Arquivo

Posts Tagged ‘Pe. Joaquim Correia Duarte’

De vez em quando – BATISMO – padrinhos ou testemunhas

batismo

Prosseguindo o tema do Baptismo, e à volta dele, vêm-me à ideia seis nomes, seis modelos e seis funções: o padre, o pai e o padrinho, a madre, a mãe e a madrinha.

O pai e a mãe geraram a criança para a Vida Humana; o padre e a madre igreja geram a criança para a Vida Divina. Por isso mesmo se chamam padre – pai, e madre – mãe.

Padrinho é diminutivo de pai: paizinho. Madrinha é diminutivo de mãe: mãezinha. Um e outro, compadres, ou seja, “como pais” ou “compais”.

Assim sendo, o padrinho deve ser um segundo pai, e a madrinha uma segunda mãe. O povo sempre disse que, se os pais da criança faltassem, eram os padrinhos quem tinha de tomar conta dela, para a educarem e criarem.

 Do padrinho e da madrinha esperava a Igreja e o seu Código que, para além de testemunharem o acto, assumissem o compromisso de ajudarem os pais da criança na educação e no crescimento da sua fé.

Ora, o que se tem verificado (e todos dizem), é que os padrinhos se transformaram em figuras tradicionais, sem responsabilidade alguma, peças quase decorativas que, uma vez por outra, não existindo, até chegaram a ser substituídos por imagens de santos e efígies de padroeiros. Os livros de assentos paroquiais mais antigos o comprovam.

Lá para trás, nos tempos de verdadeira pobreza, o que os pais esperavam dos padrinhos era quase exclusivamente que eles dessem o enxoval, pagassem o pé de altar e ficassem seus compadres para deles receberem apoio, ajuda e amizade. Era por isso que, na medida do possível, se escolhiam pessoas de poderes, de haveres e de influências.

Nesses tempos, quase não existiam casais juntos ou divorciados, e quase todos os católicos eram frequentadores dos Sacramentos.

As coisas foram andando e hoje, com as liberdades individuais de opção que todos têm, e que a Igreja respeita, muitos católicos que os pais escolhem para padrinhos dos seus filhos não estão em condições canónicas para desempenharem tal função: ou porque não são praticantes, ou porque a sua vida moral ou conjugal não está de acordo com os ensinamentos de Jesus nem com as normas estabelecidas pela Igreja. E aí surgem os problemas. Os párocos ficam cada vez mais no dilema de aceitar tudo e tudo deixar correr para não terem problemas nem sofrerem incómodos, ou de cumprirem as normas e obedecerem à sua consciência.

De facto, que testemunho de Fé e de Vida Cristã podem dar aos seus afilhados, padrinhos que não frequentam a Igreja nem recebem os Sacramentos, ou se encontram em situação moral ou conjugal oposta ao Evangelho e às Leis da Igreja?

Não se passa o mesmo na celebração do Matrimónio. O cânone 1108 do Código de Direito Canónico em vigor, exige que a celebração do Matrimónio ocorra com a presença de duas testemunhas.

Ser testemunha não é o mesmo que ser padrinho.

Testemunha, qualquer pessoa adulta e lúcida o pode ser. Basta assistir e assinar. Padrinho ou madrinha, não. Tem que assumir responsabilidades sérias na educação da fé dos afilhados, e ter condições para o fazer.

Assim sendo (quem sou eu para o dizer), já que os padrinhos não assumem na realidade tais responsabilidades, porque continuamos a manter essas figuras decorativas e não os substituímos por simples testemunhas? É que assim, todas estas situações que tantos dissabores causam aos párocos, ficavam automaticamente resolvidas. Para testemunhar um acto ou uma celebração, qualquer um serve.

Mas isso, julgo eu, só o Papa para a Igreja Universal ou a Conferência Episcopal para cada país ou região, o poderão fazer.

Quem sou eu para o exigir?

Quem sou eu sequer para o sugerir?

Pe. Joaquim Correia Duarte, in Voz de Lamego, ano 86/23, n.º 4362, 10 de maio de 2016

De vez em quando… Batismo – Inconsistências – 2

articulos-2013031103

Sinceramente, sinto que devo começar esta crónica reconhecendo-me publicamente pecador e imperfeito, muito longe de corresponder ao que Deus e a Igreja querem e esperam de mim.

Posto isto, continuo.

Diz o Papa Francisco que nós, os que fazemos parte da Igreja de Jesus, não somos nem temos que ser perfeitos, porque a Igreja não é necessariamente uma comunidade de justos, mas um povo de discípulos que procuram seguir Jesus o melhor possível.

