Arquivo

Posts Tagged ‘Pe. Joaquim Dionísio’

ENCERRAMENTO E PROXIMIDADE | Editorial Voz de Lamego

ENCERRAMENTO E PROXIMIDADE

O balcão da Caixa Geral de Depósitos, no Desterro, à entrada de Lamego, foi encerrado. Depois de termos visto o mesmo na Praça de Comércio, agora um outro, ficando apenas o da Avenida 5 de outubro, onde é difícil estacionar e o atendimento demorado.

Mas a situação poderá ser ainda mais complicada noutras zonas do país.

Lá se vai o serviço de proximidade, o serviço com rosto humano. Desta vez foi o banco estatal, aquele que os portugueses vão ajudando a sustentar. Somos importantes para “aguentar” as dívidas e pagar pelos erros de gestores pagos principescamente, mas já não somos assim tão importantes para um serviço próximo e eficiente.

É verdade que há muitos serviços que podem ser feitos a partir das ligações de internet, mas muitos dos clientes deste banco não sabe o que é isso e preferem um encontro com alguém que atenda, escute, aconselhe, clarifique, resolva… Os menos capazes continuam a ser deixados para trás.

Percebemos o que está em jogo: os balcões tenderão a diminuir, os lugares de trabalho deixarão de existir, a despesa com funcionários e instalações serão reduzidas, os lucros aumentarão, os gestores receberão generosos prémios… E tudo isso à custa de uma menor presença em locais cada vez mais vazios e menos atractivos para viver.

O interior, cada vez mais desertificado, tende a ser olhado de quatro em quatro anos e, diga-se, com reduzida atenção. Os seus votos já não decidem maiorias. Será também, por isso, que o sucessivo encerramento de serviços não faz parte das agendas política e mediática, mais ocupadas com o futuro da geringonça, os cães em restaurantes, a mudança de sexos aos 16 anos, na legalização da eutanásia…

O interior, ou a “província” como alguns dizem, não pode apenas ficar com silêncio e ar puro!

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/32, n.º 4469, 10 de julho de 2018

Categorias:Editorial, Opinião Etiquetas:

FALAR DE FUTEBOL | Editorial Voz de Lamego | 3 de julho de 2018

FALAR DE FUTEBOL

Será uma banalidade dizer que o futebol (sobretudo falado) ocupa um lugar destacado no panorama português. E não foi apenas agora por causa da participação do país no campeonato do mundo. Um qualquer visitante, não familiarizado e não avisado desta tendência lusa, questionar-se-á sobre as prioridades, os objectivos ou as dificuldades do nosso povo.

Exaustivamente e não isentos de “clubite”, comentadores e analistas debruçam-se sobre as perspectivas, os resultados, as intrigas e, claro, o trabalho dos árbitros. Certamente que o assunto tem e merece o seu lugar. Mas a vida dos jovens que precisam saber as notas, dos professores em luta pelos seus direitos, dos doentes em lista de espera, do atrasado em investimentos, da desertificação do interior, das políticas de natalidade, etc, também merecem vez e voz.

Noutros países europeus, onde o fervor clubístico não é menor e o amor à selecção nacional não se questiona, não se gastam tantas horas em análises sobre o que já não volta e em debates acalorados, protagonizados por comentadores pagos para o efeito. E é graças a todo este destaque que alguns dirigentes adquirem estatuto de figuras públicas e os seus actos motivam contínuos debates.

Talvez o interesse seja passageiro e, em breve, tudo volte ao normal. E o normal será, porventura, divulgar e promover o desporto e os desportistas, dar protagonismo aos seus executantes e debater sadiamente assuntos relacionados, sem ofuscar a realidade mais vasta em que a vida da sociedade acontece.

Poder-se-á dizer que só vê quem quer e que só alimenta a conversa quem está interessado. E é verdade.

Será, então, de esperar que, quando consumidores e adeptos derem conta de que nada disto resolve os seus problemas, tudo volte ao seu lugar e à importância devida. Continuarão a falar do assunto, mas relativizando-o.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/31, n.º 4468, 3 de julho de 2018

DESPORTO E FORMAÇÃO | Editorial Voz de Lamego | 19.06.2018

DESPORTO E FORMAÇÃO

Por estes dias, o futebol é motivo de reportagens e de conversa. Não tanto por causa do desmedido ego de alguns protagonistas, mas porque, de 14 de junho a 15 de julho, se realiza, na Rússia, mais um campeonato do mundo.

Para a Igreja, o desporto é um meio que favorece o crescimento integral da pessoa, ao mesmo tempo que pode servir a paz e a fraternidade entre os povos. Na última audiência geral, dia 13, o Papa saudou os intervenientes da competição e todos os que seguem o acontecimento à distância, desejando que seja uma ocasião de encontro, de diálogo e de fraternidade entre diferentes culturas e religiões, favorecendo a solidariedade e a paz entre as nações”.

