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Editorial Voz de Lamego: Neutralidade

Vivemos tempos conturbados. A guerra da Rússia contra a Ucrânia e contra a democracia é só mais um episódio lamentável da cultura da morte, disseminada em guerras, tráfico de pessoas, escravização, trabalho/exploração infantil, fome, prevalência de elites sobre povos inteiros, subjugando-os pela força, ameaça, julgamentos sumários, exílio, perseguição e morte.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada com o propósito de evitar as guerras entre nações, procurando também salvaguardar o direito à autodeterminação de cada povo, no respeito pelas leis, pelos Direitos Humanos fundamentais. Apesar dos propósitos, as guerras continuam a multiplicar-se e, no caso presente, a Rússia, com direito de veto, impede qualquer posicionamento mais firme da ONU, além da ameaça nuclear que pesa sobre a Europa.

Uma das palavras que se tem ouvido muito ultimamente é o da neutralidade. A Ucrânia tinha-se mantido neutra, face a ameaças russas de fazer o que acabou por fazer, invasão e agressão militar. A possível entrada na UE e na NATO foram sendo adiadas. Por sua vez, a Finlândia e a Suécia mantiveram-se, igualmente, neutros face a qualquer conflito internacional. Por um lado, nos conflitos poderiam ser mediadores de paz e reconciliação e, por outro lado, garantiriam que não seriam invadidos ou arrastados para algum conflito internacional. O Portugal de Salazar assumiu essa política de neutralidade, durante a segunda guerra mundial, o que lhe permitiu aprofundar o comércio com ambos os lados, ainda que não tivesse evitado a pobreza de muitos portugueses e a escassez de bens alimentares.

À Ucrânia de nada valeu a dita neutralidade. A Finlândia e a Suécia perceberam que a neutralidade mantida nos últimos 50 anos não era garantia para a paz e integridade territorial face ao que aconteceu com a Ucrânia, pelo que já fizeram o pedido de adesão à Nato, o que implicará investimento militar, mas também a certeza que, em caso de conflito com a Rússia e seus parceiros, terão a solidariedade e intervenção militar dos povos que constituem a Aliança (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Deixemos a dimensão mais política, para nos fixarmos no compromisso cristão perante a cultura da morte, a pobreza, a violência, sendo que, em nenhum momento, deixamos de ser “políticos”! Um cristão não pode colocar-se na perspetiva de Pilatos, não pode lavar as mãos face à mentira, às injustiças. O cristão tem de tomar partido. Não importa se é de direita ou esquerda ou do centro, se é progressista ou conservador, tem de ser, acima de tudo, cristão, imitando, em tudo, em todos as situações, Jesus Cristo, colocando-se, sempre, do lado dos mais desfavorecidos. Não é uma escolha entre outras. É a única escolha possível para um cristão. Não podemos lavar as mãos e tornarmo-nos indiferentes ao sofrimento.

Mas como dizia antes, mesmo quem objete a política, não deixa de ser político e será bom que os cristãos também se empenhem na vida política (e partidária), não com o ensejo de usufruir das melhores regalias, mas com o propósito firme de ajudar a melhorar a vida das pessoas e das comunidades.

O Papa Francisco fala da política como uma arte, como um alto serviço à humanidade, quer para atender às necessidades das pessoas, quer para construir pontes de diálogo e de paz. Com efeito, “somos chamados a viver o encontro político como um encontro fraterno, especialmente com aqueles que estão menos de acordo connosco”. Devemos tratar o outro “como um verdadeiro irmão, um filho amado de Deus” o que, por vezes, implica “uma mudança de olhar sobre o outro” e “um acolhimento incondicional e respeito à sua pessoa, sobretudo, para com os que não concordam connosco”. O santo Padre prossegue, dizendo que “se essa mudança de coração não ocorrer, a política corre o risco de se transformar num confronto muitas vezes violento para fazer triunfar as próprias ideias, em busca de interesses particulares e não do bem comum. Não se pode fazer política com a ideologia”.

O cristão não é neutro e nem todas as escolhas são razoáveis… Razoável, para o cristão, é viver ao jeito de Jesus.

Pe. Manuel Gonçalves, in Voz de Lamego, ano 92/29, n.º 4660, 1 de junho de 2022