É verdade. Sem dúvida. Contudo, não posso deixar de dizer que uma coisa é a falta de santidade e de perfeição que ainda não adquirimos, e outra, bem diferente, é a falta de seriedade e de coerência que mostramos: nos actos e nas palavras.

No tema em título e em análise, sempre me impressionou e incomodou a ligeireza e a imponderação com que a maior parte dos pais e dos padrinhos das crianças por eles apresentadas ao Baptismo respondem ao sacerdote que, à entrada do templo, os interroga sobre o compromisso que assumem nesse momento de educar os filhos e afilhados na fé e na vida cristã: os pais, de educar; os padrinhos, de ajudar.

Há cinquenta e três anos que venho fazendo essa pergunta e nunca algum pai, mãe, padrinho ou madrinha me respondeu que não. E no entanto, venho depois a verificar, da parte de muitos deles, um total e absoluto desleixo e desinteresse no cumprimento de tal compromisso. Incluídos muitos dos que assistem às reuniões de preparação.

Chegados depois à Pia Baptismal, e convidados os pais e os padrinhos a manifestarem a alegria da fé e a renúncia ao pecado, dizem todos a tudo que sim. E aqui vem a maior incongruência, de cortar o coração: pais e padrinhos que nunca põem os pés nas igrejas e só lá voltam quando os trouxerem numa urna ou num caixão, pais e padrinhos que vivem a vida inteira num contínuo afastamento da comunidade cristã e num total desleixo e desinteresse pela Eucaristia Dominical e pelos demais Sacramentos, pais e padrinhos que vivem em situação divergente e mesmo oposta às normas morais que o Evangelho ensina e a Igreja recomenda, dizem a tudo que sim: que crêem; que renunciam; que não querem nada com o demónio, nem com a mentira, nem com o pecado.

E toca a baptizar!

Mas se algum sacerdote, por imperativo dos cânones ou descargo de consciência, apresenta qualquer obstáculo ou manifesta qualquer dificuldade em baptizar uma criança, os pais recorrem ao bispo, ao papa se o bispo lhes não dá razão, e agora (está na moda…) até chamam a televisão e os jornais, para publicitar melhor o crime e amedrontar mais e melhor o “criminoso”!

Peço que os meus leitores me perdoem, mas não resisto a pôr aqui a expressão usada um dia por Cunhal: os sacerdotes são obrigados em alguns momentos a engolir mesmo “sapos vivos”.

Não é fácil. Mas, tal como as coisas estão, parece que nada mais há a fazer!

O Baptismo não é um rito mágico que tudo resolve e faz. Também não é um direito que todos temos, sem mais não. Também não é uma oportunidade para arranjar uns compadres simpáticos a quem devemos ou de quem esperamos favores. Também não é uma festa tradicional que se organiza para juntar a família e os amigos, num seleccionado restaurante, em data em que todos possam estar, mesmo que a criança tenha de esperar alguns anos, muitos. O Baptismo é um Dom de Deus e é uma dádiva da Igreja que nunca merecemos nem agradeceremos suficientemente, e é também um Compromisso de Vida com Jesus e com a Igreja, que se assume para sempre: os adultos, por si; os pais e os padrinhos pelas crianças.

Que Deus me perdoe, mas eu acho que a misericórdia divina não consegue cobrir tudo, e sobretudo estas nossas incoerências!

Nem sequer essa misericórdia toda que agora se proclama e oferece a rodos, mas que a maior parte dos cristãos não procura, não quer, não agradece, nem aceita.

Pe. J. Correia Duarte,

in Voz de Lamego, ano 86/22, n.º 4360, 26 de abril de 2016

Matar… ou deixar morrer… ou ajudar a morrer

crianca-hospital

DE VEZ EM QUANDO… 

No passado dia 06 do mês corrente de Fevereiro, o Movimento “Direito a morrer com dignidade” apresentou no Porto um manifesto a defender a eutanásia e o suicídio medicamente assistido, assinado por 110 cidadãos. Nesse manifesto, o Movimento defende a despenalização e regulamentação da morte medicamente assistida em Portugal e o direito de as pessoas, em pleno uso das suas faculdades mentais, mas perante um sofrimento profundo ou uma doença incurável, terem a liberdade de escolha, ou seja, a liberdade de decidirem morrer e de pedirem que as matem.

O referido manifesto veio trazer de novo para a ribalta da comunicação e para o campo da discussão, o problema da eutanásia.

