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Posts Tagged ‘Obras de Misericórdia’

JUBILEU DA MISERICÓRDIA | VISITAR OS PRESOS

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A 6.ª Obra de Misericórdia (OM) convida os fiéis a visitarem os presos, tal como ensinou Jesus (Mt 25, 36). Uma visita que não serve para julgar ou condenar, nem para fazer de conta que nada aconteceu, mas que servirá, certamente, para recordar que há mais vida à espera de ser vivida, que há um Deus que ama e está disposto a perdoar, que o mal deve ser condenado e o pecador perdoado…

Falar de “prisão” é, não apenas dar nome ao edifício que alberga detidos que esperam ser julgados ou condenados que cumprem penas, mas referir a privação de liberdade de movimentos e de outras comodidades. Nesse sentido, prisão é sinónimo de espaço fechado e de tempo para espiar culpas. Por isso, a prisão é sempre uma realidade dolorosa, quer para os que ali passam meses ou anos da sua vida quer para familiares e amigos.

O facto da prisão ser local onde se cumprem castigos faz com que seja visto como espaço para pessoas “más”, diminuindo a vontade de ir, de conhecer, de escutar… Mas, embora o castigo seja o mais evidente, a verdade é que a missão da prisão é mais que a privação de movimentos, prolongando-se na promoção da recuperação e reinserção dos seus reclusos. E há muitos que naquele espaço encontram objectivos para a vida, obtêm formação e são capazes de recomeçar quando dali partem.

Neste contexto, em que a justiça humana procura reparar um mal feito, julgando e condenando aquele que errou, parece difícil conciliar a realidade da prisão com a misericórdia. Como visitar, ser próximo e cordial com quem prejudicou conscientemente, ceifou vidas inocentes ou maltratou semelhantes?

Apesar do convite evangélico, estamos limitados pela nossa ideia de justiça (vingativa) e longe da justiça divina (salvífica). Porque de Deus o perdão não chega depois de cumprida a pena; o perdão é imediato e efectivo. Tal como no-lo revela Jesus (Jo 8, 1-11), o perdão não é uma conclusão, mas fonte e sinónimo de um novo começo.

Concretizar esta OM não é sinónimo de esquecimento das vítimas ou esforço para encontrar atenuantes que desculpem. Isso seria uma falsa misericórdia.

A misericórdia na prisão não visa apagar o mal feito, mas reconhecer a importância da vida e a dignidade de cada um, mesmo daqueles que protagonizaram comportamentos condenáveis. Nesse sentido, visitar os presos e ser arauto da vida e de um Deus que concede novas oportunidades, é protagonizar uma misericórdia que liberta mais do que qualquer pena.

A pastoral nas prisões é uma realidade, concretizada por ministros ordenados, consagrados e tantos fiéis leigos que se voluntariam para o efeito. Pela palavra oportuna, pela escuta atenta e pelo tratamento fraterno vão semeando esperança e contribuindo para a mudança, apesar de ser um serviço discreto e limitado por regras de segurança.

Por último, esta OM passará, também, pelo proporcionar de condições de acolhimento e de apoio aos reclusos que terminam o cumprimento das suas penas. Nesse sentido, o ideal seria que, uma vez saído da prisão, cada ex-recluso encontrasse o seu caminho e o seu ritmo.

JDin Voz de Lamego, ano 86/21, n.º 4358, 12 de abril de 2016

Comunhão Pascal no Estabelecimento Prisional de Lamego

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ANO SANTO DA MISERICÓRDIA

UMA PORTA SANTA

NO ESTABELECIMENTO PRISIONAL REGIONAL  DE LAMEGO

 

“Esta é a porta do Senhor: por ela entramos para alcançar a misericórdia do Senhor”

Foi com esta aclamação que o Senhor D. António Couto, Bispo de Lamego, abriu a Porta Santa  da Misericórdia no Estabelecimento Prisional Regional de Lamego, no dia 9 de Abril, na Festa da Comunhão Pascal dos seus reclusos.

