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Posts Tagged ‘Pe. Joaquim Correia Duarte’

A revolução liberal duzentos anos depois

No dia em que se assinalam 200 anos da revolução liberal, 24 de agosto, crónica do reverendo Pe. Joaquim Correia Duarte:

Muitos de nós conhecemos, na cidade do Porto, o “Campo 24 de Agosto”.

O nome pretende recordar e lembrar um dos grandes acontecimentos que marcaram para sempre a nossa história coletiva: a revolução liberal de 24 de Agosto de 1820.

O local, que antes se chamou Mijavelhas, Poço das Patas e Campo Grande, só foi batizado com este nome por edital da Câmara, em 1 de agosto de 1860.

Não foi aí que eclodiu a citada revolta, mas sim no Campo de Santo Ovídeo, hoje Praça da República.

Foi nesse dia e neste último local que a guarnição militar do Porto, doutrinada e impelida pelo Sinédrio, desembainhou as espadas e apontou os mosquetes, para proclamar extinto o antigo regime, absolutista, e implantado o novo regime, constitucional.

Pretendia-se ultrapassar a situação de um país pobre e devastado pelas invasões francesas, excluir da gestão do reino o domínio da Inglaterra na pessoa do General Beresford, fazer regressar a Portugal o rei ausente no Brasil, implementar no país o regime saído da revolução francesa, assentando teoricamente na igualdade de direitos de todos os cidadãos, na separação e na divisão de poderes – legislativo, executivo e judiciário – e tornando a lei, já não a vontade do soberano como no despotismo esclarecido, mas o resultado da vontade do povo, declarada e expressa pelos seus representantes nas Cortes.

Essa mudança de regime, que veio trazer a Portugal tantos oportunismos, tantos sofrimentos, tantas divisões e perseguições partidárias, tantos expatriados, e tantos prejuízos (basta referir a guerra civil que dividiu os portugueses ao longo de tantos anos, a extinção das ordens religiosas e a partilha dos seus bens pelos apaniguados do novo regime) trouxe também consigo as primeiras eleições para a escolha dos deputados às Cortes, em 1821, e a elaboração da primeira Constituição, no ano seguinte.

Por detrás de toda esta mudança, estavam as doutrinas iluministas do último quartel do século XVIII defendidas e propaladas pela maçonaria, e as ideias jacobinas trazidas pelas invasões francesas, difundidas entre os novos intelectuais em pasquins volantes, e discutidas nos cafés e nos botequins de vilas e cidades.

A presidir a tudo isto, e a mobilizar as tropas sem as quais nada lhes seria possível, estava o Sinédrio: um grupo de doze burgueses portuenses, a cujo movimento se aliaram alguns comandantes militares do norte, e ainda, D. Frei Francisco de São Luís, que veio a ser mais tarde patriarca de Lisboa, mais conhecido por Cardeal Saraiva.

Entre esses doze burgueses, havia um resendense, Manuel Borges Carneiro, de seu nome.

Nascido na Casa das Cotas, em Cimo de Resende, em 2 de novembro de 1774 e batizado na igreja da paróquia em 17 do mesmo mês, formou-se em Cânones em Coimbra e vivia no Porto nessa ocasião, já que, no início de 1820, fora nomeado Juiz Desembargador da Comarca da Relação do Porto.

Foi ele um dos grandes mentores da revolução liberal e também um dos grandes redatores da primeira Constituição Portuguesa, votada nas Cortes em 1821 e aprovada com a data de 23 de setembro de 1822.

Borges Carneiro era um dos deputados mais escutados nas assembleias das Cortes.

Um escritor italiano no exílio, presente em alguns debates, escreveu sobre ele: “Depois de Fernandes Tomás, levantou-se um orador mais alto em estatura do que ele, pouco rápido a falar, mas impetuoso, quase irresistível nas ideias. Ouvi então murmurar nas galerias o nome de Borges Carneiro. Esse deputado entusiasma frequentemente o auditório, porque as suas moções são sempre ousadas e vêm ao encontro das paixões populares”.

Infelizmente, o homem acabou por morrer cedo, e mal.

