vezes, à segregação, na procura do que é idêntico, a integrar grupos (sectários) que pensam da mesma forma, a fechar-se e radicalizar-se ainda mais.

Pobres sempre os tereis… Não basta encher os lábios de propósitos ou simplesmente responsabilizar os outros por situações de carência e de miséria. Ao aproximar-se o final da Sua vida, Jesus encontra-se em casa de Marta, Maria e Lázaro. E como Maria tivesse ungido os Seus pés com uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, Judas Iscariotes, e por certo os outros discípulos, murmura contra tal desperdício (cf. Jo 12, 8). Jesus re-situa as opções e prioridades.

Há pessoas que subestimam a riqueza “material” da Igreja, alienável a favor dos pobres! Sem aprofundarmos essa temática, que tem várias vertentes, seria de perguntar se essas pessoas, que olham para esta riqueza material, cultural, arquitetónica, alguma vez se predispuseram a fazer a parte que lhes compete e se exigem o mesmo a governantes, a multimilionários, pessoas e empresas com capital incalculável!

Há bens que não se podem alienar, mas, por outro lado, esses bens, bem geridos, ajudam a criar e/ou manter estruturas de apoio aos mais pobres. O Papa Francisco afirma que os museus do Vaticano permitem receitas para ajudar os “mendigos” de Roma e responder a solicitações que chegam de todo o mundo.

Sei, por experiência própria, como pároco, que aqueles que colaboram com a Igreja e no “adorno” dos seus edifícios, são os primeiros a cooperar em campanhas solidárias, muitas vezes como aquela viúva do Evangelho que deu, não apenas do que lhe sobrava, mas do que lhe fazia falta para viver (cf. Mc 12, 41-44).

As responsabilidades podem ser diferentes, conforme as possibilidades, o poder económico-financeiro, a capacidade de influência sobre entidades, grupos, governos, multinacionais, mas ninguém pode excluir-se deste compromisso de atender às necessidades dos mais vulneráveis.

Não basta dizer aos outros que é preciso fazer alguma coisa, cabe a cada um, inserido em grupos e/ou comunidades, agir, comprometer-se.

Pobres sempre os tereis e se conseguirdes vê-los e ajudá-los… melhor! Dai-lhes vós mesmos de comer. Adorar a Deus e amá-l’O sobre todas as coisas implica-nos com todos os Seus filhos, com todos os nossos irmãos, não nos isola nem espiritualiza!

Em Portugal como na Europa, mais de 70 % da população adulta já está vacinada, pelo menos com uma dose, contra a COVID-19… em África, 3%… As migalhas dos países mais ricos ainda não saíram das suas mesas fartas!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/36, n.º 4618, 21 de julho de 2021

Editorial: Poderá a pena de morte ser um direito humano?

Por estes dias surgiu a proposta do aborto passar a ser um direito humano. Subsequentemente, elimina-se a possibilidade de objeção de consciência.

O aborto, mais clandestino ou mais visível, era uma prática que não deixava tranquilo quem o praticava, em situações de exceção, de desespero, medo e dúvida. Avançou-se para a despenalização, para a mãe e para os que ajudavam (e ganhavam com isso). Em condição penalizadora já se encontrava aquela mãe, muitos vezes forçada pelas circunstâncias, pelo contexto familiar, social e cultural, ou porque tinha sido vítima de estupro. Por outro lado, a clandestinidade do aborto, como também no caso da toxicodependência, levava a correr muitos mais riscos para a saúde, além de encarecer a prática do mesmo, afastando das clínicas os que tinham menos recursos. Com estes argumentos compassivos, a despenalização surgia quase como uma bênção. De fora ficaram sempre os homens, que quando muito pegavam em algumas notas e esqueciam o assunto, e os que ganhavam a vida à custa da fragilidade alheia. Seguiu-se a liberalização. O que era excecional, passou a ser banal, democrático, enquadrado como um serviço de saúde. Hoje o aborto surge em paralelo com os métodos contracetivos. A mesma pessoa recorre aos SNS para o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto aborto. E sucessivamente!

As recomendações iniciais, levariam a mãe a uma consulta, a verificar as causas e, eventualmente, apontar soluções que não passassem pelo aborto, limitando às primeiras semanas. Reconhece-se a dramaticidade vivida por algumas mães ao olharem para o presente e para o futuro e para as condições em que trariam uma criança ao mundo, sem o apoio da família ou da comunidade. Uma visão demasiado moralista, que excluía, não ajudava em nada, como uma sociedade demasiado permissiva também não ajuda. Veio, posteriormente, através de um casal de cientistas a proposta que o aborto se estendesse até ao parto. Se na altura do nascimento da criança, os pais não ficassem satisfeitos, poderiam desfazer-se do bebé, matando-o. O argumento é de que não há diferença substancial entre um embrião, um feto e um bebé recém-nascido.

