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Utente recuperada no Lar de Idosos da Misericórdia de Lamego 


A Santa Casa da Misericórdia de Lamego registou esta quinta-feira, dia 30, o primeiro caso de recuperação de COVID-19 num utente do Lar de Idosos de Arneirós. Após ter testado positivo ao novo coronavírus, a mulher, de 88 anos, permaneceu em isolamento numa ala desta estrutura residencial reservada às pessoas infetadas, período durante o qual a sua situação clínica manteve-se estável.
“É uma notícia que nos deixa muito animados, enquanto aguardamos que nos próximos dias os restantes casos efetuem novos testes de despistagem. Quero mais uma vez reafirmar que a Misericórdia de Lamego está a envidar todos os esforços para salvaguardar a saúde dos nossos idosos e dos nossos colaboradores”, afirma o Provedor António Marques Luís.
Na fase inicial do processo de contaminação do Lar de Idosos de Arneirós, treze utentes e dois profissionais testaram positivo à COVID-19.

RICARDO PEREIRA

Assessor de Imprensa, Santa Casa da Misericórdia de Lamego

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Editorial da Voz de Lamego: lado a lado… na indiferença

Há mais vida além da pandemia do covid-19! Não há de ser o novo coronavírus a acabar com a humanidade; o que, em definitivo, acabará connosco será a indiferença, o egoísmo, a sobranceria, que se materializa na inveja, no desejo imoderado da posse, nos tiques ditatoriais de quem se sente e se situa acima dos demais!

Nada será como antes! Estamos todos de acordo. Mas será que os tempos que se avizinham serão melhores? As pessoas, finalmente, concluirão que estão no mesmo barco e que precisam e dependem umas das outras?

Têm surgido interpelações, iniciativas, reflexões, apelos à generosidade solidária e, antecipando o futuro, apontando prioridades, caminhos, possibilidades e urgências. Há, em alguns, um otimismo louvável, expresso e vivido como estímulo, como desejo, um caminho a seguir, como provocação para que os tempos de esforço, de sacrifício, de confinamento social, de tantos gestos de abnegação, na procura de soluções, na ajuda aos mais vulneráveis, na luta para confinar o vírus e proteger a vida das pessoas, cuidando para que ninguém seja esquecido, para que ninguém fique para trás, que se preste ajuda a quem precisa, presencial ou digitalmente, não sejam apenas um momento, mas como postura permanente na pós-pandemia.

Tantos são aqueles e aquelas que verdadeiramente deram e estão a dar a vida para salvar, para curar, para sarar os outros. Tantos, em tantas áreas, que não se furtam aos maiores esforços. Além dos que estão na linha da frente, na saúde, na segurança e na ordem, na alimentação, muitos outros estão disponíveis para ajudar, indo, ou, a partir de casa, aderindo a campanhas e iniciativas e deixam palavras de ânimo de incentivo, em diretos, diálogos e conversas, em concertos musicais, em declamação de poemas, em momentos de oração. E se o pão é necessário para sobreviver, a palavra e o ânimo serão fundamentais para viver. Pois só procuraremos o pão e o partilharemos se a nossa vida fizer sentido, se houver esperança, se soubermos que não estamos sós.

Como cristãos, cabe-nos, como antes, também agora, também depois, em todo o tempo, fazermos o melhor, o que está ao nosso alcance, mesmo que seja ficar em casa…

Nada será como dantes! Positiva e negativamente. Cada tempo é único. Há propósitos curiosos, parece que tudo vai ser diferente, e será, inevitavelmente, diferente, pois os tempos não se repetem! Um tempo novo, teremos que olhar mais para os outros, para as suas necessidades e sofrimentos, temos de fazer melhor, ser mais solidários, pensarmos nos mais frágeis, nos mais desfavorecidos… Mas quando passar a tormenta… há quem se tenha “habituado” ao bem e haverá quem volte ao que era antes.

Decisões tomadas em momentos críticos, dramáticos, sobre pressão, são decisões voláteis, que terminarão como começaram, com a mesma rapidez. Claro que nem tudo é branco ou preto, mas as opções fundamentais nascem da “conversão”, que as circunstâncias atuais podem facilitar, brotam de convicções, não se baseiam na pressão momentânea, mas na vontade firme de seguir um caminho, uma direção, contando com as circunstâncias de cada tempo. Em todo o caso, como se diz das grandes “concentrações de fé”, para alguns, podem haver o clique que faltava… afinal, já numa perspetiva mais religiosa, o Espírito de Deus sopra onde quer… 

Como cristãos, cabe-nos, como antes, também agora, também depois, em todo o tempo, fazermos o melhor, o que está ao nosso alcance, mesmo que seja ficar em casa… haverá tempo para seguir o desafio do Papa e nos levantarmos do sofá!