Com a ascensão de D. Miguel ao trono, foi preso em Lisboa em 15 de Agosto de 1828 e acabou por morrer de peste na Torre do Castelo de S. Julião da Barra cinco anos depois, apenas com 59 anos de vida, tendo sido sepultado na esplanada do mesmo castelo, como se de um simples animal se tratasse.

São assim as revoluções.

São assim as glórias deste mundo.

Passados duzentos anos, continua a haver na sociedade portuguesa integralistas, legitimistas, monárquicos e republicanos do coração.

O que importa é que todos nos respeitemos, que o país progrida, que todos vejam reconhecidos os seus direitos, que a ninguém falte o necessário, e que todos sejamos felizes.

Apresentação da obra “A Diocese de Lamego em Três Histórias”

“A Diocese de Lamego em Três Histórias” é referência na História de Lamego

Um extraordinário contributo para a História de Lamego e da sua Diocese. Foi desta forma que este sábado, 10 de junho, unanimemente foi considerada a obra “A Diocese de Lamego em Três Histórias”. Da autoria de Joaquim Correia Duarte, a apresentação decorreu no Museu de Lamego, integrada nas comemorações do Centenário, e esteve a cargo da Presidente da Academia Portuguesa da História, Professora Doutora Manuela Mendonça.

Numa lição de História que percorreu séculos da Diocese e cidade de Lamego, Manuela Mendonça referiu-se ao autor da obra como um viabilizador da História, ao “sinalizar ancestrais, mas relevantes trabalhos” que possibilitam sentir o “pulsar das gentes de Lamego” ao longo dos séculos XVI, XVIII e XIX. Um legado, assinalou, a partir de agora acessível, inscrevendo o nome de Joaquim Correia Duarte no “catálogo de ouro dos historiógrafos portugueses”.

Com pesquisa, leitura, reprodução, organização e anotações de Correia Duarte, ao longo de quase 700 páginas, são transcritos três documentos da maior importância para a História do Bispado de Lamego. O pároco da Diocese de Lamego e membro da Academia Portuguesa da História classificou a obra como um “repositório de conhecimento histórico”, ao disponibilizar informação sobre os mais diversos aspetos, como as lutas políticas e sociais, paróquias, Paço Episcopal (onde atualmente está instalado o Museu de Lamego), catedral, castelo, cisterna, rio Coura, Hospital da Misericórdia, entre outros tantos espaços já desaparecidos ou ainda existentes na cidade. Para o pároco, “não é possível conhecer a História da cidade e Diocese sem ler ou consultar” as três obras que ali são transcritas.

Os anos de 1596, 1789 e 1878 correspondem a três importantes obras sobre a Diocese, que de importantes têm tanto como de desconhecidas. Em 1596, Manoel Fernandez, membro do Cabido da Sé, escrevia a “Sumária Reapitulaçam da antiguidade da Sé de Lamego”; em 1878, João Mendes da Fonseca, cónego da Sé, registava a “Memoria Chronologica Dos Excellentíssimos Prelados que tem existido na Catedral desta Cidade de Lamego”; Joaquim de Azevedo encerra “A Diocese de Lamego em Três Histórias”, com a “História Ecclesiástica da Cidade e Bispado de Lamego”, escrita no século XVIII, mas só publicada em finais do século seguinte, depois de continuada e atualizada por um cónego da Sé de Lamego.

A sessão contou ainda com a presença do Bispo Emérito de Lamego D. Jacinto Botelho, que ressalvou a riqueza que esta obra revela sobre o conhecimento da Diocese.

in Voz de Lamego, ano 87/31, n.º 4416, 13 de junho 2017

“A Diocese de Lamego em Três Histórias” – no Museu de Lamego

“A Diocese de Lamego em Três Histórias” é o título da obra que é apresentada no Museu de Lamego no próximo dia 10 de junho, pelas 16h00. Integrada nas comemorações do Centenário do Museu, a apresentação, numa edição da Diocese de Lamego, estará a cargo da Presidente da Academia Portuguesa da História, Professora Doutora Manuela Mendonça.

Com pesquisa, leitura, reprodução, organização e anotações de Joaquim Correia Duarte, padre na Diocese de Lamego e membro da Academia Portuguesa da História, ao longo de quase 700 páginas, são transcritos três documentos da maior importância para a História do Bispado de Lamego.