O Parlamento Europeu, seguindo a recomendação da deputado croata Predraf Matić, sustenta agora a possibilidade de o aborto ser considerado um direito humano fundamental, o que tem vindo a ser progressivamente defendido pelos organismos da O.N.U., recusando a recusa dos médicos e dos serviços por questões de consciência e/ou de religião. O Relatório Matić faz prevalecer os direitos das mulheres, subjugando o direito à vida.

Durante alguns anos, a pena de morte constou do Catecismo da Igreja Católica, como último recurso, caso não fosse possível pôr termo a uma situação de violência grave. Colocavam-se algumas questões paradoxais: como é que a Igreja é contra o aborto e é a favor da pena de morte? Nas duas situações estavam em causa a vida humana e a possibilidade de ser destruída. Com o tempo, percebeu-se que não havia justificação para a pena de morte, até porque, na atualidade, havia meios para afastar da sociedade, de forma segura e definitiva, os prevaricadores. A pena de morte voltou à discussão pública, em casos de gravidade, como homicídios. Poderemos assistir, dentro de pouco tempo, à solicitação para que também a pena de morte seja, não um castigo excecional, mas um direito humano fundamental? E que é que isso tem a ver com o aborto? Tem a ver com vidas humanas que, perante circunstâncias mais específicas ou mais genéricas, podem ser impedidas de prosseguir… O mandamento: não matarás, terá de ser refeito! Se quiseres matar terás a ajuda da sociedade, para que não te faltem os meios nem a ajuda necessária.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/35, n.º 4617, 14 de julho de 2021

Foto: Olivier Hoslet/EPA

Editorial Voz de Lamego: Não te reconheço!

É uma expressão popular que ouvimos muitas vezes sobretudo quando a outra pessoa nos surpreende positiva ou negativamente ou, então, quando vemos que ela não reage da forma como estávamos à espera que reagisse perante uma adversidade. Neste tempo de pandemia, ouvimos muitas expressões semelhantes, pois nem sempre reconhecemos imediatamente as pessoas com máscara. Já nos aconteceu, talvez a todos, cumprimentar uma pessoa, trocar algumas palavras e ficarmos a refletir quem seria tal pessoa!

É bem conhecida a expressão de Jesus a Filipe: há tanto tempo que estou convosco e não me conheces? (Jo 14, 7-14). Na parábola do Juízo Final (cf. Mt 25, 31-46), aqueles que são benditos a entrar no Reino ficam surpreendidos e questionam quando é que realizaram o bem. A resposta do Rei é concludente: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes”. O Rei reconhece-os e acolhe-os porque também eles O reconheceram no cuidado aos irmãos. Em sentido contrário, são malditos (não-reconhecidos) aqueles que não O reconheceram nos irmãos: “Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (cf. Mt 25, 31-46).

A mesma expressividade na parábola das 10 Virgens, 5 prudentes e 5 insensatas. Como o noivo se demorasse, as virgens foram adormecendo. As sensatas levaram azeite de reserva, as insensatas não se precaveram. Quando o noivo se aproxima, as insensatas apressam-se a ir comprar mais azeite, mas quando regressam a porta está fechada. “Em verdade vos digo: Não vos conheço” (Mt 25, 1-13).

A pessoa enquanto tal é um mistério que nunca se expõe nem é exposta totalmente. Pelos perfis digitais, a pessoa diz e esconde muito do que é. Um amigo, um familiar, um colega de trabalho, pode parecer que se conhece bem, mas de repente…

Na Sinagoga de Nazaré, os amigos de Jesus acharam que O “conheciam” demasiado bem. Ele é o Filho de Maria e de José, o Carpinteiro. Conhecem os parentes e as ligações à comunidade, mas são surpreendidos pelas Suas palavras, pelos prodígios realizados e pela fama que, entretanto, tinha granjeado em outras terras.