Pe. Manuel Gonçalves,

in Voz de Lamego, ano 90/22, n.º 4557, 28 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Cruzámo-nos a subir e a descer

As pessoas que encontro ao subir serão as mesmas que encontrarei ao descer. É uma expressão luminosa do Papa Francisco sobre os valores que aprendeu em casa com os pais: a humildade, respeito pelos outros, bondade para com todos.

Quando foi eleito Bispo, e depois Cardeal, procurou manter a mesma proximidade com todos, misturando-se entre o povo que lhe foi sendo confiado e, na grande metrópole de Buenos Aires, tratou de ter o cheiro das ovelhas, expressão que usa frequentemente. Proximidade com os sacerdotes e proximidade com os fiéis leigos. Na residência episcopal, recebia pessoalmente as visitas e oferecia-lhes um chá, bolos e, se necessário, cozinhava para “os convidados”. Ainda hoje, quando recebe alguém na Casa de Santa Marta faz do mesmo modo. Curioso quando, pela primeira vez, o vimos, como Papa a subir as escadas do avião, com a sua mala na mão, ou outros gestos similares, como ir pagar a conta do hotel onde esteve hospedado durante o conclave ou telefonar, sem intermediários, para várias pessoas.

A imagem é muito sugestiva. Imaginamos a vida como uma escada. Vamos subindo degraus. Passamos por algumas pessoas, enquanto estamos a subir, outras ficam para trás ou estão a descer. Mas haverá um momento em que nós estamos a descer, na mó debaixo, e vemos as mesmas pessoas, a subir. É uma imagem pragmática. Se hoje estamos bem, devemos lembrar-nos dos que estão mal ou menos bem, pois um dia podemos nós estar mal e eles bem e como gostaríamos que nos tratassem, quando estamos a descer ou estamos em baixo, assim os tratemos quando estamos nós em cima e eles em baixo. De algum modo corresponde à regra de outro: o que queres que te façam a ti, fá-lo tu aos outros. Como não lembrar a parábola de Jesus sobre o pobre Lázaro e o rico avarento. A vida eterna inicia-se no tempo presente, o que fizermos agora tem repercussão amanhã.

Se antes isto era verdade, agora faz ainda mais sentido. Estamos todos no mesmo barco, com um sublinhado importante, há alguns que continuem a ter mais ferramentas e melhores condições socioeconómicas para viver este tempo de “paragem” e os tempos que lhe seguirão. Os mais vulneráveis, em todas as situações, são os primeiros a sucumbir e sofrer a fustigação da tempestade. Porém, como temos visto, há momentos que não adianta ter uma fortuna, pois o vírus e a morte chegam de mansinho sem olharem para a marca de roupa ou do carro estacionado na garagem.

Por outro lado, havia muitas pessoas que estavam bem na vida, a viver sem grandes sobressaltos, mas esta pandemia revirou as suas vidas, sem contar o que estará para vir. A propalada expressão “vai ficar tudo bem” tem muito que se lhe diga. Tem o mérito de invocar a esperança, mas não mais do que isso, pois para alguns estão aí dias de grande caristia, de maior sofrimento e de incerteza. Pensemos, como se viu na crise económica, num casal com dois ou três filhos, com a casa para pagar e a universidade, com dois ordenados acima da média, de repente um deles ou os dois ficam desempregados!

Não deixemos ninguém para trás. Façamos o que está ao nosso alcance. Somos responsáveis uns pelos outros.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/21, n.º 4556, 21 de abril de 2020

Editorial da Voz de Lamego: Descobrir e viver a Páscoa

A vida não se repete. Nem os acontecimentos. Nem as celebrações. Não há duas pessoas iguais. Não há dois momentos iguais. Por vezes ouvimos dizer: “bom, isto já aconteceu, não é nada que já não tivéssemos visto”, numa espécie de eterno retorno, como se situações do passado se pudessem voltar a repetir, quase milagrosamente. Em relação a esta pandemia, vamos ouvindo que não é novidade, já houve outras e até mais perigosas. É preciso ler a história e procurar compreender e relativizar as adversidades e tempestades do tempo atual! Sim, mas essa é apenas uma visão parcelar, que, obviamente, nos deve levar a retirar ensinamentos, a relativizar, ou a não absolutizar, a não dramatizar a situação atual como se fosse algo nunca visto que nos faça vislumbrar o fim do mundo. Em todo o caso, é uma situação nova, concreta, pela rapidez do contágio, e pelo facto de ter surpreendido as autoridades e as populações, quase como um tsunami ou um terramoto, além de todas as consequências que está a provocar na vida social, familiar, económica e eclesial.

Também não há duas Páscoas iguais e a deste ano é, seria, inevitavelmente diferente por todo o contexto que nos envolve e nos vai mantendo mais ou menos afastados com sucessivos apelos aos outros para que fiquem em casa, mesmo que, da nossa parte, arranjemos algumas formas de arejar, mais não seja em passeios, caminhadas ou corridas ditas higiénicas.