Os anos de 1596, 1789 e 1878 correspondem a três importantes obras sobre a Diocese, que de importantes têm tanto como de desconhecidas. A obra que agora vem a público representa por parte do autor o esforço de partilhar o conhecimento produzido ao longo dos séculos com o grande público, até agora apenas acessível a investigadores. Ler mais…

Apresentação de Livro de Mons. Arnaldo Cardoso

Num lugar favorecido de beleza e adornado de silêncio (só o murmúrio das águas que passam caminhando no leito de um regato o parecem querer quebrar), num templo opulento em arte e recheado de história, beleza que nos encanta, silêncio que nos tonifica, história que nos educa e arte que nos tira quase a respiração, reuniram-se na passada quinta-feira, dia 30, pelas 16 horas, umas dezenas de interessados para assistirem à apresentação de mais uma obra notável de Mons. Arnaldo Cardoso, esta como título “Representações Artísticas do Cântico dos Cânticos em Portugal”.

A presidir, na mesa de honra, para além do autor, D. António Couto, Bispo da Diocese, a quem coube a tarefa da apresentação do livro, o Presidente da Câmara de Tarouca, Valdemar Pereira, D. Jacinto Botelho, Bispo Emérito, Mons. Joaquim Rebelo, Vigário-Geral, e Zita Seabra, proprietária e directora da Alêtheia Editores, a quem pertence a edição. Ler mais…

Visita Pastoral de D. António Couto à Paróquia de Anreade

VISITA PASTORAL DE SUA EXCELÊNCIA REVERENDÍSSIMA, O SENHOR BISPO DE LAMEGO, D. ANTÓNIO JOSÉ DA ROCHA COUTO, À PARÓQUIA DE S. MIGUEL DE ANREADE, DA ZONA PASTORAL DE RESENDE.

“Quero com esta visita pastoral, dar o meu contributo para que todos possam verdadeiramente sentir a alegria de Evangelizar.”

(excerto da mensagem de D. António Couto às comunidades da zona pastoral de Resende)

Nos dias 17, 18 e 19 de março, a paróquia de São Miguel de Anreade recebeu, com muita alegria, a Visita Pastoral de Sua Excelência Reverendíssima, o  Senhor Bispo D. António José da Rocha Couto, venerando Bispo da Diocese de Lamego.

No espírito da mensagem cujo excerto foi acima transcrito e depois de uma preparação próxima de toda a comunidade paroquial de S. Miguel de Anreade, esta visita, inserida num calendário de visitas pastorais às paróquias da Zona Pastoral de Resende e com um programa organizado pelo Conselho Pastoral Paroquial, teve início no dia 17, com a visita domiciliária do Senhor Bispo, acompanhado do Pároco, a cerca de duas dezenas de paroquianos cuja idade avançada ou doença os impedia de participar activa e presencialmente nos encontros e nas celebrações da visita. Assim, percorreu os quatro cantos da freguesia, desde os Altos à Ribeira e de Mosteirô a Caldas de Aregos, concluindo-se as actividades desse dia com um  encontro na Capela de Santa Maria Madalena de Caldas de Aregos, com os paroquianos residentes nesse lugar. Ler mais…

Homenagem ao Pe. Joaquim Mendes de Castro…

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Como é sabido de todos, no último dia 22 de Dezembro, deixou o nosso convívio terreno o grande professor e excelente amigo, Cónego Dr. Mendes de Castro.

Não pude estar presente no seu funeral, como era meu desejo. Tendo sido encarregado pela Senhora Presidente da Academia da História de representar no ato a mesma Academia, não o pude fazer por ter sofrido um problema de saúde que me impediu de deslocar-me então a Rio Tinto. Ao Sr. Dr. Mendes de Castro e à senhora Presidente da Academia, peço perdão da minha falta.

O distinto falecido sempre foi considerado por mim,e por todos os que lidaram com ele, um dos mais ilustres membros do clero da diocese, um dos mais distintos capitulares da nossa Sé, um dos mais brilhantes professores do seminário, e um dos maiores e melhores expoentes das letras e da cultura portuguesas.