Obviamente é bom e salutar que nos conheçamos e tenhamos consciência de que conhecemos bastante bem os nossos amigos e familiares, pois é sinal de proximidade, atenção e afeto. Conhecer bem pode, positivamente, ajudar a responder às necessidades, anseios e questões levantadas por eles. Negativamente, quando diminuímos a atenção e o cuidado, porque conhecemos, porque as reações são sempre as mesmas e assim as respostas também serão. Como exemplo paradigmático: casais que na conquista e no namoro procuram ser reciprocamente atenciosos, ouvintes, compreensivos… com o tempo deixam de surpreender e já não se centram tanto nas necessidades do outro mas mais nos gostos próprios…

Com ou sem máscara, com ou sem pandemia, a verdade é que deixamos de reconhecer algumas pessoas, positiva e negativamente, pelo que eram e por aquilo em que se tornaram. No tempo, somos sempre os mesmos, mas, simultaneamente, é bom e desejável que cresçamos, amadurecendo, aprendendo, como nos diz São Paulo, até à estatura de Cristo (cf. Ef 4, 13-15). O drama é quando crescemos e ficamos da nossa própria estatura, tornando-nos como Zaqueu antes de encontrar Jesus e se deixar ver por Ele (cf. Lc 19, 1-10). Zaqueu era um homem de vistas curtas e de pequena estatura, preocupado com os seus bolsos e com o seu umbigo, mas pelo caminho encontrou-se com aquele Mestre sábio e bom. Pôs-se em movimento, em bicos de pés, subiu a uma árvore… para descer da sua prepotência e sobranceria e caminhar ao lado de Jesus, acolhendo-o em sua casa e na sua vida.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/34, n.º 4616, 7 de julho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Quando foi que nos perdemos?

Poderás ser tu a ovelha perdida? Ou serei eu?

Será que ainda estamos no caminho certo? Seguimos com os outros! Mas continuamos a seguir Jesus ou apenas um esqueleto de tradições e obrigações? É a fé que nos anima ou pesa-nos a falta de alegria e de festa? Alguém caminha em sentido contrário! Ou fui eu que me enganei na direção? Ou foste tu que te perdeste no caminho?

Onde ou quando se terá perdido Judas?

Não sabemos. Era um dos apóstolos mais próximos de Jesus. A ele foi confiada a administração dos parcos bens, a bolsa comum. Alguns insistem que era corrupto, ainda que os dados dos Evangelhos não permitam tal juízo. Há vários estudiosos que sustentam que não foi a falta de fé ou a avareza que o conduziram ao descalabro, mas uma fé enviusada, demasiado zelo e demasiada pressa. Uma fé infantil que quis obrigar Jesus a agir como “Deus”, com milagres e poder. Faltou-lhe clareza e confiança. Não foi capaz de dar o salto. Como ninguém pode dizer que ele se condenou, há quem diga que o próprio suicídio foi uma forma (extrema e doentia) de apressar o encontro com Jesus na eternidade. Nalgum momento queimou os fusíveis e perdeu a direção!

Pedro também se perdeu no caminho! Não conheço esse homem, não sei quem é, nunca o vi mais gordo, não sei onde pendura o pote! Do mesmo jeito, os demais apóstolos fogem, com medo, e mantêm-se à distância, como observadores, neutros, amorfos, indiferentes! Como cristãos, alguns de nós assumimos a mesma postura, ficamos na nossa zona de conforto até ver onde param as modas!

Por ocasião dos 12 anos de Jesus, Maria e José levam-n’O ao Templo, para cumprirem a tradição.  Ele assume a Sua adultez diante dos doutores da Lei e dos sacerdotes do Templo. A partir de então, Jesus pode ler em público a Escritura Sagrada, podendo propor alguma meditação. No regresso a casa, no final do primeiro dia de viagem, Maria e José apercebem-se que Jesus não se encontra na caravana! Hoje, esta aparente perda abriria telejornais e espalhar-se-ia rapidamente pelas redes sociais, uns culpando os pais por falta de cuidado e de responsabilidade; outros, diriam que Jesus era demasiado arisco e que se tinha perdido em consequência das suas traquinices (e óbvia falta de educação!). Seja como for, Maria e José, quando se apercebem que Jesus não regressou para a ceia, partem a buscá-l’O entre parentes e amigos. E voltam atrás. Não descansam até que O encontram. Não adianta correr se não sabes onde vais (Amália Rodrigues)!

João Batista aponta Jesus aos seus discípulos que, doravante, seguem o Messias de Deus. Voltando-se Jesus, pergunta-lhes: a quem buscais? Eles por sua vez, questionam-n’O: onde moras? Vinde ver, diz-lhes Jesus. Eles foram e ficaram com Jesus.

Já as mulheres, no primeiro dia da semana, vão ao sepulcro, com o fito de embalsamar o corpo de Jesus, pois não tiveram tempo de o fazer ao cair da tarde de sexta, quando se iniciava o dia sagrado de sábado. O anjo diz-lhes: «Sei que buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado; não está aqui, ressuscitou… Ide depressa dizer aos Seus discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá O vereis’» (Mt 28, 5-7).