A cerimónia iniciou-se num espaço exterior do Estabelecimento com os ritos iniciais propostos para o Jubileu Extraordinário. Depois de ter sido lido por uma recluso o início da Bula de promulgação do Jubileu, todos se incorporaram na Procissão solene em direção a uma porta, já no interior de edifício, devidamente ornamentada, que, a partir de agora, se tornará para todos os que ali residem e trabalham a Porta Santa, o ícone do coração misericordioso de Deus, revelado em Cristo. Era indizível a grande emoção e a alegria expressas, no momento em que cada um atravessava o limiar desta Porta, cantando o Salmo 89.

Na Homilia festiva da comunhão Pascal, o Senhor Bispo saudou todos os reclusos, a Senhora Diretora, os Senhores Guardas prisionais, O Capelão, os sacerdotes presentes, e o grupo de Jovens da Paróquia de Santa Maria Maior de Almacave que solenizou liturgicamente esta celebração. No decorrer da homilia, o Senhor D. António lembrou que, a partir de agora, entrar por aquela Porta significa descobrir e saborear a profundidade da misericórdia do nosso Deus que a todos acolhe e vai pessoalmente ao encontro de cada um no seu pecado. Que o cruzamento desta Porta Santa nos faça sentir participantes deste mistério de Amor profundo e visceral do nosso Deus. Apelou para que nos soltemos, sim, das verdadeiras prisões que enclaustram o homem dentro de si próprio, afastando-o de Deus e dos outros: as injustiças, os medos, a mentira, a indiferentismo, as rixas, as vinganças, os preconceitos… tudo o que gera morte e trevas à nossa volta. São essas as prisões que, sem grades visíveis, privam o homem da verdadeira liberdade que nos vem de Deus. Apropriando para aquele momento as palavras do Papa Francisco nas orientações dadas para a celebração do Jubileu, o Senhor Bispo pediu aos reclusos que experimentem também esse amor do Pai, revelado e concretizado em Cristo, todas as vezes que passarem pela porta da sua cela, dirigindo o pensamento e a oração ao Pai e, que neste gesto, sintam que a misericórdia de Deus muda os corações mesmo merecedores de punição e consegue transformar as grades da prisão em experiências de liberdade, ajudando-os a inserirem-se de novo na sociedade e a contribuir honestamente para que ela seja melhor.

Antes da Eucaristia, os reclusos tiveram a oportunidade de celebrar o Sacramento da Penitência junto dos sacerdotes presentes. Não podemos deixar de reconhecer e agradecer tanta dedicação e entrega da Irmã Fernanda Antunes SNS, ajudada pela D. Alcina Ferraz, a todos estes homens que refazem a sua vida neste Estabelecimento Prisional. Ao mesmo tempo, agradecer também à Senhora Diretora, Drª Maria José Ferreira, Chefe José Coelho e todos os Guardas Prisionais o acolhimento que dão à presença da Igreja e da Paróquia de Almacave, em particular, nesta casa que a partir de agora é também um local jubilar.

SA, in Voz de Lamego, ano 86/21, n.º 4358, 12 de abril de 2016

JUBILEU DA MISERICÓRDIA | Visitar os enfermos

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A 5.ª obra de misericórdia corporal convida a visitar os enfermos, não como gesto de cortesia ou mero acto social, mas como oportunidade para estar e fazer caminho com aquele que sofre. Se é verdade que a doença pode isolar e conduzir ao rol dos socialmente invisíveis, a visita suaviza e dignifica quem sofre. Quantas vezes um ouvido atento e um coração compreensivo são sinónimo de alívio e ocasião decisiva para a desejada empatia!

Mas pode ser, também, uma oportunidade de crescimento de quem vai ao encontro, na medida em que tal presença e gesto podem contribuir para o autoconhecimento, o hierarquizar das prioridades e o relativizar o acessório. Porque também o visitador transporta consigo as suas enfermidades e feridas, tal como lembra Henri J. M. Nouwen, no livro “O Curador Ferido”: no meio do nosso sofrimento podemos tornar-nos fonte de vida para os outros. Isto é, o processo pode humanizar.