Páscoa, na verdade, há só uma, a morte e a ressurreição de Jesus, acontecida há dois mil anos, em Jerusalém. No decorrer da Última Ceia, Jesus antecipa e explica o mistério pascal e, preparando o futuro, faz-nos saber que oferece a vida por todos, o Seu corpo e o Seu sangue, para nos remir e reunir, para nos salvar e congregar, como família, na certeza de que sempre  que em Sua memória nos reunirmos e dissermos/fizermos o que Ele fez, nos tornaremos verdadeiramente participantes da Sua morte, oferenda por nós ao Pai, e da Sua ressurreição, certeza de que a Sua vida não foi em vão e não culminou no vazio!

Não repetimos a Páscoa de Jesus, mas tornámo-la atual, presente. Cristo, na Eucaristia, e demais sacramentos, torna-Se nosso contemporâneo. Ele deu-nos o Espírito Santo, agora o Espírito Santo dá-nos Jesus, torna-O presente, não como uma recordação histórica, longínqua, mas com uma Presença atual, com o mesmo mandato de então: Fazei isto em memória de Mim… como Eu fiz, fazei-o uns aos outros. A Missa leva-nos à missão. A oração conduz-nos ao serviço. O louvor a Deus agrafa-nos no cuidado aos irmãos. Celebrar Páscoa, hoje, é deixar-nos envolver pelo mistério de Deus, pela ação do Espírito Santo na Igreja e no mundo, cooperando para que Cristo que vive em nós viva nos outros também.

Os sinais da Páscoa podem ser ténues, mas estão aí, em cada um que faz o bem, que cumpre a missão de animar, transmitir confiança, ajudar os mais vulneráveis.

Não deixemos também nós, eu e tu, de mostrar os sinais e transparecer a certeza de que Cristo vive, em mim e em ti, no que dizemos e no que fazemos, sejamos portadores da alegria e da esperança, da fé e da caridade, do serviço e da bondade. Se mais não pudermos fazer, um sorriso, uma palavra de ânimo, um telefonema, uma mensagem enviada, a partilha do que os outros fazem de bem.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/20, n.º 4555, 14 de abril de 2020

Editorial Voz de Lamego: Cruz, uma âncora, um leme, uma esperança

A última sexta-feira de março, dia 27, ficará, por certo, na nossa memória por muito tempo. Acompanhamos, à distância, o momento extraordinário de oração promovido pelo Papa Francisco. O céu uniu-se à iniciativa papal, sério, sublime e cinzento, nuvens densas e chuva copiosa, quais lágrimas em sintonia com tantas vítimas do coronavírus, mas também por aqueles que, esgotados, continuam a oferecer o seu trabalho e as suas vidas para salvar outras vidas.

Colados ao ecrã da televisão, do computador ou do telemóvel, pudemos subir, com o Papa Francisco, a colunata de São Pedro, inspirados pela sua fé, firme e confiante, em passos lentos e dolentes, com um semblante compenetrado, comovente e interpelante.

Uma praça vazia, onde todos os dias circulavam, até há pouco tempo, centenas de pessoas, transformando-se em milhares nas audiências gerais e nas celebrações públicas. O homem vestido de branco – como não lembrar aqui o segredo de Fátima – caminhava entre os escombros, os sofrimentos, as mortes, os desamparados, os desistentes; carregou-nos consigo, ao jeito de Jesus, o Bom Pastor, e aos nossos anseios e receios, incertezas e inseguranças.

Ao entardecer… (Mc 4, 35)! Assim começava o Evangelho e assim iniciava o Papa a sua meditação sobre a hora que passa. “Desde há semanas que parece entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderam-se das nossas vidas… revemo-nos temerosos e perdidos”, tal como os apóstolos, em alto mar, em meio de uma tempestade que ameaça destruí-los e, agora a nós, assolados por esta pandemia, qual tempestade, que pesa sobre a humanidade inteira! Jesus vai na popa, onde o barco afunda primeiro, a dormir, confiando no Pai. Procuremos, incentiva o Papa, compreender a pergunta dos discípulos: “Mestre, não Te importas que pereçamos?” (3, 38). Como se Jesus não se importasse com a sorte dos discípulos! Como se Deus estivesse alheado das tormentas dos homens, Ele que em Cristo Se faz peregrino connosco.

No meio da praça, deserta… lá ao fundo, somente os agentes de segurança pública… soa a interpelação inelutável do Papa: “Ninguém se salva sozinho… Sozinhos afundamos”. E prossegue: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar a estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos”.

Com efeito, “o Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e a ativar a solidariedade e a esperança… É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida”. Temos um leme, uma âncora, uma esperança, a Cruz que nos salva. E da Sua Cruz, “o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3) e deixemos que reacenda a esperança”.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 90/18, n.º 4553, 31 de março de 2020