É importante seguir Jesus, ver onde mora, como vive! Ele mora, como canta a Ir Maria Amélia, em tua casa, no teu coração, na tua rua, no teu vizinho. Pior do que nos perdermos e/ou perdermos Jesus é não nos apercebermos que Jesus já não segue na nossa barca! Quando foi que nos perdermos? Sempre que esvaziámos a alegria da fé e a alma do Evangelho…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/33, n.º 4615, 30 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Noah e as teorias da conspiração

O pequeno Noah esteve desaparecido umas 36 horas. Logo dispararam os alarmes: rapto, negligência dos pais? O que aconteceu? O que se supõe que terá acontecido? Horas e horas de diretos! E, para alguns, a ligação imediata ao caso Maddie.

Ficámos com a sensação que para alguns teria sido preferível encontrar a criança sem vida ou concluir que tinha sido raptada. Parece que tudo encaixaria melhor! Como é possível que um menino de dois anos e meio tenha sobrevivido tanto tempo e percorrido cerca de 10 km, ao relento e sem comer? Pelo caminho foi largando roupas e calçado…

A preocupação de pais, de autoridades e de muitos voluntários foi encontrá-lo quanto antes com vida. Muitos se regozijaram com a descoberta de Noah com vida. Novas suspeitas?! Uma história mal contada! Para já, tanto quanto se sabe, não há indícios de rapto e/ou ação criminosa.

Semelhanças com o caso Maddie? Pelo menos duas diferenças significativas. Os pais de Noah não saíram para uma noitada, mas saiu o pai para trabalhar, de madrugada, sendo suposto que às oito horas da manhã os dois irmãos ainda estivessem pela cama. Por outro lado, não foi numa cidade pejada de turistas, mas na tranquilidade do campo.

Tempos de suspeita, juízos de opinião rápidos e apressados, sob necessidade de destrinçar qualquer mistério. Quando nos deparamos com situações demasiados óbvias, o grau de suspeita mantém-se ou aprofunda-se ainda mais. Parece que por detrás de tudo há algum tipo de conspiração, que alguém está a mentir ou a sonegar informação! Não podemos confiar em ninguém! Não podemos ser ingénuos e acreditar em tudo o que nos dizem! Anda meio mundo a enganar outro meio!

Um texto que lemos/escutámos por estes dias, traz-nos a figura de Job. Job era um homem justo, piedoso e temente a Deus. Tinha sete filhos e três filhas. Tinha muitas posses, centenas de cabeças de gado. A determinada altura, morrem a mulher, as filhas e os filhos, morrem-lhe os animais. Fica na penúria. Os amigos de Job tentam encontrar uma explicação lógica. Para eles, a culpa é de Job, consequência do seu mau proceder, pois Deus é justo e castiga com conta, peso e medida. Job, olhando para a sua vida, não encontra nada que mereça o castigo de Deus. E clama a Deus por justiça. Deus convida-o a contemplar o mistério das coisas, da criação e da vida. Nem tudo compreenderemos, de uma só vez e para sempre! Também os amigos de Job são chamados à liça, pois enveredam por leituras fáceis e apressadas acerca de Deus e dos Seus mistérios e rapidamente condenam Job colocando em causa a sua honorabilidade. No final, não sancionando inteiramente Job, Deus coloca-se do lado dos seus questionamentos, desafiando-o a não se deixar amedrontar pelo mistério, pois em tudo está presente a bondade divina.

Muitas pessoas ajudaram nas buscas. Muitas rezaram e confiaram na ajuda de Deus. Terá Deus colocado o anjo desta criança em alerta para que nenhum mal lhe acontecesse? Terá iluminado os que se apressaram a ajudar? Claro que há tantas outras situações em que o desfecho é diferente e sobram perguntas sobre a omnipotência de Deus e a Sua benevolência. O próprio Jesus não responde teoricamente às questões de sofrimento, ainda que as desligue de qualquer tipo de moralismo. Jesus faz o que está ao Seu alcance para ajudar, curar, salvar, integrar. Demasiadas vezes tiramos a Deus o poder de intervir na nossa vida e na história do mundo. Noutras, clamamos pela Sua intervenção.

No caso de Noah, ficar-nos-emos pela casualidade, por uma conspiração não explicada, um rapto malsucedido, ou por coincidências milagrosas através das quais Deus Se faz ver?

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/32, n.º 4614, 23 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Popularidade dos santos

Estamos em plena época dos santos populares. Com o desejo da praia, das férias e do convívio, da descontração e do descanso, ombreiam as festas populares que se iniciam em junho com os afamados “santos populares”. Se são populares, são do povo! O povo identifica-se com eles! Calma! Talvez não se identifique com os santos, mas com as festas e tradições a eles associadas!