O sofrimento, a doença ou a deficiência incomodam e deixam sem palavras. Não é fácil estar diante ou ao lado de quem já perdeu o futuro, seja pelo desespero da dor seja pela falta de perspectiva de cura. E quantas vezes está também presente a revolta de quem não compreende nem aceita!

Por outro lado, para o crente, pensar na doença como castigo é sofredor e afasta de um Deus que se revela como Pai e Amor. Lembremos o bíblico Job. Sofre com a perda da saúde, dos familiares e dos bens, mas sofre também ao ouvir os seus visitadores falarem de um Deus castigador. Job protagoniza o exemplo do inocente sofredor que se recusa a aceitar os seus males por causa de algum mal que nunca praticou e que os seus amigos tentar colocar como justificação para a sua situação. Diz-se que o teólogo Romano Guardini, no leito da morte, terá dito: “No dia do juízo responderei às perguntas que Deus me fizer. Mas também terei algumas perguntas para fazer: porquê o sofrimento dos inocentes?”. Nesse sentido, estar diante do doente é estar diante do mistério.

A visita ao doente precisa de serenidade, capaz de proporcionar uma gradual comunicação e contribuir para uma crescente confiança entre as partes. Por outro lado, a atenção do visitador deve olhar também para os que cuidam dos doentes.

Por essas terras fora ou à nossa volta, quanto amor testemunhado por pais, filhos, familiares, amigos ou profissionais que, durante anos, cuidam, protegem, alimentam e acompanham quem não tem forças ou está limitado por doenças incapacitantes!

Lembremos também as pessoas anónimas, os membros de grupos/movimentos paroquiais, os voluntários dos hospitais… tanta gente que, sem receitas e sem cursos de medicina, passa pelas casas dos doentes ou por entre as camas hospitalares para se inteirar do que se passa, em atitude de serviço (nem que seja para o evangélico “copo de água”) ou, simplesmente, permanecendo em compreensivo silêncio!

O termo “visita” pode fazer pensar que o acto termina com a distância do enfermo. Mas há uma ligação e uma continuidade que se estabelecem e que podem passar pela oração oferecida, pelo interesse em saber novas, pela vontade em regressar e pelo continuar a acompanhar outros que aparecem…

JD, in Voz de Lamego, ano 86/20, n.º 4357, 5 de abril de 2016

JUBILEU DA MISERICÓRDIA: dar de beber

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No nosso meio não existe deserto e a água corre livremente em muitos locais, contrastando com outras regiões do mundo onde a água é escassa e obriga a um esforço diário para ser encontrada, transportada e conservada. Estamos tão habituados a dela usufruir que nem sempre temos consciência do bem que é abrir uma torneira e ver correr a água que sacia, lava e refresca!

A água é um bem essencial que, na nossa região, está disponível. Exceptuam-se aqui, talvez, as pessoas sem água no domicílio ou aquelas que, sem essa comodidade, também já não têm forças físicas que lhes permitam ir à fonte. Neste caso, é preciso levar-lhes tudo, também a água.

Mas há regiões do mundo onde a água é um bem escasso que tende a ser motivo de conflito e de sofrimento. A escassa quantidade obriga a racionamento e a fraca qualidade pode causar doenças graves: morre-se por falta de água ou por falta de qualidade desta. Mas os conflitos pela sua posse podem ser, também, ocasião de morte.

Assim, vivendo nós num tempo e num espaço onde a água (ainda) é um bem acessível, como compreender e aplicar hoje a obra de misericórdia “dar de beber a quem tem sede”? O que será, hoje, “acalmar a sede” a alguém?

Para início de conversa, e porque se trata de um bem essencial que tende a escassear, talvez possamos acordar que cumprir esta obra de misericórdia passa, antes de mais, por não desperdiçar a água que a natureza nos faculta e cuidar bem dela e do meio ambiente que a preserva. Muito antes das campanhas ecologistas a comunicação social divulga já o Criador convidada o homem e a mulher a serem responsáveis diante da natureza que lhes oferecia: “O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar” (Gn 2, 15). Leia-se, a este propósito, o que o Papa Francisco escreveu na Encíclica “Louvado sejas. Sobre o cuidado da casa comum” (Laudato Si).