Bem conhecido na diocese, não demorou a ser reconhecido no país. Ler mais…

De vez em quando… o I.M.I. sobre as casas dos padres

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Chegou ao meu conhecimento de que, há dois ou três dias atrás, uma dedicada funcionária pública, escutando atenta na repartição onde trabalha, que alguns párocos foram notificados para pagarem I. M. I. sobre os imóveis das suas paróquias, assim se dignou comentar:

  • Acho muito bem! Porque é que os padres não hão pagar IMI das casas deles, como toda a gente paga?

Também me foi referido que alguém aí presente, mais conhecedor do assunto, lhe fez ver por A mais B que a sua afirmação não estava certa.

Efetivamente, o que ela chamava “Casas dos Padres” igrejas, residências paroquiais e outros edifícios das paróquias destinadas a dar apoio religioso, social e cultural às pessoas da comunidade, nomeadamente na educação das crianças e dos jovens, ou para cuidarem dos doentes, dos pobres e dos idosos não são dos padres. São da Igreja. São do Povo Cristão. Todas erguidas com as esmolas voluntárias do povo crente, todas sustentadas com os óbolos generosos dos fiéis cristãos, sabe Deus com que sacrifício. Os padres apenas as vão gerindo, sabe Deus com que esforço, com que dificuldades, muitas vezes pondo dinheiro do seu próprio bolso. Sei do que falo. Tanto não são dos padres que, quando eles morrem ou mudam de lugar e de serviço, não as levam com eles, nem as deixam aos seus herdeiros.

Por amor de Deus! Das casas deles, sempre os padres pagaram IMI como toda a gente paga. Ler mais…

Maternidade de substituição em “barrigas de aluguer”

Pregnant woman touching stomach, mid section

Pregnant woman touching stomach, mid section

Antes de entrar no tema que hoje proponho aos meus leitores, complexo e polémico, faço questão de afirmar a minha compreensão total pelos casais que muito desejam ter filhos e não os podem ter, por razões de saúde ou deficiência fisiológica. Em vez do que passo a expor, talvez seja mais natural e menos perigoso recorrer à adopção de uma ou mais crianças que estão à espera de quem as ame e as ajude.

No passado dia 13 de maio – não sei se por obra do acaso ou por opção intencional dos seus autores –  foi apresentada na Assembleia da República uma proposta do Bloco de Esquerda que acabou por ser aprovada com o apoio favorável de quase todos os deputados do P.S., do Partido Ecologista ‘Os Verdes’, do PAN – Pessoas, Animais e Natureza, e de 24 deputados do Partido Social Democrata.

Logo a seguir, no dia 17, foi aprovado também o alargamento da procriação medicamente assistida – que envolve a existência de bancos de óvulos e de esperma – a mães solteiras ou a viver em união de facto com outra mulher, o que até então só estava legalmente acessível a casais ou a uniões de facto heterossexuais.

A proposta que tornou legal a “maternidade de substituição” abrange o caso de mulheres com “ausência do útero, ou com doença ou lesão desse órgão que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez”, não podendo envolver contrapartidas materiais, e excluindo os casos de homens homossexuais.

Comummente conhecida como “barriga de aluguel”, a gestação por substituição é a técnica de reprodução humana artificial na qual há a cooperação de uma terceira pessoa, neste caso obrigatoriamente uma mulher, nomeada mãe substituta ou mãe de aluguer, para a consumação da gestação.

Vejamos o que dizem os Pastores da Igreja sobre o assunto.

O Papa, na sua Exortação “Amoris Laetitia”, diz: “Também se expressa preocupação com a “possibilidade de manipular o acto procriativo”, independentemente da “relação sexual entre homem e mulher. Assim, a vida humana, bem como a paternidade e a maternidade, tornaram-se realidades componíveis e decomponíveis, sujeitas de modo prevalecente aos desejos dos indivíduos ou dos casais”. “Não caiamos no pecado de pretender substituir-nos ao Criador”.

No comunicado final dos bispos portugueses, na sua reunião em Fátima de 29 de Abril a 1 de Maio do ano corrente, pode ler-se o seguinte: “Estando em apreciação na Assembleia da República uma proposta de alteração legislativa no sentido da legalização, em determinadas condições, da maternidade de substituição, vulgarmente conhecida por «barriga de aluguer», os Bispos não podem deixar de manifestar o seu total desacordo a essa proposta”.