Se olharmos para figuras populares, um artista, um cantor, um futebolista, como Cristiano Ronaldo ou Messi, têm seguidores nas redes sociais, aos milhares, ou milhões, e onde se deslocam há centenas ou milhares de fãs que querem ver, tirar uma foto, um selfie, solicitar um autógrafo, pedir a camisola! Quantos pais colocam aos filhos os nomes dos seus heróis/ídolos? Quantas jovens querem ser como Cristiano Ronaldo?

Passemos então à popularidade de Santo António, de São João e de São Pedro!

São João Batista era de facto bastante popular, atraía multidões, batizava centenas de pessoas, conduzia à conversão muitas pessoas, desafiando à não violência, à justiça social e à partilha, ao cumprimento dos mandamentos. A popularidade de São João Batista custou-lhe a vida. Herodes, a pedido da bela filha de Herodíade, mandou cortar-lhe a cabeça. Alguém quer imitar São João Batista? Outra característica de João é a humildade, não das palavras, mas na atitude, apontando para Jesus Cristo. É Ele, é Ele que deve crescer e eu diminuir… nem sou digno de Lhe desatar as correias das sandálias!

E Pedro, aquele apóstolo simples, titubeante e impulsivo que segue Jesus, quereremos imitá-lo? Deixou tudo para seguir Jesus! Se calhar pensou que largava uma vida sacrificada e dura por uma vida mais faustosa e tranquila. Essa foi uma das suas tentações, tal como a de outros discípulos. Quando vê que as coisas estão complicadas, assusta-se e nega Jesus: não tem nada a ver com Ele, não quer ser identificado com Jesus Cristo! E com os outros discípulos, mantém-se à distância de segurança! Depois da ressurreição e das aparições de Jesus, Pedro transfigura-se e torna-se um convicto pregador. Mais tarde será morto por ser cristão. Algum de nós quer seguir as pisadas de Pedro? Não estamos a falar do facto de ter sido o primeiro Papa, mas de ter sido mártir e antes um indisciplinado apóstolo!

E que dizer de Santo António? Sim, é um dos santos bem populares. De família nobre, renunciou a uma vida faustosa para se tornar monge. Depois de ordenado sacerdote dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, escolhe (ou melhor, é escolhido por Deus para) outro caminho, faz-se monge franciscano, assumindo a pobreza dos frades e a ânsia de se tornar mártir missionário em África, mas também aí Deus lhe muda o destino e virá a tornar-se um grande pregador, com centenas de pessoas a ir ao seu encontro para o ouvirem. Por outro lado, passa horas a confessar e realiza, em nome de Deus, muitos milagres. Esta parte dos milagres até que nos dava jeito! Mas o verdadeiro milagre é o da conversão. A fé move montanhas. Deus realiza os milagres através de crentes, cuja fé está amadurecida e fundada na oração e na intimidade com o Senhor. Prontos para sermos como Santo António? Seguros nos bens que temos ou no risco de tudo colocarmos em Deus?

Se fizéssemos uma sondagem sobre popularidade… talvez São João, São Pedro e Santo António não figurassem nas primeiras cem opções! Obviamente que as festas populares são importantes, referidas a estes ou outros santos. É também oportunidade para os conhecermos melhor. Por outro lado, a santidade, como cristãos, está sempre no horizonte. Cabe-nos acolher a santidade de Deus que em Cristo Se manifesta amor e compaixão.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/31, n.º 4613, 16 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: Ouvi o rumor dos Teus passos…

O ruído é tanto! A azáfama! Os afazeres e as preocupações! As ofertas e os desafios! São tantas as vozes! O “zapping” comunicacional está tão acelerado! A multiplicidade de plataformas políticas e culturais, extremismos e propostas redentoras, com cariz revolucionário e transformador, com originalidade revestida de um passado prepotente e autocrático, que dificulta ouvir a voz da consciência e o rumor dos passos no jardim. As cidades, as vilas e as aldeias, as nossas povoações de um interior cada vez mais despovoado e desértico, têm demasiado ruído, demasiadas distrações, à janela ou na rua, no ecrã do telemóvel ou do televisor! Quem é que nos diz a verdade? Qual a opinião que devemos seguir? Quem é que nos vai mesmo ajudar? Quem é que se importa com a nossa vida atual?

No décimo Domingo do Tempo Comum (ano B) foi-nos servido, como primeira leitura, o texto do livro dos Génesis que nos fala na queda dos primeiros pais, simbolizados/encorpados em Adão e Eva, e como, quando confrontados com os seus atos, passam as culpas. Tão mau como cair no remorso é cair no cinismo e na desculpabilização gratuita. Precisamos de amadurecer o nosso compromisso, de assumir os nossos atos e as nossas omissões. Eu e tu somos responsáveis pela saúde do mundo em que vivemos, admitindo que possa haver pessoas, grupos ou empresas que têm uma responsabilidade acrescida.