Depois, talvez possamos falar da sede de ser valorizado, de ser ouvido, de ser reconhecido na sua dignidade, de ser respeitado, de ser tido em conta… Como alguém oportunamente recordou, “há pessoas que vivem a solidão com uma dor tão profunda e intensa que é como se lhes faltasse a água”. Há homens e mulheres ignorados, a quem ninguém escuta ou toma a sério. Quantas vezes bastará um olhar atento e fraterno, sem juízos precipitados, para acalmar a sede de quem se habituou a ser “invisível”!

Por outro lado, dar de beber pode ser compreendido, ainda, como um “dar alívio” a quem está angustiado. Neste caso, a sede pode ser sinónimo de aflição, secura interior, insatisfação que importa interpretar e saciar… Quantas vezes uma palavra, um gesto, um pouco de paciência, de “tempo perdido” não contribuem para o alívio alheio e para um recuperar da serenidade e do ânimo!

A cada um a possibilidade de interpretar e concretizar esta obra de misericórdia. Mas todos concluiremos que “dar de beber” é um modo de entender a própria existência e a água que se derrama para saciar o outro é um belo símbolo da misericórdia.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/17, n.º 4354, 15 de março de 2016

JUBILEU DA MISERICÓRDIA | DAR DE COMER

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A misericórdia não pode reduzir-se a um vago sentimentalismo ou a um discurso sem consequências; a misericórdia precisa ser traduzida em gestos, tal como nos recorda S. João: “Meus filhos, não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e em verdade” (1 Jo 3, 18). S. Tomás d’Aquino, na sua reflexão, concluiu que a acção mais agradável a Deus é o acto interior de amor a Deus (dilecção), mas a obra exterior que melhor expressa esse amor são as obras de misericórdia: “Quanto às obras exteriores, a súmula da religião está na misericórdia”.

Nesta perspectiva, assumem particular destaque as Obras de Misericórdia (OM). Tal como as conhecemos, acrescentadas ou reformuladas, ilustram bem as possibilidades de acção e todas podem ser vistas como expressão concreta do amor, uma forma de afastar a “indiferença”, de evitar a “anestesia” do espírito e de “acordar” a consciência, porque “não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados” (MV 15).

A primeira Obra de Misericórdia diz respeito a algo muito básico: “Dar de comer a quem tem fome”, o que nos coloca perante a pobreza, a miséria, o abandono. O seu cumprimento exige o fim da obsessão por possuir, por acumular, por procurar apenas o próprio benefício. Mas questiona também a forma como se possui ou usufrui: quantas vezes os desperdícios que se produzem não ilustram o modo superficial como se tratam as coisas? Trata-se de um dever de justiça, mais do que um gesto de bondade, tal como ensinava D. Hélder Câmara: “As pessoas não devem pedir, de chapéu na mão, aquilo a que têm direito de chapéu na cabeça”. A caridade não substitui a justiça.

A verdadeira misericórdia parte de uma grande valorização do outro como sujeito. Dar de comer ao outro como se fosse inferior, um objecto, um recipiente, não chega. Por isso, só dá algo a alguém quem é capaz de sair de si mesmo, deixando de ser autoreferencial, assumindo-se “em saída”. Não será fácil passar do consumismo à generosidade, a um espírito sereno que permita desfrutar das coisas simples da vida.

Uma das formas possíveis para cumprir esta e outras OM será sempre a acção de promover o outro. Uma coisa é dar algo para resolver uma necessidade imediata; outra coisa é ajudar a pessoa a conseguir algo com o seu esforço e criatividade. Num mundo competitivo facilmente se pode imitar Caim, mas perante a invisibilidade a que os mais fracos estão sujeitos, sempre ouviremos perguntar pelo nosso irmão (Gn 4, 9). Santa Faustina rezava: “Ajuda-me, Senhor, a que os meus ouvidos sejam misericordiosos para que tome em conta as necessidades do meu próximo e não seja indiferente aos seus sofrimentos e às suas queixas”.