“Dar o melhor de si” é o título de um documento do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, publicado no primeiro dia deste mês, no qual se condensa o pensamento eclesial sobre o desporto e se faz a analogia entre o esforço da competição e o compromisso da vida cristã. O desporto forma as pessoas, na condição de que seja “autêntico, humano e justo”.

A prática desportiva é salutar e deve incutir e cultivar valores e princípios que favoreçam o crescimento integral dos seus praticantes, que devem crescer com a convicção de que, na vida como no desporto, “não vale tudo” e que todos têm valor.

É verdade que a prática de alguns desportos é agendada para horários que colidem com momentos de formação e de celebração das nossas paróquias, originando desencontros, aumentando o número dos “não praticantes” e contribuindo para enfraquecer a pertença e a caminhada em comunidade.

Como recorda o livro bíblico, há tempo para tudo. Mas é preciso discernir e articular os diferentes momentos quando se deseja uma formação integral e integradora.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/29, n.º 4466, 19 de junho de 2018

DECIDIR E ACEITAR | Editorial Voz de Lamego | 12 de junho de 2018

DECIDIR E ACEITAR

 

Amanhã celebramos a memória litúrgica de um dos portugueses mais conhecidos no mundo, apesar de ter vivido poucos anos e de nunca se ter esforçado para ser “famoso”!

Conhecemos bem a história deste santo que, tendo nascido em Lisboa, se deixa seduzir pelos Franciscanos, em Coimbra, e parte para África, animado pelo espírito missionário, mas a quem a doença e a tempestade levam até terras italianas, onde acabará por morrer e ser sepultado, em Pádua. É “de Lisboa” porque ali nasceu e “de Pádua” porque ali morreu, mas é, sobretudo, da Igreja e de todos quantos nele encontram um exemplo motivador e um intercessor a quem recorrer.

Mais do que proporcionar umas “sardinhadas”, umas procissões, uns arcos ou uns foguetes, St. António ensina a não ficar parado, a valorizar o dom da vida, a gastar os talentos recebidos, a servir onde quer que se esteja e todos os que se encontram, a valorizar a Palavra e a não desistir de anunciar, mesmo sem plateias numerosas…

Deste português, o primeiro dos “santos populares” que junho nos apresenta, poderíamos reter a coragem para decidir e a disponibilidade para aceitar. Não se trata de aventureirismo ou simples espírito de rebeldia; a sua coragem é amadurecida e assenta na vontade de cumprir a vida. Por mais que ame e respeite quem o deseja por perto e com determinado rumo, assume a sua vida e decide afirmar a sua vontade. Um exemplo diante de tanta indecisão e comodismo que, às vezes, se observam.

Por outro lado, é capaz de aceitar a novidade, abandonar-se à providência e não desesperar perante o que lhe sucede e que, aparentemente, contraria as suas opções. Mais do que fatalismo, aceita os desafios que o percurso escolhido lhe apresenta e permanece firme.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/28, n.º 4465, 12 de junho de 2018

RELEVÂNCIA E PRESENÇA | Editorial Voz de Lamego | 5 de junho de 2018

RELEVÂNCIA E PRESENÇA

A recente votação parlamentar “adiou” a legalização da eutanásia, já que os seus promotores não descansarão enquanto não puderem inscrever mais esse “avanço” na legislação portuguesa. Tal como na questão do aborto, o tema voltará à ordem do dia e os “arautos do progresso” inscreverão mais essa página na história lusa.

A este propósito, e a par dos defensores de tal prática, muitas foram os portugueses que se fizeram ouvir apelando ao “não”. E se noutros tempos caberia, maioritariamente, aos bispos e padres tal apelo, a verdade é que se ouviram outras vozes e se viram outros rostos nas manifestações concretizadas. O facto mostra que a Igreja cresceu, dando vez e voz a quem não é ministro ordenado, proporcionando aos fiéis leigos afirmarem-se como sujeitos.

Num tempo marcado pelo fim da cristandade e consequente perda de relevância da Igreja no debate público, saúda-se e sublinha-se a aparição de vozes formadas e informadas que enriquecem o debate e, de alguma forma, podem colmatar a ausência da hierarquia, tantas vezes ignorada pelos grandes meios de comunicação.

A Igreja sabe e assume que a perda de relevância no debate, a ausência do convite ou a invisibilidade a que, involuntariamente, é muitas vezes votada em nada diminuem a sua determinação em permanecer fiel ao Senhor, cumprindo a missão de anunciar o Evangelho, servir a humanidade e ser “sacramento de salvação”.