O texto de Génesis (3, 9-15) fala da nossa vida e da nossa história. Adão, que fizeste, onde estás? «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Eu não fiz nada, foi Eva? / Eva, que fizeste? Eu, eu não fiz nada, foi a serpente? E se perguntássemos à serpente ela diria que não teve nada a ver com o assunto, tinha sido a beleza apetitosa dos frutos da árvore! A culpa já não estaria numa decisão pessoal, mas estrutural ou, pelo menos, não estaria numa escolha consciente e deliberada, mas numa cedência irrefletida pela aparente bondade do fruto. Não seria desejo… o fruto é que estava a pedir para ser recolhido e comido! Uma parábola para outras situações da vida! Fiz isto, ou aquilo, mas não tenho culpa, ele/a estava a pedi-las, pôs-se a jeito, estava ali mesmo à mão de semear, se não fosse eu, seria outro! Se o fruto não se convertesse em furto (egoísta) resultaria em desperdício!

Há momentos em que já não vemos Deus, ofuscamos a Sua presença com os nossos apetites e manias. Mas o rumor dos Seus passos no jardim, na nossa vida, os sinais da Sua presença, continuam a fazer-se sentir. O pior mal, contudo, não está nos fracassos, mas na vergonha e no facto de escondermos o nosso rosto e o nosso coração do olhar amoroso de Deus, que nos santifica e nos ilumina. Por vergonha, não assumimos as nossas falhas e até envolvemos os outros nos nossos esquemas. Tantas situações em que arranjamos desculpas, justificações, distribuímos culpas pelos outros, sacudimos a água do capote!

Apesar das nossas dúvidas, incongruências, hesitações, afastamentos, Deus mantém o Seu amor por nós e não fecha nem portas nem janelas ao nosso regresso. Desde sempre a promessa: a descendência de Eva esmagará a cabeça da serpente! A promessa Deus encontra eco em Maria: eis a serva do Senhor, faça-se em mim a tua Palavra (Lc 1, 38). Somos família de Deus quando permitimos que a Sua graça nos preencha. «Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» (Mc 3, 26). Perscrutemos os rumores dos passos do Senhor na nossa vida e deixemos que o Seu olhar nos toque a alma.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/30, n.º 4612, 8 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha?

É. É possível que aqueles que nos lisonjeiam na frente, atrás nos pintem com cores escurecidas! Prefiro não perder tempo com isso, sabendo que os verdadeiros amigos são um tesouro que nos estimam apesar das nossas limitações e pecados.

Voltamos, desta forma, à expressão lapidar de Shakespeare. Nem sempre os que te batem nas costas ou te aplaudem são os mesmos com os quais podes contar na adversidade.

Vejamos outra expressão também criada e popularizada pelo nosso dramaturgo, sobre a tragédia de Júlio César. “Até tu, Brutus?” No dia 15 de março do ano 44 a.C., o grande general Júlio César, autoproclamado ditador perpétuo de Roma, foi assassinado. Tinha-se tornado autocrata e tirano. 60 senadores perpetraram o homicídio. Logo que a reunião do senado começou, cercaram Júlio César e esfaquearam-no, com 23 facadas. Não se sabem as palavras que terá proferido com exatidão, mas é-lhe atribuído o lamento dirigido a Marcus Junius Brutus, filho da sua amante favorita e a quem tratava como amigo: “Também tu, criança?”. Contudo, os historiadores mais antigos parecem concordar que Júlio César não disse nada depois do primeiro golpe.

Shakespeare inspirou-se nesta frase para criar estoutra: “Até tu, Brutus, meu filho?” A admiração é também uma desilusão por ter sido traído por alguém que considerava filho. Depois da história e do teatro, deixemo-nos, agora, conduzir por Jesus, Aquele que ensina com autoridade, fazendo corresponder o que proclama com o que vive.

Nas disputas com alguns fariseus prevalece precisamente a crítica de Jesus àqueles que têm duas caras, exigindo o que não fazem. “Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não” (Mt 5, 37). E não deixar de sorrir… “Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5, 39). Não ter duas caras, ser coerente, procurar agir em conformidade com o que pensa. Quem não vive como pensa, acabará por pensar como vive (B. Pascal).

Vem novamente à colação o contraponto do Santo Padre, entre pecadores, que assim se reconhecem humildemente, abrindo-se à graça de Deus, e corruptos, que vivem na indiferença e no desprezo pelo seu semelhante.

José Luiz Silva, “Na calçada do Café São Luiz”, situa-nos entre o santo e o canalha. Os dois perdoam e os dois não sofrem.