À nossa volta, discreta ou abertamente, há gestos contínuos de generosidade. Mas nem sempre se evita algum pensamento ou juízo: a preguiça não pode ser premiada, os vícios devem ser combatidos e não alimentados, o desgoverno não pode ser ignorado, etc.

A concretização deste “dar de comer” pode assumir formas diversas: ajudar a bater à porta das instituições, salvaguardar direitos e garantias a quem não tem vez e voz, ajudar a gerir o que se recebe, patrocinar tratamentos necessários, dialogar para melhor conhecer, pagar o salário devido, respeitar a dignidade…

JD, in Voz de Lamego, ano 86/16, n.º 4353, 8 de março de 2016

Mensagem do Santo Padre Francisco para a Quaresma 2016

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MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2016

«“Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (Mt 9, 13).
As obras de misericórdia no caminho jubilar»

1. Maria, ícone duma Igreja que evangeliza porque evangelizada

Na Bula de proclamação do Jubileu, fiz o convite para que «a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus» (Misericordiӕ Vultus, 17). Com o apelo à escuta da Palavra de Deus e à iniciativa «24 horas para o Senhor», quis sublinhar a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética. Com efeito, a misericórdia de Deus é um anúncio ao mundo; mas cada cristão é chamado a fazer pessoalmente experiência de tal anúncio. Por isso, no tempo da Quaresma, enviarei os Missionários da Misericórdia a fim de serem, para todos, um sinal concreto da proximidade e do perdão de Deus.

Maria, por ter acolhido a Boa Notícia que Lhe fora dada pelo arcanjo Gabriel, canta profeticamente, no Magnificat, a misericórdia com que Deus A predestinou. Deste modo a Virgem de Nazaré, prometida esposa de José, torna-se o ícone perfeito da Igreja que evangeliza porque foi e continua a ser evangelizada por obra do Espírito Santo, que fecundou o seu ventre virginal. Com efeito, na tradição profética, a misericórdia aparece estreitamente ligada – mesmo etimologicamente – com as vísceras maternas (rahamim) e com uma bondade generosa, fiel e compassiva (hesed) que se vive no âmbito das relações conjugais e parentais.

2. A aliança de Deus com os homens: uma história de misericórdia

O mistério da misericórdia divina desvenda-se no decurso da história da aliança entre Deus e o seu povo Israel. Na realidade, Deus mostra-Se sempre rico de misericórdia, pronto em qualquer circunstância a derramar sobre o seu povo uma ternura e uma compaixão viscerais, sobretudo nos momentos mais dramáticos quando a infidelidade quebra o vínculo do Pacto e se requer que a aliança seja ratificada de maneira mais estável na justiça e na verdade. Encontramo-nos aqui perante um verdadeiro e próprio drama de amor, no qual Deus desempenha o papel de pai e marido traído, enquanto Israel desempenha o de filho/filha e esposa infiéis. São precisamente as imagens familiares – como no caso de Oseias (cf. Os 1-2) – que melhor exprimem até que ponto Deus quer ligar-Se ao seu povo.

Este drama de amor alcança o seu ápice no Filho feito homem. N’Ele, Deus derrama a sua misericórdia sem limites até ao ponto de fazer d’Ele a Misericórdia encarnada (cf. Misericordiӕ Vultus, 8). Na realidade, Jesus de Nazaré enquanto homem é, para todos os efeitos, filho de Israel. E é-o ao ponto de encarnar aquela escuta perfeita de Deus que se exige a cada judeu pelo Shemà, fulcro ainda hoje da aliança de Deus com Israel: «Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6, 4-5). O Filho de Deus é o Esposo que tudo faz para ganhar o amor da sua Esposa, à qual O liga o seu amor incondicional que se torna visível nas núpcias eternas com ela.

Este é o coração pulsante do querigma apostólico, no qual ocupa um lugar central e fundamental a misericórdia divina. Nele sobressai «a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Evangelii gaudium, 36), aquele primeiro anúncio que «sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese» (Ibid., 164). Então a Misericórdia «exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar» (Misericordiӕ Vultus, 21), restabelecendo precisamente assim a relação com Ele. E, em Jesus crucificado, Deus chega ao ponto de querer alcançar o pecador no seu afastamento mais extremo, precisamente lá onde ele se perdeu e afastou d’Ele. E faz isto na esperança de assim poder finalmente comover o coração endurecido da sua Esposa.