Logo a seguir, no dia 15, a jornalista Fátima Campos Ferreira trouxe o tema para debate no programa “Prós e Contras”, programa que eu acompanhei com todo o interesse e atenção.

No dia 15 deste mês, reunido em Fátima, o “Conselho Permanente do Episcopado Português” (desta vez apareceu e funcionou) veio tornar claro que a Igreja defende e afirma que a vida humana é algo sagrado e inviolável que “tem sempre a mesma dignidade, em todas as suas fases, independentemente das circunstâncias, quer externas quer internas”. O cardeal patriarca de Lisboa dissera uns tempos antes que “entrar por aí (pela despenalização da eutanásia, tornando-a legal e livre),é entrar numa porta perigosa, de futuro imprevisível”. De facto, depois de se legalizar a matança de crianças inocentes, pretende-se agora legalizar a matança dos doentes terminais, e depois, podem seguir-se mais coisas…e assim se conseguir a “pureza e a sanidade total” da raça, ao jeito da limpeza de Hitler, da purga de Estaline e de outros semelhantes a eles.

O “Código Deontológico dos Médicos”, publicado em Diário da República a 13 de Janeiro de 2009, proíbe a todos os membros da Ordem “a ajuda ao suicídio, à eutanásia e à distanásia”. Ler mais…

Uma Carta para o Menino Jesus |Conto de Natal

imagens-de-natal-8

O André nasceu em Alhos Velhos, fruto indesejado duma jovem da rua e da noite, e de um consumidor de heroína que lhe prometeu “mundos e fundos”… e nunca mais apareceu.

A mãe, sentindo-se incapaz de dar ao filho o pão e a educação que ela própria não tivera, logo que pôde, colocou-o num cestinho e, ainda de noite, antes que a porta se abrisse e os funcionários entrassem, foi pô-lo à entrada de uma instituição acolhedora de crianças. Não vendo ninguém, afastou-se um pouco, postou-se na esquina da rua e ficou à espera para ver o que acontecia.

Chegada uma senhora, e ouvindo a bebé a choramingar dentro da cesta, olhou intrigada em todas as direcções e, não vendo ninguém, abriu a porta, subiu a escada e falou com a diretora. Daí a alguns minutos, desceu à rua, pegou na cesta e entrou de novo.

Passados meses, duas senhoras que tinham oficializado a sua relação perante o Estado, na Conservatória do Registo Civil de Porto Leão, onde viviam, vieram à instituição e, depois de um processo acelerado (era novidade a adoção de crianças no seu caso), ficaram com o André.

Quando chegou a hora de o menino entrar no Jardim Infantil da Santa Casa da Misericórdia da localidade, verificou que os pais dos outros meninos vinham trazê-los de manhã e busca-los à tarde: umas vezes vinha a mãe, outras vezes vinha o pai. Os pais, com os seus braços fortes, abraçavam os filhos com força, bamboleavam-nos com alegria e carinho, e metiam-nos no automóvel. E o Zé Pedro começou a ficar triste, pensando:

– Só eu é que não tenho pai! Só eu é que não tenho pai!

Chegado o Advento, e aproximando-se o Natal, a Educadora de Infância montou o presépio à entrada da salinha de trabalho, chamou as crianças, fê-las sentar num círculo, e falou-lhes do Natal e do Menino:

– Isto, meus meninos, é o presépio. É para nos lembrar a todos o que é o Natal e como nasceu Jesus. Foi assim, numa manjedoura, em palhinhas, que a mãe d’Ele o colocou quando nasceu.

– Então, a mãe não foi tê-lo ao hospital, como foi a minha mãe quando nasceu a minha irmã? – perguntou o Ricardo

– Não, Ricardo, naquele tempo (já lá vão dois mil anos), ainda não havia hospitais nem maternidades. Para mais, Nossa Senhora tinha ido de viagem a Belém, estava longe da sua casa, e não teve outro lugar melhor onde tivesse o Menino.

– Quem é aquele senhor que está ali ao lado, de joelhos, e todo curvado para baixo? – perguntou o André.

– Aquele é S. José, o “pai” do Menino. Daqui a uma semana, é o Natal. Vamos todos celebrar o nascimento de Jesus. Ele veio ao mundo porque é muito nosso amigo: veio ensinar-nos coias boas e veio trazer-nos coisas boas. Vocês querem escrever uma cartinha ao Menino, a pedir-lhe que vos traga alguma coisa especial, neste Natal?

-Eu quero! Eu quero! Eu também! – responderam todos.