“Há dois tipos de homem, capaz de perdoar 70 vezes 7: o santo e o canalha. Somente os dois serão capazes de dar a face direita depois de ter apanhado na face esquerda. Aquele pela humildade, este pela malandragem. Para o santo, esquecer é um gesto natural. Para o canalha também. O santo escuta desaforos, vai aos tribunais, recebe insultos e depois volta sorrindo, porque a sua força está dentro dele.

E o canalha? Justamente porque é destituído de qualquer força interior, desnutrido de qualquer dimensão ética, ele aceita tudo sorrindo. Seu sorriso, porém, é um misto de cinismo e desfibramento. O santo não sofre. O canalha também [não]. Para ambos tudo é passageiro e supérfluo… O canalha… Na hora de dizer sem estar dizendo, ou abraçar traindo, de sorrir denunciando, de convocar recusando, de oferecer retirando, de aderir explorando, de chorar sorrindo por dentro, de sorrir queimando de ódio. O canalha é o artesão da maldade… Ele consegue ter a cor do trigo, o farfalhar do trigo, mas ele é joio. Aproveita o vento que sopra e os raios do sol para também tornar-se cheio de vida. O santo é exigente com ele mesmo. O canalha é exigente com os outros”. O caminho do cristão é o da santidade. A sua opção é a de Jesus Cristo: em tudo procurar a vontade de Deus – amar, perdoar, cuidar!

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/29, n.º 4611, 1 de junho de 2021

Editorial Voz de Lamego: É possível sorrir e, sorrindo, ser canalha!

Esta é um conhecida expressão de Shakespeare, na peça de teatro Hamlet. Desabafo? Crítica? Resignação? Ainda estou à procura de um significado mais clarividente e definitivo. O propósito aqui, contudo, é acentuar a importância de um sorriso e como este pode significar salvação, proximidade, acolhimento, como pode sancionar e transparecer a presença e o sorriso de Deus.

Há sorrisos para todos os gostos.

Um sorriso espontâneo traz saúde ao corpo e à alma, e pode irmanar-nos. O sorriso ilumina a pessoa, torna-a vulnerável, acessível, disponível diante da outra. É como o sol que desperta quem o recebe, animando-o e aquecendo-lhe o rosto e o dia.

Há sorrisos amarelos, de escárnio e de enfadonho, de cansaço (dos outros) e de desprezo, de indiferença e de sobranceria. Mas estes não fazem bem nem ao próprio, nem àquele a quem se destina.

Numa série de desenhos animados, Naruto, tropeçamos em sorrisos! “Sorrir é a melhor maneira de lidar com situações difíceis… Quando estás com alguém que gostas, sempre sorris… Um sorriso pode tirar-te de uma situação difícil, mesmo que seja falso”. Esta última frase aproxima-nos da expressão de Shakespeare. Um personagem é traído pelo sorriso da companheira de missão. Julgou que a piada que disse tinha provocado um sorriso, mas era um sorriso falso e na resposta levou um valente soco!

Eloquente são as milhentas provocações de Santa Teresa de Calcutá.

“Nunca estejais tristes. Sorri, pelo menos, cinco vezes por dia. Basta um sorriso, um bom-dia, um gesto de amizade. Fazei pequenas coisas com grande amor… É fácil sorrir às pessoas que estão fora da nossa casa. É fácil cuidar das pessoas que não se conhecem bem. É difícil ser sempre solícito e delicado e sorridente e cheio de amor em casa, com os familiares, dia após dia, especialmente quando estamos cansados e irritados. Todos nós temos momentos como estes e é precisamente então que Cristo vem ter connosco vestido de sofrimento… Talvez não fale a língua deles, mas posso sorrir… A verdadeira santidade consiste em fazer a vontade de Deus com um sorriso”.

E com o sorriso a alegria.

“A alegria é oração, a alegria é força, a alegria é uma rede de amor. Quem dá com alegria dá muito mais. O melhor modo de mostrar gratidão a Deus e aos homens é aceitar tudo com alegria… Nada deve provocar-te tanta dor que te faça esquecer a alegria de Cristo ressuscitado… A alegria é a marca de uma pessoa generosa, humilde que se esquece de tudo, até de si mesma, e procura agradar a Deus em tudo o que faz. Frequentemente, a alegria esconde uma vida de sacrifício, uma contínua união com Deus… O amor é um fruto de todas as estações e ao alcance de todos”.

A Madre Teresa de Calcutá confidenciou que, por vezes, o seu coração estava demasiado dorido, por ver tanta miséria, mas, ainda assim, obrigava-se a sorrir, porque era dessa forma que o sorriso de Deus chegava às pessoas. Não se trata de fingir sorrisos, trata-se de uma escolha: sorrir em todas as circunstâncias, não pela disposição, mas pela atitude de missão em relação aos outros a quem devemos o sorriso de Deus.