“A aspiração à maternidade e paternidade não pode traduzir-se num pretenso direito ao filho, como se este pudesse ser reduzido a instrumento”. “A mãe gestante não pode, também ela, ser instrumentalizada e reduzida a uma incubadora, como se a gravidez não envolvesse profundamente todas as dimensões da sua pessoa e a obrigação de abandono do seu filho não contrariasse o mais forte, natural e espontâneo dos deveres de cuidado”.

E o actual presidente da Conferência Episcopal, D. Manuel Clemente, pedia e esperava que as pessoas envolvidas na discussão e na decisão ponderassem bem o que está em causa, lembrando: “Não se trata de qualquer coisa acessória”. “A relação uterina entre aquela que gera e aquele que está a ser gerado é muito forte”.

Sobre tal assunto, gostaria de dizer o seguinte:

  1. A proposta apresentada no parlamento sofre desde logo de enfermidade democrática. Pergunto: quem deu aos senhores deputados o poder de legislar e decidir sobre um tema tão fracturante sem ouvir a voz do povo, já que tal proposta nem sequer constava dos programas eleitorais dos partidos que lhe deram o seu voto favorável? Infelizmente, já nos vamos habituando a estes usos e abusos dos senhores deputados quando lhes dá na gana, decidindo a seu bel-prazer, sobre assuntos de gravíssimas consequências, nas costas do povo, como se fossem eles os donos do país e senhores da consciência dos cidadãos que os escolhem.
  2. Considero todas estas técnicas, tão frias e como mecânicas, uma exploração humana, uma falsificação da vida, e uma instrumentalização da mulher.
  3. Ninguém conhece as graves e perigosas consequências que podem advir dessa “engenharia inovadora”, tanto para as pessoas envolvidas como para as que hão-de nascer desse processo. Por exemplo: “ O que acontecerá se uma criança tiver uma malformação, ou nascer com deficiência grave? Quem vai ficar com ela? Quem a gerou, ou quem a encomendou? No caso de se decidirem sobre o aborto, quem é que se responsabiliza pela decisão? A mãe que encomendou a criança ou a que está a gerá-la? Se no final dos nove meses, a mulher que gerou a criança não a quiser entregar, o que acontece? Manda-se a GNR para lha tirar à força? Quem é depois a mãe biológica da criança assim gerada? A mulher que a gerou, ou a mulher que encomendou o serviço (e se calhar até o pagou por alto preço, mesmo que por baixo do tapete ou da cortina…)? E se a mulher que faz a gestação por encomenda de outrem tiver graves problemas de gravidez? Estará disposta a levar a gravidez até ao fim? E nessa situação, fica tudo “numa boa”? E se morrer de parto? Quem indemniza a família? E se a mulher gestora tiver vontade de fumar ou necessidade premente de tomar algum medicamento que prejudica a criança e o seu desenvolvimento? Sabendo ela que a criança não é dela, que não vai ficar com ela, que não ganha nada com isso…, vai renunciar a isso tudo e pôr até em risco a sua saúde e a sua vida? Estamos a legislar para um mundo ideal, de pessoas todas boas e angélicas, que não existe e que nunca existirá!

No comunicado dos bispos diz-se ainda: “A criança nascida de uma mãe contratualmente obrigada a abandoná-la, não pode deixar de sofrer com o trauma desse abandono, conhecidos que são cada vez mais os laços que se criam entre mãe e filho durante a gestação. A mãe gestante não pode, também ela, ser instrumentalizada e reduzida a uma incubadora, como se a gravidez não envolvesse profundamente todas as dimensões da sua pessoa e a obrigação de abandono do seu filho não contrariasse o mais forte, natural e espontâneo dos deveres de cuidado”.

Eduardo Sá, conhecido psicólogo clínico, professor de psicologia clínica e investigador na área do feto e do bebé, que discorda da lei, assim comenta: “Carregar apenas um bebé no ventre não faz de uma mulher, mãe. Mas também não faz dela apenas a transportadora de um bebé”.

Sob a capa do progressismo, e com a preocupação dos votos, muitas aberrações se cometem.