3. As obras de misericórdia

A misericórdia de Deus transforma o coração do homem e faz-lhe experimentar um amor fiel, tornando-o assim, por sua vez, capaz de misericórdia. É um milagre sempre novo que a misericórdia divina possa irradiar-se na vida de cada um de nós, estimulando-nos ao amor do próximo e animando aquilo que a tradição da Igreja chama as obras de misericórdia corporal e espiritual. Estas recordam-nos que a nossa fé se traduz em actos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo no corpo e no espírito e sobre os quais havemos de ser julgados: alimentá-lo, visitá-lo, confortá-lo, educá-lo. Por isso, expressei o desejo de que «o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina» (Ibid., 15). Realmente, no pobre, a carne de Cristo «torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga… a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós» (Ibid., 15). É o mistério inaudito e escandaloso do prolongamento na história do sofrimento do Cordeiro Inocente, sarça ardente de amor gratuito na presença da qual podemos apenas, como Moisés, tirar as sandálias (cf. Ex 3, 5); e mais ainda, quando o pobre é o irmão ou a irmã em Cristo que sofre por causa da sua fé.

Diante deste amor forte como a morte (cf. Ct 8, 6), fica patente como o pobre mais miserável seja aquele que não aceita reconhecer-se como tal. Pensa que é rico, mas na realidade é o mais pobre dos pobres. E isto porque é escravo do pecado, que o leva a utilizar riqueza e poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais que um pobre mendigo. E quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa. Chega ao ponto de não querer ver sequer o pobre Lázaro que mendiga à porta da sua casa (cf. Lc 16, 20-21), sendo este figura de Cristo que, nos pobres, mendiga a nossa conversão. Lázaro é a possibilidade de conversão que Deus nos oferece e talvez não vejamos. E esta cegueira está acompanhada por um soberbo delírio de omnipotência, no qual ressoa sinistramente aquele demoníaco «sereis como Deus» (Gn 3, 5) que é a raiz de qualquer pecado. Tal delírio pode assumir também formas sociais e políticas, como mostraram os totalitarismos do século XX e mostram hoje as ideologias do pensamento único e da tecnociência que pretendem tornar Deus irrelevante e reduzir o homem a massa possível de instrumentalizar. E podem actualmente mostrá-lo também as estruturas de pecado ligadas a um modelo de falso desenvolvimento fundado na idolatria do dinheiro, que torna indiferentes ao destino dos pobres as pessoas e as sociedades mais ricas, que lhes fecham as portas recusando-se até mesmo a vê-los.

Portanto a Quaresma deste Ano Jubilar é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia. Se, por meio das obras corporais, tocamos a carne de Cristo nos irmãos e irmãs necessitados de ser nutridos, vestidos, alojados, visitados, as obras espirituais tocam mais directamente o nosso ser de pecadores: aconselhar, ensinar, perdoar, admoestar, rezar. Por isso, as obras corporais e as espirituais nunca devem ser separadas. Com efeito, é precisamente tocando, no miserável, a carne de Jesus crucificado que o pecador pode receber, em dom, a consciência de ser ele próprio um pobre mendigo. Por esta estrada, também os «soberbos», os «poderosos» e os «ricos», de que fala o Magnificat, têm a possibilidade de aperceber-se que são, imerecidamente, amados pelo Crucificado, morto e ressuscitado também por eles. Somente neste amor temos a resposta àquela sede de felicidade e amor infinitos que o homem se ilude de poder colmar mediante os ídolos do saber, do poder e do possuir. Mas permanece sempre o perigo de que os soberbos, os ricos e os poderosos – por causa de um fechamento cada vez mais hermético a Cristo, que, no pobre, continua a bater à porta do seu coração – acabem por se condenar precipitando-se eles mesmos naquele abismo eterno de solidão que é o inferno. Por isso, eis que ressoam de novo para eles, como para todos nós, as palavras veementes de Abraão: «Têm Moisés e o Profetas; que os oiçam!» (Lc 16, 29). Esta escuta activa preparar-nos-á da melhor maneira para festejar a vitória definitiva sobre o pecado e a morte conquistada pelo Esposo já ressuscitado, que deseja purificar a sua prometida Esposa, na expectativa da sua vinda.

Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão! Pedimo-lo pela intercessão materna da Virgem Maria, a primeira que, diante da grandeza da misericórdia divina que Lhe foi concedida gratuitamente, reconheceu a sua pequenez (cf. Lc 1, 48), confessando-Se a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38).

Vaticano, 4 de Outubro de 2015
Festa de S. Francisco de Assis

Francisco

Jubileu da Misericórdia | OBRAS DE MISERICÓRDIA

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A globalização da indiferença tem sido denunciada pelo Papa Francisco em diferentes momentos, como aconteceu, por exemplo, na sua recente mensagem para a 49.ª Jornada da Paz. A indiferença diante do mal, do sofrimento e da miséria dos mais frágeis contribui para o alastrar das injustiças observadas no mundo.

A este propósito, como texto bíblico de referência, podemos reler Mt 25, 31-46, onde o Senhor nos avisa que o critério do juízo final é o amor, o mandamento supremo. De forma clara, esta passagem bíblica, que costumamos escutar no final do ano litúrgico, mostra que a condenação de Jesus é motivada pela omissão do bem. O pecado não está apenas no mal que se pratica, mas também no bem que se deixa por fazer.

O jubileu da misericórdia em curso pode ser uma oportunidade para “acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina”.

Nesse sentido, recordar as obras de misericórdia apresentadas por Jesus pode ser importante para “podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos” (MV 15). Aqui as enunciamos, adoptando a formulação feita pelo Papa Francisco no n.º 15 da Bula “O rosto da misericórdia”.

Obras de misericórdia corporal:

– dar de comer aos famintos;

– dar de beber aos sedentos;

– vestir os nus;

– acolher os peregrinos;

– dar assistência aos enfermos;

– visitar os presos;

– enterrar os mortos.

Obras de misericórdia espiritual:

– aconselhar os indecisos;

– ensinar os ignorantes;

– admoestar os pecadores;

– consolar os aflitos;

– perdoar as ofensas;

– suportar com paciência as pessoas molestas;

– rezar a Deus pelos vivos e defuntos.

Como refere o Catecismo da Igreja Católica, “as obras de misericórdia são as acções caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais” (n.º 2447). Contudo, como bem alertou o último concílio, as obras de misericórdia não substituem a justiça e não se pode oferecer “como dom de caridade aquilo que é devido a título de justiça” (AA 8).

As catorze obras de misericórdia podem, segundo W. Kasper, corresponder a quatro tipos de pobreza:

– pobreza física ou económica (não ter que comer, beber, casa, roupa, emprego, capacidade física para trabalhar), incluída nas quatro primeiras obras de misericórdia corporais;

– pobreza cultural (analfabetismo, , escassez de formação, exclusão social e cultural), a que correspondem as três primeiras obras de misericórdia espirituais;

– pobreza social e de relações (solidão, isolamento, viuvez, dificuldade de comunicação, discriminação, marginalização, prisão, desterro), presente nas três últimas obras de misericórdia corporais e na quinta e sexta espirituais;

– pobreza espiritual ou de alma (desorientação, vazio interior, desconsolo, desespero, confusão moral e espiritual, abandono, marginalização espiritual, apatia, indiferença), que pode ser enfrentada com a quarta e a sétima obras de misericórdia espirituais.

JD, in Voz de Lamego, ano 86/09, n.º 4345, 12 de janeiro de 2016

JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA | Ano Santo

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No passado dia 11 de abril, na véspera da vivência do Domingo da Misericórdia (II Dom. Pascal), o Papa Francisco tornou pública a Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, “O rosto da misericórdia” (Misericordiae vultus). No sentido de divulgarmos este Ano Santo da Misericórdia, aqui ficam algumas breves e incompletas notas sobre a referida Bula, cuja leitura e meditação se recomendam.