“Fazei com que todo aquele que for ter convosco saia da vossa beira sentindo-se melhor. Todos devem ver a bondade no vosso rosto, nos vossos olhos, no vosso sorriso. A alegria transparece pelos olhos, manifesta-se quando falamos e caminhamos. Não pode permanecer encerrada dentro de nós. A alegria é contagiosa”. Sorri e no sorriso coloca a expressividade de um Deus que ama e se faz presente em ti e através de ti. Não te sufoques com lamentos…

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/28, n.º 4610, 25 de maio de 2021

Editorial Voz de Lamego: Somos lápis nas mãos de Deus

Madre Teresa de Calcutá, a Mãe dos Pobres foi, durante muitos anos, uma voz que se fez ouvir a favor dos mais pobres entre os pobres. O propósito da sua vida: sair pelas ruas ao encontro dos mais pobres, crianças abandonadas, moribundos, leprosos, mães solteiras, para cuidar como se de Cristo se tratasse.

Pelo caminho, muitos contratempos, insinuações, críticas mordazes, dentro e fora da Igreja. Instalou-se, originalmente, num país e num contexto muito adverso, a Índia, em Calcutá, com as questões religiosas à mistura. O Hinduísmo e o carma. A pessoa sofre porque tem de sofrer, é porque cometeu pecados na vida anterior e tem de pagar por eles. Por outro lado, a sua ação mostrava uma cidade miserável, cheia de imundice, sem cuidados de saúde básicos nem qualquer sistema de educação que respondesse ao analfabetismo endémico.

Com o tempo, as Missionárias da Caridade espalharam-se pelo mundo inteiro. Depois de receber o Prémio Nobel da Paz ficou ainda mais conhecida, permitindo a implantação da congregação.

Quando lhe diziam que era necessário mais organização e coordenação, testemunhava a sua fé amadurecida num Deus providente e na necessidade de atender cada pessoa.

Não basta prover às necessidades básicas e imediatas, é necessário erradicar a pobreza e criar estruturas para que os países mais pobres tenham acesso à educação, à saúde, à habitação condigna, à alimentação. Porém, enquanto se pensa, se traçam metas e delineiam estratégias, não se podem deixar as crianças esfomeadas, desnutridas a morrer, ou os moribundos na berma da estrada. A Mãe dos Pobres nunca perdeu de vista a ajuda imediata e concreta aos mais necessitados.

Uma das suas expressões bem conhecidas: «Eu sou um lápis nas mãos de Deus. Ele usa-me para escrever o que quer. O lápis não tem nada a ver com tudo isto. O lápis só deve ser usado». Os sábios e os santos são feitos deste calibre. Os sábios sabem bem que têm muito a aprender e a caminhar. Os santos sabem bem que o bem neles realizado ou realizável tem outra origem e outro obreiro, o próprio Deus. Para isso, cada um de nós, a caminho da santidade, tem a missão de ser o lápis pelo qual Deus escreve. Ser ponte, ser instrumento, ser portador da Boa Nova, apalavrador da esperança, militante da paz, semeador de misericórdia! Esta consciência torna-nos humildes diante do muito que há pela frente e liberta-nos da presunção que, mais tarde ou mais cedo, nos conduziria ao desencanto ou à prepotência. Se Deus é Deus e se deixamos que Ele seja Deus, então não haverá lugar à desistência. Pode haver momentos mais tenebrosos. Também os houve na vida de Santa Teresa de Calcutá, como na vida de muitos santos, mas permaneceu indelevelmente marcada no coração a confiança em Deus e nos Seus desígnios insondáveis.

Na senda de Madre Teresa, podemos abraçar grandes causas, mas tudo começa aqui, agora, com quem bate à minha porta, com quem me encontro ao sair de casa (ou dentro de casa). É um movimento constante. Sem tréguas. O modo é o de Jesus Cristo. “Meu Pai trabalha incessantemente e Eu também trabalho em todo o tempo” (Jo 5, 17-30).

No último Colégio de Arciprestes, o nosso Bispo, D. António, sublinhava precisamente este modo de ser e de agir. É necessária a programação, momentos específicos, mas antes e para além da programação, há o essencial, o paradigmático, que é Jesus. Fazem-se acentuações, que ajudam a refletir e a viver, mas o propósito é acolher, viver e testemunhar o Evangelho da alegria, tornando-o palpável e significativo para todos, no discurso e na vida, nas palavras e nas obras.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 91/27, n.º 4609, 18 de maio de 2021