Nem tudo o que é legal é bom, honesto, conveniente e verdadeiro.

Penso que este é um dos casos. Mais tarde se verá.

Pe. CORREIA DUARTE

in Voz de Lamego, ano 86/26, n.º 4365, 31 de maio de 2016

De vez em quando – BATISMO – padrinhos ou testemunhas

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Prosseguindo o tema do Baptismo, e à volta dele, vêm-me à ideia seis nomes, seis modelos e seis funções: o padre, o pai e o padrinho, a madre, a mãe e a madrinha.

O pai e a mãe geraram a criança para a Vida Humana; o padre e a madre igreja geram a criança para a Vida Divina. Por isso mesmo se chamam padre – pai, e madre – mãe.

Padrinho é diminutivo de pai: paizinho. Madrinha é diminutivo de mãe: mãezinha. Um e outro, compadres, ou seja, “como pais” ou “compais”.

Assim sendo, o padrinho deve ser um segundo pai, e a madrinha uma segunda mãe. O povo sempre disse que, se os pais da criança faltassem, eram os padrinhos quem tinha de tomar conta dela, para a educarem e criarem.

 Do padrinho e da madrinha esperava a Igreja e o seu Código que, para além de testemunharem o acto, assumissem o compromisso de ajudarem os pais da criança na educação e no crescimento da sua fé.

Ora, o que se tem verificado (e todos dizem), é que os padrinhos se transformaram em figuras tradicionais, sem responsabilidade alguma, peças quase decorativas que, uma vez por outra, não existindo, até chegaram a ser substituídos por imagens de santos e efígies de padroeiros. Os livros de assentos paroquiais mais antigos o comprovam.

Lá para trás, nos tempos de verdadeira pobreza, o que os pais esperavam dos padrinhos era quase exclusivamente que eles dessem o enxoval, pagassem o pé de altar e ficassem seus compadres para deles receberem apoio, ajuda e amizade. Era por isso que, na medida do possível, se escolhiam pessoas de poderes, de haveres e de influências.

Nesses tempos, quase não existiam casais juntos ou divorciados, e quase todos os católicos eram frequentadores dos Sacramentos.

As coisas foram andando e hoje, com as liberdades individuais de opção que todos têm, e que a Igreja respeita, muitos católicos que os pais escolhem para padrinhos dos seus filhos não estão em condições canónicas para desempenharem tal função: ou porque não são praticantes, ou porque a sua vida moral ou conjugal não está de acordo com os ensinamentos de Jesus nem com as normas estabelecidas pela Igreja. E aí surgem os problemas. Os párocos ficam cada vez mais no dilema de aceitar tudo e tudo deixar correr para não terem problemas nem sofrerem incómodos, ou de cumprirem as normas e obedecerem à sua consciência.

De facto, que testemunho de Fé e de Vida Cristã podem dar aos seus afilhados, padrinhos que não frequentam a Igreja nem recebem os Sacramentos, ou se encontram em situação moral ou conjugal oposta ao Evangelho e às Leis da Igreja?

Não se passa o mesmo na celebração do Matrimónio. O cânone 1108 do Código de Direito Canónico em vigor, exige que a celebração do Matrimónio ocorra com a presença de duas testemunhas.

Ser testemunha não é o mesmo que ser padrinho.

Testemunha, qualquer pessoa adulta e lúcida o pode ser. Basta assistir e assinar. Padrinho ou madrinha, não. Tem que assumir responsabilidades sérias na educação da fé dos afilhados, e ter condições para o fazer.

Assim sendo (quem sou eu para o dizer), já que os padrinhos não assumem na realidade tais responsabilidades, porque continuamos a manter essas figuras decorativas e não os substituímos por simples testemunhas? É que assim, todas estas situações que tantos dissabores causam aos párocos, ficavam automaticamente resolvidas. Para testemunhar um acto ou uma celebração, qualquer um serve.

Mas isso, julgo eu, só o Papa para a Igreja Universal ou a Conferência Episcopal para cada país ou região, o poderão fazer.

Quem sou eu para o exigir?

Quem sou eu sequer para o sugerir?