Porque enquanto a Igreja estiver disponível para servir, acolher, escutar, ocupar-se dos mais frágeis, marcar presença nos lugares não cobiçados… a Igreja permanecerá.

É verdade que a Igreja pode ter perdido a relevância de outros tempos, mas para ser fiel Àquele que a fez nascer será sempre mais importante estar presente, promovendo e defendendo a dignidade de todos.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/27, n.º 4464, 5 de junho de 2018

EUTANÁSIA – PSEUDO-AVANÇO | Editorial Voz de Lamego | 29 de maio

EUTANÁSIA – PSEUDO-AVANÇO

Os deputados eleitos pelos portugueses para os representarem na Assembleia da República discutem e votam, hoje, propostas legislativas destinadas a legalizar a prática da eutanásia, assumida  como prioridade por alguns desses eleitos.

A sociedade actual lida mal com a velhice, esconde a morte e detesta estar dependente e perder a autonomia. A idade provoca limitações físicas e a perda de faculdades, as rugas não poderão ser continuamente disfarçadas e a eficiência deixará a desejar. Como continuar a viver numa sociedade que privilegia o individualismo e a eficácia? Como aparecer com as marcas da idade quando o aspecto físico é tão valorizado? Em que alturas da vida ou em que circunstâncias uma vida perde dignidade?

Por outro lado, o culto da liberdade individual (autonomia que não tolera a presença do Outro) leva a querer deixar a cada um a decisão de antecipar a morte. Mas poderá alguém gravemente doente ou afectivamente abandonado ser totalmente livre para antecipar o fim?

Certamente que ninguém poderá ser obrigado a solicitar tal acto, mesmo que legalmente possível, e que os profissionais de saúde poderão evocar reservas de consciência. Mas, como noutras vezes, não faltarão pedidos para morrer nem voluntários para satisfazer tais vontades.

Opiniões contra e a favor têm sido expressas por muitas pessoas, com toda a legitimidade. Como crentes, sabemos que a vida é um dom recebido e que em todos os momentos da vida não estamos sós, porque estamos na mão de Deus. Assim, viver a vida toda é louvar o seu Criador e assumi-la em todos os momentos um acto de gratidão e fidelidade.

Desconhecendo o desfecho da votação, mas esperando que tal iniciativa não venha a ter sucesso, será, no entanto, de esperar que os seus proponentes não desistirão facilmente e tudo farão para concluir mais um “pseudo-avanço civilizacional”.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/26, n.º 44592, 29 de maio de 2018

OUSAR PEREGRINAR | Editorial Voz de Lamego | 22 de maio de 2018

OUSAR PEREGRINAR

Nos primeiros dias de maio, a passagem de milhares de peregrinos em direcção a Fátima proporciona notícias, imagens e sons de gente que caminha. Alguns espectadores, sentados no sofá e acomodados nas suas certezas, interrogam-se sobre a iniciativa e desvalorizam tamanho esforço. Mas mais importante do que a fundamentação das motivações e a verbalização da experiência, cada peregrino sabe porque caminha e porque quer chegar.

A peregrinação é uma iniciativa que tem um sentido, um objectivo, uma motivação e apresenta-se como oportunidade para “pôr em causa”, interrogar, agradecer, buscar…

O termo “peregrino” designa aquele que vai “através dos campos” e, por conseguinte, se torna um estrangeiro face ao seu contexto de vida, aos seus hábitos, às suas preocupações quotidianas, distanciando-se do seu porto seguro, das suas certezas, das ideias recebidas e nem sempre vividas.

Numa linguagem mais próxima, peregrinar será deixar a “zona de conforto” e confrontar-se com a busca de respostas e metas. E se o habitual é percorrer distâncias para chegar a algum local sagrado, a verdade é que a vida pode ser descrita como uma peregrinação e, então, fazer-se peregrino será ousar questionar-se e buscar um sentido: Porque existo? Qual o meu lugar no universo? O que posso fazer ou dar ao meio onde vivo? Como partilhar, transmitir o que recebi? Como realizar a minha vida o melhor possível? Uma peregrinação de horas, semanas, meses pode ajudar a compreender o sentido e dar-lhe uma direcção.

Também por estes dias, em diversas zonas pastorais, há peregrinações que se organizam e recomenda-se a participação.

Mas se “ir” é importante, não o será menos “sair”: de si, da rotina, do sofá, da facilidade, da bancada… e ousar. Porque, peregrinar é próprio de quem não quer acomodar-se e protagoniza um sadio inconformismo.

Pe. Joaquim Dionísio, in Voz de Lamego, ano 88/25, n.º 44591, 22 de maio de 2018