-Então escrevam, e ponham aqui no presépio. E se algum não souber escrever, diz-me ao ouvido o que quer, e escrevo eu.

Na véspera de partirem para férias do Natal, a senhora abriu as cartas, uma a uma, para dar no dia seguinte a cada um a prenda que cada um pedira, em nome do Menino Deus.

A carta do André dizia assim:

Meu querido menino Jesus

Eu tenho tudo, tudo, tudo: roupa, brinquedos, rebuçados, chocolates…tudo, mas não tenho pai nenhum.

Não tenho um pai que me ralhe, que jogue à bola comigo, que me leve às cavalitas…

Se és tão bom como me dizem, dá-me um pai igual ao teu. Não quero mais nada. Não preciso de mais nada. Obrigado.

Assino: andré leal antunes borges

            Rua do Pôr do Sol, 43 – Porto Leão.

             Telemóvel: 912 777 007

Pe. Correia Duarte, in Voz de Lamego, ano 85/55, n.º 4343, 22 de dezembro

O NATAL DO ZÉ DA LAVRA | Conto de Natal

275956_Papel-de-Parede-Abraco-dos-Gatos_1920x1200

Era filho único.

Quando andava nos dez anos, ao voltar da escola, viu a mãe estendida no chão do quarto, esvaída em sangue, e já morta.

O pai, procurado pela guarda republicana, apareceu mais tarde, também morto, numa curva do Cabrum, preso a uns arbustos.

Na sequência de suspeitas e ciúmes, e depois de ralhos e maus-tratos, o pai dera um tiro na mulher, fugira desarvorado para o ribeiro, e afogara-se no poço dito “sem fundo”.

Acolhido em casa do tio Afonso e da esposa Madalena, em Mariares, aí se refugiou e aí passou a viver.

Pobres em recursos e incapazes de afetos, depressa o mandaram para o Douro, para as quintas dos ingleses.

Ia às vindimas, vinha aos Santos; ia às azenhas, voltava ao Natal.

Lá na quinta, dormia no palhuço do cardenho, comia broa com sardinha, e trabalhava todo o dia, de sol a sol. Mas a mulher do caseiro, conhecedora da má sorte do mocinho, acarinhava-o como filho, dava-lhe bons conselhos, e o rapaz pôde aprender com ela como é bom amar, e como é bonito ser bom.

Não era assim em casa dos tios. Aí, beijava-se pouco e ralhava-se muito.

Num certo Natal, o Zé da Lavra, em vez de ir para os tios, foi parar a casa do “Ceguinho”.

O “Ceguinho”, invisual de nascença, vivia só e sem família, sem carinho nem conforto. Chegado do Douro, o Zé abraçou o velhinho, ajuntou a lenha, acendeu o lume e, pouco depois, já as batatas ferviam e o bacalhau cheirava. Duma tosca e velha mesa ao lado, chegava o delicado odor do arroz doce e o gostoso sabor do alho e do vinagre.

Comida a Ceia, o velhinho disse ao moço:

– Zé, este foi o melhor Natal da minha vida! Sempre passei esta noite sozinho! Como hei-de eu agradecer-te, meu filho?

– Muito simplesmente, senhor Francisco. Com um abraço. Abraços, foi coisa que nunca tive! Foi coisa que nunca me deram!

Concretizado o abraço, rezaram a oração de ação de graças, louvaram a Bondade de Deus por ter nascido, e ficaram até ao meio da noite a jogar pinhões e rapas e a cantar os dois, velhos cânticos de Natal.

No dia seguinte, a conselho do velhinho, o Zé subiu a velha calçada da aldeia pintada de neve e escorregadia do gelo, e foi à Santa Missa de Natal à igrejinha do lugar.

Ao ver aquela gente boa, fiel, alegre e simples, a cantar e a rezar a glória de Deus, a bondade de Jesus, o silêncio de José, e a beleza da Virgem -Mãe, o moço não se conteve, cantou e rezou também, e sentiu-se verdadeiramente feliz!

Chegado o momento apropriado, integrou-se acanhado e tímido na fila que ia beijar o Menino. Ao beijá-LO, viu os Seus olhos sorrir-lhe, e ouviu-O dizer-lhe assim, com voz terna, infantil e divinal:

– Parabéns, José! Feliz Natal para ti e para o “Ceguinho”!

– Feliz Natal para todos os que sabem adorar, louvar, amar, agradecer e cantar!

 Pe. J. Correia Duarte,  in VOZ DE LAMEGO, n.º 4294, ano 84/56, de 23 de dezembro de 2014