Pe. Joaquim Correia Duarte, in Voz de Lamego, ano 86/23, n.º 4362, 10 de maio de 2016

De vez em quando… Batismo – Inconsistências – 2

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Sinceramente, sinto que devo começar esta crónica reconhecendo-me publicamente pecador e imperfeito, muito longe de corresponder ao que Deus e a Igreja querem e esperam de mim.

Posto isto, continuo.

Diz o Papa Francisco que nós, os que fazemos parte da Igreja de Jesus, não somos nem temos que ser perfeitos, porque a Igreja não é necessariamente uma comunidade de justos, mas um povo de discípulos que procuram seguir Jesus o melhor possível.

É verdade. Sem dúvida. Contudo, não posso deixar de dizer que uma coisa é a falta de santidade e de perfeição que ainda não adquirimos, e outra, bem diferente, é a falta de seriedade e de coerência que mostramos: nos actos e nas palavras.

No tema em título e em análise, sempre me impressionou e incomodou a ligeireza e a imponderação com que a maior parte dos pais e dos padrinhos das crianças por eles apresentadas ao Baptismo respondem ao sacerdote que, à entrada do templo, os interroga sobre o compromisso que assumem nesse momento de educar os filhos e afilhados na fé e na vida cristã: os pais, de educar; os padrinhos, de ajudar.

Há cinquenta e três anos que venho fazendo essa pergunta e nunca algum pai, mãe, padrinho ou madrinha me respondeu que não. E no entanto, venho depois a verificar, da parte de muitos deles, um total e absoluto desleixo e desinteresse no cumprimento de tal compromisso. Incluídos muitos dos que assistem às reuniões de preparação.

Chegados depois à Pia Baptismal, e convidados os pais e os padrinhos a manifestarem a alegria da fé e a renúncia ao pecado, dizem todos a tudo que sim. E aqui vem a maior incongruência, de cortar o coração: pais e padrinhos que nunca põem os pés nas igrejas e só lá voltam quando os trouxerem numa urna ou num caixão, pais e padrinhos que vivem a vida inteira num contínuo afastamento da comunidade cristã e num total desleixo e desinteresse pela Eucaristia Dominical e pelos demais Sacramentos, pais e padrinhos que vivem em situação divergente e mesmo oposta às normas morais que o Evangelho ensina e a Igreja recomenda, dizem a tudo que sim: que crêem; que renunciam; que não querem nada com o demónio, nem com a mentira, nem com o pecado.

E toca a baptizar!

Mas se algum sacerdote, por imperativo dos cânones ou descargo de consciência, apresenta qualquer obstáculo ou manifesta qualquer dificuldade em baptizar uma criança, os pais recorrem ao bispo, ao papa se o bispo lhes não dá razão, e agora (está na moda…) até chamam a televisão e os jornais, para publicitar melhor o crime e amedrontar mais e melhor o “criminoso”!

Peço que os meus leitores me perdoem, mas não resisto a pôr aqui a expressão usada um dia por Cunhal: os sacerdotes são obrigados em alguns momentos a engolir mesmo “sapos vivos”.

Não é fácil. Mas, tal como as coisas estão, parece que nada mais há a fazer!

O Baptismo não é um rito mágico que tudo resolve e faz. Também não é um direito que todos temos, sem mais não. Também não é uma oportunidade para arranjar uns compadres simpáticos a quem devemos ou de quem esperamos favores. Também não é uma festa tradicional que se organiza para juntar a família e os amigos, num seleccionado restaurante, em data em que todos possam estar, mesmo que a criança tenha de esperar alguns anos, muitos. O Baptismo é um Dom de Deus e é uma dádiva da Igreja que nunca merecemos nem agradeceremos suficientemente, e é também um Compromisso de Vida com Jesus e com a Igreja, que se assume para sempre: os adultos, por si; os pais e os padrinhos pelas crianças.

Que Deus me perdoe, mas eu acho que a misericórdia divina não consegue cobrir tudo, e sobretudo estas nossas incoerências!

Nem sequer essa misericórdia toda que agora se proclama e oferece a rodos, mas que a maior parte dos cristãos não procura, não quer, não agradece, nem aceita.

Pe. J. Correia Duarte,

in Voz de Lamego, ano 86/22, n.º 4360, 26 de abril de 2016