Jubileu

O termo jubileu evoca o Ano Santo dos judeus, palavra que significa “toque de trompa”, porque tal ano era anunciado por este instrumento. Na Bíblia distinguem-se o “ano sabático” e o “ano jubilar”.

O ano sabático é o último ano de um período de sete anos. O agricultor semeará os seus campos e colherá os produtos dele durante seis anos, mas, no último ano, deixá-los-á em pousio e o que eles produzirem espontaneamente será abandonado aos indigentes e aos animais do campo. Neste mesmo ano, os escravos serão libertados.

O ano jubilar é o que termina as sete semanas dos sete anos (7×7=49). É anunciado ao som da trombeta, deixam-se então os campos incultos, libertam-se todos os escravos, perdoam-se todas as dívidas e devolvem-se ao proprietário ou aos seus herdeiros todos os bens fundiários comprados (Lev 25, 10. 23 e seguintes).

Na Igreja católica, o primeiro ano jubilar foi decretado por Bonifácio VIII para o ano de 1300. Estava previsto para todos os começos de século, em seguida passou para todos os cinquenta anos e, finalmente, todos os vinte e cinco anos. O início e o fim do jubileu são assinalados pela abertura da porta sagrada, em Roma.

A misericórdia divina

Jesus Cristo “é o rosto da misericórdia do Pai” (n.º 1) que “precisamos sempre de contemplar”, porque é “fonte de alegria, serenidade e paz” (n.º 2). A misericórdia de Deus “não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras” (n.º 6).

Por isso, falar de misericórdia é ter presente “o caminho que une Deus e o homem” que “nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (n.º 2), porque a “misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa” (n.º 3).

Lema do Ano:

“Misericordiosos como o Pai” (n.º 14)

Algumas datas

11/04/2015 – Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia

08/12/2015 – Início do Ano Santo da Misericórdia

15/12/2015 – Abertura da Porta Santa, na Basílica de S. João de Latrão, catedral da diocese de Roma. No mesmo domingo, abertura da Porta da Misericórdia em todas as igrejas catedrais do mundo, bem como noutras igrejas de referência ou santuários

Quaresma de 2016 – envio dos “missionários da misericórdia”, sacerdotes a quem o Papa concederá a  faculdade de perdoarem até os pecados reservados à Sé Apostólica.

04 e 05/03/2016 – Iniciativa “24 horas com o Senhor””, um tempo ininterrupto de adoração em todas as dioceses.

20/11/2016 – Encerramento do Ano Jubilar

Objetivos

“Há momentos em que somos chamados, de maneira mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos um sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes” (n.º 3).

 “Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo do regresso ao essencial… o perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde coragem para olhar o futuro com esperança” (n.º 10).

Por isso, “o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada” (n.º 12).

“Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos, em suma, onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia” (n.º 12).

Reconciliação

O Papa dedica algumas palavras ao sacramento da confissão, convidando todos os baptizados a aproximarem-se para “celebrar e experimentar a misericórdia de Deus” e insistindo junto dos confessores para que sejam “um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai” (n.º 17).

Durante a próxima Quaresma, o Papa anuncia também o envio de “missionários da misericórdia”, sacerdotes a quem dará “autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, dizendo aos bispos para convidarem e acolherem “estes missionários” (n.º 18).

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Obras de misericórdia

“Felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7) é a bem-aventurança destacada pelo Papa, na esperança de que suscite particular empenho por parte dos fiéis (n.º 9).

Convidando a “ir às periferias”, às “situações de precariedade e sofrimento”, evitando a “indiferença que anestesia” ou o “cinismo que destrói”, o texto papal recorda-nos as obras de misericórdia corporal (dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos e enterrar os mortos) e espiritual (aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas e rezar pelos vivos e defuntos), esperando que a sua leitura e meditação “acorde as consciências adormecidas” (n.º 15).

Desejo final

“Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e a perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar ‘Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre’ (Sl 25, 6)” (n.º 25).

JD, in Voz de Lamego, n.º 4314, ano 85/27, de 19 de maio de 2015